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Respondendo: A mística está acessível aos leigos?

Esquema feito por S. João da Cruz sobre a vida espiritual

Caro Fábio, primeiro gostaria de parabenizá-lo pelo excelente blog, principalmente pelos seus textos sobre mística. Lendo seu texto sobre a mística de São João da Cruz, surgiu-me uma dúvida, é possível viver esse caminho mesmo sendo leigo? Grato

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É uma ótima pergunta. Primeiramente agradeço os elogios ao nosso apostolado. Reze sempre por nós para que o façamos segundo a vontade de Deus.

Vamos lá.

De fato, isso tudo é mais "fácil" e mais comum para os religiosos e monges. E por quê? Porque eles podem se dedicar integralmente a todo esse mundo. Já dizia S. Paulo que os que vivem no século precisam se preocupar com os que estão à sua volta, como família, trabalho, etc. E isto tudo, embora justo e digno, pode e tende a distrair. No livro "O Diálogo", Deus Pai fala a Sta Catarina de Sena que o amor de um leigo, comparado ao de um religioso, deveria ser como um pedaço de gelo comparado a uma chama ardente. Isto nos mostra a diferença ideal entre a dedicação de um e a do outro. Porém, embora a gente possa falar de uma maior incidência de religiosos à vida mística, isto não é determinante.

Sta Teresa D'Avila diz que Deus pode levar a quem Ele bem queira ao cume da vida mística de um modo até rápido, embora não seja comum que Ele o faça. Neste ponto, S. João da Cruz se diferencia dela, pois para o Doutor da Noite, aquela gradação de que tratamos no outro post é uma regra da vida espiritual. Deus pode acelerar o processo, mas não "saltaria" os degraus. O ponto a que quero chegar aqui é este: se agradar a Deus que um leigo alcance tais alturas e, ao mesmo tempo, se o leigo se dispuser, de fato, ele o alcançará.

A vida mística, antes de estar destinada a religiosos, está ordenada à vida humana. Os estágios pelos quais alguém passa dizem respeito às nossas necessidades interiores. O que pode acontecer, porém, é que as purgações necessárias sejam dadas de um ou de outro modo, a depender do modo de vida da pessoa. Um contemplativo estrito terá muitas purgações interiores, por exemplo. Já alguém de vida ativa provavelmente sofrerá doloridas perseguições e abandonos. Mas tudo isto visa contribuir para que a alma se despoje da sua soberba e dos seus apegos. S. João da Cruz avisa, por exemplo, desde o momento em que um novo religioso adentra no convento: "considera que todas estas pessoas não foram postas aqui por Deus senão para te aperfeiçoar", e assim as dificuldades da vida comum também servirão de purgações, se forem vividas de um modo correto, com olhar sobrenatural.

Esta perspectiva se aproxima das afirmações de S. Josemaria Escrivá que pregava a possibilidade de sacralização de toda a vida ordinária, desde que vida digna. Veja só: aqui temos uma coisa interessante. Costumamos ver o convento ou mosteiro como o lugar estrito do Sagrado e o separamos do nosso cotidiano de leigos. No entanto, estes santos estão dizendo que, se tivermos um bom olhar, toda a nossa vida se torna chão consagrado de onde podemos, para usar a expressão de S. Josemaria, fazer transbordar a transcendência divina.

Então, sim! É possível atingir os auges da mística também na vida leiga embora, repito, isto seja menos comum, por causa das distrações e do comodismo geralmente não trabalhado. Veja sobre isso o que escreve S. João da Cruz:

"Se há tão poucos que chegam a tão alto estado, de perfeita união com Deus... não é porque Deus queira haja poucos desses espíritos elevados... mas é que acha poucos... que se disponham a operação tão alta e sublime". A maioria "foge ao trabalho, não querendo sujeitar-se ao menor desconsolo e mortificação", nem trabalhar com paciência perseverante. "Assim, (Deus) já não prossegue a obra de purificá-los pela abnegação e renúncia e levantá-los do pó da terra... Ó almas que quereis andar seguras e consoladas nas coisas do espírito! Se soubésseis quantos sofrimentos convém padecerdes para alcançar tal segurança e consolo... tomaríeis a cruz e, nela cravados, haveríeis de querer beber fel e vinagre puro, considerando-o grande ventura, ao verdes que, assim morrendo para o mundo e para vós mesmos, viveríeis para Deus, em deleites do espírito..."


Portanto, se Deus encontra generosidade por parte da alma, ela será por Ele lapidada e se tornará santa. Isto, porém, exige um grau cada vez maior de renúncia até o abandono total de si mesma. Por qualquer que seja a via, é algo bastante doloroso e exige uma Fé total. Faz parte do processo que a alma seja "cegada", isto é, que não veja para onde vai nem como vai. Diz o santo, porém, que é neste estágio que ela caminha mais ligeira, pois a sua cegueira é efeito da grande luminosidade na qual está inserida. O grande ponto da vida mística é a Fé. "O justo viverá por Fé", diz S. Paulo.

Agora, outra coisa: alguém que queira empreender este caminho, deve fazê-lo por amor a Deus. Se estiver movido de outros interesses, ou será purificado no meio do caminho, ou não encontrará o caminho. É como Moisés diante da Sarça Ardente a quem Deus ordena tirar as sandálias. A alma que quiser se achegar a Deus deve despojar-se de todas as intenções curvas. Já diz a Imitação que o coração puro abraça a Deus e a intenção reta o alcança. E diz Jesus: se os teus olhos forem puros - os olhos aqui simbolizam a intenção -, todo o teu ser estará na luz.

No que se refere à vida leiga, é preciso adquirir um profundo senso espiritual. Para isto, ajudam as práticas espirituais como a recitação constante de jaculatórias, sinais de devoção e a prática da presença de Deus, além de um devotado amor à Virgem Santíssima - sem Ela ninguém chega lá. O objetivo é dar-se conta de que a vida ordinária não está fora, mas dentro da vida espiritual que a abarca e a transcende.

Abraço.
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Dia de S. João da Cruz - A Mística Sanjuanista


Hoje a Santa Igreja celebra a festa de S. João da Cruz. Graças a Deus este santo começa a ser um pouco melhor conhecido, mas, ainda, somente por algumas frases soltas. Toda a pujança da sua mística infelizmente ainda é ignorada pela maioria das pessoas. Não é ocioso dizer que S. João da Cruz é a maior autoridade mística da Igreja. Se, portanto, queremos entender corretamente a espiritualidade católica, faremos muito bem se recorrermos a ele, como dizia Sta Edith Stein. Quero tentar fazer uma sucinta exposição, muito geral, sobre a mística de S. João.

No início da vida espiritual, está o batismo. Sem batismo não há, rigorosamente falando, vida espiritual. É preciso nascer de novo, como diz Jesus a Nicodemos. E isto se efetua no batismo. É aí onde recebemos a Graça Santificante que apagará de nós o Pecado Original e nos restabelecerá na amizade divina. Devemos entender que isto não é apenas uma teoria, mas a mais absoluta e rigorosa verdade. Em seguida, devemos, a partir de uma boa educação religiosa, passar a uma contínua e gradativa generosidade aos apelos interiores da Graça, sempre recorrendo ao Sacramento da Confissão quando acontecer de cairmos em pecado mortal.

A imensa maioria dos ditos católicos caminha totalmente desavisada da importância da Graça e comete disparates inconscientes, como a sacrílega comunhão no estado de pecado mortal. Uma minoria, porém, conhece este ponto e se preserva desses erros; caminha em Graça e se confessa regularmente. Além destas duas classes de católicos, pouca gente sobra. Para que entendamos a mística de S. João da Cruz, é preciso compreender que ser batizado, ser católico e estar em graça são os grandes pressupostos da autêntica vida em Deus.

Não é à toa que S. João da Cruz é tão desconhecido da nossa época. Um mundo que reputa a cruz às paredes e que, na prática, vive a ansiar por recursos financeiros e benefícios físicos e afetivos, não entenderá e sequer se interessará por seu caminho. Ele mesmo já o afirmara desde o início, dizendo que sua doutrina seria seguida por poucos, pois a maioria de nós está a desejar caminhos suaves e recompensas antecipadas. Queiramos ou não, muitos católicos vivemos ainda numa certa lei da barganha, no que Deus Pai, nos diálogos de Sta Catarina de Sena, chamava de "amor mercenário".

O caminho do nosso santo é o da nudez do espírito, da vitória sobre todo egoísmo e do abraço apaixonado na Cruz de Nosso Senhor. E isto somente se faz por um contínuo e desconfortável esvaziamento de nós mesmos, que ele descreve pormenorizada e sistematicamente.

Primeiramente, é preciso que nos decidamos por uma mortificação contínua e metódica. Porque vivemos presos aos confortos dos sentidos, a nossa alma caminha sonolenta e doente. Para despertá-la e dar-lhe a conhecer as belezas da vida espiritual, é preciso iniciar o ataque à soberba, que se manifesta de mil modos, a fim de que a alma recobre saúde. Isto se faz pela mortificação séria e firme, o que S. João da Cruz chamará de "Noite dos Sentidos". É chamada de "noite" porque é uma via ativa de privação das luzes dos sentidos. É "ativa" porque é produto da vontade firme e resoluta. Deste modo, ele recomenda ir tirando impiedosamente todos os atrativos sensíveis com os quais desejamos nos distrair. E isto referente aos cinco sentidos: não querer ver novidades nem atrativos; não querer ouvir conversas nem músicas agradáveis; não querer tocar doces texturas nem buscar o conforto do corpo; não querer comer coisas saborosas nem rejeitar o que não agrada ao paladar; não desejar sentir doces fragrâncias e evitar quaisquer outras delícias sensíveis. Quando isto é observado com rigor por algum tempo, a alma adquire uma vivacidade já bastante considerável.

Inicia-se, então, a famosa "Noite do Espírito" que é mais densa e mais dolorosa. Porém, tendo passado pela dos sentidos, a alma de algum modo saberá como agir nesta outra, ainda que o senso de desorientação seja muito típico deste estágio. Em que consiste a Noite do Espírito? Mortificados os apetites físicos, agora é a vez de fazer o mesmo com os apetites interiores. Esta noite possui uma parte ativa, isto é, que é produto dos esforços do sujeito; e uma passiva, onde Deus a leva por caminhos sensivelmente dolorosos a fim de purificá-la de si mesma. O ponto aqui é renunciar os desejos de satisfação espiritual, sejam os de natureza intelectual, sejam os referentes aos gostos e luzes provenientes das orações. Deus quer a alma totalmente vazia de si mesma. Isto é absolutamente fundamental para que seja levado a termo o processo de santificação que ele quer operar em nós. Do ponto de vista da sensibilidade, porém, é algo extremamente doloroso e difícil. Quando Deus vê que já nos renunciamos suficientemente, Ele mesmo passa a trabalhar na alma que, então, se torna totalmente passiva nas Suas mãos. A alma, no entanto, nada percebe da ação divina. Sente-se cega, perdida, desorientada, sem saber o que fazer e sem ter quem lhe entenda. Somente pode esperar em Deus, mas, mesmo aí ela não encontra sequer um vislumbre de luz. É a parte mais escura da noite. Ao mesmo tempo em que se vê totalmente isenta de qualquer prazer interior e desamparada, Deus ainda lhe concede um conhecimento muito profundo de si mesma, o que lhe causa imensa dor. Vê que nada sabe, que nada pode fazer por si só e, pior, que é ruim, mesquinha e que, até aquele momento, tudo quanto tinha feito de nada valeu, pois estava tudo profundamente eivado de orgulho e vaidade.

A coisa chega a tal extremo que a alma se vê a um passo do inferno e entende que o fato de Deus esquecê-la e jogá-la lá seria algo de muito justo. Se ela tenta rezar, não consegue. Se lê livros espirituais, de nada lhe servem. Neste processo, que Sta Teresa D'Avila afirma ser somente comparado às penas do inferno, a soberba vai sendo expulsa e a alma vai se tornando generosa e delicada para que, então, possa suportar os toques suaves do amor divino. Por enquanto, ela não os aguentaria. Isso tudo chega, então, a um ápice de dor e de trevas, onde o sujeito se vê abandonado por Deus e por todas as criaturas; a verdade é que ele está a passar pelo que Jesus passou na Cruz. Tal dor, dirão os santos, está reservada para os amigos íntimos do Cristo. Por esta dor, acontece o que se costuma chamar de "morte mística". As potências da alma passam por um processo doloroso de destruição, ressurreição e divinização. Quando se dá a morte mística, logo em seguida ocorre a "ressurreição mística". "Se a semente não morrer, não produz fruto", diz Jesus. E ainda: "Quem quiser me seguir, negue-se a si mesmo". Dizia Bernanos que Jesus está a esperar por cada um de nós depois da linha da negação total de nós mesmos. Esta negação total acontece neste momento. E, de repente, um raio de luz incide sobre as trevas da alma e as dissipa, revelando aos seus olhos os imensos tesouros que lhe foram colocados no doloroso caminho purgativo que ela traçou. Agora não há mais risco em mostrar-lhe isto, pois a vaidade, como um pus, foi espremida dela e já não a contamina.

A alma vê-se em posse de um amor extremamente violento por Deus, um amor que lhe levaria a fazer qualquer coisa por Ele e, neste estado, o que lhe causa sofrimento é ver que todas as dores do mundo são pequenas diante da sua disposição de sofrer pelo Amado. Agora, ela chama a Jesus de Amado com propriedade e aguda consciência do que isto significa, pois, de fato, ela O ama. Acabou-se a via purgativa e tem início a vida mística.

Esta vida mística se divide em mais três partes. A primeira, é esta que sucede exatamente a ressurreição espiritual. Aquela que sofreu tanto, agora se vê libertada e solta a recrear-se. 

Escreve o santo: "livre de todas as perturbações e inconstâncias temporais, despida e purificada das imperfeições das penas e da escuridão, tanto nos sentidos como no espírito, ela sente uma nova primavera com liberdade, amplidão e alegria de espírito."

Sem saber exatamente como, ela se vê profundamente configurada com o Cristo. Neste sentido, escreveu S. João: "oh noite mais feliz que a alvorada; oh noite que juntaste Amado com amada, amada já no Amado transformada"; e ainda: "Tu, ó vida divina, nunca matas senão para dar vida... quando castigas, tocas levemente, e isto basta para consumir o mundo inteiro; mas quando regalas, tu o fazes com toda a atenção e assim os regalos de tua doçura são inumeráveis. Feriste-me para curar-me, ó divina mão! Mataste em mim o que me deixava longe, debaixo da árvore da morte, sem a vida de Deus na qual agora vivo. Foi o que realizaste com a liberalidade de tua generosa graça, que me comunicaste ao tocar-me com o toque do resplendor de tua glória e figura de tua substância, que é teu Filho Unigênito."

Neste estado, a alma já é bastante santa e Deus passa a dar-lhe formações infusas, isto é, interiores, de modo que ela aprende muito em pouquíssimo tempo. Apenas alguns pouco segundos e ela entende profundamente algo que, em anos de intensa teologia, ela compreenderia somente de modo superficial. Os conteúdos nos quais Deus lha ensina são os da Sua Incarnação e Redenção, isto é, o mistério da Kenose, do rebaixamento divino e a Sua assunção da natureza humana, e o profundíssimo mistério da Cruz.

Daí a pouco, ocorre o segundo estágio: o do noivado espiritual. Jesus se mostra à alma, mas ainda não inteiramente. Ela O vê, mas, em seguida, Ele volta a esconder-Se. Isto faz com que o amor da alma cresça tanto a ponto de tornar-se um tormento para ela. Em alguns momentos, ela anseia tanto por Ele que, se Ele não cede à sua vontade, ela de certo morrerá literalmente. Jesus aí se comporta como um cervozinho que, na floresta, com notável agilidade, aparece aos olhos do caçador para, logo em seguida, sumir-lhe da mira.

Se isto perdura e a alma mantém sua fidelidade - o que é um tanto difícil de não se dar, visto que ela tenderá a sentir profundo desprezo e asco pelo que desagrade ao Seu Amado -, chegará o felicíssimo estado do "Matrimônio Místico", o último grau de santidade possível neste mundo. Jesus aparece para a alma e, então, se une inteiramente a ela, com comunhão total de bens. Notável é a descrição que deste momento faz Sta Teresa D'Avila. Escreve ela, mais ou menos o seguinte (escrevo com minhas palavras): "Apareceu-me Jesus, enquanto eu estava na fila da comunhão, e a mim se dirigiu: 'até hoje não o tinhas recebido por não seres digna. Hoje, porém, tomo tua mão e te desposo. És minha esposa e tudo o que é teu, é meu; igualmente, tudo quanto é meu, é teu. De hoje em diante, podes pedir a meu Pai todas as minhas dores e Ele tas dará como se fossem coisa tua."

Matrimônio Místico de Sta Catarina de Sena


Ocorre ainda o que se chama de "inocência readquirida", isto é, a inocência do Adão anterior à queda é devolvida à alma e isto significa um certo desconhecimento do mal, de modo que, ainda que ela veja algo ruim, não o entenderá. A esta altura, tudo o que separa esta vida da outra se assemelha a uma frágil tela e o que a alma mais anseia é que seja rasgada impetuosamente. Escreve S. João: "Já não és mais esquiva; acaba já, se queres. Rompe a tela deste doce abraço". Neste desposório, a alma entende como a Árvore da Cruz é, na verdade, a árvore da vida. Se diante da árvore do Bem e do Mal, o homem separou-se de Deus, agora, na árvore da Cruz, ocorre este matrimônio. Sobre isto, escreve ainda S. João da Cruz: "Sob o pé da macieira, ali, comigo foste desposada; ali te dei a mão, e foste renovada, onde a primeira mãe foi violada" e explica: [isto acontece] "Sob a graça da árvore da cruz, simbolizada aqui pela macieira, onde o Filho de Deus remiu, e, consequentemente, desposou consigo a natureza humana, e, portanto, cada alma, concedendo-lhe sua graça e penhores, para este fim, na cruz."

Paro por aqui. Desejo apenas dar um gostinho para despertar maior interesse por este colosso da espiritualidade e da mística. Os estágios estão aqui descritos de maneira muito rápida e superficial. Eles são muito mais detalhados, ricos e cheios de sutilezas. Diferente de toda enganação e pura retórica, o que se vê em S. João da Cruz é uma profundíssima doutrina mística, secundada na própria vida do santo, seguida com rigor e que, não obstante sua incomparável riqueza, apenas plana pelo caminho, visto que a vida mística é irredutível a qualquer descrição.

Neste dia de nosso pai, S. João da Cruz, peçamos que ele interceda por nós, que andamos tão desorientados ao sabor de tantas doutrinas, para que Jesus nos conduza de volta à via única da Santa Cruz.

S. João da Cruz, rogai por nós.

Autocomplacência - Sinal de Estagnação Espiritual


"Quantas vezes o guia espiritual, ouvindo almas religiosas aparentemente admiráveis, se entristece e fica atônito pelo sentimento de que diante dele se encontra um muro de auto-suficiência, vaidade e inconsciente auto-satisfação, reforçado de "frases feitas" banais, plagiadas de piedosos autores, muro inteiramente preparado a resistir a toda e qualquer penetração da humildade e da verdade. Seu coração se contrai, é tomado por um sentimento de inutilidade da coisa, de que não há jeito de destruir essa armadura e libertar a verdadeira pessoa enterrada e presa debaixo dessa falsa fachada. A autocomplacência habitual é quase sempre um sinal de estagnação espiritual. Os complacentes não experimentam nenhuma necessidade urgente do auxílio de Deus, não têm consciência real da sua indigência. A meditação desses é confortável, reconfortante e inconcludente. Sua oração mental degenera rapidamente em distrações, castelos no ar ou sono indisfarçado. Por essa razão, as provações e tentações podem ser uma verdadeira bênção na vida de oração. Simplesmente porque nos forçam a orar. Quando começamos a descobrir a necessidade que temos de Deus, é que aprendemos pela primeira vez como, realmente, meditar."

Thomas Merton, Direção Espiritual e Meditação

Meditação: Do pecado mortal


Sto Afonso Maria de Ligório

Considera como, sendo tu criado por Deus para amar, com ingratidão infernal te rebelastes contra ele, trataste-o como inimigo, desprezastes a sua graça e a sua amizade. Sabias que lhe davas um grande desgosto com a aquele pecado, e ainda assim o cometestes. Quem peca, que faz? Volta as costas a Deus, perde-lhe o respeito, levanta a mão para dar-lhe uma bofetada, aflige o coração de Deus: Et afflixerunt Spiritum Sanctum eius. Quem peca diz a Deus com suas obras: afasta-te de mim, não quero obedecer, não quero servir-te, não quero reconhecer-te por meu Senhor, não quero ter-te por meu Deus: o meu deus é este prazer, este interesse, esta vingança.

Assim o disssestes no teu coração, quando preferistes a criatura ao teu Deus. Santa Maria Madalena Pazzi não podia compreender como um cristão, a olhos abertos, pudesse cometer um pecado mortal. E tu, que nisto meditas, que dizes…? Quantos pecados, tens tu cometido…? Meu Deus perdoai-me, tende piedade de mim. Ofendi-vos, Bondade Infinita: agora odeio os meus pecados, amo-vos, e arrependo-me de vos ter ofendido tanto, ó meu Deus, que sois digno de infinito amor.

Considera como Deus te dizia, quando pecavas: Filho, eu sou o Deus que te criei do nada e que te resgatei com o meu sangue; proíbo-te de cometeres este pecado sob pena de te separares da minha graça. Porém tu, pecando, dissestes a Deus, Senhor quero satisfazer este gosto e não me importa desagradar-vos e perder a vossa graça. Dixisti: non serviam. Ah, meu Deus, e eu tenho feito isto tantas vezes! Como me tendes suportado? Quem me dera ter antes morrido do que vos ter ofendido! Eu não quero mais desgostar-vos; quero amar-vos, ó Bondade infinita. Concedei-me o dom da perseverança e vosso santo amor.

Considera como Deus, segundo os seus imperscrutáveis decretos, não costuma suportar em todos um igual número de pecados, nas a uns tolera mais, a outros menos, e quando está cheia aquela medida, lança mão de terribilíssimos castigos. E, com efeito, tantas vezes sucede vir a morte tão improvisamente, que o pecador não tem tempo de se preparar! Quantos morrem na própria ocasião de pecado! Quantas vezes uma pessoa se deitou no leito com boa saúde, e de manhã apareceu um frio cadáver! Quantos outros, à força de cometerem pecados sobre pecados, de tal modo se cegaram e endureceram, que, tendo todos os meios para se prepararem para uma boa morte, não querem se aproveitar deles, e morrem impenitentes! Enquanto o pecador vive, pode, se o quer deveras, converter-se com o divino auxílio; porém muitas vezes os pecados o tornam tão obstinados, que não desperta nem sequer na hora da morte. E assim se têm perdido tantos… E estes também esperavam que Deus lhes perdoasse, mas veio a morte, e condenaram-se… Teme que te aconteça o mesmo. Não merece misericórdia aquele que quer servir-se da bondade de Deus para ofendê-lo. Depois de tantos e tão graves pecados que Deus te perdoou, deves ter bem fundado temor de que te não perdoe qualquer outro pecado mortal que cometas.

Dá-lhe graças de te ter esperado até agora, e toma neste ponto uma resolução de antes morrer do que cometer outro pecado. De hoje em diante repetirás sempre: Senhor, bastam as ofensas que tenho cometido até agora. A vida que me resta não quero passá-la a ofender-vos; não, que vós não o mereceis; quero passá-la só a amar-vos e a chorar as ofensas que tenho feito. Arrependo-me de todo o meu coração. Meu Jesus, quero amar-vos, daí-me força; Maria, minha Mãe, ajudai-me.

Fruto:

Medita sobre estas palavras: sempre, nunca, eternidade.

O inferno dura sempre, a eternidade não acaba nunca. Toma um punhado de cinzas ou de areia lá contigo: Quando tiveres passado tantos milhões de séculos quantos são estes pequeninos grãos, não terá passado da eternidade um só momento. Quando puderes, considera, que grande mal seria este ou aquele trabalho, se não acabasse nunca, e não há dúvida que as penas do inferno nunca acabarão. Considera bem isto.

Fonte: Deus Lo Vult

Não se pode comungar estando em pecado mortal

Jesus e Judas. Filme "Jesus de Nazaré" de Franco Zeffirelii

Nesta postagem, quero tratar de um dos assuntos mais sérios do catolicismo atual. Hoje raramente se ouve por parte dos padres um discurso claro sobre o que seja a Graça, sobre o que sejam os pecados mortais, sobre os nefastos efeitos destes na alma e sobre como os que perderam a Graça, isto é, os que contraíram pecado mortal, estão impedidos de Comungar.

Como os fiéis não possuem o hábito de estudar por si mesmos, ficam então totalmente dependentes das fraquíssimas e muitas vezes equivocadas catequeses que recebem nas homilias e, diante disto, não adquirem o mínimo conhecimento para discernirem se estão ou não em Graça. O resultado disto é que raramente se confessam e que, em toda a Missa, consideram a coisa mais natural do mundo o ato de levantar do lugar e de adentrar na fila da Eucaristia. Porém, aquele que se aproxima deste Sacramento sem se examinar e estando em Pecado Mortal comete um sacrilégio, que é um pecado gravíssimo como nenhum outro! Mais grave que o de Judas, que o de Herodes e que o dos que crucificaram Nosso Senhor. Estas são comparações que não são feitas por mim, mas pelos santos, como Sto Agostinho, S. João Crisóstomo, etc. Mas já que não há qualquer esclarecimento por parte dos padres a este respeito, este terrível pecado é cometido muito frequentemente. É óbvio que os sacerdotes não têm como dar conta de todos os católicos e sondar-lhes o estado d'alma. Porém, uma boa catequese em que se abordasse este tema serviria para orientar os fiéis e diminuir substancialmente a quantidade de ultrajes feitos a Jesus.

Quem está em pecado mortal não pode comungar. E por quê? Porque não possui a virtude teologal da caridade. É esta virtude a garantia de ter a alma em amizade com Deus. Quem não a possui, não possui o vínculo espiritual necessário para receber o Corpo do Senhor e faz muito bem em abster-se. O ato de não se aproximar da Eucaristia devido à consciência da própria condição é, já, um ato de Fé. Portanto, a fim de não contrair este pecado gravíssimo e de não ofender a Nosso Senhor, mais do que Ele já está ofendido, fiquemos sempre atentos a este respeito e, à medida do possível, esclareçamos os demais. É importante que o católico faça frequentemente o exame de consciência - se possível diariamente, pouco antes de dormir - e que tenha também o hábito de confessar-se em um prazo preestabelecido, ainda que, chegado o dia da confissão, não esteja consciente de ter pecado gravemente. - Sobre isso, o ideal mesmo é que a confissão seja semanal - É deste modo que seremos bons católicos e permitiremos à Graça de Deus dilatar-nos a alma, destruir-nos os vícios, aumentar-nos as virtudes e nos mover segundo a santíssima vontade divina.

Portanto, aquele que pecou gravemente, não comungue antes de confessar-se. Se ousar fazê-lo, estará cometendo sacrilégio. Que Deus nos livre de tão pesado e grave pecado. Que a Virgem Maria imprima sempre em nossas almas o amor à pureza e as disposições de que ela mesma estava animada quando recebeu Jesus em seu ventre. 

Fábio.

Nós queremos o que Ele quer



Nós queremos realmente o que Ele quer, queremos verdadeiramente, sem o saber, as dores, os sofrimentos, a solidão, embora imaginemos querer só os prazeres. Imaginamos temer a morte e fugir dela, quando na realidade queremos esta morte como Ele quis a Sua. Assim como Ele Se sacrifica em cada altar onde se celebra a Missa, Ele recomeça a morrer em cada homem em agonia. Queremos tudo o que Ele quer, mas não sabemos que o queremos, nós não nos conhecemos, o pecado faz-nos viver à superfície de nós mesmos, só voltaremos a nós para morrer, e é ali que Ele nos aguarda.

Georges Bernanos, Tunísia, 1948

Perigo que nasce das evasões e subterfúgios usados pelo amor próprio


Por exemplo, a oração mental se vicia pelo excessivo desejo de consolações sensíveis, pela gula espiritual, pelo sentimentalismo. O sentimentalismo é, na sensibilidade, uma afetação de amor de Deus e do próximo que não existe suficientemente na vontade espiritual. Então, a alma procura a si mesma mais que a Deus. Donde, para tirar a alma desta imperfeição, Deus purifica a alma pela aridez da sensibilidade.

Se, verdadeiramente, a alma nesta aridez não é suficientemente generosa, cai na preguiça espiritual, na tepidez e não mais tende suficientemente à perfeição.

Igualmente, pelo amor desordenado de si mesmo se vicia o labor intelectual ou apostólico, pois nele buscamos satisfação pessoal, buscamos o louvor, mais do que Deus ou a salvação das almas. Assim, o pregador pode tornar-se estéril «como um bronze que soa ou um címbalo que tine». A alma se retarda, não é mais iniciante, não avança ao estado dos aproveitados, permanece uma alma retardada, como um menino que, por não crescer, não permanece menino, nem se faz adolescente ou um adulto normal, mas um homúnculo deforme. Ocorre algo similar na ordem espiritual e isto provém do amor próprio desordenado, do qual nasce a esterilidade da vida.

Pe. Garrigou Lagrange

Fonte: Permanência

Dia de Sta Teresa D'Avila - O Perdão às Ofensas e o Engodo das Honras.


Com esse Alimento celestial - a Eucaristia -, nosso bom Mestre viu que tudo se nos tornava fácil, a não ser por nossa culpa, e poderíamos muito bem cumprir o que dissemos a seu Pai: Seja feita a vossa vontade.

Continuando a oração, que nos está ensinando, agora o bom Jesus pede nos perdoe nossas ofensas, como também nós perdoamos aos que nos têm ofendido, e diz estas palavras: E perdoai-nos, Senhor, as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido.

Reparai, irmãs, que não diz: "Como perdoaremos". É para nos dar a entender que deve ser fato consumado. Quem pede uma dádiva tão grande como o Pão do céu, quem submeteu sua vontade ao querer divino, já perdoou tudo. E assim diz: "Como nós perdoamos", no passado.

Fique, pois, bem claro: quem sinceramente tiver dito ao Senhor: Faça-se a vossa vontade, há de ter perdoado tudo, ou ao menos, estar resolvido a fazê-lo. Por esse motivo, os santos alegravam-se com as injúrias e perseguições. Tinham algo para oferecer ao Senhor quando se apresentassem para lhe pedir perdão das ofensas cometidas contra ele.

Uma graça tão imensa e de tanta importância, como é perdoar-nos o Senhor nossas culpas, merecedoras do fogo eterno, nos é concedida a troco de tão pouca coisa como é perdoarmos também nós.

Mas, Senhor, gratuitamente me haveis de perdoar, porque tenho tão poucos desses atos insignificantes a oferecer! Aqui vossa misericórdia acha campo! Bendito sejais vós por me suportardes, a mim criatura tão pobre!

Mas, Senhor meu, será que há outras pessoas nas mesmas condições que eu e que não tenham compreendido esta verdade? Se as há, em vosso nome lhes suplico, que se lembrem desta realidade e não façam caso de umas miseriazinhas a que chamam ofensas. Até parece que, como crianças fazemos choças de palhinhas com esses pontos de honra.

Valha-me Deus, irmãs! Se soubéssemos que coisa é honra e o que é perder a honra! Agora não me refiro a vós, pois seria muito triste se já não tivésseis entendido. Refiro-me a mim, no tempo em que prezava a honra, sem entender que coisa era. Ia com os outros. Em quantas pequeninas coisas sentia-me ofendida! Agora me envergonho.

Como falou bem quem disse que honra e proveito espiritual não combinam! Todavia, não sei se o disse a esse propósito. Mas assim é ao pé da letra. Proveito da alma e aquilo a que o mundo chama honra jamais se unem. É de pasmar ver quanto o mundo anda às avessas. Bendito seja o Senhor que nos tirou dele. (...)

Praza a Deus não se condene uma alma por ter guardado esses negros pontos de honra, sem entender em que consiste a verdadeira honra!

E, depois, temos a ousadia de pensar que fizemos muito, quando perdoamos um nadinha qualquer, que nem era ofensa, nem injúria, nem coisa alguma. Como se tivéssemos feito uma proeza, muito convencidas, diremos ao Senhor que nos perdoe, porque temos perdoado! Fazei-nos, meu Deus, compreender que não nos conhecemos e que nos apresentamos diante de vós com as mãos vazias. Perdoai-nos, por vossa misericórdia!

Na verdade, Senhor, todas as coisas acabam e o castigo é eterno. Não vejo obra alguma digna de vos ser apresentada em troca da imensa graça do perdão por vós concedida. Só o podeis fazer em atenção ao vosso Filho que vos pede perdão por nós.

Mas quão apreciado deve ser pelo Senhor este amor recíproco! O bom Jesus bem pudera apresentar a seu pai outras obras e dizer-lhe: "Perdoai-nos, Senhor, porque fazemos austera penitência, ou porque rezamos muito e jejuamos, deixamos tudo por vós e muito vos amamos". Não alega ainda: "Porque daríamos a vida por vós", nem outros possíveis encarecimentos, senão somente: porque perdoamos.

Ele sabe que somos amigos desta negra honra. Por ser a coisa mais difícil de obter de nós e a mais agradável a seu Pai, oferece-a o Senhor, de nossa parte, apresentando-a para alcançar o perdão.

Verificai bem, irmãs, o que diz o bom Jesus: assim como nós perdoamos. Fala como de coisa já feita. Prestai grande atenção a este ponto. Ao sair desta oração, em que a alma recebe de Deus grandes graças na contemplação perfeita, examinai bem se ela está muito resolvida a perdoar e, quando surge a ocasião, se de fato ela perdoa qualquer injúria, por grave que seja - e não certas ninharias que chamam injúrias. Do contrário, não há que fiar de sua oração."

Sta Teresa D'Avila, Caminho de Perfeição

Dia do Pai Seráfico, São Francisco de Assis


"São Francisco era magro, pequeno e vivaz - fino como um cordel, vibrante como a corda de um arco, e, nos seus movimentos, semelhante a uma flecha disparada. A vida toda ele foi um conjunto de mergulhos e de fugas: correndo atrás do mendigo, ou nu pela floresta, atirando-se para o estranho navio, ou se arremessando para a tenda do sultão e propondo atirar-se ao fogo. Exteriormente, deve ter-se assemelhado ao esqueleto muito fino e amarelado de uma folha outonal, a dançar eternamente adiante do vento; em verdade, porém, ele é que era o vento.

G.K. Chesterton, Biografia de Sto Tomás de Aquino.

Dia de Sta Teresinha, a Gigante Pequenina


Hoje é dia de Sta Teresinha de Lisieux. Dias atrás eu terminava a leitura da sua biografia, o que me causou viva impressão. Muito embora eu esteja, sobretudo hoje, sem tempo de escrever um texto mais elaborado sobre esta grande santa e doutora da Igreja, não poderia deixar que este dia passasse sem que eu fizesse qualquer referência a esta "gigante pequenina", a grande difusora da Pequena Via.

***

Santa Teresa do Menino Jesus, Virgem e Doutora da Igreja

Discreta e silenciosa, durante a vida quase não chamou a atenção sobre si.

Parecia uma freira comum, sem nada de excepcional. Faleceu aos 24 anos, tuberculosa, depois de passar por terríveis sofrimentos. Enquanto agonizava, ouviu duas freiras comentarem entre si, do lado de fora de sua cela:

"Coitada da Irmã Teresa! Ela não fez nada na vida... O que nossa Madre poderá escrever sobre ela, na circular em que dará aos outros conventos a notícia da sua morte?" Assim viveu Santa Teresinha, desconhecida até mesmo das freiras que com ela compartilhavam a clausura do Carmelo. Somente depois de morta seus escritos e seus milagres revelariam ao mundo inteiro a verdadeira envergadura da grande Santa e Mestra da espiritualidade. A jovem e humilde carmelita que abriu, na espiritualidade católica, um caminho novo para atingir a santidade (a célebre "Pequena Via"), foi declarada pelo Papa João Paulo II Doutora da Igreja.

Como se há de percorrer o caminho que leva à Fonte


"Lutai como fortes até morrer no combate. 
Não estais aqui para outra coisa, senão para pelejar"

Não vos espanteis das muitas coisas que é necessário considerar antes de iniciar esta viagem divina, caminho real para o céu. Indo por ele, ganha-se inestimável tesouro. Não é muito que, a nosso parecer, custe caro. Tempo virá em que se entenda como tudo é nada em comparação de tão grande prêmio.

Voltando agora aos que o querem seguir sem parar, até o fim, até chegar a beber desta água de vida, direi como se há de principiar.

Importa muito, e acima de tudo, uma grande e firme determinação de não parar até chegar à fonte de água viva, venha o que vier, suceda o que suceder, custe o que custar, murmure quem murmurar, quer chegue ao fim, quer morra no caminho, ou falte coragem para os sofrimentos que nele se encontram. Ainda que o mundo venha abaixo havemos de prosseguir. (...)

Por conseguinte, nada de temores. Nunca façais caso da opinião alheia. Olhai que não estamos em tempo de se dar crédito a todos, mas só aos que realmente se conformam à vida de Cristo. Procurai a limpeza de consciência e humildade, desprezo de todas as coisas do mundo e fé inabalável no que ensina a santa Madre igreja. Ficai seguros de estar no bom caminho. Deixai-vos de temores, repito, onde não há que recear. Se alguém procurar assustar-vos, declarai-lhe humildemente vosso caminho.

Sta Teresa D'Avila, Caminho de Perfeição

Nossa Senhora das Dores


Faze, ó Mãe, fonte de amor,
que eu sinta em mim tua dor,
para contigo chorar.

Faze arder meu coração,
partilhar tua paixão
e teu Jesus consolar.

E santa Mãe, por favor,
faze que as chagas do amor
em mim se venham gravar.

O que Jesus padeceu
venha a sofrer também eu,
causa de tanto penar.

Ó dá-me, enquanto viver,
com Jesus Cristo Sofrer,
contigo sempre chorar!

Quero ficar junto à cruz,
velar contigo a Jesus,
e o teu pranto enxugar.

Quando eu da terra partir,
para o céu possa subir,
e, então, contigo reinar.

(Hino das Laudes)

Fonte: Santa Igreja

A Via Real da Santa Cruz


A muitos parece dura esta frase do Salvador: "Renuncia a ti mesmo, toma a tua cruz e segue-me" (Lc 9,23). Porém, muito mais dura será aquela que Ele pronunciará no dia do juízo: "Apartai-vos de mim, malditos, ide para o fogo eterno" (Mt 25,41).

Aqueles que agora ouvem e praticam a palavra da cruz, não temerão então a sentença da eterna condenação.

"O sinal da cruz aparecerá no céu, quando o Senhor vier para julgar todos os povos" (ic. 24,30). Então todos os servos da Cruz que, durante a vida, se conformaram com o Crucificado, se aproximarão do divino Juiz com grande confiança.

Por que temes, pois, carregar a Cruz, pela qual se chega ao Reino? Na Cruz está a salvação, na Cruz está a vida, na Cruz a proteção contra os inimigos.

Da Cruz dimanam as suavidades celestes; na Cruz está a fortaleza da alma, a alegria do espírito. Na Cruz está a consumação da virtude, a perfeição da santidade. Não há salvação para a alma, nem esperança de vida eterna senão na Cruz. Toma, portanto, a tua Cruz, segue a Jesus e chegarás à vida eterna.

Ele foi adiante de ti, "carregando a sua Cruz" (Jo 19,7) e morreu nela por ti, para que tu leves também a tua e nela desejes morrer. "Porque se morreres com Ele, também com Ele viverás" (Rm 6,8). E se O acompanhares na dor, acompanhá-Lo-ás também na alegria.

Considera que tudo consiste em amar a cruz e em morrer nela. Para alcançar a vida e a verdadeira paz interior não há outro caminho a não ser o da santa Cruz e da mortificação quotidiana. Vai para onde quiseres, procura tudo o que desejares, não encontrarás caminho mais excelente para te elevares, nem mais seguro, para te abateres, sem perigo de cair, que o da santa Cruz.

Dispõe e ordena tudo segundo a tua vontade e o teu parecer, e encontrarás sempre alguma coisa que é necessário sofrer de boa ou má vontade; e, assim, sempre encontrarás a cruz. Com efeito, ou sentirás dores no corpo, ou suportarás tribulações no espírito.

Ora te sentirás oprimido pelo abandono de Deus, ora atormentado pelo próximo; e, o que ainda é pior, muitas vezes tornar-te-ás pesado a ti mesmo. Não encontrarás remédio nem conforto nas tuas penas; mas convém que suportes todos estes males até que agrade a Deus livrar-te deles.

Deus quer que aprendas a sofrer a dor sem consolação submetendo-te totalmente a Ele e tornando-te mais humilde com a tribulação. Ninguém sente tão intensamente a paixão de Jesus como aquele a quem já tocou sofrer qualquer coisa de semelhante.

A cruz, portanto, está sempre pronta e espera-te em toda a parte. Porquanto fujas não poderás nunca evitá-la; mesmo porque para onde quer que vás, pelo menos levarás contigo e terás sempre contigo a ti mesmo. Quer te voltes para cima ou para baixo, para fora ou para dentro, em toda a parte encontrarás sempre a cruz. É indispensável que sempre, e em toda a parte, tenhas paciência, se queres conservar a paz e merecer a coroa imortal.

Se, de boa vontade, levares a cruz, ela conduzir-te-á à almejada meta, onde não há mais sofrimento, ainda que isto não seja certamente cá na Terra. Se, pelo contrário, a levares de má vontade, aumentar-lhes-ás mais o peso, e irás mais carregado, pois é forçoso que a leves. Se te eximires duma cruz, encontrarás, certamente, outra talvez ainda mais pesada.

Como podes pensar em evitar aquilo que nenhum homem conseguiu até hoje? Qual Santo houve no mundo que tivesse vivido sem cruz e tribulação? Nem sequer Jesus Cristo, enquanto viveu na Terra, esteve uma hora sem padecer. "Era necessário - disse - que Cristo sofresse e ressuscitasse dos mortos e assim entrasse na Sua glória" (Lc 24,26).

Como, pois, procuras tu outro caminho que não seja o caminho real da Santa Cruz?

Toda a vida de Cristo foi cruel martírio, e tu queres que a tua seja descanso e alegria? Erras, enganas-te, se procuras outra coisa além do sofrimento e da dor; porque toda esta vida mortal está cheia de misérias e cercada de cruzes. E quanto mais progresso alguém fizer na vida espiritual, tanto mais pesadas cruzes encontrará, porque o amor torna o exílio cá na terra mais doloroso.

Porém, aquele que Deus prova com tantas penas, não está sem o alívio da consolação, porque sente que, sofrendo a sua cruz, lhe advém um grandíssimo acréscimo de mérito. Com efeito, quando de bom grado, a ela se sujeita, toda a acerbidade da pena se converte em confiança na consolação divina.

E, quanto mais a sua carne se sente esmagada pela dor, tanto mais o espírito se fortifica pela graça interior. Acontece até, por vezes, que é confortado de tal modo no seu estado de tribulação e contrariedade pelo amor que tem à conformidade com a Cruz de Cristo, que não quereria viver sem dores e adversidades porque está convencido de que será tanto mais agradável a Deus quanto mais numerosas penas sofrer por seu amor. Não é isto virtude humana, mas graça de Jesus Cristo, que tão grandes maravilhas opera na fraca carne humana, conduzindo-a ao ponto de lhe fazer aceitar e amar com fervor do espírito, aquilo que, naturalmente, evita e aborrece.

Não está de acordo com a natureza do homem levar a cruz, amar a cruz, castigar o corpo e reduzi-lo à escravidão, fugir das honras e sofrer, de bom grado, as injúrias, desprezar-se a si mesmo e desejar der desprezado, suportar as coisas mais adversas e danosas e não desejar nenhuma prosperidade neste mundo.

Se olhas para ti vês logo que só com as tuas forças não serás capaz de nenhuma destas coisas; mas, se confiares em Deus, receberás do Céu a força necessária, e o mundo e a carne ficarão sujeitos ao teu domínio. Mais ainda, não temerás sequer o inimigo infernal, se estiveres armado com o escudo da fé e marcado com o sinal da Cruz de Cristo.

Resolve-te, pois, como bom e fiel servo de Cristo, a levar, virilmente, a Cruz do teu Senhor, que Se deixou crucificar por teu amor. Prepara-te para enfrentar nesta miserável vida muitas adversidades e muitas angústias; eis o que te espera por onde quer que fores, eis o que encontrarás em qualquer lugar onde te encontrares.

Convém que assim seja: não há outro remédio para atenuar a dor e a tribulação dos males senão suportá-los com resignação. Bebe, pois, com amor o cálice do Senhor, se queres ser Seu amigo e partilhar com Ele da felicidade eterna. Quanto às consolações, deixa isso ao cuidado de Deus; Ele distribuí-las-á como melhor Lhe aprouver.

Tu, porém, revolve-te a suportar com paciência os sofrimentos e a olhá-los como consolações de grande valia; porque "todos os sofrimentos desta vida não têm proporção alguma com a glória que nos é prometida, e não poderias por eles merecê-las" (Rm ,18), mesmo que fosses só tu a suportá-los todos!

Quando tiveres chegado a este ponto, quer dizer, quando o sofrimento por amor de Cristo te parecer doce e gostoso, podes então considerar-te feliz, porque encontraste o paraíso na Terra. Mas enquanto o sofrimento te for molesto e procurares evitá-lo, crê que andas mal e o receio da tribulação irá contigo para onde quer que fores.

Se, pelo contrário, te decides a fazer o que deves, isto é, a sofrer e a morrer, tudo correrá melhor e encontrarás a paz. Recorda-te que, mesmo que tivesses sido arrebatado ao terceiro Céu como S. Paulo, não ficarias por isso livre do sofrimento. Jesus disse, com efeito: "Eu lhe farei ver quanto convém que ele sofra pelo meu Nome" (Ct 9,16). Se queres, pois, amar a Jesus e servi-Lo sempre, deves sofrer.

Oxalá fosses digno de sofrer alguma coisa pelo nome de Jesus Cristo! Que glória para ti! Quanta alegria para os Santos de Deus! Quanta edificação para o próximo! Com efeito, todos recomendam a paciência, ainda que poucos queiram exercitá-la! Com razão, portanto, deves querer sofrer alguma coisa por amor de Cristo, já que tantos sofrem coisas tão penosas por amor do mundo.

Tem por certo que a tua vida deve ser uma morte contínua e que, quanto mais um morre a si mesmo, tanto mais vive para Deus. Ninguém pode compreender as coisas celestes, se não se resigna a suportar por Cristo as adversidades. Nada é mais agradável a Deus, nem mais proveitoso para ti, neste mundo, do que sofrer, alegremente, por amor de Cristo.

E se te dessem a escolher, deverias antes desejar sofrer contrariedades por amor de Cristo do que ser inundado de consolações; porque, deste modo, serias mais semelhante a Jesus e mais parecido com os Santos. Com efeito, o nosso mérito e a perfeição do nosso estado não consiste em ter muitas suaves consolações, mas sim em saber suportar muitas dores e adversidades.

E, na verdade, se houvesse um método melhor e mais útil para a salvação dos homens que o sofrimento, certamente Cristo no-lo teria ensinado pela palavra e pelo exemplo. Pois, manifestamente, exorta os Seus discípulos e todos os que O querem seguir a que levem a sua cruz, dizendo: "Se alguém Me quer seguir, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-Me" (Mt 16,24).

Portanto, consideradas e examinadas todas as coisas, devemos concluir: "Importa passar por muitas tribulações para entrar no reino de Deus" (At 14,21).

Imitação de Cristo.

Quão poucos são os que amam a Cruz de Cristo


Jesus Cristo tem agora muitos que amam o Seu reino celeste, mas poucos que levam a Sua Cruz. Muitos desejam as Suas consolações, poucos amam as tribulações. Encontra numerosos companheiros da Sua mesa, poucos da Sua abstinência.

Todos desejam gozar com Ele, poucos querem sofrer qualquer coisa por Ele. Muitos seguem Jesus até ao momento em que parte o pão; poucos, porém, até beber o cálice da Paixão. Muitos admiram os Seus milagres, mas poucos abraçam a ignomínia da Cruz.

Muitos amam Jesus enquanto lhes não acontece qualquer desventura. Muitos louvam e bendizem Jesus enquanto recebem d'Ele algumas consolações. Porém, se Jesus Se oculta e por breve tempo os deixa sós, logo se queixam ou desanimam.

Pelo contrário, aqueles que amam a Jesus por Jesus e não por amor da própria consolação, sempre O bendizem, tanto nos períodos de angústia e tribulação como nos de inebriamento e consolação. E mesmo que Jesus lhes não concedesse nunca mais alegria alguma, não deixariam de O louvar e de Lhe agradecer.

Oh, quanto é poderoso o amor de Jesus, quanto é puro e sem mistura de interesse ou de amor próprio! Não se deveriam, com razão, chamar mercenários aqueles que estão sempre a procurar consolações? Não se deveria antes dizer que se amam a si e não a Cristo aqueles que sempre estão preocupados com o próprio interesse e bem estar? Onde se encontrará quem queira servir a Deus gratuitamente?

Raramente se encontra alguém tão espiritual que esteja desapegado de todas as coisas. Quem encontrará, pois, o verdadeiro pobre em espírito e desprendido completamente de todas as coisas criadas? "É um tesouro precioso que se deve procurar até aos confins da terra" (Pr 31,10).

"Ainda que o homem dê por ele tudo quanto possui, nada dá" (Ct 8,7)

Se fizer grandes penitências, ainda é pouco. Mesmo que adquira todas as ciências, ainda está longe. E se tiver grande virtude e ardentíssima devoção, ainda lhe falta a coisa mais necessária.

Qual é ela? Esta: que depois de ter deixado tudo, se deixe a si mesmo; que saia de si mesmo completamente sem conservar um fio sequer de amor próprio. E quando tiver feito o que devia fazer, reconheça que nada fez.

Não tenha em muito que o avaliem por grande, mas confesse com toda a sinceridade que é um servo inútil, como diz a Verdade: "Quando tiverdes feito tudo aquilo que vos foi ordenado, dizei: Somos servos inúteis" (Lc 17,10).

Só quando o homem chegar a este ponto, poderá chamar-se verdadeiro pobre de espírito e desapegado de tudo, e então poderá repetir como o Profeta: "Sou pobre e só" (Sl 24,16). Contudo, ninguém é mais rico, mais poderoso, mais livre do que aquele que sabe dsprender-se de si mesmo e de todas as coisas e colocar-se no último lugar.

Imitação de Cristo.

A Ciência da Cruz


"'Quão estreita é a porta e apertado o caminho que conduz à vida. Poucos são os que o encontram" (Mt 7,14) Devemos observar bem a ênfase dada à partícula 'quão', pois é como se dissesse 'na verdade é muito estreita, mais do que podeis imaginar...' Essa via ao alto monte da perfeição exige viajantes que não levem fardos que os façam pender para baixo... Já que se tem o propósito de somente buscar e alcançar a Deus, somente a ele se há de buscar e alcançar de fato! Instruindo-nos e incitando-nos nesse caminho, Jesus Cristo proferiu essa doutrina tão admirável e, receio dizer, tanto menos praticada pelas almas (que se sentem atraídas à vida espiritual) quanto mais necessária!

'Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me. Pois aquele que quiser salvar a sua vida, irá perdê-la; mas o que perder a sua vida por causa de mim e do evangelho, irá salvá-la'. (Mc 8,34)

Oh! Quem poderia aqui agora dar a entender, praticar e saborear este conselho!... aniquilação de toda a suavidade em Deus... aridez... tédio... sofrimentos... eis a pura cruz espiritual e a nudez do espírito pobre, segundo Jesus. O verdadeiro espírito antes procura em Deus a amargura que as delícias, prefere o sofrimento ao consolo, a privação ao gozo, a aridez e as aflições às doces comunicações celestes, sabendo que isto é seguir a Cristo e renunciar-se. Agir de outro modo é buscar-se a si mesmo em Deus, o que é muito contrário ao amor. Buscar a Deus nele mesmo... é inclinar-se a escolher, por amor a Cristo, tudo quanto há de mais áspero, seja de Deus, seja do mundo"1. A renúncia, segundo a vontade divina, consiste em "morrer para sua natureza... aniquilando-a... em tudo quanto a vontade julga ser valioso na ordem temporal, natural e espiritual... Quem assim tomar a cruz sobre si experimentará o jugo suave e o fardo leve, encontrando em todas as coisas grande alívio e suavidade... Quando a alma ficar desfeita em nada - isto é, a suprema humildade - estará realizada a união espiritual entre a alma e Deus... união que consiste numa viva morte de cruz, sensitiva e espiritual, interior e exterior"2.

Para tanto não há outro caminho, pois, segundo o plano divino da salvação, Cristo houve por "remir a alma e desposá-la consigo, servindo-se dos próprios meios que haviam causado a ruína e a corrupção da natureza humana; pois, assim como por meio da árvore proibida no paraíso, foi essa natureza estragada e perdida por Adão, assim na árvore da cruz foi remida e reparada"3. Se quiser partilhar com ele da vida, com ele deverá passar pela morte de cruz, e deverá como Cristo crucificar a própria natureza por uma vida de mortificação e renúncia, entregando-se à crucifixão pelos sofrimentos e pela morte, conforme Deus determinar e permitir. Quanto mais perfeita for a crucifixão ativa e passiva, tanto mais íntima será a união com o crucificado, e tanto maior será a participação na vida divina.

Eis os traços principais que caracterizam a ciência da cruz.

1- São João da Cruz, Subida, 1. II, cap. 7, §5
2- São João da Cruz, Subida, II, 7, §§7 a 11.
3- S. João da Cruz, Cântico Espiritual, Explicação da Canção XXIII

STEIN, Edith. A Ciência da Cruz. São Paulo: Loyola, 2004.

O ardor amoroso de Sta Teresinha


Ser tua esposa, ó Jesus, ser carmelita, ser mãe das almas pela união contigo, deveria ser bastante para mim... Mas, assim não acontece... Sem dúvida, as três prerrogativas constituem exatamente minha vocação: Carmelita, Esposa, e Mãe. Contudo, sinto em mim outras vocações. Sinto em mim a vocação de GUERREIRO, de SACERDOTE, de APÓSTOLO, de DOUTOR, e de MÁRTIR. Sinto, afinal, a necessidade, o desejo de realizar por ti, Jesus, todas as obras, as mais heróicas... Sinto na alma o arrojo de Cruzado, de Zuavo Pontifício. Desejaria morrer no campo de batalha pela defesa da Igreja...

Sinto em mim a vocação de SACERDOTE. Com que amor, ó meu Jesus, não te carregaria nas mãos, quando à minha voz descesses do Céu... Com que amor te não daria às alma!... Mas, que fazer? Com todo o desejo de ser sacerdote, admiro e invejo a humildade de São Francisco de Assis, e sinto a vocação de imitá-lo, quando recusou a sublime dignidade do sacerdócio.

Ó Jesus! meu amor, minha vida... como conciliar tais contrastes? Como tornar realidade os desejos de minha pobre alminha?...

Oh! apesar de minha pequenez, quisera esclarecer as almas, como os Profetas, os Doutores. Tenho vocação de ser Apóstola... Quisera percorrer a terra, apregoar teu nome, e chantar em terra de infiéis tua gloriosa Cruz. Mas, ó meu Bem-Amado, uma única missão não me seria bastante. Quisera anunciar, ao mesmo tempo, o Evangelho pelas cinco partes do mundo até as ilhas mais remotas... Quisera ser missionária não só por alguns anos, mas quisera sê-lo desde a criação do mundo, e sê-lo até a consumação dos séculos... Mas, acima de tudo, quisera, ó meu amado Salvador, por ti quisera derramar meu sangue até a última gota...

Martírio! eis o sonho de minha juventude! O sonho que cresceu comigo à sombra dos claustros do Carmelo... Aí, também, percebo que meu sonho é loucura, pois não conseguiria limitar-me a apetecer um só gênero de martírio... Para me satisfazer, precisaria de todos eles... Quisera, como tu, meu adorado Esposo, ser flagelada e crucificada... Como São Bartolomeu, quisera morrer esfolada... Como São João, quisera ser escaldada em azeite a ferver. Quisera submeter-me a todos os tormentos que se infligiam aos mártires... Com Santa Inês e Santa Cecília, quisera apresentar meu pescoço à espada, e, como Joana D'Arc, minha querida irmã, quisera sobre a fogueira murmurar teu nome, ó JESUS... Pensando nos tormentos que serão a sorte dos cristãos na era do Anticristo, sinto o coração alvoroçar-se, e quisera que tais tormentos me fossem reservados... Jesus, Jesus, quisesse escrever todos os meus desejos, ser-me-ia necessário pedir emprestado teu Livro da Vida, onde se relatam todos os feitos dos Santos, e quereria tê-los praticado por amor a ti...

Sta Teresinha de Lisieux, Carta à Irmã Maria do Sagrado Coração.

Jesus tem sede de amor


Eis aí tudo o que Jesus exige de nós. Não precisa de nossas obras, mas unicamente de nosso amor, pois o mesmo Deus [que] declara não ter necessidade de dizer-nos, quando está com fome, não se corre de mendigar um pouco de água à Samaritana. Tinha sede... Mas, quando disse: "dai-me de beber" (Jo 4,7), era o amor de sua pobre criatura que o Criador do Universo reclamava. Tinha sede de amor... Oh! sinto mais do que nunca, Jesus está com sede. Entre os discípulos do mundo, só encontra ingratos e indiferentes; entre seus próprios discípulos, infelizmente, só encontra poucos corações que a Ele se entreguem sem reserva, que compreendam toda a ternura de seu amor infinito.

Sta Teresinha de Lisieux, Carta à Irmã Maria do Sagrado Coração.
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