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O paradoxo do arrependimento – C. S. Lewis


“Em que tipo de “buraco” caíra o homem? Ele procurara ser auto-suficiente e se comportara como se pertencesse a si mesmo. Em outras palavras o homem decaído não é simplesmente uma criatura imperfeita que precisa ser melhorada; é um rebelde que precisa depor as armas. Depor as armas, render-se, pedir perdão, dar-se conta de que tomou o caminho errado, estar disposto a começar uma vida nova do zero – só isso pode nos ‘tirar do buraco’. Esse processo de rendição, movimento de marcha a ré a toda velocidade, é o que o cristianismo chama de arrependimento. Mas, veja só, o arrependimento não é nada agradável. É bem mais difícil que simplesmente engolir um sapo. Significa desaprender toda a presunção e a obediência à vontade própria que nos foram incutidas por milhares de anos; significa matar uma parte de si mesmo e submeter-se a uma espécie de morte. Na verdade, só um homem bom pode arrepender-se. E isso nos leva a um paradoxo. Só uma pessoa má precisa do arrependimento, mas só uma pessoa boa consegue arrepender-se perfeitamente. Quanto pior você é, mais precisa do arrependimento e menos é capaz de arrepender-se. A única pessoa capaz de arrepender-se perfeitamente seria uma pessoa perfeita – e não precisaria fazê-lo em absoluto.”

C. S. Lewis. Cristianismo puro e simples. São Paulo: Martins Fontes, 2013. p.75-76.

O ateísmo é uma solução simplista - C. S. Lewis


Meu argumento contra Deus era o de que o universo parecia injusto e cruel. No entanto, de onde eu tirara essa idéia de justo e injusto? Um homem não diz que uma linha é torta se não souber o que é uma linha reta. Com o que eu comparava o universo quando o chamava de injusto? Se o espetáculo inteiro era ruim do começo ao fim, como é que eu, fazendo parte dele, podia ter uma reação assim tão violenta? Um homem sente o corpo molhado quando entra na água porque não é um animal aquático; um peixe não se sente assim. É claro que eu poderia ter desistido da minha idéia de justiça dizendo que ela não passava de uma idéia particular minha. Se procedesse assim, porém, meu argumento contra Deus também desmoronaria - pois depende da premissa de que o mundo é realmente injusto, e não de que simplesmente não agrada aos meus caprichos pessoais. Assim, no próprio ato de tentar provar que Deus não existe - ou, por outra, que a realidade como um todo não tem sentido -, vi-me forçado a admitir que uma parte da realidade - a saber, minha idéia de justiça - tem sentido, sim. Ou seja, o ateísmo é uma solução simplista. Se o universo inteiro não tivesse sentido, nunca perceberíamos que ele não tem sentido - do mesmo modo que, se não existisse luz no universo e as criaturas não tivessem olhos, nunca nos saberíamos imersos na escuridão. A própria palavra escuridão não teria significado.

C. S. Lewis. Cristianismo puro e simples. São Paulo: Martins Fontes, 2013. p.53-54.

Os desvios do Amor-Doação


C.S. Lewis

O Amor-Doação também tem seus desvios.

Penso na sra. Resmungo, que morreu há alguns meses. É realmente assombroso o quanto sua família se reanimou. A expressão tensa desapareceu do rosto do marido; ele voltou a ser capaz de sorrir. O menino mais novo, que eu sempre imaginara uma criaturinha nervosa e irritadiça, se revelou bastante humano. O mais velho, que mal parava em casa a não ser para dormir, agora passa quase todo o tempo lá e começou a reorganizar o jardim. A menina, de que sempre se dizia que era "frágil" (embora eu nunca tenha descoberto qual era exatamente o problema), está aprendendo a montar, o que antes estava fora de questão, dança a noite inteira e joga tênis incansavelmente. Até o cachorro, que nunca podia sair de casa, exceto na coleira, hoje é um membro notório do Clube do Poste da rua onde moram.

A sra. Resmungo dizia com muita frequência que vivia para a família. E não era mentira. Todo mundo no bairro sabia disso. "Ela vivia para a família", diziam; "Que grande esposa e mãe!" Lavava todas as roupas; é verdade que lavava mal e que a família tinha como pagar uma lavanderia e lhe pedia com frequência para não lavá-las. Mas ela lavava. Sempre havia almoço quente para quem estivesse em casa e jantar quente à noite (mesmo em pleno verão). Eles lhe imploravam que não fizesse isso. Protestavam, quase com lágrimas nos olhos (e sinceramente), que preferiam refeições frias. Não fazia diferença. Ela vivia para a família. Sempre ficava acordada para "receber" você se você ficasse fora até tarde, mesmo que até as duas ou três da manhã; você sempre ia encontrar aquele rosto enfraquecido, pálido e cansado esperando por você, como uma acusação silenciosa. O que significava, é claro, que você não podia sair com muita frequência sem sacrificar a privacidade. Ela estava sempre fazendo coisas também; ela se considerava (não vou julgar) uma excelente costureira amadora e ótima tricoteira. E é claro que, se você não fosse um monstro sem coração, você era obrigado a usar o que ela fazia. (O pastor me disse que, desde a morte dela, a contribuição da família para os bazares de arrecadação de fundos vem superando a de todos os outros membros da igreja somados.) E havia o cuidado com a saúde dos filhos. Ela suportava sozinha todo o peso da "fragilidade" da filha. O médico - velho amigo da família, e sem intervenção do sistema público de saúde - não tinha permissão de discutir a situação com a paciente. Depois de um brevíssimo exame, era levado pela mãe pra outra sala. A menina não precisava se preocupar nem cuidar da própria saúde. Precisava apenas de amor - carinho, alimentos especiais, tônicos horríveis e café da manhã na cama. Pois a sra. Resmungo, como sempre dizia, era capaz de "dar o próprio sangue" pela família. Era impossível, para eles, detê-la. Também não podiam - por serem pessoas decentes - ficar o tempo todo sentados observando-a. Precisavam ajudar. Na verdade precisavam ajudar sempre. Ou seja, faziam coisas para ela a fim de ajudá-la a fazer para eles coisas que não queriam. Quanto ao querido cachorro, era para ela "como um dos filhos", dizia. Na verdade ele era como um dos filhos na medida em que ela conseguia que fosse. Mas, como não tinha escrúpulos, saía-se razoavelmente melhor que eles, e, embora levado ao veterinário, alimentado e protegido à exaustão, às vezes conseguia ir até a lata de lixo ou até o cachorro do vizinho.

O pastor diz que a sra. Resmungo está repousando. Espero que sim. O certo é que a família dela está.

É fácil constatar quanto a sujeição a esse estado é, por assim dizer, congênita ao instinto materno. Este, como vimos, é um Amor-Doação, mas um Amor-Doação que precisa dar; portanto, precisa ser necessário. Mas a finalidade própria do ato de dar é deixar a pessoa que recebe num estado em que ela não precise mais de nossa doação. Nós alimentamos nossos filhos para que em breve eles sejam capazes de se alimentar sozinhos; ensinamo-los para que em breve não precisem de nossos ensinamentos. A missão desse Amor-Doação, portanto, é difícil. Ele precisa trabalhar para sua própria abdicação. Somos obrigados a nos tornar supérfluos. Nossa recompensa é o momento em que podemos dizer: "Eles não precisam mais de mim". Mas o instinto, quando simplesmente em sua própria natureza, não tem o poder de cumprir essa lei. O instinto deseja o bem de seu objeto, mas não é tão simples - somente o bem que ele próprio pode dar. Um amor muito superior - o amor que deseja o bem do objeto como tal, qualquer que seja a origem do bem - deve intervir e ajudar ou controlar o instinto antes que a abdicação seja possível. E é claro que muitas vezes isso acontece. Mas, quando não acontece, a necessidade voraz de ser necessário gratifica a si mesma mantendo seus objetos em estado de necessidade ou inventando para eles necessidades imaginárias. E o fará com crueldade ainda maior ao se conceber (com razão, num certo sentido) como Amor-Doação e, portanto, como "abnegado".

Não são apenas as mães que agem assim. Todas aquelas outras Afeições que, seja por drivação do instinto materno ou por semelhança entre as funções, precisam ser necessárias podem cair na mesma armadilha. A Afeição do patrono pelo pulilo é uma delas. No romance de Jane Austen, Emma quer que Harriet Smith tenha uma vida feliz - mas somente do tipo de vida feliz que Emma planejou para si mesma. Minha profissão - professor universitário - é perigosa nesse sentido. Se somos bons professores, devemos sempre trabalhar para o momento em que nossos alunos estejam preparados para tornar-se nossos críticos e rivais. Devemos nos alegrar quando chega esse momento, tanto quanto o mestre de esgrima quando o aluno consegue golpeá-lo e desarmá-lo. E muitos se alegram.

Mas nem todos. Tenho idade bastante para me lembrar do triste caso do dr. Quartz. Nenhuma universidade jamais teve um professor mais competente ou dedicado que ele. Entregava-se inteiramente aos alunos. Deixou uma impressão indelével sobre quase todos eles. Era cultuado como herói, merecidamente. Os alunos continuavam naturalmente, e com prazer, a visitá-lo depois de encerradas as relações acadêmicas, reunindo-se em sua casa à noite e travando célebres discussões. Mas o curioso é que isso nunca durava muito. Mais cedo ou mais tarde - podia ser depois de alguns meses, ou mesmo de algumas semanas - vinha a fatídica noite em que os alunos batiam à sua porta e alguém respondia que o doutor estava ocupado. E dali em diante ele estava sempre ocupado. Os alunos eram expulsos de sua convivência para sempre. Isso acontecia porque eles tinham se rebelado na última reunião. Tinham proclamado sua independência - tinham divergido do mestre e defendido suas próprias concepções, talvez com sucesso. Ao se ver diante da independência mesma que trabalhara para produzir, e que era seu dever produzir se pudesse, o dr. Quartz não a suportava. Wotan trabalhou arduamente para criar um Siegfried livre; ao ser apresentado ao Siegfried livre, enfureceu-se. O dr. Quartz foi um homem infeliz.

C.S. Lewis, Os quatro amores. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2009.p. 68-73.

Amar é ser vulnerável



"Cristo não ensinou e sofreu a fim de nos tornarmos, mesmo em nossos amores naturais, mais cuidadosos com nossa própria felicidade. Se o homem não faz cálculos com relação aos entes queridos terrenos a quem vê, irá provavelmente agir da mesma forma para com Deus a quem não vê. Iremos aproximar-nos mais de Deus aceitando os sofrimentos inerentes a todos os amores e oferecendo-os a Ele, em lugar de fazer tudo para evitá-los. É preciso despojar-nos de toda a nossa armadura defensiva. Se nossos corações tiverem de partir-se, e se Ele escolher este como sendo o meio de parti-los, assim seja."


"Amar é ser vulnerável. Ame qualquer coisa e seu coração irá certamente ser espremido e possivelmente partido. Se quiser ter a certeza de mantê-lo intacto, não deve dá-lo a ninguém, nem mesmo a um animal. Envolva-o cuidadosamente em passatempos e pequenos confortos, evite todos os envolvimentos, feche-o com segurança no esquife ou no caixão do seu egoísmo. Mas nesse esquife - seguro, sombrio, imóvel, sufocante - ele irá mudar. Não será quebrado, mas vai tornar-se inquebrável, impenetrável, irredimível.

A alternativa para a tragédia, ou pelo menos para o risco da tragédia é a danação. O único lugar fora do céu onde você pode manter-se perfeitamente seguro contra todos os perigos e perturbações do amor é o inferno."

C.S. Lewis, Os Quatro Amores

"É a nós mesmos que Ele quer"



Deus não exige muito do nosso tempo, nem da nossa atenção. Ele não exige nem todo o nosso tempo nem toda a nossa atenção; é a nós mesmos que ele quer. Valem para todos nós as palavras de João Batista: "Importa que ele cresça e que eu diminua". Deus será infinitamente misercordioso em relação às nossas falhas repetitivas; mas não conheço nenhuma promessa em que ele aceite uma negociação deliberada. Em última instância Ele não tem nada a nos oferecer a não ser a si mesmo; e Deus só pode nos dar isso, na medida em que a nossa vontade auto-suficiente se retrai, abrindo espaço para ele em nossa alma. Não tenhamos dúvidas em relação a isso. Não restará nada "de nós mesmos" para vivermos nenhuma vidinha normal. Não quero dizer que todos nós vamos necessariamente ser chamados para sermos mártires ou ascetas. Se acontecer, que aconteça. Para alguns (não sabemos quem) a vida cristã incluirá muito lazer e muitas ocupações naturalmente prazerosas. E isso será recebido diretamente das mãos de Deus. Para um cristão perfeito isto seria tão próprio de sua religião, do seu "serviço", como suas tarefas mais difíceis, e seus banquetes seriam tão cristãos quanto os seus jejuns. O que não podemos admitir de forma alguma - e deve ser admitido somente como um inimigo não derrotado, mas ao qual se resiste diariamente - é a idéia de que tenhamos algo "só nosso" a conservar; alguma área de nossa vida que esteja fora do jogo e sobre a qual Deus não tenha nada a reivindicar.

Deus exige tudo de nós, porque ele é amor e é próprio dele nos abençoar. MAs ele não pode nos abençoar enquanto não nos possuir por completo. Sempre que tentarmos reservar uma área de nossa vida como propriedade nossa, estaremos reservando uma área onde impera a morte. Por isso é que ele exige, com todo o amor, que nos entreguemos por inteiro. Sem chance de barganha.

C.S Lewis, Peso de Glória

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