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O Mistério do Sabbath


Card. Jean Daniélou

O estudo dos sacramentos nos tem mostrado que eles são, na era presente da história sagrada, a continuação dos grandes trabalhos operados por Deus no Antigo Testamento e no Novo, e a prefiguração da Escatologia. E disso se segue que nós não podemos entender inteiramente certos aspectos dos sacramentos a menos que nós os vejamos em sua perspectiva bíblica. Isto também é verdade com relação a certos outros aspectos do culto Cristão, e, em particular, da liturgia das grandes festas. Aqui nós temos um ciclo duplo, um semanal e um anual. Nós devemos estudar primeiro um e depois o outro, nos restringindo, naturalmente, aos aspectos desses ciclos que estão contidos no prolongamento da Sagrada Escritura, e especialmente do Velho Testamento.

Há, antes de tudo, a festa semanal, isto é, o Domingo. O Domingo é uma criação puramente cristã, conectada com o fato histórico da Ressurreição do Senhor. Mas desde que esta é uma festa semanal, surge a questão de sua relação com o Sábado Judaico. Antes de estudar o simbolismo do Domingo, então, nós precisamos primeiramente colocar o Domingo em sua relação própria com o Sábado, nossa preocupação sendo aqui com a tipologia; e depois, com relação ao descanso sabático, nossa preocupação será com ele enquanto instituição. Devemos somente estudar esta última questão de um modo secundário.

Os tipos do Antigo testamento são pessoas, como Noé ou Isaac; eventos, como o cruzamento do Mar Vermelho ou a entrada na Terra Prometida; e também instituições, como o Templo, ou a circuncisão. O Sábado entra na terceira categoria, de que ele é um dos maiores exemplos. O seu caráter de tipo é trazido no Novo Testamento: "Não deixem que ninguém, então, vos incomode por conta do que comer ou beber, ou em relação a festivais ou luas novas ou a sábados. Isso tudo é sombra das coisas que deviam vir, mas a substância é Cristo." (Cl 2,16). Aqui está a afirmação que será o princípio guia de todo o nosso estudo: a substância, a realidade do Sábado é Cristo. Nós precisamos, então, descobrir a realidade religiosa do Sábado, pois quando ele é posto ao lado de outros tipos, mostrará um aspecto do que Cristo é. Esta é a razão por que o estudo do Sábado contém um ensinamento que é sempre de valor para nós, mesmo que a instituição do Sábado como tal tenha sido abolida desde que Cristo, Que é o seu cumprimento, apareceu.

O conteúdo da idéia do Sábado é expresso em dois versos de Êxodo que pontuam seus dois aspectos essenciais. De um lado, o Sábado é um dia de descanso (anapausis) consagrado a Yahweh" (Ex 16,25); de outro lado, o Sábado é "o sétimo dia" (hebdome). Um dia de descanso, o sétimo dia -- estes são os dois temas essenciais contidos na idéia do Sábado. O Antigo Testamento os apresenta como uma prescrição literal; o Novo Testamento mostra que eles estão agora cumpridos: pois Cristo é o verdadeiro descanso, e é o verdadeiro sétimo dia. E isto nos mostra de uma vez o que é peculiar à tipologia do Sábado: é uma tipologia do tempo.

Esta tipologia do Sábado é mencionada no próprio Antigo Testamento. Temos muitas vezes considerado como o Velho testamento nos dá uma primária visão espiritual das instituições mosaicas, uma primária tipologia bíblica. Esta consideração encontra uma aplicação exepcional, e de um duplo ponto de vista, como nós iremos agora demonstrar. Antes de tudo, encontramos uma interpretação escatológica do Sábado, que é o símbolo do tempo como sagrado. Devemos dizer que ele carrega a mesma relação com o tempo e a história - aquela de ser seu grande símbolo bíblico -, assim como o templo, a outra essencial instituição do Judaísmo, simboliza o universo e o espaço. O Sabbath expressa a consagração do tempo a Deus, como o templo expressa a do espaço. E assim como o tempo, pela consagração de um espaço limitado, foi o sacramento e prefiguração da consagração de todo o universo, a ser realizado na ressurreição de Jesus e a criação do cosmos da Igreja, assim o Sabbath, pela consagração de um particular dia da semana, foi o sacramento da consagração a Deus de toda a história, que também encontrou seu princípio na ressurreição do Verbo Encarnado.

O outro elemento no Sabbath é a idéia do descanso (anapausis). Aqui nós também encontramos uma primeira tipologia no Antigo Testamento, consistindo em uma espiritualização da idéia de descanso. Nos profetas, e especialmente em Isaías, nós encontramos a afirmação repetida pelos Santos Padres de que o verdadeiro Sabbath, a verdadeira anapausis, não é cessar o trabalho físico, mas cessar de pecar. "As luas novas e os Sabbaths e outros festivais eu não os aceito, suas assembléias são más... Cessem de agir perversamente, aprendam a fazer o bem..." (Is 1, 13-19). E esta passagem é mais importante porque, como nós veremos agora, o ensino de Cristo é exatamente neste sentido. Esta espiritualização da idéia do descanso sabático, que, obviamente, não exclui a idéia de uma real prática do Sabbath, é fundada de novo em Filo, tranformado por seus esquemas platônicos, quando ele vê no Sabbath o símbolo da alma "que descansa em Deus e não se dá a mais nenhum trabalho mortal" (De migr. Abrah.91)

Nós encontramos uma dupla tipologia do Sábado já desenhado no Antigo Testamento e no Judaísmo apocaliptico e alexandrino. Mas esta tipologia ainda carece de precisão quanto ao seu contéudo, e, além disso, ela é ainda indeterminada quanto ao seu objeto. Como São Paulo nos diz, é Cristo Que é a realidade de que o Sabbath é somente a sombra. Assim os Santos Padres não foram os primeiros a afirmar este fato, pois a interpretação cristológica do Sábado já está considerada no Novo Testamento. Nós devemos agora tomar novamente os dois aspectos da tipologia do Sabbath, mas na ordem reversa. O Novo Testamento antes de tudo estende a espiritualização do Sábado ao lado das linhas já demarcadas por Isaías; mas pontua ao mesmo tempo que o Sabbath agora é passado, já que Cristo é a realidade que ele prefigurou. Este aspecto aparece principalmente nas passagens do Evangelho em que nós vemos Cristo em conflito com os fariseus na questão do descanso sabático. A tipologia do Sabbath não aparece formulada numa teoria, como se dará com São Paulo, mas como existente e operativo na real oposição entre os fariseus que encarnam a figura e Cristo que representa a realidade. O primeiro texto é fundado em São Mateus (12,1-13). Os discípulos estão pegando espigas de milho num campo no Sábado; os fariseus protestam, e Cristo vem em defesa dos Seus.1

Ele começa mostrando que o próprio Velho Testamento dá exemplos de violações legítimas do Sabbath: "Você não leu o que Davi fez quando ele e seus companheiros estavam com fome? Em como ele entrou na casa de Deus, e comeu os pães da proposição que nem ele nem seus amigos poderiam legalmente comer, mas só os sacerdotes? Ou vocês não leram na Lei, que nos dias de Sábado os sacerdotes no templo transgridem o Sabbath e ficam sem culpa?" (12,3-5).

E agora vêm as palavras mais importantes: "Mas eu digo a vocês que Alguém maior que o templo está aqui. Mas se vocês soubessem o que isto significa, 'Eu quero misericórdia e não sacrifício,' vocês nunca teriam condenado o inocente; pois o Filho do Homem é Senhor até do Sabbath" (5-8). Nós devemos acrescer a esta passagem outra que a segue imediatamente, onde nós vemos Jesus, no dia de Sábado, curando um homem com a mão seca. Jesus respondeu aos que O atacavam: "É permitido fazer o bem no Sabbath" (12,12).2 Nós temos aqui uma crítica do abuso causado pela formulação dos fariseus na sua forma de entender o descanso sabático: isto é óbvio. Mas há muito mais. Em primeiro lugar, Jesus mostra o caráter secundário do Sabbath: ele não é uma lei absoluta, mas uma instituição provisória. E Ele dá um exemplo disso, inaugurando uma linha de argumento que os Santos Padres irão tomar e desenvolver. Ele permite que seja entendido que Ele é livre para dispor desta instituição - e, pelo exemplo de Seus discípulos, Ele deixa aparecer que sua hora - da observância literal do Sabbath - já passou. Mas há ainda mais: a analogia com o Templo nos mostra que as duas instituições são paralelas. O Sabbath e o Templo passaram porque o próprio Cristo, o Sabbath e o templo do Novo Testamento, está aqui.

E o contexto nos dá dois exemplos desta realidade do novo Sabbath que aparece com Cristo. De um lado, a passagem que nós citamos é imediatamente precedida por estas palavras de Jesus: "Venham a Mim, todos vocês que estão cansados e sobrecarregados, e Eu vos darei descanso. Tomem minha carga sobre vocês, e aprendam de Mim que sou manso e humilde de coração; e encontrarão descanso (anapausis) para suas almas." (11, 29-30)3 Cristo é mostrado, então, como o verdadeiro descanso, a anapausis do verdadeiro Sabbath. E, em segundo lugar, o episódio é seguido pela cura no Sábado do homem com a mão seca. Esta cura, como todos os milagres de Jesus, é uma antecipada manifestação da vinda do Seu reino, do verdadeiro descanso. A coincidência desta ação com o Sabbath nos mostra a relação entre os dois eventos, assim como a expulsão dos mercadores do Templo mostra que Jesus é o mestre do Templo e Ele mesmo o verdadeiro Templo. Assim, nestas passagens, Cristo aparece concretamente como inaugurando o verdadeiro Sabbath que substitui o Sabbath figurativo. A oposição dos fariseus é inexplicável de outro modo, a menos que eles vissem que Ele pretendia dar um substituto para a instituição mosaica. A tipologia posterior só desenvolveu as consequências desta atitude concreta do Cristo.

O Evangelho de são João nos dá um episódio análogo; a cura no Sábado do paralítico na piscina de Bethesda. Nós já falamos deste evento em conexão com o Batismo. Os judeus perseguiram Jesus porque Ele fez essas coisas no Sábado. Jesus respondeu: "Meu Pai trabalha até agora, e eu também trabalho." (5,17). E ainda mais os judeus agora procuravam matá-Lo: "porque Ele fez de Si mesmo igual a Deus." (5,18). A relação destas misteriosas palavras de Nosso Senhor com o descanso sabático é clara. Mas Cristo está falando de um nível mais alto. Os judeus da época de Cristo, em sua exaltação do Sabbath, julgavam que o próprio Deus estava sujeito a ele. Nós encontramos tal idéia expressa no Livro dos Jubileus (2,16). A palavra de Cristo formalmente condena a aplicação a Deus do descanso sabático entendido como ociosidade. Em Deus não há ociosidade; mas Sua atividade que, como diz São Clemente de Alexandria, é idêntica ao Seu amor, é exercida sem cessar. E isto é de grande importância: a ociosidade, ócio, do Sabbath aparece de agora em diante como uma noção literal e inferior, dando lugar à busca do seu significado espiritual. Os Santos Padres usavam este texto para condenar o descanso sabático mostrando que esta não é a lei do universo e que o Cristianismo é a realidade da qual a ociosidade é a figura. Orígenes, usando o mesmo texto de São João, escreve: "Ele mostra que Deus não pode cessar de ordenar o mundo em algum sábado deste mundo. O verdadeiro Sabbath, no qual Deus irá descansar de todas as Suas obras, irá, assim, ser o mundo que vem". (Ho. Nm. 22, 4). O trabalho de Cristo é visto como a realidade que vem substituir a figurativa ociosidade do Sabbath.

Assim, nós temos visto no próprio Evangelho, de uma maneira concreta, a oposição entre Cristo eo Sabbath. Esta oposição ainda está velada. Houve um tempo em que a figura e a realidade existiram lado a lado. Esta coexistência continuou na comunidade dos cristãos primitivos. Nós vemos os Apóstolos em Jerusalém observando o Sabbath depois da Ressurreição de Cristo (At 13,14; 16,3). Mas isto é uma sobrevivência de um mundo que já passou, enquanto que a realidade que o substitui já está presente. É a mesma coisa com o Templo: os Apóstolos continuam a ir lá orar, enquanto que o novo Templo, que é a comunidade cristã, já existia. Nós encontramos aqui um daqueles momentos decisivos da história, uma articulação essencial na qual a nova realidade aparece e se desliga passo a passo de um mundo antigo que está morrendo. A destruição de Jerusale´m trouxe a destruição do Templo: São Paulo proclama o fim do Sábado (Rm 14,6). Apenas umas poucas comunidades judaicas continuaram a observar o sábado (Eusebius, Hist. Eccles. III, 27). E também foi São Paulo quem formulou o significado desta evolução histórica. Se o Sábado estava a morrer pouco a pouco, isto se dava porque ele era apenas uma instituição provisória e uma figura do mundo a vir. Agora este mundo chegou: a figura precisa apenas desaparecer: "Não deixeis, então, que ninguém vos chateie com relação ao que comer ou beber, ou a respeito de festivais ou luas novas ou sábados. Estas coisas eram sombra das que haviam de vir, mas a substância é Cristo" (Col 2,16). Assim, o Evangelho nos mostra no próprio Cristo a verdade prefigurada pelo descanso sabático, o significado profético que Isaías tinha já começado a perceber. O Novo Testamento também nos mostra que Cristo é o "sétimo dia", isto é, o tempo sagrado que sucede aos dias profanos, de que a história da criação nos dá a primeira interpretação teológica. Aqui de novo a qualidade especial da interpretação do Novo Testamento é que ele é cristológico: ele nos mostra no próprio Cristo este sétimo dia, de que o Antigo Testamento percebeu somente o significado profético. O texto principal aqui é o prólogo de São Mateus. Os ancestrais de Cristo estão organizados em seis grupos de sete pessoas cada. Deste modo, Cristo aparece como inaugurante da sétima era do mundo, como sendo n'Ele mesmo sozinho esta sétima era. E é claro que este é realmente o significado desta organização da genealogia. O Livro das Crônicas, quando dá as genealogias de Abraão e Noé, agrupa seus descendentes sob o número simbólico de setenta. Estes agrupamentos de sete são obviamente intencionais. Aquele dado por São Mateus é uma aplicação a Cristo do simbolismo cronológico da semana sagrada. A genealogia dada por São Lucas também é fundada no número 7, mas de um modo diferente: ele dá setenta e sete nomes de Adão a Jesus. Gregório de Nissa já tinha considerado sobre esta característica dos setes. E assim a genealogia de São Mateus faz do sétimo dia uma figura do Cristo.

A Epístola aos Hebreus justifica esta interpretação mostrando que o sétimo dia verdadeiramente teve este significado profético (3,7; 4,11). O autor começa com as palavras do Salmo 94: "Eles não entrarão no Meu descanso" (auapausis), e conecta este descanso explicitamente com o sétimo dia (4,4). Nós estamos lidando, então, com o repouso do sétimo dia, ou seja, com o descanso na sua forma escatológica. E este descanso, como o autor mostra, não pode ser aquele que é dito que Deus descansou no sétimo dia. Pois de fato "as obras de Deus terminaram desde o início do mundo" (4,3) e aqui está o futuro do mundo que está em questão. Por isso a interpretação "arqueológica", a do Antigo Testamento, é afastada. Não pode haver nenhuma questão futura da entrada na Terra Prometida, embora este seja o significado obviamente sugerido pelo Salmo. Mas, como o autor diz: "Se Josué já os conduziu ao descanso, Davi, tanto tempo depois, não teria falado de outro dia (4,8). Nem pode a queda de Jericó depois de sete dias ser aquele que é significado pela anapausis doo salmo. Portanto, além do descanso de Deus, na ordem da criação, e do descanso de Israel, na ordem do Antigo Testamento, há um terceiro descanso, que está além daquele de que o salmo fala: "Permanece, portanto, um descanso sabático para o povo de Deus. Pois aquele que que entrou no seu descanso, descansou ele mesmo de suas obras, como Deus descansou das Suas. Apressemo-nos para entrar naquele descanso (4,10-11).

Este texto é considerável especialmente pelo paralelismo que estabelece entre os três "sabatismos" de que o Sabbath litúrgico é figura. Mostra que no Judaísmo ele é uma comemoração da criação e de sua consagração a Deus; e depois também uma comemoração da entrada na Terra Prometida e da realização temporal da promessa. Mas estes dois significados são por sua vez a prefiguração e a profecia de outro sabatismo, de um sétimo dia, que não veio ainda e que é realizado em Jesus Cristo, desde que a partir de agora este sétimo dia existe, e nós deveremos nos apressar para entrar nele. Assim, nós encontramos uma vez mais, mas comentado e justificado, o tema escatológico indicado na genealogia de Mateus. O simbolismo do sétimo dia serve para enfatizar o caráter do Cristianismo como um evento escatológico. Nós estamos agora colocados na perspectiva da história, e esta é, de fato, o significado de toda a Epístola. Deus que deu aos judeus a primeira oportunidade para a salvação, que eles recusaram, está agora oferecendo uma nova. Esta salvação é Cristo. Ele é o sétimo dia, a sétima era do mundo. Uma nova era de graça é aberta com a Sua vinda. Nós não devemos deixá-la passar, como os judeus fizeram. Notemos antes que o tema do descanso e o tema do sétimo dia, os aspectos espiritual e escatológico estão reunidos na única pessoa de Cristo que lhes dá seu significado. A mensagem do Novo Testamento está, sobretudo, de fato, em apontar que Cristo é quem foi anunciado por todas as prefigurações do Antigo Testamento.

O Novo Testamento nos mostra a abolição do Sábado e seu cumprimento em Cristo como um fato realizado. Os escritores da Igreja daí em diante explicariam o significado deste fato. Esta abolição levantou, de fato, como aquelas das instituições mosaicas, um difícil problema. De um lado, a prática literal do Sabbath é o objeto de um mandamento expresso de Deus no Antigo Testamento, que era considerado pelos cristãos como um livro inspirado. Mas também, esta prática foi abolida por Cristo, e o Sabbath agora possuía para os cristãos somente o valor de um símbolo. Como estas duas afirmações poderiam ser reconciliadas? É impossível dizer que Deus poderia contradizer-Se. Duas soluções extremas agora se apresentam. De um lado, o judaizante manteve a prática literal do Sabbath. Eles estavam, então, em acordo com o Antigo Testamento, mas em conflito com a Igreja. De outro lado, os gnósticos rejeitaram o Antigo Testamento por considerá-lo obra de outro Deus. Isto eliminava a contradição, mas levava a uma rejeição do Antigo Testamento, uma rejeição que era igualmente inaceitável. Os cristãos viam claramente que eles deveriam afirmar ambas as coisas, a inspiração do Antigo Testamento e o caráter antiquado do Sábado. Mas levou certo tempo para ver como era possível reconciliar as duas afirmações.

Uma primeira solução consistia em negar pura e simplesmente que a prática literal do Sabbath tenha sido alguma vez o objeto de um mandamento de Deus. Esta é a solução de Pseudo-Barnabé. Para ele, as instituições do Antigo Testamento eram puramente uma linguagem simbólica, que é o propósito da gnose entender. Mas os judeus não possuíam esta gnose: eles tomavam sua linguagem literalmente, e todas as suas práticas nunca cessaram de ser condenadas por Deus. Essa do Sabbath em particular foi sempre reprovada (II.5). Como M. Lestringant bem diz: "Para ele, a exegese cristã não precisava dar à Escritura um novo significado, pois em nenhum momento ela teve outro significado. Deus sempre revelou uma só verdade. Os sacrifícios, o templo, circuncisão, foram apenas sinais. Suas práticas constituíam uma flagrante violação da vontade de Deus. E, além disso, Deus tinha formalmente advertido as nações infiéis que Ele não desejava nem sacrifício nem oferenda" (Essai sur l'unite de la revelation biblique, p. 168). Esta solução simplificava a questão. Cristo não precisava dar um significado figurativo ao Sabbath, pois ele nunca tinha tido nenhum outro significado, ele nunca tinha sido outra coisa além de um símbolo. O senso figurativo da Escritura é o literal, desde que Moisés intentou falar em linguagem simbólica. Esta solução radical, que depois ia ser a de Pascal, enquanto assegurava a unidade da Revelação, tirava do Antigo Testamento a sua própria substância.

A solução de Justino era menos absoluta. Ele mostra primeiro como, mesmo no Antigo Testamento, o mandamento do Sabbath não era o objeto de uma obrigação incondicional desde que ele admitia exceções: "Deus desejou fazer seus sacerdotes cometerem pecado quando eles ofereceram sacrifícios no dia de Sábado, e também aqueles que receberam ou deram circuncisão no dia de Sábado, desde que Ele ordenou que o recém-nascido deveria ser circuncidado no oitavo dia mesmo que ele caísse no Sábado?" (Dial. XXVII, 5.) Justino reproduz a linha de argumentação do próprio Cristo conforme dada em São Mateus (12, 5), e acrescenta um segundo exemplo àquele dado por Cristo. Nós estamos no começo de uma linha de raciocínio que nós devemos encontrar de novo e de novo através de toda a literatura patrística e que foi constantemente enriquecida com novos exemplos. Tertuliano dá aqueles da queda de Jericó no dia de Sábado (Jos 6,4) e o da luta dos Macabeus no Sábado (Adv. Jud. 4; P. L. II, 606 B-C). Encontramos todos estes textos novamente em Irineu (Adv. haer. V. V. 8; P. G. VII, 994-995), em Aphraates (Dem XIII, P. S. I, 568569), e no Testemunia Adversus Judaeos transmitido sob o nome de Gregório de Nissa (P. G. XLVI, 222 B-C). Esta é uma primeira forma de argumento que continua aquele do Evangelho.

A segunda linha de argumentação também procede do Evangelho: é o fato de que Deus não observa o Sabbath no governo do mundo. Nós já consideramos, em conexão com São João 5,17, que esta é uma resposta à noção judaica de que o próprio Deus está sujeito ao Sabbath. São Justino retorna duas vezes este argumento: "Olhem as estrelas, elas não descansam, elas não observam o Sabbath" (XXIII, 3). E a seguir: "Deus governa o mundo nesse dia do mesmo modo que Ele o governa em todos os outros" (XXIX, 3). Dentro do Judaísmo, certos homens como Filo também rejeitam como sendo excessiva demais a idéia de Deus estando sujeito ao Sabbath. O argumento de Justino foi tirado de Clemente de Alexandria: "Sendo bom, se (Deus) cessasse de fazer o bem, Ele cessaria de ser Deus" (Strom. VI, 16; Staehlin, 504, 1-5). Nós encontramos isto de novo em Orígenes: "Nós sempre vemos que Deus está agindo, e não há Sabbath no qual Ele não aja" (Hom. num. XXIII, 4). Isto está na Didascalia dos Apóstolos: "A economia do universo sempre continua, as estrelas não cessam nem por um instante no seu movimento regular produzido pela ordem de Deus. Se Ele diz: 'Você deve observar o descanso, como é que Ele mesmo age, criando, conservando, nutrindo, governando a nós e Suas criaturas? .... Mas estas coisas (o preceito do descanso sabático) foram estabelecidas por um tempo, como figura." (Const. Ap. VI, 18, 17).

Estes dois primeiros argumentos contra o valor absoluto do descanso sabático são, então, desenvolvidos do próprio Evangelho. Justino acrescenta um terceiro, que é o ais importante para uma compreensão da sua posição no que concerne ao Sabbath: "Aqueles que foram chamados justos antes de Moisés e Abraão e que foram agradáveis a Deus, não foram circuncidados nem observavam o Sabbath. Por que Deus não os ensinou estas práticas?" (XXVII, 5. Veja também XLVI, 2-3) Não apenas o mundo não está sujeito ao Sabbath, mas os patriarcas, que os judeus veneravam, não foram submetidos a ele por Deus. Certos judeus, como o autor do Livro dos Jubileus, de fato nos mostram os patriarcas como servadores do Sabbath. Mas isto é um exagero óbvio. O Sabbath não é, então, de nenhum modo necessário à salvação, desde que os próprios judeus reconheceram que Abraão foi salvo sem tê-lo praticado (XVLV, 3). Esta linha de argumentação, que não é encontrada no Novo Testamento em termos explícitos, mas de que nós encontramos o equivalente, também foi usado pela tradição inteira (Tertulian Adv. Jud. 4; P. L. II, 606; Aphraates, Dem. XIII, 8; P. S. I, 558). Nós o encontramos também na Didascalia: "Se Deus tivesse querido que nós observássemos o descanso depois de seis dias, Ele teria começado por fazer os patriarcas observarem-no e todos os homens justos que viveram antes de Moisés." (Cons. Ap. VI, 18, 16).

Mas, então, por que o Sabbath foi instituído? Justino não vai tão longe quanto Barnabé; ele mantém que Deus quis a prática do Sabbath no seu modo literal. Ele não é, então, uma pura figura. Mas esta divina instituição não é uma honra para Israel; ela não marca qualquer progresso no plano da salvação. Ao contrário, é somente por causa da maldade de Israel que Deus impôs o Sabbath a eles: "Foi somente para vocês que a circuncisão foi necessária, pois Noé e Melquisedec não observaram o Sabbath e contudo eles agradaram a Deus, e também aqueles que os seguiram, até Moisés, sob o qual nós vemos seu povo mau fazendo um bezerro de ouro no deserto.... Veja por que Deus Se adaptou ao vosso povo. O Sabbath foi prescrito para vós para vos fazer lembrar de Deus." (XIX, 6. Veja também XXVIL, 2; XLV, 3; XLVI, 5; CXII, 4). É porque, então, os judeus são infiéis à lei natural do divino culto que, para guiá-los a ela, Deus lhes deu o Sábado como meio de educação. O Sabbath, então, é visto como o próprio sinal da reprovação do povo judeu: "É de fato por causa de vossa própria maldade e aquela de vossos pais que, para vos marcar com um sinal, Deus prescreveu que que deveríeis observar o Sabath" (XXI, 1).

Assim, a existência do Sabbath é justificada, mas ainda não como um estágio na história. Notemos de fato que, de acordo com Justino, não apenas era o Sabbath uma instituição inferior aos olhos de Deus, já que Ele tinha uma melhor ordem em vista, mas esta melhor ordem foi aquela que Ele instituiu no começo. A situação dos patriarcas é superior àquela dos judeus, que marca uma decadência. Cristo, então, restabeleceu a ordem primitiva. Em outras palavras, Justino ainda não vê nenhuma outra via para evitar a contradição em Deus, além de admitir que Sua vontade foi sempre que não deveria haver nenhum Sabbath, e que ele era somente uma infração provisória da ordem imutável que Ele tinha estabelecido. Isto é o que Justino explicitamente afirma: "Deus não aceita sacrifícios de vós; e se Ele uma vez vos ordenou oferecê-los, não foi por Ele precisar deles mas por causa dos vossos pecados... Se nós não admitimos isto, nós caímos em idéias absurdas tais como a de que não era o mesmo Deus que existiu no tempo de Henoque e de todos aqueles  que não observaram o Sabbath, desde que foi Moisés quem o ordenou para ser observado... Foi porque os homens eram pecadores que Ele que é sempre o mesmo prescreveu estas ordenanças e outras como elas" (XXIII, 1). A imutabilidade de Deu não pode ser salva, de acordo com Justino, exceto pela imutabilidade do mundo estabelecido por Ele. Ele não tem nenhuma idéia de revelação progressiva. E nós encontramos uma vez mais em Eusébio de Cesaréia esta mesma concepção que nega toda a história.

De qualquer modo, nós podemos ver de agora em diante que Deus suprime o Sabbath sem contradizer-Se de qualquer maneira, desde que Ele foi levado a instituí-lo somente porque foi forçado a fazê-lo pela maldade do povo judeu, e em consequência Ele teve o desejo de fazê-lo desaparecer tão logo Ele tivesse realizado Seu propósito de educação: "Por isso, assim como a circuncisão começou com Abraão, assim o Sabbath começou com Moisés (e ele mostrou que estas instituições foram feitas por causa da dureza de seu povo); assim também, pela vontade de Deus eles tiveram que desaparecer n'Ele que nasceu de uma Virgem da raça de Abraão, Cristo, o Filho de Deus" (XLIII, 1). A vinda de Cristo marca o fim desta economia provisória. Ela visou apenas preparar para Ele. Sua prática literal foi um esboço do que Cristo estava para realizar em plenitude: "Eu posso, tomando-as uma por uma, mostrar que todas as prescrições de Moisés foram somente tipos, anúncios, símbolos daquilo que estava por vir com Cristo" (XLII, 4). O verdadeiro Sabbath não consiste em consagrar um dia apenas a Deus, mas todos os dias, e não em abster-se de trabalhos físicos, mas do pecado: "A nova lei quer que observeis continuamente o Sabbath, ainda que penseis que sois piedosos por causa do descanso e por não fazer nada num dia. Não refletis na razão do preceito. Não é nestas coisas que o Senhor nosso Deus é agradado. Se houver entre vós um perjurador ou um ladrão, que ele cesse (pausastho); se houver um adúltero, que ele faça penitência e ele terá observado o Sabbath de prazeres, o verdadeiro Sabbath de Deus" (XII, 3).

Estas últimas linhas são importantes. Elas claramente contrastam a prática exterior do descanso em um dia da semana, que é somente uma figura, com a prática interior de que este descanso é o símbolo. Na realidade, o Sabbath, isto é, a vida cristã inteira deveria ser consagrada a Deus - e isto não em abster-se do trabalho com nossas mãos, mas em cessar de pecar. O contexto nos mostra que este cessar de pecar deveria ser entendido do Batismo. É Cristo, então, Quem é o verdadeiro Sabbath, de que o Sabbath judaico era a figura. O que é importante aqui é que nós encontramos a interpretação espiritual de Isaías, que está no pano de fundo desta passagem inteira (Justino a cita extensamente, XII, 1; XIII, 2-9; XIV, 4; XV, 2-7), relatada na economia do Cristianismo. O verdadeiro Sabbath de que Isaías falou, e que consiste em "cessar de fazer o mal" (1,16), está em Cristo que é a cessação do pecado, condição que Ele somente cumpre. Cristo nos introduz no único Sabbath, de que os Sabbaths da Lei foram somente uma prefiguração profética que não nos deu o que eles significavam. O processo de espiritualização começado com Isaías é continuado por Justino e assim realizado na dispensação cristã. Nós estamos agora, portanto, na mais autêntica linha de tipologia bíblica.

Mas permanece o fato de que em Justino é sobretudo o aspecto negativo da tipologia do Sabbath que aparece, quer dizer, a justificação do desaparecimento da observância do preceito literal. Isto é facilmente explicado quando nós percebemos que a sua atenção estava focada no conflito com os judeus. Irineu teve um problema diferente, pois ele lidou com o erro reverso, aquele dos Gnósticos. Seu pensamento sobre este ponto não é sempre perfeitamente homogêneo. Às vezes ele aceita as pressuposições de Justino e admite que a aparição da legislação é conectada com a decadência de Israel no Egito (IV, 16, 3; P. G. VII, 1017 A-B). Mas em toda parte o seu pensamento mais profundo aparece: Deus está formando a humanidade de acordo com uma economia progressiva (IV, 38, 1). É muito normal, então, que a Lei deveria ter correspondido a uma humanidade ainda num estado de infância, como é normal que ela deveria dar lugar a uma economia mais perfeita quando a humanidade tiver sido trazida a uma maior perfeição. Assim a verdadeira idéia do Sabbath agora aparece. Ele pode hoje ser abolido, e ainda assim, ontem, ter sido a expressão da vontade divina: não é Deus Quem mudou, mas antes o homem que existe no tempo. Assim Irineu pode mostrar que o Sabbath é uma excelente instituição (IV, 8, 2; P. G. VII, 994) e ao mesmo tempo afirma ele está agora abolido. Não é por causa da maldade do homem que a Lei apareceu, como se ela fosse uma regressão em relação à ordem imutável querida por Deus, mas é porque o desenvolvimento da humanidade tem sido progressivo; ela precisou começar com uma educação adaptada aos seus começos. Mas agora que a humanidade emergiu deste estado de infância, a sombra da Lei deve dar lugar à realidade do Evangelho: "A lei não irá mais ordenar que passe um dia em descanso e ociosidade quem observa o Sabbath todos os dias no templo de Deus que é o seu próprio coração" (Dem 96).

A instituição judaica do Sabbath agora aparece como sendo a figura do Sabbath perpétuo que é o Cristianismo. Nós devemos notar o paralelismo com o templo. Aqui nós encontramos de novo a tipologia de Justino que Irineus desenvolve ainda mais: "Deus deu (os Sabbaths) como um sinal. Mas estes sinais não faltam em simbolismo, quer dizer, não deixam de ensinar; nem são eles arbitrários, desde que eles foram instituídos por um artesão sábio, pois os Sabbaths ensinaram perseverança no serviço de Deus suportando tudo durante o dia. 'Nós agora somos', diz São Paulo 'como ovelhas para ser sacrificadas durante todo o dia', quer dizer, nós somos consagrados, seguindo a nossa fé em todo o tempo, perseverando nisto e nos abstendo de toda a cobiça, nem comprando nem possuindo qualquer tesouro na terra.  E por isso foi significado também, de algum modo, o descanso de Deus depois da criação, quer dizer, o reino do qual o homem que perseverou em seguir a Deus tomará parte na Sua festa." (IV, 16, 1; P. G. 1015-1016).

Este texto afirma antes de tudo e com grande precisão o caráter significante do Sabbath: "Os sinais não eram sem simbolismo". Ele então desenvolve este simbolismo em um duplo sentido: eclesiástico e escatológico. Assim, nós encontramos uma vez mais as duas direções tomadas pela tipologia do Sabbath que nós percebemos no Antigo Testamento e encontramos de novo no Evangelho. Concernente à primeira destas direções, Irineu traz os dois aspectos que nós já encontramos com Justino: de um lado, perseverança no serviço de Deus durante toda a vida, de que o um dia reservado a Ele era somente uma figura; e de outro, o cessar de fazer o mal; nós devemos considerar, todavia, que, de acordo com uma idéia peculiar a Irineu, o Sabbath judaico significava a abstenção do trabalho servil, quer dizer, de trabalho rentável (IV, 8, 2; 994 B) e assim era menos a figura de uma abstenção do pecado que do distanciamento das coisas terrenas. Com respeito ao aspecto escatológico, ele se mantém na ordem do Antigo Testamento: o sétimo dia não é a figura do Cristianismo a princípio, como nos textos do Evangelho e da Epístola aos Hebreus, mas é a figura do mundo que há de vir. Este aspecto da tipologia do Sabbath é relatado a Irineu, tanto pela Epístola aos Hebreus quando pelo texto do Gênesis. Assim, nós vemos que a tipologia escatológica do Sabbath foi desenvolvida ao longo das linhas do Gênesis, como tomadas da Epístola aos Hebreus, enquanto a tipologia espiritual foi desenvolvida ao longo das linhas de Isaías, tomadas do Evangelho de São Mateus.

Com Irineu, a tipologia do Sabbath aparece fixada em suas linhas essenciais, negativamente , na justificação para a abolição do Sabbath judaico, e positivamente, no conteúdo do simbolismo do Sabbath. Nós devemos encontrá-lo desenvolvido nestas duas direções por Tertuliano e Orígenes. Tertuliano adota o primeiro aspecto. Seu Adversus Judaeos, que continua o Diálogo com Tifo, é uma parte da controvérsia com o Judaísmo em que a questão do Sabbath estava em primeiro plano. Tertuliano distingue os Sabbaths: "As Escrituras falam de um Sabbath eterno e de um temporal" (Adv. Jud. 4). O Sabbath temporal é humano, o eterno é divino. Este existiu antes do Sabbath temporal: "Assim, antes do Sabbath temporal, havia um Sabbath eterno mostrado e predito antecipadamente. Deixemos os judeus aprenderem que Adão observou o Sabbath, e que Abel quando ofereceu a Deus uma vítima santa, O agradou por cumprir o Sabbath, e que Noé, construtor da Arca por causa do grande Dilúvio, observou o Sabbath" (id). Este Sabbath, de fato, é a adoração de Deus.

Prefigurado pelos patriarcas, "nós vemos que ele é cumprido no tempo de Cristo, quando toda a carne, quer dizer, toda nação, veio a Jerusalém para adorar a Deus o Pai através de Seu Filho Jesus Cristo." É este Sabbath que "Deus quer que nós observemos de agora em diante." É por isto que "nós sabemos que nós devemos nos abster de todo trabalho servil, e que não apenas no sétimo dia, mas em todo o tempo."

Nós encontramos de novo a idéia do verdadeiro Sabbath concebida como a adoração a Deus e abstenção de trabalho servil, entendidos no sentido espiritual, e isto perpetuamente. O interesse da passagem repousa no fato de que Tertuliano mostra que a prática do Sabbath pelos patriarcas era uma figura de sua realização em Cristo. Mas e quanto ao Sabbath temporal, isto é, a instituição mosaica de cessar de trabalhar num dia da semana? Esta era uma instituição temporária, e Tertuliano vê a prova disto no fato de que, mesmo no Antigo Testamento, ela era frequentemente suspensa. Ele usa os exemplos que nós já citamos. "É, então, claro que observâncias deste tipo têm um valor temporário e foram tornadas necessárias pelas circunstâncias do tempo, e que Deus não deu esta lei no passado para ser uma observância perpétua." Por isso o Sabbath, decretado por um tempo, estava destinado a desaparecer: "É por isto que, quando é claro que um Sabbath temporal foi estabelecido e um eterno Sabbath predito, se segue que, todos os prceitos físicos tendo sido dados no passado às pessoas de Israel, um tempo viria quando os preceitos da antiga lei das velhas cerimônias cessaria, e quando a promessa da nova lei viria, quando a luz brilharia para aqueles que estavam nas trevas." Assim Tertuliano completa o que tinha permanecido implícito no pensamento de Irineu mostrando que o Sabbath eterno que já existia no Antigo Testamento ao lado do Sabbath temporal, era ele mesmo uma prefiguração de Cristo, o único verdadeiro Sabbath, e era por este próprio fato o anúncio de que o Sabbath temporal era apenas uma economia provisória.

Como Tertuliano assim torna mais precisa a tipologia do Sabbath quanto a sua forma, assim Orígenes continua o pensamento de Irineu desenvolvendo seu conteúdo, e isto em seu duplo significado eclesial e escatológico. Na XXIII Homilia sobre o Livro dos Números, ele trata da tipologia das várias festas judaicas, ao lado das linhas de Filo no De Decalogo, mas sem pegar nada emprestado dele. "O justo deve também celebrar a festa do Sabbath. Mas o que é a festa do Sabbath senão aquela que o Apóstolo diz: 'Ainda permanece, todavia, um dia de descanso (sabbatismus), quer dizer, a observância do Sabbath reservada ao povo de Deus.' Deixando de lado, então, as observâncias judaicas do Sabbath, vejamos o que deve ser a observância do Sabbath para um cristão. No dia do Sabbath, nenhum dos trabalhos mundanos devem ser feitos. Se, então, tu te absténs de todos os trabalhos que são terrenos, e não se ocupa com nenhum assunto mundano mas se mantém livre para as coisas espirituais, vai à Igreja, escuta as leituras e divinas homilias, medita nas coisas celestes, se preocupa com a esperança futura, considera não as coisas que são presentes e visíveis mas aquelas que são futuras e invisíveis - esta é a observância do Sabbath cristão. Ele que se abstém de trabalhos do mundo e se libera para as coisas espirituais, ele é quem celebra a festa do Sabbath. Ele não leva nenhum fardo na jornada. Pois o fardo é qualquer pecado, como o Profeta diz: Eles me pesam como um fardo pesado. No dia do Sabbath, todos ficam sentados em seu próprio lugar. Qual é o lugar espiritual da alma? Justiça é o seu lugar, e verdade, sabedoria, santidade, e tudo que Cristo é, este é o verdadeiro lugar para a alma. E é deste lugar que ela deveria não sair se é para manter o verdadeiro Sabbath: 'Aquele que permanece em mim, Eu também permanecerei nele.'" (Jo 15, 5) (Ho. Num. XXIII, 4).

Aqui, então, está o sentido espiritual e eclesial. O cumprimento da figura do Sabbath é a vida cristã inteira, que é totalmente espiritual e consagrada a Deus. A este significado, Orígenes acrescenta o sentido escatológico. "Desde que nós temos falado dos verdadeiros Sabbaths, se nós procuramos, indo ainda mais alto, aprender o que os verdadeiros Sabbaths são, é além deste mundo que nós encontramos a verdadeira observância do Sabbath. Isto é, de fato, o que está escrito em Gênesis, que 'Deus descansou no sétimo dia de todas as Suas obras.' Nós vemos que isto não foi cumprido no sétimo dia, e que não é cumprido mesmo agora, pois nós vemos que Deus está sempre agindo e que não há Sabbath em que Ele não aja, em que Ele não cause o nascer do sol sobre o justo e o injusto, para agir e para curar. É por isto que o Senhor, no Evangelho, acusado pelos judeus de agir e de curar no Sabbath, lhes respondeu: 'Meu Pai trabalha mesmo agora, e eu também trabalho', mostrando por isso que em nenhum Sabbath deste mundo Deus cessa de administrar o mundo e de prover as necessidades da raça humana. De fato Ele fez, no começo da criação, substâncias para existirem, tão numerosas quanto Ele, o Criador, pensou necessárias para a perfeição do mundo; mas até a consumação das eras Ele não cessou de administrá-las e de conservá-las. O verdadeiro Sabbath, depois que Deus descansar de todas as Suas obras, será no mundo futuro, quando pesares, tristeza e gemidos desaparecerão e Deus será tudo em todos. Possa Deus conceder que nós possamos festejar neste Sabbath com Ele e celebrá-lo com Seus santos anjos, oferecendo o sacrifício de louvor e dando graças ao Mais Alto. Então de fato a alma irá ser capaz sem cessar de estar presente com Deus e de oferecer a Ele o sacrifício de louvor pelo Sumo Sacerdote, que é um Sacerdote para eternidade de acordo com a ordem de Melquisedec." (Ho. Num. XXIII, 4).

Nós achamos aqui de novo o eco da antiga tradição. Com Justino, Orígenes recorda que Deus não está sujeito ao Sabbath, desde que Ele não cessa de governar a criação. E nós devemos notar que ele conecta o Sabbath com o texto de João 5,17. Esta idéia foi tirada de novo de Clemente de Alexandria (Strom. VI, 16; Staehlin, p.504, 2), mas sem ser conectada com o texto evangélico. Com Irineu, ele mostra que o descanso de Deus que é significado em Gênesis não é somente o tempo presente, mas antes o mundo que se seguirá depois desta criação. O Sabbath portanto é uma figura da entrada do homem no mundo futuro onde ele descansará de suas obras, quer dizer, onde ele irá tomar parte no banquete divino, na liturgia dos anjos, onde ele eternamente oferecerá com Cristo o Sumo Sacerdote o sacrifício de louvor. Aqui estão os verdadeiros Sabbaths de Deus, de que o Sabbath judaico era a distante prefiguração, de que a contínua oração é o começo sacramental na Igreja, e de que a liturgia celestial é o seu pleno cumprimento.

Este aspecto figurativo do Sabbath é aquele que apareceu como o mais impressionante às primeiras gerações cristãs. Preocupada antes de tudo com marcar o fim da ordem judaica e sua substituição pela realidade cristã, ela insistiu sobretudo no fato de que a instituição do Sabbath estava cumprida pelo mistério inteiro cristão. Mas apareceu também que este mistério cristão incluía uma estrutura sacramental, quer dizer, que as próprias realidades espirituais da Igreja se expressavam por meio de sinais visíveis. Os pães da proposição foram abolidos, mas a Igreja possui outro Pão. O Templo de Jerusalém foi destruído e cumprido no Cristo inteiro, o lugar da Divina Presença, mas a Igreja também possui igrejas de pedra, conectadas com a presença eucarística. O Cristianismo não é uma realidade puramente espiritual. Sua essência espiritual se expressa por meio destas realidades visíveis, e isto precisamente é a Liturgia. E isto é verdadeiro de nosso tópico também. O Sabbath foi abolido e cumprido no Cristo ressurreto, mas a Ressurreição de Cristo teve uma comemoração visível, isto é, o Domingo.

Card. Jean Daniélou, Bible and Liturgy, Tradução nossa.

Respondendo ao Adventismo do Sétimo Dia


Tradução de Fábio Silvério

Há duas distintas reivindicações principais do Adventismo do Sétimo Dia que separam-no do resto do Cristianismo:

1. Primeiro, que os cristãos devem manter o Sábado, o Sabbath, santo. Eles se opõem ao culto no Domingo, argumentando que é contra os Dez Mandamentos e anti-escriturístico em geral.

2. Segundo, que a fundadora do Adventismo do Sétimo Dia, Ellen G. White, foi uma profetiza.

O site oficial dos Adventistas do Sétimo Dia declara:

Um dos dons do Espírito Santo é a profecia. Este dom é uma marca identificatória da igreja remanescente e foi manifestado no ministério de Ellen G. White. Como mensageira do Senhor, seus escritos são uma continuante e autorizada fonte de verdade que provê para a igreja conforto, orientação, instrução e correção.

Mas como nós logo veremos, White não era profetiza, e seus trabalhos estão cheios de erros. Vejamos dois de seus maiores argumentos sobre o Sabbath, ambos de seu supostamente-inspirado livro, O Grande Conflito.


I. Quando a Adoração no Domingo começou?

A primeira das idéias que eu quero considerar é a afirmação de White de que todos os cristãos primitivos mantiveram o verdadeiro Sabbath pelos primeiros séculos do Cristianismo:

Nos primeiros séculos o verdadeiro Sabbath foi mantido por todos os Cristãos. Eles eram zelosos pela honra de Deus, e, acreditando que Sua lei é imutável, eles zelosamente guardaram a sacralidade de seus preceitos.

(Ellen G. White, O Grande Conflito, p.52)

Então isso significa que, pelo menos, nós deveríamos ver cada singular cristão cultuando no Sábado por pelo menos dois séculos (já que "primeiros séculos" deve significar pelo menos dois). Agora leia o que São Justino Mártir escreveu em 150 A.D., em sua Primeira Apologia:

E no dia chamado do Sol, todos que vivem nas cidades ou no interior se juntam em um lugar, e as memórias dos apóstolos ou os escritos dos profetas são lidos, tanto quanto o tempo permite; depois, quando o leitor termina, o presidente instrui oralmente, e exorta à imitação destas dos coisas. Então nós todos nos levantamos juntos e rezamos, e, como dissemos antes, quando nossa oração termina, pão e vinho e água são trazidos, e o presidente de modo semelhante oferece orações e agradecimentos [a palavra grega aqui é Eucaristia], de acordo com sua habilidade, e as pessoas assentem, dizendo Amém; e há uma distribuição para cada um, e uma participação daqueles sobre os quais foram feitas ações de graças, e para aqueles que estão ausentes uma porção é enviada pelos diáconos. E aqueles que estão aptos, e querem, dão o que cada um julga cabível; e o que é coletado é depositado com o presidente, que socorre os órfãos e viúvas e aqueles que, por causa da doença ou qualquer outra causa, estão em falta, ou aqueles que estão presos e os estranheiros peregrinos em nosso meio, e em uma palavra cuida de todos os que precisam.
Mas Domingo é o dia em que nós todos temos nossa assembléia em comum, porque é o primeiro dia em que Deus, tendo agido nas trevas e matéria, fez o mundo; e Jesus Cristo nosso Salvador no mesmo dia ressurgiu dos mortos. Pois Ele foi crucificado no dia anterior ao de Saturno [que é o dia antes do Sábado]; e no dia depois do de Saturno, que é o dia do Sol, tendo aparecido aos Seus apóstolos e discípulos, Ele os ensinou estas coisas, que nós temos submetido a vocês também para sua consideração.

Então, bem, dentro dos primeiros séculos do Cristianismo, o culto no Domingo já era praticado. E note que Justino não descreve isto como alguma inovação. Ele está explicando a não cristãos como é a prática do cristão básico, e o culto no Domingo é já a normal para "todos" em 150. Para alguém que alega ser um profeta, White é incapaz de apresentar a verdade mesmo sobre este ponto básico do Sábado.

Surpreendentemente, estudiosos do Adventismo do Sétimo Dia admitem que ela está errada neste ponto. Dr. Samuele Bacchiocchi, talvez o maior estudioso adventista, escreveu:

Os primeiros documentos mencionando o Domingo como dia de culto recuam até Barnabé em 135 e Justino Mártir em 150. Assim, é evidente que o Domingo como dia de culto já estava estabelecido pelo meio do segundo século. Isto significa que para ser historicamente preciso o termo "séculos" deveria ser mudado para o singular "século". Esta simples correção aumentaria a credibilidade d'O Grande Conflito, porque é relativamente fácil defender a observância geral do Sabbath durante o primeiro século, mas é impossível fazer isto a partir do segundo século.

Em outros termos, as palavras da alegada profetiza são verdadeiras, desde que você mude as palavras. Isto soa como um modo educado de dizer que Ellen White é uma falsa profetiza.

Mas e quanto ao argumento de Bacchiocchi de que enquanto adoração no Domingo existia no segundo século, ela não existia no primeiro? Ele está fazendo um argumento de silêncio. É uma tática comum que eu tenho visto ser usada por protestantes na defesa de seus pontos de vista. Se você mostra que Inácio acreditava que a Eucaristia é o Corpo e o Sangue de Cristo em 107 A.D., eles responderão que a Igreja deve ter tomado isto de um modo simbólico até 106. É claro que este tipo de argumento é ridículo. Se você vai fazer um argumento de silêncio, o mais forte argumento é que nenhuma mudança na doutrina ou prática aconteceu - porque se uma mudança de doutrina tivesse acontecido, nós veríamos uma evidência disso. Se cristãos de repente (globalmente) começassem a fazer o culto no Domingo ao invés do Sábado, alguém não teria mencionado isto em algum lugar?


II. Quem mudou o Sábado para o Domingo?

O segundo argumento de White é que foi o imperador Constantino que mudou o dia de culto do Sábado para o Domingo. Isto está na p. 553 do livro que eu acabei de citar, O Grande Conflito:

Na primeira parte do quarto século, o Imperador Constantino assinou um decreto fazendo do Domingo um festival público em todo o Império Romano. O dia do sol foi reverenciado por seus súditos pagãos e foi honrado pelos Cristãos; isto foi uma política do imperador para unir os interesses conflitantes do paganismo e Cristianismo. Ele foi pressionado a isto pelos bispos da Igreja, os quais, inspirados pela ambição e sede de poder, perceberam que se o mesmo dia fosse observado por ambos cristãos e pagãos, isto promoveria a nominal aceitação do Cristianismo pelos pagãos e assim aumentaria o poder e a glória da Igreja.

Nós já sabemos que isto é falso: que os cristãos sempre fizeram o culto no Domingo muito antes de Constantino. Mas o que é interessante é que White teve uma segunda e contraditória profecia. Você vê, ela também disse que foi o grande, mau papa, não Constantino, que mudou a data do Sábado para o Domingo. Assim, por exemplo, em Primeiros Escritos de Ellen Gould White, nós lemos sua descrição de uma visão que ela afirma ter tido em 1850:

O papa mudou o dia de descanso do sábado para o primeiro dia. Ele pensou em mudar o próprio mandamento que foi dado para causar no homem a lembrança do Criador. Ele pensou em mudar o maior mandamento no decálogo e assim fazer a si mesmo igual a Deus, ou até exaltar-se acima de Deus.

Disto, ela entende que o papa é o Anticristo. Em uma visão anterior de 1847, ela diz:

Eu vi que o Sábado não foi cravado na cruz. Se fosse, os outros nove mandamentos teriam sido; e nós estaríamos em liberdade para ir adiante e quebrá-los todos, bem como quebrar o quarto. Eu vi que Deus não mudou o Sábado, pois Ele nunca muda. Mas o Papa mudou-o do sétimo para o primeiro dia da semana; pois ele estava para mudar os tempos e as leis.

É tentador dizer isto: ela claramente é uma falsa profetiza. Adventistas do Sétimo Dia acreditam que o Sabbath seja no Sábado por causa dos ensinos de White e suas profecias. Ambos são demonstravelmente falsos. Ela não tinha idéia do que a história do Sabbath de fato era, e contou do seu jeito. O que eu achei chocante é que, por outro lado, estudiosos Adventistas estão conscientes de que White estava errada tanto em seu trabalho de ensino quanto em suas profecias, e ainda assim eles fazem vista grossa. Este é Bacchiocchi de novo:

Surpreendentemente até alguns de nossos líderes evangelistas acreditam, na base das afirmações de Ellen White, que o Domingo começou a ser o dia de culto na primeira metade do quarto século quando os líderes da Igreja forçaram Constantino a promulgar em 321 a famosa Lei do Domingo.
Esta visão popular expôs nossa Igreja às mais indesejáveis críticas. Estudiosos não adventistas e líderes da Igreja como Dr. James Kennedy acusam nossa Igreja de ignorância crassa, por ensinar que o Domingo começou a ser observado no quarto século, quando há evidências históricas irrefutáveis que colocam sua origem dois séculos antes.
Eu gastei horas sem conta explicando ao Dr. James Kennedy e a professores que viram os recentes programas da NET satélite que esta visão popular adventista não reflete o ensino adventista. Nenhum estudioso adventista tem ensinado jamais ou escrito que a observância dominical começou no quarto século com Constantino. Uma compilação de provas é o simpósio O Sábado na Escritura e na História produzido por 22 estudiosos adventistas e publicado pela Review and Herald em 1982. Nenhum dos estudiosos adventistas que contribuíram para o simpósio sequer sugeriu que a observância dominical começou no quarto século.

Então, uma vez que eles examinaram as evidências, mesmo os especialistas adventistas percebem que os escritos de Ellen White são cheios de erros. Questão óbvia: se este é o caso, porque continuam adventistas?

A Igreja Adventista do Sétimo Dia inteira está desacreditada porque:

(a) declara Ellen White uma profetiza, quando ela claramente não o é;
(b) declara seus escritos uma fonte autorizada da verdade, quando eles claramente não o são; e
(c) continua, com sua missão distintiva, a celebrar o Sabbath no Sétimo Dia, Sábado. Mesmo o nome da igreja é baseado nessa missão, ainda que a missão esteja fundada numa história falsa, falsa profetiza, e em má exegese bíblica.

Não é como se White estivesse errada em apenas alguns detalhes menores. Ela erra nos fatos básicos do coração da doutrina dos Adventistas, e isto é óbvio. Já passou da hora dos Adventistas se desfazerem de Ellen White e voltaram para casa na ortodoxia do Cristianismo.

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Atualização: Checando o post de Brent Stubb em Constantine and the Catholic Church, ele cita Sto Inácio de Antioquia, escrevendo em cerca de 107-110, e que diz:

Se, todavia, aqueles que se converteram da antiga ordem de coisas e tomaram posse de uma nova esperança não mais observam o Sábado, mas, vivendo na observância do Dia do Senhor, no qual também a nossa vida se levantou novamente por Ele e por Sua morte - ao qual alguns negam, pelo mistério pelo qual nós obtivemos a Fé, e assim persistimos, para que nós possamos ser achados os discípulos de Jesus Cristo, nosso único Mestre - como nós poderemos ser capazes de viver separados d'Ele, cujos discípulos os profetas eles mesmos no Espírito esperaram por Ele como Seu Mestre?

Então na primeira década do segundo século, o Domingo já era o dia de assinalar que os Cristãos acreditavam em Jesus como o Messias, e em Sua Ressurreição. Então até o argumento de Bacchiocchi de que o culto cristão no sábado existiu pelos primeiros anos do Cristianismo é falso. E é incrivelmente improvável que esta prática fosse nova no tempo de Inácio. Desde que o Apóstolo João morreu cerca do ano 100 A.D., se poderia pensar que ele teria se pronunciado contra o culto no Domingo, se isto fosse verdadeiramente uma violação do Evangelho. Ao menos, é claro, que ele tivesse tomado uma parte massiva na conspiração de Constantino/Papa. É claro, nós também vemos a observância dominical em lugares como Atos 20,7, então não há razão para ver nisto qualquer outra origem que não a apostólica.

Atualização 2: Brock, nos comentários, cita a Didache, que foi provavelmente escrita do meio para o fim do primeiro século... isto é, ao mesmo tempo que o Novo Testamento. Isto fecha a questão na idéia de que os primeiros cristãos eram adoradores dominicais.

"Mas em todo Dia do Senhor reúnam-se juntos, e partam o pão, e dêem graças [Eucaristia] depois de terem confessado suas transgressões, para que o seu sacrifício seja puro. Mas não deixe ninguém que esteja em desacordo com o seu amigo vir junto com vocês até que eles estejam reconciliados, para que o seu sacrifício não seja profanado. Pois isto é o que falou o Senhor: em todo lugar e tempo ofereçam-me um sacrifício puro; pois eu sou um grande Rei, diz o Senhor, e meu nome é maravilhoso entre as nações."

Boa pegada, Brock! Eu poderia acrescentar que o trecho inteiro trata da necessidade da confissão, da Liturgia Eucarística sendo um Sacrifício, etc. - tudo incrivelmente Católico.

A Igreja é Santa - Scott Hahn


Scott Hahn

Frequentemente o Novo Testamento fala da Igreja em termos de santidade. A Igreja é uma "nação santa" (1Pd 2,9). É a esposa de Cristo (Ef 5,31-32). É o "templo do Deus vivo" (2Cor 2,12). Como anteriormente mencionamos, a Igreja é o santo Corpo de Cristo.

Os membros da Igreja são "fiéis consagrados" (At 9,13; 1Cor 6,1), ou "santos", dependendo da tradução da Bíblia que você usa.

O conceito de santidade é central para uma religião bíblica, ou seja, para aquela que se baseia tanto no Antigo quanto no Novo Testamento. O profeta Daniel previu que "os santos do Altíssimo receberão o reino e o possuirão para sempre" (Dn 7,18).

A palavra hebraica para santidade é kiddushin que, literalmente, significa "separado", reservado para um propósito especial, como o Templo está colocado à parte de outras construções, como o Shabbat é reservado frente aos outros dias, e como uma esposa é "separada" para seu noivo (de fato, kiddushin pode significar "casamento" também). O povo santo de Deus é aquele que Ele criou à parte de todo o resto da criação, para ser a coroa da Sua criação, Sua maior glória na criação; não simplesmente Suas criaturas ou Seus servos (o que já seria uma grande honra), mas Seus amados filhos e filhas.

A Igreja é santa porque ela compartilha da Sua vida divina. Como Corpo de Cristo, a Igreja possui e distribui a própria vida de Cristo. Seus membros são santos porque, pelo Batismo, são "participantes da natureza divina" 92Pd 1,4). Este é o significado da graça: uma partilha da vida do próprio Deus.

As pessoas que a Igreja honra como "santos" são aqueles que correspondem, de forma exemplar, à graça de Deus. Muitas vezes, esta graça se manifestou em sinais exteriores como uma vida heroicamente virtuosa, a morte de um mártir, ou até mesmo com a ocorrência de grandes milagres.

Mas aqui precisamos ter cautela. Atualmente, muitas pessoas equiparam santidade com uma mera justiça ou com um bom comportamento, mas que não significa a mesma coisa, embora suas qualidades devam coexistir na mesma alma (esse é o significado literal de "justificação" e "santificação". Somos "feitos justos" e "santos"). A santidade é a vida divina, a vida de Cristo reproduzida na existência e na morte do santo. No mártir, a santidade é reproduzida de uma forma vívida e preeminente. E é esta a vida de Cristo que centelha nossa reverência e temor.

A Igreja antiga venerava os mártires, como atesta o Novo Testamento (Hb 11,35-38; Ap 6,9-11). Os cristãos posteriores veneravam ainda outro grupo além dos mártires. Em tempo, alguns autores diriam que tal grupo viveu uma espécie de "martírio brando", não morrendo de uma violência gloriosa, mas morrendo para si mesmos, em silêncio, no decorrer normal de suas vidas. Este grupo era composto de cristãos que tinham renunciado a uma vida normal em favor de Cristo e do Seu reino; tratava-se dos membros celibatários da Igreja e das virgens consagradas.

Jesus elogia os celibatários como aqueles "que se fizeram eunucos por causa do Reino do Céu" (Mt 19,12). No mundo antigo, os eunucos eram homens castrados nas cortes reais, muitos dos quais guardavam o harém do rei (ver, por exemplo, At 8,27 e uma nota de rodapé em sua Bíblia). Por serem incapazes de ter relações sexuais eram confiáveis para atender às questões do Estado, sem as distrações ou tentações que poderiam assolar outros ministros do rei. Mas Jesus não se refere a estes eunucos físicos. Ele explica que, na Nova Aliança, haverá homens celibatários que renunciam ao sexo e ao casamento para guardar a Igreja, a verdadeira noiva do Rei dos reis. Jesus conclui que tal ofício não é para qualquer um, mas "quem puder entender, que entenda" (Mt 13,12).

São Paulo dedica grande parte de um capítulo, na primeira Carta aos Coríntios, aos cuidados com as virgens (cap. 7). Enquanto Paulo afirma os benefícios do casamento, repetidas vezes, ele volta à superioridade do celibato (vv 1, 7, 8, 27-35, 38, 40), citando sua própria experiência pessoal. O livro do Apocalipse apresenta as virgens e os celibatários como aqueles que já estão vivendo como se estivessem no céu, livres para seguir a Cristo: "para aqueles que são castos; aqueles que seguem o Cordeiro aonde quer que Ele vá. Foram resgatados do meio dos homens e foram os primeiros a serem oferecidos a Deus e ao Cordeiro" (Ap 14,4). De fato, o próprio Jesus enfatizou o celibato como uma condição da vida celeste (cf. Mt 12,25); e Paulo falou das virgens consagradas como "aquelas que tiram partido deste mundo, como se não desfrutassem, porque a aparência deste mundo é passageira" (1Cor 7,31).

Durante os primeiros séculos do Cristianismo, a Igreja continuou a observar e venerar a virgindade e o celibato, frenquentemente invocando os precedentes do Novo Testamento. Além disso, um apologista cristão dos primórdios, chamado Santo Afraates, observou que o celibato não é uma bênção somente do Novo Testamento, mas também no Antigo. Ele ressaltou que a abstinência temporária era uma condição da santificação de Moisés em Israel (Ex 19,10.15), e que Josué, Jeremias, Elias e Eliseu eram celibatários -, Jeremias por ordem explícita do Senhor (Jr 16,2). Também era costume para os sacerdotes de Israel que se abstivessem de relações conjugais normais durante o serviço no santuário.

Nada disso implica que o sexo e o casamento sejam maus ou de alguma forma "sujos". O celibato é sagrado precisamente por causa do valor do que é sacrificado. Ninguém tentaria consagrar lixo colocando-o sobre o altar; assim, o casamento e o sexo são belas dádivas do nosso bondoso Deus. E os cristãos, até mesmo os profetas e sacerdotes pré-cristãos, estavam dispostos a abrir mão de algo bom pelo bem de Alguém melhor; estavam dispostos a abster-se de relações - o que, novamente, é a maior definição de santidade - como um sinal da santidade, da kiddushin, do casamento de Deus com Sua esposa, a Igreja.

Este sinal de santidade é proeminente nas Escrituras. Foi também em toda parte na Igreja antiga e medieval, e mesmo em épocas posteriores. Hoje eu consigo pensar somente numa Igreja Cristã onde esse sinal de santidade é tão proeminente, e esta é a Igreja Católica Romana. O celibato não é uma soma de santidade, mas sim um importante sinal, e um sinal bíblico no qua todos os outros sinais - justiça, milagres, fidelidade - se unem em plenitude.

HAHN, Scott. Razões para crer. São Paulo: Ed Cléofas, 2015. p.87-90.

Maquiadores do crime


Lenin dizia que, quando você tirou do adversário a vontade de lutar, já venceu a briga. Mas, nas modernas condições de “guerra assimétrica”, controlar a opinião pública tornou-se mais decisivo do que alcançar vitórias no campo militar. A regra leninista converte-se portanto automaticamente na técnica da “espiral do silêncio”: agora trata-se de extinguir, na alma do inimigo, não só sua disposição guerreira, mas até sua vontade de argumentar em defesa própria, seu mero impulso de dizer umas tímidas palavrinhas contra o agressor.

O modo de alcançar esse objetivo é trabalhoso e caro, mas simples em essência: trata-se de atacar a honra do infeliz desde tantos lados, por tantos meios de comunicação diversos e com tamanha variedade de alegações contraditórias, com freqüência propositadamente absurdas e farsescas, de tal modo que ele, sentindo a inviabilidade de um debate limpo, acabe preferindo recolher-se ao silêncio. Nesse momento ele se torna politicamente defunto. O mal venceu mais uma batalha.

A técnica foi experimentada pela primeira vez no século XVIII. Foi tão pesada a carga de invencionices, chacotas, lendas urbanas e arremedos de pesquisa histórico-filológica que se jogou sobre a Igreja Católica, que os padres e teólogos acabaram achando que não valia a pena defender uma instituição venerável contra alegações tão baixas e maliciosas. Resultado: perderam a briga. O contraste entre a virulência, a baixeza, a ubiqüidade da propaganda anticatólica e a míngua, a timidez dos discursos de defesa ou contra-ataque, marcou a imagem da época, até hoje, com a fisionomia triunfante dos iluministas e revolucionários. Pior ainda: recobriu-os com a aura de uma superioridade intelectual que, no fim das contas, não possuíam de maneira alguma. A Igreja continuou ensinando, curando as almas, amparando os pobres, socorrendo os doentes, produzindo santos e mártires, mas foi como se nada disso tivesse acontecido. Para vocês fazerem uma idéia do poder entorpecente da “espiral do silêncio”, basta notar que, durante aquele período, uma só organização católica, a Companhia de Jesus, fez mais contribuições à ciência do que todos os seus detratores materialistas somados, mas foram estes que entraram para a História – e lá estão até hoje – como paladinos da razão científica em luta contra o obscurantismo. (Se esta minha afirmação lhe parece estranha e – como se diz no Brasil – “polêmica”, é porque você continua acreditando em professores semi-analfabetos e jornalistas semi-alfabetizados. Em vez disso, deveria tirar a dúvida lendo John W. O’Malley, org., The Jesuits: Cultures, Sciences, and The Arts, 1540-1773, 2 vols., University of Toronto Press, 1999, e Mordecai Feingold, org., Jesuit Science and the Republic of Letters, MIT Press, 2003).

Foi só quase um século depois desses acontecimentos que Alexis de Tocqueville descobriu por que a Igreja perdera uma guerra que tinha tudo para vencer. Deve-se a ele a primeira formulação da teoria da “espiral do silêncio”, que, em extensa pesquisa sobre o comportamento da opinião pública na Alemanha, Elizabeth Noëlle-Neumann veio a confirmar integralmente em The Spiral of Silence: Public Opinion, Our Social Skin(2ª. ed., The University of Chicago Press, 1993). Calar-se ante o atacante desonesto é uma atitude tão suicida quanto tentar rebater suas acusações em termos “elevados”, conferindo-lhe uma dignidade que ele não tem. As duas coisas jogam você direto na voragem da “espiral do silêncio”. A Igreja do século XVIII cometeu esses dois erros, como a Igreja de hoje os está cometendo de novo.

A sujidade, a vileza mesma de certos ataques são plenejadas para constranger a vítima, instilando nela a repulsa de se envolver em discussões que lhe soam degradantes e forçando-a assim, seja ao silêncio, seja a uma ostentação de fria polidez superior que não tem como não parecer mera camuflagem improvisada de uma dor insuportável e, portanto, uma confissão de derrota. Você não pode parar um assalto recusando-se a encostar um dedo na pessoa do assaltante ou demonstrando-lhe, educadamente, que o Código Penal proíbe o que ele está fazendo.

As lições de Tocqueville e Noëlle-Newman não são úteis só para a Igreja Católica. Junto com ela, as comunidades mais difamadas do universo são os americanos e os judeus. Os primeiros preferem antes pagar por crimes que não cometeram do que incorrer numa falta de educação contra seus mais perversos detratores. Os segundos sabem se defender um pouco melhor, mas se sentem inibidos quando os atacantes são oriundos das suas próprias fileiras – o que acontece com freqüência alarmante. Nenhuma entidade no mundo tem tantos inimigos internos quanto a Igreja Católica, os EUA e a nação judaica. É que viveram na “espiral do silêncio” por tanto tempo que já não sabem como sair dela – e até a fomentam por iniciativa própria, antecipando-se aos inimigos.

A única reação eficaz à espiral do silêncio é quebrá-la – e não se pode fazer isso sem quebrar, junto com ela, a imagem de respeitabilidade dos que a fabricaram. Mas como desmascarar uma falsa respeitabilidade respeitosamente? Como denunciar a malícia, a trapaça, a mentira, o crime, sem ultrapassar as fronteiras do mero “debate de idéias”? Quem comete crimes não são idéias: são pessoas. Nada favorece mais o império do mal do que o medo de partir para o “ataque pessoal” quando este é absolutamente necessário. Aristóteles ensinava que não se pode debater com quem não reconhece – ou não segue – as regras da busca da verdade. Os que querem manter um “diálogo elevado” com criminosos tornam-se maquiadores do crime. São esses os primeiros que, na impossibilidade de um debate honesto, e temendo cair no pecado do “ataque pessoal”, se recolhem ao que imaginam ser um silêncio honrado, entregando o terreno ao inimigo. A técnica da “espiral do silêncio” consiste em induzi-los a fazer precisamente isso.
Olavo de Carvalho, disponível aqui.

Imortalidade da Alma segundo Lucas e Mateus


No Evangelho de Lucas, Jesus diz o seguinte:

"Não temais os que matam o corpo e, depois, não têm mais que fazer. Mas eu vos mostrarei a quem deveis temer; temei aquele que, depois de matar, tem poder para lançar no inferno; sim, vos digo, a esse temei." (Lc 12,3-4)

ανθ ων οσα εν τη σκοτια ειπατε εν τω φωτι ακουσθησεται και ο προς το ους ελαλησατε εν τοις ταμειοις κηρυχθησεται επι των δωματων

λεγω δε υμιν τοις φιλοις μου μη φοβηθητε απο των αποκτεινοντων το σωμα και μετα ταυτα μη εχοντων περισσοτερον τι ποιησαι



Para os mortalistas, corpo e alma seriam a mesma coisa. Logo, não faria sentido matar o corpo e fazer algo depois, pois nada mais restaria. O trecho acima, no entanto, deixa claro que, depois da morte corporal, há ainda algo mais a ser lançado no inferno. O que é este algo? A mesma passagem em Mateus deixa claro:

"Não temais aqueles que matam o corpo, mas não podem matar a alma; temei antes aquele que pode precipitar a alma e o corpo na geena". (Mt 10,28)

και μη φοβηθητε απο των αποκτεινοντων το σωμα την δε ψυχην μη δυναμενων αποκτειναι φοβηθητε δε μαλλον τον δυναμενον και ψυχην και σωμα απολεσαι εν γεεννη

Se, como os mortalistas, supormos que o inferno é a destruição total no final dos tempos, seria então possível, forçando um pouco as coisas, entender o "depois" de Lucas. Porém, se fosse o caso, o texto deveria vir contrapondo não corpo e alma, mas, sim, agora e depois. A distinção, porém, refere-se a elementos do homem. Destes, somente o corpo pode ser morto por outro homem, e, como Jesus diz para não temer essa morte, isto indica que o corpo, embora bom, é a parte menos excelente, já que a primazia da importância é dada à alma, que subsiste.

Também se costuma objetar que alma (psychen) significa apenas "sopro". Mas esta objeção tem uma consequência cômica: a de um sopro ser condenado ao inferno.

O texto em Mateus deixa claro ainda que corpo e alma podem ser ambos jogados na "geena", o que reforça a idéia de que são coisas distintas. Enquanto o homem pode agir somente sobre o corpo, Deus pode dispor de ambos.

Se são distintos, a morte do primeiro não implica a morte do segundo. Se a alma morresse junto com o corpo, então os homens teriam poder sobre ambos. Tampouco se pode pensar na alma como uma sugestão da integridade humana, como se se quisesse dizer que os homens, podendo nos ferir fisicamente, não poderiam nos perverter, pois o texto diz que Deus pode fazer mal à alma, isto é, jogá-la no inferno. Se fazer mal à alma fosse pervertê-la, Deus não seria indicado como Alguém que pode agir de modo hostil contra ela. 

Quando um ser humano morre fisicamente por causa de alguém, a sua alma, desvinculada do corpo, fica impossibilitada de ser prejudicada pelo agressor. É essa alma que é referida por Mateus, e é a esse depois que Lucas se refere.

O Culto à Santíssima Virgem e o seu papel no Plano da Salvação


A Virgem Maria possui um papel especialíssimo no Catolicismo. Depois de Deus, é o ser mais perfeito, pois a tal grandeza foi elevada pela graça de Deus. Por vontade d'Ele, a Virgem se tornou meio para todas as graças divinas e caminho para Ele. Por isso é chamada "Porta do Céu".

Iremos analisar, neste texto, se essas teses de fato têm fundamento. Seriam tais princípios invenções da Igreja Católica ou resquícios de paganismo que ela teria adquirido a partir de sua suposta subserviência ao império romano? Veremos. O escritor anglicano C.S. Lewis descreve, de modo muito acertado, os ânimos suscitados por esse tema. Na sua obra Cristianismo Puro e Simples, ele escreve:

"...não existe entre os cristãos uma controvérsia maior ou que deva ser tratada com maior tato. As crenças dos católicos não são defendidas apenas com um fervor normal que se espera encontrar em toda religiosidade sincera, mas (muito naturalmente) com o ardor incomum e, por assim dizer, cavalheiresco com que um homem defende a honra de sua mãe ou de sua amada. É muito difícil discordar do católico sem, ao mesmo tempo, não parecer a seus olhos um malcriado ou mesmo um herege. Já a crença do protestante a respeito desse assunto desperta sentimentos inerentes às raízes de todo o monoteísmo. Para o protestante radical, a distinção entre o Criador e a criatura (por mais santa que seja) parece ameaçada: o politeísmo renasce. Logo. é difícil discordar sem parecer a seus olhos algo pior que um herege, um pagão..." (2005, p.11-12.)

Antes de começarmos a análise deste assunto tão delicado, consideremos isto: se Deus quisesse elevar a Virgem Maria às alturas em que a teologia católica a coloca, Ele poderia fazê-lo ou não? Parece que qualquer pessoa tenderia a admitir que sim, ainda que possa supor que Ele não o fez. Mas, desde já, esta possibilidade fica resguardada.

A dificuldade maior na mente de um protestante reside no fato de esta possibilidade aparentemente contradizer certas afirmações da Escritura. Assim, é importante, na realização deste estudo, que observemos as alegações católicas sobre Maria também do ponto da Bíblia. Porém, não pararemos aí. Penso ser importante também vermos como aqueles que se seguiram imediatamente aos apóstolos a viam, e, por fim, olharmos en passant os milagres a ela atribuídos e que são cientificamente incontestáveis. Não que sejamos dependentes de tais certificações, mas é o que o exige o espírito da época, do qual o protestantismo, por sua vez, é simpático.

Gênesis, Evangelho de João e Apocalipse


Gênesis e Apocalipse são respectivamente o primeiro e o último livros da Sagrada Escritura, e narram também o começo e o fim do mundo. Nas religiões tradicionais, costuma-se dizer que o fim será como o começo, ou um retorno ao começo. A santidade, deste modo, é vista como um reordenamento ou restabelecimento da saúde humana e da ordem primordial. Do ponto de vista divino, é como se, pela Queda, se estabelecesse uma tensão pela qual a Sua Justiça exige satisfação. Esta é feita em Jesus e, depois, no fim dos tempos, quando a ordem restabelecida já não mais será destruída.

Por isso, nestes dois livros surgem algumas figuras semelhantes. Depois do Pecado Original, Deus faz pela primeira vez a promessa de um Salvador. Por ser um primeiro anúncio, este trecho recebeu na Tradição o nome de "protoevangelho" ou "primeiro-evangelho". Nele, Deus diz ao demônio:

"Porei ódio entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a dela. Esta te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar." (Gn 3,15)


Analisemos este trecho. Nele se fala de uma descendência da serpente e de uma descendência da mulher. As duas descendências terão ódio entre si, e este ódio é uma emanação ou herança do ódio entre a serpente e a mulher. A serpente nós já sabemos quem é: é o demônio. E quem seria a mulher? As possibilidades são só três: A Igreja, a mulher enquanto gênero, ou uma mulher específica.

O trecho não pode se referir ao gênero feminino como um todo, pois isto significaria que todos os seres humanos - pois todos são nascidos de mulher - seriam inimigos do demônio, o que não é o caso. Jesus chega a dizer mesmo que alguns são "filhos" do demônio. Além disso, não é a espécie humana em si que vence o demônio, mas uma pessoa bem específica, como sabemos: Jesus.

Uma tradição já antiga viu na mulher um símbolo da Igreja. Embora esta relação seja possível a partir de algumas analogias, ela não pode corresponder-lhe totalmente, pois a mulher aqui tem um papel intrínseco e que não pode ser atribuído à Igreja: ela é mãe do alguém que esmagará a serpente. Sendo que esta pessoa é o Cristo, a mulher referida deve necessariamente ser a mãe do Cristo. Pergunta-se: a Igreja pode ser considerada mãe de Cristo? Parece que não.

Logo, sobra-nos a terceira alternativa: a mulher de que aí se trata não é outra senão Maria. Se o leitor não aceita esta conclusão, reveja as alternativas. Observe se há alguma outra não considerada.

A Virgem Maria então entra na história como "a mulher", e isto explica porque Jesus a chama deste modo em momentos muito específicos: nas Bodas de Caná e na Cruz. E é impressionante observar as relações destes dois eventos com o livro do Gênesis. Vejamos:

A relação entre Gênesis e o Evangelho de João fica evidente já na primeira expressão com que ambos começam: "No princípio". O Gênesis diz: "No princípio, Deus criou o céu e a terra". O Evangelho de João afirma; "No princípio, era o Verbo." Logo depois, o Gênesis afirma como Deus criou a luz (Gn 1,3). João, por sua vez, fala da luz incriada, Jesus, que "era a luz dos homens" e que "resplandece nas trevas" (Jo 1,4-5). O Gênesis diz também que o "Espírito pairava sobre as águas" (Gn 1,2), e é o que vemos de novo em João, no relato do batismo de Jesus (Jo 1,32-33). A primeira criação é o início da realidade material. A segunda criação é o início da vida da graça, simbolizada pelo batismo de Jesus. Estas aproximações entre João e o Gênesis não são, portanto, arbitrárias, mas reais e João sabia o que fazia.

Assim como o Gênesis narra a sucessão de dias até chegar ao sétimo, assim também João o faz. No capítulo 1, versículo 29, João escreve: "no dia seguinte", o que nos leva ao segundo dia, onde se dá o encontro de Jesus com seu primo João Batista. No versículo 5, mais uma vez "no dia seguinte", o terceiro dia, que é o início do chamado dos discípulos. De novo, no versículo 43, "no dia seguinte", quarto dia, quando mais dois discípulos se juntam ao grupo. Daqui, João escreve "no terceiro dia" (1,43), o que nos leva ao sétimo dia, onde ele nos conta sobre as Bodas de Caná, uma festa de casamento. A partir de então João não conta mais os dias. Desse modo, os sete dias de João se relacionam de modo claro com os sete dias do Gênesis. Ou é coincidência demais ou simplesmente não é coincidência.

Estamos aqui no Shabbat, o Sétimo Dia, o Dia da Aliança entre Deus e os homens. Pois bem, é justamente aí a primeira vez em que Jesus chama a Virgem Maria de "Mulher", do mesmo modo como foi no último dia que Adão chamou Eva de "Mulher".

Façamos um adendo aqui: alguém poderia objetar que a correspondência dos dias não funciona, pois no sétimo dia, Deus não fez nada. Assim, Adão teria chamado de mulher a Eva num dos dias anteriores. A isto respondemos do seguinte modo: o livro do Gênesis traz dois relatos da criação. O primeiro, vai de Gn1,1 a Gn 1,31. O outro, vai de Gn 2,4b a Gn 2,24. A contagem dos dias ocorre no primeiro relato, e não no segundo. Neste primeiro relato, Adão e Eva são criados juntos no sexto dia. Porém, no segundo relato, Adão é a primeira coisa que Deus faz depois da criação do Céu e da Terra, e Eva é a última. Lemos em Gn 2,2, que Deus terminou "no sétimo dia a obra que tinha feito", o que nos leva à idéia de que ele tinha feito algo ainda nesse dia. Considerando que o primeiro relato é bastante genérico - pois conta num relance a criação de ambos -, enquanto o segundo é mais detalhado, contando como Adão foi adormecido e, então, Eva foi retirada dele e, em seguida, como foi o seu primeiro encontro, parece-nos que o segundo relato pode ser dito mais descritivo. Assim, a mulher teria sido criada no sábado. Logo, no sétimo dia, exatamente quando Adão a viu pela primeira vez e a chamou "Mulher". Bem, isto é uma possibilidade que nos ocorreu agora. Concluindo esse adendo, façamos outro: o Sábado é, para os católicos, um dia consagrado a Maria. Talvez isso tenha alguma causa providencial com o que acabamos de descrever. Voltemos. Estamos nas Bodas de Caná.

Falta vinho, e Maria vem falar com Jesus: "Eles já não têm vinho", ao que Jesus responde: "Mulher, isto compete a nós? Minha hora ainda não chegou." (Jo 2,3-4)

A primeira coisa a se observar é que a resposta é um tanto estranha, mas muito reveladora.

Por que Jesus a chama de "Mulher"? Não é este um modo estranho de tratar a própria mãe? Será que Jesus não a considerava Sua mãe? Isto não procede, pois o Evangelho de Lucas nos diz que Ele lhe era obediente. (Lc 2,51) Além disso, poderia Ele mesmo negar que pelo fato de ter nascido do seu ventre, era, portanto, segundo a natureza, seu filho? Óbvio que não. Estava, ainda, obrigado pela lei - pois nasceu submisso à lei, conforme diz Paulo (Gl 4,4-5) - a honrar a Sua mãe. E mesmo que não o estivesse, sabemos que Ele, que é Deus mesmo, jamais a desonraria. João mesmo diz várias vezes que ela é mãe de Jesus. Ora, a maternidade é uma qualidade que só existe quando em relação com um filho. Portanto, Jesus era seu filho e ela era Sua mãe. Por que, então, Jesus a chama "Mulher"?

Na genealogia de São Lucas, Jesus é remontado a Adão. Assim, Ele assume o papel de Novo Adão, aquele que será o primeiro da humanidade redimida. Paulo O chama de "segundo Adão" (1Cor 15,45), e o confirma em Rom 5,12-21. Ora, vimos que João relaciona intimamente o seu evangelho com o livro do Gênesis. Vimos também que quando Adão vê Eva pela primeira vez, ele, que nomeava todos os seres, lhe chamou "Mulher". (Gn 2,23) Aqui, numa passagem que revive o Gênesis, Jesus chama a Virgem de "Mulher", relembrando o que Adão fez a Eva. Ora, se Jesus é o Novo-Adão, quem é a Nova-Eva? Maria, obviamente!



E aqui, a festa de casamento assume um outro relevo. Assim como Adão e Eva casaram-se a fim de dar origem à descendência humana, assim também há um casamento espiritual entre o Novo-Adão e a Nova-Eva no que concerne à geração dos filhos da graça. Eva é chamada, no Gênesis, "mãe dos viventes". Maria também o será, obviamente, mas num sentido espiritual. Esta nova união, que marca a Nova Aliança, porém, tem um desfecho distinto do primeiro. No Gênesis, a coisa culminou com Eva conduzindo Adão ao pecado. Aqui, ao contrário, Maria como que conduz Jesus ao início da Sua obra.

Note ainda o que Jesus lhe diz: "Minha hora ainda não chegou". Ora, se não chegou então não chegou. Porém, Jesus realiza aí o Seu primeiro milagre. Isto significa que foi Maria quem propiciou isto. Ela antecipou a hora, e isto lhe dá uma relevância imensa no plano da Salvação. Jesus a obedeceu. Ou isso, ou era falso que a Sua hora ainda não tinha chegado. Penso que a conclusão de que Jesus mentiu é mais repugnante aos protestantes que a conclusão de que Jesus a obedeceu num momento tão crucial. Note o leitor que estas relações de fato não são arbitrárias e tampouco novas. Veremos que os primeiros leitores do Evangelho de João estavam muito conscientes disso tudo. Falaremos deles a seu tempo. Observemos agora o livro do Apocalipse.

"Apareceu em seguida um grande sinal no céu: uma Mulher revestida do sol, a lua debaixo dos seus pés e na cabeça uma coroa de doze estrelas. Estava grávida e gritava de dores, sentindo as angústias de dar à luz. Depois apareceu outro sinal no céu: um grande Dragão vermelho, com sete cabeças e dez chifres, e nas cabeças sete coroas. Varria com sua cauda uma terça parte das estrelas do céu, e as atirou à terra. Esse Dragão deteve-se diante da Mulher que estava para dar à luz, a fim de que, quando ela desse à luz, lhe devorasse o filho. Ela deu à luz um Filho, um menino, aquele que deve reger todas as nações pagãs com cetro de ferro. Mas seu Filho foi arrebatado para junto de Deus e do seu trono. A Mulher fugiu para o deserto, onde Deus lhe tinha preparado um retiro para aí ser sustentada por mil duzentos e sessenta dias." (Apo 12,1-6)


Este trecho retoma evidentemente algumas figuras do Gênesis, como a Mulher e o Dragão, a "primitiva serpente", que é obviamente a do Gênesis. Lembremos que o Apocalipse foi escrito pelo mesmo João que escreveu o Evangelho e que construiu aquelas relações com o primeiro livro. João é também o Apóstolo que viveu com a Virgem, em Éfeso, depois da morte de Jesus. Toda a tradição que virá daí será sempre muito mariana, conforme veremos.

Esta Mulher, no Apocalipse, é descrita com mais detalhes do que no Gênesis. Ela tem uma coroa de 12 estrelas, número que relembra tanto as 12 tribos de Israel quanto os 12 apóstolos, sendo estes últimos os chefes das tribos do Novo Testamento. Este fato parece ter relação com a Doutrina ensinada por eles, a chamada "Doutrina dos Apóstolos", a ortodoxia da Fé. O fato pode simbolizar também que ela seja rainha - pois está coroada - das 12 tribos, isto é, de todo o povo de Deus.


Ela está também vestida de sol, sendo que o sol sempre simbolizou o próprio Deus. As vestes geralmente representam o grau moral de uma pessoa. Se ela é pecadora, as vestes são vermelhas. Se é pura, são brancas. Uma mulher revestida de sol indica que está coberta do próprio Deus, num estado muito superior à mera pureza. Isto faz lembrar a anunciação de Gabriel que a declara plena da Graça, e de que falaremos mais detalhadamente depois. Seja como for, Deus está nela.

Tem a lua debaixo dos pés. A lua sempre foi associada à Virgem Maria, pois, assim como esta, ela não tem luz própria. O que se vê nela é a luz refletida do sol. Assim também, a grandeza de Maria é um reflexo da luz divina. Mas houve quem visse na lua o símbolo da inconstância, da oscilação, e que por Maria estar sobre a lua se indicava a firmeza plena e total da sua resolução, a total superação de qualquer inconstância. O "fiat" de Maria foi definitivo, sem retorno, sem olhares retroativos, sem reconsiderações. Foi um "sim" absoluto.

Porém, a "mulher", sobretudo em Apocalipse, tende a ser vista como um símbolo da Igreja, e de fato ela o é. Mas, assim como em Gênesis, o fato de ela simbolizar uma realidade não impede que simbolize outra. Por exemplo, o vinho simboliza tanto a alegria, quanto o mistério, quanto o próprio sacrifício de Cristo. O leão pode, a depender do contexto, simbolizar tanto o Cristo quanto o demônio. A profecia que Jesus faz sobre Jerusalém em Mc 1-13 diz respeito tanto à destruição do Templo pelo general romano Tito, quanto ao fim dos tempos. Porém, a explicação alegórica repousa sobre a literal. No caso que estamos observando, veremos que existe a mesma dificuldade, no Apocalipse, que encontramos em Gênesis: a mulher é mãe de Jesus. Ela é mãe do menino que regerá as nações pagãs com cetro de ferro, o que faz lembrar o Salmo 2,9 e o 110,2. Portanto, em primeira instância, não é a Igreja quem está sendo referida, mas a mãe do Cristo.

Porém, o trecho fica um tanto confuso quando, por exemplo, João relata, depois do supracitado, a luta entre Miguel e o demônio, que ocorreu antes da criação do homem. Assim, o que se tem não é exatamente uma sucessão direta de eventos, mas o entrelaçamento de acontecimentos que, a despeito de sua distância no tempo, têm íntima relação.

Quais seriam as dificuldades de se atribuir todo este texto a Maria? De fato, há algumas. A primeira é que a mulher grita em dores de parto. Segundo a tradição católica, a Virgem Maria não sentiu essas dores, e isto pelo fato de ter mantido a virgindade. As dores são resultado de um espaçamento de tecidos que faz perder a integridade física que caracteriza a virgindade feminina. Assim, ainda que uma mulher engravide sem perder a virgindade - o que é possível -, ela necessariamente a perderá no momento do parto, se o parto for normal. A virgindade de Maria foi mantida - e nisso creram todos os cristãos até a modernidade - pelo que ela não sentiu as dores do parto. São Cirilo de Alexandria costumava descrever este milagre através de uma analogia: assim como o raio de sol atravessa o vidro sem violentá-lo, assim também Jesus teria entrado e saído de sua mãe sem destituí-la de sua virgindade. É comum também que se use o exemplo de Jesus ressurreto entrando no cenáculo estando as portas fechadas e saindo de lá também sem abrir as portas. Santo Afonso de Ligório julgou ver um indicativo da ausência de sofrimento em Maria no próprio Evangelho de Lucas. Este escreve: "Estando eles ali, completaram-se os dias dela. E deu à luz seu filho primogênito, e, envolvendo-o em faixas, reclinou-o num presépio." (Lc 2,6) Sto Afonso nota que o movimento da reclinação é incomum a alguém que recém deu à luz, de modo que haveria aqui um sinal de que Maria não teria sofrido no parto.

A personagem do Apocalipse, no entanto, sofre as dores de parto.


"Quem é essa mulher? - pergunta o Pe. Gabriele Amorth - É frequente na Bíblia uma mesma figura representar uma multiplicidade de sujeitos. Essa mulher pode representar a Igreja; pode representar o povo hebreu; seguramente representa Maria, dado que o seu Filho é Jesus." (2014, p.102)


Vamos considerar as três possibilidades do significado da mulher, que, lembramos, não são mutuamente excludentes: Maria, a Igreja e Israel.

Considerando que seja Maria, a primeira possibilidade é que a Tradição Católica esteja incorreta e que ela tenha sentido as dores de parto. Mas, assim, ela teria perdido a Virgindade. Porém, se tivesse perdido a Virgindade, não haveria motivo para abster-se das relações sexuais com José. Teria tido, assim, outros filhos. Porém, é facílimo de comprovar que Jesus foi filho único. Uma antiga tradição afirma que tanto a Virgem quanto São José, mesmo antes de se conhecerem, já haviam feito voto de castidade. E não é uma tradição flutuante. Ela parece fundamentar-se na própria escritura, mas disso não trataremos neste artigo.

Supondo que a mulher seja Maria, ainda, o que nos resta é entender as dores de parto como dores simbólicas. E isto poderia se referir, de um lado, à recusa de abrigo por ocasião do nascimento de Jesus. Consideramos esta possibilidade, porém, muito inverossímil. Por outro lado, a que julgamos fazer mais sentido entende as dores de parto como as dores da Cruz, pois, ali, de fato, Maria se torna novamente mãe, uma vez que Jesus entrega aos seus cuidados o "discípulo amado", que seríamos todos nós.

Esta parece ser a posição de São Pio X que escreveu:


"Que nascimento foi esse? Certamente foi o nascimento de cada um de nós que, ainda no exílio, estamos sendo gerados para a perfeita caridade em Deus e para a felicidade eterna. E as dores do parto mostram o amor e o desejo com que a Virgem do céu, lá de cima, cuida de nós, e se esforça com incansável oração para completar o número dos eleitos."


A dificuldade desta possibilidade é que, segundo o Apocalipse, as dores de parto antecedem o nascimento daquele que regerá com cetro de ferro, isto é, Jesus. Literais ou simbólicas, essas dores parecem ter de vir antes.

Por isso, parece-nos ter mais sentido o que o Dr. Scott Hahn escreve a este respeito:

"Alguns se opuseram quanto às dores de parto da mulher, que pareciam contradizer à longa Tradição de que Maria teria dado à luz sem as dores do parto. Muitos cristãos acreditam que, uma vez que Maria foi concebida sem o pecado original, ela estaria isenta das maldições de Gênesis 3,16; portanto, não sentiria qualquer sofrimento no parto. Ora, o sofrimento de uma mulher não necessariamente está relacionado às dores físicas do parto. Em outras passagens do Novo Testamento, São Paulo usa a dor do parto como uma metáfora para o sofrimento espiritual, para o sofrimento em geral, ou mesmo para o longo tempo de sofrimento do mundo na expectativa da Redenção no fim dos tempos (Gl 4,19; Rm 8,22). O sofrimento da mulher do Apocalipse poderia representar o desejo de trazer Cristo ao mundo; ou poderia representar os sofrimentos espirituais como o preço da maternidade de Maria."(p.54-55)

Porém, a coisa complica ainda mais se considerarmos que a mulher, neste ponto específico, é um símbolo da Igreja, pois como a Igreja poderia sentir as dores de parto se não é mãe do Cristo? Ela, é verdade, pode ser dita mãe dos cristãos - embora me pareça que mesmo esta designação soe estranha aos ouvidos protestantes. Porém, como dito logo acima, às dores se segue o nascimento do Cristo. Portanto, a mulher é necessariamente mãe do Cristo. E se alguém insistir em contestar, pedimos que responda francamente a esta pergunta: é a Igreja mãe de Jesus? E, no caso imprevisto de uma resposta afirmativa, perguntamos: com base em quê se o afirma?

Uma terceira possibilidade que geralmente se levanta é que a mulher seja Israel. De fato, isto se harmonizaria com algumas coisas, como, por exemplo, nas dores de parto - era um tempo difícil em Jerusalém -, nas doze estrelas - que simbolizaria as doze tribos - e em ser mãe do Messias, uma vez que este, vindo de Israel, é seu filho, especificamente da Casa de Davi, da tribo de Judá.


No entanto, como o Apocalipse versa sobre o fim dos tempos, não se nota porque Israel teria um papel fundamental de luta contra o Dragão, uma vez que se trata de um texto cristão e que a Igreja cristã extrapolou e se desvinculou de Israel, ao menos social e politicamente. Ademais, vimos também que o relato retoma as figuras do Gênesis, que dizem respeito a Jesus e a Maria. Depois, é o mesmo João que exprimirá as relações entre Gênesis e o seu Evangelho, atribuindo novamente o papel da Mulher a Maria.

O texto então se refere a uma série de afirmações que parecem, agora, melhor se adequar à Igreja. Vejamos:

"A Mulher fugiu para o deserto, onde Deus lhe tinha preparado um retiro para aí ser sustentada por mil duzentos e sessenta dias." (Ap 12,6)

Alguns julgaram ver aqui uma referência à famosa fuga ao Egito que José e Maria empreenderam quando estavam a fugir de Herodes. É possível? É. Quanto tempo Jesus e seus pais ficam no Egito? O Evangelho de Mateus, único a relatar o fato, não diz. No entanto, 1260 dias é um número conhecido. Ele aparece em outro texto do Apocalipse, como 42 meses (Apo 13,5), e como "um tempo, dois tempos e metade de um tempo" (12,14), o que lhe é equivalente. Esta última expressão e este tempo aparecem também em trechos de Daniel (7,25; 9,27 e 12,7). Em todos estes textos, o Templo de Deus está sendo perseguido pelo invasor, o que estabelece a "abominação da desolação". Portanto, pode-se sugerir que a Mulher em questão aí simboliza também a Igreja. O deserto, na tradição bíblica, é sempre o lugar para onde fogem os perseguidos. A Igreja, no mundo, será perseguida e deverá viver da vida divina, sendo uma força não mundana. Este exílio cessa depois de um tempo. O Apocalipse nos mostra que o término coincide com a Parusia.

Então, possivelmente há aí um texto que traz, fundidas, essas duas figuras: Maria e a Igreja. O Dr. Scott Hahn, a este respeito, escreve:

"A tipologia bíblica nos leva a ver Maria como a nova Eva, a mãe de todos os viventes, a mãe da aliança da Família de Deus. A tipologia também nos mostra maria como a noiva de Cristo. No auge das Escrituras, porém, no livro do Apocalipse, aquela noiva e mãe é identificada também com a Igreja. 

O Apocalipse nos mostra a unidade mística entre a mulher que trabalha para dar à luz o Cristo (e seus irmãos) e a noiva do Cordeiro revelada no clímax da história. A mãe, a noiva, a mulher... é Maria. A mãe, a noiva, a mulher... é a metrópole da Nova Jerusalém: a Igreja." (p. 105)

"Eu disse que a identificação de Maria com a Igreja é algo místico, mas isso não significa ser metafórico. A tipologia bíblica é mais do que uma mera convenção literária. Para a Bíblia, é mais do que uma literatura, pois a Bíblia é história. Então, a tipologia é mais do que histórica, é profética. Ainda assim, é mais do que uma profecia, é uma realidade. E, ainda mais do que uma realidade, a tipologia é uma eternidade. Quando falamos de Maria como Mãe e arquétipo da Igreja, estamos falando de uma verdade permanente, uma pessoa viva e real e de uma verdade que é essencial ao plano de Deus para o cosmos." (p. 105-106)


E ainda:

"Maria é a figura central do Apocalipse porque, assumida no céu, onde reina, [vive] o cumprimento da realidade, realidade esta da qual a Igreja em si mesma é simplesmente um tipo. Ela é a Virgem, Mãe, Esposa de Cristo, a Jerusalém Celestial, a metrópole que é a Cidade de Deus; o arquétipo celestial." (p. 108)


Arca da Aliança, o Evangelho de Lucas e o Apocalipse


No Antigo Testamento, no Lugar Santíssimo, onde Deus se manifestava e apenas o Sumo Sacerdote podia ir uma vez ao ano, estava a Arca da Aliança, uma espécie de recipiente feito de madeira de acácia, com revestimento de ouro por dentro e por fora e um bordado de ouro ao redor. Em cima dela, havia dois querubins de ouro, construídos por ordem de Deus. Dentro dela estavam três coisas: as Tábuas da Lei, o Maná do Céu e a Vara de Aarão. Se alguém entrasse indevidamente no Lugar Santíssimo ou meramente tocasse na Arca morria instantaneamente. O livro de Levítico narra o episódio em que dois filhos de Aarão, Nadab e Abiú, que eram sacerdotes, por oferecerem um tipo estranho de incenso, distinto do que lhes havia sido prescrito, foram mortos. "Saiu, então, um fogo de diante do Senhor que os devorou, e morreram diante do Senhor." (Lv 10,2)

Isto talvez dê alguma idéia da seriedade de Deus e da sacralidade da Arca. Seis séculos antes de Cristo, por volta de 587 a.C., os babilônios invadiram o Templo, e o profeta Jeremias, para que a Arca não fosse profanada, a escondeu. Lemos em 2Mc 2,5-8:

"No momento em que chegou, descobriu uma vasta caverna, na qual mandou depositar a arca, o tabernáculo e o altar dos perfumes; em seguida, tapou a entrada. Alguns daqueles que o haviam acompanhado voltaram para marcar o caminho com sinais, mas não puderam achá-lo. Quando Jeremias soube, repreendeu-os e disse-lhes que esse lugar ficaria desconhecido, até que Deus reunisse seu povo e usasse com ele de misericórdia. Então revelará o Senhor o que ele encerra e aparecerá a glória do Senhor como uma densa nuvem."

A Arca ficou sempre, desde então, o objeto de busca dos judeus, pois encontrá-la significaria que Deus havia usado de misericórdia para com Israel e iria revelar os Seus segredos. E se nós dissermos que os católicos conhecemos onde a Arca da Aliança está? Mais: se nós dissermos que ela é uma pessoa? Foi o que pelo menos João e Lucas disseram, e, com eles, os primeiros cristãos criam na mesma coisa. Duvida? Vamos ver?

Lucas, que era um intelectual bastante respeitado na antiguidade, soube fazer um paralelo interessantíssimo entre o seu evangelho e alguns trechos do Antigo Testamento. O livro de 2 Samuel narra as viagens de Davi levando a Arca da Aliança para Jerusalém. No início da viagem, diz-se que Davi, junto com sua comitiva, "pôs-se a caminho" (2Sm 6,2) . Já Lucas, em 1,39, inicia a visita de Maria a Isabel do mesmo modo: "Naqueles dias, Maria pôs-se a caminho...". Tanto Davi quanto Maria vão para uma cidade de Judá. (2Sm 6,2; Lc 1,39) Diante da possibilidade de a Arca da Aliança ficar na sua casa, Davi responde: "Como virá a Arca da Aliança ficar em minha casa?" (2Sm 6,9), frase que impressionantemente é muito similar à dita por Isabel quando recebe a Virgem na sua casa: "Donde me vem que a mãe do meu Senhor venha a mim?" (Lc 1,43) Há também quem veja na dança de Davi diante da Arca um prelúdio do "salto" dado por João Batista no ventre de Isabel pela saudação de Maria. Interessante dizer ainda que a cidade onde Isabel morava é identificada com Aim-Karim, a 7 Km de Jerusalém. Já no 2 livro de Samuel, lemos no versículo 2, do capítulo 6: "Pondo-se a caminho, Davi e todo o povo que o acompanhava partiram para Baala de Judá a fim de transportar a Arca de Deus...". Notinha de rodapé da Bíblia de Jerusalém: "[Baala é] o antigo nome de Cariat-Iarim (Js 15,9; cf. Js 15,60; 18,14) Será que "Aim Karim" e "Cariat-Iarim" não seriam a mesma cidade, mudado apenas o modo de escrevê-la? - Acabei de olhar. São a mesma cidade sim. =)

Depois, a arca permaneceu na casa de Obed-Edom de Gat por três meses (2Sm 6,10), o mesmo tempo em que a Virgem fica na casa de Isabel (Lc 1,56). Será coincidência tudo isso?

Veja então o seguinte trecho:

"Então a nuvem cobriu a tenda de reunião e a glória do Senhor encheu o tabernáculo. E era impossível a Moisés entrar na tenda de reunião porque a nuvem pairava sobre ela, e a glória do Senhor enchia o tabernáculo." (Ex 40,34-35)

Sabemos que o que tornava o tabernáculo tão santo era a Arca da Aliança. Agora observe o que Gabriel diz à Virgem:

"O Espírito Santo descerá sobre ti, e a força do Altíssimo te envolverá com a sua sombra." (Lc 1,35)

Achou forçação de barra relacionar os dois trechos? E se nós dissermos que o termo usado em ambos os textos é o mesmo? Com efeito, a palavra grega "episkiasei" pode ser traduzida como "ensombrar". Lucas a usou conscientemente, querendo com isto relacionar os dois eventos. Observe a comparação dos originais:

Καὶ ἐκάλυψεν ἡ νεφέλη τὴν σκηνὴν τοῦ μαρτυρίου, καὶ δόξης κυρίου ἐπλήσθη ἡ σκηνή·
καὶ οὐκ ἠδυνάσθη Μωυσῆς εἰσελθεῖν εἰς τὴν σκηνὴν τοῦ μαρτυρίου, ὅτι ἐπεσκίαζεν ἐπ᾽ αὐτὴν ἡ νεφέλη καὶ δόξης κυρίου ἐπλήσθη ἡ σκηνή. (Ex 34-35)

Agora, o texto de Lucas:

καὶ ἀποκριθεὶς ὁ ἄγγελος εἶπεν αὐτῇ Πνεῦμα Ἅγιον ἐπελεύσεται ἐπὶ σέ, καὶ δύναμις Ὑψίστου ἐπισκιάσει σοι· διὸ καὶ τὸ γεννώμενον ἅγιον κληθήσεται Υἱὸς Θεοῦ. (Lc 1,35)

Para completarmos este tema, sabemos que o dia principal da Antiga Aliança era o chamado "Dia da Expiação" - Yom Kippur - em que o Sumo Sacerdote entrava no Santo dos Santos ou Lugar Santíssimo para derramar o sangue dos touros oferecidos por si mesmo e sua família e pela assembléia. Esta purificação definitiva ocorreu na Cruz do Senhor, e é por isso que logo em seguida à morte de Jesus, o véu do templo, aquele que separava o Santíssimo do povo, é rasgado. Há uma série de paralelos aqui que é preciso explicar.

1º - O Sangue das vítimas era apenas um prelúdio do sangue de Cristo. Se ele era derramado em frente da Arca da Aliança, convinha que o Sangue antitípico também fosse derramado diante da antitípica figura da Arca da Aliança, isto é, Maria. E, de fato, a Virgem estava de pé, diante da Cruz.

2º - A Arca da Aliança era o meio através do qual Deus se manifestava. Jesus, em doar a Virgem Santíssima como mãe dos homens, restabelece este acesso universal a Deus através dela. Daí a doutrina de santos católicos, como S. Luís Maria Grignion de Montfort, que afirmam que Deus, na nova aliança, haverá de reinar por meio de Maria, assim como na Antiga Lei Ele se manifestava por meio da Arca.

3º - Na cruz se realiza a correção do pecado adâmico: diante de uma árvore, Adão e Eva pecaram. Diante de outra árvore - a da Cruz - O Novo Adão e a Nova Eva estabelecem uma fidelidade definitiva. O fruto de Adão e Eva tinha sido o pecado. O novo fruto agora é a Redenção. Por isso, o templo de Jerusalém com os seus sacrifícios e sua liturgia não são mais necessários. É o nascimento da Igreja, que tem uma nova Arca da Aliança, um novo Sacerdócio, uma nova Páscoa, um novo Maná - a Eucaristia - e uma Lei que aperfeiçoa a antiga.

4º - O próprio nome "Arca da Aliança" expressa que é um ente relacionado à Aliança. Ora, há duas Alianças: a antiga e a nova. Logo, assim como há uma Arca da Aliança antiga, deve necessariamente haver uma da Nova.

Agora, resta-nos observar o Apocalipse. Notemos, antes disso, que João é aquele que recebeu a Virgem em sua casa, como ele mesmo escreve no seu evangelho. Esta casa era em Éfeso. Isto é importante também para entender por que ele, que escreverá o Apocalipse, é precisamente o que fará, de um modo ainda mais explícito, a relação entre a Virgem e a Arca da Aliança. Importante também desde já considerar que a divisão dos livros do Novo Testamento em capítulos e versículos foi feita pela Igreja muito tempo depois de terem sido escritos. Tendo isto em mente, vamos ao texto:

"Abriu-se o templo de Deus no céu e apareceu, no seu templo, a arca do seu testamento. Houve relâmpagos, vozes, trovões, terremotos e forte saraiva. Um sinal grandioso apareceu no céu: uma Mulher vestida com o sol, tendo a lua sob os pés e sobre a cabeça uma coroa de doze estrelas."(Apo 12,19-20,1)

Para um cristão, é um tanto difícil apreciar devidamente a força do que João escreve. De fato, dizer que tinha visto a Arca da Aliança, desaparecida há tanto tempo, era uma coisa grandiosa. Escreve o Dr Hahn:

"Para os judeus do primeiro século, o choque do Apocalipse foi certamente o relato de João no final do capítulo 11. É aí então que, após ouvir os toques das sete trombetas, João vê o templo no céu aberto (Ap 11,19), e, dentro dele, um milagre! - A Arca da Aliança. Essa teria sido a notícia do milênio! (...) João prepara seus leitores de várias maneiras para o aparecimento da arca, a qual se revela, por exemplo, após o toque da sétima trombeta do sétimo anjo vingador, numa clara alusão ao Israel da Antiga Aliança. Na primeira e maior batalha que Israel lutou ao entrar na terra prometida, Deus ordenou ao povo eleito carregar a arca à frente deles para o combate. Especificamente, a passagem de Apocalipse 15,11 ecoa Josué 6,13, que descreve como, durante seis dias, os quais antecederam a Batalha de Jericó, os sete sacerdotes guerreiros de Israel marcharam ao redor da cidade com a Arca da Aliança até que, no sétimo dia, eles tocassem as trombetas, fazendo ruir os muros da cidade. Para o antigo Israel, a arca foi, em certo sentido, a arma mais eficaz, pois representava a proteção e o poder de Deus Todo-Poderoso. Do mesmo modo, o Apocalipse mostra que o novo e celeste Israel também combate a batalha na presença da arca. (...) Imagine que você é um leitor do primeiro século, criado como um judeu. Você nunca viu a arca, mas a religião e toda a sua educação religiosa lhe ensinaram a todo instante sobre a restauração do templo. João a realiza antecipadamente, de modo que quase parece estar provocando seus leitores, ao descrever o som e a fúria que acompanhavam a arca. A dramática tensão se torna quase insuportável. O leitor quer ver a arca como João a vê. O que se segue, então, é chocante! Nas nossas bíblias atuais, depois de todo esse desenvolvimento, a passagem, de repente, dá uma parada brusca como o capítulo 11 a conclui. João nos promete a arca, mas parece pôr em cena um final abrupto. Devemos ter em mente, entretanto, que as divisões em capítulos no Apocalipse, bem como em todos os livros bíblicos, é artificial, feita por escritores na Idade Média. Logo, não há capítulos no livro original de João; tudo era uma narrativa contínua.

Assim, os efeitos especiais do final do capítulo 11 serviram como um prelúdio imediato para a imagem que, agora, aparece no capítulo 12. Podemos ler essas linhas juntos como que descrevendo um único evento. (...) João nos mostra a Arca da Aliança... e é uma mulher." (p.47-50)

Queremos chamar a atenção primeiramente para a relação que o Dr. Hahn percebeu entre as sete trombetas do Apocalipse, o livro de Josué e a Arca da Aliança nos dois episódios. Isso é interessantíssimo, e se o leitor julga que estes paralelos não são convincentes, há que se perguntar sobre suas disposições.

Enfim, temos aí a explicação de que estes textos do apocalipse só podem ser entendidos se forem lidos como uma continuidade, e não como a transição entre capítulos que versariam sobre temas diferentes. Não faria sentido que João, depois de tanto preparar a vinda da arca, deixasse de tratar dela tão logo a visse. Assim como possuía um papel central no antigo Israel, a Arca tem um papel central também no novo.

E se fizermos uma abstração dos trechos bíblicos - pois todo este artigo é uma concessão aos que defendem a Sola Scriptura, lembrando que não estamos dependentes dela, pois, como já provamos diversas vezes, nem sentido ela tem -, quais seriam os motivos pelos quais a Virgem Maria seria a Nova Arca da Aliança? Como a Bíblia trabalha com tipos, terá algo na Arca que simbolize a Virgem? Vejamos.

Arca da Aliança - está entronizada no Templo de Deus, e tem dentro de si as Tábuas da Lei, o Maná e a vara de Aarão.

Virgem Maria - há uma conhecidíssima tradição que afirma que a Virgem foi consagrada a Deus no Templo quando tinha apenas 3 anos, lá ficando até os 12, época em que uma moça podia casar. De fato, daí a pouco, Maria engravidou pelo Espírito Santo. Estando grávida de Jesus, Maria realizava as outras condições da Arca: tinha dentro de si não o Maná simbólico, mas o próprio Pão do Céu, como Jesus se autodefine, a Eucaristia, que nascerá em "Bethlehem", a "Casa do Pão". Será portadora não da vara de Aarão, mas do próprio Sumo Sacerdote eterno, de um sacerdócio que não é o de Aarão, mas é o de Melquisedec, mais perfeito. Por fim, Maria trará no seu seio não as tábuas de pedra da Lei, mas o próprio Autor da Lei. Importante dizer que "mandamento" em hebraico se escreve "dabar", que é traduzido ao pé da letra por "palavra", "lógos", em grego. Daí a expressão "Decálogo" ou "Dez palavras". "Lógos" é o termo usado por João para falar de Jesus no prólogo do seu Evangelho. A maioria das versões o traduziu por "Verbo". Maria traz em si o próprio Verbo, que é o Logos, que é o Dabar.

Rainha Mãe


É significativo que se diga, desde a antiga tradição judaica, que o Messias seria da Casa de Davi. As profecias o afirmavam, e de fato este era um dos principais critérios para a identificação do Cristo. Com efeito, havia duas informações aparentemente desencontradas: a primeira esperava que, como Melquisedec, Ele não tivesse genealogia. É por isso que os judeus, não aceitando o messianismo de Jesus, diziam: "Não é este o filho de José? Não é Maria a Sua mãe?" Mas também era estabelecido que Ele nasceria em Belém e que seria da casa de Davi.

Este ponto é absolutamente essencial para o tema que estamos aqui tentando abordar. E por que Davi é tão importante para Israel? O Dr. Hahn responde:

"Foi esse reino [de Davi] que deu ao antigo Israel sua visão de reino do Messias. O segundo rei hebraico, Davi, unificou as doze tribos e estabeleceu Jerusalém como a capital da nação e seu centro espiritual. O povo reverenciava Davi por sua retidão, justiça e fidelidade ao Senhor. Os sucessores de Davi, no entanto, nunca conseguiram viver para ver as virtudes do seu antecessor. Por considerarem que Davi unificou a nação, os reis posteriores incutiram ressentimentos entre as tribos, que acabaram ocasionando uma revolta e a dissolução do reino unificado de Israel. Enfraquecido, Israel tornava-se mais vulnerável a seus inimigos estrangeiros. A partir do momento em que Israel foi atacado por invasores babilônicos, o povo foi exilado no cativeiro e a linhagem de Davi foi completamente, ou quase completamente, dizimada. Sedecias, o último rei davídico, foi posto a assistir a execução pelos caldeus, seus inimigos, de todos os seus filhos, para que, em seguida, lhe furassem os olhos. Desta forma, a última imagem gravada por Sedecias em sua memória seria a dos cadáveres de seus filhos degolados e o aparente fim da dinastia davídica. (2Rs 25,7)

Por meio do exílio e de todos os altos e baixos de sua história subsequente, o povo de Israel olharia para trás, para o reino de Davi, como um modelo; e olhariam para a frente, para o seu futuro com a vinda do Messias, o Ungido, rei-Sacerdote de Deus. Mesmo nos dias de Jesus, os fariseus não hesitaram em identificar o Messias como 'o Filho de Davi' (Mt 22,42). Pois o Senhor tinha prometido a Davi que um rei em sua linhagem governaria um dia todas as nações, e ele reinaria para sempre: 'Eu vou levantar sua descendência depois de ti, que sairá de seu corpo. E eu confirmarei o trono do seu reino para sempre. Eu serei seu pai, e ele será Meu filho' (2Sm 7,12-14). Encontramos a promessa mencionada no livro dos Salmos assim: 'O Senhor jurou a Davi e não retirará sua palavra: 'É o fruto de tuas entranhas que vou colocar no teu trono! Porque o Senhor escolheu Sião, ele a quis para sua morada: 'É este o meu repouso para sempre; aqui vou morar, porque o desejei' (Sl 132,11-13).

Os profetas expressaram a combinação de nostalgia e saudade de Israel e predisseram a vinda do Messias com incrível precisão. Mesmo antes da época de Sedecias, Isaías predisse que a linhagem de Davi - linhagem do tronco do pai de Davi, Jessé - seria reduzida a um 'broto', 'um ramo', mas de cujo broto viria adiante 'a justiça', 'a morada': o Messias (Is 11,1). 'Ouvi, então, vós da casa de Davi [...]. O próprio Senhor vos dará um sinal. Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho, e lhe porá o nome de Emanuel' (Is 7,13-14)." (p.61-63)

Na sua genealogia, Mateus faz Jesus descender de Davi (cf. Mt 1,1) Que Jesus fosse da casa de Davi não era um pormenor destituído de valor, uma vez que o próprio Deus, porque o desejou, predeterminou desde antes que assim seria e o comunicou ao Seu povo. A genealogia de Mateus, porém, apresenta algumas diferenças das genealogias judaicas. Como sabemos, a referência bíblica da família de alguém é geralmente masculina. Deus mesmo se declara o Deus de Abraão, Isaac e Jacó, que nada mais são do que uma descendência. Mateus, porém, inclui na sua genealogia 4 mulheres, algo inédito. Estas mulheres, pior, trazem traços não muito apreciados pelo moralismo judaico. Elas são: Tamar (1,3), uma cananeia que fez sexo com seu sogro (Gn 38,15-18); Raab (Mt 1,5), prostituta e cananéia pagã (Js 2,1-24); Rute (Mt 1,5), pagã moabita; e Betsabá, esposa de Urias, com quem o rei Davi cometeu adultério. Por que será que Mateus faz isso?

O Dr. Hahn vê nisso um modo de responder antecipadamente aos críticos de Jesus que vissem na afirmação do seu nascimento virginal um motivo de ironia. Inclusive, ele diz que Jesus, em alguns trechos do Talmud, é chamado de "bastardo", pois referenciar um homem pela sua mãe era algo insultuoso. Ao relembrar, porém, aos judeus o papel dessas mulheres na ascendência de Salomão, que era o próprio tipo da filiação davídica, sendo Betsabá a sua mãe, Mateus os calava de antemão, pois que se poderia falar de uma Virgem em comparação com estas outras mulheres que, não obstante, ocupam lugar tão importante nos fatos bíblicos?

Para prosseguirmos, convém notar algumas relações entre o Apocalipse e os Salmos do Rei Davi. No Salmo 2, conhecido como "O salmo do Cristo"ou "do Ungido", lemos: "Por que tumultuam as nações? Por que tramam os povos vãs conspirações? Erguem-se, juntos, os reis da terra, e os príncipes se unem para conspirar contra o Senhor e contra seu Cristo. Dirigindo-se a eles em cólera, ele os aterra com o seu furor." (1-2;5) Isto parece se aproximar com o relato mais sintético de Apocalipse 11,18: "Irritaram-se os pagãos, mas eis que sobreveio a tua ira." A referência ao "cetro de ferro em Ap 12,5 é também uma retomada do Sl 2,8-9. Com isso, queremos mostrar as relações entre o Rei Davi e o livro do Apocalipse.

O traço mais importante dessa referência davídica, porém, ainda está por vir.

Em Israel, Davi era rei. Logo, Israel é uma monarquia. Naquela época, era comum que o rei tivesse várias esposas. Vemos que Salomão, filho de Davi, possuía 700 esposas, mais 300 concubinas. Numa tal situação, era muito complicado descobrir quem deveria ser reconhecida pelo povo como rainha e quem deveria ter direito à sucessão ao trono. No Oriente Médio, na maior parte das vezes, esse problema foi resolvido elegendo a mãe do rei como rainha. Isto era conveniente também pelo fato de que ela personificava a continuidade do império enquanto esposa do rei anterior e mãe do atual. Israel, que queria um rei para si, "como todas as outras nações" (1Sm 8,19-20), estabeleceu uma dinastia e adotou então este costume de honrar o rei e a rainha mãe.

Salomão, o protótipo do Rei de Israel, o tipo do Messias, reinará com a sua mãe, Betsabá, sentada à sua direita. Este posto de Rainha Mãe de Israel, que recebe o nome de Gebirah (grande dama), será mantido durante toda a descendência davídica. Mesmo quando os babilônios invadem Jerusalém e deportam a família real para a Babilônia, Neústa, mãe do rei Joaquim, é citada com destaque entre as suas esposas (Cf 2Rs 24,15; Jr 13,18).

O Dr. Scott Hahn esclarece:

"Entre Betsabá e Neústa havia muitas rainhas-mães. Algumas trabalharam para o bem, outras não; mas nenhuma era uma simples figura decorativa. Gebirah era mais do que um título; era uma função com autoridade real." (p.66-67)

Em seguida, ele chama a atenção para uma passagem que descreve a relação real entre Salomão e a sua mãe:

"Então Betsabá foi ao rei Salomão para lhe falar sobre Adonias. O rei se levantou para recebê-la e se inclinou diante dela. Depois se assentou no trono, mandou trazer um trono para a sua mãe, e Betsabá se sentou à sua direita." (1Rs 2,19)

Hahn continua:

"Esta curta passagem nos traz considerações implícitas sobre o protocolo e o poder de estrutura da corte de Israel. Inicialmente, vimos que a Rainha-Mãe se aproximava de seu filho a fim de falar-lhe em nome de outra pessoa. Isso nos confirma o que já sabemos sobre as rainhas-mães nas outras culturas do Oriente Médio. Vemos no épico de Gilgamesh, por exemplo, que a Rainha-Mãe, na Mesopotânia, foi considerada uma intercessora, ou advogada, do povo.

Em seguida, percebe-se que Salomão se levantou de seu trono quando sua mãe entrou no recinto. Isso dá um destaque ao assunto sobre o qual a Rainha-Mãe queria tratar com o rei. Qualquer outra pessoa que viesse à presença do rei deveria seguir o protocolo, mesmo suas mulheres deveriam curvar-se diante dele (1Rs 1,16). Contudo, Salomão se levanta para honrar Betsabá, mostrando mais respeito por ela ao curvar-se e lhe dar o lugar de maior honra, ao seu lado direito. Sem dúvida, esse episódio descreve um ritual da corte no tempo de Salomão, mas um ritual que expressa um relacionamento real. O que nos dizem as atitudes do rei Salomão quanto ao relacionamento com sua mãe?

Inicialmente, seu poder e autoridade não são, de forma alguma, ameaçados por ela. Ele se curva para ela, mas continua sendo o rei. Ela senta-se à sua direita e não ao contrário." (p.67)

O livro dos Provérbios, no seu capítulo 31, traz uma longa passagem que nada mais é do que o conselho que a mãe do rei de Massa, Lamuel, lhe dá.

Já o livro dos Salmos (44,10) nos confirma a Rainha sentada à direita do Rei, "ornada de ouro de Ofir."

O fato de a Gebirah ter um papel tão importante em toda a descendência davídica - sem exceção - é algo que não se pode simplesmente abstrair. Se Jesus é mesmo Rei da Casa de Davi, Ele também terá uma Gebirah.

É esta relação antítipica entre Jesus e Maria - que realiza uma série de prelúdios proféticos - que permite compreender a passagem das Bodas de Caná. Com efeito, o papel de Maria naquela festa se identifica também à função da Rainha Mãe.

Outro indício de que a casa real de Israel de algum modo retoma as figuras de Adão e Eva como reis da criação se encontra naquela frase que Adão diz assim que vê Eva pela primeira vez: "Esta sim, é osso de meus ossos e carne de minha carne" (Gn 2,23), e que se assemelha muito ao que o povo de Israel diz quando Davi é erigido seu rei: "Não somos nós teus ossos e tua carne?" (2Sm 5,1)

A frase de Adão então assume um valor profético, que se realiza parcialmente em Israel, mas que tem sua consumação com o Novo Adão e a Nova Eva, coroada de estrelas, as 12 tribos, os 12 apóstolos da Nova Israel. O Dr. Scott conclui:

"A monarquia inicial da Criação não iria atingir os propósitos de Deus nem a monarquia de Davi, mas uma bem posterior. O Novo Adão, Jesus, reinaria como havia sido prenunciado no Jardim do Éden e nos tribunais de Salomão. O Novo Adão, o Novo monarca davídico, reinaria com Sua noiva, a nova Eva, e ela seria uma mulher histórica real, a quem o Apocalipse identificaria com a Igreja. Ela seria a mãe dos viventes, a advogada do povo, a Rainha-Mãe. Ela seria Maria!" (p. 70)

A Anunciação de Gabriel


Antes de Jesus nascer, Maria foi comunicada pelo Arcanjo Gabriel desta sua vocação, ao que ela consentiu com os célebres termos: "Faça-se em mim segundo a tua palavra." Esta anunciação sempre foi vista, pelos exegetas, como uma inversão da tentação de Eva por Lúcifer. Inclusive, a saudação "Ave", que é a forma latina do grego χαιρε, sempre foi visto também como uma inversão do nome de "Eva", indicando que Maria seria uma inversão de Eva na medida em que corrige, com a sua obediência, a desobediência da primeira mãe dos homens.

De fato, todas essas relações são muito convenientes para que se compreenda o intuito divino na história da salvação. Mas o grande ponto, aqui, é o que Gabriel diz à Virgem Maria. Haveria algum tipo de "segredo" nas expressões angélicas que denunciasse alguma condição particular de Maria? Sim, há.

Quando Lucas narra a anunciação, ele descreve a primeira saudação de Gabriel do seguinte modo:

"Ave, cheia de graça, o Senhor é contigo. Não temas, Maria, pois encontraste graça diante de Deus. Eis que conceberás e darás à luz um filho, e lhe porás o nome de Jesus. Ele será grande e chamar-se-á Filho do Altíssimo, e o Senhor Deus lhe dará o trono de seu pai Davi; e reinará eternamente na casa de Jacó, e o seu reino não terá fim. O Espírito Santo descerá sobre ti, e a força do Altíssimo te envolverá com a sua sombra. Por isso o ente santo que nascer de ti será chamado Filho de Deus." Lc 1,28-35)

Conviria analisar expressão por expressão. Mas, contentemo-nos a relembrar alguns significados de certas afirmações do Anjo e, em seguida, nos deteremos numa expressão em particular, que denuncia a absoluta singularidade de Maria, mais do que as demais.

Primeiramente, notamos o seguinte: desde Adão, nomear as coisas é um ato real. O Gênesis nos diz que os nomes que Adão dava eram os nomes verdadeiros dos entes. (Gn 2,19) Isto indica uma participação na faculdade criadora de Deus. Esta participação é dada. Adão é rei porque assim Deus lhe constitui. Maria recebe o encargo de nomear o filho de Deus, que, agora, "é carne da sua carne e osso dos seus ossos". Com efeito, eles são uma só carne, já que não há participação de homem na concepção de Jesus. Tudo isto faz relembrar novamente Adão e Eva.

"O Senhor Deus lhe dará o trono do seu pai Davi". Remetemos ao subtópico anterior, onde vimos que o trono de Davi possuía necessariamente um lugar de destaque para a Mãe do Rei, a Gebirah. Será um reino que não terá fim, o que indica que o papel singular de Maria também será perpétuo.

"O Espírito Santo descerá sobre ti, e a força do Altíssimo te envolverá com a sua sombra." Também já falamos disso: a expressão aqui usada é a mesma que refere a presença divina sobre o tabernáculo antigo, cuja santidade se devia à Arca da Aliança. O Anjo Gabriel nos confirma que Maria é a Nova Arca da Aliança. E ele deve saber do que fala.

E já que ele sabe do que fala, analisemos o início da sua saudação: "Ave, cheia de graça, o Senhor é contigo". Vamos ao original:

"χαιρε κεχαριτωμενη ο κυριος μετα σου"

Posto em caracteres ocidentais, ficaria mais ou menos assim:

"Chaire, Kecharitomene, ho Kyrios meta sou"

Esta palavrinha κεχαριτωμενη (kecharitomene) é riquíssima de significado, e o usual "cheia de graça" não se aproxima senão de modo muito vago. É uma palavra composta do prefixo "ke", da palavra "Charitos", e do sufixo "Mene".

A palavra "Graça" é a tradução de "Charitos", que também é a origem de "Caridade". Isto se harmoniza perfeitamente com a teologia católica que afirma que a Caridade, virtude teologal, é dom de Deus, isto é, Graça divina. É o Espírito Santo o doador da Graça, a terceira pessoa da Santíssima Trindade e que está relacionada com a santificação da vontade - sendo Ele a processão da vontade divina -, e com o aperfeiçoamento dos entes na medida em que lhes orienta ao seu fim devido. Isto significa que a realização humana não está acessível ao esforço natural, mas deve ser concedida por Deus.

Ocorre que desde a Queda de Adão, todos estiveram privados da graça de Deus, pois esta graça é comunhão com Ele, é um estado de amizade. Como o pecado é passado por herança para todos os humanos - e o próprio cosmos o sofre -, a conclusão necessária era que o homem estava impedido de salvar-se a si mesmo. Apenas a Graça divina - que no Novo Testamento superabunda ao pecado e é fruto da Redenção operada por Jesus na Cruz - poderia trazer novamente ao homem a perspectiva da salvação. O Anjo Gabriel, ao anunciar à Virgem que ela seria Theotókos, isto é, Mãe de Deus, a declara, porém, cheia de Graça. Ora, pense o leitor, como isso é possível? Antes de explicá-lo, vamos aos demais termos.

O "Ke" inicial, que põe a expressão no "perfect tense" - uma espécie de mistura de passado e presente - indica a perfeição ou o grau máximo da qualidade referida - o estado atual de algo recebido antes -, o que indica que a Virgem não adquiriu aquele estado espiritual na anunciação. Ele lhe foi dado desde antes. Como a Graça não é fruto ou paga dos atos humanos, conclui-se que Maria não teve de ter méritos prévios à Graça. Portanto, esta deve ter-lhe sido dada desde o começo. Se isto é assim, temos que admitir que a Virgem nunca teve pecado, já que a Graça é diminuída por ele. E aqui divisamos a própria Imaculada Conceição, da qual falaremos mais adiante. "Ke" também indica alguma idéia de atemporalidade, na medida que o que não sofreu gradação ascendente - não foi dado aos poucos - também não a sofrerá descendente. Veja que isto não é uma conclusão forçada, mas necessária decorrente do próprio termo usado pelo anjo. Isso se quisermos dar algum crédito à Escritura.

A partícula "Mene" é um particípio que dá a idéia de sujeito, ou de elemento passivo. No caso, Maria recebeu esta graça. Ela não é a causa ativa desta graça. É a receptora. A expressão aqui assume o significado gramatical tanto de verbo (foi agraciada) quanto de substantivo (plena da graça). Por este motivo é que ela aparece no Apocalipse vestida de sol, pois Deus a possuiu. O próprio fato de ela ter sido fecundada pelo Espírito Santo já evoca de modo muito profundo esta idéia.

Assim, uma tradução mais precisa da expressão angélica seria:

"Salve, tu que foste, és e sempre serás plena da Graça divina."

O especialista protestante em grego Herbert Weir Smyth escreve:

"Enquanto que kecharitomene, particípio perfeito passivo, demonstra uma integralidade com um resultado permanente. Kecharitomene denota continuidade de uma ação completa." (H. W. Smyth, Greek Grammar [Cambridge: Harvard University Press, 1968.], p. 108-109, sec. 1852: b.).

Já o escritor Funk Blass, também protestante, bacharel em Teologia, mestre pela Butler University e PhD Vanderbilt University, escreve:

"É permissível no grego gramatical e no terreno linguístico parafrasear kecharitomene como completa, perfeita e permanentemente dotada com graça." e "Contudo, Lucas 1,28 usa uma forma conjugada especial de "charitoo". Ele usa "kecharitomene", enquanto que em Efésios 1,6 usa "echaritosen", que é uma forma diferente do verbo "charitoo". Echaritosen significa "ele agraciou" (graça concedida). Echaritosen significa uma ação momentânea, uma ação que pode passar." (Blass and DeBrunner, Greek Grammar of the New Testament, p.166)

Note que algo que é "completa, perfeita e permamentemente dotado de graça" é necessariamente privado de pecado. A mínima mancha de pecado impediria que algo fosse "completa, perfeita e permanentemente dotado de graça". Se o leitor quiser manter a lógica, a conclusão é necessária.

John Gresham Machen, teólogo presbiteriano, professor de Novo Testamento no seminário de Princeton, por sua vez, escreve:

"A ação 'perfeita' do particípio é considerada por ter sido completada antes do momento da fala daquele que anuncia." (J. Gresham Machen, New Testament greek for begginers, p.187)

Ou seja: a graça de que se fala nem é um tipo de "bom olhar divino" nem é resultante da encarnação do Verbo, mas é um estado espiritual anterior à Encarnação. Como vimos, este estado remonta ao início da existência de Maria, isto é, à sua concepção.

Fantástico, não?

Vamos agora responder a algumas dificuldades que são comumente levantadas pelos protestantes a respeito da Virgem.

Intercessora e Medianeira


Os católicos afirmamos que a Virgem Maria é intercessora e medianeira de todas as graças. Os protestantes, cativos da Sola Scriptura e, portanto, impedidos de uma compreensão acima da literal mais rasteira, desfavorecidos pela lógica mais básica, afirmam que isto contradiz a Bíblia em dois pontos.

1º - É dito que Jesus é o único mediador entre Deus e os homens. (1Tm 2,5) Considerando que a intercessão é uma mediação, ela estaria impedida também neste texto. Não deixa de ser impressionante que os mesmos que afirmam esta impossibilidade estejam o mais frequentemente pedindo orações aos irmãos e a seus ditos pastores. Ora, o que é orar por alguém senão interceder? Existe alguma lógica em proibir um e aceitar o outro? Não, não há. E considerando que nós vemos Paulo pedindo orações aos cristãos nas suas cartas, a única atitude coerente e sincera seria a de compreender e aceitar que a intercessão entre os cristãos não é um impedimento ou proibição; é, antes, uma recomendação.

Nada ajuda restringir a proibição aos santos, pois esta especificação - ou qualquer restrição ao afirmado - não é feita no texto. Além disto, considerando a possibilidade de haver pessoas no céu - ao que não se oporia a maioria dos protestantes - não se entende a impossibilidade de eles orarem por nós. No caso dos que negam a imortalidade da alma - o que é outro absurdo -, há alguns que aceitam a missão, também referida biblicamente, dos anjos da guarda. Se é permitido pedir orações a uma pessoa da igreja, por que seria proibido pedi-la a estes seres especialmente designados para o nosso cuidado? As contradições são infinitas.

Além disso, o que é pregar para alguém senão estabelecer uma mediação entre essa pessoa e Deus? O que é a Bíblia senão uma mediação? O que é uma canção senão uma mediação? O que é a água no batismo senão uma mediação? O que é uma igreja senão um meio, isto é, algo que realiza a mediação, entre o homem e Deus? Vê-se que a interpretação literal não se sustenta ao mínimo ato de inteligência. E é de fato impressionante que pessoas tão inteligentes se mantenham cativos de teias tão frágeis e evidentemente tão falsas.

Expliquemos, então, a aparente contradição entre a proibição textual e o campo do real. Quando Paulo o escreve, ele está a dizer o seguinte: desde a Queda de Adão, a humanidade se via escrava do pecado - o que só foi reforçado pela Lei - e impedida de se salvar. Jesus é o único que consegue reatar as relações entre Deus e a humanidade, e o faz por meio da Sua Cruz. Assim, qualquer afirmação de uma mediação entre Deus e os homens que seja alheia à mediação do Cristo é necessariamente falsa. Ocorre que a mediação dos santos não são alheias à do Cristo, mas possibilitadas por Ele. A partir da mediação absoluta de Jesus, originam-se uma série de novas possibilidades, suportadas, isto é, fundadas na d'Ele. É a pregação do Cristo que possibilita e dá razão de ser ao ofício dos pregadores cristãos. A mediação destes nasce da mediação única do Cristo. Esta nova dinâmica espiritual que se dá a partir do Cristo, que nos estabelece como corpo, sendo Ele a cabeça, chama-se comunhão dos santos, e é um dos dogmas da Igreja. Estamos vendo que ele nada mais é do que o resultado da reta compreensão das coisas.

A Virgem Maria, sendo particularmente agraciada, tem um papel muito particular de intercessora e medianeira. Provemos isto em mais uma concessão à Sola Scriptura.

1- Maria foi ou não o meio pelo qual Jesus nos veio? Foi. Embora Ele seja verdade que Ele poderia ter escolhido vir diretamente, é fato que decidiu vir por meio dela. Logo, Maria é meio da Encarnação e, portanto, da Redenção. Então repita comigo, leitor: "Maria é meio. Em outras palavras: Maria é medianeira entre Deus e os homens."

2- Isabel, de quem falaremos mais à frente, ficou cheia do Espírito Santo - o que purificou também a João Batista, no seu ventre - através da voz de Maria. Foi ou não foi? Se foi, Maria foi ou não meio de Deus? Foi. Maria foi meio para que Isabel ficasse cheia do Espírito Santo.

3- Vamos às bodas de Caná, de que já tratamos. Era o momento de Jesus realizar o primeiro milagre? Parece que não, né? Pelo menos é o que se depreende do que Jesus diz: "minha hora ainda não chegou." Maria no entanto insiste. Ela põe os servos em relação com Jesus. Põe ou não põe? Põe. Jesus depois realiza o milagre. Sim ou não? Sim. E por que o faz? Porque sua mãe o pediu. Se já ia realizar, por que falou o que falou? A conclusão é clara: realizou-o porque Sua Mãe lho pediu. Maria foi ou não meio e intercessora? Foi. A Bíblia é idólatra? Conclua..

Imaculada


Nós católicos afirmamos, em correspondência com a saudação angélica, que a Virgem Maria foi preservada por Deus de toda e qualquer mancha de pecado. Vimos que somente assim ela poderia se adequar ao referido por Gabriel. Os protestantes, porém, afirmam que isto contradiz a afirmação paulina de que "todos pecaram". (Rm 3,23)

Note primeiramente que fazendo a interpretação protestantes, teríamos de incluir aí o próprio Jesus, uma vez que Ele, sendo alguém, deveria ser naturalmente incluído no conjunto do "todos".

Em segundo lugar, o que dizer das crianças não nascidas, ou mortas na infância, como no caso dos assassinados por Herodes? Mas aqui já há que se fazer uma distinção: Paulo está falando dos pecados pessoais - cometidos ativamente -, ou do pecado original? Na verdade, ambos estão implicados, pois o pecado pessoal só é feito tão facilmente porque há o desejo anterior, a concupiscência, que é efeito do pecado original. Assim, não é possível ter este desejo - que a teologia chama "fomes" - e abster-se sempre do pecado. Uma vez que todos nascem com o pecado original e, consequentemente, com a inclinação perversa ao pecado, todos pecarão. É sobretudo desta possibilidade que fala São Paulo, mais do que dos pecados individuais e concretos. A afirmação é uma estimativa genérica, e não um pronunciamento sobre os casos isolados. Quando aplicamos isto a Maria, concluímos facilmente o seguinte: Maria pecaria como todos os demais se Deus não a tivesse preservado. Assim, ela não contradiz o dito pelo Apóstolo, uma vez que este dito referia-se a uma lei proveniente da Queda.

E aqui passamos a uma segunda distinção: Sto Tomás de Aquino ensina que Deus pode agir sobre uma pessoa de dois modos: um curativo e outro preservativo. No primeiro modo, o mais comum, Ele regenera a pessoa por meio da Sua graça, santificando-a posteriormente, o que implica a necessidade da conversão. Mas Deus, que está fora do tempo - lembremos! - pode também preservar antecipadamente alguém. Um exemplo corriqueiro é o que os protestantes chamam de "livramento". O que é isto senão a intervenção prévia de Deus que, embora pudesse curar a pessoa depois do evento, prefere salvá-la antecipadamente?

Assim ocorreu com Maria. A fonte mesma da Graça é a Redenção, isto é, o Sacrifício de Jesus na Cruz. É daí que saem os raios da misericórdia que nos concedem a possibilidade da Salvação. É daí que sai a força que nos perdoa os pecados. Também no caso de Maria é assim. O fato de ter sido preservada do pecado é um efeito antecipado da Cruz. Como diziam os Santos Padres, Maria é como a aurora que, embora venha antes do sol, é na verdade produzida por ele. Deus poderia fazer isso se quisesse? Poderia, tanto que fez.

Mas existe ainda uma espécie de "necessidade" para que isto tivesse sido assim.

Jesus é Deus, e como tal totalmente avesso ao pecado. Seria uma impossibilidade metafísica - uma contradição em termos - que Jesus tivesse tido algum tipo de contaminação pessoal com o pecado. Assim, Ele não poderia tê-lo herdado. E no caso absurdo de tê-lo feito, se veria privado da graça e não poderia redimir ninguém.

Se Jesus queria redimir os homens, teria antes de se tornar um deles. Porém, teria de fazê-lo como homem que não herdasse a fraqueza e a desordem do pecado. Iria, no entanto, sofrer as suas consequências, posteriormente, por sua livre escolha, e é precisamente isto que permite o caráter expiatório do Seu Sacrifício. Mas para que tivesse nascido sem pecado, era necessário herdar sua natureza humana de outra natureza humana que já estivesse isenta de pecado. E tal foi o caso de Maria.

Duas objeções surgem aqui:

1º - Se Maria foi sem pecado, então por que sua mãe também não seria, e assim sucessivamente?
2º - Jesus não poderia ter se autopreservado do pecado?

Quanto à primeira, Deus seria obviamente livre para fazer a intervenção em quem Ele bem quisesse. Porém, uma vez que isso apenas era necessário em relação à mãe direta do Messias, e uma vez que apenas Maria recebeu a anunciação de Gabriel chamando-a de "plena da graça divina", depreende-se que apenas Maria recebeu esta graça por livre eleição divina.

Quanto à segunda, há uma impossibilidade lógica. O meio expiatório é o sacrifício da natureza humana de Cristo. Isto é: a Sua morte humana é meio e a Redenção é efeito. Preservar-se a Si mesmo do pecado seria aplicar o efeito sem a causa. Veja que a impossibilidade não é meramente temporal - pois a Virgem foi preservada -, mas lógica. Agir pressupõe existir. A ação redentora pressupõe uma natureza humana sobre a qual ainda não agiu a ação redentora. Assim, o Cristo apenas poderia preservar outra, e não a Si mesmo, diretamente. Se na cabeça do leitor, agora, passa a idéia de que Deus pode tudo e então Ele poderia fazer isso, então o leitor não compreendeu o que dissemos, e então sugerimos repetir a leitura. De fato, a coisa é algo sutil. Dizer que Jesus poderia ter-Se preservado sem mais é o mesmo que dizer que Ele poderia redimir a humanidade apenas querendo, o que faz da Crucificação do Senhor um ato inútil. Este tipo de pensamento é obviamente blasfemo. As coisas não são meramente arbitrárias.

A conclusão a que se chega, portanto, é que, para que o Cristo nascesse sem pecado e pudesse agir redentoramente, era necessário que herdasse Sua natureza humana de uma mulher sem pecado. Necessidade lógica.

Uma outra objeção fica latente: se Jesus não poderia assumir uma natureza com pecado, como Ele pôde assumir os pecados do mundo? Veja: o mesmo Apóstolo que disse que Nosso Senhor se tornou pecado por nós é o mesmo que disse que Ele assumiu a nossa natureza em tudo, menos no pecado. Jesus assumiu sobre si, mas não o fez intrinsecamente. Jesus jamais consentiu no pecado (Hb 4,15). A Sua alma, embora tenha sofrido os efeitos do pecado, nunca comungou com Ele. Ele o tomou sobre si, diz o livro de Isaías. Muito diferente seria herdar o pecado como um movimento interno da natureza, como é o caso de nosotros.


É permitido louvar a Maria?



Outra pergunta que geralmente se faz é se é possível louvar a Maria. Os protestantes negam-no energicamente e, de novo, usam alguns trechos bíblicos para isso.

"Eu sou o Senhor, esse é meu nome, a ninguém cederei minha glória, nem a ídolos minha honra." (Isa 42,8)

"Enquanto ele assim falava, uma mulher levantou a voz do meio do povo e lhe disse: 'Bem-aventurado o ventre que te trouxe, e os peitos que te amamentaram! Mas Jesus replicou: 'Antes bem-aventurados aqueles que ouvem a palavra de Deus e a observam!" (Lc 11,27-28)

Julgamos que estes dois textos resumem bem os argumentos protestantes. Vejamos um por um.

Quanto ao primeiro, alguns sites católicos gostam de rebatê-lo com outros trechos da Escritura. Jesus, por exemplo, na Sua despedida, na oração sacerdotal, diz ao Pai referindo-Se aos apóstolos:

"Eu lhes dei a glória que me deste" (Jo 17,22)

Nos salmos encontramos este trecho:

"O Senhor dá a graça e a glória. Ele não recusa os seus bens àqueles que caminham na inocência." (Sl 83,12)

Eu, sendo protestante, objetaria o seguinte: temos aqui uma imprecisão semântica. O termo "glória" pode indicar tanto o louvor dado a alguém quanto a salvação. Neste último sentido é que se diz "reino da glória". Assim, o que Deus dá a alguém é o segundo, e não o primeiro. É uma boa objeção - feita não obstante por um católico, para que não se diga que faltamos à sinceridade.

Preferimos respondê-lo do seguinte modo: a primeira coisa a se notar é que Deus está falando contra os ídolos das nações pagãs. Estes ídolos se colocavam como entidades alternativas e competidoras de Deus, o que é obviamente absurdo, visto que só Deus é Deus.

No caso dos santos de Deus, aqueles que são santos justamente porque O amam e participam da Sua natureza, como escreve Pedro, estes serão glorificados na própria glória de Deus. Isto não significa que eles terão alguma espécie de glória própria, mas uma glória derivada que, não obstante, será real. Será uma glória participada. E aqui nos serve a segunda citação-resposta: "Ele não recusa os seus bens àqueles que caminham na inocência." A ressalva de Deus em Isaías diz respeito aos ídolos, e não aos Seus santos. Ademais, Deus não é um carente afetivo preocupado em disputar com outros. Se Ele falou o que falou, isto era pelo próprio bem de Israel, uma vez que Ele não Se sente ameaçado por ídolos e outras entidades, existentes ou não. Entendê-lo literalmente é cair num antropomorfismo pueril, é reduzir Deus ao nível de uma divindade grega, como, ironicamente, às vezes somos acusados de fazer. Daremos já já prova de que o próprio Deus não apenas não Se ofende, como Ele mesmo inspirou o louvor a Maria. Afinal, quem não ficaria contente de ter a sua obra prima louvada? Mas, antes, abordemos o segundo texto:

Os protestantes gostam de ver aqui uma reprimenda do próprio Jesus contra aqueles que querem cultuar Maria. Vejamos os termos que a mulher usa: "Bem-aventurado o ventre que te trouxe, e os peitos que te amamentaram!" Os comentadores católicos tendem a ver aqui uma espécie de exaltação a Maria como se ela só o merecesse a despeito de qualquer colaboração, como se fosse objeto inerte. A resposta de Jesus - "Antes bem-aventurados aqueles que ouvem a palavra de Deus e a observam!" - enfatiza o aspecto ativo: a bem-aventurança se dá pela observância pessoal, pelo exercício da liberdade humana que voluntariamente adere a Deus. Maria, não obstante tenha sido agraciada por Deus, é colaboradora ativa d'Ele. Seu sim foi plenamente livre. Vemos em Maria uma observadora fiel dos princípios judaicos. Tomada como uma reprimenda, a resposta de Jesus poderia sugerir que Maria não ouve a palavra de Deus e não a observa. Vimos, porém, que isto não faz nenhum sentido, visto que o próprio Deus a agraciou, e que o resultado da graça é a santidade. Assim, longe de preterir Sua mãe, Jesus sugere que o mérito dela não é somente de ser objeto, mas de ser atuante.

Vejamos, então, mais uma vez aquilo que ocorre na sua visita a Isabel. Aqui nós temos a seguinte ordem:

1- Isabel fica cheia do Espírito Santo;
2- Isabel louva Maria nos seguintes termos:

"Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre. Donde me vem a honra de vir a mim a mãe do meu Senhor? Pois assim que a voz de tua saudação chegou aos meus ouvidos, a criança estremeceu de alegria no meu seio. Bem-aventurada és tu que creste, pois se hão de cumprir as coisas que da parte do Senhor te foram ditas!" (Lc 1,42-45)

A primeira coisa a se perguntar é: isto é ou não um louvor? Isabel a chama bendita. Diz que não tem o merecimento de que a "mãe do meu Senhor" venha a ela, o que, como vimos, a faz associar-se com a Arca da Aliança. Chama-a ainda de Bem-aventurada. Isso tudo não é um louvor? Quando Zacarias louva a Deus (v.68), ele inicia chamando-O de bendito, e isto é suficiente para caracterizar a oração como um louvor. Por que não o seria aqui quando Isabel usa a mesma expressão para com a Mãe do Senhor? Os meus louvores à Virgem Maria tendem a ser muito mais modestos - mea culpa.

Depois, Quem inspirou este louvor? Não foi o próprio Deus? De Quem Isabel estava cheia quando louvou a Maria? Não é permitido louvá-la? Como Deus inspira o que não é permitido?


E as procissões?


Para entender o fenômeno das procissões, primeiramente temos de dissociá-las da idolatria. Definamos idolatria: é o culto a ídolos que se crê serem deuses. É o caso dos santos católicos? De nenhum modo. Logo, se ninguém considera que os objetos cultuados sejam deuses ou ídolos, então não é possível que o fenômeno se enquadre na categoria idolatria.

Os protestantes, no entanto, cismam com o aspecto da coisa. Seria algo semelhante a acusar um protestante de idolatria porque ele ora voltado para o céu do mesmo modo que um cultuador dos astros também ora voltado para o céu, e inclusive com as mãos erguidas. A mera posição física ou o comportamento externo não dão conta de distinguir uma coisa da outra. Isto serve para demonstrar como a idolatria deve ser, antes de tudo, uma realidade interna, que, obviamente, se expressa externamente. Mas duas realidades internas totalmente distintas podem se expressar externamente de modos similares. Os primeiros milagres de Moisés eram imitados pelos sacerdotes do Faraó, embora a natureza dos fenômenos fosse absolutamente distinta. Sabemos, também, de modo pessoal - basta fazer um exame qualquer -, que a aparência de adoração não caracteriza a adoração propriamente dita. Lembremos do caso dos algozes de Jesus: eles se prostravam diante d'Ele, mas isto não caracterizava adoração, senão zombaria. Assim, um mesmo ato exterior pode ter uma variada série de motivações. Com isso queremos dizer que o fato de uma identificação estética das procissões como idolatria não implica que elas sejam isso. 

Peguemos, por exemplo, o ato de ajoelhar-se diante de algo ou alguém. Para alguns protestantes, somente é permitido ajoelhar-se diante de Deus, e para isto citam a reprimenda que Pedro dá em Cornélio. Aqui, porém, Lucas diz claramente que "Cornélio saiu a recebê-lo e prostrou-se aos seus pés para adorá-lo." (At 10,15) Coitado de Cornélio: não era cristão nem judeu. Sendo pagão, estava acostumado à idéia de uma multiplicidade de divindades, pelo que era-lhe o mais comum adorá-las. A reprimenda de Pedro não é tanto ao gesto físico, mas à atitude interior que se exprimia fisicamente.

Outro trecho muito usado contra o gesto da genuflexão está em Apocalipse 19,10, quando João ia prostrando-se diante de um anjo para adorá-lo, e, de novo, recebeu uma reprimenda: "Não faças isso!". Haveria que se perguntar: Por que João fez isso? Ele não tinha juízo? O contexto esclarece: o anjo tinha acabado de dizer: "Felizes os convidados para a ceia das núpcias do Cordeiro." e, em seguida, "Estas são palavras autênticas de Deus." Provavelmente, João confundiu o ser que lhe falava com o próprio Deus, uma vez que este disse estar falando autenticamente palavras de Deus. Seja como for, aqui de novo a proibição é feita porque João claramente quis adorá-lo, ao que o anjo, esclarecendo se tratar de um servo, responde: "adora a Deus."

Vejamos, então, alguns casos em que o mero ato de prostrar-se não caracteriza idolatria.

Diante de anjos:

Gn 19,1 - Lot se prostra com o rosto em terra diante dos anjos que chegam em Sodoma;
Nm 22,31 - Balaão prostra-se diante do anjo do Senhor;
1Cr 21,16 - Davi e os anciãos se prostram diante do anjo com a espada desembainhada;

Diante de pessoas:

Gn 33,3 - Jacó prostra-se sete vezes diante de seu irmão;
Gn 33,6-7 - Mais um monte de gente se prostra diante de Esaú;
Gn 37,7.9-10 - José, num sonho revelado, vê seus irmãos e seu pai se prostrarem diante dele;
Gn 41,43 - Os servos do faraó se ajoelham diante de José;
Gn 42,6 - Os irmãos de José se prostram diante dele com o rosto por terra;
Gn 43,26 - Novamente os irmãos de José se prostram diante dele;
Gn 44,13 - De novo...
Gn 49,8 - Os filhos de Judá se prostrarão diante dele;
Ex 18,7 - Moisés se prostra diante de seu sogro;
1Sm 20,41 - Davi prostra-se três vezes diante de Jônatas;
1Sm 24,9 - Davi se prostra diante de Saul;

Diante de coisas:

Js 7,6 - Josué se prostra diante da Arca;
Es 24,9 - Esdras prostrado diante da Casa de Deus;
Jd 4,9 - Sacerdotes e crianças prostram-se diante do templo;
Sl 137,2 - Prostração diante do templo;

Vemos aqui, como aliás é óbvio, que nem sempre o ato da prostração é idolatria. Ela pode indicar, como no caso dos anjos e das pessoas, apenas respeito e profunda estima. Às vezes, arrependimento. Um protestante objetaria: "mas uma coisa é respeitar alguém, e outra é cultuá-lo". O condenável então nas prostrações católicas diante de imagens ou nas suas demonstrações externas de afeto seria o culto rendido a elas. Analisemos isso. 

Diante de alguém vivo, os personagens bíblicos se prostravam e em geral faziam alguma espécie de solicitação ou agradecimento. Era um ato externo, motivado por uma realidade interna, seguida de uma intenção. É um ato intrinsecamente comunicativo, pois dirige-se a uma consciência e espera desta consciência uma resposta. Alguma objeção até aqui?

O que seria, então, o culto a uma imagem? Primeiramente, lembremos que a imagem é mero símbolo, assim como eram apenas símbolos não somente os anjos sobre a Arca da Aliança, mas também aquilo que ela continha - falaremos da Arca já já. Uma imagem católica simboliza uma pessoa que realmente viveu. Portanto, o culto que se lhe rende é, do mesmo modo, um ato comunicativo que se dirige à sua consciência. O fundamento disto é a fé na imortalidade da alma e a idéia de que, estando em Deus, Este pode comunicar à pessoa referida o ato específico, uma vez que este ato não contradiz o ato de adoração que deve ser rendido a Deus somente. Assim, um protestante poderia até nos objetar a Fé na imortalidade, mas não pode acusar-nos de idolatria, pois o que fazemos está amplamente demonstrado na Bíblia diante de pessoas vivas. Outra coisa seria se o culto aos santos fosse algo alternativo - por fora - ao culto a Deus. Mas, como dissemos, isto ocorre "por dentro". Afinal, alguém só é santo porque participa da santidade de Deus. Um santo é alguém que viveu radicalmente o Evangelho e, assim, se tornou exemplo e canal para a ação divina, pois, habitando agora com Deus, e tendo consumado a total purificação do seu coração, pode pedir por nós. E isso impede tanto o culto direto a Deus quanto o fato de pedir oração aos irmãos impede que eu me dirija diretamente a Ele. Ou seja: não impede!

Talvez alguém nos considere algo desonestos pelos terceiros casos que pusemos acima: a prostração diante de coisas. As coisas de que então se fala não são meras coisas, mas realidades onde Deus se manifesta. A Arca da Aliança, os templos e altares de sacrifício nos remetem diretamente a Deus, e não a outros seres. Ok. Concordamos integralmente. Mas observe que, se, por um lado, eles nos remetem a Deus, eles não são Deus. Atuam de modo simbólico ou presentificam, sem se identificar com ela, a realidade divina. Assim, estas pessoas estão se prostrando sim diante de coisas nas quais Deus se manifestará. Estas coisas são canais teofânicos. Voltemos então às imagens católicas. Elas simbolizam pessoas nas quais Deus agiu de modo soberano. Qualquer pessoa que se detenha a estudar a vida de qualquer santo verá que o que o torna santo não é apenas uma bondade de caráter ou uma constância relativa na vivência da Fé, etc. Um dos passos para a canonização é o grau heróico das virtudes, o que significa que a elevação espiritual destas pessoas alcançou alturas vertiginosas. Elas não seriam capazes sequer de sonhar aquilo de que foram vítimas. Isto significa que foram objetos privilegiados da ação divina. Deus as transformou de um modo tão radical que é sempre muito difícil, senão impossível, dar uma dimensão sequer aproximada daquilo. Estas pessoas se tornam focos de Deus. Isso acontecia com os apóstolos, à sombra dos quais os doentes se prostravam para que ela os curasse. Isso era idolatria, caros? Uma imagem católica é um símbolo de uma pessoa que teve uma dimensão espiritual dessa natureza. E se o teve, foi porque Deus a elevou a este grau. Assim, ela se torna não somente um foco da ação divina, mas um exemplo e uma prova viva do realismo do Evangelho. Os santos, ao invés de serem estímulos à idolatria, são impedimentos a ela. São gritos absurdamente altos de que "só Deus basta!" Elevar uma pessoa dessas e apresentá-la nas ruas é gritar para todos que o Evangelho é real, é vivo, é possível, e que Deus existe, e que tudo no mundo que seja oposto a isto é fraude, é farsa, é mentira.

Vamos, então, ao ato de andar demorada e ritualmente de um lugar a outro, que é o que caracteriza a procissão.

Sabemos que Israel estava proibido de fazer imagens, pois, como vivia rodeado por culturas politeístas e possuíam ídolos, era sempre uma tentação querer adotar os costumes que eles viam. Sobretudo a cultura dos cananeus, que tinham deuses responsáveis pela agricultura e pelas chuvas. Como Israel era agrário, aqueles deuses eram-lhe atrativos. Nós notamos inclusive essa busca por fazer representações da divindade quando Moisés, indo ao Sinai - onde recebe as tábuas da Lei -, o seu povo, aturdido pela sua demora, decide fazer um bezerro de ouro. O mesmo ocorre quando, depois de estarem sendo mortos por serpentes, Deus manda fazer uma serpente de bronze: quem olhá-la ficará curado. Pois bem: os judeus em seguida passam a querer adorar a serpente, pelo que Deus manda destruí-la. Assim, por causa dessa inclinação natural de Israel à idolatria, Deus lhes proibiu a confecção de esculturas, pois seriam associadas aos ídolos.

Uma vez que é proibido fazer imagens, fica complicado de fazer procissões. No entanto, estas são feitas com o que sobra de elemento simbólico. Na impossibilidade de se levar um templo nos ombros, resta a Arca da Aliança. Como dissemos mais acima, a Arca era um objeto de madeira, recoberta de ouro, e tinha dentro de si as Tábuas da Lei, o Maná e a vara de Aarão. Acima da tampa havia dois querubins de ouro, que, só pra constar, são imagens, e de escultura, e feitas por ordem divina.

A Escritura narra várias procissões que se fazia com a Arca:

"Partiram da montanha do Senhor e caminharam três dias. Durante esses três dias de marcha, a arca da aliança do Senhor os precedia, para lhes escolher um lugar de repouso." (Nm 10,33)

"Passados três dias, os oficiais atravessaram pelo meio do acampamento, dando ao povo esta ordem: 'Quando virdes a arca da aliança do Senhor, vosso Deus, levada pelos sacerdotes, filhos de Levi, deixareis vosso acampamento e vos poreis em marcha, seguindo-a." (Js 3,3)

"Sete sacerdotes, tocando sete trombetas, irão adiante da arca. No sétimo dia dareis sete voltas à cidade, tocando os sacerdotes a trombeta. (...) Marcharam os guerreiros diante dos sacerdotes que tocavam a trombeta, e à retaguarda seguia a arca; e durante toda a marcha ouvia-se o retinir das trombetas. (...) A arca do Senhor deu uma volta à cidade, e retornaram ao acampamento para ali passar a noite. Josué levantou-se muito cedo e os sacerdotes levaram a arca do Senhor. Os sete sacerdotes, levando as sete trombetas retumbantes, marchavam diante da arca do Senhor, tocando a trombeta durante a marcha. Os guerreiros precediam-nos, e à retaguarda seguia a arca do Senhor. E ouvia-se o retinir da trombeta durante a marcha. Deram volta à cidade uma vez, no segundo dia, e voltaram ao acampamento. O mesmo fizeram durante seis dias." (Js 6,4;9;11-14)

A primeira coisa a se perguntar é: isto é ou não uma procissão? É. Logo, procissões não são necessariamente erradas. O leitor tem de admitir isso. 

Em segundo lugar, por mais santa que seja a Arca, ela não é Deus. É onde Ele se manifesta, mas não é Deus. E o culto devido à Arca só tem razão de ser por causa de Deus, né? Óbvio. Mas o mesmo se dá com os santos! Um santo é como um ramo consumado da videira que é Jesus. É a vida divina que torna o santo um santo, assim como era o maná, as tábuas da lei e a vara de Aarão que tornavam a Arca santa. E por que estes objetos faziam isto? Porque estavam como que animados da energia divina, a Shekinah.

Então temos o seguinte: Shekinah >> Objetos da Arca >> Arca da Aliança -- tanto os objetos quanto a Arca são símbolos ou meios.

Então, chegamos à seguinte conclusão: a) Procissão em si não é um erro; b) Procissão com objetos que remetam a Deus não é um erro. Depois disso, só resta concluir que as procissões católicas não são um erro.

Porém, precisamos ainda considerar algumas coisas. Se é verdade que o culto à Virgem Maria é algo tão entranhado nas Escrituras e na vida de Fé da Igreja desde o começo, poderíamos encontrar algum indício disso nos primeiros cristãos, aqueles que sucederam os apóstolos? Vamos ver

Como os primeiros cristãos viam a Virgem Maria


Comecemos por Sto Inácio, bispo de Antioquia, do séc I e II. Este rapaz foi discípulo do Apóstolo João e foi ordenado pelo próprio Pedro. Sto Inácio é o primeiro santo a chamar a Igreja Cristã de Católica, lá pelo ano 105 d.C. Sobre Maria, ele escreve:

"E permaneceram ocultos ao príncipe desse mundo a Virgindade de Maria e seu parto, bem como a morte do Senhor: três mistérios de clamor, realizados no silêncio de Deus" 

A virgindade misteriosa não é, obviamente, a mera virgindade pré-parto, que não teria nada de misteriosa. É, antes, a virgindade perpétua.



São Justino, também do Séc. II, escreve:

“[Jesus] se fez homem por meio da Virgem, de sorte a ser finalizada a desobediência, oriunda da serpente, por ali mesmo onde havia começado. Eva era virgem e incorrupta; concebendo a palavra da serpente, gerou a desobediência e a morte. A Virgem Maria, porém, concebeu fé e alegria quando o anjo Gabriel lhe anunciou a boa nova”.


Santo Irineu de Lião, também do Séc. II, especialista em heresias, escreve:

“Como por uma virgem desobediente foi o homem ferido, caiu e morreu, assim também por meio de uma virgem obediente à palavra de Deus, o homem recobrou a vida. Era justo e necessário que Adão fosse restaurado em Cristo, e que Eva fosse restaurada em Maria, a fim de que uma virgem feita advogada de uma virgem, apagasse e abolisse por sua obediência virginal a desobediência de uma virgem.”

“Ora, como Eva..., que tendo-se feito desobediente, se tornou causa de morte tanto para si quanto para todo o gênero humano, também Maria...obedecendo, tornou-se causa de salvação tanto para si quanto para todo o gênero humano...”


"A Virgem Maria mostrou-se obediente ao dizer: 'Eis aqui tua serva, Senhor; faça-se em mim conforme a tua palavra'. Entretanto, Eva foi desobediente; mesmo enquanto era virgem, ela não obedeceu. Como ela - que ainda era virgem embora tivesse Adão por marido... - foi desobediente, tornou-se a causa da sua própria morte e também de todo gênero humano; então, também Maria, noiva de um homem, mas, apesar disso, ainda virgem, sendo obediente, se tornou a causa de salvação dela própria e de todo o gênero humano... Assim, o problema da desobediência de Eva foi eliminado pela obediência de Maria. O que a virgem Eva causou em sua incredulidade, a Virgem Maria eliminou através da sua fé"

"Assim como o gênero humano foi levado à morte por uma virgem, foi libertado por uma Virgem."


Santo Hipólito de Roma, Séc II e III:

"O Cristo foi concebido e tomou o seu crescimento de Maria, a Mãe de Deus toda pura [...] Como o Salvador do mundo tinha decretado salvar o gênero humano, nasceu da Imaculada Virgem Maria."

Só queremos lembrar ao leitor que Constantino, a quem falsamente os protestantes atribuem o nascimento da Igreja Católica, é do séc. IV. Portanto, estamos aqui antes de quaisquer supostas corrupções do império romano, e em plena fase da perseguição aos cristãos. Tenha isso em mente. Mais algumas de Santo Hipólito:

"Deus, o Verbo descendeu à Santa Virgem Maria ..."

"Ele (Jesus) era a arca composta por madeira incorruptível. Com efeito, o seu tabernáculo (Maria) era isento da podridão e corrupção."

“… corpo de Maria toda santa, sempre Virgem, por uma concepção imaculada, sem conversão, e se fez homem na natureza, mas em separado da maldade: o mesmo era Deus perfeito, e o mesmo era o homem perfeito, o mesmo foi na natureza em Deus, uma vez perfeito e homem.”


Orígenes, Séc. II e III:

"Desposada com José, mas não carnalmente unida. A Mãe deste foi Mãe imaculada, Mãe incorrupta, Mãe intacta. A Mãe deste, de qual este? A Mãe do Senhor, Unigênito de Deus, do Rei universal, do Salvador e Redentor de todos." 

"Esta Virgem Mãe do Unigênito de Deus chama-se Maria, digna de Deus, imaculada das imaculadas, sem par."

“Este menino não precisa de Pai na terra, porque tem um pai incorruptível no céu; não precisa de Mãe no Céu, porque tem uma Mãe Imaculada e casta na terra, a Virgem Bem-aventurada, Maria".

"Maria é Mãe de Deus, unigênito do Rei e criador de tudo o que existe."

Os protestantes gostam de dizer, de novo equivocadamente, que o título de Mãe de Deus foi inventado e dado a Maria só no Séc. V, no Concílio de Éfeso. No entanto, vemo-la ser chamada deste modo já no Séc. II!



Santo Atanásio, Séc. IV:

"Maria é Mãe de Deus, completamente intacta e impoluta."

“As Sagradas Escrituras, as quais nos instruem, e a vida de Maria, Mãe de Deus, são suficientes como um ideal de perfeição e da forma de vida celeste.”


Santo Efrém, Séc. IV:

"Somente Vós (Cristo) e vossa Mãe sois mais belos do que qualquer outro ser. Em ti, Senhor, não há mancha alguma; na tua Mãe nada de feio existe."

"A Santíssima Senhora, Mãe de Deus, a única pura na alma e no corpo, a única que ultrapassa toda perfeição de pureza, a única morada de todas as graças do Santíssimo Espírito, e, portanto, excedendo qualquer comparação até mesmo com as virtudes angelicais em pureza e santidade de corpo e alma ... minha Senhora santíssima, puríssima, incorruptível, inviolada, prenda imaculada dAquele que se revestiu com luz e prenda ...flor que não murcha, púrpura tecida por Deus, a única imaculada."

“Maria e Eva, duas pessoas sem culpabilidade, duas pessoas simples, são idênticas. Mais tarde, entretanto, uma se converteu na causa de nossa morte e a outra na causa de nossa vida.

"Que a mulher entoe louvor à pura Maria."


Santo Ambrósio de Milão, Séc. IV:

"Maria, uma virgem não profanada, Virgem tornada inviolável pela graça, livre de toda mancha do pecado."


São Teodoro de Ancira, Séc. IV:

"Maria, na sua pureza, leva vantagem sobre os serafins e querubins".

“Em lugar de Eva, um instrumento de morte, é escolhida uma Virgem, mais agradável a Deus e cheia da graça divina, como um instrumento de vida. Uma Virgem incluída no gênero feminino, mas sem compartilhar com a falta deste gênero. Uma Virgem inocente, imaculada; livre de toda culpa; sem mancha; incorruptível; santa no espírito e na carne, um lírio entre os espinhos.


São Jerônimo, Séc. IV e V, grande erudito e tradutor da bíblia hebraica e grega para o latim. Um sumo especialista em Sagrada Escritura:

"Maria é verdadeiramente Mãe de Deus."


São João Crisóstomo, Sèc. IV e V:

"É verdadeiramente justo proclamar-vos bem-aventurada, ó Deípara, que sois felicíssima, toda pura e Mãe do nosso Deus. Nós vos magnificamos: a vós, que sois mais digna de honra do que os querubins e incomparavelmente mais gloriosa do que os serafins! A vós que, sem perder a vossa virgindade, destes ao mundo o Verbo de Deus! A vós, que sois verdadeiramente a Mãe de Deus.


Sto Agostinho, Séc. IV e V:

"Concebeu-O [a Jesus] sem concupiscência, uma Virgem; como Virgem deu-lhe à luz, Virgem permaneceu."

''Entre todas as mulheres, Maria é a única a ser ao mesmo tempo Virgem e Mãe, não somente segundo o espírito, mas também pelo corpo. Ela é mãe conforme o espírito, não dAquele que é nossa Cabeça, isto é, do Salvador do qual ela nasceu, espiritualmente. Pois todos os que nele creram – e nesse número ela mesma se encontra – são chamados, com razão, filhos do Esposo (filii sponsi) (Mt 9,15). Mas, certamente, ela é mãe de seus membros, segundo o espírito, pois cooperou com sua caridade para que nascessem os fiéis na Igrejaos membros daquela divina Cabeça – da qual ela mesma é, corporalmente, a verdadeira mãe. Convinha, pois, que nossa Cabeça, por insigne milagre, nascesse segundo a carne de uma virgem, dando a entender que seus membros, que somos nós, haviam de nascer segundo o Espírito dessa outra virgem que é a Igreja. Somente Maria, portanto, é mãe e virgem, no espírito e no corpo. É Mãe de Cristo e também Virgem de Cristo.''

"Maria é Mãe de Deus, feita pela mão de Deus."

"Nem se deve tocar na palavra 'pecado' em se tratando de Maria; e isto em respeito Àquele de quem mereceu ser a Mãe, que a preservou de todo pecado por sua graça."

"Exceto a Santa Virgem Maria, da qual não quero, por honra do que é devido ao Senhor, suscitar qualquer questão ao se tratar de pecados, pois sabemos que lhe foi concedida a graça para vencer por todos os flancos o pecado, porque mereceu ela conceber e dar à luz a quem não teve pecado algum. Exceto, digo a esta Virgem, se tivéssemos podido congregar todos os santos e santas que aqui viviam e perguntássemos se jamais tinham pecado, o que teriam respondido? (...) Não é verdade que teriam unanimemente exclamado: 'Se dissermos que não pecamos, enganamo-nos, e a verdade não está em nós'?"

“A admirável santidade de Maria é fruto da graça de Deus que a cumulou, em vista de sua missão. A Virgem Maria representa o que de mais digno, puro e inocente poderia oferecer esta nossa terra a Deus, a fim de que o Filho de Deus se dignasse baixar até ela.”

"A Santíssima Virgem é o meio de que Nosso Senhor se serviu para vir a nós; e é o meio de que nos devemos servir para ir a ele."


Sto Epifânio, Séc V:

"Numa consideração exterior e aparente, dir-se-ia que de Eva derivou a vida de todo o gênero humano, sobre a terra. Mas na verdade é de Maria que deriva a verdadeira vida para o mundo, é ela que dá à luz o Vivente, ela a Mãe dos viventes. Portanto, o título de “mãe dos viventes” queria indicar, na sombra e na figura, Maria.”


Proclo, Patriarca de Constantinopla, Séc. V:

"Ele veio sem nenhuma mancha dela [de Maria], que a formou para Si mesmo sem qualquer mancha."

"Maria é a esfera celeste de uma nova criação, na qual o Sol de justiça, sempre brilhando, fez desaparecer inteiramente de sua alma toda a noite do pecado.”


Há uma antiga liturgia no Egito, que remonta ao Século I, e é atribuída ao Apóstolo São Marcos, e que diz o seguinte:

“Lembremo-nos, sobretudo, da Santíssima, intemerata e bendita Senhora Nossa, a Mãe de Deus e sempre Virgem Maria".

Na Liturgia dos Etíopes, encontramos uma oração de autor desconhecido, mas também do Séc. I, e que diz:

"Alegrai-vos, Rainha, verdadeiramente Imaculada, alegrai-vos, glória de nossos pais.'' ePelas preces e a intercessão que faz em nosso favor Nossa Senhora, a Santa e Imaculada Virgem Maria."

A mais antiga oração mariana - que não seja meramente louvor -, porém, que chegou até nós em fonte primária remonta ao Séc III, e nela se lê


"À vossa proteção recorremos, Santa Mãe de Deus. Não desprezeis as nossas súplicas em nossas necessidades, mas livrai-nos sempre de todos os perigos, oh Virgem gloriosa e bendita." 

Ela é conhecida como "Sub Tuum Praesidium" ("À vossa proteção" em latim)

E é também do início do Séc. III, em plena perseguição da Igreja, a mais antiga representação artística da Virgem, pintada pelos cristãos que se escondiam nas Catacumbas de Priscila, em Roma.




Nós poderíamos continuar indefinidamente as citações. Isto tudo, além de demonstrar que todos os cristãos tinham o mesmo pensamento quanto à Santíssima Virgem, prova também que a Igreja nunca mudou.

Passemos agora ao modo como a viam os reformadores protestantes.

A visão dos reformadores


Martinho Lutero

Ó bem-aventurada mãe, virgem digníssima, recorda-te de nós que também em nós o senhor faça essas grandes coisas”. (Comentário sobre o Magnificat)

“Não se deve adorar somente a Cristo? Mas não se deve honrar também a santa mãe de Deus? Esta é a mulher que esmagou a cabeça da serpente. Ouve-nos, pois o Filho te honra; Ele nada te nega.” (Sermão em 17/01/1546)

“O Filho de Deus faz-se homem, de modo a ser concebido do Espírito Santo sem o concurso de varão e a nascer de Maria pura, santa e sempre virgem”. (Doutrina Cristã, 1537)

Não há honra, nem beatitude, que sequer se aproxime por sua elevação da incomparável prerrogativa superior a todas as outras, de ser a única pessoa humana que teve um filho em comum com o Pai Celeste”.

"A veneração de Maria está inscrita no mais profundo do coração humano." (Homilia, 1 de setembro de 1522).

"[Ela é] mulher mais alta e mais nobre jóia no cristianismo depois de Cristo. . . Ela é a nobreza, a sabedoria e a santidade personificadas. Nós não poderemos jamais honrá-la o suficiente. Contudo, a honra e o louvor deve ser dado a ela de tal modo a ferir nem Cristo, nem as Escrituras." (Sermão, Natal, 1531).

"Nenhuma mulher é como você. Você é mais que Eva ou Sara, abençoada acima de toda a nobreza, sabedoria e santidade." (Sermão, Festa da Visitação, 1537).

"É a consolação e a bondade superabundante de Deus, que o homem é capaz de exultar com tal tesouro. Maria é sua verdadeira mãe." (Sermão, Natal, 1522)

"Maria é a Mãe de Jesus e Mãe de todos nós, embora fosse só Cristo quem repousou sobre os joelhos. . . Se ele é nossa, deveríamos estar na situação dele, lá onde ele está, nós também devemos estar e tudo que ele tem deveria ser nosso, e sua mãe também é nossa mãe." (Sermão, Natal, 1529).

"É uma opinião doce e piedosa que a infusão da alma de Maria foi feita sem o pecado original, de modo que, ao infundir a sua alma, ela também foi purificada do pecado original e adornada com os dons de Deus, recebendo uma alma pura, infusa por Deus; assim desde o primeiro momento que ela começou a viver ela esteve livre de todo pecado." (Sermão: "No Dia da Concepção da Mãe de Deus", 1527).

Ela é cheia de graça, proclamada para ser inteiramente sem pecado, algo tremendamente grande. Por graça de Deus enche-la com tudo de bom e faz dela desprovido de todos os males. (Personal {“Little”} Prayer Book, 1522).


Zwínglio


“Firmemente creio, segundo as palavras do Evangelho, que Maria, como virgem pura, nos gerou o Filho de Deus e que no parto e após o parto permaneceu para sempre virgem pura e íntegra” (Corpus Reformatorum: Zwingli Opera 1 424)

"Estimo grandemente a Mãe de Deus, a Virgem Maria perpetuamente casta e imaculada” (ZO 2,189).

“Quanto mais crescem a honra e o amor de Cristo entre os homens, tanto mais crescem também a estima e a honra de Maria, que gerou para nós um tão grande e propício Senhor e Redentor."

Zwinglio inclusive recitava a Ave-Maria durante o seu culto.


Amman, discípulo de Zwínglio


“Maria foi preservada de toda mancha e culpa do pecado original, do pecado mortal e do pecado atual”.

"Eu nunca pensei, e ainda menos tenho ensinado, ou declarado publicamente, qualquer coisa a respeito do assunto da sempre Virgem Maria, Mãe da nossa salvação, que poderia ser considerado desonroso, ímpio, indigno ou mal. . . Eu acredito com todo meu coração, segundo a palavra do Santo Evangelho que esta virgem pura suportou por nós o Filho de Deus e que ela permaneceu, no parto e depois dele, uma virgem pura e imaculada, para a eternidade." (Thurian, ibid., P.76 sermão / mesmo)


Calvino


“Não podemos reconhecer as bênçãos que nos trouxe Jesus, sem reconhecer ao mesmo tempo quão imensamente Deus honrou e enriqueceu Maria, ao escolhê-la para ser Mãe de Deus”.

Vê-se, assim, que mesmo os reformadores protestantes jamais duvidaram do papel singularíssimo da Virgem Maria, não hesitando em reconhecê-la sob os títulos de Mãe de Deus e Mãe dos Cristãos, e defendendo inclusive a sua imaculada conceição.

Seguimos agora para uma questão famosa e que é comum objeção na mente dos protestantes.

Por que a Bíblia fala tão pouco de Maria, se ela é tão importante?


Comecemos dizendo que, como vimos, não é tão pouco, não. Vários foram os que defenderam que a Virgem está na verdade em toda a Bíblia, só que de modo velado, não explícito, como inclusive parece ter sido o seu traço vocacional. Como falou Sto Inácio de Antioquia, a nobreza da Virgem se deu em segredo, seja do mundo, seja do demônio, seja dela mesma. Santo Afonso chega a dizer que a dignidade da Virgem foi escondida até de si mesma. Não apenas ela, mas também a identidade do Cristo. Isto explica a tentação. Sendo Deus, Jesus não poderia pecar. No entanto, foi tentado pelo demônio. A explicação mais coerente é a que afirma a ignorância de Satanás a respeito da identidade divina de Jesus.

No entanto, dizem os santos, assim como a vocação da Virgem, no início da Redenção, foi dada no silêncio - ela guardava tudo no seu coração -, bem como a divindade de Jesus foi ocultada aos homens, no fim dos tempos um e outro aparecerão de modo ostensivo. A segunda vinda de Jesus será absolutamente gloriosa e Ele mostrará de fato Quem é. Do mesmo modo, o papel da Virgem no fim dos tempos será totalmente explícito, e este papel inclui os preparativos para a Parusia. Mas voltemos à Bíblia.

É fato que nós não encontramos nenhuma afirmação explícita sobre Maria nas cartas de Paulo, nem nas de Pedro, nem nas de João, nem na de Tiago, nem na de Judas. A que isto se deve?

A Igreja ensina que a Bíblia está voltada, de modo primeiro e quase único, para uma só figura: a central, que é Jesus. Tanto o Antigo Testamento quando o Novo têm n'Ele o seu eixo, e somente d'Ele falam de maneira privilegiada. E mesmo no que se refere a Ele, somente é relatado aquilo que é essencial para a compreensão do Mistério necessário à salvação. Este conteúdo revelado inclui o explícito e o implícito. Lembramos, além disso, que nunca foi intenção de nenhum dos apóstolos que a Bíblia fornecesse um conjunto completo dos conteúdos da Fé. A Sola Scriptura só vai ser concebida, com todas as suas contradições inerentes das quais, porém, os seus promotores pareciam inconscientes, no séc. XVI. Esta inconsciência da contradição é bem a característica da Idade Moderna, que tem ali o seu início.

Para se ter uma idéia de como a Bíblia restringe as coisas ao seu mais essencial - que, no entanto, só pode ser compreendido na sua ambiência extra-escriturística -, notemos que, por menor que fosse a importância de José - e ele era importantíssimo: a Virgem e o menino Jesus lhe foram confiados! -, a Bíblia não relata dele uma fala sequer. Isto, contudo, não legitima dizer-lhe inútil ou vulgar. Então chegamos a uma conclusão inicial: a quantidade de menções bíblicas a alguém não é um critério para a valoração espiritual dessa pessoa.

Mas há outras teorias que, longe de serem mutuamente excludentes, atuam complementando umas as outras. Numa delas, se relembra que nos primeiros séculos a Igreja sofria intensa perseguição. Numerosos são os mártires que dão a vida pelo Evangelho. Assim, era papel dos Apóstolos guardar e proteger Maria. Assim como toda Rainha tem os seus escudeiros, João foi eleito, pelo próprio Cristo, o pajem da Virgem. Se a Arca do Antigo Testamento deveria ser protegida, quanto mais a do Novo! Assim, era de prudência que os Apóstolos se referissem pouco a ela, ao menos nos registros escritos.

Uma outra teoria ressalta as crenças politeístas das quais os neófitos cristãos eram antigos adeptos. Assim, havia o risco de, habituados à idéia de vários deuses, os recém convertidos confundissem Maria com uma de suas deusas. Com efeito, vemos um relato de um suposto convertido por São Paulo quando da sua pregação no Areópago, na Grécia, Dionísio Areopagita. (Cf At 17,34) Diz ele, lá pelo ano 96 d.C.:



“Confesso na verdade, que não pensava que fora de Deus fosse possível beleza tão sublime e celestial, como a que contemplei. Vi a Maria Santíssima! Pude ver e rever com meus próprios olhos a Mãe de Jesus Cristo! Confesso mais uma vez que, quando João me levou à presença deífica da Virgem altíssima, fiquei deslumbrado por um esplendor tão grande, que me desfaleceu o coração e faltou a respiração, oprimido como estava pela glória de tamanha majestade (...) Eu a teria adorado como deusa, se a fé não dissesse que ela era também criatura!”

Se o relato é verídico - e de fato o escrito o é - não espanta a prudência dos apóstolos em apresentar Maria aos novos cristãos.

Além disso, nos chegaram também relatos dos próprios escritores bíblicos, como Tiago, que já citamos, e inclusive dos próprios evangelistas Marcos e João, que trazem informações sobre a natureza inequívoca de Maria.

Nas Liturgias do Egito, há a oração atribuída a São Marcos, que repetimos mais uma vez:

“Lembremo-nos, sobretudo, da Santíssima, intemerata e bendita Senhora Nossa, a Mãe de Deus e sempre Virgem Maria.“

Já o Apóstolo André teria dito:

“Maria é Mãe de Deus, resplandecente de tanta pureza, e radiante de tanta beleza, que, abaixo de Deus, é impossível imaginar maior, na terra ou no céu”. (Sto Andreas Apost. in trasitu B. V., apud Amad.) 

“Tendo sido o primeiro homem formado de uma terra imaculada, era necessário que o homem perfeito nascesse de uma Virgem igualmente imaculada, para que o Filho de Deus, que antes formara o homem, reparasse a vida eterna que os homens tinham perdido” (Santo André, Cartas dos Padres de Acaia).

E, por fim, São João:

Maria, é verdadeiramente Mãe de Deus, pois concebeu e gerou um verdadeiro Deus, deu a luz, não um simples homem como as outras mães, mas Deus unido a carne humana.” (S. João Apost. Ibid)

Se tal é o caso, há que se perguntar por que, então, estes escritos não entraram no Cânon. Como é arquiconhecido, foi a Igreja Católica que estabeleceu a lista dos livros sagrados do Novo Testamento. Se ela quisesse, então, impor ou inventar um culto à Virgem que não procedia dos Evangelhos, obviamente que ela teria incluído tais escritos. Se ela não os pôs, foi porque considerou que eles trazem informações que, embora importantes, não cumprem a função primordial dos Evangelhos e dos conteúdos mais centrais da Revelação. O fato de não estarem na bíblia é prova inclusive da honestidade da Igreja. Por outro lado, se considerou não ser necessário colocá-los lá é porque o culto à Mãe de Deus era algo plenamente consensual entre os cristãos, e não havia quem o contestasse dada a sua obviedade. Como vimos, sequer os reformadores do século XVI, inclusive usando o equivocado princípio da Sola Scriptura, negavam o papel singularíssimo da Virgem Maria no Plano da Salvação.


Por fim, o Cardeal Newman, sobre o tema que agora nos ocupa, escreveu:

"Às vezes, nos perguntam porque os escritores sagrados não mencionaram a grandeza de Nossa Senhora. Eu respondo: ela estava ou poderia ainda estar viva, quando os Apóstolos e Evangelistas escreveram sobre ela. Havia um único livro da Escritura que, com certeza, foi escrito depois de sua morte e este livro (o Apocalipse) o fez, por assim dizer, canonizando-a e coroando-a." (Apud HAHN, p. 57)

Milagres Evidentes e Incontestáveis para a Ciência

Um milagre é sempre uma intervenção divina direta e evidente na qual o sobrenatural transparece de modo claro em eventos que fogem às leis naturais. Sabendo que a natureza possui suas leis, é possível concluir que, quando estas leis são negadas num caso em particular, é necessário que se conceba a existência de um agente externo. É uma necessidade.

Os agentes externos à natureza reconhecidos pela perspectiva cristã são de três tipos: anjos, demônios e Deus.

Anjos e demônios possuem a mesma constituição, embora ocupem graus hierárquicos variados. A estes seres, algumas coisas são possíveis e outras, impossíveis. Do ponto de vista das intervenções, podemos dividi-las em três tipos: sinais, prodígios e milagres.

Sinais - do grego semeion - são eventos sensíveis - captados pelos sentidos -, sobrenaturais ou não, e que demandam uma interpretação. Os sinais servem para apontar para outra realidade além da imediata. Eram usados pelos profetas ou por Jesus como meios de suscitar a Fé. O Apóstolo João, por exemplo, atribui aos milagres de Jesus o nome de sinais, pois serviam para identificá-Lo como o Messias. "E os seus discípulos creram n'Ele". (Jo 2,11) Os sinais podem ser causados por entes naturais.

Prodígios - do grego Teras - são manifestações extraordinárias da natureza e que fogem à ordem comum das coisas. Servem para tornar evidente a fragilidade dos discursos naturalistas. Demandam um agente sobrenatural. Os prodígios e os sinais juntos aparecem frequentemente na Escritura (Ex 7,3; Dt 6,22; At 4, 29-31; At 7,35-36)

Milagres - do grego Dynamis, Força, Poder - são manifestações do poder de Deus que realiza feitos impossíveis ao engenho humano e às possibilidades naturais. Transcendem o campo dos prodígios, mais relacionados aos fenômenos da natureza. Em alguns trechos, os três são citados juntos. (At 2,22; 2Col 2,12; Hb 2,3-4; 2Ts 9,12) Um milagre pode ser um sinal, quando tem por objetivo suscitar a Fé, mas pode ser meramente um milagre, quando a Fé já é pressuposta.

A questão que se coloca é: quais são os limites do poder demoníaco? Seriam os entes caídos capazes de operar sinais, prodígios e milagres?

Antes de explicar, convém afirmar já que não é razoável que as suas possibilidades de ação sejam similares às divinas, pois, se fosse o caso, não seria possível distinguir a verdade do erro, e não teriam pecado os fariseus quando atribuíram a Nosso Senhor o agir por meio de Belzebu. Se, ao contrário, Jesus os recrimina duramente, e chega a dizer que as obras que Ele fazia eram testemunhas de que o Pai O havia enviado (Jo 5,36; cf. Mc 16,20) é porque deve haver critérios para o reto discernimento. Assim, os demônios, não obstante possam agir de certos modos, estão limitados e não podem reproduzir realmente certos comportamentos divinos. Isso não os impede, porém, de serem muito convincentes no que armam. Vejamos o que diz sobre isso São Paulo:

"A manifestação do ímpio será acompanhada, graças ao poder de Satanás, de toda a sorte de portentos, sinais e prodígios enganadores." (2Ts 9-12)

Os prodígios que o ímpio aqui realiza são enganadores. Isto é, não são verdadeiros. Não obstante, para os que se convencem fácil e não amam a verdade, será suficiente para seduzi-los. É o que dizem os versículos seguintes. Sobre as possibilidades dos demônios, escreve Sto Tomás de Aquino:

"(...) milagres, em sentido próprio, não nos podem fazer os demônios nem nenhuma criatura, mas só Deus; porque o milagre propriamente dito vai contra a ordem de toda a natureza, cuja ordem compreende todas as virtudes criadas. Porém, chama-se milagre, em sentido lato, ao que excede à faculdade e à razão humanas. E assim os demônios podem fazer milagres, que enchem os homens de estupefação, porque excedem à faculdade e ao conhecimento destes. Pois também qualquer homem, quando faz algo que excede a faculdade e o conhecimento de outro, provoca o espanto deste, com a sua obra, de modo que parece, de certo modo, fazer milagre."

Mas, continua o santo,

"devemos saber que, embora essas obras dos demônios, que nos parecem milagres, não realizem a verdadeira essência destes, con­tudo eles fazem às vezes coisas verdadeiras. Assim os mágicos do Faraó, por virtude dos demônios fizeram serpentes e rãs verdadeiras. E, como diz Agostinho, quando caiu o fogo do céu e de um ímpeto consumiu a família de jó, com seus rebanhos; e um turbilhão destruiu­-lhe a casa e lhe matou os filhos, essas foram obras de Satanás e não fantasmagorias."

E explica:

"Como já se disse antes, a matéria corpórea não obedece à von­tade dos anjos bons ou maus, de modo que os demônios possam pela sua virtude transmutar a matéria de uma forma para outra. Mas po­dem aplicar certos germes existentes nos ele­mentos do mundo, para realizar tais efeitos, como diz Agostinho. Por onde deve-se dizer, que todas as transmutações das coisas corpó­reas, que podem ser feitas por algumas virtudes naturais, entre as quais estão os referidos ger­mes, podem ser feitas por operação dos demônios, com aplicação desses germes; assim quan­do certas coisas são transmutadas em serpen­tes ou rãs, seres que podem ser gerados por putrefação. Porém as transmutações das coisas corpóreas, que não podem ser feitas por vir­tude da natureza, de nenhum modo podem ser realizadas por operação dos demônios, na ver­dade da expressão. E se às vezes algo de tal parece ser feito, por operação dos demônios, isso não se dá real, mas só aparentemente, o que pode acontecer de duplo modo. De um, inte­riormente; assim o demônio pode mudar a fan­tasia do homem e mesmo os sentidos corpóreos, de maneira que uma coisa pareça diversa do que é, como já se disse. E isto também se pode considerar como feito às vezes por virtude de certos agentes corpóreos. De outro modo, ex­teriormente. Pois assim como o demônio pode formar, do ar, um corpo de qualquer forma ou figura, de modo que, assumindo-o, apareça vi­sivelmente, pela mesma razão pode revestir qualquer coisa de uma forma corpórea, de modo que seja visto, na figura desta. E é o que diz Santo Agostinho: a fantasia do ho­mem, mesmo quando este pensa ou sonha, va­ria conforme os inumeráveis gênios das causas e, como corporificada na imagem de algum ani­mal, aparece aos outros sentidos entorpecidos. O que significa, não que a virtude fantástica do homem, ou uma espécie da mesma, corpori­ficada e com ela numericamente idêntica, seja manifestada aos sentidos de outrem, mas que o demônio, que forma uma certa espécie, na fan­tasia de um homem, também pode apresentar outra espécie semelhante aos sentidos de outro homem."

(Suma Teológica, Art. 4.)

O que Sto Tomás está dizendo são duas coisas:

A primeira, é que os sentidos humanos podem ser manipulados pelos demônios de modo que vejamos e/ou imaginemos coisas e figuras projetados por ele.

A segunda, é que os fenômenos podem ser verdadeiros, mas produzidos de modo natural, ainda que por meios que nos escapam. Como eles têm capacidade de agir na matéria e inclusive, em virtude da agudeza de sua inteligência, fazer previsões a médio e longo prazo e lidar com um encadeamento de causas que escapa em muito o horizonte de atenção humana, então é possível produzir, por via material, certos fenômenos que se julgava impossíveis, ou prever coisas que ocorrerão no futuro pela própria ordem atual dos entes.

A estes dois tipos de ação, porém, falta o essencial para que se trate de um milagre, que é a intervenção direta e extraordinária sobre os entes físicos fazendo-os agir de um modo alheio à sua própria constituição.

Neste outro trecho, Sto Tomás é ainda mais claro:

"Entre os milagres, há os que não são verdadeiros, mas fatos imaginários, que enganam o homem, fazendo-o ver o que não existe. Outros, são fatos reais, embora não mereçam verdadeiramente o nome de milagres, pois são produzidos por certas causas naturais. Ora, essas duas categorias de milagres podem ser feitas pelos demônios. Os verdadeiros milagres não podem ser realizados senão pelo poder divino, pois Deus os produz para a utilidade do homem." (ST II-II, 178, 2)

Vejamos, então, alguns milagres atribuídos à Virgem Maria. Há, em verdade, uma infinidade deles. Mas nos dedicaremos aqui a apenas três.


1º Corpos Incorruptos

Corpos incorruptos são aqueles que não se decompõem depois da morte. A Igreja os possui em mais de dois mil. Na verdade, eles não permaneceram assim porque alguém pediu que a Virgem o fizesse. Nem sequer faz sentido que alguém peça que um dado corpo não se decomponha. Assim, não é possível atestar que tenha sido a Virgem Maria a operadora do milagre. No entanto, o que se comprova é que muitos dos corpos incorruptos pertenceram a pessoas profundamente devotas a ela, e inclusive que se lhe consagraram na qualidade de escravos - uma devoção bem conhecida e promovida por São Luís Maria Grignion de Montfort. Alguns desses corpos, além disso, exalam um perfume desconhecido e que não cessa.

Vejamos as possibilidades de que haja engano:

A primeira delas é que seja um fenômeno natural. De fato, há modos naturais de preservar um corpo da decomposição. Algumas dessas técnicas foram usadas no Egito. Dentre elas, temos a plastinação, a mumificação, o adipocere, etc.

Alguns dos casos católicos são falsos, como Sta Margarida de Cortona ou João XXIII. Ambos foram submetidos a processos químicos post mortem. Em outros, afirma-se que o processo se deveu às condições favoráveis do túmulo. Tal foi o caso, por exemplo, do famosíssimo Pe. Pio, que já apresentava alguns sinais de deterioração e ao qual puseram uma máscara de silicone e também o submeteram a operações químicas. Convém, no entanto, dizer que a exumação ocorreu quarenta anos depois da sua morte, e o que chamou a atenção aos médicos foi o fato de o corpo não apresentar nenhum sinal de mau cheiro.

No entanto, vários são os casos autênticos que foram avaliados e se constatou a ausência de manipulações químicas e de qualquer indício de decomposição. Em alguns santos, esse fenômeno ocorre de modo temporário, como foi o caso de São Charbel Makhlouf, que, mesmo depois de vários dias morto, como os habitantes vizinhos ficavam vendo luzes próximas ao seu túmulo, ao ser exumado, constatou-se que não apenas estava incorrupto, como ficava continuamente suando, motivo pelo qual não sabiam se o deixavam vestido ou nu. Com o tempo, porém, seu corpo se decompôs.

Com o corpo de São Francisco Xavier também ocorreu algo semelhante. Enterrado em 1552. Para que seu corpo se desfizesse logo, puseram-lhe cal por baixo e por cima dele, que é uma substância altamente corrosiva. No entanto, meses depois, quando exumado, estava em perfeito estado. E assim ficou, flexível e com cor natural, por 60 anos. Em 1614, porém, alguém teve a idéia de jerico de distribuir-lhe as partes do corpo para veneração em diferentes igrejas. Amputando-lhe o braço, o corpo sofreu uma hemorragia e passou a ressecar. Depois chegaram até a extrair-lhe órgãos internos, ao que ele foi "murchando". Mas até hoje, embora modificado, ainda é exposto para veneração. 

Em vários outros, porém, o estado de incorruptibilidade segue de vento em popa. É o caso - talvez o mais famoso - de Sta Bernadette Soubirous. Vidente de Nossa Senhora em Lourdes, ela foi miraculosamente preservada. Em 1909, ela morreu. Trinta anos depois, na sua exumação, constatada por dois médicos - os Drs Ch. David e A. Jordan -, verificaram que o corpo estava absolutamente intacto, sem nenhum odor, apresentando apenas rigidez, o que é típico dos defuntos. Dez anos depois, numa segunda exumação, novamente intacto. A pedido do bispo, foram-lhe retiradas duas costelas e um pedaço do diafragma, como relíquias. Em 1923 houve uma terceira exumação, com mais retiradas de relíquias. O figado da santa estava em perfeito estado. Ao lado do corpo da santa, se encontra uma placa com os seguintes dizeres:

"O corpo de Santa Bernadette repousa nesta capela desde 3 de agosto de 1925. Ele está intacto e 'como se estivesse petrificado' segundo foi reconhecido pelos médicos juramentados e pelas autoridades civis e religiosas por ocasião das exumações de 1909, 1919 e 1925.
O rosto e as mãos, que escureceram no contato com o ar, foram recobertos com ligeiras camadas de cera, moldadas segundo os modelos recolhidos diretamente. 
A posição inclinada para o lado esquerdo foi assumida pelo corpo no túmulo."

Se o leitor quiser mais detalhes deste caso, veja aqui.

Uma outra santa, ainda, está incorrupta e sentada: Sta Catarina de Bolonha. De dois em dois anos é feita uma radiografia na sua coluna pra ver se ela cede, e sempre se constata que ela se mantém firme. Nascida em 8 de setembro de 1413, Bolonha, Itália, faleceu em 1463. Era mística, profetiza, visionária, fazia grandes milagres e decifrava manuscritos. Era também pintora e, tendo recebido a visitação da Virgem com o menino Jesus num dia de Natal, pintou um quadro retratando o ocorrido. Depois de sua morte, milagres ocorriam ao redor da sua tumba. Ela havia sido enterrada sem caixão. Com dezoito dias, devido aos fenômenos, foi exumada. Tão logo desenterraram-na, um misterioso perfume exalava do seu corpo. Em seguida, foi posta numa cadeira. O Dr. Maestro Marcanova, ao analisar o caso, não soube explicá-lo. Até hoje ela está nesta cadeira e é submetida a uma avaliação de dois em dois anos.

Há inúmeros casos, mas como este texto não trata disto especificamente, ficamos com estes dois. Aqui a causa sobrenatural é evidente, visto que não há procedimentos de embalsamento nem manipulações químicas. A devoção dessas santas à Virgem Maria é inegável, sendo a primeira sua vidente em Lourdes. Se não são naturais, são provocadas por entes sobrenaturais.

Deus ou os demônios?

Vimos que os demônios não podem manipular a matéria como queiram. O que eles podem é influenciá-la dentro das suas leis naturais. Ora, é intrínseco aos corpos compostos que se decomponham quando lhes cessa a vida. O perfume que exalam também é totalmente desconhecido, não possuindo sua origem em nenhum responsável físico. Temos, assim, um fenômeno que transcende as possibilidades demoníacas.

Outra forma de atuação dos demônios é a ludibriação sensitiva, isto é, a distorção das informações captadas pelos sentidos e recebidas na imaginação. Isto, porém, é um fenômeno produzido num ou noutro, mas nunca em todas as pessoas nem por tempo indeterminado. Assim, o que vemos não é uma mera aparência, mas um acontecimento real e essencialmente sobrenatural.

Assim, resta-nos somente uma possibilidade: a divina. É Deus quem realiza os fenômenos descritos, e se o faz, isto testemunha da santidade dessas pessoas. E como eram profundamente devotas da Virgem Maria, fica provada a eficacíssima influência da Virgem nos diletos de Deus.


A Virgem de Guadalupe

Este é um fenômeno mais estritamente mariano. Guadalupe é uma cidade no México. Em 9 de Dezembro, o índio Juan Diego andava pelo monte Tepeyac. Apareceu-lhe então a Virgem Maria e lhe perguntou nos seguintes termos:

“Meu filho, a quem amo ternamente, como a um filho pequenino e delicado, aonde vais?”

‒ “Vou, nobre Senhora minha, à cidade, ao bairro de Tlaltelolco, ouvir a santa missa que nos celebra o ministro de Deus e súdito seu”, respondeu ele.

A Virgem continuou:

‒ “Fica sabendo, filho muito querido, que eu sou a sempre Virgem Maria, Mãe do verdadeiro Deus, e é meu desejo que me erijam um templo neste lugar, de onde, como Mãe piedosa tua e de teus semelhantes, mostrarei minha clemência amorosa e a compaixão que tenho dos naturais e daqueles que me amam e procuram; ouvirei seus rogos e súplicas, para dar-lhes consolo e alívio; e, para que se realize a minha vontade, hás de ir à cidade do México, dirigindo-te ao palácio do bispo que ali reside, ao qual dirás que eu te envio e que é vontade minha que me edifique um templo neste lugar; referirás quanto viste e ouviste; eu te agradecerei o que por mim fizeres a este respeito, te darei prestígio e te exaltarei”

Juan, naturalmente reticente, foi. Lá chegando, foi obviamente desacreditado. Voltando ao monte, ele pediu à Virgem, que novamente lhe apareceu, que ela procurasse alguém mais importante e nobre que ele, "em quem se possa acreditar". Ela então o pede para ir buscar algumas rosas num lugar ali perto, sendo que naquela época não era possível colhê-las. Ele, porém, as encontra e as põe num manto (tilma) que os índios costumavam usar sobre a roupa e com o qual se cobriam quando dormiam ao relento. Em seguida, a Virgem lhe pediu pra voltar ao bispo e mostrá-las a ele. Depois das novas hesitações, o bispo aceitou recebê-lo. Juan Diego então soltou o manto deixando as rosas caírem no chão. Neste momento, viu-se impressa no manto grosseiro a imagem da Virgem Maria. Embora tudo isso já fosse extraordinário, o que tira o fôlego começa agora, com a análise da imagem.

Vamos apenas as características principais.

1- A "tinta" da imagem não é de natureza animal, nem vegetal, nem mineral;

Só isso já foge da alçada do demônio que não pode criar nenhuma substância. Ao leitor, lembramos que tudo quanto há nesse mundo é sempre de natureza ou vegetal, ou animal, ou mineral. Observe então os seguintes pontos:

2- A "tinta" está como suspensa sobre o tecido (3 décimos de milímetro) de modo que não o toca estritamente;

3- O tecido foi elevado a uma resistência muito acima do que lhe era possível. Pano grosseiro, no qual os índios mexicanos se enrolavam na hora de dormir, tendia a resistir de 10 a 15 anos. E, no entanto, lá se vão cinco séculos - desde a aparição em 1531 - em que a capa está preservada;

4- As flores no manto da Virgem ocupam precisamente os lugares correspondentes às montanhas no México;

5- As constelações impressas no seu manto expressam com rigor a disposição dos astros no momento da aparição, além do que trazem um forte elemento simbólico: na cabeça, há a constelação da coroa boreal; no seio, a de virgem, etc.;

6- Os olhos da Virgem, se maximizados, revelam as figuras que ela via no momento em que o senhor bispo ajoelhou-se diante de Juan Diego. Seria impossível reproduzir isso por qualquer técnica artística;

7- Os olhos da Virgem reagem a luz, dilatando a pupila quando um facho se lhes aproxima;

8- O desenho não teve esboço e também não há quaisquer sinais de pincelada.;

9- Um estetoscópio revelou pulsações (115 por minuto) na criança da qual a Virgem está grávida.

10- Além de a imagem estar grávida, ela também aparece com uma fita no seio e os cabelos soltos, divididos ao meio, características de uma virgem na cultura asteca. Maria, portanto, é uma Virgem Mãe.
Ah, e é interessante dizer que a Virgem, no manto, está rodeada pelo sol - como que vestida - e tem a lua sob os pés. Onde foi que a gente já viu isso, mesmo? ...

Lembramos que o leitor é livre para fazer suas pesquisas. Se acha que o manto de guadalupe é fruto de algum pintor sacana, vá procurar.. Você verá que várias pesquisas já foram feitas nele, e nenhuma delas dá conta de explicar o fenômeno. Ahhh, íamos esquecendo: as proporções da figura apresentam o famoso "número áureo", uma precisão matemática que está em toda a natureza e que é dita, vejam só, ser a "assinatura de Deus". Hehe.. Muito apropriado..

Vamos ao último milagre observado:



O Milagre do Sol


Em 1917, Nossa Senhora apareceu a três pastorinhos - Lúcia, Jacinta e Francisco - na cidade de Fátima, Portugal. Na segunda aparição, em  13 de junho de 1917, a Virgem prometeu um sinal que seria visível "que todos hão de ver para acreditarem". A coisa foi divulgada, e em 13 de outubro de 1917, uma multidão de cerca de 70 mil pessoas se reuniu no dia, na Cova da Iria, para testemunhar o tal milagre. Era um dia chuvoso, e lá estavam milhares de pessoas, uns com guarda chuvas, e outros já molhados. Os três pastorinhos à frente esperavam alguma coisa. A Virgem então lhes apareceu - aos três - e, extasiados, mantiveram com ela uma breve conversação. De repente, tendo revelado o que lhes ia ocorrer, Lúcia, a mais velha, gritou: "Olhem, olhem para o sol!"

O Céu então se abriu, as roupas enxugaram-se instantaneamente e o sol pareceu dotar-se de uma flexibilidade que não lhe é própria e começou a rodopiar no céu. Permitindo-se ver, ele passeava a grande velocidade sobre os olhares atônitos de 70.000 pessoas que, sem exceção, o viam.

Eis alguns depoimentos de presentes no ocorrido:

"O sol, rodopiando, parecia cair-se do firmamento e avançar ameaçadoramente sobre a terra" 
(Dr. Almeida Garret, Professor de Ciências Naturais na Universidade de Coimbra)

“Era como um disco de vidro fosco iluminado por detrás e girando sobre si mesmo, dando a impressão que estava caindo sobre nossas cabeças.”
(Sr. Mario Godinho, cético até o dia do Milagre)

“Olhei fixamente para o sol que parecia pálido, não feria meus olhos. Parecendo uma bola de neve, ele girava sobre si mesmo; de repente pareceu cair em ziguezague.”
(Pe. Joaquim Lourenço, que depois disso decidiu ser padre)

“O sol começou a rodar em círculos de todas as cores. Era como uma roda de fogos de artifício, caindo sobre o chão.”
(Sra. Maria Celeste da Câmara e Vasconcelos)

“Olhei para o sol e o vi girando como um disco, rolando sobre si mesmo. Vi as pessoas mudando de cor, tomando as cores do arco-íris.”
(Sr. Antonio Antunes de Oliveira)

“Até nossas roupas tinham secado. Não sentimos absolutamente nada. As roupas estavam secas e pareciam que tinham acabado de vir da lavanderia. Pensei: ou estou louco ou isto foi um milagre, um verdadeiro milagre.”
(Sr. Dominic Reis)

“Minha roupa estava molhada e então, sem me dar conta, ficou seca.”
(Sr. Joaquim Vicente)

“Presenciei também quatro curas no lugar das aparições: duas de tuberculose, uma de uma moça de Lisboa e a outra de Alfarelos; e duas aleijadas.”
(Sra. Maria do Carmo Menezes)

“Não conheço ninguém que dissesse não ter visto.”
(Sr. João Carreira)

“Nunca soube que alguém não tivesse visto nada. Elas não poderiam não ver, a menos que não quissessem olhar o fenômeno.”
(Sr. José Joaquim de Assunção, também era cético do milagre)

Segundo o Poeta Alonso Lopes Vieira e a professora colegial Delfina Lopes, junto com seus alunos e outras testemunhas, o milagre era visível num raio de 40 km, e durou aproximadamente 10 minutos.

Abaixo, um vídeo em que aparecem várias fotos originais tiradas durante o milagre. Os textos estão em inglês, mas têm basicamente as informações que já pusemos acima.




Quais as chances de ser um fenômeno natural? Nenhuma.

Quais as chances de ser um fenômeno provocado pelo demônio? Vamos pensar...

Há a possibilidade de o sol mesmo ter "dançado" no céu? Primeiro: se o fizesse, isto causaria transtornos imensos no planeta, a menos que a terra fosse mantida intacta por um outro milagre; segundo, o mundo inteiro teria visto o sinal. Então, é mais coerente supor que a aparência do sol é que foi movida. O demônio poderia fazer isso? É possível que pudesse enganar um ou outro sujeito, mas 70.000? Além disso, se tal poder estivesse em mãos do demônio, por que não usá-lo sem mais?

Além da impossibilidade de ludibriação de 70.000 pessoas - muitas delas totalmente descrentes no fenômeno e portanto não predispostas -, ocorreram também curas físicas, e muitas conversões. E, para arrematar, a morte de Jacinta e Francisco foi predita com antecedência pela Virgem, e Jacinta tem o corpo incorrupto. =)


"Todas as gerações me chamarão bem aventurada"


Chegamos, enfim, ao último subtópico, e, como vimos, vá o leitor para a esquerda ou para a direita, para cima ou para baixo, para a Bíblia ou para a Tradição, para os Milagres ou para a Lógica, Maria é quem é: Mãe de Deus, a quem os cristãos de todas as épocas veneraram profundamente.

Para concluir, vejamos o que ela falou de si mesma no seu famoso canto "Magnificat".

"Minha alma glorifica ao Senhor, meu espírito exulta de alegria em Deus, meu Salvador, porque olhou para sua pobre serva. Por isto, desde agora, me proclamarão bem-aventurada todas as gerações, porque realizou em mim maravilhas aquele que é poderoso e cujo nome é Santo..." (Lc 1,46-49)

O canto continua, obviamente. Mas notemos, de início, que já há muito notaram as semelhanças entre este canto e o canto de Ana, em 1Sm 2,1-10. Ana é um dos tipos de Maria, pois tem apenas um filho - Samuel - e o dedica a Deus, do mesmo modo como a Virgem consagrou Jesus no templo. (Cf. 1Sm 1,24-28; Lc 2,21-24) Uma outra semelhança entre as duas se dá porque Ana é acusada de estar bêbada com o vinho de Pentecostes (1Sm 1,12-17) Samuel também parece ter feito o voto dos Nazoreus, pois sua mãe faz a promessa de não lhe passar a navalha na cabeça (1Sm 1,11). Já de Jesus foi dito: "Ele será chamado Nazoreu" (Jo 1,46). Embora o autor bíblico explique o nome de Samuel como "foi pedido a Deus", ele significa, na verdade, "nome de Deus", de modo que Samuel é um prelúdio de "Jesus", que é o próprio nome de Deus. Maria reconhece-se então como a agraciada, aquela que, à semelhança de Ana, que era estéril, foi fecundada por obra e graça de Deus.

Por causa disso, Maria profetiza: "Todas as gerações me chamarão bem aventurada". Ela o diz pouco depois da exaltação que Isabel lhe faz, de modo que ambas as expressões têm o mesmo sentido. Maria é mais que feliz, é bem aventurada. É mais que bem aventurada, é kecharitomene. Depois deste cântico, Lucas escreve: "Maria ficou com Isabel cerca de três meses", que, lembramos, faz referência ao tempo que a Arca da Aliança passou na casa de Obed-Edom.

Depois disso tudo, convocamos ao leitor que se junte a nós, o grupo destes que que proclamam a Virgem Santíssima bem-aventurada. 

Quase concluindo, citemos mais uma vez o Dr. Scott Hahn:

"O papel de Maria não tem sentido algum se considerado fora do contexto da história da salvação, pois não é acidental no plano de Deus. Deus quis fazer que seu ato redentor fosse inconcebível sem ela. Maria estava no plano de Deus desde o início." (p.34)

Para terminar - agora sim -, contamos o caso de um êxtase de Santa Gertrudes. Viu-se ela diante do trono divino e naturalmente se ajoelhou. Contemplando a glória de Jesus, perguntou, aflita, o que deveria fazer para honrar mais a Ele. Jesus então sorriu e, apontando para o trono que estava ao lado direito do Seu, o da Gebirah, falou:

"Honre a minha Mãe, que isto Me agrada..."


Fábio
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