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Respondendo ao Adventismo do Sétimo Dia


Tradução de Fábio Silvério

Há duas distintas reivindicações principais do Adventismo do Sétimo Dia que separam-no do resto do Cristianismo:

1. Primeiro, que os cristãos devem manter o Sábado, o Sabbath, santo. Eles se opõem ao culto no Domingo, argumentando que é contra os Dez Mandamentos e anti-escriturístico em geral.

2. Segundo, que a fundadora do Adventismo do Sétimo Dia, Ellen G. White, foi uma profetiza.

O site oficial dos Adventistas do Sétimo Dia declara:

Um dos dons do Espírito Santo é a profecia. Este dom é uma marca identificatória da igreja remanescente e foi manifestado no ministério de Ellen G. White. Como mensageira do Senhor, seus escritos são uma continuante e autorizada fonte de verdade que provê para a igreja conforto, orientação, instrução e correção.

Mas como nós logo veremos, White não era profetiza, e seus trabalhos estão cheios de erros. Vejamos dois de seus maiores argumentos sobre o Sabbath, ambos de seu supostamente-inspirado livro, O Grande Conflito.


I. Quando a Adoração no Domingo começou?

A primeira das idéias que eu quero considerar é a afirmação de White de que todos os cristãos primitivos mantiveram o verdadeiro Sabbath pelos primeiros séculos do Cristianismo:

Nos primeiros séculos o verdadeiro Sabbath foi mantido por todos os Cristãos. Eles eram zelosos pela honra de Deus, e, acreditando que Sua lei é imutável, eles zelosamente guardaram a sacralidade de seus preceitos.

(Ellen G. White, O Grande Conflito, p.52)

Então isso significa que, pelo menos, nós deveríamos ver cada singular cristão cultuando no Sábado por pelo menos dois séculos (já que "primeiros séculos" deve significar pelo menos dois). Agora leia o que São Justino Mártir escreveu em 150 A.D., em sua Primeira Apologia:

E no dia chamado do Sol, todos que vivem nas cidades ou no interior se juntam em um lugar, e as memórias dos apóstolos ou os escritos dos profetas são lidos, tanto quanto o tempo permite; depois, quando o leitor termina, o presidente instrui oralmente, e exorta à imitação destas dos coisas. Então nós todos nos levantamos juntos e rezamos, e, como dissemos antes, quando nossa oração termina, pão e vinho e água são trazidos, e o presidente de modo semelhante oferece orações e agradecimentos [a palavra grega aqui é Eucaristia], de acordo com sua habilidade, e as pessoas assentem, dizendo Amém; e há uma distribuição para cada um, e uma participação daqueles sobre os quais foram feitas ações de graças, e para aqueles que estão ausentes uma porção é enviada pelos diáconos. E aqueles que estão aptos, e querem, dão o que cada um julga cabível; e o que é coletado é depositado com o presidente, que socorre os órfãos e viúvas e aqueles que, por causa da doença ou qualquer outra causa, estão em falta, ou aqueles que estão presos e os estranheiros peregrinos em nosso meio, e em uma palavra cuida de todos os que precisam.
Mas Domingo é o dia em que nós todos temos nossa assembléia em comum, porque é o primeiro dia em que Deus, tendo agido nas trevas e matéria, fez o mundo; e Jesus Cristo nosso Salvador no mesmo dia ressurgiu dos mortos. Pois Ele foi crucificado no dia anterior ao de Saturno [que é o dia antes do Sábado]; e no dia depois do de Saturno, que é o dia do Sol, tendo aparecido aos Seus apóstolos e discípulos, Ele os ensinou estas coisas, que nós temos submetido a vocês também para sua consideração.

Então, bem, dentro dos primeiros séculos do Cristianismo, o culto no Domingo já era praticado. E note que Justino não descreve isto como alguma inovação. Ele está explicando a não cristãos como é a prática do cristão básico, e o culto no Domingo é já a normal para "todos" em 150. Para alguém que alega ser um profeta, White é incapaz de apresentar a verdade mesmo sobre este ponto básico do Sábado.

Surpreendentemente, estudiosos do Adventismo do Sétimo Dia admitem que ela está errada neste ponto. Dr. Samuele Bacchiocchi, talvez o maior estudioso adventista, escreveu:

Os primeiros documentos mencionando o Domingo como dia de culto recuam até Barnabé em 135 e Justino Mártir em 150. Assim, é evidente que o Domingo como dia de culto já estava estabelecido pelo meio do segundo século. Isto significa que para ser historicamente preciso o termo "séculos" deveria ser mudado para o singular "século". Esta simples correção aumentaria a credibilidade d'O Grande Conflito, porque é relativamente fácil defender a observância geral do Sabbath durante o primeiro século, mas é impossível fazer isto a partir do segundo século.

Em outros termos, as palavras da alegada profetiza são verdadeiras, desde que você mude as palavras. Isto soa como um modo educado de dizer que Ellen White é uma falsa profetiza.

Mas e quanto ao argumento de Bacchiocchi de que enquanto adoração no Domingo existia no segundo século, ela não existia no primeiro? Ele está fazendo um argumento de silêncio. É uma tática comum que eu tenho visto ser usada por protestantes na defesa de seus pontos de vista. Se você mostra que Inácio acreditava que a Eucaristia é o Corpo e o Sangue de Cristo em 107 A.D., eles responderão que a Igreja deve ter tomado isto de um modo simbólico até 106. É claro que este tipo de argumento é ridículo. Se você vai fazer um argumento de silêncio, o mais forte argumento é que nenhuma mudança na doutrina ou prática aconteceu - porque se uma mudança de doutrina tivesse acontecido, nós veríamos uma evidência disso. Se cristãos de repente (globalmente) começassem a fazer o culto no Domingo ao invés do Sábado, alguém não teria mencionado isto em algum lugar?


II. Quem mudou o Sábado para o Domingo?

O segundo argumento de White é que foi o imperador Constantino que mudou o dia de culto do Sábado para o Domingo. Isto está na p. 553 do livro que eu acabei de citar, O Grande Conflito:

Na primeira parte do quarto século, o Imperador Constantino assinou um decreto fazendo do Domingo um festival público em todo o Império Romano. O dia do sol foi reverenciado por seus súditos pagãos e foi honrado pelos Cristãos; isto foi uma política do imperador para unir os interesses conflitantes do paganismo e Cristianismo. Ele foi pressionado a isto pelos bispos da Igreja, os quais, inspirados pela ambição e sede de poder, perceberam que se o mesmo dia fosse observado por ambos cristãos e pagãos, isto promoveria a nominal aceitação do Cristianismo pelos pagãos e assim aumentaria o poder e a glória da Igreja.

Nós já sabemos que isto é falso: que os cristãos sempre fizeram o culto no Domingo muito antes de Constantino. Mas o que é interessante é que White teve uma segunda e contraditória profecia. Você vê, ela também disse que foi o grande, mau papa, não Constantino, que mudou a data do Sábado para o Domingo. Assim, por exemplo, em Primeiros Escritos de Ellen Gould White, nós lemos sua descrição de uma visão que ela afirma ter tido em 1850:

O papa mudou o dia de descanso do sábado para o primeiro dia. Ele pensou em mudar o próprio mandamento que foi dado para causar no homem a lembrança do Criador. Ele pensou em mudar o maior mandamento no decálogo e assim fazer a si mesmo igual a Deus, ou até exaltar-se acima de Deus.

Disto, ela entende que o papa é o Anticristo. Em uma visão anterior de 1847, ela diz:

Eu vi que o Sábado não foi cravado na cruz. Se fosse, os outros nove mandamentos teriam sido; e nós estaríamos em liberdade para ir adiante e quebrá-los todos, bem como quebrar o quarto. Eu vi que Deus não mudou o Sábado, pois Ele nunca muda. Mas o Papa mudou-o do sétimo para o primeiro dia da semana; pois ele estava para mudar os tempos e as leis.

É tentador dizer isto: ela claramente é uma falsa profetiza. Adventistas do Sétimo Dia acreditam que o Sabbath seja no Sábado por causa dos ensinos de White e suas profecias. Ambos são demonstravelmente falsos. Ela não tinha idéia do que a história do Sabbath de fato era, e contou do seu jeito. O que eu achei chocante é que, por outro lado, estudiosos Adventistas estão conscientes de que White estava errada tanto em seu trabalho de ensino quanto em suas profecias, e ainda assim eles fazem vista grossa. Este é Bacchiocchi de novo:

Surpreendentemente até alguns de nossos líderes evangelistas acreditam, na base das afirmações de Ellen White, que o Domingo começou a ser o dia de culto na primeira metade do quarto século quando os líderes da Igreja forçaram Constantino a promulgar em 321 a famosa Lei do Domingo.
Esta visão popular expôs nossa Igreja às mais indesejáveis críticas. Estudiosos não adventistas e líderes da Igreja como Dr. James Kennedy acusam nossa Igreja de ignorância crassa, por ensinar que o Domingo começou a ser observado no quarto século, quando há evidências históricas irrefutáveis que colocam sua origem dois séculos antes.
Eu gastei horas sem conta explicando ao Dr. James Kennedy e a professores que viram os recentes programas da NET satélite que esta visão popular adventista não reflete o ensino adventista. Nenhum estudioso adventista tem ensinado jamais ou escrito que a observância dominical começou no quarto século com Constantino. Uma compilação de provas é o simpósio O Sábado na Escritura e na História produzido por 22 estudiosos adventistas e publicado pela Review and Herald em 1982. Nenhum dos estudiosos adventistas que contribuíram para o simpósio sequer sugeriu que a observância dominical começou no quarto século.

Então, uma vez que eles examinaram as evidências, mesmo os especialistas adventistas percebem que os escritos de Ellen White são cheios de erros. Questão óbvia: se este é o caso, porque continuam adventistas?

A Igreja Adventista do Sétimo Dia inteira está desacreditada porque:

(a) declara Ellen White uma profetiza, quando ela claramente não o é;
(b) declara seus escritos uma fonte autorizada da verdade, quando eles claramente não o são; e
(c) continua, com sua missão distintiva, a celebrar o Sabbath no Sétimo Dia, Sábado. Mesmo o nome da igreja é baseado nessa missão, ainda que a missão esteja fundada numa história falsa, falsa profetiza, e em má exegese bíblica.

Não é como se White estivesse errada em apenas alguns detalhes menores. Ela erra nos fatos básicos do coração da doutrina dos Adventistas, e isto é óbvio. Já passou da hora dos Adventistas se desfazerem de Ellen White e voltaram para casa na ortodoxia do Cristianismo.

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Atualização: Checando o post de Brent Stubb em Constantine and the Catholic Church, ele cita Sto Inácio de Antioquia, escrevendo em cerca de 107-110, e que diz:

Se, todavia, aqueles que se converteram da antiga ordem de coisas e tomaram posse de uma nova esperança não mais observam o Sábado, mas, vivendo na observância do Dia do Senhor, no qual também a nossa vida se levantou novamente por Ele e por Sua morte - ao qual alguns negam, pelo mistério pelo qual nós obtivemos a Fé, e assim persistimos, para que nós possamos ser achados os discípulos de Jesus Cristo, nosso único Mestre - como nós poderemos ser capazes de viver separados d'Ele, cujos discípulos os profetas eles mesmos no Espírito esperaram por Ele como Seu Mestre?

Então na primeira década do segundo século, o Domingo já era o dia de assinalar que os Cristãos acreditavam em Jesus como o Messias, e em Sua Ressurreição. Então até o argumento de Bacchiocchi de que o culto cristão no sábado existiu pelos primeiros anos do Cristianismo é falso. E é incrivelmente improvável que esta prática fosse nova no tempo de Inácio. Desde que o Apóstolo João morreu cerca do ano 100 A.D., se poderia pensar que ele teria se pronunciado contra o culto no Domingo, se isto fosse verdadeiramente uma violação do Evangelho. Ao menos, é claro, que ele tivesse tomado uma parte massiva na conspiração de Constantino/Papa. É claro, nós também vemos a observância dominical em lugares como Atos 20,7, então não há razão para ver nisto qualquer outra origem que não a apostólica.

Atualização 2: Brock, nos comentários, cita a Didache, que foi provavelmente escrita do meio para o fim do primeiro século... isto é, ao mesmo tempo que o Novo Testamento. Isto fecha a questão na idéia de que os primeiros cristãos eram adoradores dominicais.

"Mas em todo Dia do Senhor reúnam-se juntos, e partam o pão, e dêem graças [Eucaristia] depois de terem confessado suas transgressões, para que o seu sacrifício seja puro. Mas não deixe ninguém que esteja em desacordo com o seu amigo vir junto com vocês até que eles estejam reconciliados, para que o seu sacrifício não seja profanado. Pois isto é o que falou o Senhor: em todo lugar e tempo ofereçam-me um sacrifício puro; pois eu sou um grande Rei, diz o Senhor, e meu nome é maravilhoso entre as nações."

Boa pegada, Brock! Eu poderia acrescentar que o trecho inteiro trata da necessidade da confissão, da Liturgia Eucarística sendo um Sacrifício, etc. - tudo incrivelmente Católico.

Dia da Expiação e Santuário Celestial


A Escritura nos diz que o santuário antigo foi feito segundo uma cópia celestial. Isto é dito no livro de Êxodo e também por Paulo Apóstolo, no livro dos Hebreus. A lógica também o atesta: a primeira aliança deve relacionar-se com a segunda analogicamente. Deus educa os homens progressivamente, o que indica que Ele teve adotar um método pedagógico. Este método consiste em ir dispondo a humanidade, a partir de atos exteriores e palpáveis, para realidades interiores e sutis. É por isso que é dito que a Antiga Lei foi gravada em pedras enquanto a nova será inscrita nos corações.

Esta relação entre o que é figura e o que é realização, entre símbolo e simbolizado, é chamada, na teologia, de tipologia. A figura é o tipo; o figurado é o antítipo. Pois bem, se o Santuário é um tipo, ele deve ter um antítipo, que é o Santuário Celestial, ou Céu. Os sacerdotes do antigo templo simbolizam o sacerdócio do Cristo. Os sacrifícios contínuos que ocorriam todos os dias eram símbolos do Sacrifício único de Cristo, etc.

Porém, além dos holocaustos diários, havia, uma vez ao ano, o grande Yom Kippur, Dia do Perdão ou da Purificação. Neste dia, uma série de ritos próprios acontecia e o próprio Santuário era purificado. Se isto acontecia enquanto tipo, qual o seu antítipo?

Paulo escreve:

"Se os meros símbolos das realidades celestes exigiam uma tal purificação, necessário se tornava que as realidades mesmas fossem purificadas por sacrifícios ainda superiores. Eis por que Cristo entrou, não em santuário feito por mãos de homens, que fosse apenas figura do santuário verdadeiro, mas no próprio céu, para agora se apresentar intercessor nosso ante a face de Deus." (Hb 9,23-24)

Este texto nos deixa em grande dificuldade, pois, aceitas as premissas e respeitada a lógica, a conclusão não nos parece fazer muito sentido. Veja:

O santuário terrestre simboliza o céu.
O santuário terrestre era purificado por sangue de animais. O santuário celeste é purificado por "sacrifícios superiores", isto é, o de Cristo.
Se o santuário terrestre precisava de purificação, ele tinha contraído algum tipo de impureza.
Se o santuário celeste precisava de purificação, ele também tinha contraído algum tipo de impureza.
Como conceber que o Céu tenha se contaminado?

Mesmo os adventistas sentem dificuldade de entender este texto, e eruditos dentre eles relutam mas terminam admitindo que o Céu de algum modo contraiu a nossa impureza. Como isto é possível, porém, é algo que os escapa, e a nós também.

De que jeito o santuário terrestre ficava impuro? Havia dois modos. Um dos vários tipos de sacrifício que existiam era o pelo pecado, conforme se vê em Lv 4.

Se o pecado fosse cometido pelo sacerdote, por um chefe ou por toda a assembléia, ele exigia que o sacerdote molhasse seus dedos no sangue da vítima e o aspergisse no véu do santuário por trás do qual ficava a Arca da Aliança. O animal morto substituía, no sacrifício, o pecador. Daí que seu sangue estivesse contaminado e precisasse ser derramado, pois, como diz São Paulo, "sem derramamento de sangue não há perdão". (Hb 9,22) Como o sangue contaminado era jogado no Santuário, este contraía a sua impureza, donde ser necessário que houvesse, depois, uma purificação do próprio santuário.

Outro modo de contaminação era o seguinte: quando era uma pessoa comum pecava e desejava fazer sacrifício por sua falta, ela levava um animal ao Santuário e o ofertava e imolava. O sacerdote punha então o sangue do animal sobre os cornos do altar dos holocaustos, derramando o resto ao pé do altar. (Cf Lv 4,27-30) Ora, este altar, embora estivesse fora dos dois lugares (O Santo e o Santíssimo), fazia parte do Santuário, pois se localizava no Pátio. Mas, além disso, os sacerdotes deveriam comer a vítima, como se lê no Cap. 6, v. 19: 

"O sacerdote que oferecer a vítima do sacrifício pelo pecado, comê-la-á em um lugar santo, a saber: no átrio da tenda de reunião."

Este trecho, porém, é ambíguo, pois afirma que é o sacerdote que oferece a vítima, dando a entender a possibilidade de ser um sacrifício restrito ao pecado do sacerdote. Quando uma pessoa oferecia uma vítima, ela mesma a imolava. (Cf Lv 4,29) Porém, no cap. 10, v. 16 em diante, Moisés reclama porque os filhos restantes de Arão, Eleazar e Itamar, não comeram de um boi imolado pelo pecado:

"Por que não comeste no lugar santo o sacrifício pelo pecado? Pois essa é uma coisa santíssima que o Senhor vos deu, a fim de que leveis a iniquidade da assembléia e façais a expiação por ela diante dele. Já que o sangue da vítima não foi trazido para dentro do tabernáculo, vós devíeis tê-la comido em um lugar santo como ordenei" (17-18)

Este trecho também é delicado. O versículo 18 dá a entender que o sangue deveria ter sido levado para dentro do tabernáculo, e o único rito em que isto ocorria era o da aspersão do sangue sobre o véu. Isto, contudo, somente acontecia com sacrifícios dos próprios sacerdotes, dos chefes ou por um pecado coletivo de toda a assembléia. Aqui mais uma vez fica-nos a impressão de que este sacrifício não é o do cidadão comum, mas o do sacerdócio.

Seja como for, é fato que, em alguns deles, o sacerdote comia a carne imolada e isto fazia com que ele levasse a iniquidade da assembléia e fizesse expiação por ela. Não nos fica claro, porém, como a contaminação do Sacerdote implique na contaminação do Santuário. Mas tal é dito pela Sra White:

"O sangue, representando a vida do pecador cuja culpa a vítima assumia, era levado pelo sacerdote ao Lugar Santo e borrifado diante do véu, atrás do qual estava a arca que continha a lei transgredida. Através dessa cerimônia, o pecado era, de maneira simbólica, transferido para o santuário. Em alguns casos o sangue não era levado para o Lugar Santo, mas a carne deveria ser comida pelo sacerdote. Ambas as cerimônias simbolizavam a transferência do pecado do arrependido para o santuário." (O grande conflito, p.195)

Avancemos. 

No dia da Expiação, que acontecia uma vez ao ano, no décimo dia do sétimo mês, como descrito no capitulo 16 de Levítico, o Sacerdote fazia vários ritos. Acompanhemos:

"Tomará um novilho para o sacrifício pelo pecado e um carneiro para o holocausto." (v.3)
"Revestir-se-á da túnica sagrada de linho, cingir-se-á dum cinto de linho e porá na cabeça um turbante de linho. Estas são as vestes sagradas, que ele só vestirá depois de se ter lavado. (v.4)
"Receberá da assembléia dos israelitas dois bodes destinados ao sacrifício pelo pecado e um carneiro para o holocausto." (v.5)
"Aarão oferecerá por si mesmo o touro em sacrifício pelo pecado, e fará a expiação por si mesmo e pela sua casa." (v.6)
"Tomará os dois bodes e os colocará diante do Senhor, à entrada da tenda de reunião." (v.7) 
"Deitará sortes sobre os dois bodes, uma para o Senhor, e outra para Azazel." (v.8)
"Oferecerá o bode sobre o qual caiu a sorte para o Senhor e oferecê-lo-á em sacrifício pelo pecado." (v.9)
"Quanto ao bode sobre o qual caiu a sorte para Azazel, será apresentado vivo ao Senhor, para que se faça a expiação sobre ele, a fim de enviá-lo a Azazel, no deserto." (v.10)
"Aarão degolará o touro destinado ao sacrifício pelo pecado e, tomando o turíbulo, que ele terá enchido de brasas do altar diante do Senhor, bem como dois punhados de perfume aromático em pó, entrará com tudo para dentro do véu." (v.11-12)
"Porá o incenso no fogo diante do Senhor, para que a nuvem do perfume cubra o propiciatório da arca, e Aarão não morra." (v. 13)
"Tomará o sangue do touro e o aspergirá com o dedo sobre o propiciatório, pela frente, e depois aspergirá com o dedo sete vezes defronte o propiciatório." (v. 14)
"Imolará, enfim, o bode do sacrifício pelo pecado do povo, e levará seu sangue para o outro lado do véu. Fará com esse sangue como fez com o sangue do touro, aspergindo o propiciatório e a frente do propiciatório. É assim que fará a expiação pelo santuário, por causa das impurezas dos israelitas e de suas transgressões, e de todos os seus pecados." (vs. 15-16a)

Aqui há um detalhe para o qual eu nunca havia atentado. Observando os versículos 14-16 notamos o seguinte: Aarão já leva o sangue do touro imolado antes (v.11). Quais as coisas que ele leva ao entrar no Lugar Santíssimo? O sangue e o turíbulo. Ele não leva animal. Depois de aspergir o sangue sobre o propiciatório da Arca no Lugar Santíssimo, ele deverá imolar o bode oferecido pelo pecado do povo. Porém: o bode não está lá. Está fora. Além do que seria totalmente inconveniente imolar um bode no Lugar Santíssimo. Portanto, ele tem de sair deste recinto, imolar o animal, e, em seguida, voltar. Veja que o versículo 15 diz que ele "levará seu sangue para o outro lado do véu", ou seja, o imolou do lado de cá, obviamente. Veremos que só isso já demonstra que a concepção adventista do tipo do santuário não se sustenta.

Continuemos.

"Da mesma forma fará pela tenda de reunião, que está com eles no meio de suas imundícies." (v. 16b)
"Ninguém esteja na tenda de reunião quando Aarão entrar para fazer a expiação no santuário até que saia. Fará assim a expiação por si mesmo, pela sua família e por toda a assembléia de Israel." (v. 17)
"Quando tiver saído, irá para o altar que está diante do Senhor e fará a expiação por esse altar: tomará o sangue do touro e do bode e o porá nos cornos do altar em toda a volta. Aspergirá com o dedo sete vezes o altar, para purificá-lo e santificá-lo por causa das imundícies dos israelitas." (v. 18-19)

Aqui estaria concluída a expiação do santuário, conforme diz o próximo versículo:

"Havendo terminado a expiação do santuário, da tenda de reunião e do altar, Aarão trará o bode vivo. Imporá as duas mãos sobre a sua cabeça, e confessará sobre ele todas as iniquidades dos israelitas, todas as suas desobediências, todos os seus pecados. Pô-los-á sobre a cabeça do bode e o enviará ao deserto pelas mãos de um homem encarregado disso." (v. 20-21)
"O bode levará, pois, sobre si, todas as iniquidades deles para uma terra selvagem." (v.22)

Vamos analisar algumas coisas.

Os adventistas aplicam tudo isso aí ao final dos tempos. Segundo eles, o ano de 1844 marca a entrada de Jesus no Lugar Santíssimo, onde estaria até agora. Porém, como vimos, o Sumo Sacerdote entrava duas vezes nesse lugar: quando levava o sangue do touro por si mesmo, e, depois, quando levava o sangue do touro oferecido pela assembléia. Assim, Jesus teria de ter entrado duas vezes. Uma objeção possível seria dizer que o Sumo Sacerdote necessitava fazê-lo por causa da sua impureza, uma vez que o primeiro sacrifício era oferecido por si mesmo e pela sua família. Jesus, porém, não tem pecados por si mesmo, donde a não necessidade de que faça isso duas vezes. Tudo bem, só que isto já prejudica um pouco a correspondência entre os dois ofícios. Outra coisa, o turíbulo com os perfumes é usado apenas na primeira vez em que o Sumo Sacerdote adentra no Lugar Santíssimo. Uma vez que o incenso geralmente representa as orações que sobem aos céus, isto bem poderia ser usado para simbolizar a intercessão de Jesus (cf. Hb 7,25), mas aí teríamos de manter a primeira entrada ou unir a incensação à expiação pelos pecados da assembléia. Enfim..

Quando Jesus sair do Santo dos Santos, Ele voltará à terra, para purificá-la. Isto supostamente poderia ser significado pela purificação da tenda da reunião, "que está com eles no meio de suas imundícies." (v.16b) A dificuldade é que, segundo o que se diz, não deve haver ninguém quando Ele fizer isso. O antítipo exigiria que todos estivessem mortos ou arrebatados. E mais: é dito que ninguém pode estar na tenda enquanto Aarão estiver fazendo "a expiação no santuário até que saia" (v.17), o que dificulta imensamente a adequação de uma coisa à outra, pois isto implicaria que desde 1844 ninguém mais estivesse na terra. Mas essa identificação da tenda do santuário com a terra quem está fazendo sou eu. Nunca vi nenhum trecho adventista que a defendesse. Apenas me pareceu dever fazê-lo, uma vez que a purificação no fim dos tempos é geral, e uma vez que o Dia da Expiação judeu simbolizaria esta purificação total, de modo que a terra teria de ser representada por algum tipo. Com efeito, sabe-se que para as religiões tradicionais - portanto, para o judaísmo -, o templo é uma representação de todo o cosmos. É por isso que Jesus associa a destruição do templo de Jerusalém com a destruição do mundo. Qual seria, então, o correspondente antitípico da tenda da reunião? Notemos que o Santuário somente estará purificado depois da purificação deste último lugar.

Se se quiser ver nesta tenda um símbolo de algum outro compartimento do céu, surge o problema de esta tenda estar no meio das imundícies das pessoas.

Uma vez tendo feito isso tudo é que Jesus voltaria. Se assim é, então a tenda da reunião - seja lá o que for o seu antítipo - é purificada antes da Parusia. 

Depois disso tudo, Aarão traz o bode vivo - aquele que foi sorteado para Azazel -, impõe as mãos sobre a cabeça dele e confessa todas as iniquidades dos israelitas. Um adendo: como Aarão poderia fazer isso se não as conhecesse? E como poderia conhecê-las se elas não lhes fossem contadas? Se isto procede, então é forçoso aceitar que a confissão  auricular dos pecados já existia.

Segundo o adventismo, este bode, que é enviado a Azazel, representa Satanás que no final dos tempos será responsabilizado pelos pecados de todo o universo e, em seguida, será afastado, irá para o deserto, símbolo da sua destruição. Uma dificuldade aqui é que o bode não é Azazel, mas é enviado para Azazel, que é uma entidade demoníaca que habitava no deserto. Se o bode representa Satanás, a conclusão é que Satanás é enviado a algum demônio, o que não parece fazer muito sentido.

Mas, enfim, depois dessas coisas, estaria iniciada a vida eterna para os fiéis de Deus.

Bem, pelo menos segundo o ensino da IASD. Contudo, o ministério de Aarão não acaba aí. Ele prossegue, e sem qualquer antítipo correspondente segundo o adventismo. Eles simplesmente não tratam disso. Vejamos:

"Quando o bode tiver sido mandado para o deserto, Aarão voltará para a tenda de reunião, tirará as vestes de linho que ele pôs à sua entrada no santuário, e as deporá ali." (v. 23)
"Lavará o seu corpo no lugar santo, retomará depois suas vestes e sairá para imolar o seu holocausto e o do povo, fazendo a expiação por ele e pelo povo." (v. 24)"Queimará no altar a gordura do sacrifício pelo pecado." (v. 25)

Como se vê, ainda há expiação depois de tudo isso. Esta expiação pós-purificação do Santuário não é explicada pela Profecia do Santuário. 

Por fim, vamos a mais algumas dificuldades. Os adventistas gostam de relacionar o livro de Levíticos com o de Hebreus. Esta relação de fato é real. Mas São Paulo não parece endossar o duplo ministério de Jesus pós-ressurreição. Vejamos alguns trechos:

"Depois de ter realizado a purificação dos pecados, está sentado à direita da Majestade no mais alto dos céus." (Hb 1,3)

Segundo Paulo, Jesus realizou a purificação total dos pecados na Cruz. Aí Ele completou a Sua obra expiatória, e está, já, sentado à direita de Deus "no mais alto dos céus."

"Temos, portanto, um grande Sumo-sacerdote que penetrou nos céus, Jesus, Filho de Deus." (Hb 4,14)

Por  chamar Jesus de "Sumo-sacerdote" e dizer que Ele "penetrou nos céus", Paulo estabelece uma comparação com a penetração do Sumo-Sacerdote no Lugar Santíssimo, pois entrar no Santo dos Santos era permitido a qualquer sacerdote e podia ocorrer todos os dias. No Lugar Santíssimo, porém, só o Sumo Sacerdote. Portanto, segundo Paulo, Jesus penetrou no Lugar Santíssimo depois da Sua ascensão.

"Esperança esta que seguramos qual âncora de nossa alma, firme e sólida, e que penetra até além do véu, no santuário, onde Jesus entrou por nós como precursor, Pontífice eterno, segundo a ordem de Melquisedec." (Hb 6,19-20)

Jesus entrou além do véu, no Santuário. Embora o Santuário tivesse dois véus, o que separava o Lugar Santíssimo do Lugar Santo, e o que separava este do Pátio, o véu mais "famoso" pela sua importância e por guardar o compartimento onde estava a Arca da Aliança, é o primeiro. Portanto, dizer que Jesus entrou além do véu é dizer que Ele foi ao Lugar Santíssimo, e isso desde o tempo de Paulo.

"Assim sendo, enquanto na primeira parte do tabernáculo entram continuamente os sacerdotes para desempenhar as funções, no segundo entra apenas o sumo-sacerdote, somente uma vez ao ano, e ainda levando consigo o sangue para oferecer pelos seus próprios pecados e pelos do povo. Com o que significava o Espírito Santo que o caminho do Santo dos Santos ainda não estava livre, enquanto subsistisse o primeiro tabernáculo." (Hb 9,6-8)

Aqui Paulo mostra que a necessidade de o sumo sacerdote adentrar no Lugar Santíssimo apenas uma vez ao ano mostra que "o caminho do Santo dos Santos ainda não estava livre." Se o verbo é usado no passado, significa que agora - no tempo de Paulo - ele está livre. Portanto, não é necessário mais que se dê este ministério específico do sumo-sacerdote.

"Porém, já veio Cristo, Sumo-sacerdote dos bens vindouros. E através de um tabernáculo mais excelente e mais perfeito, não construído por mãos humanas (isto é, não deste mundo), sem levar consigo o sangue de carneiros ou novilhos, mas com seu próprio sangue, entrou de uma vez por todas no santuário, adquirindo-nos uma redenção eterna." (Hb 9,11-12)

Paulo diz que Jesus, Sumo Sacerdote, entrou de uma vez por todas no santuário. Se houvesse, na época dele, mais algum compartimento celeste para entrada futura, Paulo não diria que Jesus entrou "de uma vez por todas."

"Enquanto todo sacerdote se ocupa diariamente com o seu ministério e repete inúmeras vezes os mesmos sacrifícios que, todavia, não conseguem apagar os pecados, Cristo ofereceu pelos pecados um único sacrifício e logo em seguida tomou lugar para sempre à direita de Deus." (Hb 10,11-12)

Aqui se diz que Nosso Senhor tomou lugar para sempre à direita de Deus, isto é, adentrou já de uma vez no Lugar Santíssimo depois da Sua ascensão. Está sentado. Embora interceda, não realiza um ministério de expiação restante.

Como se vê, Paulo não sugere que Jesus esteja realizando mais alguma coisa, agora. A expiação está completa, e isso desde a Cruz. Mas, ainda que assim não fosse, não haveria razão de ser para que o antítipo do Dia da Expiação tivesse começado em 1844 e ainda não tivesse terminado.

Livro de Daniel: a profanação do Santuário, a aliança com muitos e a cessação do sacrifício


Deve fazer um mês e pouco, eu comecei a escrever uns artigos sobre a doutrina adventista da Profecia do Santuário, que é um tema difícil e sofisticado. Quaisquer eventuais erros nessa questão só poderão ser identificados com um estudo detido, atento às sutilezas. 

Como já dito, o trecho central da profecia se encontra no livro de Daniel, cap. 8. Nele se fala de um pequeno chifre em um bode. Cito o texto a partir do versículo 9:

"De um deles [de quatro chifres anteriores] saiu um pequeno chifre que se desenvolveu consideravelmente para o sul, para o oriente e para a jóia (dos países). Cresceu até alcançar os astros do céu, do qual fez cair por terra diversas estrelas e as calcou aos pés. Cresceu até o chefe desse exército de astros, cujo (holocausto) perpétuo aboliu e cujo santuário destruiu, junto com o exército; sobre o sacrifício ele pôs a iniquidade; a verdade foi lançada à terra. O pequeno chifre teve êxito na sua empreitada.

Ouvi um santo que falava, a quem outro santo respondeu: 'quanto tempo durará o anunciado pela visão a respeito do holocausto perpétuo, da infidelidade destruidora, e do abandono do santuário e do exército calcado aos pés?' Respondeu: 'duas mil e trezentas noites e manhãs. Depois disso o santuário será restabelecido.'" (Dn 8,9-14)

Depois disso, Gabriel vem a Daniel para explicar a visão. Claro que, quando vemos essas coisas pela primeira vez, tudo nos parece muito esquisito. O próprio Daniel ficou doente por não ter compreendido. Então imagina o que acontece conosco, totalmente alheios? Por isso, eu decidi ler o livro inteiro, e aí muita coisa foi ficando mais clara. Algumas afirmações feitas aqui completarão de modo muito feliz aquilo que foi escrito no outro texto. Embora essas simbologias sejam de fato difíceis, ao ler o livro inteiro fica-nos a impressão de um padrão que é seguido. O simbolismo usado começa a fazer maior sentido.

Então, vejamos só: o pequeno chifre referido guerreia contra um monte de coisas. Seria importante saber de quem se trata e quem são esses contra os quais ele guerreia.

Antes, porém, vejamos o próximo texto que é fundamental para a Profecia adventista:

"Setenta semanas foram fixadas a teu povo e à tua cidade santa para dar fim à prevaricação, selar os pecados e expiar a iniquidade, para instaurar uma justiça eterna, encerrar a visão e a profecia e ungir o Santo dos Santos. Sabe, pois, e compreende isto: desde a declaração do decreto sobre a restauração de Jerusalém até um chefe ungido, haverá sete semanas e sessenta e duas semanas; ressurgirá, será reconstruída com praças e muralhas. Nos tempos de aflição, depois dessas sessenta e duas semanas, um ungido será suprimido, e ninguém (será) a favor dele. A cidade e o santuário serão destruídos pelo povo de um chefe que virá. Seu fim (chegará) com uma invasão, e até o fim haverá guerra e devastação decretada. Concluirá com muitos uma sólida aliança por uma semana e no meio da semana fará cessar o sacrifício e a oblação; sobre a asa das abominações virá o devastador, até que a ruína decretada caia sobre o devastado." (Dn 9,24-27)

Vamos por parte. Tentemos esclarecer o significado de alguns desses símbolos.

Do primeiro texto:

O chifre pequeno é Antíoco IV, chamado Epífanes. O próprio livro falará dele no capítulo 11, mostrando como é dele que se tratam as duas profecias citadas. A bíblia diz que ele cresceu sobre a "jóia dos países". Trata-se da Palestina, pois esta expressão é usada para referir-se a ela, conforme se vê em Ez 20,6.

"Cresceu até os astros do céu, do qual fez cair diversas estrelas e calcou aos pés." Estes astros são o próprio povo de Deus, conforme nos diz o cap. 12,3, ou ainda Mt 13,43. De fato, Antíoco massacrou vários habitantes da Palestina, conforme vemos no cap. 11,33-35: "durante algum tempo, perecerão pela espada, fogo, cativeiro e pilhagem. Enquanto forem caindo dessa maneira, serão um tanto amparados; e um bom número unir-se-á hipocritamente a eles. Muitos desses sábios sucumbirão, a fim de que sejam provados, purificados e branqueados até o termo final."

"Cresceu até o chefe deste exército de astros, cujo perpétuo aboliu e cujo santuário destruiu." Este chefe do exército de astros se refere ao próprio Deus, "dono" dos sacrifícios e do santuário. De novo, Antíoco não só invadiu o Santuário como aboliu os Sacrifícios, conforme se verifica no livro de 1 Macabeus. 

"Após ter derrotado o Egito, pelo ano cento e quarenta e três, regressou Antíoco e atacou Israel, subindo a Jerusalém, com um forte exército. Penetrou cheio de orgulho no santuário, tomou o altar de ouro, o candelabro das luzes com todos os seus pertences, a mesa da proposição, os vasos, as alfaias, os turíbulos de ouro, o véu, as coroas, os ornamentos de ouro da fachada, e arrancou as embutiduras. Tomou a prata, o ouro, os vasos preciosos e os tesouros ocultos que encontrou. Arrebatando tudo consigo, regresso à sua terra após massacrar muitos judeus e pronunciar palavras injuriosas." (1Mc 1,20-24)

"Por intermédio de mensageiros, o rei enviou a Jerusalém e às cidades de Judá, cartas prescrevendo que aceitassem os costumes dos outros povos da terra, suspendessem os holocaustos, os sacrifícios e as libações no templo, violassem os sábados e as festas, profanassem o santuário e os santos, erigissem altares, templos e ídolos, sacrificassem porcos e animais imundos, deixassem seus filhos incircuncidados e maculassem suas almas com toda sorte de impurezas e abominações, de maneira a obrigarem-nos a esquecer a lei e a transgredir as prescrições. todo aquele que não obedecesse à ordem do rei, devia ser morto."  (Mc 1,44-50)

"Sobre o sacrifício ele pôs a iniquidade" - Este trecho é explicado em Dn 11,31 que, a respeito de Antíoco, diz: "tropas sob sua ordem virão profanar o santuário, a fortaleza..."

De novo, o livro de Macabeus descreve:

"No dia quinze do mês de Casleu, do ano cento e quarenta e cinco, edificaram a abominação da desolação por sobre o altar e construíram altares em todas as cidades circunvizinhas de Judá. (...) E, no dia vinte e cinco do mês, sacrificavam no altar, que sobressaía ao altar do templo" (1 Mc 1,54-55;59)

A iniquidade se refere tanto à proibição que Antíoco estabeleceu aos Sacrifícios diários - perseguindo e matando os judeus que não se submetessem à inovações - quanto à profanação dos objetos sagrados e à entronização de ídolos no Santuário, conforme se vê no supracitado.

"A verdade foi lançada à terra" - isto se nota por toda a política de helenização de Antíoco e pela adesão de grande parte dos judeus, que preferiam assistir os esportes ao invés de ocupar-se com as coisas da religião. Os versículos 36-37 dizem sobre Antioco: "O rei fará então tudo o que desejar. Ensoberbecer-se-á, elevar-se-á no seu orgulho acima de qualquer divindade; proferirá até coisas inauditas contra o Deus dos deuses; prosperará até que a cólera divina tenha chegado ao seu termo, porque o que está decretado deverá ser executado."

O livro de Macabeus traz o seguinte:

"Rasgavam e queimavam todos os livros da lei que achavam; em toda parte, todo aquele, em poder do qual se achava um livro do Testamento, ou todo aquele que mostrasse gosto pela lei, morreria por ordem do rei." (Mc 1,56-58)

Daí, um dos santos - provavelmente um anjo - pergunta a outro: "quanto durará o anunciado pela visão a respeito do holocausto perpétuo, da infidelidade destruidora, e do abandono do santuário e do exército calcado aos pés?" Sobre o exército, diz o versículo 41 do cap 11: "Invadirá o país que é a jóia da terra, onde muitos homens cairão." O livro de Macabeus diz: "Serviram de cilada para o templo, e um inimigo constantemente incitado contra o povo de Israel, derramando sangue inocente ao redor do templo e profanando o santuário." Veja como a pergunta do anjo fica clara. O segundo anjo então responde: "duas mil e trezentas tardes e manhãs. Depois disso o santuário será restabelecido."

Como se vê, yoda esta invasiva de Antíoco está bem descrita no primeiro livro de Macabeus. Em 1 Mc 1,54, conforme já citado, se lê: 

"No dia quinze do mês de Casleu, do ano centa e quarenta e cinco, edificaram a abominação da desolação por sobre o altar e construíram altares em todas as cidades circunvizinhas de Judá."

Vamos fixar as datas: 15 do mês de Casleu do ano 145. 

O mesmo livro conta quando o sacrifício voltará a ser oferecido. No cap. 4, 52-53, vemos: 

"No dia vinte e cinco do nono mês, isto é, do mês de Casleu, do ano cento e quarenta e oito, eles se levantaram muito cedo, e ofereceram um sacrifício legal sobre o novo altar dos holocaustos, que haviam construído."

15 de Casleu de 145 - santuário profanado.
25 de Casleu de 148 - holocausto volta a ser oferecido. Vamos calcular..

Temos aí basicamente três anos exatos. Um ano possui 12 meses. Um mês bíblico equivale a 30 dias.

12 x 30 = 360 
1 ano = 360 dias

360 x 3 = 1080 
1080 + 14 dias - 1094 dias

O tempo que o Santuário ficou sem sacrifícios, portanto, foi de 1094 dias. Este é um cálculo aproximado, mas nada exato, da compreensão das 2.300 tardes e manhãs entendidas como 2.300 sacrifícios, o que equivaleria, já que eram dois sacrifícios diários, a 1150 dias, faltando portanto 56 dias para a correspondência exata. Só que há um porém: o calendário judaico era "lunissolar", baseado nas fases da lua, mas tendo de se adaptar ao ciclo solar. Além dos anos comuns - de doze meses -, há no judaísmo os chamados "anos embolísticos", nos quais se acresce mais um mês aos doze anteriores. Este mês é chamado Veadar ou Adar II, e soma um total de 13 meses. Estes meses acontecem nos anos 3º, 6º, 8º, 11º, 14º, 17º e 19º.

Como temos três anos, há que se acrescer um mês de 29 dias no último ano, pelo que teríamos 1123 dias, o que é, convenhamos, uma data já aproximada de 1150, faltando um todo de 27 dias, pouco menos de um mês. Os que porventura estranharem essas imprecisões, considerem o que é dito em Jr 25,11-12: "Converter-se-á esta terra em angústia e solidão, e por setenta anos lhe há de perdurar a servidão ao rei de Babilônia." Porém, na realidade, o cativeiro na Babilônia durou 65 anos, indo de 604 a 539 a.C. É verdade que a diferença é bem menor, mas há que se convir que a duração do tempo da profecia também é menor, e, sobretudo, que de fato temos uma imprecisão, o que dificulta um cálculo exato, permitindo apenas uma idéia aproximada. Com isso queremos dizer que a interpretação de 2.300 tardes e manhãs como sendo 2.300 anos é falsa? Não. Estamos somente vendo as possibilidades. Provaremos isto em outro artigo.

Prossigamos.

Segundo texto:

Quero analisar os seguintes trechos:

Nos tempos de aflição, depois dessas sessenta e duas semanas, um ungido será suprimido, e ninguém (será) a favor dele. A cidade e o santuário serão destruídos pelo povo de um chefe que virá. Seu fim (chegará) com uma invasão, e até o fim haverá guerra e devastação decretada. Concluirá com muitos uma sólida aliança por uma semana e no meio da semana fará cessar o sacrifício e a oblação; sobre a asa das abominações virá o devastador, até que a ruína decretada caia sobre o devastado." (Dn 9,24-27)

Um ungido será suprimido - de fato, trata de Nosso Senhor, cujo título "Cristo" significa exatamente "Ungido". Mas também simboliza o Sacerdote Onias III, assassinado em Antioquia no ano 171 a.C. (Cf. 2Mc 4,30-38)

A cidade e o santuário serão destruídos pelo povo de um chefe que virá. - Trata-se, historicamente, de Antíoco Epifânio, antes de Cristo, e/ou do imperador Tito, que o realizou no ano 7 d.C.

Concluirá com muitos uma sólida aliança por uma semana e no meio da semana fará cessar o sacrifício e a oblação - este trecho aqui é fonte de controvérsias. Os adventistas afirmam que ele se refere a Jesus estabelecendo a Nova e Eterna aliança. Porém, nós entendemos que, uma vez que, segundo o texto, o Ungido já havia morrido, este trecho se refere ao invasor do templo. Isto é reforçado pelo fato de este personagem fazer cessar o sacrifício no meio da semana, o que equivaleria ao terceiro dia e meio, faltando ainda três dias e meio para que se completassem as 70 semanas. Três dias e meio, transmutando em dias de anos, ficariam 3 anos e meio, o que equivaleria a 1260 dias que é sempre uma data que se refere à dominação do povo de Deus pelos inimigos. (Cf Dn 7,25; 12,7; Apo 12,6; 13,5. 

Isso tudo ainda é reforçado pelo próprio livro de Daniel que usa as mesmas expressões para se referir ao profanador: "Dirigirá novamente sua fúria contra a santa aliança, tomará medidas contra ela, fazendo um pacto com aqueles que a abandonarem." (Dn 11,30) 

Note o paralelo: 

"Concluirá com muitos uma sólida aliança por uma semana" (Dn 9,27)
"Fazendo um pacto com aqueles que a abandonarem." (Dn 11,30)
"Submeterá, com suas lisonjas, os violadores da aliança" (Dn 11,32)
"Os que o reconhecerem - ao profanador -, multiplicará as honras, conferir-lhes-á autoridade sobre numerosos vassalos e distribuir-lhes-á terras em recompensa." (Dn 11,39)

Não parecem referirem-se todos estes textos à mesma coisa? Com efeito, todos eles falam de aliança, ou pacto. E o que dizer dos trechos seguintes?

"No meio da semana fará cessar o sacrifício e a oblação" (Dn 9,27)
"Seu coração meditará o mal contra a santa aliança; cometê-lo-á..." (Dn 11,28)
"Farão cessar o holocausto perpétuo" (Dn 11,31)

Se o segundo e o terceiro textos se referem obviamente ao profanador e às suas tropas, por que o primeiro iria se referir a Jesus? Todos eles seguem o mesmo padrão. Estão falando da mesma coisa. Notem ainda as semelhanças nos trechos sublinhados: "fará cessar", "farão cessar".

Por fim, enquanto Dn 9,27 termina dizendo que "sobre a asa da abominação virá o devastador, até que a ruína decretada caia sobre o devastado", Dn 11,31 diz: "instalarão a abominação do devastador" e o v. 36: "porque o que está decretado deverá ser executado."

O leitor note bem: esses paralelos são o argumento mais forte deste texto. Eles provam claramente que o personagem indicado em Dn 9,27 não é Jesus, mas o profanador.

E aí surge outra pergunta no texto. Daniel questiona um homem, provavelmente Jesus, que lhe aparece: "Meu senhor, qual será a conclusão disso tudo?" O contexto é o mesmo que a pergunta do primeiro santo ao segundo. Ele então lhe responde: "Desde o tempo em que for suprimido o holocausto perpétuo e quando for estabelecida a abominação do devastador, transcorrerão mil duzentos e noventa dias." Aqui teríamos duas referências:

O atentado de Antíoco Epifânio ao Santuário no ano 145 a.C. - + 1290, chegaríamos ao ano 1145.
A invasão de Jerusalém por Tito, no ano 70 d.C. - + 1290, chegaríamos ao ano 1360.

Aconteceu algo importante em 1145? Eleição do Papa Eugênio III e a bula Quantum prædecessores convocando a Segunda Cruzada. Nada, porém, que lembre nem de longe o fim de alguma perseguição. Veja aqui.

Aconteceu algo importante em 1360? Guerra dos cem anos, Pedro I de Portugal casou com Inês de Castro, Maomé IV mata o cunhado e se torna o 10º rei de Granada, o condado de Anjou torna-se um ducado, nasceu um monte de gente, morreu um monte de gente... e nada que se assemelhe ao dito. Veja aqui.

Agora, lembramos que esta data de 1290 dias aparece no mesmo contexto que as 2.300 tardes e manhãs. Porém, os 1290 dias não podem marcar o fim, pois é dito logo em seguida, no versículo 12, que "feliz quem esperar e alcançar mil trezentos e trinta e cinco dias!", ou seja, depois dos 1290 dias, feliz quem ainda esperar mais 45 dias.

Como se vê há três datas: 2300 ou 1150, 1290, 1335. Por que escolher uma dessas datas ao invés das outras?

A única conclusão disso tudo é que é tudo muito confuso. É mais fácil dizer o que não é do que o que é. E o que não é eu creio que dissemos seguramente: o personagem de Dn 9,27 não é Jesus.

Adventismo: O Juízo Investigativo



A Igreja Adventista do Sétimo Dia - IASD afirma a existência de um negócio chamado "Juízo Investigativo". Na verdade, seriam três juízos ou três fases de um único juízo, como se diz, e aqui iremos estudá-las e ver se há fundamento para elas.

Estes três momentos judicativos surgem como consequência lógica de três eventos.

O primeiro deles é a entronização de Jesus no Lugar Santo em 22 de Outubro de 1844. O segundo seria o reino do milênio, após a primeira vinda de Jesus, antes da ressurreição dos infiéis. O terceiro seria, enfim, quando Jesus decretar o destino dos não convertidos que, ressuscitados, ouvirão a sua sentença e a sofrerão, sendo destruídos em seguida. Estes três juízos ou três fases do juízo recebem nomes específicos.

A primeira, como já dissemos, chama-se Juízo Investigativo.
A segunda, Juízo Judicativo.
A terceira, Juízo Executivo.

Neste texto especificamente nos deteremos no Juízo Investigativo.

Este juízo, como o nome sugere, seria um processo de investigação em que Jesus, tendo entrado no Lugar Santíssimo, examina os escritos dos anjos relatores. O adventismo crê que há anjos responsáveis por escrever tudo quanto fazemos: desde os nossos atos às mais recônditas intenções da nossa alma.

Um fiel registro de todas as suas [dos homens] ações é feito diariamente pelos anjos relatores. Todos os seus atos, mesmo as intenções e propósitos do coração acham-se fielmente revelados. (Testemunhos para a Igreja 1, pg. 468, disponível aqui)

A fim de que seja preservada a Justiça divina, Ele necessita conhecer todos estes fatos antes de uma tomada de decisão:
"Deve haver um exame dos livros de registro para determinar quem, através do arrependimento e fé em Cristo, tem direito aos benefícios de Sua expiação. A purificação do santuário envolve, portanto, uma obra de investigação - um julgamento - antes da volta de Cristo, pois quando Ele vier, Sua recompensa estará com Ele para dar a cada um segundo as suas obras (Ap 22,12)." (O grande conflito, p. 197)

Assim, existiriam livros no Santuário Celestial (Dn 7,10, Apo 20,12), e, neste lugar, Jesus, ministrando, ocasião que corresponderia ao Grande Dia da Expiação, analisa uma a uma as histórias dos homens: "A esse período nos referimos como o antitípico Dia da Expiação." (Questões sobre doutrina, p.315) O objetivo disto é apenas um: decidir quem mantém seu nome escrito no livro da vida ou quem o terá apagado, pois este apagamento pode acontecer (Cf. Ex 32,33; Apo 3,5; Sl 69,28). Por isso, até a fim de economizar tempo (rs), os que um dia foram fiéis são os únicos casos a serem examinados. Isto é: os não cristãos já estão naturalmente excluídos.

Escreve Ellen White:

"No ritual simbólico, os únicos que participavam do Dia da Expiação eram aqueles cujos pecados haviam sido transferidos ao santuário durante o ano. Assim, no grande Dia da Expiação final e do juízo investigativo, os únicos casos examinados são os daqueles que afirmaram fazer parte do povo de Deus. O julgamento dos ímpios é algo distinto e separado, e ocorre posteriormente. 'Porque a ocasião de começar o juízo pela casa de Deus é chegada.' (1Pe 4,17)

Os livros de registro no Céu determinam a decisão do julgamento. O Livro da Vida contém os nomes de todos os que já serviram a Deus. Jesus ordenou aos discípulos: 'Alegrai-vos, [...] porque o vosso nome está arrolado nos Céus.' (Lc 10,20). Paulo fala de seus cooperadores, 'cujos nomes se encontram no Livro da Vida' (Fp 4,3). Daniel declara que o povo de Deus será livrado, 'todo aquele que for achado inscrito no livro [da vida]' (Dn 12,1). E João diz que entrarão na cidade de Deus apenas aqueles cujos nome estão 'inscritos no Livro da Vida do Cordeiro' (Ap 21,27).

No livro 'memorial', estão registradas as boas ações dos 'que temem ao Senhor e para os que se lembram do Seu nome' (Ml 3,16). Cada tentação resistida, cada mal vencido, cada palavra bondosa dita a alguém, cada ato de sacrifício, cada sofrimento suportado por amor de Cristo, está registrado. 'Contaste os meus passos quando sofri perseguições; recolheste as minhas lágrimas no Teu odre; não estão elas inscritas no Teu livro?' (Sl 56,8)." (O Grande Conflito, p. 225)

Veja também isso:
"Assim, compreendemos que o livro da vida é o registro dos que professaram ser seguidores de Deus e deram início à caminhada rumo à vida eterna. O apóstolo Paulo fala da 'Igreja dos primogênitos arrolados nos Céus' (Hb 12,23) Falando em linguagem comum, diríamos que o livro da vida é o registro celestial da igreja. Nessa lista estão todos os que Deus pode considerar candidatos ao Seu reino eterno, desde Adão até a última pessoa na Terra que se volva ansiosamente para Ele, não importando quão limitada seja sua compreensão da gloriosa boa-nova do evangelho.
Cremos que a eliminação dos nomes do livro da vida é uma obra do juízo investigativo. O completo e perfeito exame de todos os candidatos à vida eterna terá de ser feito antes que Cristo volte nas nuvens do céu, pois, quando Ele aparecer, já terão sido tomadas as decisões para vida ou para morte. Os que morreram em Cristo serão chamados à vida, e os seguidores vivos de Cristo serão trasladados (1Ts 4,15-17). Todos são cidadãos do reino eterno. Depois do segundo advento, não haverá tempo para essas decisões." (Questões sobre doutrina, pg. 312)

Considere mais este texto de Ellen White sobre o que ocorre no Juízo Investigativo:

"Ao abrirem-se os livros de registro no juízo, é passada em revista perante Deus a vida de todos os que creram em Jesus. Começando pelos que primeiro viveram na Terra, nosso Advogado apresenta os casos de cada geração sucessiva, finalizando com os vivos. Todo nome é mencionado, cada caso minuciosamente investigado. Aceitam-se nomes, e rejeitam-se nomes. Quando alguém tem pecados que permanecem nos livros de registro, para os quais não houve arrependimento nem perdão, seu nome será omitido do livro da vida, e o relato de suas boas ações apagado do livro memorial de Deus. [...] Todos os que verdadeiramente se tenham arrependido do pecado e que pela fé hajam reclamado o sangue de Cristo, como seu sacrifício expiatório, tiveram o perdão aposto ao seu nome, nos livros do Céu; tornando-se eles participantes da justiça de Cristo, e verificando-se estar o seu caráter em harmonia com a lei de Deus, seus pecados serão riscados e eles próprios havidos por dignos da vida eterna. (O grande conflito Apud Questões sobre doutrinam, p. 315)

Ao término deste exame, acontecerá a volta de Jesus e o início do milênio.

"Tendo concluído Seu ministério como sumo sacerdote, nosso Salvador retorna à Terra, em glória, e então Satanás é lançado no abismo, onde ele e seus confederados de rebelião permanecerão por todo o milênio." (Questões sobre doutrina, p. 316)

Vamos então a alguns problemas

O primeiro problema, e que salta à vista, é a concepção materialista do céu que se tem e a negação prática da onisciência divina. Surpreendentemente, Deus precisa recorrer a livros para conhecer as minúcias da vida dos seres humanos, o que leva também a um segundo absurdo: que os anjos relatores saibam previamente algo que Deus não sabe ainda.

A Sra White nada fala sobre isso - pelo menos não o vimos -. Mas, como é um problema básico e facilmente percebido, o Questões sobre doutrina se apercebe dele e tenta uma justificação:

"Se a questão envolvesse apenas Deus, certamente não haveria necessidade de registros. Mas, para que os habitantes de todo o Universo, incluindo os anjos bons e maus e todos quantos já viveram na Terra, pudessem compreender Seu amor e Sua justiça, a história da vida de toda pessoa que já viveu neste mundo foi registrada, e no juízo serão abertos esses registros - pois todo homem será julgado segundo o que for revelado 'nos livros' do registro (Dn 7,10; Ap 20,12)" (p. 303)

"Cuma foi, seu zé?"
Isso, além de não melhorar muito, levanta outros sérios problemas. O primeiro é que a multidão de homens e anjos é de repente transformada numa plêiade de curiosos e fuxiqueiros. Além disso, o fato de eles precisarem conferir para só então se certificarem de que Deus é justo instaura e sacraliza, nos salvos, a desconfiança de Deus. Os que virem Deus face a face não apenas o amarão e nele confiarão, mas terão ainda quaisquer reservas que os farão conferir o Seu trabalho. E o que garantiria a estes desconfiados que os registros falam a verdade? Se se desconfia de Deus, imagina de um anjo relator? Então, o que se vê é uma série interminável de problemas. Os adventistas julgaram necessário levantar essa questão devido à afirmação bíblica de que os justos julgarão o mundo. (2Pe 2,4) Mas é muito interessante que os tais justos julguem o que já está julgado. Segundo, se se referisse a um desejo espontâneo de conferir um caso ou outro em particular, não seria o mundo que seria julgado, mas apenas alguns casos - por certo, a minoria, pois o Céu deve ser muito mais interessante do que tédio subjacente necessário à perda de tempo que seria fazer isso aí.

Mas que se trata de um caso de desconfiança é dito pelo próprio Questões sobre doutrina:

"O amor e a justiça de Deus têm sido desafiados por Satanás e suas hostes. O arquienganador e inimigo de toda justiça tem feito parecer que Deus é injusto. Portanto, em sua infinita sabedoria, Ele determinou resolver para sempre toda dúvida. Faz isso revelando perante o Universo inteiro a história completa do pecado, desde seu início." (p. 303)
Quer dizer que "em sua infinita sabedoria", Deus resolveu tirar a dúvida dos homens dando-lhes livros? "Vamos fazer do Céu um país de leitores."

Além disso, a segunda citação acima afirma que também os "anjos maus e todos quantos já viveram na Terra" poderão, através desses registros, "compreender Seu amor e Sua justiça", o que traz imediatamente a questão: também os demônios e os perdidos terão acesso a estes registros? Ora, estamos no Milênio, que é quando os "santos curiosos e paranóicos" supostamente reconferirão os tais registros. Mas os demônios não estarão no abismo? Os registros serão levados lá? E o que dizer dos homens maus que já tiverem morrido e estiverem supostamente naquela soneca? Não é só no final que eles serão ressuscitados? Quer dizer que depois da segunda ressurreição ainda haverá tempo de verificar, por parte dos condenados, a história de todas essas pessoas? Então põe mais um milênio aí... Pelo menos morrerão cultos... 

Shandaray...
Outra coisa curiosa: toda a perspectiva adventista pressupõe a existência do tempo no Céu. Na verdade, o tempo é uma criação de Deus para as realidades espaciais e, portanto, materiais. O que é o tempo? É justamente a distância entre o início de um movimento - físico ou mental - e o seu termo. Percorrer essa distância exige que no início do movimento ainda não se tenha o que se terá no fim. Portanto, o tempo exige um ser carecente que busca algo que lhe falta. Ora, Deus é completo e onipresente, o que impossibilita inclusive que Ele se mova, já que mover-se implica ocupar espaço antes não ocupado. Se Deus está em todo lugar, Ele não pode ocupar um lugar ainda não ocupado porque tal lugar não existe. Tempo e espaço existem neste universo. Deus está fora do tempo. É por isso que Deus se chama de "Eu sou".

Tudo quanto está no tempo muda. Ora, Deus não muda, o que significa que Ele não tem um antes e um depois. Ele simplesmente é. Ler livros é fazer um trabalho temporal e sucessivo, onde a consciência transita de nome a nome, de idéia a idéia, de história a história, e, de novo, isto pressupõe a negação da onisciência. Deus pode expressar-se sucessivamente já que Ele se dirige a seres temporais cujos atos cognoscitivos são sucessivos. Mas, enquanto atividade imanente, Deus não tem sucessão.

Poder-se ia objetar que Jesus o faz enquanto homem. Mas isto seria perder tempo, pois Jesus é Deus e pode saber de tudo num átimo. Contrasta com essas verdades evidentes a hipótese de Jesus estar, desde 1844, neste trabalho.

Acaba mair não...

Também do ponto de vista profético, isso não bate. Com efeito, costuma-se atribuir um dia a um ano. As 2.300 tardes e manhãs de Daniel seriam supostamente 2.300 anos, que levariam a 1844 - Na verdade, 1843. Assim, o dia da expiação, sendo somente um dia no tipo do Santuário, deveria ser correspondente a mil anos proféticos no seu antítipo. Chegaríamos então a 1944[43], que já passou faz tempo. Mesmo assim, esta teoria contrastaria com o que dissemos anteriormente.

Os livros de que se fala certamente não são livros literais, mas um símbolo usado pela Escritura para dar à consciência humana uma idéia comparativa de que Deus tem tudo registrado. Em Apocalipse 10,10 se fala de um livro pequeno que o Apóstolo João come, e até descreve o gosto. Ora, não se deve tomar isso literalmente.

O Questões sobre doutrina, a este respeito, diz:

"A que se assemelham esses 'livros' exatamente, não sabemos. Isso não foi revelado. As Escrituras, porém, tornam claro que, seja qual for a natureza desses registros, desempenham papel vital na cena do juízo." (p. 303)

Notem que ele aspeia a palavra "livros". Talvez algum adventista que estivesse nos acompanhando até aqui estivesse vendo com maus olhos o fato de atribuirmos a estes livros um sentido não literal. Mas eis que uma fonte de peso adventista diz o mesmo. Pô-lo entre aspas é o mesmo que dizer que não são livros exatamente. Mas é preciso dizer mais: se estes registros forem quaisquer objetos extrínsecos à mente divina, teremos de novo uma negação prática da onisciência. É preciso, portanto, que eles sejam a própria Inteligência de Deus, pelo que dispensam o "tempo" - que inexiste no Céu - de exame.

Por fim, se a intenção de Deus fosse comunicar as suas decisões e as razões delas, nada O impediria de iluminar simultaneamente a consciência de todos quantos houvesse no mundo, tanto anjos quanto homens.

Outro problema: como é possível que um julgamento da vida inteira de alguém aconteça enquanto o julgado ainda está vivendo? Deus poderia fazê-lo na sua presciência - como de fato Ele já sabe de antemão quem se salvará e quem se condenará -, mas isto dispensaria a necessidade de qualquer exame. A crença adventista, ao contrário, é a de que o meu nome pode estar sendo examinado agora no livro, e as minhas disposições atuais determinarão a minha salvação ou condenação. O meu nome por certo não será revisto, pois isto abriria ocasião para a revisão de todos os demais, e, sendo que o que motivaria uma tal revisão seria uma mudança interior, e sendo que esta pode se dar continuamente, seguir-se-ia daí a possibilidade de uma revisão contínua, e penso que eu que nem a paciência divina daria conta.

Crer no Juízo Investigativo é divinizar a sorte. Depois que o meu nome passar pelo exame e for apagado do livro da vida, de nada adiantará os meus ulteriores arrependimentos. Estarei perdido. Do mesmo modo, se no exame, eu for encontrado arrependido, e meu nome for mantido no livro da vida, isto significa que eu posso até fazer pacto com o demo depois, que nem por isso ele sairá de lá. Se se contestar isso, se terá de admitir a possibilidade da revisão do livro. A única saída é supor que um tal exame não existe, e que o julgamento divino, não precisando ocorrer no tempo, será imediato, no fim dos tempos, quando todos os homens tiverem terminado a sua história, como é a única alternativa lógica.

Vamos a mais uma citação que prova por A+B que o juízo investigativo nega a onisciência divina:

"Evidentemente, o relator celestial fez uma completa biografia de todo indivíduo que já viveu na Terra, não omitindo coisa alguma que pudesse ter qualquer influência na decisão do Juiz Onipotente." (p. 311)

A primeira coisa a se perguntar é: onde se diz na Bíblia sobre os anjos relatores?

A segunda é: por que os anjos relatam tudo de todo indivíduo se, como vimos, apenas os que uma vez foram cristãos serão objetos de exame?

Depois: se os anjos não omitem "coisa alguma que pudesse ter qualquer influência na decisão" de Deus, então isto significa que se eles omitissem, Deus não o saberia, isto é, poderia ser influenciado. Diga-me o leitor? Há sentido dizer isso considerando a onisciência divina?

Vamos a apenas mais dois problemas. Um deles já o adiantamos acima: na primeira citação, Ellen White deixa claro que apenas os uma vez ingressados na vida cristã serão analisados no Juízo Investigativo:

"No ritual simbólico, os únicos que participavam do Dia da Expiação eram aqueles cujos pecados haviam sido transferidos ao santuário durante o ano. Assim, no grande Dia da Expiação final e do juízo investigativo, os únicos casos examinados são os daqueles que afirmaram fazer parte do povo de Deus. O julgamento dos ímpios é algo distinto e separado, e ocorre posteriormente. (O grande conflito, p. 255)


Isto de fato otimizaria bastante o tempo. Mas, de novo: por que os anjos relataram a vida inclusive de quem nunca foi cristão? E o caso desses infiéis seria analisado só durante o Milênio? O Questões sobre Doutrina é taxativo: Depois do segundo advento, não haverá tempo para essas decisões." (p. 312)" Então, o julgamento dos ímpios ocorre posteriormente quando? Além disso, se eles não entraram no convívio dos justos, não já estão julgados? Como saber quem não entra no céu senão julgando-os anteriormente? Note-se que a sra White diz que "os únicos casos examinados são os dos que afirmaram fazer parte do povo de Deus".


Por fim, Ellen White cita Jesus e São Paulo:


"Alegrai-vos, [...] porque o vosso nome está arrolado nos Céus.' (Lc 10,20). Paulo fala de seus cooperadores, 'cujos nomes se encontram no Livro da Vida' (Fp 4,3)." (O grande conflito, p. 255)

Daí eu pergunto: que sentido faz se alegrar porque o nome aparece no livro dos céus se o mais normal do mundo é que depois o corretivo santo ou a borracha do poder entrem em ação e apaguem o nome de lá? Pelo contrário, quando Jesus ou Paulo falam isto, é óbvio que eles estão dizendo que aqueles aos quais eles se referiam eram pessoas eleitas de Deus.

A Igreja Católica seria a Prostituta do Apocalipse? - Parte 1


O livro do Apocalipse, que comumente é entendido como referindo-se ao final dos tempos e que tem fecundado o imaginário das pessoas desde que foi escrito, fala, dentre outras coisas, de uma "Prostituta", a quem chama de "Babilônia, a Grande."

Desde então, muitas pessoas têm se questionado sobre a quem João estaria se referindo. Os primeiros cristãos tendiam a identificá-la com a Roma Pagã. Depois, muitos foram também os que a associaram a Jerusalém. Contudo, depois da Reforma Protestante, não faltaram os que viram nela a Igreja Católica. Este artigo tem o intuito de analisar esta última alternativa e ver se ela tem mesmo fundamento.

Antes de começarmos, demos uma olhada no que diz exatamente João a este respeito:

"Veio, então, um dos sete Anjos que tinham as sete taças e falou comigo: 'Vem, e eu te mostrarei a condenação da grande meretriz, que se assenta à beira das muitas águas, com a qual se contaminaram os reis da terra. Ela inebriou os habitantes da terra com o vinho da sua luxúria. Transportou-me, então, em espírito ao deserto. Eu vi uma mulher assentada em cima de uma fera escarlate, cheia de nomes blasfematórios, com sete cabeças e dez chifres. A mulher estava vestida de púrpura e escarlate, adornada de ouro, pedras preciosas e pérolas. Tinha na mão uma taça de ouro, cheia de abominação e de imundície de sua prostituição. Na sua fronte estava escrito um nome simbólico: 'Babilônia, a Grande, a mãe da prostituição e das abominações da terra.' Vi que a mulher estava ébria do sangue dos mártires de Jesus; e esta visão encheu-e de espanto.
Mas o anjo me disse: 'Por que te admiras? Eu mesmo te vou dizer o simbolismo da mulher e da Fera de sete cabeças e dez chifres que a carrega. (...) Aqui se requer uma inteligência penetrante. As sete cabeças são sete montanhas sobre as quais se assenta a mulher. São também sete reis: cinco já caíram, um subsiste, o outro ainda não veio; e quando vier, deve permanecer pouco tempo. Quanto à Fera que era e já não é, ela mesma é um oitavo (rei). Todavia, é um dos sete e caminha para a perdição. Os dez chifres que viste são dez reis que ainda não receberam o reino, mas que receberão por um momento poder real com a Fera. (...)
O anjo me disse: "As águas que viste, à beira das quais a Prostituta se assenta, são povos e multidões, nações e línguas. Os dez chifres que viste, assim como a Fera, odiarão a Prostituta. Hão de despojá-la e desnudá-la. Hão de comer-lhe as carnes e a queimarão ao fogo. (...) A mulher que viste é a grande cidade, aquela que reina sobre os reis da terra.

Depois disso, vi descer do céu outro anjo que tinha grande poder, e a terra foi iluminada por sua glória. Clamou em alta voz, dizendo: 'Caiu, caiu Babilônia, a Grande. Tornou-se morada dos demônios, prisão dos espíritos imundos e das aves impuras e abomináveis, porque todas as nações beberam do vinho da ira de sua luxúria, pecaram com ela os reis da terra e os mercadores da terra se enriqueceram com o excesso do seu luxo.

Ouvi outra voz do céu e que dizia: 'Meu povo, sai de seu meio para que não participes de seus pecados e não tenhas parte nas suas pragas, porque seus pecados se acumularam até o céu, e Deus se lembrou das suas injustiças. Faze com ela o que fez (contigo), e retribui-lhe o dobro de seus malefícios; na taça que ela deu de beber, dá-lhe o dobro. Na mesma proporção em que fez ostentação de luxo, dá-lhe em tormentos e prantos. Pois ela disse no seu coração: estou no trono como rainha, e não viúva, e nunca conhecerei o luto. Por isso, num só dia virão sobre ela as pragas: morte, pranto, fome. Ela será consumida pelo fogo, porque forte é o Senhor que a condenou.

Hão de chorar e lamentar-se por sua casa os reis da terra que com ela se contaminaram e pecaram, quando avistarem a fumaça do seu incêndio. Parados ao longe, de medo de seus tormentos, eles dirão: 'Ai, ai da grande cidade, Babilônia, cidade poderosa! Bastou um momento para tua execução!'

Também os negociantes da terra choram e se lamentam a seu respeito, porque já não há ninguém que lhes compre os carregamentos: carregamento de ouro e prata, pedras preciosas e pérolas, linho e púrpura, seda e escarlate, bem como de toda espécie de madeira odorífera, objetos de marfim e madeira preciosa; de bronze, ferro e mármore; de cinamomo e essência; de aromas, mirra e incenso; de vinho e óleo, de farinha e trigo, de animais de carga, ovelhas, cavalos e carros, escravos e outros homens. Eis que o bom tempo de tuas paixões animalescas se escoou. Toda a magnificência e todo o brilho se apagaram, e jamais serão reencontrados. Os mercadores destas coisas, que delas se enriqueceram, pararão ao longe, de medo de seus tormentos, e hão de chorar e lamentar-se, dizendo: 'Ai, ai da grande cidade, que se revestia de linho, púrpura e escarlate, toda ornada de ouro, pedras preciosas e pérolas. Num só momento toda essa riqueza foi devastada!'

Todos os pilotos e todos os navegantes, os marinheiros e todos os que trabalhavam no mar paravam ao longe e exclamavam, ao ver a fumaça do incêndio: 'Que havia de comparável a essa grande cidade?' E lançavam pó sobre as cabeças, chorando e lamentando-se com estas palavras: 'Ai, ai da grande cidade, de cuja opulência se enriqueceram todos os que tinham navios no mar. Bastou um momento para ser arrasada!' Exulta sobre ela, ó céu; e também vós, santos, apóstolos e profetas, porque Deus julgou contra ela a vossa causa.

Então um anjo poderoso tomou uma pedra do tamanho de uma grande mó de moinho e lançou-a no mar, dizendo: 'Com tal ímpeto será precipitada Babilônia, a grande cidade, e jamais será encontrada. Já não se ouvirá mais em ti o som dos citaristas, dos cantores, dos tocadores de flauta, de trombetas. Nem se encontrará em ti artífice algum de qualquer espécie. Não se ouvirá mais em ti o ruído do moinho, não brilhará mais em ti a luz de lâmpada, não se ouvirá mais em ti a voz do esposo e da esposa; porque teus mercadores eram senhores do mundo, e todas as nações foram seduzidas por teus malefícios. Foi em ti que se encontrou o sangue dos profetas e dos santos, como também de todos aqueles que foram imolados da terra;

Depois disso, ouvi no céu como que um imenso coro que cantava: 'Aleluia! A nosso Deus a salvação, a glória e o poder, porque os seus juízos são verdadeiros e justos. Ele executou a grande Prostituta que corrompia a terra com a sua prostituição, e pediu-lhe contas do sangue dos seus servos.." (Apo 17-19,4)
A citação é um tanto longa, mas é necessária para que peguemos todas as referências a esta entidade. Então resumamos as suas características básicas:

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- É chamada de Grande Meretriz ou Prostituta;
- É chamada de Grande Cidade;
- Se assenta à beira de muitas águas que contaminaram os reis da terra;
- Inebriou os habitantes da terra com o vinho de sua luxúria;
- Está sentada sobre uma fera escarlate, com sete cabeças e dez chifres;
- Está vestida de púrpura e escarlate;
- Está adornada de ouro, pedras preciosas e pérolas;
- Carrega uma taça de ouro, cheia de abominações e imundícias de sua prostituição;
- Tem escrito na testa o nome de Babilônia, a Grande, mãe das prostituições e abominações da terra;
- Estava ébria com o sangue dos mártires de Jesus;
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O anjo então adverte João de que para compreender o que foi dito, é necessário ter uma inteligência penetrante, o que significa: ninguém queira tratar esses assuntos com vulgaridade e grosseria. Ele passa então a explicar os símbolos:

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- Sete cabeças - Sete montanhas - sete reis
- Dos sete reis - Cinco já caíram, um subsiste, outro ainda não veio; quando vier, fica por pouco tempo;
- O oitavo rei é a Fera; mas é também um dos sete;
- Dez chifres - dez reis que ainda não receberam o reino, mas receberão por um momento poder real com a Fera, o oitavo rei;
- Águas sobre as quais se assenta a Prostituta - povos e multidões, nações e línguas;
- Os dez chifres e a fera odiarão a Prostituta;
- A mulher ou Prostituta - Grande Cidade, a que reina sobre os reis da terra.
- Todas as nações beberam do vinho da ira de sua luxúria;
- Os reis da terra pecaram com ela;
- Os marcadores se enriqueceram com o excesso do seu luxo;
- A prostituta se dizia rainha, e não viúva;
- Será consumida pelo fogo;
- Hão de chorar por sua causa os reis e negociantes da terra;
- Ela tinha paixões animalescas;
- Nela se encontrou o sangue dos profetas e dos santos;
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Eis aí as características básicas desse ser. Vejamos a quem isso tudo se aplica.

Dissemos das três possibilidades: Roma Pagã, Roma Papal e Jerusalém. Como o propósito deste texto é analisar primeiramente se isso tudo se enquadra na Igreja Católica, comecemos por aqui.

Antes, porém, digamos de uma estratagema comum usado pelos acusadores da Igreja: eles consideram-na uma continuação do Império Romano. Assim, todas as referências do texto que digam respeito inequivocamente à Roma Pagã, eles entenderão como uma confirmação de que se refere à Roma Papal. Veremos também se há, de fato, uma continuidade entre os dois.

A primeira dificuldade aqui é que, mesmo sabendo que o sentido todo é simbólico, conforme o próprio anjo diz, os acusadores da Igreja se valem de uma leitura literal de várias figuras, como, por exemplo, do cálice dourado, das cores púrpura e escarlate, da riqueza, e alguns outros ainda da Prostituição.


É A IGREJA CATÓLICA A PROSTITUTA?



Entendamos, pra começar, o que é esta prostituição de que se fala. Não se trata de impureza sexual, mas de contaminação com o paganismo ou com doutrinas estranhas à estabelecida por Deus. Deus, na Sua relação com Israel, se compara sempre com um esposo a quem Israel, em voltar-se para os ídolos, trata com infidelidade. Por causa disso, Ele sempre acusa Jerusalém de ser uma prostituta (Cf. Jer 13,27).

Isso não é ponto polêmico, pois todo o protestantismo que acusa a Igreja de ser esta entidade aceita esta interpretação. Em seguida, eles costumam atacar a Igreja dizendo que ela se corrompeu com o Império Romano, tornando-se idólatra e ensinando esta idolatria ao mundo. Nisto consistiria a sua prostituição. Mas será que tal se dá?

Quando foi que a Igreja deixou de ter uma relação conflituosa com o Império Romano? Isto ocorre no século IV, quando Constantino fez cessar a perseguição aos cristãos, em 313 d.C. O motivo foi o seguinte: indo para uma guerra contra o seu rival Maxêncio, ele teria visto um sinal no céu: uma Cruz e a inscrição latina "in hoc signo vinces", que significa: "com este sinal, vencerás". De fato, ele vence a batalha, e, por isso, dá aos cristãos, que eram perseguidos desde o primeiro século, liberdade de culto. Porém, somente com o imperador Teodósio I, o cristianismo se tornará a religião oficial do Império, com o Edito de Tessalônica, em 380 d.C.

É importante destacar o seguinte: no século IV, o cristianismo já estava distribuído no mundo todo. Uma grande novidade em termos doutrinais levantaria uma imensa resistência geral. É conveniente relatar também que, por causa de uma matança em Tessalônica a mando de Teodósio, o bispo de Milão - na época, chamada Mediolano -, Santo Ambrósio, o excomungou e escarneceu em público, proibindo-lhe entrada na igreja, ao que Teodósio necessitou fazer longa penitência a fim de poder reaver seu direito como cristão. Vejamos o que diz disso o historiador do Séc. V, Teodoreto de Cirro:


“Tessalônia é uma cidade grande e populosa na província da Macedônia. Por causa da revolta que aconteceu lá, o Imperador [Teodósio] irou-se sobremodo e satisfez seu desejo por vingança desembainhando a espada de maneira injusta e tirânica contra todos – inocentes e culpados. É dito que sete mil pereceram sem qualquer base legal ou sentença judicial, mas que foram todos cortados como espigas de trigo no tempo da colheita.
Quando Ambrósio ouviu falar desta deplorável catástrofe, saiu para se encontrar com o Imperador que, em seu retorno a Milão, desejou, como de costume, entrar na santa igreja. Mas Ambrósio proibiu sua entrada dizendo: ‘Parece que tu não percebes, ó Imperador, o tamanho da tua culpa por um tão grande massacre. Agora que tua fúria foi apaziguada, não vês o tamanho do teu crime? Não se deslumbre com o esplendor da púrpura que tu vestes para que não te esqueças da fraqueza do corpo que ela cobre. Teus súditos, ó Imperador, são da mesma natureza que tu és. E não somente isto. Também são servos como tu és, pois só há um único Senhor e Governador sobre todos, Aquele que é o Criador de todas as criaturas, tanto do príncipe quanto do povo. Como ousas tu olhar para o templo d’Aquele que é o Senhor de todos? Como podes tu erguer as mãos para orar estando mergulhado no sangue de um massacre tão injusto? Vá embora em vez de se tornar ainda mais culpado por um segundo crime’.
O Imperador, que havia sido criado no conhecimento das Sagradas Escrituras e conhecia bem a distinção entre o poder eclesiástico e o poder temporal, se submeteu à censura e, com muitas lágrimas e gemidos, voltou ao seu palácio. O Imperador se trancou em seu palácio e chorou muito. Depois de diversas tentativas sem sucesso de apaziguar Ambrósio, o próprio Teodósio finalmente se encontrou com Ambrósio em particular e implorou por misericórdia dizendo: ‘Eu imploro que, em consideração à misericórdia de Nosso Senhor em comum, me libertes destas cadeias e que não feches a porta que é aberta pelo Senhor para todos que verdadeiramente se arrependem’. Ambrósio estipulou que o Imperador provasse seu arrependimento revogando diversos decretos injustos e especialmente ‘que quando uma sentença de morte ou proscrição fosse assinada contra alguém, deveria haver um espaço de trinta dias antes da execução e, durante esse tempo, o caso deve ser trazido a ti. Isso lhe dará tempo para se acalmar, para que possas pensar sobre o caso com justiça’. O Imperador deu ouvidos ao seu conselho e achou excelente. Ele imediatamente ordenou que a lei fosse elaborada e ele mesmo assinou o documento. Ambrósio, então, o readmitiu a comunhão.

O Imperador, que estava cheio de fé, agora tomou coragem de entrar na santa igreja, na qual ele não orou de pé ou ajoelhado, mas lançou-se ao chão. Ele puxava os cabelos, batia na testa e chorava muito enquanto implorava pelo perdão de Deus. Ambrósio restaurou seu favor, mas o proibiu de entrar no gradil de comunhão, ordenando que seu diácono lhe dissesse: ‘somente os presbíteros, ó Imperador, tem permissão para ultrapassar o gradil de comunhão. Se retire, então, e fique com os outros leigos. A púrpura faz o Imperador, mas não os presbíteros…” Teodósio humildemente obedeceu e elogiou Ambrósio dizendo: “Ambrósio somente merece o título de ‘bispo’“. (História Eclesiástica, V.17-18, Disponível Aqui)

Não contrasta a alegada submissão da Igreja ao Império Romano com o fato aí descrito? Só por este acontecido, largamente reconhecido, pode-se objetar qualquer tipo de suposta subserviência que a Igreja teria tido ao Império. E não convém pensar, também, que Ambrósio fosse o único bispo honesto. Pelo contrário, basta um pouquinho de esforço para perceber que todo o clero cristão dessa época era de uma santidade eminente.

Depois, se de fato a Igreja se prostituiu com o Império Romano, e se isto só é possível de ter ocorrido no século IV, basta fazer-se um estudo sobre o que cria a Igreja durante os quatro primeiros séculos. Ver-se-á, então, que, longe de diferir, a Igreja já era basicamente a mesma que é hoje, com bispos, dioceses, padres, e suas crenças fundamentais.: divindade de Jesus, Ss Trindade, observância do Domingo, culto aos santos e mártires, culto especial à Virgem Maria, prática da confissão auricular, batismo de crianças, imagens, Santa Missa, etc. Nada falta! É absurdo, portanto, falar de prostituição da Igreja com o Império Romano. Veja ainda o que diz Jonathan Edwards:

“Deus agora se manifestou para executar juízos terríveis sobre seus inimigos. Os registros históricos fornecem relatos surpreendentes do quão terrível foi fim de imperadores, príncipes, generais e capitães pagãos, que se empenhavam na perseguição de cristãos; morrendo miseravelmente, um após o outro, sofrendo estranhos tormentos do corpo, horrores na consciência, com a mão de Deus visivelmente pesando contra eles. O paganismo foi, em grande medida, abolido por todo o Império Romano… A Igreja Cristã foi conduzida a um estado de grande paz e prosperidade…. Satanás, o príncipe das trevas, o rei e deus dos pagãos estava sendo derrubado. O leão que ruge foi conquistado pelo Cordeiro de Deus, no mais forte domínio que ele já teve… (...) O Evangelho prevalecendo da maneira que fez contra uma oposição tão forte demonstra claramente a mão de Deus. O governo romano que, com tanta violência, trabalhou para impedir o sucesso do Evangelho e para destruir a Igreja de Cristo, foi o Império mais potente que já havia aparecido no mundo; e não somente isso, mas também pareciam ter a Igreja nas mãos. Os cristãos que estavam sob seu domínio nunca pegaram nas armas para se defender, se armaram unicamente com a paciência e armas espirituais. Ainda assim, essa grande potencia não podia conquistá-los, mas o Cristianismo é que prevaleceu. O Império Romano havia dominado muitos reinos poderosos; eles dominaram a monarquia Grega, apesar desta ter resistido ao máximo. Mas não foram capazes de conquistar a Igreja em suas mãos. Pelo contrário, a Igreja triunfou e prevaleceu”. (A History of the Work of Redemption, “The Success of Redemption from the Destruction of Jerusalem, to the Time of Constantine”, Disponível aqui.)

Não há, portanto, NENHUMA evidência de "prostituição" doutrinal da Igreja com Roma. Como se vê, muito pelo contrário.


Usa-se também a referência "está vestida de púrpura e escarlate" para indicar a cor das vestes litúrgicas dos bispos e cardeais. 

Porém, as cores "púrpura" e "escarlate" não indicam cores literais, mas significados simbólicos. Elas contrastam com as "vestes brancas", que simbolizam pureza. Vejamos:

Apo 3,5 - "O vencedor será assim revestido de vestes brancas. Jamais apagarei o seu nome do livro da vida, e o proclamarei diante do meu Pai e dos seus anjos."

Apo 3,18 - "Aconselho-te que compres ouro provado ao fogo, para ficares rico; roupas alvas para te vestires, a fim de que não apareça a vergonha de tua nudez";

Apo 7,9 - "Depois disso, vi uma grande multidão que ninguém podia contar, de toda nação, tribo, povo e língua: conservavam-se em pé diante do trono e diante do Cordeiro, de vestes brancas e palmas na mão."

Apo 3,4 - "Todavia, não contaminaram suas vestes; andarão comigo vestidas de branco, porque o merecem."

Dn 7,9 - "Continuei a olhar, até o momento em que foram colocados os tronos e um ancião chegou e se sentou. Brancas como a neve eram suas vestes."

Agora contrastemos isso com este texto:

"Se vossos pecados forem escarlates, tornar-se-ão brancos como a neve! Se forem vermelhos como a púrpura, ficarão brancos como a lã! (Isa 1,18)

Aqui as cores claramente simbolizam o pecado e a pureza. O vermelho e o escarlate, cores gritantes, contrastam com a placidez do branco. É óbvio que literalmente Deus não tem vestes.

Assim, as cores vermelho e púrpura das vestes da Prostituta simbolizam a intensidade da sua prostituição e do seu pecado. Mas será que isto pode mesmo simbolizar a Igreja?  Obviamente, como é feita de homens, estes pecam. Assim como os 12 apóstolos pecavam. Mas não há possibilidade de falar que a Igreja enquanto tal, isto é, em virtude de sua essência, foi promovedora de pecados escarlates. De fato, houve papas bons e maus, assim como clérigos bons e maus. Alguns foram bastante pecadores, mas isso nunca foi uma regra na Igreja, de modo que não há homogeneidade no mal. Os pecados que se deram não se destacaram tanto quanto se quer fazer pensar, nem foram promovidos pela Igreja de modo proposital. E aqui há que se perguntar: a que se referem os acusadores? Provavelmente, citarão certas imoralidades perpetradas inclusive por Sumos Pontífices. No entanto, nunca poderão fazer disso uma regra, senão circunstâncias muito pontuais. Não é, porém, o que ocorre com a Prostituta do Apocalipse. E o que dizer dessa vista grossa suspeita para a imensa quantidade de santos, cujas vidas se elevaram a alturas tão vertiginosas que os líderes protestantes sequer conseguem acompanhar com os olhos?

Depois, há que se dizer que o "roxo" e o "vermelho" não são as cores principais do clero católico. Todos os padres vestem preto, se estão de batina, ou branco e outras cores, quando estão celebrando. Os bispos e cardeais, quando celebram, variam as cores a depender do tempo litúrgico. Elas podem ser o roxo (celebrações penitenciais, quaresma, finados, advento), o vermelho (memória dos mártires, Pentecostes), o branco (festas em geral), o azul (celebrações marianas) ou o verde (tempo comum). Sem celebrar, usam vestes pretas, e faixas roxas (bispos) e vermelhas (cardeais), ou murças roxas (bispos) ou vermelhas (cardeais). 

Cardeais com túnicas e murças vermelhas

Bispos e cardeais com batinas pretas e faixas e solidéus roxos (bispos) e vermelhos (cardeais)
Padre com batina, veste ordinária

Casulas usadas apenas para celebrações


O roxo sempre representa sobriedade, penitência, conversão. O vermelho, por sua vez, indica o sangue dos mártires, o de Cristo e também a disposição em dar o próprio sangue. Já a cor das vestes papais é toda branca. É óbvio que se João quisesse referir-se à Igreja, teria variado bastante nas cores, referindo-se principalmente ao branco e ao preto, ou teria principalmente mencionado a cor do Papa, o branco. Como vimos, porém, o branco é a cor dos remidos.

Por fim, em se tratando de vestes literais, é fato que Deus mesmo ordenou que, nas cerimônias litúrgicas de Israel, as vestes sacerdotais fossem roxo e escarlate (Ex 28,4-8, 15, 33; 39,1-8, 24, 29).

Próximo ponto.


"Nela se encontrou o sangue dos profetas e dos santos".

Geralmente, quando se trata disso, o imaginário protestante é imediatamente levado às cenas da Inquisição, o que não deixa de ser interessante, tendo em vista a total ignorância no assunto por parte da extrema maioria deles. Os que, ao invés, se detêm em estudar um pouco que seja este tema, rapidinho abandonam tais devaneios.



Dentre os hereges condenados pela Inquisição, se encontravam principalmente os cátaros, uma variante do maniqueísmo. Mas também havia outras correntes, como os huguenotes, na França, e os albigenses, bastante semelhantes aos primeiros, nos países baixos, Alemanha, Lombardia e sobretudo na França.

Vamos ver quem eram cada um desses? Depois, vocês mesmos me dirão se eles podem ser chamados de santos.

Cátaros e Albigenses são basicamente os mesmos. A denominação distinta dependia dos lugares. Foi basicamente por causa deles que o Tribunal da Inquisição começou a "trabalhar". No que criam? Dissemos que era uma variante do maniqueísmo. Comecemos então definindo o que é o maniqueísmo: tipo de gnosticismo que afirma existirem dois princípios substanciais: o bem e o mal. Esses dois princípios são duas divindades, uma boa e outra má. A divindade boa criou o mundo dos espíritos. A divindade má criou o mundo material e aprisionou o espírito humano dentro de um corpo físico. Conclusão: a matéria é má e é preciso redescobrir o meio de despertar a nossa verdadeira natureza, a centelha divina que está presa dentro do invólucro corporal. Para isto, é preciso conhecer um segredo oculto: a gnose. Este segredo nos foi dado por Jesus, que havia ensinado como fazer para adquirir a liberação.

Jesus, porém, não foi verdadeiro homem, pois ser homem é ser material. Logo, não é verdade que ele se encarnou. Tampouco morreu, nem ressuscitou, pois todas essas coisas promovem a matéria. Vão observando quem são os pretensos santos. Para eles, o Deus do Antigo Testamento é o Deus mau, Satanás. O Deus do Novo Testamento é que é bom.

Em termos práticos, isso fazia com que eles condenassem as relações sexuais, que identificavam com o Pecado Original, e sobretudo o casamento, que era como uma legitimação das torpezas e imoralidades. Consideravam que as mulheres grávidas eram tipos de possessas, pois carregavam o mal na barriga, e chegavam a assassiná-las. Pregavam o suicídio por inanição, numa prática chamada endura, e que impunham até às crianças. Há uma fonte que afirma que os cátaros morreram mais disso do que por qualquer iniciativa da Inquisição. Além disso, invadiam e incendiavam propriedades. Como eram geralmente identificados como religiosos, a Igreja era chamada para intervir e evitar a justiça com as próprias mãos por parte dos civis. Foi numa dessas ocasiões que o Papa Inocêncio III enviou o seu delegado, Pierre de Castelnau, para pregar no sul da França. Na volta, porém, ele foi assassinado por quem? Pelos cátaros. Este incidente motivou a chamada Cruzada dos Albigenses. As idéias cátaras estavam se espalhando de modo terrivelmente rápido, urgindo uma intervenção. Historiadores insuspeitos, como o protestante Henry C. Lea, afirmam que, se nada fosse feito, eles teriam levado a civilização ocidental a um colapso. Santos Cátaros? Só numa cabeça doente.

E os huguenotes? Seriam coisa boa? Seriam santos? Vejamos.

A seita começou em Paris, e foi exterminada na Noite de São Bartolomeu que, ao contrário do que se diz, não teve nenhum tipo de participação da Igreja, conforme você pode ver nesta série de artigos a respeito:


Mas, ainda assim, vejamos quem eram os tais.

Os huguenotes defendiam o Calvinismo e viviam do calor provocado pela revolta de Lutero. Sobre aqueles dias, escreve o historiador francês Jorge Gandy:


"O calvinismo envolvia a França numa rede de conspirações. Em 1562, seus partidários sublevaram-se, ao mandado de seus chefes, com uma simultaneidade assustadora. Em 1567, pôde-se verificar juntamente o alcance e a rapidez de suas manobras. Neste ano, as ruas de Nimes foram ensanguentadas por uma das mais odiosas São Bartolomeus protestantes, a qual se chamou a Miguelada, efetuada pelos huguenotes, de sangue frio, de caso pensado, sem provocação da parte dos católicos, a 30 de setembro, no dia seguinte à festa de São Miguel. Trezentos cadáveres foram precipitados num grande poço, no pátio do palácio episcopal. Contra este fato, os protestantes organizaram a conspiração do silêncio. Contudo, o nefando crime é confessado por alguns deles. Além disso, a Miguelada não foi um fato isolado, mas o efeito de uma conspiração tramada contra a França." (Revue des questions historiques, 1866, t. I. - J.-J. Fauriel, Essai sur les événements qui ont précédé la Saint-Barthélemy (thèse))


Carlos Buet, por sua vez, comenta:

"As catedrais, as igrejas, os conventos, as capelas e até as bibliotecas e os hospitais são destruídos, saqueados, roubados, profanados. Como os bárbaros, os protestantes apoderam-se de todas as riquezas do culto, quebram as estátuas, dilaceram as pinturas... Pelas mãos deles, os bispos, os sacerdotes, os frades de qualquer ordem são mortos, insultados ou expulsos. As populações, fiéis ao culto de seus pais, são submetidas aos mais cruéis tratamentos. Só na Beauce, os calvinistas triunfantes destruíram trezentas igrejas. Em toda a França, contam-se cento e cinquenta catedrais ou abadias completamente arruinadas" (François_de Guise)

Os hereges não queriam apenas um lugar ao sol, como se costuma dizer. Pelo contrário, eles atacavam de armas na mão. Pouco se fala das Inquisições Protestantes, essas sim, uma cena dramática de carnificina e ódio. Não à toa a Igreja, por vezes, tinha de intervir com o braço secular. Mas falaremos disso mais adiante.

E o que dizer dos famosos reformadores mortos pela Inquisição?

John Huss, Zwinglio, Lutero, Wycliffe?

Comecemos por este último? Bom, é breve: Wycliffe morreu de morte natural. Próximo.

Lutero? Suicida. Próximo.

Zwinglio? Convocou uma luta armada na Suiça e morreu em combate.

Vamos então a John Huss. Esse de fato morreu na Inquisição. Observemos em quais circunstâncias.




Jan Husinecký, ou o seu correspondente latino, Johannes de Hussinetz., foi o fundador dos hussitas, e defendia as idéias de Wycliffe. Dentre as bandeiras propagadas pelo sr. Huss, estavam:

a) Negação das indulgências;

b Negação do purgatório;

c) Negação do papado; 

d) Negação da realidade da transubstanciação, professando a novidade luterana da empanação;

e) Dizia que os fiéis não estavam submissos à autoridade civil a menos que estas estivessem em estado de graça. 

Além disso tudo, ele era visto como um líder boêmio contra os interesses do rei, de modo que as suas posições tinham fortes repercussões políticas. A época também é particularmente caótica, e conhecida como o Grande Cisma do Ocidente: havia três pretensos papas, todos falsos: João XXIII, Bento XIII e Gregório XII, cada um apoiado por sua própria região e grupos de poder. O Concílio de Constança teve seu início durante esse processo complicado, e, a partir de um sistema de votações, foi destituindo um a um os supostos pontífices, chegando, depois, a estabelecer um novo Papa: Martinho V, que restaurou a unidade da Igreja. No meio dessa briga político-religiosa, a negação da autoridade papal afirmada por Huss tinha fortes ecos políticos. João XXIII chegou a excomungá-lo, mas sem incluir nisso sanções civis, como que a adverti-lo para que ficasse quieto. Mas nada feito. Huss apareceu no concílio a fim de defender suas teses, sob um salvo conduto do Imperador, que, no entanto, não o evitou de ser considerado herege e de ser preso. Diz-se que o Impeador, sob a alegada afirmação de que não queria se opor à Igreja, achou nisso um conveniente para cessar a voz de um seu perseguidor político. Por dois meses e meio fizeram um exame geral dos escritos de Huss, durante os quais ele continuou a pregar e escrever sob prisão domiciliar no Castelo de Gottlieben.

A 6 de Julho de 1415, John Huss, depois de se ter negado a renunciar aos próprios erros, aceitou a pena civil da execução na fogueira.

Há que se dizer que o Papa Martinho V só foi eleito dois anos depois. Ou seja: John Huss morreu no cume da confusão. Portanto, não se deve dizer que este foi um evento típico na Igreja.

Mas reflitamos um pouco no significado da Heresia.

O termo, do grego Haeresis, faz referência ao ato de escolher, num corpo de doutrinas, aquelas às quais se vai aderir, estabelecendo a consciência individual como autoridade máxima em religião, atitude que é a raiz do subjetivismo e individualismo moderno.

Na Idade Média, a Heresia não era apenas um pecado moral individual, mas era considerado crime civil - algo que pode ser comparado, na indignação que despertava no povo, ao atual crime de pedofilia - e, além disso, era tido como crime de lesa majestade, isto é, contra o Rei, Deus. Toda a sociedade medieval era teocêntrica. Uma heresia implicava em turvar a revelação que Deus havia feito de si mesmo. Isto provocava de um lado uma ofensa a Ele, e de outro expunha as almas à condenação eterna. A heresia era dita matar a alma. Como o homem medieval tinha, sobretudo, o ideal da salvação, os hereges lhes apareciam como inimigos-mor do povo e de Deus. Frequentes eram as execuções levadas a termo pelos próprios civis, e, se a Igreja intervinha, frequentemente ela minorava o rigor com que os hereges eram tratados, inclusive poupando-os da morte na imensa maioria das vezes. O Rei Luís VII, da França, em 1162, ainda antes da Inquisição, mas já numa situação insuportável por conta dos hereges, escreve ao Papa Alexandre III: 

"Vossa sabedoria preste atenção toda particular a esta peste e a suprima antes que se possa agravar. Eu vos suplico pela honra da Fé cristã, dai nesta causa toda a liberdade ao Arcebispo (de Reims), êle destruirá aqueles que assim se levantam contra Deus, sua severidade justa será louvada por todos os que, nesse país, estão animados de genuína piedade. Se Vós agirdes de outro modo, os murmúrios não se aquietarão e desencadeareis contra a Igreja Romana as veementes censuras da opinião." (Dictionnaire de Théologie Catholique, Paris, 1923)

Somente quase cem anos depois é que a Inquisição entrará em cena. Ela era vista, pelos criminosos em geral, como um tribunal justo, ao ponto de vários deles, presos por crimes civis, inventarem logo em seguida um crime de heresia para que pudessem ser transferidos e julgados pela Inquisição. Isso ocorreu, por exemplo, com os Templários, na França, mas o seu pedido foi indeferido. Além disso, a Inquisição deixava à disposição dos acusados um advogado de defesa, era feita uma profunda investigação sobre os fundamentos da acusação; se o acusador fosse provado ser falso, ele era quem pagava a sanção. Se em qualquer fase do processo o réu se arrependia dos seus delitos, os confessava e renunciava as suas posições, ele era perdoado e escapava da pena capital. A Inquisição representou ainda um grande avanço nos sentido humanitário. Todos os tribunais civis do mundo faziam amplo uso da tortura. A Igreja quase a excluiu de vez. Permitia que fosse aplicada apenas uma vez, sem derramamento de sangue e na presença de um médico, e a confissão sob tortura só era válida se confirmada posteriormente, sem tortura. Em 200 anos, a tortura foi aplicada apenas 3 vezes. As prisões da Inquisição eram muito mais dignas do que as civis. As punições mais comuns eram penitências pessoais - como os "autos da fé" - peregrinações, expropriação de algum pertence, etc. Dentre as poucas execuções penais, várias delas eram apenas simbólicas, com bonecos sendo queimados.

O crime de heresia, como contaminava socialmente - a exemplo dos cátaros -, e expunha muitas almas ao perigo do erro e da apostasia, ameaçando-lhes do inferno - que, no imaginário medieval, era muito real, e certos estavam eles - exigia que a Igreja, ciosa dos seus filhos, agisse como mãe detendo o perigo. A morte física não é o maior perigo a não ser para uma sociedade materialista, como a nossa. Este materialismo instaura necessariamente a covardia, o interesse, o egoísmo, e a ditadura dos prazeres, que é o que vivemos. A consequência é uma redução drástica do alcance da consciência e a vedação, total ou parcial, do senso da transcendência. O bom senso, porém, não está no lado de cá, mas no de lá. Os protestantes que acusam a Igreja, como são supostamente dotados desse senso do sagrado, fariam bem de refletir um pouco sobre essas coisas.

E nos contentamos apenas a afirmá-las, sem entrar em maiores detalhes, porque o artigo não é sobre o assunto. Mas disponibilizamos os seguintes textos a respeito:


Os Arquivos da Inqusição, que contêm a maior quantidade de fontes primárias, foram abertos oficialmente em 1998, pelo Papa João Paulo II, o que inspirou um Simpósio Internacional de Historiadores sobre a Inquisição, presidido por Rino Cammilleri, escritor e jornalista italiano, que, depois, escreveu o livro "A verdadeira história da Inquisição".




Rino, nesta obra, escreve: "Em 50 000 processos inquisitoriais uma ínfima parte levaram à condenação à morte, e dessas só uma pequena minoria produziu efetivamente execuções".

Ele diz ainda que em Toulouse, onde a Inquisição ocorreu de modo mais forte, "houve apenas 1% de sentenças à morte".

Ou seja, longe de ser o que dizem os devaneios da Renascença, escritos por mentirosos confessos, como Diderot, Voltaire et caterva, e que são não obstante assumidos hoje como as mais confiáveis testemunhas por livros do MEC e protestantes incautos, a Inquisição foi um tribunal justo. Excessos existiram cá e lá, pois, na inexistência de telefones, internet e estradas, era complicado que Roma desse conta de inspecionar todos os lugares de uma vez. Às vezes uma determinação papal demorava um ou dois anos para chegar num dado vilarejo. Clérigos aqui e ali não raro se corrompiam por interesses políticos, e essas coisas de fato influenciavam no andamento de alguns processos. Contudo, isso nunca foi uma lei. O senso moral, tanto dos padres quanto dos fiéis, levado a alturas singulares pela educação cristã, não permitia que tal se desse. É de uma ingenuidade desonesta afirmar que os homens medievais eram todos tolos. Qualquer historiador especialista haverá de afastar de uma vez para sempre a cômica e ridícula pecha de "idade das trevas".

Diga-se, por fim, mais duas coisas. A Inquisição é mais conhecida, nos seus excessos violentos, pelo que se deu na Espanha, com Torquemada. Ocorre, porém, o seguinte: a Inquisição Espanhola não foi um tribunal da Inquisição Eclesiástica, mas do poder régio. Inclusive os inquisidores de lá, de novo movidos por interesses políticos, foram diversas vezes ameaçados de excomunhão pela Igreja. E, ainda assim, a violência ventilada pelos inimigos da Igreja está longe de ser verdadeira. Um estatístico afirmou que as bicicletas infantis são 14 vezes mais letais do que a Inquisição Espanhola, isto é, ocorrem 14 vezes mais acidentes letais com crianças por causa das bicicletas infantis do que réus que eram condenados à pena capital pela Inquisição Espanhola.

Rino, na obra supracitada, esclarece: "As fontes históricas demonstram muito claramente que a inquisição recorria à tortura muito raramente. O especialista Bartolomé Benassa, que se ocupou da Inquisição mais dura, a espanhola, fala de um uso da tortura 'relativamente pouco frequente e geralmente moderado.'"

A outra coisa é: a Revolução Francesa matou mais pessoas em uma só semana do que todos os mil anos de Inquisição, e isto também é facilmente comprovado. No entanto, quais são os valores que norteiam a vida contemporânea? Exatamente aqueles da Revolução Francesa, elencados por Roberpierre: "Liberdade, Igualdade, Fraternidade - ou a Morte." Idéias profundamente ideológicas que escondem, sob o verniz arco-íris, o vermelho vivo do sangue e o negro profundo do inferno.

Como se viu, os "santos" mortos pela Inquisição não eram tão santos assim, nem a Inquisição pode ser acusada de "derramar o sangue dos santos", como se vivesse a matar gente. Convido o amigo leitor, católico, protestante, agnóstico ou ateu, a nos trazer nomes específicos de supostos santos que teriam morrido pelas mãos da Inquisição. A Prostituta do Apocalipse está bêbada com o sangue deles, o que indica que têm de ser muitíssimos. Pois bem, tragam-nos dados e nomes. Fazer uma alegação dessas baseados em nada, ou melhor, em mentiras - que são menos que nada - da Renascença e do Iluminismo, inimigos que são da religião, é desonestidade, levantamento de falso testemunho e prestação de serviço à mentira. Não se pode pretender que a leitura correta do apocalipse deva se fundamentar nestas lorotas. Afinal, o anjo disse que, para entender os símbolos, é necessário uma inteligência penetrante, e não um caráter flatulante.

Fábio.
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