Tradutor / Translator


English French German Spain Italian Dutch Russian Portuguese Japanese Korean Arabic Chinese Simplified
Mostrando postagens com marcador Crônicas. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Crônicas. Mostrar todas as postagens

Crônica: A Experiência da Cegueira


Josef Pieper

Meditando sobre o andamento do mundo, vem-se a desejar que a verdade pudesse, ainda uma vez, mostrar-se de forma totalmente irrefutável, imponente pela sua própria força arrebatadora.

Mas quão duvidosos são tais desejos (quão sinistras podem ser as formas em que realmente se dão a liberdade e também a fraqueza dos homens) e como a verdade de modo algum "se impõe", tudo isso torna-se manifesto na história que narraremos a seguir.

Nela se descreve uma experiência. Uma experiência que, aliás, não pode ser repetida por todo mundo. Mas, talvez, esse "todo mundo" reconheça que pode muito bem ocorrer uma repetição em qualquer época, de modo igual ou semelhante. Trata-se de uma experiência com a cegueira: um dos protagonistas é um homem cego. Ao final, demonstra-se que também um olho que vê pode estar cego. Aliás, esse tino especial de cegueira é mesmo o tema próprio de nossa história.

Um dos protagonistas é, como dizia, um cego, um homem ainda relativamente jovem. Todos o acolhem, pois ele não sabia fazer outra coisa a não ser ficar sentado na rua pedindo esmola.

Porém, que quer dizer exatamente "todos o conhecem"? Conheciam sim, seu jeito, sua voz e aquele seu rosto um tanto vazio e rígido. Mas seriam capazes de reconhecê-lo em outro ambiente, digamos, no jantar em casa de seus pais com quem mora ou no caminho guiado por um menino? Isto é duvidoso, e esta circunstância terá um certo significado em nossa história.

Para ir direto ao ponto mais importante: aconteceu que, um dia, esse homem, repentinamente, recobrou a visão - não, "recobrou não! mas pela primeira vez pôde ver (pois ele era cego de nascença). O mendigo lavou-se numa água parada e, de repente, ganhou a visão.

Talvez esse lavar-se não tenha sido o decisivo; algo tinha ocorrido antes. E por isso, precisamos falar ainda de um outro personagem principal. Mas esse não pode ser descrito tão facilmente.

O povo andava falando do "homem milagroso", muitos o chamam "o bom" e outros até "o abençoado". Mas isto, para nossa história não é propriamente importante. Mais importante é que ele era suspeito. Suspeito ante quem? E suspeito de quê? Também isto - esta última pergunta - é difícil de responder. Ele era suspeito junto aos detentores do poder. Mas por quê? Bem, isto só eles sabiam. Diziam que ele desprezava as leis e os costumes. Mas claramente não era essa a razão da suspeita, ainda que a conduta daquele homem parecesse a muitos fora do comum, fora da ordem.

Aliás, "suspeita" não é também a palavra certa; o que havia era antes inveja, quase ódio. Os detentores do poder temiam a crescente popularidade do homem dos milagres, sua influência sobre a massa insensata. E isso com razão, se bem que a gente do povo, que não quer cair na antipatia dos poderosos, já começava a acautelar-se em manifestar de maneira demasiadamente clara sua um tanto desorientada admiração por aquele homem, pois não era totalmente isento de perigo fazê-lo. E, por fim, não sabiam realmente a quantas andavam com ele.

O fato é que esse homem - também ele ainda relativamente jovem, pouco mais de trinta anos - tinha-se encontrado com o cego na rua. Deu-se um curto diálogo no qual o mendigo ouviu, misturadas, também, algumas vozes. E, então, o cego sentiu um dedo sobre seus olhos que parecia esfregá-los com uma espécie de pomada. Ao mesmo tempo que uma das vozes lhe dizia que ele devia ir lavar-se naquela piscina. E então, como dissemos, tornou-se capaz de ver. E assim começa a experiência.

***

Dizíamos que com este fato iniciava-se a experiência com a cegueira. No decorrer dessa experiência, mostrar-se-á o que acontece com a irrefutabilidade de um fato límpido.

Já entre os primeiros que viram o mendigo passar pela rua, até mesmo entre seus vizinhos, não foram poucos os que simplesmente questionavam que este homem fosse o mesmo que, desde há anos, tinha estado sentado, cego, na rua.

Alguns afirmavam que sim, que apesar de tudo era ele, inconfundível. Pois não se via no rosto, no cabelo, nos andrajos? Tudo exatamente o mesmo! Outros, porém, teimavam: não, certamente há determinadas semelhanças, mas trata-se de outra pessoa.

Ora, podia-se perguntar a ele mesmo. E sua resposta, naturalmente, foi contar o que tinha ocorrido. Mas, o que sabia ele do ocorrido? Se o "abençoado" neste instante passasse diante dele, o mendigo não o teria reconhecido, pois nem sequer o tinha visto. E assim, à irônica pergunta: "Onde está então o que te curou?", ele teve que responder que não sabia. Não se pode imaginar a envolvente satisfação com que os espíritos críticos constataram o caráter já nem sequer duvidoso do caso: um cego, um sujeito tipo por cego, e, além disso, claramente um marginalizado, pretende ter sido curado por aquele de quem tanto se fala. e então verifica-se que a coisa nem sequer se deu na presença do taumaturgo; o rapaz só ouviu falar dele e absolutamente não o conhece. Não, esta história está muito esquisita, mal arranjada.

***

A experiência continua. Porém, deve-se falar ainda de uma circunstância especial e, na realidade, um tanto desconcertante. O milagroso era tido, como já ficou dito, como um detrator de costumes. E não só havia muitos costumes, mas também cuidava-se com especial rigor de observá-los. Por exemplo, havia dias em que, por motivo algum, se podia sujar as mãos: isso era tido quase como sacrilégio. Ora, por que aquele homem tinha que fazer, precisamente num desses dias, uma suja pomada de cuspe e pó da rua para com ela esfregar os olhos do mendigo? O fato é que o fez e isto basta! E não é surpreendente que, desse modo, aquilo tudo ganhasse o aspecto de provocação pública.

Em todo caso, o mendigo - ainda meio atordoado pelo ocorrido - foi conduzido ante os detentores do poder. E novamente contou de modo breve e já um tanto impaciente o que lhe tinha acontecido.

A partir daí, formaram-se dois partidos entre os poderosos: um, que julgava que o decisivo era o desprezo pelos costumes e, portanto, tinha por impossível a cura, enquanto o outro indagava se alguém capaz de curar um cego pode ser um mau homem. E ele mesmo, o pretensamente curado, que dizia? Bem, ele o considerava um grande homem. Sim, é compreensível. Mas, se ele nem sequer conhecia o seu "grande homem"! O resultado foi que já ninguém mais acreditava no fato. Não era verdade, não podia ser verdade.

***

Mas não haveria nenhum modo de descobrir se o mendigo que costumava ficar sentado na rua aos olhos de todos era o mesmo que este jovem, cujos olhos claramente estavam sãos e que afirmava ter sido cego e subitamente curado? (Talvez até ele nunca tivesse realmente sido cego!). Onde se podia obter informações sobre o que na verdade tinha ocorrido? Bem, se há alguém que pode dizer algo são os pais do homem.

Foram pois trazidos e indagados. Não, não foram simplesmente indagados, foi um autêntico interrogatório. E precisamente isto pôs tudo a perder. Essas pessoas de condição humilde, não acostumadas ao erudito linguajar jurídico ficaram simplesmente com medo. Já tinham ouvido dizer que quem falasse a favor do taumaturgo seria proscrito, o que era algo que não se podia considerar levianamente. E, além disso, que tinham a ver com aquele homem? Absolutamente nada. De modo que simplesmente recusaram-se a informar sobre o assunto. Em todo caso, não negaram que era seu filho e admitiram também que tinha sido cego desde o nascimento, pois isso não poderia ser mal interpretado. Agora, de que modo ele hoje vê - disso, não sabiam nada, absolutamente nada. Ele, aliás, já não é nenhuma criança; e mudo também não é.

***

Mas para que, exatamente, era necessário saber o que os pais pensavam da cura? Se eles não tinham deixado nenhuma dúvida sobre o fato de que este homem, hoje com visão, realmente lhes tinha nascido cego; era seu filho e até ontem cego.

O que então não estava claro? Naturalmente, o que "não estava claro" era como se podia explicar essa cura. Mas que cura tinha havido...

Por isso, convocaram, ainda outra vez, o próprio mendigo a interrogatório. Evidentemente, já não se tratava de ouvir e "entender", mas precisamente de não ouvir, de abafar. Numa palavra: o mendigo devia ser reduzido ao silêncio.

Tal objetivo - como todo mundo sabe - pode ser atingido de diversos modos, ou melhor, pode-se tentar atingir (no caso, não se conseguiria).

"Você não pode - assim disseram os poderosos ao mendigo - você não pode, naturalmente, entender nossas razões, por isso seu erro é compreensível. Mas nós estamos muito bem informados de que você se engana. Seria bom para você considerar isso. E, principalmente, grave na memória uma coisa: quem está dizendo isto a você não é um qualquer, mas somos nós, nós que somos não só os sábios, mas também os poderosos. Então, pense bem, medite com calma e quando você tiver compreendido conte-nos pela última vez: que aconteceu realmente?"

Não é totalmente certo que o mendigo se tivesse apercebido das ameaças que se encerravam nessas palavras: era demasiadamente simples para isso. Mas sentiu-se subitamente enfastiado do palavreado e deixou-se arrastar pela ira. Ajudou-o a isso (por assim dizer) o fato de não ter nenhuma destreza na arte de ter direitos; tudo o que ele tinha "aprendido" era unicamente levar o transeunte a dar esmola, e isto lhe bastava.

Mas, seja como for, o mendigo opôs à intimação dos poderosos uma resposta inesperadamente atrevida, não lhes poupou sequer a marota e irônica pergunta de se por acaso eles também estavam querendo se tornar adeptos do abençoado.

E, em vez de atender-lhes o desejo de uma vez mais contar o ocorrido, começou a demonstrar-lhes que não era ele quem se enganava, mas eles, os poderosos.

Naturalmente, a coisa terminou com a expulsão do mendigo.

***

Mas o mendigo não tinha ainda visto o homem a quem devia a luz dos olhos. E não demorou muito até que se encontrassem. Todas as audiências e também o desfecho do último interrogatório não eram desconhecidos pelo abençoado. E ele, de propósito, fez com que o mendigo inesperadamente deparasse com ele no meio da agitação e barulho do mercado. Falou ao curado e perguntou-lhe de modo totalmente direto se ele cria no homem capaz de fazer coisas sobre-humanas. O indagado, de início, mal se surpreendeu, cansado que estava de perguntas que não levam a nada, e sua resposta foi um tanto evasiva: que lhe mostrassem afinal este homem e então veria o assunto da fé.

Mal, porém, acabava de falar, interrompeu-se e fechou os olhos - num máximo esforço de escutar - fechou os olhos para, nas trevas que lhe eram tão familiares, reconhecer, ou melhor, re-conhecer a voz do outro.

E quando a voz lhe disse: "Este homem está diante de ti" - então, num instante, o mendigo compreendeu tudo. Soube, de um só golpe, que só naquele preciso momento é que tinha realmente começado a ver. E essa felicidade atravessou-o como um raio e lançou-o ao solo, enquanto o abençoado, inclinando-se sobre o que no chão estava prostrado, disse algo muito obscuro a respeito de cegos que vêem e de gente que vê mas é cega.

É quase certo que ninguém ali compreendeu o que ele queria dizer. E quando um dos que por lá estava, um do partido dos poderosos, disse, irônico e ameaçador, que então, segundo isso, eles, os poderosos, seriam também cegos, obteve a resposta de que isto é que era o mal: que eles não eram cegos. Aí já não houve mais ninguém que ainda perguntasse o que isso significava; perguntavam-se se tinha afinal algum significado, se havia, afinal, algo a ser compreendido.

E assim termina a experiência da cegueira.

***

Disse eu que termina a experiência da cegueira? Não, essa seria uma formulação um tanto imprecisa, e até mesmo incorreta. O que terminou foi o relato; a experiência... a experiência continua.

Josef Pieper In: LAUAND, Jean. Linguagem e Ética; Ensaios. Curitiba: Editora Universitária Champagnat, 1989.

O Viúvo viu a Ave - Gustavo Corção



Fiquei então convencido, nesse tempo, de que o mundo estava torto, intencionalmente torto, por malícia humana, para benefício exclusivo da detestada classe burguesa. Não havia tragédia nem mistério da iniqüidade, o que havia era trapaça. Um jeito que se lhe desse e o mundo endireitaria. O erro, sem dúvida alguma, continuaria a existir, mas com aquele caráter que tem na técnica: erro de detalhe, pequeno, estimulante, de cujo desgaste a evolução se encarregaria.

Encontrei amigos velhos e conheci novos. Em todos havia a mesma sanha antiburguesa e a mesma expectativa diante da onda de acontecimentos que engrossava a gravidade do mundo. Estávamos na época da revolução espanhola e assistíamos horrorizados às conseqüências do pacto renovado entre a política clerical, destiladora do ópio do povo, e os burgueses fardados de heróis de opereta, ávidos de poder.

Formamos logo um grupo conspirador onde havia um pouco de tudo o que fosse revolucionário: leninistas, trotzkistas e fascistas. Os últimos eram minoria; não olhavam com bons olhos o falangismo por causa do clero e guardavam reservas sobre o racismo alemão. Contentavam-se esses direitistas em arvorar a bandeira da grande raça branca e em citar versos implacáveis de Nietzsche.

Passávamos as noites trocando idéias para a retificação do eixo da Terra, com alarido, gastando generosidade, vivendo uma espécie de adolescência mental, citando autores mal lidos, condenando outros absolutamente ignorados, inventando  filosofias, acusando a Igreja de idealismo em nome de Marx e de Hegel. Os problemas mais diversos do mundo, desde o trigo até o sexo, teriam soluções fáceis desde que pudéssemos fazer um reajustamento de caráter plutônico na geologia social. Ninguém consentia em esperar sedimentações, porque era com essa tática que a Igreja e a Burguesia contavam.

De excitação em excitação, e certos de que todo o mal estava na direção burguesa baseada, ou na mais-valia ou na mentira vital, a maior parte do grupo não fazia questão da doutrina. A mim, devo confessar que o materialismo histórico nunca me pareceu suficientemente claro. Dessa discipliscência surgiam discussões, porque os outros não podiam suportar essa espécie de agnosticismo revolucionário, e três ou quatro rostos ansiosos de catequese viravam-se para mim. E lá vinha o Manifesto, a sociedade sem classes e tudo mais.

Mas pouco se me dava o materialismo histórico; o que eu queria era o fígado do burguês. Nesse ponto havia uma instantânea concordância. E assim ficávamos, até altas horas, espancando esse Judas ausente, com entremeio de anedotas inéditas.

Para mim e para o amigo Fred, quando marxistas não estavam presentes, o problema era mais psicológico do que econômico. Havia melhor entendimento entre nós; e, em lugar da divisão da sociedade em classes, que nos parecia simples de mais e um pouco ingênua, víamos a separação dos homens pela linha meridiana da mentira. Fred queria salvar o mundo da mentira ainda que devesse ser implacável e cruel. Queria entrar nas igrejas e atravessar a nave levantando um por um, para que todos reconquistassem a glória da verticalidade comprometida pelas genuflexões.

Faltava-nos, porém, uma técnica revolucionária. Como extrair força e consentimento das multidões com a leitura dum poema de Nietzsche? Nesse sentido os outros tinham razão: era mais fácil triunfar pelo proletariado do que pela grande sinceridade que se propunha armar um ninho entre os astros. Começaríamos um maquiavelismo necessário para a salvação da grande raça caucásica e do homem de amanhã.

A nossa grande satisfação consistia em imaginar, com detalhes e colorido, essa época radiosa em que pudéssemos, finalmente, sair pelo mundo marcando um sinal nas faces dos burgueses.

Eu já inventara um processo para a identificação dos réprobos com o emprego de certos reagentes, como na química. O principal seria a criança. Iria pelos caminhos com uma criancinha loura pela mão como aquele homem que descobre nascentes d’água com um bastão. Onde houvesse ajuntamento eu empurraria a criança, fá-la-ia atravessar o grupo, e onde o burguês estivesse, um abundante precipitado de mentira vital se alastraria pelo chão. Essa propriedade tinha para mim a força de uma definição: o burguês é o tipo que, diante de uma criança, segrega necessariamente a mentira.

Logo que ela acaba de nascer, a mentira, como ama-seca invisível, anda entre as rendas e as fitas do berço. A criança ainda não pode ouvir conselhos edificantes, não tem jeito de fazer pelos-sinais; só tem a boca como ponto vulnerável; então, metem-lhe na boca uma chupeta com açúcar...

Às vezes os amigos vinham à minha casa, a mesma onde moro ainda hoje, e como a amizade crescia, segundo as leis especiais desse epifenômeno, não era raro que viessem para jantar. Havia então uma trégua em nosso solarismo revolucionário, porque era difícil manter essa atitude diante duma mesa posta e de uma senhora que se desculpa por causa do pudim que se partira na fôrma. Ficávamos canhestros; o meu maior receio era que os amigos percebessem o burguesismo de meu interior. Nessas noites não havia beijo em filho, e quando a mulher subia para o sobrado levava como despedida um aceno de camaradagem soviética. Um dia, já por essas razões e também pelo heroísmo de nossas conversas, minha mulher declarou-me que eu e meus amigos éramos ridículos.

Ainda era pior o constrangimento quando calhava entrar outra pessoa da família, mãe ou irmã. Enfiávamos; nossas asas de condores ficavam murchas; e como afinal éramos filhos de boas famílias, não havia remédio senão falar os pequeninos nadas de educação burguesa.

Lá pelas onze, depois que todos saíam, então sim, nós nos encontrávamos, e, como desforra, entrávamos pela noite a dentro, entre muitos cigarros, fazendo a vigília tumultuosa daquele natal do mundo. Nunca em toda minha vida fui tão sublime e tão estúpido...

Quantas vezes já tenho pensado em vocês, meus bons companheiros de noitadas! Apesar de tudo nós nos queríamos bem. Hoje vocês estão longe, espalhados pelos quatro ventos, alguns exilados por terem passado da conversa fiada e inofensiva para os atos perigosos e irrefletidos. Meus bons companheiros, minha mulher tinha razão: nós éramos ridículos.

Aliás ela repetiu-me isso um pouco mais tarde com uma linguagem particularmente clara e convincente.

**

Naquelas noites, quando meus amigos saíam, eu fechava a casa ritualmente. Verificava os ferrolhos, despejava os cinzeiros atulhados e examinava o bico do gás, ouvindo ainda na memória o eco de nossa gritaria. A propósito de bico de gás devo dizer que minha mulher tinha cisma de incêndio. Desde os primeiros dias de nosso casamento, todas as noites, ela tinha que sentir um vago cheiro de queimado, e eu, com a solicitude de noivo, lá ia examinar os recantos da casa. Depois, na crise da acomodação, recusei-me a procurar, declarando secamente que era cisma. Mais tarde vieram os sarcasmos de marido, de especialista, e quando ela falava em cheiro de queimado eu logo acrescentava que tinha visto um clarão sinistro nos lados da cozinha.

Mas naquele tempo eu inspecionava os bicos, sondava os recantos e até gosto achava nisso. Quinze anos de casamento dão sentido aos gestos mais inúteis, que se tornam coisas de nossa vida, coisas que unem, gestos-filhos.

Enquanto eu fechava a casa, em cima, no sobrado, a mulher e as crianças dormiam. Minha casa nesse tempo, mais do que hoje, tinha dois pavimentos. Em baixo, o materialismo histórico ou a grande raça branca; em cima, dormindo desde as dez horas, a mulher que tinha passado o dia discutindo com o açougueiro, cosendo roupa, lavando os filhos e cuidando de meu jantar. Eu tinha duas casas. Há indivíduos que realizam esse feito em quarteirões diferentes e sem comunicação. Eu não; tinha duas casas na mesma; e duas vidas; e duas palavras. Para conquistar ordem e unidade no mundo, eu começava assim, tendo duas casas, e duas vidas, e duas palavras.

A escada era a comunicação. Depois de tudo bem fechado, eu subia a escada. E então, para não acordar mulher e filhos, e sobretudo para não ouvir alguma reflexão infalivelmente razoável, eu parava na porta do quarto, e ali no corredor, encostado na parede com precaução, tirava os sapatos para não fazer barulho.

**

Mas no dia seguinte recomeçava a história. Voltávamos a vociferar e discutir com o manifesto na mão. Insensivelmente íamos aumentando a solidez do grupo pela afeição, pelo brio, pelas palavras dadas, mas julgávamos que era a solidez da doutrina que nos unia melhor. Insensivelmente seríamos levados a praticar imprudências decisivas, gestos sem recuo possível, mesmo porque os agentes ativos da revolução já rondavam nossa porta para colher nossos entusiasmos. As conversas já saíam das divagações e resvalavam para conseqüências práticas. Poucos dias mais e eu me alistaria, com materialismo histórico ou sem ele, pela irresistível força do grupo, numa célula comunista.

Ora, foi nessa ocasião que minha mulher morreu.

**

Morreu moça. Levou dois meses a morrer. E passei esse tempo curvado sobre o meu caso particular. Alguém me dissera que aquela toxemia gravídica, com os progressos da medicina, conta somente um e meio por cento de casos fatais. Passei dois meses quase sem dormir por causa desse um e meio por cento, dando-lhe água e comida como às criancinhas, cuidando das menores coisas, passando um dia feliz por causa dum defecar e logo outro acabrunhado porque o pulso subia. Vi o médico deixar cair o estetoscópio em cima da cama e ficar olhando pela janela, pensativo. Quando me aproximei ele disse:
- Bonito flamboyant!

Olhei também; era no vizinho em frente. Era bonito mesmo. Num dos galhos mais altos estava um passarinho. Lembrei-me de minha cartilha que na segunda ou terceira página dizia assim: “O viúvo viu a ave.” Durante algum tempo fiquei remoendo estupidamente esse fenômeno lingüístico pelo qual eu seria um viúvo. Achei esquisito e repulsivo o vocábulo. O médico então explicou-me, com termos caridosos, que o meu caso particular estava entrando devagarzinho naquele um e meio por cento, e ponto a mão no meu braço, de leve, com cerimônia, falou-me em Deus.

Viveu ainda uns vinte dias. Uma tarde fui para o quintal e sentei-me num banco, embrutecido. Olhei o sol que se deitava por trás da casa do coronel. Lá ia o sol. O sol era um milhão e quatrocentas mil vezes maior do que a Terra; a Terra, com seus quintilhões de toneladas, era um grão de poeira perdido dentro duma enorme galáxia. Acordei de meus cálculos astronômicos pensando na minha doente desenganada. Era um caso particular, um ínfimo caso particular metido no universo e no tempo. Pensei no materialismo histórico; e senti de repente um calor de vexame no rosto.

Olhei em volta com receio que me tivessem visto o pensamento. Senti, como ainda hoje quando me lembro, um vexame intenso. Haverá decerto coisas mais graves, ações muito mais sérias, de piores conseqüências, mas não há nada mais persistente do que a lembrança duma gafe. Tudo aquilo, as discussões, os sistemas, tinha sido uma gafe. Eu bem sabia, ali sentado no banco, que voltaria depois ao meu trabalho e à vida de cada dia; que sentiria menos à medida que o tempo passasse; que tornaria a fazer meus aparelhos e ler meu galvanômetro. Mas de uma coisa eu estava certo: o materialismo histórico e a grande raça branca nunca mais teriam sentido para mim. A unidade de minha casa se restabelecia a preço alto, e o sobrado levava a melhor. Olhei para o sobrado, para as janelas do sobrado, e logo o sol, com todos os seus milhões de vezes, pareceu-me pequeno, e com todo o seu luxo de eléctrons e de fótons, pareceu-me ridículo diante daquela persiana fechada.

Veio o padre. O franciscano que tantas vezes nos visitara por causa do órgão. O órgão estava embaixo, na sala da frente; e por causa de seus fios, dos osciladores, de cada peça que durante anos estudara, o padre franciscano estava em cima, no sobrado, tirando dos panos de seu hábito um pedacinho de pão. E foi assim que o Corpo de Deus entrou pela primeira vez sob o meu teto, e que eu assisti, louvado seja Nosso Senhor, ao milagre de uma boa morte. Porque ela riu no seu último dia!

Gustavo Corção, A Descoberta do Outro.

Quem pensa não casa

 
Gustavo Corção

Há um provérbio de aparência imbecil que diz assim: “Quem pensa não casa.” É costume ver nesse provérbio o encorajamento para se ficar, durante a vida inteira, fechado numa prudência burguesa. Pensar, nesse caso, quer dizer: calcular despesas, prever doenças, avaliar a liberdade perdida em confronto com os novos encargos contraídos. Quem pensar assim não casará; resta-lhe a sabedoria negativa do provérbio para consolo. Não casa, mas pensa. É livre e pensa; é uma espécie de livre-pensador.

Através desse sentido comodista, o provérbio encerra uma advertência e sugere que é melhor casar do que ficar pensando. Quando um sujeito, nos caprichos da vida, encontra moça que acha de sua feição e que lhe corresponde, tem essa alternativa: escolher ou pensar. O escolher é precedido, evidentemente, de um certo pensar; é de toda prudência que se conviva com a moça, que se converse, que se observe umas tantas coisas, antes de decidir a escolha. O homem é dotado de razão também para casar e deve aplicá-la na justa medida.

A tarefa não é fácil. A moça se esconde através de certas manobras que, no dizer de muitos autores, lhe moram nas glândulas. O pretendente pode estar certo que ela mudará enormemente; não é assim como agora se ri que ela vai rir: não é disso que hoje chora que vai chorar. Seus gestos serão diferentes, sua forma se alterará, e sua própria voz, que tanto agrada hoje, será mais cheia e mais dura no difícil cotidiano. O mais atento leitor de um Bourget ou de um Montherlant se enganará redondamente se quiser fazer previsões psicológicas sobre a esposa escondida na noiva. Assim sendo, é justo que se pense e razoável que se cogite.

Mas num certo ponto do conhecer é preciso decidir. Ou escolhe, abrindo mão nesse único ato de todas as outras moças, entregando-se totalmente, correndo todos os riscos, agüentando todas as conseqüências, querendo desde já no seu coração agüenta-las, tendo confiança, pelo pouco que sabe, no muito que desconhece, trocando generosamente o pouco pelo muito, empenhando a vida inteira a vir em cima de alguns meses que já passaram; ou então continua pensando. E se pensa não casa. Não casa porque pode passar a vida inteira pensando. Sondando; sopesando; excogitando.

Conheço diversos casos assim, de namoros tristes que duraram mais de vinte anos: o noivo pensava. Num caso desses, em vez de festa de núpcias, houve luto, porque o noivo morreu pensando...  

Na catequese antiga, conforme o texto da Doutrina dos Doze Apóstolos, havia menção de dois caminhos: o caminho da Vida e o caminho da morte. Terminava um em núpcias; outro em luto. Era preciso escolher. Mas não devemos de forma alguma pensar que uns escolhiam o caminho da Vida e outros o da morte, como talvez se possa depreender que aconteceu nas margens do Ipiranga. Ninguém efetivamente escolhe o caminho da morte; mas entram por ele os que não querem escolher. Morrem por não quererem morrer; perdem a vida porque a querem guardar. Foi o que aconteceu com aquele noivo infeliz que morreu pensando; pensando e guardando; e tanto guardou que perdeu. 

O encontro, por si só, não dá noivado. O tempo traz a confiança que é a dilatação do encontro; mas a confiança só também não se resolve em noivado. A decisão final cabe a um ato de amor, a uma entrega; e como é ato de entrega parece morte, mas é vida. Depois do encontro, começa o pretendente a considerar, se possui um robusto senso comum, que é mais razoável casar com uma moça do que viver e morrer por uma causa, ou cair apaixonado pela humanidade inteira. Em seguida, precisa ter um certo senso lúdico para namorar com ingenuidade e sem complicados cálculos psicológicos. Nada disso porém resolve seu caso, se aquele senso do outro não estremece com amor e com fome, se não é um pobre na sua carne e um pobre de espírito, isto é, se não precisa da carne do outro e do espírito do outro, se não é, em suma, capaz de dar e de receber, se não decide, uma vez por todas, morrer, para viver nos braços amorosos de uma noiva feliz.

Não adiante ficar pensando indefinidamente, porque a pessoa do outro é inesgotável diante do cogitar. Por mais que faça, não é possível entrar na equação do outro, totalmente, com o sinal do conhecer. A pessoa só pode somar-se à pessoa com o sinal da cruz; conhece-a de modo eminente amando-a e crucificando-se nela.

Há uma escolha mais decisiva do que todas: um noivado que importa mais do que nenhum, que exige muito, porque promete uma esposa sem mancha e sem ruga. Tudo pode concorrer para o encontro; mil vezes se renova esse encontro, crescendo em insistência e em significação. Nossa pobre natureza tem, no mais fundo dos abismos, os recursos fundamentais para desejar e reconhecer, para anelar por esse encontro. Tem sede de eternidade; tem inteligência configurada para a Pessoa; tem a pobreza profunda do namorado. A confiança cresce à medida que cresce o conhecimento; a noiva chama; todos os santos rezam em coro; um dilúvio de méritos vem, do céu e da terra, molhar as raízes ressequidas de nosso cogitar. Tudo isso será perdido se de nossa parte recusamos a escolha. Há um momento, entrando pela eternidade, que resolve se haverá festa ou luto. Ou casamos ou pensamos. Ou fazemos penitência, ato de reconhecimento e de amor, ou prolongamos indefinidamente nossa prudência. E por mais que estudemos, experimentemos e analisemos, por mais que cresça a confiança, se não fizermos ato de amor, não haverá núpcias. Haverá estudo; confiança boa, mas seca; razoável, mas não amorável.  

Podemos ficar neste conflito vinte anos, quarenta anos, anotando num diário a interessante evolução de nossa personalidade. Mas não haverá festa; e morreremos evoluindo. Poderemos passar a vida inteira experimentando a doutrina em cima dos enigmas da natureza; do sol, dos insetos, das glândulas, para ver se não há falha; mas como essas coisas são muitas, e breve é a vida, morreremos fazendo a última experiência. E não haverá núpcias; e nem sequer assistiremos aos seus preparativos com o milagre do pão e do vinho.

Ninguém poderá esgotar com o conhecimento o fundo da doutrina que é Pessoa, e dificilmente poderá conhecer a milésima parte da obra humana escrita sobre a doutrina, que é imensa. Seria loucura aguardar, para ulterior resolução, a leitura das obras completas de São Tomás ou dos textos patrísticos. Mal temos tempo para ler uns poucos antigos e meia dúzia de autores modernos e mal podemos compreender os textos em toda a profundidade.

Será evidentemente um grande benefício para qualquer pessoa ler com boa vontade a obra de Maritain, de Karl Adam, de Guardini, de Amoroso Lima, de Dom Vonier, de Dom Columba Marmion; seria ainda melhor ler São Tomás, Santo Agostinho, São Cipriano, Santo Inácio, Santo Irineu: seria ainda melhor ler as Sagradas Escrituras. Mas ainda melhor tudo que tudo é pedir perdão a Deus e rezar um simples Padre-Nosso pedindo para a secura da alma o socorro da Fé, da Esperança e da Caridade.

Num certo ponto de seu conhecer ganhou confiança; então precisa escolher. Ninguém ganha a Fé por um aperfeiçoamento progressivo da discriminação, nem ganha a Esperança pela ginástica metódica do nervo lúdico: essas coisas são dons de Deus, temos de pedir o que de antemão já é dado. E não basta pensar: temos de pedir falando, levando nosso corpo, nossa voz viva ao ouvido consagrado. Temos de entrar na objetividade de Deus.

Depois do encontro, em que Deus e toda a Comunhão dos Santos o ajudou, o chamou, o procurou, é a vez dele, desse ajudado, desse chamado. É sua vez de jogar, cabe-lhe agora o lance. (...) Deus nos chama e nos ajuda, mas de repente ficamos numa situação inaudita, porque nos compete responder.

Quase se pode dizer que nesse instante incrível há um silêncio de Deus. Todos os santos calam-se. Há um silêncio, uma espera, um frêmito de impaciência, em que somente ecoam, nas almas dos eleitos, os últimos gemidos inefáveis. E, subitamente sós, sós e livres, terrivelmente sós e terrivelmente livres, nós, as criaturas, você, leitor, eu, o Edmundo, fomos chamados e inundados de misericórdias; mas de repente estamos sós e livres, e temos de fazer um pequeno ato, uma insignificância, um ato de penitência, um gesto de amor, uma coisa de nada que tem a capacidade de encher um silêncio de Deus.

Gustavo Corção, A Descoberta do Outro.
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...