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Exemplo da importância dos exorcismos no sacramento do batismo que foram excluídos do novo rito


Numa escola da Fraternidade São Pio X, as professoras constataram, ao longo do ano letivo, uma clara melhora no comportamento de três de seus alunos. O mais velho, da sétima série*, era muito desagradável, insolente, grosseiro. Éramos obrigados frequentemente a repreendê-lo em aula, mas sobretudo, no recreio e no refeitório. Ajudava na Missa da escola, mas sem mostrar muita piedade. Seu olhar às vezes fixo e malvado, impressionava-nos e alguns ousavam se perguntar se essa criança não estaria possuída.

O segundo, da décima série, embora menos insolente e grosseiro, fazia-se notar por um comportamento às vezes estranho.

A mais jovem, de seis anos, mesmo parecendo estimar sua professora, fazia tudo para chateá-la: silêncio desobediente, sujeira nos seus cadernos ou nela; ira surpreendente diante das punições (como torcer seus óculos)... Com frequência, a professora, vendo tais cadernos, perguntava-lhe: "Você é aplicada?", e sempre a mesma resposta da criança, olhando insolentemente nos olhos da professora: "Não!" Não sabíamos como lidar com ela.

Durante o terceiro trimestre, constatamos uma rápida mudança nessas crianças. Os meninos ajudavam a Missa com mais piedade, não eram mais insolentes. O mais velho havia perdido seu olhar que nos impressionava. Não o repreendíamos mais no refeitório, onde se tornou um modelo de silêncio e onde estava sempre pronto a nos prestar auxílio. A menina havia se tornado afetuosa com sua professora, deixando até suas brincadeiras, para se aproximar dela, e mesmo lhe obter um afago. A caligrafia melhorou, assim como o estado dos cadernos. Aplicava-se enfim. Havia se tornado mais gentil com seus colegas.

Mesmo sem terem virado crianças-modelo nem primeiros de turma, tinham mudado. O que teria acontecido? Nosso diretor nos deu a chave do problema: essas crianças haviam sido batizadas no novo rito, sem os exorcismos. Com a permissão dos pais, o padre havia feito, perto da Páscoa, um complemento do Batismo; isto é, havia feito os exorcismos neles! Banido o demônio, a Graça atuava melhor nessas crianças.

Quantas crianças, hoje, teriam necessidade desse complemento, para que a Graça as ajudasse a lutar melhor contra suas más inclinações!

Uma professora

*No sistema educacional francês, as primeiras séries têm maior número que as que se lhes seguem. Não há correspondência exata com o sistema brasileiro. (N. do T.)

Pe. Matthias Gaudron, Catecismo da crise na Igreja. Rio de Janeiro: Permanência, 2011. p.217.

Carismatismo - confusão entre Natureza e Graça


"Querer sentir a ação da Graça (de si não sensível) é expor-se a confundir Fé e sentimento religioso (assim como os modernistas); mas também inspiração divina e imaginação; Esperança teologal e otimismo; vida da Graça e bem-estar psicológico. A psicologia ocupa, ademais, um lugar muito importante nas comunidades carismáticas."

Pe. Matthias Gaudron 

Pe Gabriele Amorth sobre o espiritismo - É possível invocar os mortos? Uma única exceção.


O espiritismo está presente em todas as culturas e povos. O médium tem o papel de intermediário, entre os espíritos e o homem, emprestando a sua energia (voz, gestos, escrita...) ao espírito que se deseja manifestar. Pode acontecer que os espíritos invocados, que são sempre e só demônios, tomem posse sobre algum dos presentes. A Igreja sempre condenou as sessões de espiritismo e a participação nelas. Não é consultando Satanás que se aprenderá alguma coisa de útil.

Mas será verdadeiramente impossível evocar os mortos? São sempre e unicamente os demônios que se manifestam durante as sessões dos médiuns? Sabemos bem que a existência desta dúvida junto dos crentes resulta de uma única exceção. A Bíblia menciona um só e único caso, quando Saul se dirige a uma pitonisa e lhe impõe: "Prediz-me o futuro, invocando um morto, e faz-me chegar àquele que eu te disser" (1Sm 28,8). Neste caso, Samuel, que tinha morrido havia pouco tempo, apareceu efetivamente. Deus permitiu esta exceção, mas lembremos o grito horroroso que a pitonisa deu ao ver Samuel e, sobretudo, a grave reprovação que este fez: "Por que é que me perturbaste invocando-me?" (1Sm 28,15). 

É preciso respeitar os mortos e não os importunar. Sendo o único relato na Bíblia, notemos o seu caráter excepcional. Eu concordo com a opinião de um psiquiatra e exorcista protestante a este respeito: "É puro egoísmo e crueldade querermos ficar agarrados aos nossos defuntos ou querer chamá-los para junto de nós. Eles têm necessidade é da libertação eterna e não de ser envolvidos nas coisas e nas pessoas deste mundo..." (Kenneth McAll, Fino alle Radici, Ancora, p.141).

Pe. Gabriele Amorth, Um exorcista conta-nos. 8ª Ed. Prior Velho: Paulinas, 2012. p. 153-154.

Possessão demoníaca e Psiquiatria - Faria a Igreja confusão?


Pe. Gabriele Amorth

Fazem-me rir certos pretensiosos teólogos modernos, que afirmam como sendo uma grande novidade o facto de certas doenças se poderem confundir com a possessão diabólica. Certos psiquiatras ou parapsicólogos estão nas mesmas circunstâncias: pensam ter "descoberto a América" ao proferir tais afirmações. Se fossem um pouco mais instruídos, saberiam que as autoridades eclesiásticas foram as primeiras a pôr os teólogos de sobreaviso contra esse possível erro. Nos decretos do Sínodo de Reims de 1583, a Igreja já tinha chamado a atenção para este possível equívoco, afirmando que certas manifestações, consideradas como sinais de possessão diabólica, poderiam, com efeito, ser apenas sintomas de doenças mentais. Nessa época, porém, a psiquiatria ainda não tinha nascido e os teólogos acreditavam no Evangelho.

(...) Tenho muito apreço por esses psiquiatras que têm competência profissional e o sentido dos limites da sua ciência, e que sabem, honestamente, reconhecer quando um de seus pacientes apresenta sintomas que não se enquadram nas doenças reconhecidas cientificamente. O professor Simone Morabito, psiquiatra em Bergamo, afirmou ter provas de que um grande número de doentes, apelidados de doentes psíquicos, eram na realidade possessos de Satanás, e conseguiu curá-los com a ajuda de alguns exorcistas.

(...) Sem dúvida que é muito difícil distinguir um endemoninhado de um doente psíquico. Contudo, um exorcista experimentado está mais apto a distinguir esta diferença do que um psiquiatra, porque o exorcista tem presente as várias possibilidades e sabe reunir elementos que lhe permitem fazer essa distinção. Na maior parte das vezes, o psiquiatra não acredita na possessão diabólica, por isso, não tem sequer em conta essa eventualidade. Há bastantes anos, o padre Cândido exorcizava um jovem que, segundo o psiquiatra que o tinha seguido, sofria de epilepsia. Este médico aceitou vir assistir a um exorcismo. Logo que o padre Cândido pousou a mão sobre a cabeça do jovem, este caiu por terra, como acontece nas convulsões. "Vê padre, trata-se com toda a evidência de um caso de epilepsia", apressou-se o médico a dizer. O padre Cândido inclinou-se e voltou a pôr a mão sobre a cabeça do jovem. Este levantou-se bruscamente e ficou de pé, imóvel. "Será que os epiléticos fazem isto?", perguntou o padre Cândido. "Não, nunca", respondeu o psiquiatra, evidentemente perplexo perante aquele comportamento.

(...) Aprecio imenso os sábios que, mesmo sem serem crentes, reconhecem os limites da sua ciência. O professor Emílio Servadio, psiquiatra, psicanalista e parapsicólogo de renome internacional, fez declarações interessantes à Rádio Vaticano, em 2 de fevereiro de 1975:

A ciência deve parar perante aquilo que os seus instrumentos não podem verificar nem explicar. Não podemos definir exatamente estes limites, porque não se trata de fenômenos físicos. Mas ceio que todo o cientista digno desse nome sabe que os instrumentos não vão para além de um certo ponto.

No que se refere à possessão demoníaca, só posso falar em nome próprio e não em nome da ciência. Parece-me que, em certos casos, o caráter maligno e destruidor dos fenômenos atinge um nível tão específico, que é verdadeiramente impossível confundir este tipo de fenômenos com aqueles que o especialista (parapsicólogo ou psiquiatra) registra nos casos de tipo Potergeist ou outros. Para dar um exemplo, isso seria comparar um garoto traquina com um criminoso sádico. Há uma diferença que não se pode medir com fita métrica, mas que se pode facilmente perceber. Creio que um homem de ciência deve admitir a presença de forças que escapam ao controlo da ciência e que a ciência, como tal, não é capaz de definir.

Pe. Gabriele Amorth, Um exorcista conta-nos. 8ª Ed. Prior Velho: Paulinas, 2012. p. 53-54; 66; 67-68)

A centralidade de Cristo e a vitória sobre os demônios


Pe. Gabriele Amorth

Também o demônio é uma criatura de Deus; não se pode falar dele e dos exorcistas sem fazer referência, pelo menos de forma sistemática, a alguns conceitos-base sobre o plano de Deus na criação. Não diremos, por certo, nada de novo, mas talvez abramos perspectivas novas a alguns leitores.

Habituamo-nos, muitas vezes, a pensar na criação de uma forma errônea, embora tenhamos adquirido uma série de dados. Crê-se que, num belo dia, Deus tenha criado os anjos; que os tenha submetido a uma prova, não se sabe bem qual, da qual resultou a divisão entre os anjos e os demônios: os anjos recompensados por com o Paraíso, os demônios punidos no Inferno. Também se crê que, noutro belo dia, Deus tenha criado o Universo, o reino mineral, vegetal, animal e, por fim, o homem. Adão e Eva no paraíso terrestre pecaram, obedecendo a Satanás e desobedecendo a Deus. Nessa altura, para salvar a humanidade, Deus pensou enviar o seu Filho.

Não é este o ensinamento da Bíblia, nem é este o ensinamento dos Padres da Igreja. Numa tal concepção, o mundo angélico e a criação tornam-se estranhos ao ministério de Cristo. Pelo contrário, leia-se o prólogo ao Evangelho de João e os dois hinos cristológicos que abrem as cartas aos Efésios e aos Colossenses: Cristo é o Primogênito de toda a criatura, tudo por Ele e por causa d'Ele. Não têm sentido as discussões teológicas em que se questiona se Cristo teria vindo, caso Adão não tivesse pecado. Ele é o centro da criação, Aquele que reuniu em si todas as criaturas: as celestes (anjos) e as terrestres (homens). Contudo, é verdadeiro afirmar que, tendo-se dado a queda de Adão e Eva, a vinda de Cristo assumiu um papel particular: veio como Salvador. E no centro da sua ação está o mistério pascal: por meio do sangue da sua cruz reconcilia com Deus todas as coisas, no Céu (anjos) e na Terra (homens).

Deste ponto de vista cristocêntrico depende o papel de cada criatura. Não podemos omitir uma reflexão a respeito da Virgem Maria. Se o Primogênito de toda a criatura é o Verbo encarnado, não podia estar ausente do pensamento divino, tendo prioridade sobre qualquer outra criatura, a figura daquela em que tal encarnação se iria verificar. Daqui a sua ligação única com a Santíssima Trindade, a ponto de ser chamada, já no século II, "o quarto elemento da Tríade divina". Àqueles que desejarem aprofundar este aspecto, recomendamos os dois volumes de Emanuele Testa, Maria, Terra Vergine (Jerusalém, 1986)

Impõe-se uma segunda reflexão quanto à influência de Cristo sobre anjos e demônios. No que se refere aos anjos, certos teólogos pensam que, só em virtude do mistério da cruz, estes tenham sido admitidos à visão beatífica de Deus. Muitos padres formulam afirmações interessantes. Lemos por exemplo, em Sto. Atanásio, que também os anjos devem a sua salvação ao Sangue de Cristo. No que se refere aos demônios, as afirmações contidas no Evangelho são inúmeras. Cristo com a sua cruz venceu o reino de Satanás e instaurou o Reino de Deus. Por exemplo, os endemoninhados gadarenos exclamaram: "Que temos nós contigo, Jesus, Filho de Deus?? Vieste para nos atormentar antes do tempo?" (Mt 8,29). É uma clara referência ao poder de Satanás, a diminuir progressivamente por causa de Cristo; por consequência, ainda perdura, e perdurará até que a salvação se complete, porque foi precipitado o acusador dos nossos irmãos (Ap 12,10). Para aprofundar estes conceitos e o papel de Maria, inimiga de Satanás desde o primeiro anúncio da salvação, indicamos o belo livro do padre Cândido Amantini, Il Mistero de Maria (Ed. Dehoniane, 1971).

À luz da centralidade de Cristo, é-nos dado ver o plano de Deus, que criou boas todas as coisas "para Ele e por causa dele". Também nos é dado ver a obra de Satanás, o inimigo, o tentador, o acusador, por cuja sugestão entrou na criação o mal, a dor, o pecado, a morte. Daí resulta a restauração do plano divino, operado por Cristo com o seu sangue.

O poder do demônio também é manifestamente claro. Jesus chama-lhe "príncipe deste mundo" (Jo 14,30); S. Paulo qualifica-o de "deus deste mundo" (2Cor 4,4); S. João afirma que "todo o mundo está sob o jugo do Maligno" (1Jo 5,19), entendendo-se por mundo tudo aquilo que se opõe a Deus. Satanás era o mais esplendoroso dos anjos; tornou-se o pior dos demônios e o seu chefe. Porque também os demônios estão vinculados entre si por uma hierarquia muito estrita e conservam o grau que ocupavam, quando eram anjos: principados, tronos, dominações... É uma hierarquia de escravidão e não de amor como a que existe entre os anjos, cujo chefe é São Miguel.

A obra de Cristo é muito clara: foi Ele quem destruiu o reino de Satanás e instaurou o Reino de Deus. Por isso, os episódios em que Jesus liberta os endemoninhados têm uma importância muito especial: quando Pedro evoca, diante de Cornélio, a obra de Cristo, não cita outros milagres, mas apenas o facto de ter curado "todos os que eram oprimidos pelo diabo" (At 10,38). Compreendemos agora porque é que o primeiro poder que Jesus dá aos Apóstolos é o de expulsar os demônios (cf. Mt 10,1); e a mesma coisa vale para os crentes: "Eis os sinais que acompanharão aqueles que acreditarem: em meu nome expulsarão demônios..." (Mc 16,17) Assim, Jesus salva e restabelece o plano divino, arruinado pela rebelião de uma parte dos anjos e pelo pecado dos nossos primeiros pais.

Deve ficar bem claro que o mal, a dor, a morte, o Inferno (isto é, a condenação eterna no tormento que não terá fim) não são obras de Deus. Permito-me fazer um breve comentário sobre este ponto. Um dia, o padre Cândido estava a expulsar um demônio. No final do exorcismo, voltou-se para aquele espírito imundo com ironia: "Vai-te daqui, de mais a mais, o Senhor preparou-te uma bela casa tão quentinha!" Ao que o demônio respondeu: "Tu não sabes nada. Não foi Ele (Deus) que fez o Inferno. Fomos nós. Ele nem tinha pensado nisso." Em situação análoga, enquanto interrogava um demônio para saber se também ele tinha colaborado a criar o Inferno, obtive esta resposta: "Todos nós contribuímos."

A centralidade de Cristo, no plano da criação e na restauração dela, através da redenção, é fundamental para se compreenderem os desígnios de Deus e a finalidade do homem. Na verdade, aos anjos e aos homens foi dada uma natureza inteligente e livre. Quando ouço dizer (confundindo a presciência divina com a predestinação) que Deus sabe já quem se salva e quem se condena - e, por isso, tudo é inútil -, habitualmente respondo recordando quatro verdades claramente contidas na Bíblia, que vieram a ser definidas dogmaticamente: Deus quer que todos se salvem; ninguém é predestinado ao Inferno; Jesus morreu por todos; a todos são dadas as graças necessárias à salvação.

A centralidade de Cristo ensina-nos que só no seu nome podemos ser salvos. E só no seu nome podemos vencer e libertar-nos do inimigo da salvação: Satanás. 

Já no final dos exorcismos, quando se trata de casos mais fortes, os de total possessão diabólica, rezo o hino cristológico da Carta aos Filipenses (2,6-11). Quando chegou às palavras "para que ao nome de Jesus todo o joelho se dobre, nos céus, na terra e nos infernos", eu ajoelho-me, ajoelham-se os presentes e o próprio endemoninhado vê-se sempre obrigado a ajoelhar. É um momento forte e sugestivo. Tenho a impressão de que também as legiões angélicas, que estão à nossa volta, se ajoelham, perante a invocação do nome de Jesus.
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Pe. Gabriele Amorth, Um exorcista conta-nos. 8ª Ed. Prior Velho: Paulinas, 2012. p. 25-29.

É suficiente a disposição natural de amar a Deus?


Todos sabem que para nós, cristãos, o grande mandamento é amar a Deus; o segundo, que é semelhante ao primeiro, é amar ao próximo.

Ora, dizemos que, a respeito deste duplo dever, o naturalismo lança as almas em ilusões muito funestas.

Deus que nos criou pôs no fundo da nossa natureza uma inclinação invencível para amar o bem em geral. E como Deus é o soberano Bem, o único Bem das almas, as almas, naturalmente, devem se voltar para Deus. Todo homem que pensa e medita no Autor de seu ser, sente-se naturalmente voltado para ele. É um dever ao mesmo tempo de justiça e gratidão. E as noções de justiça e gratidão têm sobre nós um poder tão grande que não podemos nos furtar desse dever e é sempre honroso cumprir deveres fundados em tão autênticos títulos. 

Sem o pecado original, a natureza se voltaria diretamente para seu Criador. Mas a ignorância e a concupiscência, frutos infelizes da queda original, fazem com que, muitas vezes, a alma pare diante de bens passageiros, se distraia e se acostume a amar ninharias em lugar de elevar seu amor até a fonte de seu ser.

Mesmo nesse estado de queda a lei de Deus permanece: Amarás o Senhor teu Deus. E a graça de Nosso Senhor Jesus Cristo nos torna possível, fácil e doce a observação do grande mandamento.

O mal é que, com frequência, depois de ter perdido a graça, depois de ter decaído da caridade, como continua a encontrar em si o amor do bem em geral, a inclinação natural para amar a Deus, as pessoas se contentam com estas disposições, e crêem estar quites com Deus. Estão em pecado mortal, mas, como as inclinações naturais de amar a Deus, de amar o bem em geral, permanecem no fundo da alma, tomam estas disposições naturais, comuns a todos os homens, por disposições pessoais, como se fosse seu estado particular diante de Deus. Este estado, diante de Deus, é de pecado mortal, mas não percebem: as inclinações naturais ficam, são percebidas, contentam-se com elas e se induzem a crer que Deus se contentará também. Dizem para si mesmas: Não quero mal a Deus, sei que Ele é bom; sou inclinado a amá-Lo; como Deus poderia me querer mal se eu lho quero? Seria pior do que eu?

Aqui está, vista no fato, a grande ilusão cuja raiz é o naturalismo. Quantas pobres almas negligenciam os deveres mais essenciais do cristianismo, vivem sem a graça santificante, sem Nosso Senhor Jesus Cristo e, no entanto, afirmam que amam muito a Deus!

Lembram-nos um infeliz que pôs fim a seus dias, e antes de cometer seu irremediável crime, escreveu um adeus à sua família e nesse escrito, afirmava seu amor por Deus!

É evidente que ele tomava a inclinação natural de amar a Deus, que todos nós temos, por sua disposição pessoal, que não podia ser mais contrária ao amor de Deus!

Pe. Emmanuel-André. O naturalismo. Ed. Permanência, 2014. p. 17-18.

A salvação pelas obras ou pelagianismo


Quando Lutero e os primeiros reformadores protestantes assinaram a Confissão de Augbsburgo, um dos pontos levantados contra os católicos era a suposta fé destes na salvação pelas obras, o que parecia significar a crença numa espécie de "compra" do céu, ou de barganha com Deus, ou, pelo menos, sugeria que o céu estava ao alcance natural do esforço humano.

Mas e qual é a fé da Igreja? É esta?

Não, nunca foi. Mas, ainda que assim não seja, é fato que muitos dos católicos hodiernos, sobretudo alguns dos que assumiram o grave cargo de pastores de alma, crêem nessa tese, o que se reflete, seja nas suas pregações, seja nas suas ações. Analisemos os pressupostos e as consequências de uma tal posição.

Primeiramente, esta idéia já foi condenada pela Igreja, no Conc. de Éfeso, em 431 d.C. Havia, então, um bispo chamado Pelágio - daí o nome pelagianismo - e que negava algumas verdades fundamentais da Fé. Segundo ele, primeiramente não existia nenhuma repercussão do pecado original nos homens. O nosso livre arbítrio permanecia intacto. Logo, não havia nenhuma necessidade da graça de Deus para que uma pessoa pudesse alcançar uma vida em conformidade com o Evangelho. Então, é falso que Jesus morreu para redimir os homens. Como se vê, esta heresia tocava no centro mesmo da teologia católica. Pelágio foi combatido por Sto Agostinho, que não à toa foi chamado de o "Doutor da Graça". 



Nota-se que o pelagianismo possui um acento naturalista: o homem possui a capacidade natural de salvar-se. A vinda de Cristo teria nos servido apenas de exemplo. Dispensa-se qualquer trabalho efetivo d'Ele em nós. Isto poderia levar, também, a uma espécie de ateísmo prático. Seja como for, o pelagianismo não pode ser cultivado senão por alguém com uma ignorância monumental das próprias bases da Fé Cristã, que são:

- O Pecado Original é real: Adão e Eva pecaram, e a consequência do pecado deles foi comunicada a todos os homens. Por causa disso, o mal e a morte entraram no mundo. E é por isso que Nosso Senhor fala que é preciso nascer de novo. Um novo nascimento é necessário porque o primeiro nascimento foi estragado. Bento XVI escreveu, certa vez, que negar o pecado original é perigoso, pois, então, suporemos uma neutralidade no ser humano onde ela não há. Isto pode levar a exposições indevidas que trarão consequências não previstas.

- Cristo morreu para nos redimir. Sem Ele, não há qualquer esperança de Salvação. Ao contrário do que comumente se pensa, o céu não nos é devido. E é por isso que a Escritura fala que nenhum outro nome nos foi dado do alto pelo qual possamos ser salvos. Ou seja: não há redenção sem Cristo. Pensar no céu como uma mera recompensa dos próprios esforços é imbecil e megalomaníaco.

- Cristo age em nós pela Graça Santificante. Esta é uma das realidades mais ignoradas pelos católicos atuais. Se não há Graça, não há vida da alma. Se não há vida da alma, uma pessoa não pode salvar-se. Isso significa, também, que, ainda que uma pessoa faça mil e uma ações grandiosas em prol dos pobres, ou outros atos de devoção, se ele não está em graça, estas coisas são incapazes de torná-lo amigo de Deus e restituir-lhe o dom da Graça. Logo, é absolutamente falso que uma pessoa pode chegar a ser salva por si mesma. Se isso fosse possível, a morte de Cristo seria desnecessária, o que é uma blasfêmia.

O Pelagianismo, portanto, consiste numa espécie de auto-suficiência humana, verdadeiramente demoníaca - pois foi o demônio quem nos prometeu que seríamos como deuses - e, portanto, é totalmente oposta à verdade do Cristianismo. É uma heresia perniciosa, e, não obstante, tem sido pregada como se fosse o próprio catolicismo. 

Isso não quer dizer, obviamente, que as obras não sejam importantes. Não aderimos ao princípio autocontraditório da Sola Fide, por ser, inclusive, antibíblico. Mas, se as ações têm sua importância, esta reside dentro de um contexto que pressupõe necessariamente a Graça Santificante, pois é esta que nos incorpora ao corpo de Cristo, e é só então que, à semelhança da água misturada ao vinho antes da consagração, na Missa, nós podemos vincular os nossos pequenos sacrifícios e ações aos méritos infinitos da Cruz do Senhor. Ocorre conosco aquilo que Paulo já dizia: "completo em mim o que faltou à Paixão de Cristo". Os méritos existem porque, uma vez que estamos unidos a Jesus, Ele eleva as nossas ações à sua dimensão divina; nos sobrenaturaliza, nos faz transcender a pouca medida dos nossos esforços naturais. Nos torna deuses por participação.

Reneguemos, pois, com força, o pelagianismo e qualquer sombra de heresia, pois, por causa dele, não poucas são as pessoas que, enganadas, caminham sem sair do lugar.

O Sacramento da Confissão: Sempre existiu? É invenção dos padres?


A Confissão sempre existiu

Em todos os tempos foi preciso, para conseguir o perdão, confessar os pecados. Adão, o primeiro pecador, só foi perdoado depois de ter confessado oralmente, com humildade e arrependimento, aos pés do Filho de Deus - que lhe aparecia revestido de forma humana no paraíso terrestre - a grande falta que acabava de cometer. "Comi do fruto proibido", disse ele; eis a confissão. Eva também se confessa, antes de ser absolvida: "Eu também comi".

Caim não quis se confessar: "Que fizeste de teu irmão?; pergunta-lhe o Senhor, de novo revestido daquela aparência humana, que um dia deveria assumir em realidade. "Meu pecado é grande demais para que Deus me perdoe", responde o miserável. Por isso foi amaldiçoado: escondeu-se da face do Senhor, errante sobre a terra, como um réprobo.

Entre os judeus, na lei antiga, era preciso confessar aos sacerdotes, como nós o fazemos hoje: confessar-se oralmente e com detalhes, antes de oferecer o sacrifício e obter a remissão dos pecados. Há vários registros dessa obrigação nos livros sagrados de Moisés (por exemplo em Nm 5,7 e Lv 4). A confissão foi sempre um sinal distintivo da verdadeira religião.

Nosso Senhor Jesus Cristo deu à confissão a dignidade de um sacramento, e a estabeleceu na Igreja como inesgotável fonte de salvação e consolação, refúgio dos pobres pecadores e auxílio da fraqueza humana. Ele mesmo confessou e absolveu muitos pecadores, entre os quais a mulher adúltera, que esteve a sós com ele no templo: eis aí a doente com o médico, a grande miséria com a grande misericórdia; arrependida, ela declarou sua falta; por isso, disse-lhe Jesus: Vai em paz, teus pecados te são perdoados.

Seus apóstolos, os primeiros padres, foram também os primeiros confessores. Vemos São Paulo e seus companheiros, em uma de suas missões em Éfeso, tocarem tão vivamente o coração dos fiéis, que "muitos vinham confessar e declarar as suas obras." (Cfr. At 19,18)

Nas catacumbas de Roma e nos monumentos dos primeiros séculos cristãos encontram-se vestígios tão numerosos e tão claros da confissão, que até mesmo o historiador protestante Edward Gibbon, malgrado o ódio contra a religião, reconhece que "o homem instruído não pode resistir ao peso da evidência histórica que confirma a confissão como um dos principais pontos da doutrina papista (isto é, católica) em todo o período dos quatro primeiros séculos. Ele só menciona os quatro primeiros séculos porque, a partir do século V, já ninguém tem dúvidas quanto a isso.

Esse reconhecimento tão claro, vindo de um inimigo ferrenho da Igreja, dispensa mais provas. Contudo, trazemos para consolação do leitor quatro ou cinco testemunhos, escolhidos ao acaso entre muitos outros, que demonstram que os primeiros cristãos se confessavam como nós.

No século I, o Papa São Clemente, batizado e sagrado por São Pedro em pessoa, ensinava a seguinte regra: "Quem cuida da própria alma não se envergonha de confessar ao padre os sentimentos de inveja e outras faltas que penetraram secretamente no coração, a fim de que receba do sacerdote a cura pela palavra de Deus (é assim que ele chama a absolvição) e pelos conselhos salutares. (Epístola a São Tiago) Também no século I, enquanto São Paulo ainda era vivo, São Dionísio... discípulo do grande Apóstolo, que o ordenou primeiro Bispo de Atenas -, repreendia com veemência um cristão chamado Demófilo, que havia maltratado um pobre pecador, o qual se jogara aos pés de um padre para confessar os pecados: "O pobre homem, diz ele, implorava e dizia que viera procurar um remédio para seus males; e tu não só o repeliste, mas menosprezaste o bom padre que tivera compaixão daquele penitente." (Epístola VIII a Demófilo)

Entre os autores cristãos dos séculos II e III, o célebre Orígenes, cuja ciência era estimada em todo o mundo, fala com clareza e insistência sobre a confissão: "Se nos arrependermos de nossos pecados e os confessarmos não só a Deus, mas a quem pode remediá-los, os pecados nos serão perdoados." Diz ele também: "Quando o pecador acusa a si mesmo e se confessa, ele vomita o pecado e extirpa a causa do problema. No entanto, quando quereis confessar-vos, fazei de maneira que o médico a quem vós declarais o motivo de vossa enfermidade possa compadecer-se de vossas dores e compreender o estado de vossa alma, para que seja para vós um médico hábil e compassivo, e que vos dê conselhos sábios." (Hom. sobre o Salmo 37)

Tertuliano, que viveu na mesma época, é tão claro quanto Orígenes; diz ele: "Há pessoas que evitam o penoso trabalho da confissão, ou adiam-na dia após dia, porque fazem mais caso da honra que da salvação. Elas se assemelham aos que, tendo contraído uma vergonhosa doença, escondem o mal do médico e morrem vítimas desse trágico pudor. É melhor condenar-se escondendo o pecado do que se purificar declarando-o?" (Da Penitência) Acrescenta ainda: "Devemos nos humilhar e ajoelhar aos pés dos padres." (Ibid.)

São Cipriano, Bispo de Cartago martirizado no século III, escreve sobre os fiéis "que vêm se confessar aos padres de Deus, com arrependimento e humildade, abrindo o segredo de suas consciências, livrando as almas do peso dos pecados e buscando o remédio da salvação." (Tratado sobre os apóstatas) Por meio do relato de dois célebres historiadores da Igreja do Oriente, sabemos que foi também no século III que se instituíram os padres penitenciários em toda a Igreja, "com o intuito de que todos os pecadores se confessem a eles minuciosamente." (Socrate e Sozomène, Histoire ecclésiastique, liv. V e VIII) "Para obter o perdão, diz um deles, é indispensável confessar os pecados."

No século IV, São Basílio Magno, Bispo de Cesaréia, na Ásia Menor, declarava que "é preciso confessar-se a quem pode distribuir os mistérios de Deus, isto é, aos padres." (Abrégé des régles, quest. 288) São Gregório, Bispo de Nissa: "Precisamos revelar sem medo aos confessores, nossos médicos espirituais, os segredos mais ocultos da nossa consciência." (Epístola canônica a Létoius) Santo Ambrósio, Bispo de Milão, na Itália: "A penitência que fazemos pelos pecados, mesmo os secretários, é infrutífera se não vier acompanhada da reconciliação e da absolvição, que dependem do ministério dos padres. (Tratado da Penitência, liv. I) E o diácono Paulino, que escreveu a vida de Ambrósio, relata que "quando um penitente se apresentava a Ambrósio para confessar-se, o santo bispo chorava tanto que levava o pecador a chorar com ele."

Santo Agostinho, discípulo de Santo Ambrósio e Bispo de Hipona, na África, fala amiúde da confissão em seus numerosos escritos. Ele responde, entre outras, a uma vil objeção, revivida mais tarde pelos protestantes e incrédulos: "Que ninguém diga a si mesmo: faço penitência por minha conta, faço penitência diante de Deus; Deus, que sabe disso, me perdoa... O quê! Porventura foi em vão que Ele declarou aos padres: Tudo o que desligares na terra será desligado nos céus? Porventura foi em vão que Ele deu as chaves à Igreja? Não tendes estima pelo Evangelho, desprezais as palavras de Cristo e prometeis a vós mesmos o que Ele vos recusa." (Sermão 392)

Enfim, poderíamos citar indefinidamente frases como essa, mas, para terminar, lembremo-nos do belo testemunho do grande Arcebispo de Constantinopla, São João Crisóstomo: "Os homens receberam de Deus um poder que não se concedeu aos anjos nem aos arcanjos. Jamais afirmou Ele aos espíritos celestes: Tudo o que ligares e desligares na terra será ligado e desligado nos céus... Os príncipes deste mundo só podem ligar e desligar os corpos; o poder dos padres vai muitíssimo além: esse poder alcança a alma, e os padres o exercem não somente ao batizar, mas também ao perdoar os pecados. Não nos envergonhemos portanto de lhes confessar nossas faltas. Quem se envergonha de contar os pecados a um homem e não quer confessar, será coberto de humilhação no dia do Juízo, na presença do universo inteiro." (Tratado do sacerdício, liv. III)

Pergunto aos senhores: não é isso o que os padres pregam e ensinam até os dias de hoje? O ensinamento da Igreja nunca mudou neste ponto, assim como não mudou nos demais. Para o homem de boa fé é evidente que os homens sempre se confessaram, e que a confissão sempre foi considerada uma instituição divina e uma necessidade absoluta.

A confissão é uma invenção dos padres?

É óbvio que não, pois é uma invenção de Deus. Se você é o inventor de uma máquina, fica evidente que quem a inventou não fui eu. Ora, a patente de invenção da confissão está registrada com todas as letras no Evangelho. (cfr. Jo 20,23)

Se a confissão fosse invenção de um padre, em primeiro lugar não encontraríamos traços dela no tempo dos apóstolos e dos mártires, de cuja honestidade ninguém duvida; ademais, encontrar-se-iam os vestígios de uma tal inovação ao longo da história. Uma invenção que afetasse todos os cristãos do mundo não chamaria de maneira notável a atenção pública? Não surgiriam reclamações de todas as partes? Conhecemos a época exata da invenção de todos os progressos industriais, de todas as instituições civis e políticas, entre outras; conhecemos os nomes dos autores e dos inventores do jogo de cartas, do bingo, da polca, do isqueiro e das descobertas mais insignificantes: por que só a origem da confissão escaparia a essa lei universal!? Isso é impossível, é absurdo! Os protestantes tentaram algumas vezes indicar a origem dela, mas se cobriram de ridículo perante a ciência; ainda há pouco ouvimos um correligionário deles, o célebre historiador Edward Gibbon, confessar sem rodeios que a confissão remonta até o berço do cristianismo.

Você acredita que o padre se diverte com a confissão? É realmente uma bela invenção esse ministério, penoso e laborioso, que lhe desgasta a saúde, fatiga o espírito, cria mil desgostos e temores, encarrega-o de imensa responsabilidade e atrai até ele os coléricos, os rancorosos e todos os patifes! Quantas pessoas amariam os padres, se eles não as confessassem!

Além disso, se os padres tivessem inventado a confissão, não é evidente que teriam começado por se excluírem da obrigação de confessar-se? Saiba que a confissão é tão penosa para eles quanto para você, pois eles são homens iguais a você e conservam sob a sublime dignidade sacerdotal não só as falhas humanas, mas também o amor-próprio, que recusa sempre humilhar-se. Quem inventou a confissão inventou os padres, transmite-lhes os poderes divinos e, pelo ministério sacerdotal, salva os homens, ao perdoar os pecados. Olhe o crucifixo: aí está o único inventor da confissão!

Monsenhor de Ségur. A Confissão. Rio de Janeiro: Castela, 2013. p.18-27.

A confissão existe desde o início do cristianismo


Nas catacumbas de Roma e nos monumentos dos primeiros séculos cristãos encontram-se vestígios tão numerosos e tão claros da confissão, que até mesmo o historiador protestante Edward Gibbon, malgrado o ódio contra a religião, reconhece que "o homem instruído não pode resistir ao peso da evidência histórica que confirma a confissão como um dos principais pontos da doutrina papista (isto é, católica) em todo o período dos quatro primeiros séculos." Ele menciona os quatro primeiros séculos porque, a partir do século V, já ninguém tem dúvidas quanto a isso.

Monsenhor de Ségur. A confissão. Rio de Janeiro: Castela, 2013. p.19-20.

São Paulo ordena guardar as tradições


A Bíblia indica que em adição à palavra escrita, nós temos de aceitar a tradição oral

São Paulo louva e ordena manter a tradição oral. Em 1 Cor 11,2, por exemplo, nós lemos: 'Agora vos louvo, irmãos, que em todas as coisas vos lembrais de mim: e mantendes minhas ordens como eu as tenho entregue a vós." São Paulo está obviamente louvando a guarda da tradição oral aqui, e deveria ser notado em particular que ele exalta os crentes por haver feito isto ("eu vos louvo..."). Explícito nesta passagem é também o fato de que a integridade desta tradição oral apostólica tem claramente sido mantida, exatamente como Nosso Senhor prometeu que seria, através da salvaguarda do Espírito Santo. (cf. Jo 16,3).

"Portanto, irmãos, ficai firmes; e guardai as tradições que vocês têm aprendido, quer oralmente, ou por nossa carta." 
São Paulo aos Tessalonicenses

Talvez o mais claro apoio bíblico para a tradição oral seja encontrado em 2 Tes 2:15, onde os cristãos são realmente ordenados: "Portanto, irmãos, ficai firmes; e guardai as tradições que tendes aprendido, quer oralmente, ou por nossa carta." Esta passagem é significante nisso: 1) ela mostra a existência de tradições vivas dentro do ensino apostólico; b) ela nos diz inequivocamente que os crentes estão firmemente fundamentados na Fé por aderir a estas tradições, e c) ela claramente estabelece que estas tradições foram dadas por escrito e oralmente. Desde que a Bíblia distintivamente estabelece aqui que as tradições orais - autênticas e apostólicas na origem - são para ser "guardadas" como um válido componente do Depósito da Fé, por qual razão ou desculpa os protestantes recusam-nas? Por qual autoridade eles rejeitam uma claríssima ordem de São Paulo?

Além disso, nós devemos considerar o texto nesta passagem. A palavra grega krateite, aqui traduzida "guardar", significa "ser forte, poderoso, prevalecer". Esta linguagem é bastante enfática, e demonstra a importância de manter estas tradições. É claro que é necessário diferenciar entre Tradição (com "T" maiúsculo) que é parte da Revelação divina, em uma mão, e, em outra, tradições da Igreja (com "t" minúsculo) que, embora boas, foram desenvolvidas na Igreja mais tarde e não são parte do Depósito da Fé. Um exemplo de algo que é parte da Tradição seria o Batismo de crianças; um exemplo de uma tradição da Igreja seria o calendário de festas de santos. Qualquer coisa que seja parte da Tradição é de origem divina e, logo, imutável, enquanto que as tradições da Igreja são mutáveis pela Igreja. A Sagrada Tradição serve como regra de fé por mostrar o que a Igreja tem crido consistentemente através dos séculos e como é sempre entendida qualquer dada parte da Bíblia. Um dos principais meios pelos quais a Tradição tem sido transmitida para nós está na doutrina contida nos velhos textos da liturgia, a adoração pública da Igreja.

Deveria ser notado que os protestantes acusam os católicos de promover doutrinas "antibíblicas" ou "novas" baseadas na Tradição, afirmando que tal Tradição contém doutrinas que são estranhas à Bíblia. Todavia, esta asserção é totalmente falsa. A Igreja Católica ensina que a Sagrada tradição não contém absolutamente nada que seja contrário à Bíblia. Alguns pensadores católicos até diriam que não há nada na Sagrada Tradição que não esteja também fundado na Escritura, ao menos implicitamente ou de uma forma seminal. Certamente, os dois estão ao menos em perfeita harmonia e sempre suportam um ao outro. Para algumas doutrinas, a Igreja pega mais da Tradição que da Escritura para a sua compreensão, mas mesmo essas doutrinas estão muitas vezes implícitas ou insinuadas na Sagrada Escritura. Por exemplo, as seguintes crenças são largamente baseadas na Sagrada Tradição: batismo de crianças, o cânon da Escritura, a virgindade perpétua da bem-aventurada Virgem Maria, Domingo (ao invés do Sábado) como o Dia do Senhor, e a Assunção de Nossa Senhora.

A Sagrada Tradição complementa nosso entendimento da Bíblia e não é, portanto, uma fonte extra de Revelação que contém doutrinas que sejam estranhas a ela*. Muito pelo contrário: a Sagrada Tradição serve como a memória viva da Igreja, lembrando-a do que os fiéis têm constante e consistentemente crido e para corretamente entender e interpretar o significado das passagens bíblicas. De certo modo, é a Sagrada Tradição que diz ao leitor da Bíblia: "Você tem lido um livro muito importante que contém a revelação de Deus ao homem. Agora, deixe-me explicar a você como isto tem sido entendido e praticado pelos crentes desde o início."

Tradução minha. Fonte: Operation Survival

*Nota minha: embora a Tradição não contenha nenhuma doutrina que seja contrária à Bíblia, ela pode, sim, ser entendida como uma das fontes de Revelação.

Sola Scriptura não tem sentido


Há pelo menos mais dois artigos aqui no blog com esse tema:


Recomendo aos amigos que dêem uma lida. Mas quero escrever este artigo seguindo uma linha mais breve e demonstrando logicamente, silogisticamente, que não há sentido nesta prática instaurada por Lutero que, além de herege, era maluco e suicida.

Primeiramente, esclareçamos em que consiste a Sola Scriptura. A expressão vem do latim e significa "Só a Escritura". A escritura de que aí se fala é, obviamente, a Bíblia. Portanto, a doutrina da Sola Scriptura afirma que só a Bíblia deve ser a regra de Fé e prática do cristão. Segundo os que seguem essa idéia, tudo quanto não esteja na Bíblia carece de fundamento. A extrema maioria dos protestantes concordará com isso aí. Para alguns católicos, inclusive, isto parecerá correto. Contudo, mostremos porque é algo sem sentido.

A Bíblia é um conjunto de livros. Cada um desses livros foi inspirado por Deus. Nesta inspiração, Deus escolheu pessoas humanas como instrumentos. No entanto, muitas outras pessoas, desde o início, afirmavam ser inspiradas por Deus sem que o fossem de fato: são os falsos profetas, que sempre houveram e que foram inúmeras vezes preditos. Não é possível, pelo próprio engenho humano, saber de certeza quais o que dizem a verdade e quais os que não dizem. Porém, Deus não poderia nos deixar nessa confusão. Logo, é preciso que sejam estabelecidas autoridades escolhidas por Deus; estas autoridades cuidarão de distinguir a verdade do erro. Elas poderão ser as próprias pessoas inspiradas, ou, ainda, outras pessoas que saibam distinguir o que é divino e o que não é. Elas também devem ser reconhecidas coletivamente. Assim o foram os profetas, os apóstolos, etc. Estas pessoas recebem tal autoridade em função de sua proximidade com Deus. No caso dos apóstolos, isso está mais do que claro, uma vez que eles conviviam com Jesus, que é Deus.

A inspiração produz a intuição e compreensão de verdades divinas. Estas verdades, se bem que estejam acima das realidades humanas, deverão ser escritas em linguagem compreensível e, portanto, humana. A linguagem humana se utiliza de símbolos. Ora, um símbolo pode, por sua própria natureza, simbolizar mais de uma coisa. Esta multiplicidade de possibilidades do símbolo pode fazer referência ao significado exato que se quis dar ao símbolo, mas pode ser entendido de modo diferente e errado. Por exemplo, havia toda uma escola bíblica que via nos gafanhotos do apocalipse retratos fiéis dos helicópteros soviéticos. 

Portanto, o fato de tais coisas serem escritas só tem lógica se, paralela aos escritos, existe uma autoridade que resguarda o modo correto de entendê-las. São Paulo dizia isto: "se há quem professe, haja quem explique."

A inspiração que surge de uma intuição de realidades sobrenaturais, ao expressar-se em linguagem humana, não consegue esgotar todo o seu conteúdo. Assim, o modo como se diz é sempre inferior à própria natureza do dito, ou, se preferirem, o significante é mais pobre que o significado. Logo, existe sempre mais realidade do que a que foi registrada, o que é o mesmo que dizer que nem tudo está na Escritura. A própria Escritura o demonstra de diversos modos. Só para citar um: João diz que, se tudo quando Jesus disse e fez fosse registrado, nem todos os livros do mundo seriam suficientes para tal.

Além disso, se há verdadeiras profecias e há também falsas, antes de haver um compêndio das verdadeiras, é preciso uma autoridade que tenha a capacidade de distinguir as verdadeiras das falsas e que, então, faça a referida escolha. Ora, essa autoridade não precisa estar explicitamente descrita na escritura. A escritura, pela sua própria natureza, exige e pressupõe esta autoridade.

Portanto, não se faria um compêndio de livros sagrados sem uma autoridade anterior que lhes identificasse e lhes reunisse. Esta autoridade histórica na formação do cânon bíblico é a Igreja Católica Apostólica Romana. Portanto, acreditar que o conjunto dos livros bíblicos é, de fato, sagrado, pressupõe a Fé na autoridade da Igreja Católica.

A própria natureza discursiva da bíblia lhe dá a possibilidade de ser entendida de diversas formas, como já dito. Se é verdade que Deus nos quis comunicar verdades específicas ao invés de nos dar um brinquedo à nossa imaginação e criatividade, então é também lógico que Ele nos daria algo ou alguém que nos garantisse o modo correto de entender o que está escrito. Uma vez que Jesus quer que as verdades sobre Ele cheguem ao conhecimento de todos os homens, de todos os lugares e de todos os tempos, esta autoridade deve, também, estar espalhada em todos os pontos do planeta e deve estar presente em todas as épocas da história. Quem cumpre este papel, mais uma vez, é a Igreja Católica. O protestantismo não poderia satisfazer este requisito, uma vez que só veio surgir no século XVI. Além disto, as denominações não possuem sequer unidade entre si. Portanto, não há consenso nem entre eles sobre as verdades da Bíblia. Isto significa que eles não sabem do que a Bíblia exatamente está falando. Além de todas estas dificuldades, há outra: para entender as verdades de Deus é preciso receber do Seu Espírito, pois a Bíblia nos diz que o próprio Cristo teve de soprar sobre os apóstolos o Paráclito para que lhes fosse aberta a inteligência. Portanto, não é suficiente pegar a Bíblia e fazer uma leitura individual. Lembremos ainda da oração de Jesus: "dou-Te graças, Pai, porque escondeste essas coisas dos soberbos e as revelaste aos pequeninos". Ou seja: as verdades sobre Deus são reveladas por Ele mesmo e, para isso, é preciso manter as devidas disposições, tanto externas quanto internas. Internamente, é preciso humildade de coração, e uma pessoa que julgue que apenas pelo ato de ler curiosamente a bíblia vai conseguir entender tudo não pode ser dita humilde. Externamente, é preciso fazer parte da Igreja e receber o espírito de filiação, que é o Espírito Santo, que lhe permitirá entender a lógica interna da Escritura. Este Espírito fará com que nos submetamos à autoridade legitimamente constituída por Nosso Senhor para aprender corretamente as verdades da Fé. Tal autoridade, mais uma vez, é, historicamente, a Igreja Católica Apostólica Romana. Isto é facilmente constatável.

Para terminar, se tudo que deve ser crido deve necessariamente estar na Bíblia, só poderíamos crer na Sola Scriptura se ela estivesse na Bíblia, e ela não está. Portanto, professar essa crença é cair em contradição pura e simples. No mero ato de declarar que só a Bíblia é regra de salvação, o sujeito está professando uma regra que não está na Bíblia.

Concluindo:

A Bíblia, pela sua própria natureza, exige uma autoridade que lhe seja anterior (para escrita e escolha dos livros) e que lhe seja simultânea (para a correta interpretação). Pela sua própria natureza, também, ela não esgota as verdades sobre Deus e, portanto, deve fazer parte de um contexto maior. Este contexto maior é a Tradição cristã. Tanto é assim que a Bíblia só vai surgir como um compêndio - o repetimos - no século IV, ou seja: os cristãos estavam a viver plenamente a fé sem que fosse necessário haver uma Bíblia. A Fé transmitiu-se sobretudo por via oral e pela tradição dos Apóstolos. Se a Bíblia vai ser formada é para somar-se a esta tradição, e não para substituir-se a ela.

A Sola Scriptura, portanto, não tem sentido nenhum.

Fábio.

Respondendo a uma leitora - A Igreja distorce as verdades de Deus?


Uma leitora nos escreve o que segue. Após a missiva, vai a nossa resposta. Está como escrevi e sem revisão. Está na hora de ir à Missa. Corrijo qualquer coisa depois. Pax.

*****

Caro Fábio, 

Achei curioso o título de seu artigo e vim ler. Mas não vim aqui defender ou mostrar os erros do Pe Fábio, porque, assim como tantos outros padres, ele tem seus erros, uns mais leves, outros mais graves. Venho aqui "avaliar" sua conduta, assim como você "avaliou" a do Pe Fábio. 

Pois bem, já li outros artigo seus e vejo que você fala muito de heresia, e de fato, as pessoas tentam distorcer a verdade e a igreja católica fez isso muito bem, logo, não são as fabinetes que são cegas, mas nós católicos que somos. Sou católica até quando Deus me mandar mudar de religião, e depois que comecei a ler a bíblia e conhecer as verdades, passei a não concordar com muita coisa de nossa igreja. Os padres mesmo confessam que tem muita coisa errada e que não podem mudar porque causaria um grande tumulto e perderiam vários fiéis.

E não é importante que todos os católicos defendam a doutrina verdadeira da igreja, mas é importante que defendam a doutrina que Deus nos deu. Pois não é a igreja que vai nos salvar e você sabe muito bem disso. 

“Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus. Muitos me dirão naquele dia: Senhor, Senhor, não profetizamos nós em teu nome? e em teu nome não expulsamos demônios? e em teu nome não fizemos muitas maravilhas? E então lhes direi abertamente: Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniqüidade.” (Mt 7. 21-23)

A igreja tem a chave do Reino de Deus, mas fecha as portas e não deixam entrar quem deseja entrar, como Jesus mesmo disse em Mt 23.13, lê aí. Como é que pode uma igreja, serva de Deus, proporcionar uma festa dedicada a um santo, que por sua vez foi um servo de Cristo, que deu a vida por ele, que curou, anunciou, mas não vem dele nossa salvação?!

La em Atos 14.12-13, mostra que quando o povo quis oferecer sacrifício e uma festa para Paulo e Barnabé por eles terem feito um milagres, eles, os apóstolos, rasgaram suas roupas em sinal de protesto e falou que eram apenas seres humanos, assim como nós. Quem fez o milagre foi Deus, por meio deles E a Deus é dado TODA HONRA E TODA A GLóRIA. 

Lá em apocalipse 22.8-9, João caiu aos pés de um ANJO para adorá-lo, e o anjo não aceitou e disse que ele também era um servo de Deus, assim como João e os outros irmãos. 

Respeito muitos os santos, porque eles foram servos de Deus e merecem toda a nossa ADMIRAÇÃO. Eles são exemplos a serem seguidos, com certeza. Mas eles estão adormecidos até que o Rei retorne e aí sim, ressuscitarão. 

Sendo assim, NÃO entendo o por que a igreja ainda faz isso. Pessoas fazem promessas aos santos, pagam sacrifícios a eles, sendo que eles NÃO vivem. Quem Vive é Cristo, que ressuscitou e pagou sacrifício por todos nós. 

Porque ninguém faz uma festa dedicada ao Senhor, nosso Deus, e ao seu filho, Jesus Cristo, o nosso Salvador??? Ninguém faz, e se faz eu nunca vi. Porque na procissão do dia 2, milhares de gente vai atrás da charola de Santa Maria Madalena e pouquíssima pessoa na do sagrado coração e Jesus? Milhares de GNT pagando sacrifício para os santos, e acho que ninguém pra Jesus. Lê lá em Amós 5.21.27, Deus mesmo diz que detesta certas festas religiosas.

As pessoas não veem a Deus como Ele deve ser visto, e não o servem como Ele merece ser servido. Exaltam os santos, mas esquecem se exaltar o Rei dos Reis. E isso tudo de quem é a culpa? Da igreja é claro, porque são os ensinamentos dela que o povo tá seguindo.

E falando de festas, como pode a igreja concordar de, numa festa religiosa, ter bandas com músicas mundanas, músicas que só falam de baixaria, de bebedeira, colocam a mulher lá em baixo e os homens como safados. Como pode em uma festa religiosa ter várias barracas de bebidas, onde os jovem compram e eles mesmo dizem , que o “bacana” é beber para ficar bêbado; E sabe o que vai ter muito nessa festa? Jovens e adultos bêbados, vai sair adultério, violências em geral, danças indecentes, e tantas outras coisas. Aí me diz: Deus estará presente em uma festa assim, onde só tem coisas que Ele mesmo disse que odeia ( uma das passagem é essa Galatas 5.19-21, mas tem outras passagens que fala desses pontos que citei agora). Tenho certeza que não, mas sabe quem vai estar com um exercíto lá? Satanás, fazendo tudo que não presta, tudo o que Deus odeia. Já que é uma festa religiosa, só deveria ter banda gospel, ou mais especificamente, católica onde o nome de Deus seria exaltado e louvado. Mas porque não tem? Porque desagradaria a população, o prefeito, pouquíssima gente iria e o movimento de dinheiro, no geral, seria pouco também. 

Acorda igreja, o que devemos seguir são os ensinamentos de Deus e não de uma igreja, porque a igreja instituição tem muitas falhas. E porque não consertam? Não sei. Talvez seja pra se cumprir o que Jesus disse, essas igrejas tem que existir.

Queridos, a igreja tem que agradar a Deus e não ao homens. Podem me chamar de herege o quanto quiser, não me importo. Só quero que Deus me chame de filha e fiel, Ah! Isso eu quero muito.
Tem outros pontos a debater sobre a igreja, mas fica para outra oportunidade para não misturas os assunto ;)

Fica com Deus meu querido e que a paz Dele encha seu coração.
Abraços

********

Caríssima, primeiramente, agradeço muito que tenhas vindo aqui e partilhado as tuas inquietações. Fique à vontade para fazê-lo sempre que quiser. Posso dizer que uma das minhas alegrias é de fato responder essas coisas. Portanto, você e os demais: não se constranjam.

Em segundo lugar, permita-me dizer que você não é católica, e o digo com muito respeito, apenas constatando uma verdade evidente. Te explicarei por quê.

Vamos lá...

Você diz que a Igreja distorce as coisas, que os padres confessam que há muita coisa errada (???) e que não mudam porque causaria um tumulto na Igreja (???) e que começou a constatar isso depois que começou a ler a Bíblia..

Primeiro, me responda: qual foi o padre que você ouviu falando que tem muita coisa errada na Igreja em termos de doutrina? Por favor, diga-me... Do jeito que você falou, pareceu que há um consenso entre os padres, sobre isso. Mas é óbvio que isso é falso! Ninguém na Igreja é forçado a mentir, a fingir. Aqueles que são integralmente católicos, isto é, que aceitam a totalidade da Fé Católica não o fazem por sere ingênuos ou mentirosos. Isso é absolutamente nonsense! 

Você afirma que os padres dizem que não mudam porque isso causaria um tumulto na Igreja. De novo: onde você viu isso? Ou você escutou isso num ambiente protestantizado e nada sério, ou num manicômio, e o digo com todo o respeito, porque isso é tão absurdo que me custa crer que isto esteja na tela aqui do PC. Caríssima, isso não é verdade. Penso que você esteja projetando na realidade uma coisa que você acha a partir de não sei o quê. 

Depois, você diz que começou a ver isso tudo depois que começou a ler a Bíblia. Veja só: a Bíblia foi compendiada pela Igreja Católica. Só no século IV é que vai surgir um livro com o conjunto dos escritos canônicos. Foi a Igreja quem escolheu os livros do Novo Testamento, e o fez a partir de um critério doutrinal baseado na autoridade que ela recebeu do próprio Cristo. Foi ela também que dividiu os livros em capítulos e versículos, a fim de facilitar a leitura. Logo, não há sentido NENHUM em dizer que a Bíblia contradiz qualquer coisa que seja na Igreja, já que foi a Igreja quem a compendiou. Aliás, a rigor, a Bíblia é um livro católico. Portanto, eu não sei que tipos de leitura você está fazendo; provavelmente, está seguindo algum tipo de manual protestante, pois a sua mentalidade já é total e claramente protestantizada. No entanto, se você quiser mesmo ser sincera, você deve fazer o seguinte: quando ler alguma coisa que entre em aparente contradição com o que você conhece do catolicismo, não parta já para a acusação de que a Igreja está errada. Antes, pergunte o que a Igreja diz a respeito daquilo. Como você sabe, a Escritura não é um livro fácil e este costume aí de fazer um livre exame, que foi desgraçadamente iniciado pelo maluco do Lutero, é o que tem gerado mais de 50.000 seitas ao redor do mundo, cada uma advogando para si a verdade e isso sempre com base nos achismos dos fundadores pretensiosos. Ora, a Bíblia é um livro, e como tal, pode ser interpretada de maneiras diversas. Deus sabia disso, obviamente, e é por isso que é logicamente necessário que uma autoridade resguarde o modo correto de compreendê-la. Ter o próprio subjetivo como critério é o melhor meio de não entender bulhufas. Ninguém, em sã consciência, pegaria um livro de Kant pra ler, e o interpretaria a seu bel prazer. E por que diabos as pessoas o fazem com a Bíblia? É um livro difícil e precisa de critérios para ser lido. Lembre do Eunuco que, lendo o profeta Isaías, foi perguntado por Felipe se estava entendendo o que lia. Ele respondeu: "como vou entender se não há quem me explique?" (At 8,29-31)

Veja o que sobre isso escreve o enorme Gustavo Corção:


"...o que nos choca na atitude protestante é o seu esquisito modo de estimar a Bíblia. Nenhum de nós que escreve gostaria de sofrer o tratamento a que o protestante submete o Espírito Santo. Nenhum de nós se alegra de ser livremente interpretado; e podemos até dizer que o nosso mais acabrunhante sentimento vem do elogio equivocado. André Gide disse uma vez a um admirador apressado que, por favor, não o compreendesse tão facilmente. Pois bem, o Deus ciumento de sua identidade, que martela em nossos ouvidos a sua terrível definição "Eu sou aquele que sou", e que nos recomenda insistentemente que guardemos a doutrina, é tratado como um acomodado personagem que nos dissesse com bonomia: Aqui está a minha revelação, estejam a gosto, e façam dela o que quiserem."

A visibilidade da Igreja, 1951.

São Paulo também dizia que a Fé vem pelo ouvir. Sabes o que isso significa? Que é preciso aprender de outro, ao invés de se dar somente a leituras individuais. Você provavelmente está aprendendo de protestantes que, por sua vez, foram fundados por adeptos da Sola Scriptura, que é contraditória desde o início.

Portanto, eu te garanto: as afirmações que você dá sobre padres que supostamente reconheceriam os erros doutrinais da Igreja e que não dizem nada para não causar tumultos, ou são totalmente falsas, ou são de padres absolutamente desinformados, o que, infelizmente, hoje em dia, não é raro.

Continuemos.

Você diz que não é importante que os católicos defendam a doutrina da Igreja, mas a doutrina que Deus nos deu, pois não é a Igreja que vai nos salvar.

Só aqui há um compêndio de erros e incompreensões. Primeiro que a doutrina católica É a doutrina que Deus nos deu. A doutrina da Igreja procede diretamente dos Apóstolos e vem, desde então, sem hiatos ou mudanças substanciais, até hoje. Você poderia facilmente constatar isso se desse uma lida nos escritos cristãos do século I e II. Leia-os. Vai ser muito salutar. Há casos de seitas inteiras que se convertem ao catolicismo porque lhes passa pela cabeça ler esses escritos a fim de provar a idolatria da Igreja. E resultado: eles chegam à evidente constatação de que a Igreja é católica desde o início. Leia-os: será uma prova de sinceridade para você. Se o teu interesse é mesmo pela verdade, você não tem o que temer, pois, como dizia Nosso Senhor, quem procura, acha.

Quando Jesus deixou a Igreja sobre Pedro, ele prometeu que as portas do inferno não prevaleceriam sobre ela (Mt 16,18), isto é, ela nem acabaria nem se perverteria, e também deu-lhe autoridade para "ligar e desligar" (Mt 16,19), afirmando que "quem vos ouve a Mim ouve, e quem vos rejeita, a Mim rejeita." (Lc 10,16). Desde então, a Igreja assumiu o seu múnus de cuidar da verdade para que não se distorça e para que chegue até os confins da terra, cumprindo a ordem de Jesus: "Ide e ensinai" (mt 28, 19). Disto se segue o seguinte: renegar à Igreja é renegar a Cristo, pois a Igreja é a coluna e sustentáculo da verdade (1Tim 3,15) e é, ainda, esposa do Cristo (Ef 5,32). Ora, sabemos que o esposo e a esposa formam um só. Assim também é Cristo e Igreja. E também por isso ela é chamada de "corpo de Cristo" (Col 1,18), sendo Cristo a cabeça. Ora, cabeça e corpo são um só. Portanto, a doutrina católica é a doutrina de Cristo. Por este motivo, não há nem pode haver nenhuma contradição entre a Escritura e a Doutrina Católica. Qualquer aparente contradição será mera aparência, devendo ser esclarecida.

Você nos traz um trecho bíblico que é o seguinte: "Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus." (Mt 7,21) Veja agora este outro: "A vontade do meu Pai é esta: que vocês creiam naquele que Ele enviou" (Jo 6,30). Ora, só podemos crer naquilo que conhecemos. E como vamos conhecer o Cristo? Não é possível saber d'Ele apenas lendo. Ele mesmo falou: "ninguém conhece o Pai senão o Filho, e ninguém conhece o Filho senão o Pai e aquele a quem o Pai o quiser revelar." (Mt 11,12). Então, não é suficiente ler, nem imaginar. Ora, o Pai, desde o início dos tempos, preparava a humanidade para a vinda da Igreja. Jesus morreu para isto: a Igreja surge do lado aberto de Cristo na Cruz, a partir do Sangue e da Água, que representam o Batismo e a Eucaristia, os dois principais Sacramentos da Igreja. A Igreja é aquela que perpetua o ato da consumação da Nova e Eterna Aliança do Cristo em favor dos homens. Portanto, o modo que Deus escolheu para que conhecêssemos Seu Filho não foi outro que não a Igreja. E é por isso que ela está aí ativa desde o início. E supor que ela se perverteu é afirmar que a promessa de Jesus Cristo a respeito dela não se cumpriu, o que é, de novo, um nonsense.

Depois, esse trecho que você traz em que Jesus dá um carão nos fariseus por não entrarem nem deixarem que os outros entrem no Reino não tem absolutamente nada a ver com a Igreja. A Igreja sempre foi a possibilitadora dos meios de salvação. A quantidade inimaginável de santos é a prova inconteste. E por falar nisso, vamos explicar o que são os santos? Você demonstrou também não entender nada sobre isso, o que só prova que você está inteiramente intoxicada de protestantismo.

Como você falou, um santo é alguém que dedicou sua vida inteira a Deus, e o fez de modo heróico, visceral. Ele morreu para si mesmo a fim de que Cristo vivesse nele, como tão bem o expressou São Paulo. Porém, a santidade é sobretudo um caminho interno, e não meramente externo. Fazer boas ações é possível tanto para um ator quanto para alguém que esteja agindo por interesse. Como, então, constatar que um santo é, de fato, um santo, isto é, está animado de amor verdadeiro e desinteressado por Deus? Ninguém pode ser testemunha da consciência de uma pessoa, a não ser ela mesma e Deus. Logo, de que modo poderíamos dizer que alguém se salvou de certeza? Só podemos fazê-lo se o próprio Deus o revelar de algum modo. E ele o faz. Quando alguém está sendo investigado sobre a sua conduta, a fim de poder ou não ser declarado santo, é exigido um sinal sobrenatural a partir da intercessão da alma do santo - que não está dormindo, e disso tratamos já já. Este sinal sobrenatural necessita ser um milagre, inexplicado pela ciência, e que ocorra de imediato, contrariando as leis naturais a respeito, e tenha se dado a partir do pedido da intercessão do santo em questão. Quando isto se dá, não se está a dizer que o santo possua algum tipo de poder que lhe seja próprio, mas que ele está diante de Deus e que Este, a partir do pedido do santo, operou o referido milagre. É um modo de constatar que ele realmente está no céu. Deus não operaria um milagre baseado no pedido a um santo se ele não estivesse, de fato, lá, pois isto seria um modo de endossar um erro, coisa que Deus não faz. Depois, dá uma olhada nos mais de dois mil corpos incorruptos de que a Igreja dispõe só para você ter uma pequena idéia.

Sobre Paulo, Barnabé e o Anjo terem recusado o culto, mas é claro que recusariam. Primeiro, porque as pessoas estavam querendo adorá-los, e adoração só pode ser dada a Deus. Depois, porque, enquanto vivo, nenhum homem pode aceitar um culto a si, ainda que de veneração, pois é fato de que ele ainda está a lutar contra a concupiscência e as inclinações da vaidade. Mas há vários exemplos de prostrações na bíblia diante de homens respeitosos e que não implicavam em adoração. Só para citar dois:

"O rei Salomão mandou mensageiros, e fizeram Adonias descer do Altar. Ele então veio e prostrou-se diante do rei, que lhe disse: 'Volta para a tua casa'." (1Rs 1, 53)

“Eliseu atravessou o rio. Os irmãos profetas (...) vieram ao seu encontro e prostraram-se por terra, diante dele”. (2 Reis 2,15)

E existe uma infinidade de outros exemplos.

Quando nós veneramos um santo, nós estamos reconhecendo que o Evangelho é real, é possível e a grandeza que Deus está disposto a realizar na vida de alguém que Lhe seja fiel. Não é outra coisa. O santo não compete com Nosso Senhor; antes, ele evidencia a grandeza de Deus. Qualquer outra coisa, não é catolicismo.

Depois você diz que eles estão adormecidos, e isto é outra coisa totalmente falsa. Provavelmente, você teve influência ou de Testemunhas de Jeová ou de Adventistas. Mas esta crença está equivocada. Vocês costumam fundamentar essa afirmação aí principalmente a partir do livro de Eclesiastes. Mas, pegando este mesmo livro, vamos ao capítulo 3, versículo 21: 

"Quem pode saber se o sopro vital do homem sobe para o alto, e o do animal desce para debaixo da terra?"

Salomão está aí a dizer que não sabe. O propósito deste livro não é falar da realidade póstuma, mas apenas convencer ao homem da fatuidade da vaidade e da efemeridade das coisas cá de baixo. Não é um tratado sobre realidades sobrenaturais, até porque, no Antigo Testamento, não havia muita clareza sobre isso. Tudo ficará claro com o Cristo. E, falando nisso, seria possível citar vários exemplos: o bom ladrão, Moisés e Elias na Transfiguração, a parábola do rico Epulão e do pobre Lázaro, etc. Mas fiquemos com dois trechos de São Paulo que eu considero particularmente claros:

"Pois para mim a vida é Cristo e a morte um lucro. Porém, se o viver na carne significa para mim trabalho fecundo, não sei o que escolher... Sinto-me premiado dos dois lados: por um lado, desejo partir e estar com Cristo, o que, certamente, é muito melhor; mas, por outro lado, ficar na carne é mais necessário para vós" (Fl 1,21-24).

Por isso, estamos sempre cheios de confiança. Sabemos que todo o tempo que passamos no corpo é um exílio longe do Senhor. Andamos na fé e não na visão. Estamos, repito, cheios de confiança,preferindo ausentar-nos deste corpo para ir habitar junto ao Senhor. É também por isso que, vivos ou mortos, nos esforçamos por agradar-lhe. Porque teremos de comparecer diante do tribunal de Cristo. Ali cada um receberá o que mereceu, conforme o bem ou o mal que tiver feito enquanto estava no corpo." (II Cor 5,6-10)

Se você não conseguir compreender os trechos acima, diga, que a gente tenta explicá-los. Mas, sinceramente, isto aí está claro.

Só para concluir este assunto: o que dorme é sempre o corpo, pois este, em viver, gasta energia e, naturalmente, precisa descansar. A alma não possui matéria; portanto, não tem nenhuma necessidade de dormir. E, sim, há alma. Lembra do que Jesus fala:

"Não tenhais medo daqueles que matam o corpo. Direi a quem vocês devem temer: temei aquele que DEPOIS de matar o corpo, tem o poder de mandar a alma ao inferno" (Lc 12,4). 

Está claro? Prossigamos.

Você diz que ninguém faz festa dedicada a Nosso Senhor. Mas é claro que faz! Festa de Corpus Christi, festa do Sagrado Coração, festa de Cristo Rei, Natal, Páscoa, etc.

Enfim, caríssima. Tudo quanto você escreveu como crítica à Igreja carece em absoluto de qualquer fundamento. Por melhor que tenha sido a sua intenção, isto só revela como você está longe de entender o que é a Igreja Católica Apostólica Romana. Antes de passar para a última parte da sua crítica, deixe-me explicar porque eu digo que você não é católica.

Para ser católica, não é suficiente ir na Igreja, participar de uma ou outra missa, cantar umas musiquinhas, etc. Para ser católico é preciso professar a Fé da Igreja. Para professar a Fé da Igreja, é preciso antes conhecê-la, e hoje em dia, para conhecê-la, é preciso estudá-la, coisa que você não fez. A Fé não é um sentimento vago de crença em algo confuso. É, antes, a adesão pessoal a verdades claras e estabelecidas por revelação e autoridade divina. Se você põe em questão uma só das verdades de Fé, você coloca em xeque a autoridade que a Igreja recebeu do Cristo. Ora, se ela erra em algum ponto, então não é garantia de que não tenha errado em outros. Assim, nada mais é seguro e cada um vai crer no que quiser. E precisamente isto é o protestantismo. Dizia Sto Agostinho: "se você escolhe no que acreditar, não é em Deus que você acredita, mas em você mesmo.", e isso, caríssima, é demoníaco. Eu poderia pôr outros textos aqui a respeito disso, mas não vou fazê-lo para que não fique tão extenso.

Para concluir este ponto, cito apenas de memória o Pe. Faber, um bom padre, e que comparava a Fé a um olho humano. Se você espetar o olho num minúsculo ponto, isto já é suficiente para prejudicar toda a visão. Assim também é a Fé: se você renega um só ponto, toda ela é prejudicada e você se vê imerso numa espécie de subjetivismo que de fé só tem o nome.

Agora, sim, terminando: sobre as suas críticas à festa da Padroeira daqui da cidade, eu não tenho o que discordar. Só faço uma ressalva: isto não é uma festa da Igreja Católica Apostólica Romana. Isto é uma particularidade daqui.

No mais, agradeço mais uma vez, e peço que você não tome isso com animosidade, mas como uma forma de você aprender melhor sobre a Igreja. Interesse-se por ela; faça as perguntas que você quer, mas seja católica integralmente. Só assim você se abrirá para entender pelo menos um pouco da imensa beleza que é a Esposa de Cristo.

"Eis a Igreja de uma beleza perfeita, alegria do mundo inteiro!"

Que a Virgem nos conduza a todos.

Fábio.

O conflito sobre o Sábado


Vamos seguir o diálogo de [Jacob] Neusner*, o crente judeu, com Jesus e começamos com o sábado; observar [o sábado] cuidadosamente é para Israel expressão central da sua existência como vida em aliança com Deus. Mesmo ao leitor superficial dos Evangelhos é conhecido que o conflito acerca do que pertence ou não ao sábado está no centro das discussões de Jesus com o povo de Israel do seu tempo. A explicação habitua diz que Jesus rompeu com uma mesquinha prática legalista e em vez dela teria oferecido uma visão mais generosa e mais livre, que abriria as portas para uma ação racional e de acordo com a situação. Como prova disso, serve a frase: "O sábado é para o homem e não o homem para o sábado" (Mc 2,27), na qual se encontra uma visão antropocêntrica de toda a realidade, de que resulta por si mesma uma explicação "liberal" dos mandamentos. Assim, por conta dos conflitos em torno do sábado foi deduzida a imagem do Jesus liberal. A sua crítica ao judaísmo do seu tempo seria a crítica do homem refletido, livre e racional a um legalismo ossificado, que no fundo significa hipocrisia e rebaixa a religião a um sistema serviu, que inibe o homem no desenvolvimento da sua obra e da sua liberdade. Compreende-se então que daqui não pode surgir nenhuma imagem favorável do judaísmo; a crítica moderna, a começar com a Reforma, enxergou assim este "judaísmo" regressado no catolicismo.

Em todo o caso, etá aqui em debate a questão acerca de Jesus - quem Ele realmente era e o que realmente queria - e também a pergunta acerca da realidade do judaísmo e do cristianismo: era Jesus na realidade um rabino liberal, um precursor do liberalismo cristão? Então, o Cristo da fé e, portanto, toda a fé da Igreja não passam de um enorme erro?

Neusner rápida e surpreendentemente põe de lado este tipo de explicação; ele pode fazer isso, porque de um modo convincente descobre o ponto real do conflito. A respeito do conflito sobre o ato de os discípulos arrancarem espigas, ele diz apenas: "O que inquieta não é a infração dos discípulos do mandamento acerca do respeito do sábado. Isso seria insensato e passaria ao lado da questão". Certamente, quando lemos o conflito sobre as curas ao sábado e os relatos sobre a irada tristeza do Senhor por causa da dureza dos corações dos defensores da explicação dominante acerca do sábado, vemos que nestas discussões estão em causa as questões mais profundas a respeito do homem e do modo correto de louvar a Deus. Neste sentido, também não é certamente de todo "trivial" este lado do conflito. Mas Neusner tem ainda razão quando, na resposta de Jesus a propósito de os discípulos colherem espigas no sábado, encontra claramente exposto o núcleo mais profundo do conflito.

Jesus defende o modo de proceder dos discípulos ao saciarem sua fome em primeiro lugar com a referência a Davi, que comeu pão sagrado com os companheiros na casa de Deus" que nem ele nem os seus companheiros, mas apenas os sacerdotes podiam comer." Depois continua: "Ou não lestes na lei que ao sábado os sacerdotes no templo não respeitam o sábado, sem que com isso se tornem culpados? Eu digo-vos: Aqui está alguém que é maior que o templo. Se tivésseis compreendido o que quer dizer 'quero misericórdia, não o sacrifício' (Os 6,6; ISam 15,22), então não teríeis condenado inocentes; porque o Filho do homem é senhor do sábado" (Mt 12,4-8). E acrescenta Neusner: "Ele (Jesus) e os seus discípulos podem fazer ao sábado o que quiserem, porque eles tomaram o lugar dos sacerdotes no templo: o lugar sagrado deslocou-se. Ele consiste agora no círculo do Mestre e dos seus discípulos" (p. 86s).

Aqui devemos deter-nos um instante para vermos o que é que o sábado representava para Israel, e assim também percebermos o que estava em jogo nesta disputa. Deus repousou no sétimo dia - assim noz diz o relato da criação. "Neste dia festejamos a criação", conclui Neusner com razão. E mais: "Não trabalhar ao sábado significa mais do que um ritual penoso para cumprir. É uma espécie de imitação de Deus". Assim, pertence ao sábado não apenas negativamente não fazer nada de atividades exteriores, mas também positivamente o "repouso" que deve expressar-se espacialmente: "Para observar o sábado deve por conseguinte permanecer-se em casa. Renunciar a todo o tipo de trabalho não basta, é preciso também descansar, e isso significa socialmente que num dia da semana é reconstruído o círculo da família e da casa, onde cada um está em casa e tudo está no seu lugar." O sábado não é, portanto, uma questão de piedade pessoal, ele é o núcleo de uma ordem social: "Este dia faz do eterno Israel o que ele é, o povo repousa tal como Deus depois da criação no sétimo dia da sua criação."

Poderíamos aqui meditar sobre como seria saudável também para a nossa sociedade atual se num dia as famílias permanecessem juntas, tornassem o lar como casa e como realização da comunhão no repouso de Deus. Mas renunciemos a estas reflexões e permaneçamos no diálogo entre Jesus e Israel, que é inevitavelmente um diálogo entre Jesus e nós como é o nosso diálogo com o povo judaico hoje.

A palavra-chave "descanso" como elemento constitutivo do sábado, segundo Neusner, faz a relação com o convite de Jesus que precede no Evangelho de S. Mateus a história dos discípulos que colhem espigas. É a assim dita messiânica exclamação de júbilo que começa deste modo: "Bendigo-Te, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e aos inteligentes, mas as revelastes aos pequeninos..." (Mt 11,25-30). Na nossa explicação habitual, parece tratar-se aqui de dois textos completamente diferentes: um fala da divindade de Jesus, o outro, da disputa sobre o sábado. Em Neusner torna-se claro que estes dois textos estão intimamente ligados um ao outro, porque nas duas vezes se trata do mistério de Jesus - do "Filho do homem", do "Filho" em absoluto.

As frases que precedem imediatamente a história do sábado dizem assim: "Vinde a Mim, todos os que andais cansados e oprimidos, e Eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de Mim que sou manso e humilde de coração, e achareis alívio para as vossas almas, pois o meu jugo é suave e a minha carga leve." (Mt 11,28-30). Normalmente, isto é explicado a partir da idéia do Jesus liberal, portanto, moralmente: a concepção liberal que Jesus tem da lei alivia a vida perante o "legalismo judaico". Mas esta teoria não é muito convincente na prática, pois o seguir Jesus não é cômodo - foi isto justamente que Jesus nunca afirmou. Mas, então, como é?

Neusner mostra-nos que não se trata de nenhuma forma de moralismo, mas sim de um texto altamente teológico, ou, mais precisamente, de um texto cristológico. Por meio do tema do repouso e do tema da fadiga e do peso com ele relacionado, o texto está orientado para a questão do sábado. O repouso de que aqui se trata tem agora a ver com Jesus. O ensino de Jesus sobre o sábado aparece agora em consonância com esta chamada e com a palavra sobre o Filho do homem como senhor do sábado. Neusner resume assim o conteúdo do conjunto: "O meu jugo é suave, eu vos concedo descanso. O Filho do homem é verdadeiramente senhor do sábado. Porque o Filho do Homem é agora o sábado de Israel - assim agimos como Deus."

Agora Neusner, de um modo ainda mais claro do que antes, pode dizer: "Nenhuma admiração, portanto, que o Filho do homem seja senhor do sábado! Não o é porque explica de um modo liberal as limitações do sábado... Jesus não era nenhum reformador rabínico, que pretendesse tornar a vida do homem 'mais fácil'... Não, não se trata aqui de aliviar um peso... É a autoridade de Jesus que está em jogo...". "Agora Jesus está sobre a montanha e toma o lugar da Tora". O diálogo do crente judeu com Jesus alcança aqui o seu ponto decisivo. Agora o judeu, na sua nobre timidez, não pergunta a Jesus, mas aos discípulos de Jesus: "O teu Mestre, o Filho do homem, é realmente senhor do sábado? E de novo pergunto: o teu Mestre é Deus?"

Assim o núcleo autêntico do debate torna-se manifesto. Jesus compreende-se a si mesmo como a Tora - como a palavra de Deus em pessoa. O prólogo imponente do Evangelho de S. João - "No princípio era a palavra e a palavra estava junto de Deus e a palavra era Deus" - não diz outra coisa senão o que o Jesus do Sermão da Montanha e o Jesus dos Evangelhos sinópticos diz. O Jesus dos quatro Evangelhos e o Jesus dos sinópticos é um e o mesmo: o verdadeiro Jesus "histórico".

O núcleo dos conflitos sobre o sábado é a questão sobre o Filho do homem - a questão a respeito de Jesus Cristo mesmo. 

Mas agora devemos prestar atenção a um outro aspecto da questão que claramente havemos de encontrar no Quarto mandamento: o que na mensagem de Jesus incomoda o rabino Neusner não é só a centralidade de Jesus; ele revela precisamente isso e em última instância não discute sobre este assunto, mas sim sobre o que resulta daí para a vida concreta de Israel - o sábado perde a sua grande função social. Ele pertence aos elementos essenciais que sustentam Israel. A centralização em Jesus rompe com esta estrutura sagrada e põe em perigo um elemento essencial na sustentação do povo.

À pretensão de Jesus está ligado o fato de que a comunidade dos seus discípulos toma o lugar de Israel. Não deve então isto inquietar quem mantém o seu coração no "eterno Israel"? À questão sobre a pretensão de Jesus de ser Ele mesmo em pessoa a Tora e o Templo está também ligado o tema de Israel - a questão da comunidade viva do povo -, no qual se realiza a palavra de Deus. 

E agora se levanta aqui para os cristãos a questão: Era bom pôr em perigo a grande função social do sábado, romper com a ordem sagrada de Israel em favor de uma comunidade dos discípulos, a qual, por assim dizer, se define a partir da figura de Jesus? Esta pergunta podia e pode esclarecer-se somente na comunidade dos discípulos que estava para se desenvolver - a Igreja. Este desenvolvimento não pode ser seguido aqui. A ressurreição de Jesus "no primeiro dia da semana" trouxe consigo que, a partir de então, para os cristãos, este "primeiro dia" - o início da criação - se tornou o "dia do Senhor", para o qual por si mesmo se transpuseram os elementos essenciais do sábado do Antigo Testamento.

Que a Igreja tenha assumido de novo a função social do sábado - sempre endereçado para o "Filho do homem" - mostrou-se claramente quando Constantino, na sua reforma do Direito inspirada no cristianismo, ligou a este dia também liberdade para os escravos, além de introduzir no seu sistema jurídico reformado com base no cristianismo o dia do Senhor como um dia de liberdade e de descanso. Parece-me portanto altamente questionável que modernos liturgistas pretendam marginalizar esta função social do domingo, que está em continuidade com a Tora de Israel, como desvio constantiniano. Mas aqui está naturalmente o grande problema da relação entre fé e ordem social, entre fé e política.

RATZINGER, Joseph. Jesus de Nazaré. São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2007. p.104-109.
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