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Homilia de Santo Efrém sobre o Natal


Hoje, Maria, ao levar a divindade, se tornou para nós céu; e Cristo, sem deixar a glória paterna, se encerrou nos apertados limites do ventre materno, para exalçar os homens à dignidade mais elevada. Escolheu só esta Virgem, dentre todas as virgens, para instrumento de nossa salvação.

Nela se realizaram todos os vaticínios de todos os justos e profetas. Dela própria saiu aquele esplendidíssimo astro sob cuja guia o povo que andava em trevas viu grande luz. (Is 9,2)

De diversos nomes pode ser Maria acertadamente designada. E, com efeito, é ela o templo do filho de Deus que dela saiu de modo diverso do que entrou, pois no ventre entrara sem corpo e dele saíra revestido de nossa humanidade.

É ela o místico novo céu (Ap 21,1) em quem habitou, como em sua sede, o Rei dos reis, e donde baixou à terra, levando diante de si forma e semelhança terrenas. É ela a videira de frutificação de suave odor (Ecle 24,23), cujo fruto, embora diferente da natureza da árvore, dela devia ter tomado algo semelhante.

É ela a fonte que brota (Joel 3,18) da casa do Senhor da qual jorraram para os sedentos águas vivas que matarão a sede para sempre (Jo 4,13) de todo aquele que apenas com os lábios as tiver provado.

Erra, portanto, caríssimos, quem julga poder comparar-se o dia de hoje de reparação ao da criação! E, de fato, no princípio, a terra foi criada; hoje, foi renovada. No início, dado o crime de Adão, foi maldita por causa da obra dele (Gn 3,17); hoje, porém, a paz e a segurança lhe foi restituída. No início, pelo delito dos  primeiros pais, a morte passou a todos os homens (Rm 5,12); hoje, no entanto, por Maria, passamos da morte à vida (1Jo 3,14) No início, a serpente penetrou nos ouvidos de Eva, donde o veneno infeccionou todo o corpo: hoje, Maria deu ouvidos à afirmação da felicidade perpétua. O que, portanto, fora de morte passou a ser, ao mesmo tempo, instrumento de vida.

Aquele cujo trono assenta sobre os querubins (Sl 98,1) ei-lo sentado nos braços de uma mulher; aquele que o mundo todo não encerra, só Maria o abraça; aquele que os tronos e as dominações reverenciam, a donzela acaricia; aquele cuja sede se acha nos séculos dos séculos (Sl 44,7), eis que se senta nos joelhos virginais; a terra é escabelo de seus pés, tocando-a com as plantas dos pés infantis.

Ó feliz e afortunado Adão, que, ao nascer o Senhor, recobrou a honra e o esplendor perdidos! Felicíssimos mortais que, vasos de ira para a morte (Rm 9,22) lhe deram o revestimento da própria argila! Redirei felicíssimos aqueles a quem foi dado ver o fogo de nossos corações envolto em seus paninhos!

Tamanhas coisas fez Deus para corrigir a estultície de um só homem! Visto que o servo caíra pela própria soberba, o Senhor o levantara em sua humildade.

Demos, pois, irmãos caríssimos, graças a Deus Pai que, para remir servos, entregou o próprio Filho. Exaltemos igualmente a Jesus com os máximos louvores, pois curou com tanta felicidade as feridas dos homens. E, por fim, veneremos piamente o Espírito de ambos, que nos foi dado (Rm 5,5) para que tenhamos a vida e a tenhamos em abundância. (Jo 10,10)

Santo Efrém, Doutor da Igreja. Sermão III de diversis.

Dia de todos os santos - Idolatria ou Cristianismo autêntico?


Hoje, dia 01 de Novembro, a Igreja celebra o dia de todos os santos, e isso é suficiente para confirmar, aos olhos dos protestantes incautos, a idéia de que a Igreja católica é idólatra. O pior é que, nessa época profundamente protestantizada, esses receios terminam contaminando até mesmo um grande contingente de católicos. Não importa o quanto escrevamos ou formemos, em todo lugar onde se vai, há católicos sempre com as mesmas dúvidas: e as imagens?; e os santos?; e Jesus único mediador?, etc.

Pretendemos então nesse texto demonstrar - mais uma vez - que a idéia de existirem santos é algo intrínseco ao Cristianismo. 

Primeiramente, notemos que os primeiros cristãos se chamavam a si mesmos de santos: At 9,32; 26,10; Rm 16,2; Ef 4,12; 5,3; etc.

Tornar-se santo também é visto como um objetivo a ser alcançado: Ex 22,31; Lev 20,7; 1Cor 1,2. O próprio Cristo nos ordena ser santos como Deus é santo. (Mt 5,48; 1Pe 1,16).

Ora, se os primeiros cristãos se chamavam de santos e, ao mesmo tempo, ser santo é algo que o próprio Deus nos pede, a conclusão irrefutável é que é possível ser santo. Do contrário, todas essas coisas não fariam nenhum sentido. Pedro também nos diz que o propósito divino é fazer-nos participar da Sua natureza. (2Pe 1,4). A natureza divina é santa. Logo, devemos, para tomar parte nessa natureza, ser santos. O santo, então, seria aquele que conseguiu harmonizar a sua vida com o Evangelho.

Temos então, aqui, dois conceitos de santidade: o primeiro é o de que é algo que já possuímos; o segundo é o de que é uma meta, um fim a ser alcançado. No decorrer da história, o termo "santo" (hagios) começou a ficar mais reservado para indicar esta segunda acepção: santos são os que encerraram já a sua carreira nesta vida e conquistaram a beatitude (Apo 19,8).

Haveria, portanto, como o diz o livro de Hebreus, "uma grande nuvem de testemunhas no céu" (12,1), e o que o Apocalipse por sua vez descreve como "uma multidão" (19,1). Estes são os santos.

Então, primeiramente vejamos isso: a existência dos santos não contradiz a verdade de Deus como o único santo (Apo 15,4). Perceba que não há uma terceira via: ou entendemos isto ou temos de dizer que a Bíblia é contraditória. Como sabemos que ela não é, tertia non datur.

Isto entende-se assim: vimos acima que Pedro diz que devemos participar da natureza divina. Logo, devemos ter parte na santidade de Deus. Do mesmo modo, Jesus é a luz do mundo e, ao mesmo tempo, nos chama "luzes do mundo" porque participamos da Sua luz. A ninguém devemos chamar de Pai, diz Ele, mas, ao mesmo tempo, isso não proíbe que ninguém chame ao seu genitor de pai, pois este participa da paternidade única de Deus. A ninguém chameis mestres pois um só é Vosso mestre, ordenou Ele, mas o próprio Paulo diz que podemos ter vários mestres em Cristo, isto é, que participem do único mestrado de Cristo, etc. (1Cor 4,15). Portanto, não faz sentido cismar com a idéia de a Igreja chamar alguns homens de "santos".

Esta mesma lógica da participação resolve outra aparente contradição: Jesus é o único mediador (1Tim 2,5). Mas qualquer protestante, mesmo que inconsciente, trata o seu pastor mais próximo como mediador quando o pede para orar por si. A própria Bíblia torna-se mediadora na medida em que se coloca como liame entre nós e Deus, etc. Mediar é colocar-se no meio entre as partes, estabelecendo um contato entre elas. A negação dessas mediações secundárias é algo rejeitado pela Escritura e pela lógica mais básica. O que Paulo queria dizer aí é que não há mediação alternativa a Cristo. Ele é o único mediador absoluto. Mas, a partir do momento em que estamos n'Ele, tem início uma grande dinâmica espiritual em que todos nós nos tornamos partes do mesmo corpo e, como tal, podemos mediar-nos uns aos outros n'Ele. Esta mediação secundária não contradiz a d'Ele; pelo contrário, só se torna possível graças à d'Ele. A mediação secundária confirma a mediação única. Esta é a mediação dos santos.

Um santo não tem poderes nem autoridade alternativos e próprios. Tudo o que ele é se deve a Deus. Nada há nele que seja independente. O santo é uma pessoa que viveu visceralmente o Evangelho. Ele encarnou o Verbo nele mesmo, na própria alma, no próprio corpo, e consumiu a sua vida nisso. Ele foi aquela pessoa que fez pouco caso da própria vida para dedicar-se inteiramente ao seguimento do Cristo. Ele foi aquela pessoa que desprezou tudo quanto não é Deus, e gritou, não somente com a voz, mas com todo o seu ser: "Só Deus basta!". Não apenas o santo não é um estímulo à idolatria como ele mesmo é um impedimento à idolatria. Contemplar um santo é lembrar que as verdades do Evangelho são reais e que o Deus zeloso deve ser central na vida do homem. Contemplar um santo é reavivar em nós o sentido do Céu, da transcendência; é lembrar que não vivemos para esta "má noite", como dizia Sta Teresa D'Avila, nem para este "instante entre duas eternidades", como dizia Sta Teresinha. Contemplar um santo é entender que "o homem é o que é diante de Deus, e nada mais", como falava S. Francisco de Assis.

Os santos são irmãos que já conquistaram a coroa da vida. Estão no céu, com Deus. Desse modo, purificados inteiramente de quaisquer falhas e abrasados no amor divino, podem pedir por nós de modo mais perfeito e eficaz. Não hesitemos, então, pedir-lhes que rezem por nós e peçam a Deus que nos dê forças de vencer também. Neste dia de todos os santos, ergamos os olhos da alma a esta multidão que nos precede na glória e permitamos que algo daquela alegria inefável reforce a nossa esperança e nos dê ânimo, nesta época de trevas. Santos de Deus, nossos amigos e irmãos, nossos mestres em Cristo, roguem por nós! Que a Virgem Maria, Rainha de todos os santos, esteja sempre conosco conduzindo os nossos passos para que um dia também nós possamos gozar da contemplação da divina presença. Amém.

Dia de São Francisco de Assis, nosso Pai Seráfico.


Hoje, 4 de outubro de 2014, é dia de São Francisco de Assis, e, nesta época de crise generalizada, mesmo as grandes figuras da Igreja terminam sendo distorcidas e instrumentalizadas para fins ideológicos. Dentre estes, o que mais sofreu com deformações foi sem dúvida o Poverello.

Se o leitor é um católico comum, que aprende religião nos meios ordinários de catequeses e homilias, é quase que certo que você tem uma idéia equivocada de Francisco. Na verdade, ele não é um hippie. Também não é verdade que ele se opôs à dita pompa da Igreja. A oração comumente atribuída a ele - Senhor, fazei-me instrumento... - tampouco é dele. Também não tem muito sentido dizer que Francisco tinha preocupações ecológicas. O lobo de Gubbio também é um conto mítico, embora seja de fato belo, etc, etc.

Como se pode ver, Francisco não foi o que se conta. Essa imagem natureba e hiponga que fizeram dele é, na verdade, um constructo tão real quanto o Goku. Quem foi São Francisco, então?

Ele era mais duro do que se pensa, embora também fosse profundamento terno. Extremamente rigoroso com relação às regras e materiais litúrgicos; rigoroso também nas suas palavras e nos seus hábitos. Francisco acostumou-se a uma mortificação extrema, ao ponto de raramente comer algo que fosse considerado de fato aproveitável por uma pessoa moderna. Quando a comida era fresca e boa, ele costumava misturar-lhe cinzas. As duras mortificações de Francisco, os seus olhos fundos de chorar, etc., não seriam qualidades apreciadas pelos católicos paz e amor de hoje, acostumados com padres galãs e cantores. Francisco, se vivesse entre nós, seria antes confundido com um desses intolerantes dogmáticos, pois, de fato, ele era assim.

Francisco não pode também ser aclamado com padroeiro dos coelhos, formigas e cogumelos. Na verdade, ele é o santo do Crucificado. Esta era a única coisa que ele dizia saber: Cristo crucificado. Inimigo do politicamente correto, dizia querer encher a boca do demônio de fezes, e pedia para lhe pisarem - a ele mesmo - na boca, acusando-o de falta de humildade.

Suas orações, jejuns e rigores, no entanto, não lhe impediam a alegria, é verdade; antes, eram causas dela, de uma alegria verdadeira e tão extasiante que fazia eco daquela promessa: "que a Minha alegria esteja em vós, e que seja plena"; mas esta alegria não era isenta de gravidade. 

Que Francisco tenha sido um mistério, ele mesmo o diz: "infeliz o homem que não tem segredos com o seu Senhor." O pouco que sabemos sobre suas orações vem de irmãos "espiões" que, sem permissão, iam olhá-lo nos seus momentos de intimidade com Deus e não raro viam-no levitar, ou comunicar-se com estranhas luzes, ou ainda estar acompanhado de multidões de santos e anjos.

Sua identificação com o Cristo foi tanta que ele recebeu, literalmente, as marcas da Paixão. Seu despojamento foi tanto que ele quis morrer nu, no chão. Seu amor a Deus foi tão violento que ele chamou a morte de irmã, e pediu perdão ao irmão corpo por ter sido tão duro com ele; até hoje sentimos a força daquele amor que abalou o mundo e fez São João Paulo II dizer: "Francisco, o mundo tem saudades de ti".

Que São Francisco de Assis, esposo fidelíssimo da Dama Pobreza, imitador perfeito do Cristo Crucificado, interceda por nós nestes tempos tão difíceis, e nos conceda de Deus a graça de o imitarmos com o coração decidido e o espírito resoluto.

Francisco de Assis, rogai por nós.

Dia de Corpus Christi - Mistério insondável


Dia desses, fui à Missa e, olhando a Eucaristia, me pus a meditar..

A Eucaristia é Deus. Às vezes, a gente acha que entende o que é isso, mas não entende. Qualquer conceito que possamos ter de Deus, por mais elevado que seja, é sempre analógico e nunca literal. O que Ele é nos escapa. Por isso dizemos apenas que Ele é.

Neste sentido, escreveu S. Gregório de Nissa, na sua Vida de Moisés:

"Todo conceito formado pelo entendimento para tentar atingir e abranger a natureza divina não consegue mais do que forjar um ídolo de Deus, em vez de fazer conhecê-Lo."

Qualquer teologia que suponha poder dizer estritamente quem é Deus torna-se herética no ato mesmo de pretendê-lo. Quem é Deus? Não sabemos. As nossas afirmações d'Ele são sempre comparativas.

Se não sabemos isto, como pretendemos entender o fenômeno da Eucaristia? Simplesmente, não dá.. Podemos ter uma Fé profunda de que Deus está ali, mas a Fé é justamente a "visão obscura", o "ver confusamente" de que fala S. Paulo. Por isso, a Sta Edith Stein costumava dizer que a Eucaristia é "o pão seco dos fortes", pois é preciso ser forte, no sentido de vencer a nossa tendência natural de exigir comprovações e gostos sensíveis, como fazem as crianças com os alimentos, para encontrar ali o Cristo. Sta Faustina Kowalska dizia o mesmo: "A fé firme rasga este véu". E é assim mesmo que Deus o quer, pois diz São Paulo: "O justo vive pela fé" e "sem fé é impossível agradar a Deus." Jesus o exprime de modo claro: "Felizes os que crêem sem ter visto", e Tomás de Aquino, o doutor angélico, por sua vez, escreve em que consiste esta força: "Se não vês nem compreendes, gosto e vista tu transcendes, elevado pela Fé." (Lauda Sion)

A Fé, portanto, não indica um bloqueio no sentido de nos deixar aquém daquilo que é percebido pelos sentidos. Pelo contrário, a Fé nos leva além deles, a um tipo de conhecimento que é tão intenso e se aproxima tanto da luz que, antes, nos ofusca. Mas, ao nos ofuscar, nos ilumina e nos prepara, gradativamente, para a visão. Os olhos incandescidos tendem a adaptar-se aos poucos à luz. A Eucaristia, exigindo-nos a Fé, nos prepara para a visão beatífica.

A Eucaristia é Deus. Ao dizê-lo, abre-se diante de nós um abismo de horizontes infinitos. Como esgotá-lo com o entendimento? Não dá. Os sentidos não o apreendem. A razão apenas assente. E, no entanto, Deus verdadeiramente Se dá, e nós O recebemos, e O comemos.

Deus é a raiz mesma da realidade. É a realidade por si mesma subsistente. É a realidade real por excelência. Duvidar da Eucaristia, portanto, é um contrassenso, pois é duvidar daquilo que é mais verdadeiro que qualquer verdade que conhecemos. Sob as espécies do Pão e do Vinho está aquele que disse: "Eu sou a Verdade" (Ego Sum Veritas).

Nós, que vivemos num mundo efêmero e frágil, que passa como um piscar de olhos, que é um momento entre duas eternidades, como bem o disse Sta Teresinha de Lisieux, ao receber a Eucaristia, recebemos Aquele que É, que não é suscetível de mudanças, que criou e sustenta todas as criaturas; Aquele ao qual tudo o que existe deve sua existência. Comemo-Lo e, ao fazê-Lo, sofremos uma espécie de adensamento da realidade. Nos tornamos mais nós mesmos, pois estamos comendo a própria Verdade. A Eucaristia, portanto, reforça o nosso ser, e tenderá necessariamente a iluminar a inteligência, permitindo-nos conhecê-Lo e conhecer-nos. Conhecer-nos é a raiz da humildade, que é início de qualquer virtude. A Eucaristia, assim, é causa eficiente de uma profunda dinâmica interior que culminará na santidade ou perfeita identificação com o Cristo, se o permitirmos. Não é outra coisa o que Ele mesmo diz a Sto. Agostinho:

"Ao comer-Me, não és tu que Me transformas em ti, mas Eu que te transformo em Mim."

Que mistério.. Uma criatura, abismo de nada, recebe em si mesma Aquele que é o tudo. Como pode um buraco na areia receber o oceano? Deus não pode, depois de recebido, não abrir a amplitude interior da alma, não torná-la grande, não estendê-la ao infinito, não dispô-la a Si. Se o recipiente torna o recebido semelhante a si, aqui se dá o inverso: é o recebido que adapta o recipiente. 

Neste dia de Corpus Christi, nós possamos contemplar o mistério absolutamente inefável da Eucaristia, o amor e a humildade vertiginosos que se comprimem ali, naquelas aparências tão vizinhas do nada, como dizia Sta Teresa D'Avila, e aceitar o fato de que não O vemos nem O entendemos. Não desejemos vê-Lo nem compreender tal mistério. Desejemos apenas amá-Lo e acreditar na Fé que nos diz que, naquele pequeno objeto frágil, magra hóstia branca, há um sobre-excesso de ser, uma raiz de eternidade, ou, como diziam os antigos, o remédio de imortalidade, pois, "quem come a Minha carne e bebe o Meu sangue tem a vida eterna." (Jo 6,54)

Fábio

Feliz Natal e Feliz Ano Novo.


Eu sempre costumo escrever algo na véspera de ano novo e, em geral, os meus artigos sobre isso não são muito animadores. Vamos ver como sai esse.

Bem, o ano vindouro é novo em que sentido? No sentido de que nunca ocorreu.. Ora, mas se assim é, a hora vindoura também é nova, assim como o minuto, ou o segundo, e nem por isso estamos a todo instante comemorando ou celebrando a novidade. E não sei se deveríamos fazê-lo ou não. Penso um pouco que sim. Contudo, ao lermos o livro do Eclesiastes, parece que as nossas expectativas de uma novidade radical vão pro espaço, pois ele nos brinda, dentre outras coisas, com a seguinte afirmação: "não há nada novo debaixo do sol". Com isto, ele quer dizer que o paradoxo da vida terrena é que, ao mesmo tempo em que ela é contínua abertura ao futuro e, por isso, ela é plena recepção da novidade, esta novidade é também incapaz de provocar uma ruptura completa com aquilo que é velho e termina se adequando a este velho. Bem, parece que há uma exceção: o momento da morte rompe com toda a lógica anterior e nos insere numa nova, absolutamente não prevista. Neste sentido, talvez só devêssemos comemorar como passagem para uma absoluta novidade o dia da nossa morte. Lembro-me agora das palavras do Chesterton: "eu nunca sorrirei tanto quanto naquele dia." No entanto, é precisamente o contrário que fazemos, o que nos mostra que a nossa vontade de um "novo", embora exista, é sempre moderada, pois somos medrosos.

Mas até lá, essas comemorações, se possuem algo de legítimo, são também algo supersticiosas. Talvez a legitimidade delas consista em ser prefiguração da novidade real que está mais adiante - a eternidade. A superstição está em esperar que o mero movimento translacional da terra - combinado com a cor da roupa - possa produzir qualquer coisa de novo. É muita tolice..

Na verdade, a única novidade, segundo Salomão, está acima do Sol, onde não há vaidade. Quem quiser experimentar a novidade real, há de tornar-se íntimo das realidades celestes, habitando nelas, e vencer a própria vaidade. E é por isso que o melhor modo de "romper" o ano é participando da Santa Missa, pois aí temos, por um lado, a plena comunicação com o Céu - a Missa é como um céu aberto onde a nossa relação com Deus é garantida e efetivada. - e, por outro, temos a humilhação gloriosa do filho de Deus que renova seu Sacrifício misticamente, vencendo-nos a vaidade e o orgulho. Encarnar a Liturgia na própria vida é plantar o alicerce para que uma real novidade surja. Sem isso, tudo é ilusão e engano.

Portanto, mais tarde, quando estivermos celebrando a passagem para 2014, não adianta pular ondas nem levar flores a entidades, mas, antes, pensar em Deus, colocar o nosso coração ao alto e comungá-Lo à medida em que o permitam as nossas disposições interiores.

Só assim poderemos de fato desejar um Feliz Ano Novo que tenha alguma substância e que não seja mera flatus vocis, isto é, vazio vocal. Mas, antes de tudo, é preciso desejar feliz natal! Ainda não acabou.. E, diante do Natal, o Ano Novo é pardo, é sem graça. O Natal é uma verdadeira novidade; é a entrada da novidade - da Boa Notícia, dAquele que está acima do sol - no nosso mundo sem graça. Ele é, em verdade, o doador da Graça. Acolhamos esta novidade e permitamos que ela faça o que quiser conosco.

Que a Virgem Maria nos auxilie.

Fábio.

Feliz Natal!


Desde a queda de Adão e Eva, a alma humana foi obscurecida, privada da comunhão com Deus e impossibilitada de realizar seu fim mais essencial: a posse de Deus na eternidade. Todos eventos da vida terrena retiravam seu sentido deste fim último, para ele se ordenando como meios. A alegria da vida humana existia porque hauria seu brilho e calor daquele Sol divino para o qual, porém, os homens estavam agora impossibilitados de ir.

A desordem proveniente do pecado não apenas cavou um fosso intransponível ao homem entre nós e Deus, como ainda inseriu a desordem dentro da nossa alma. Desde então, passamos a buscar fontes alternativas de realização e, como estas inexistiam, fomos obrigados a fundamentar a vida inteira na mentira. A fim de produzirmos, nós mesmos, aquilo que não havia, passamos a forçar a realidade para que se adequasse às nossas fantasias e, neste processo, tornamo-nos violentos e cada vez menos sensíveis à delicadeza do amor. Cada pessoa, assim, ia perdendo a vista da unidade fundamental de toda a criação e se via restrita a um caminho extremamente individual e fragmentado do todo no qual lhe importava sobretudo a satisfação de si mesmo. Sobre isso, escreveu o Profeta Isaías:

"Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas; cada um se desviava pelo seu caminho" (Is 53,6)

Era noite na nossa alma e, nessa noite, tateávamos semi-cegos por caminhos que trilhávamos por suposições, isto é, à medida em que nos dispúnhamos afetivamente para eles. Estávamos, rigorosamente, cativos dos nossos interesses e da nossa sensibilidade, ou seja, o nosso horizonte era estreitíssimo e ia somente até onde iam os nossos cálculos interesseiros. É verdade que, pela insistência divina em não nos abandonar e manter contato com os homens, havia, ainda, um quê de saúde no mundo e os homens conduzidos por Deus nos faziam relembrar daqueles tempos áureos em que o homem podia, de fato, ser feliz sem falsificações. Esses homens não apenas nos punham nostálgicos, como também nos anunciavam uma felicidade futura, a qual, no entanto, não tínhamos a menor capacidade de sondar em profundidade. Tivemos a notícia, mas escapava-nos a substância do anúncio. Embora Deus mesmo tivesse conduzido esse pontos luminosos, que chamamos de Profetas, a imensa maioria dos homens permanecia num profundo sono.. Os profetas foram como estrelas num extenso céu escuro... E era noite..

Mas eis o que ocorre:

"O povo que andava nas trevas viu uma grande luz, e sobre os que habitavam na região da sombra da morte resplandeceu uma luz." (Is 9,2)

As duas maiores festas cristãs acontecem de noite para mostrar que Deus intervém, justamente, quando as coisas estão escuras. O nascimento de Jesus se deu não apenas numa noite física, mas também numa noite espiritual. Na alma dos homens, o sol divino estava "escurecido"; não que Deus possa escurecer-se, mas é possível, como escreveu Sta Teresa D'Avila, envolvê-lo com uma espessa camada de modo que sua luz não incida na alma e esta fique em trevas. Isto ocorre no pecado mortal. E foi justamente nesta noite que brilhou uma grande luz: Jesus nasceu. Qual o significado disto?

Primeiramente, notemos que, se a treva é ausência de luz, a noite da alma nos homens era a falta da luz divina. Faltava Deus aos homens e eles não eram capazes de reconstruir o que fora perdido. Estando tal conserto acima das forças humanas, forçoso era que, se ele fosse feito, o fosse pelo próprio Deus. E é isto o que se dá: Deus como que "sai de si", movido pelo imenso amor pelos homens, e vem a nós. Em seguida, Ele une em Si mesmo aquilo que estava separado: Deus e os homens. Com efeito, Jesus será Deus e homem e não é possível que as duas naturezas, antes impedidas de união pelo abismo do pecado, agora, unidas na pessoa do Cristo, cultivem ainda qualquer distância. Jesus, ao assumir a nossa natureza, como que se casou conosco tornando-nos, desse modo, um só com Ele.

Tornou-Se humano para que o homem pudesse tornar-se divino. Com isto, Ele nos restituiu a esperança da felicidade completa, da realização mais plena. Ao vê-Lo, hoje, nascido na gruta de Belém, em tão aparente indigência, nós podemos perceber a grandeza do Seu amor em vir resgatar-nos de tão profunda baixeza. Isto é motivo de uma vertiginosa alegria. Se não sabíamos mais o que fazer, se estávamos desesperados e tínhamos por certo a nossa condenação, agora abriu-se para nós uma porta, uma imensa luz brilhou para nós. Deus nos deu a certeza mais cabal de que somos amados. Agora, nós não precisamos seguir caminhando pelos nossos próprios caminhos, nos quais íamos desgarrados. Agora, surgiu para nós O caminho que não engana e nos leva ao Pai. Todos nós, por Ele, transcendemos a nossa fantasia, os nossos caprichos, os nossos interesses egoístas, e retomamos contato com a mais sólida realidade, com a Verdade. Superamos o mesquinho cálculo dos nossos interesses, e adentramos na dinâmica do amor. Imitando a Ele, que saiu de Si, nós sairemos de nós mesmos e iremos a Ele. Nisto está a nossa Salvação. Eis a Luz que nos permite ver com clareza o que até então era-nos invisível pela densidade da noite. Eis o Sol da Justiça que nos nasce e nos restitui a dignidade perdida pelo pecado. Eis que o divino infante participará do nosso sofrimento, chorando copiosamente na noite de Belém, e nós, que já estávamos acostumados às lágrimas, participaremos da alegria divina e, depois de tanto tempo, voltará à nossa face aquele sorriso que nasce, não do campo superficial das sensações, nas do íntimo da alma, expressão de uma alegria da qual participa a totalidade do ser do homem.

Esta alegria, portanto, não é forjada, não é artificial, e não é, como dizia S. Josemaria Escrivá, uma alegria de animal sadio, que surge da boa constituição física. É algo mais interno, mais profundo e que, ao mesmo tempo em que nos preenche, nos relembra que nós somos mais que animais que seguem seus instintos e seus desejos; somos filhos de Deus, criados à Sua imagem e semelhança. Somos vocacionados à eternidade. Na pobreza de seus trapinhos, o Cristo nos relembrou que nós somos Sacerdotes, Profetas e Reis.

Feliz Natal!

Festa de Cristo Rei


Ontem iniciei a escrever este artigo, mas não pude concluí-lo, pois tive de me ausentar para resolver algumas coisas. Mas, enfim, disponibilizo-o hoje. Pax.

***

Hoje a Igreja celebra a Festa de Cristo Rei e o encerramento do ano da Fé.

Ao falarmos de Cristo Rei, por estarmos já tão habituados à expressão, é muito fácil que ela se nos passe como um título dentre tantos outros sem que nos apercebamos do seu significado profundo. Além disto, por vivermos numa espécie de demagogia, forma deturpada da democracia - mas que vai tomando ares de totalitarismo disfarçado -, a idéia de um Rei nos aparece como algo totalmente estranho. Alguns associam de tal modo a Monarquia com a Tirania que a estranheza por chamar Jesus de Rei parece ser como que recalcada, impedindo desse modo uma reflexão mais séria a este respeito.

Jesus é Rei, ou seja, o Seu modo de governo é uma Monarquia, o que já nos deveria ser o suficiente para nos fazer entender a bondade intrínseca ao Império. Ao reconhecermos a realeza de Jesus sobre o universo, estamos a dizer que Ele é senhor absoluto de tudo quanto existe. Logo, não há lugares, dimensões, aspectos do mundo e da vida que sejam absolutamente autônomos, isto é, que possam esquivar-se do domínio d'Ele. Jesus é o criador de tudo quanto há e, além de ter criado, Ele sustenta na existência todas as coisas, de modo que se por acaso Ele cedesse aos nossos caprichos e retirasse a sua atividade de certas áreas da existência humana, essas mesmas áreas cessariam no mesmo instante de existir.

Hoje advoga-se que a religião deve restringir-se a foro íntimo e que não deve se meter em política, em ciência, etc. Pois bem. Ao dizê-lo, essas pessoas estão a negar que Nosso Senhor seja Rei do universo. E, além disso, se Ele por acaso "se retirasse" de tais campos, no mesmo instante eles deixariam de fazer sentido, pois o Cristo é o próprio Lógos, isto é, é o sentido de tudo quanto existe.

Se Jesus é Rei do universo, toda essa militância por retirá-lo da sociedade não faz o mínimo sentido. Ele possui autoridade sobre tudo e sobre todos. Portanto, a sua vontade deveria ser observada e obedecida em todo o seu Reino. Porém, quando caminhava conosco em Seu corpo mortal, Ele chegou a dizer que esse mundo estava sob o maligno. Há um princípio de revolta no universo que peleja contra Ele e, na medida em que o faz, instaura a falsidade e a mentira no mundo. Cristo é a própria verdade. Isto significa que tudo quanto se insurja contra Ele só pode ser falso. Cristo é o próprio bem. Isto significa que tudo quanto pretenda opôr-se a Ele será necessariamente ruim. Se Deus criou todas as coisas que existem a partir da Sua vontade, qualquer princípio que atente contra esta vontade é um princípio de não-existência, de frustração do ser, de negação e destruição. De fato, é este o intento do demônio que não veio senão para roubar, matar e destruir. E fazemos o papel deste quando, no auge da nossa insignificância, defendemos a autonomia seja da política, ou da ciência, ou do direito, etc. Divorciando de Deus certos aspectos da vida humana, nós estamos, na mesma medida, enxertando nesta vida camadas de mentira, de irrealidade, de inexistência e de frustração. Uma pessoa que se rebela contra a vontade divina contraria o seu próprio ser, impedindo-se a obtenção de uma unidade interior. Rebela-se, portanto, contra si mesmo. Querendo arbitrar sobre uma realidade já dada, ele opta por uma reinterpretação do que já existe, e forçosamente cairá em mentiras e falsidades. Rebelando-se contra Deus, se rebelará contra a raiz do seu próprio ser, e é importante frisar que o mundo não reconhecerá este nosso falso senhorio, de modo que não é pela projeção de nossa mentira no mundo que o mundo passará a ser como o pensamos. Não é por supor que a satisfação egoísta dos nossos desejos nos trará a felicidade que isso irá ocorrer. Na verdade, quando nos esquivamos à vontade divina, o nosso próprio ser mais profundo se nega a aderir a essa nossa disparatada empresa, pois há em nós um algo que é profundamente verdadeiro e que, ainda que não o alcancemos e nem o percebamos, está lá, intocado e totalmente à prova de quaisquer dissimulações e tentativas de manipulação.

Celebrar, pois, a festa de Cristo Rei é celebrar o fato de que Jesus tem um domínio absoluto sobre tudo e de que a Sua vontade é a condição do bem e da verdade. Por isso Nosso Senhor nos ensinava a pedir: "seja feita a Vossa vontade assim na terra como no céu", pois a vontade divina, se realizada plenamente, significará a realização mais profunda e mais perfeita da felicidade humana e o bem de todas as criaturas.

Porém, fomos feitos criaturas livres e, logo, podemos aceitar ou negar esta vontade. A verdade é que, por mais que a queiramos fazer, há em nós ondas de revolta contra esta vontade. Nosso egocentrismo nos põe em luta contra Deus. Sempre que pecamos estamos justamente a gritar, com os nossos atos, que Deus não reina sobre nós e que não queremos este reinado. E é por isso que o pecado é uma fonte de inferno para nós. Ele é a perpetuação do fracasso na nossa vida e continuamente nos ameaça com a possibilidade de uma frustração eterna. Por isso, se quisermos agir como servos de Cristo Rei, é preciso que nós movamos uma contínua e diligente luta contra os focos de revolta dentro de nós. Identificar tais focos e lutar estratégica e inteligentemente para vencê-los deve ser o grande trabalho dos cristãos, pois, conforme diz a Escritura, "é uma luta a vida do homem sobre a terra", e, por sua vez, diz São Paulo: "Os que são de Jesus Cristo crucificaram a sua carne com suas paixões e concupiscências". São precisamente estas paixões e concupiscências que movem guerra contra Deus.

Quando falamos de reino, naturalmente pensamos em uma organização social, e não estamos errados em fazê-lo. Mas, lembremos que a sociedade se constitui de indivíduos e que os atos destes têm origem no seu interior, como disse Jesus. Portanto, o Reino de Cristo começa na consciência humana. Uma consciência que assente a Ele inteiramente e, nesse assentimento, torna-se livre, pois é a Verdade que liberta, e não o erro. Quando supomos erroneamente que seremos livres quando dermos azo à nossa revolta, estamos fazendo justamente o contrário: optando por prendermo-nos no irreal, e o irreal não liberta. Isso deveria também ser uma lição para os que pensam que a santidade se faz a partir de altas imaginações. Não. A santidade é precisamente um estado de extrema fidelidade à realidade. E a realidade é justamente esta: tudo quanto existe inclui-se dentro do reinado de Cristo; até mesmo o inferno, onde Ele reina por Sua justiça.

Que nós, os cristãos, como súditos de tão Suma Majestade, possamos dedicar a nossa vida a servi-lo e a estender o seu Reino nas consciências. Deste modo, participaremos também do seu Reinado, pois, como diz a Santa Igreja, "servir a Deus é reinar".

A Ele, supremo Rei absoluto de tudo quanto existe, glória e honra eternos! A Ele, amor infinito e gratidão plena. Viva Cristo Rei!

Dia do Papa - Viva à Santa Igreja!

Hoje, dia 30 de junho, é o dia do Papa, pois celebramos o trânsito de S. Pedro, o primeiro Papa da Igreja Católica, escolhido pelo próprio Jesus Cristo, Deus encarnado.

Existem várias evidências da primazia de Pedro no círculo dos doze. Além de ter sido dada a ele as chaves do Reino dos Céus, quando Jesus lhe falou claramente: "Pedro, tu és pedra, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja e as portas do inferno não prevalecerão contra ela", Jesus também reza particularmente por ele para que confirme a fé dos demais e lhe ordena apascentar as Suas ovelhas.

Não há motivos quaisquer, pois, para duvidar deste primado dado a Pedro pelo próprio Cristo. A história também o confirma. Pedro foi posto como sinal de unidade da única Igreja de Cristo, a Católica, de modo que onde haja comunhão com o Papa, haja comunhão com o Cristo. Desde então, a sucessão apostólica tem sido ininterrupta e a Igreja, não obstante as graves crises pelas quais tem passado desde a sua fundação, permanece a mesma, demonstrando nesta fidelidade perfeita a veracidade da promessa do Cristo de que o inferno não a venceria.

Neste dia do Papa, rezemos por Sua Santidade, o Papa Francisco, para que não se deixe ludibriar pelo canto de sereia dos teólogos da libertação, mas, antes, avance no ideal do verdadeiro S. Francisco de Assis, filho da Santa Igreja e que a restaurou a partir da sua extrema fidelidade e obediência.

Que neste dia também seja reavivada em nossa alma a gratidão por pertencermos à Igreja que é Esposa Imaculada do Cordeiro, Mãe dos filhos de Deus, dispensadora da Graça nas almas, transfiguradora dos espíritos humanos tornando-os semelhanças de Cristo. É somente a partir dela que se torna possível o ideal deste outro grande santo que celebramos hoje, S. Paulo: "Já não sou eu quem vivo; é Cristo quem vive em mim". Feliz somos nós, os convidados para a Ceia do Senhor, que é Comunhão com o próprio Verbo divino e remédio de imortalidade. Bem aventurado o povo que o Senhor escolheu. Que Ele nos conceda a graça da fidelidade até o fim. 

Viva à Santa Igreja Una, Santa, Católica, Apostólica e Romana, fora da qual não há Salvação!





Dia de Corpus Christi


No dia de hoje, 30 de maio, celebramos o Mistério do Corpo de Deus, deixado à disposição dos homens para que se santifiquem e possam ter a maior intimidade com o próprio Cristo. É a festa da fonte e do ápice da Igreja, isto é, de onde ela surge e para onde ela ruma. A Eucaristia é, portanto, Deus! Nada menos que isso.

Ditas estas coisas, percebamos algumas implicações:

Primeiro, é falso dizer, com os sincretistas, que é mais aquilo que nos une aos protestantes de modo a podermos forçar um tipo de união espiritual sob o preço de dispensar as diferenças. Uma destas diferenças é justamente a Eucaristia que, como dissemos, é o ápice da Igreja e é Deus. Que espécie de coisa seria mais importante que isso? Tapinhas nas costas? Sorrisinhos? Isto não significa, é óbvio, que devamos ter os protestantes como inimigos - eu já prevejo alguém usando, como objeção, as palavras de Sto Atanásio e que, sinceramente, não se aplicam aqui -;  bem ao contrário, devemos ser corteses e amigáveis. Porém, disto não se conclui que devamos relativizar as coisas. A comunhão com o Corpo de Cristo é um direito e, poderíamos dizer, um dever de todos nós, inclusos os protestantes. Daí que abrir mão da evangelização ou, se quiserem, do proselitismo, é o mesmo que dispensá-los, abandoná-los e nos contentarmos com as aparências de simpatia. Se não entendemos isso é porque nos falta a Fé. 

Segundo, é muito triste constatar que Deus, como um namorado dedicado, vem do céu e se hospeda no nosso mundo, na nossa proximidade, talvez na esquina da nossa rua, e nós, como sujeitos desinteressados e dados à infidelidade, não Lhe vamos ver ao mesmo tempo em que acreditamos piamente amá-Lo sobre todas as coisas. Seria o caso de nos perguntarmos: quem nos ensinou a mentir de modo tão descarado para nós mesmos? Somos tão bons nisso que nós mesmos acreditamos.

Terceiro, já dizia alguém: tu és aquilo que tu comes. Não à toa Jesus vem a nós como um alimento, literalmente. Quando fazemos algum esporte ou desempenhamos algum trabalho que nos exija força e preparo, orientam-nos logo uma boa dieta, um cuidado com os alimentos para que possamos tirar forças daquilo que ingerimos. Ora, nenhum trabalho ou nenhuma atividade sequer se assemelham àquela na qual estamos empenhados: o seguimento de Jesus. Isto é tal que exige de nós todas as nossas forças e o devotamento de todo o nosso ser. Jesus, portanto, à semelhança do que fez com o profeta Elias, nos providencia esta pão misterioso, este alimento que, à diferença dos outros, fortalece não só o nosso corpo, mas aquilo de mais excelente em nós: a nossa alma. Comungar a Jesus é, portanto, a garantia de se ter a força necessária para esta jornada. Abandoná-Lo é suicidar-se por inanição. E nisso há uma diferença fundamental com relação ao nosso alimento ordinário: Sto Agostinho nota que, na comum ordem das coisas, quando comemos algo aquilo será assimilado pelo nosso organismo e o alimento como que se transforma ou se converte em nós. No caso da Eucaristia, acontece o contrário: somos nós que nos transformamos n'Aquele que comungamos. Se a vida cristã pode e deve ser entendida como uma imitação do Cristo, ela encontra na Eucaristia o seu ponto mais necessário.

Quarto, quando queremos simbolizar o nosso amor, dizemos que a outra pessoa mora dentro de nós. Talvez seja por isso que, numa das demonstrações mais típicas de afeto, o abraço, estreitamos o outro ao nosso corpo como que querendo pô-lo para dentro do nosso ser. "Perto estás se dentro estás", costumamos dizer. Na Eucaristia, portanto, ocorre a máxima intimidade: Deus é mesmo posto dentro de nós e faz morada da nossa alma. O fato de nós O recebermos visivelmente nos dá uma viva consciência deste processo, o que possibilita um atento consentimento nosso. Teremos o próprio Deus dentro de nós num auge de intimidade. Ele estará lá: só Ele e eu. Não é preciso esperar; n'Ele não há pressa. Ele respeita em absoluto a nossa casa, de modo que, se O deixamos sozinho, como infelizmente é muito frequente acontecer, Ele não reclama, pois a solidão tem sido, muitas vezes, a sua única companheira. E é muito possível e provável que, mesmo deixado só, Ele limpe uma coisa ou outra lá dentro, dê ordem a certas bagunças e conserte certos rasgos. É por isso  verdadeira a música que diz: "Tu, mais íntimo de mim do que eu mesmo...". Deus sabe mais de nós do que nós mesmos. Ele nos observa desde dentro. E é por isso que deveríamos nos abandonar de vez aos Seus cuidados. Este abandono é potencializado na Eucaristia. Recebemo-Lo.. Pomo-lo dentro de nós e, então, Ele nos insere na vastidão do Seu próprio Ser.

Por fim, receber a Eucaristia é também um símbolo muito bonito da Sua Encarnação. De todas as criaturas, nenhuma encantou tanto a Deus como a Virgem Santíssima. Por isso, Ele quis vir à terra e encerrar-Se no seio de Maria. Se a Mãe lhe proverá os tecidos físicos pelos quais operará mais tarde em nosso mundo, era o Filho a vida da alma da Mãe. Hoje, também, quando recebemos a Eucaristia, Deus entra fisicamente - oh mistério - em nosso ser, pelo que ocorre um certo modelo de encarnação. Somos como Maria ao recebê-Lo e devemos procurar ter as mesmas disposições dela. Um dos santos diz que nenhuma preparação para a recepção da Eucaristia é tão eficaz como a que se faz por meio de Maria. Eis, então, Jesus "encarnando-Se" novamente em nós, como que pedindo para que imitemos a Sua mãe e para que lhe provamos, mais uma vez, as "carnes", isto é, as possibilidades de atuar no mundo através de nós. Jesus deve ser a vida da nossa alma, Aquele que a nutre e sustenta, dá brilho, calor e vigor de modo que, assim como Maria, nós possamos encarná-Lo em nós, nos vestirmos d'Ele, assumir visceralmente o Seu jeito, o Seu modo de ver e de viver. É assim que poderemos ser uma via da ação de Deus no mundo. Se Maria, com uma simples saudação, era capaz de comunicar o Espírito Santo, isto se devia ao seu esvaziamento pessoal que fora preenchido por Jesus. Também Paulo expressa de modo perfeito este mistério: "não sou eu quem vive; é o Cristo quem vive em mim." Eis, portanto, o que se torna possível a partir da pura e devota recepção do Santíssimo Sacramento, Mistério dos mistérios, que celebramos no dia de hoje. Agradeçamos muito a Deus por este pão do céu, dado por amor dos homens e que, à força de nos amar tanto, submete-se aos maiores desprezos, colhendo as migalhas do nosso dito amor. Que a Virgem Maria nos ensine a viver este amor como Ela: totalmente rendidos, abandonados e zelosos da glória de Deus e da conversão das almas.

25 de Março - Dia da Encarnação do Verbo - 3 Anos de Consagrado


Hoje a Igreja celebra a Encarnação do Verbo. Vamos entender isso um pouco. Primeiro: que Verbo? O Verbo aqui referido é a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade: Jesus Cristo. No início do Evangelho de São João, Jesus é chamado de "Verbo": "E o Verbo se fez carne e habitou entre nós" (Jo  1,14). A Encarnação de que aqui se fala não tem nada a ver, como às vezes se pensa, com a reencarnação espírita. Quando falamos de "Encarnação", estamos nos referindo precisamente a este movimento de Jesus de se fazer carne, isto é, de assumir a natureza humana. É importante, porém, a gente entender: a natureza humana é composta de corpo material e alma espiritual. Se Jesus assume a natureza humana, é óbvio que Ele não assumiria somente o corpo, como pensam alguns. Ao contrário, Jesus assume corpo e alma humanos.

A Festa da Encarnação do Verbo faz referência, então, a este mistério. Esclareçamos mais algumas coisas. Quando Jesus se torna humano, Ele não deixa de ser Deus. O saudoso professor Orlando Fedeli gostava de dizer que enquanto o fato de nascer, de chorar, de precisar de cuidados, etc., mostram a humanidade de Jesus, o fato de nascer de uma Virgem, de ser anunciado por Anjos e de mover a estrela para que fosse testemunha e sinal do Seu nascimento nos mostram a sua divindade. 

Este é um mistério profundíssimo pois fala do rebaixamento de Deus. São Paulo nos diz: "Sendo ele de condição divina, não se prevaleceu de sua igualdade com Deus, mas aniquilou-se a si mesmo, assumindo a condição de escravo e assemelhando-se aos homens." (Fl 2,6-7). Este movimento descendente é chamado pela Teologia de Kenose e é um mistério tão grande que todas as vezes que a ele nos referimos, seja na oração do Ângelus, seja no Credo, seja no Ofício de Nossa Senhora, nós fazemos uma reverência profunda ou a genuflexão.

Jesus é Deus e isto significa que Ele é sumamente poderoso e sumamente livre. Porém, no ato da Encarnação, Ele como que se encerra dentro do ventre virginal de Maria de Nazaré que é, por isso, chamada de Primeiro Sacrário. Aí Ele passa os nove meses, totalmente submisso e aguardando completarem-se os dias. Aquele que é o Onipotente assume a nossa baixa condição em tudo, menos no pecado, e, neste ato, Ele, que tudo domina, se torna plenamente obediente à Virgem Santíssima. Eis o belíssimo mistério da suma humildade e da suma obediência. A Virgem Maria possuía na sua alma uma plena disposição e submissão a Deus. Isto se manifesta no seu "Faça-se", atitude mantida durante toda a sua vida, mesmo em face dos maiores sofrimentos. Ela foi sempre vazia de si mesma. E justamente por isso, Nosso Senhor esteve muito à vontade no seu Ventre, pois eram as mesmas disposições d'Ele. Aquela que era, em suas próprias palavras, a "Ancilla Domini", isto é, a Escrava do Senhor, agora tem submisso a si o próprio Deus.

Jesus é, para os cristãos, o sumo modelo. Isto significa que os cristãos, se quiserem realizar a sua vocação, devem imitá-Lo em tudo. Ora, isto inclui necessariamente o amor e a submissão que Ele tinha para com Sua Mãe Santíssima. Do verdadeiro cristão, portanto, espera-se uma disposição de alma similar à da Virgem - como a que tinha Nosso Senhor - e um grande amor e obediência para com Ela. Assim com ela foi a mestra de Jesus, a ponto de ensiná-lo a andar, a ler as escrituras e a fazer as primeiras orações, assim também Ela deve ser a mestra de qualquer seguidor de Jesus Cristo. E mais: assim como ela gerou, pela natureza, ao Verbo divino, ela também deve gerar, pela Graça, a todo filho de Deus. E é precisamente por isto que ela é chamada de "Mãe da Graça" e tornou-se, de fato e por encargo divino, nossa Mãe. Ninguém, como ela, conheceu e amou tanto a Nosso Senhor. Ninguém, como ela, agradou tanto a Deus. Portanto, Ela nos pode ensinar tudo sobre o Seu Filho, inclusive o modo de agradá-Lo, de imitá-Lo e de amá-Lo.

Este é um dia apreciado por todos os católicos. Mas é uma data especialíssima sobretudo para os que são consagrados à Virgem Santíssima pelo método de São Luís Maria Grignion de Montfort, dentre os quais eu muito indignamente me incluo. É uma das nossas devoções principais. Neste dia, eu faço três anos de consagrado. É um dia de felicidade, mas também de muita vergonha, já que naturalmente a gente lança um olhar retroativo e vê com quanta rebeldia e pouca generosidade viveu essa devoção até aqui. Eu falo por mim. E talvez esses meus lamentos sejam também os mesmos de outros consagrados. A fidelidade a esta devoção exige uma constância heróica - ainda que aparentemente não -, e não é raro que, a princípio animados por idéias ingênuas, demos com a cara no muro da nossa fraqueza. Pois bem.. A estes quero dirigir-me brevemente agora.

Logo no início do Tratado da Verdadeira Devoção, conta-se como o próprio S. Luís Maria previa que o inferno em peso moveria guerra contra o livro e contra esta espiritualidade. Parece, porém, que esquecemos disso depois, e reputamos toda a dificuldade em fazer as orações e em manter-se fiel apenas à nossa tibieza. Estranho seria que uma devoção tão valiosa e poderosa fosse ao mesmo tempo muito fácil de se manter. Ora, isso é um irrealismo imenso. Nós, comparados aos grandes espirituais, costumamos ser muito rasteiros e temos uma visão naturalista de tudo. Devemos ficar atentos quando começam a nos aparecer certos argumentos em favor de abandonarmos as orações. Parece-nos que andamos muito ocupados, que as orações não surtem o efeito que prometem ou que a nossa espiritualidade pessoal é diferente daquilo. Tudo pretexto... É óbvio que não precisamos ficar obcecados com isso nem ter crises existenciais se não cumprimos as obrigações, mas não sejamos tão ingênuos. Façamos aquilo que está dentro das nossas possibilidades, e, sinceramente - falo também pra mim-, o terço e a oração da coroinha o estão, por certo. Se fracassamos com as orações num dia, procuremos ser fiéis no outro e peçamos que a Virgem mesma nos ensine a bem viver esta consagração.

Aos novos consagrados, tomem muito cuidado para que a ênfase da escravidão de amor à Virgem Mãe de Deus não degenere em preocupação estética com os tipos de correntes que vão ser usadas. A consagração é sobretudo espiritual. As exterioridades, embora importantes, possuem valor simbólico. Usamos cadeias de ferro para nos lembrarmos da nossa submissão a Jesus por meio de Maria.

Neste dia da Encarnação de Jesus, dia em que Ele se reveste da nossa natureza e coloca-se sob os cuidados da Virgem, peçamos à Sua Mãe que nos acolha a nós também e nos gere, em seu ventre, para a vida da Graça e nos faça progredir nas vias da Santidade, a fim de que, por meio dela, cheguemos à plena estatura de Cristo.

Totus tuus, Mariae.
Ad Iesum Per Mariam.

Fábio.

Ano Novo...

E chegamos, enfim, ao último dia do ano, e o mundo ainda tá aí, provando que as suposições, por mais numerosas que sejam, não são capazes de criar a realidade. A realidade é o que é e viveremos bem se nos adequarmos a ela, isto é, se vivermos segundo a verdade. O que acontece, porém, é que uma vez que haja discrepância entre os nossos desejos ou medos e aquilo que existe objetivamente, tendemos a reforçar a tensão pelo apego às nossas próprias vontades e caprichos do nosso ego. Esta é a própria definição da soberba e é isto o que nos fecha para qualquer processo de maturação. É por isso que Jesus põe como pressuposto do seu seguimento a atitude de auto-negação, isto é, de aceitar e amar a realidade tal qual ela é, esvaziando-nos da pretensão de querer moldá-la segundo nossos próprios desejos.

Quando nós não fazemos este ato de conversão e de amor à verdade, cultivamos em nós a neurose de nos pretendermos deuses ou, quando fica-nos evidente a modéstia da nossa força, procuramos vias alternativas para levar a termo as nossas pretensões: é a superstição. E isto nos é muito presente. Hoje à noite, quando formos à Santa Missa, poderemos observar que a imensa maioria das pessoas vestirá branco. Não que haja mal algum em fazê-lo, mas isto no mais das vezes é também uma tentativa de burlar a realidade, acreditando que, por não sei quais forças da cor branca, e por coincidir com um momento específico do movimento de translação da terra, conseguiremos provocar alguma mudança efetiva e mágica no ano vindouro. Pobres de nós...

Mas não queria falar disso. Quero, antes, agradecer a Deus por mais um ano que passa nessa nossa pequena história de vida mortal... Como dizia Sta Teresinha, esta vida é um instante entre duas eternidades, e, como dizia a Teresona, a vida é uma má noite numa má pousada. Agradecemos, mesmo assim, pelo ano que passa e pelo outro que se aproxima e que nos deixa mais próximos daquele grande dia eterno. Agradeço também aos nossos amigos e leitores que têm convivido conosco, pelo menos de modo virtual, já há algum tempo. Unamo-nos todos diante de Nosso Senhor, sem cair nas superstições fúteis nem nas neuroses tão comuns, mas acreditando que se há algo de bom, Ele é a fonte disto, pois só Deus é bom. Saibamos também que até conseguiremos produzir mudanças na nossa vida, mas isto não se fará pela cor das roupas, e sim pelo que o cristianismo chama de "metanóia", isto é, pela completa mudança interior - que não se dá senão em união com Ele - e que, obviamente, provoca uma mudança no campo das ações. Depois de passar tanto tempo buscando vias alternativas e de fazer a experiência da fatuidade dos nossos esforços, por que não passamos a crer, sem reservas, em Deus e a nos abandonar aos Seus cuidados?

Se nos unirmos a Ele, então se dará aquilo de que mais necessitamos: converteremos o nosso coração, amadureceremos e Ele nos dará a clareza e a força necessárias para ver a verdade, fazer o que devemos e enfrentar o que vier. Estes são os meus votos de ano novo. É o que desejo para todos os meus amigos, familiares e conhecidos.

Que a Virgem Maria nos ensine a festejar esta noite de modo cristão, sem excessos e que, estando nós unidos a Ele na Santa Missa, a Sua alegria esteja em nós e a nossa alegria seja plena.

Feliz Natal - não acabou! - e Feliz Ano Novo!

Ad Iesum Per Mariam

Fábio.

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E aí vai uma musiquinha boa, densa e bela pra saudar o ano que chega... Pax.

Assunção de Nossa Senhora - Cardeal Joseph Ratzinger


Abriu-se o templo de Deus no céu e apareceu, no seu templo, a arca do seu testamento. Apareceu em seguida um grande sinal no céu: uma Mulher revestida de sol, a lua debaixo dos seus pés e na cabeça uma coroa de doze estrelas. Estava grávida e gritava de dores, sentindo as angústias de dar à luz. Depois apareceu outro sinal no céu: um grande Dragão vermelho, com sete cabeças e dez chifres, e nas cabeças sete coroas. Varria com a sua cauda uma terça parte das estrelas do céu, e atirou-as à terra. [...] Então a Mulher fugiu para o deserto, onde Deus lhe tinha preparado um retiro. Eu ouvi no céu uma voz forte que dizia: Agora chegou a salvação, o poder e a realiza do nosso Deus, assim como a autoridade do seu Cristo" (Apoc 11,19 - 12, 1-6a.10ab).

A festividade da Assunção de Nossa Senhora põe-nos diante dos olhos, ano após ano, o grande sinal de que nos fala a leitura que acabamos de ouvir: uma mulher revestida de sol, ou seja, impregnada da luz de Deus, que habita em Deus - e na qual Deus habita. Deus e o homem tocam-se e se compenetram. Céu e terra encontram-se. E a lua debaixo dos seus pés significa que a transitoriedade, a condição mortal e a própria morte estão superadas e que o temporal foi elevado à vida eterna. E Ela está sob o sinal da Redenção, pois as doze estrelas indicam a nova família de Deus, representada pelos doze filhos de Jacó e pelos doze Apóstolos de Jesus Cristo.

Esta festa repleta de esperança e alegria mostra-nos que Cristo não quis permanecer só à direita do Pai; de certa forma, é somente agora que se encerra propriamente a comemoração da Páscoa. Cristo, o grão de trigo que morreu, não volta sozinho nem sobe sozinho para o Pai, deixando a terra simplesmente abandonada a si mesma. Ao levar Maria consigo, começa a levar para o alto o mundo, a terra e nós mesmos, de forma que Deus e o mundo se compenetram e começa a aparecer uma nova terra (cfr. Apoc 21,1). Esta é a orientação que o dia de hoje nos dá: o Senhor não permanecerá sozinho, e a nova terra já começou. E ela não é apenas um sonho futuro, mas abre-se no presente e permanece aberta onde quer que o homem se entregue completamente a Deus.

Isto é o que a Bíblia nos diz com a metáfora da Mulher, do sol e das estrelas, e isto é o que a linguagem do tempo litúrgico exprime numa fórmula simples: Maria foi levada em corpo e alma para o céu. Encontramos aqui, portanto, três palavras-chave: Maria - ser humano em quem já se cumpriu todo esse processo, e que por isso representa para nós um sinal de esperança -, céu e corpo. Maria é o ser humano que se adiantou plenamente a nós e que por isso é um foco de esperança para nós. As tentativas feitas ao longo dos últimos duzentos anos para criarmos nós mesmos o homem novo e estabelecermos a nova terra acabaram em catástrofe. Nós somos incapazes de consegui-lo, mas Deus é capaz, e assim o faz, e nos mostra como ir ao seu encontro.

Permanecer fiéis ao céu

tomemos agora as duas palavras-chave que a liturgia nos oferece - céu e corpo, céu e terra -, como conceitos relacionados entre si. À primeira vista, parece ultrapassado falar do céu. Quem o faz hoje? Mais: quem ousa fazê-lo hoje? "Irmãos, permanecei fiéis à terra", dissera Nietzsche, para afastar enfim os nossos olhos do céu e convidar-nos a desfrutar plenamente da terra, sem nada esperar além daquilo que ela nos pode dar. "O céu, deixemo-lo para os pardais", acrescentou Bertold Brecht. E Albert Camus contrapôs deliberadamente o seu programa - "O meu Reino é deste mundo" - às palavras de Cristo: O meu Reino não é deste mundo (Jo 18, 36), e esse foi na verdade o programa de todo um século, pois o nosso século vive de acordo com ele, e em ampla medida nós também vivemos silenciosamente assim.

"O meu reino é deste mundo" significa que devemos exigir do tempo o que, na realidade, só a eternidade pode dar. Precisamos extrair do tempo a eternidade, e isso significa que o tempo sempre nos parece pouco. Corremos o tempo todo atrás do tempo perdido. Se o tempo tem de ser tudo, necessariamente tem de ser insuficiente, e o resultado só pode ser pressa, perda de tempo, falta de tempo. Quando queremos encontrar no tempo a eternidade, o próprio tempo se nos escapa das mãos.

O mesmo acontece com o mundo, com a terra. Quando queremos extrair tudo da terra, ela torna-se necessariamente muito escassa e acaba por ser destruída. As consequências necessárias são o ódio contra os outros, contra nós próprios e contra Deus, a falta de paz e a violência. Portanto, talvez valha a pena voltarmos a pensar o que essa Mulher vestida de sol tem a dizer-nos: que se trata de vivermos para o céu, com a certeza de que assim também se renovará a terra!

Viver para o céu significa abrir-se para Deus, deixá-lo entrar nesta vida. No começo da Idade Moderna, alguém escreveu: "Deveríamos viver como se Deus não existisse". Conhecemos os resultados dessa atitude. Muito pelo contrário, deveríamos dizer: porque Deus existe, devemos viver dando ouvidos à sua Palavra e à sua vontade. Temos de viver sob o seu olhar.

Quando vivemos assim, por um lado a nossa responsabilidade aumenta, mas por outro a vida torna-se mais leve e mais humana. Mais leve, porque todas as perdas, erros e fracassos deixam de ser algo último e definitivo, uma vez que temos a certeza de que o sentido dessas coisas aparecerá um dia, e nem tudo está perdido para sempre; tudo tem o seu significado , e acabaremos por compreendê-lo. Quando vivo para o céu, todas essas coisas continuam a custar-me, mas já não custam tanto porque são apenas algo de penúltimo, porque já não preciso preocupar-me tanto com o que não consigo fazer nem consigo atingir, uma vez que sei: "Também está bem assim. Ele é bom".

E quando morre uma pessoa, sei que voltaremos a ver-nos que ela não me foi arrebatada de maneira definitiva. Aliás, talvez devêssemos praticar exatamente isto: alegrar-nos com o futuro reencontro com aqueles que se afastaram de nós apenas por um pouco de tempo, e com os quais poderemos conviver num contentamento cem por cento puro, sem contrariedades e perturbações desta vida.

E deveríamos pensar, em tudo o que fazemos, que isso tem peso para a eternidade, que Deus nos vê e nos julga, esse Deus que é justo e fonte da justiça. Daqui nasce a responsabilidade por nós mesmos, pelo próximo, pela terra, e ao mesmo tempo nascem a liberdade e a confiança. A vida torna-se mais ampla e maior. Vivemo-la com mais serenidade e ao mesmo tempo com mais decisão, porque sabemos que avançamos numa direção clara - a da justiça e do amor de Deus.

Corporificar a vida cristã

E agora, o corpo. Hoje pensamos que Deus não pode ter nada a ver com a matéria: ela é como é, ela tem as suas leis. Assim o cristianismo reduz-se a mera idéia, perde a sua realidade. Mas, se refletimos, percebemos que nada disso é coerente. Sabemos que a saúde e a doença não são apenas fenômenos biológicos e psicológicos, que o corpo e a alma estão estreitamente vinculados e se condicionam e conformam mutuamente, pois a alma é uma força que modela a nossa vida corporal. E assim sabemos também que o ódio e o amor modificam a vida e modificam o mundo, e sobretudo que o corpo e a alma, a vida e o mundo, se modificam conforme expulsamos Deus ou o acolhemos.

A Virgem Maria é para nós um paradigma disto, pois ELa não adorou apenas a Deus no seu pensamento, mas pôs-se inteiramente à sua disposição, com todo o seu corpo, para que o próprio Deus pudesse tornar-se corpo. Ser cristão também segundo o corpo significa ser cristão no amor à Criação e ao Criador. E aqui deveríamos voltar a tomar consciência de que não conseguiremos preservar a criação se não quisermos conhecer o Criador, de que continuaremos a destruir a terra se não a usarmos e guardarmos em harmonia com Aquele que no-la deu.

Assim, o respeito pelo corpo, o nosso e o dos outros, e o respeito pela terra toda que Deus nos deu deveriam impregnar a nossa vida de cristãos, corporificá-la. E então perceberemos como precisamente nessa corporificação aparecem o novo e o maior, como a luz eterna de Deus transparece através dela.

Desde a Antiguidade, a festa da Assunção de Nossa Senhora está ligada à bênção das ervas medicinais. Este costume baseia-se na lenda segundo a qual, quando se abriu o sepulcro de Maria, o túmulo vazio cheirava a ervas aromáticas e flores. Isto quer dizer: onde um homem vive com Deus e para Deus, também a terra floresce; ali a própria terra se torna bom odor e canto de louvor, assim como, inversamente, a sujeira das almas ase reflete na poluição da terra e na sua destruição, é o que vemos.

As ervas representam, pois, um sinal do segredo de Maria, apontam para a harmonia entre céu e terra. Elas nos dizem: a terra florescerá onde e quando deixarmos Deus entrar nela, onde nos reorientarmos para Ele. Com este espírito, levemo-las para casa, para que nos sejam um sinal de esperança dessa nova terra, um sinal do amor desse Deus que cria os novos céus e a nova terra e os faz florescer em toda a parte em que os homens procuram viver em harmonia com o seu amor.

Joseph Ratzinger, Homilias Sobre os Santos.

Dia do Preciosíssimo Sangue


Hoje é dia do Preciosíssimo Sangue de Nosso Senhor... 
Este sangue suado no Jardim das Oliveiras.
Este sangue derramado profusamente na flagelação.
Este sangue que aguou a Árvore da Santa Cruz.
Este sangue vertido do Sagrado Peito de Nosso Senhor.
Este sangue dado a beber em cada Santa Missa até o fim do mundo.
Este sangue, cuja mínima gota seria suficiente para salvar mil mundos.

Dia São Tomé, Apóstolo de Nosso Senhor


Sempre presente nas quatro listas do Novo Testamento, nos primeiros três Evangelhos ele aparece junto a Mateus (cf. Mt 10,3; Mc 3,18; Lc 6,25), enquanto nos Atos se encontra ao lado de Felipe (cf. At 1,13). Seu nome deriva da raiz hebraica, ta'am, que significa "emparelhado, gêmeo". De fato, o Evangelho de João o chama muitas vezes pelo apelido de "Dídimo" (cf. Jo 11,16; 20,24; 21,2), que em grego quer dizer "gêmeo". Não está clara a razão deste apelido.

É o quarto Evangelho o que nos oferece mais informações que permitem evidenciar alguns traços significativos de sua personalidade. O primeiro tem a ver com a exortação que fez aos demais apóstolos, quando Jesus, num momento crítico de sua vida, decidiu ir a Betânia para ressuscitar Lázaro e aproximou-se perigosamente de Jerusalém (cf. Mt 10,32). Naquela ocasião Tomé disse a seus condiscípulos: "Vamos nós também, para morrermos com Ele!" (Jo 11,16). Esta sua determinação de seguir o Mestre é verdadeiramente exemplar e nos oferece um ensinamento precioso: revela a total disponibilidade para juntar-se a Jesus, até identificar a própria sorte com a dele e querer compartilhar com Ele a prova suprema da morte. De fato, o mais importante é não separar-se nunca de Jesus. Além do mais, quando os Evangelhos usam o verbo "seguir" é para significar que para onde Ele se dirige, ali também deve ir o seu discípulo. Deste modo, a vida cristão se define como uma vida com Jesus Cristo, uma vida que deve ser vivida junto a Ele. São Paulo escreve algo parecido, quando tranquiliza assim os cristãos de Corinto: "Vocês estão em nossos corações para a vida e para a morte" (2Cor 7,3). O que se produz entre o apóstolo e os seus cristãos deve naturalmente valer, antes de mais nada, para a relação entre os cristãos e o próprio Jesus: morrer junto a Ele, viver junto a Ele, estar em seu coração como Ele está no nosso.

Na Última Ceia ocorre uma segunda intervenção de Tomé. Nessa ocasião, Jesus, prevendo a sua iminente partida, anuncia que se vai para preparar os seus discípulos e para que estejam também onde ele se encontra; e lhes precisa: "E para onde eu vou, vocês já conhecem o caminho" (Jo 14,4). E então Tomé intervém dizendo: "Senhor, nós não sabemos para onde vais; como podemos conhecer o caminho?" (Jo 14,5). Na verdade, com esta resposta ele está se colocando num nível de entendimento bastante limitado; mas estas palavras suas oferecem a Jesus a ocasião de pronunciar a célebre definição: "Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida" (Jo 14,6). Portanto Tomé é o primeiro a quem Ele faz esta revelação, embora seja válida para todos nós e para todos os tempos. Cada vez que ouvimos ou lemos estas palavras, podemos nos colocar na mente de tomé e imaginar que o Senhor fala também conosco como falou com ele. Ao mesmo tempo, a sua pergunta nos dá o direito, por assim dizer, de pedir explicações a Jesus. Frequentemente não compreendemos a Ele. Temos a coragem de dizer: não o compreendo, Senhor, ouça-me, ajude-me a compreender. Deste modo, com esta franqueza, que é a verdadeira forma de rezar, de falar com Jesus, expressamos a pobreza de nossa capacidade de compreensão, e ao mesmo tempo nos mostramos confiantes como quem espera luz e força da parte de quem está capacitado a dá-las.

Conhecidíssima e até proverbial é a cena de Tomé incrédulo, realizada oito dias depois da Páscoa. Num primeiro momento, não acreditou que Jesus tivesse aparecido em sua ausência e disse: "Se eu não vir a marca dos pregos nas mãos de Jesus, se eu não colocar o meu dedo na marca dos pregos, e se eu não colocar a minha mão na ferida dele, eu não acreditarei" (Jo 20,25). Do fundo destas palavras emerge a convicção de que Jesus é reconhecível não tanto por seu rosto quanto por suas feridas. Tomé considera que as marcas significativas da identidade de Jesus agora são, antes de tudo, suas feridas, nas quais se revela até que ponto Ele nos amou. Nisso o apóstolo não se equivoca. Como sabemos, oito dias depois Jesus volta a aparecer entre os seus discípulos, e desta vez Tomá está presente. E Jesus o interpela: "Estenda aqui o seu dedo e veja as minhas mãos. Estenda a sua mão e toque a minha ferida. Não seja incrédulo, mas tenha fé" (Jo 20,27). Tomé reage com a profissão de fé mais maravilhosa de todo o Novo Testamento: "Meu Senhor e meu Deus!" (Jo 20,28). 

Santo Agostinho comenta a este propósito: Tomé "via e tocava ao homem, mas confessava a sua fé em Deus, que não via e nem tocava. Mas aquilo que via e tocava o induzia a crer naquilo de que até aquele momento duvidava" (In Iohann, 121,5). O evangelista continua com uma última palavra de Jesus a Tomé: "Você acreditou porque viu? Felizes os que acreditaram sem ter visto!" (Jo 20,29). Esta frase também pode ser transportada para o presente. Aqui Jesus enuncia um princípio fundamental para os cristãos que viriam depois de Tomé, quer dizer, para todos nós. É interessante observar como outro Tomás, o grande teólogo medieval de Aquino, compara esta fórmula de felicidade com aquela aparentemente oposta que transmite Lucas: "Felizes os olhos que vêem o que vocês vêem" (Lc 10,23). Mas o de Aquino comenta: "Merece muito mais quem crê sem ver do que quem crê vendo" (In Iohann, XX lectio VI, 2566). De fato, a Carta aos Judeus, quando refere toda a série de antigos patriarcas bíblicos, que acreditaram em Deus sem ver a realização de suas promessas, define a fé como uma "forma de possuir o que se espera, um meio de conhecer as coisas que não se vêem" (Hb 11,1). O caso do apóstolo Tomé é importante para nós ao menos por três motivos: primeiro, porque nos consola de nossa insegurança; segundo, porque nos demonstra que toda dúvida pode desembocar numa saída luminosa livre de qualquer incerteza; e, por último, porque as palavras que lhe dirige Jesus nos lembram o verdadeiro sentido da fé madura e nos animam a continuar, apesar das dificuldades, em nosso caminho de adesão a Ele.

Há uma última observação sobre Tomé no quarto Evangelho, que o apresenta como testemunha do Ressuscitado no momento seguinte à pesca milagrosa no lago de Tiberíades (cf. Jo 21,2). Naquela ocasião ele é mencionado, precisamente, logo depois de Simão Pedro: sinal evidente da notável importância de que gozava entre as primeiras comunidades cristãs. De fato, em seu nome logo foram escritos os Atos e o Evangelho de Tomé, ambos apócrifos, mas importantes para o estudo das origens do cristianismo. Por último, vamos lembrar que, segundo uma antiga tradição, Tomé evangelizou primeiro a Síria e a Pérsia (assim é referido por Orígenes, partindo de Eusébio de Cesareia, Hist. Eccl. 3, 1), e mais tarde alcançou a Índia ocidental (cf. Atos de Tomás 1-2 e 17 ss.), e daí também chegou à Índia meridional. Com esta perspectiva missionária terminamos a nossa reflexão, expressando o desejo de que o exemplo de Tomé confirme mais, a cada dia, a nossa fé em jesus Cristo, nosso Senhor e nosso Deus.

Bento XVI, Os Apóstolos e os Primeiros Discípulos de Cristo.

Pedro e Paulo


Hoje a Igreja celebra a memória dos Apóstolos Pedro e Paulo, chamados de "as duas colunas da Igreja". A um foi dada a Missão de ser alicerce da Igreja de Cristo e de ligar e desligar em Seu nome. Ao outro, exigiu-se que saísse pelo mundo pregando o Evangelho aos gentios. Ao primeiro, pediu-se confirmar os que já estão na Fé (Cf. Lc 22,32). Ao outro, ordenou-se levar a Boa Nova aos que ainda não a conheciam. A ambos, ofereceu-se-lhes a honra de coroarem a vida terrena com o martírio, supremo testemunho de amor a Nosso Senhor.

Ambos foram e são católicos. Interagem conosco pela intercessão dos santos. Mas também deixaram-nos missões análogas: a de convertermos os que estão fora da Igreja, para que Nosso Senhor estenda cada vez mais os efeitos da Redenção a todos os homens; e a conversão dos já católicos, a fim de que continuem a progredir na Fé - uma vez que quem não avança, regride - e gradativamente se aperfeiçoem até a maturidade cristã, isto é, até o perfeito desenvolvimento de Cristo em nós.

É preciso estarmos atentos a ambos os aspectos. O mundo precisa conhecer a beleza de Nosso Senhor. Mas também o precisamos nós, já que Nosso Senhor é um abismo, sempre inesgotável. E a exemplo destes grandes apóstolos, é preciso que nós sacrifiquemos a nossa vida por Jesus. Ainda que não nos seja dada a coroa do martírio, que a nossa vida cotidiana possa ser sacrificada, gastada no serviço a Ele. Quando não apenas entendermos isto, mas começarmos efetivamente a viver deste modo, então sim: exalaremos o bom odor de Cristo (Cf. II Cor 2,15) e ele encherá toda a casa (Cf. Jo 12,1-3).

Glória a Ti, Igreja Santa, oh Cidade dos Cristãos!

Pedro: a Rocha sobre a qual Cristo fundou a Igreja


O evangelista João, ao relatar o primeiro encontro de Jesus com Simão, irmão de André, assinala um fato singular: Jesus "olhou bem para Simão e disse: 'Você é Simão, o filho de João. Você vai se chamar Cefas (que quer dizer Pedra)'" (Jo 1:42). Jesus não costumava mudar o nome de seus discípulos. Excetuando-se o nome de "filhos do trovão", que atribui num caso concreto aos filhos de Zebedeu (cf. Mc 3,17) e que não volta a utilizar, Ele nunca atribuiu outro nome a nenhum de seus discípulos. Por outro lado, o fez com Simão, chamando-o Cefas. Que foi logo traduzido em grego por Petros, e em latim por Petrus. E foi traduzido precisamente porque não era só um nome; era uma "ordem" que Petrus recebia do Senhor. O novo nome de Petrus aparecerá várias vezes nos Evangelhos e acabará substituindo o nome original de Simão.

O dado é particularmente relevante se levamos em consideração que, no Antigo Testamento, a mudança de nome, em geral, significava a incumbência de uma missão (cf. Gn 17,5; 32,28 ss. etc.). De fato, a vontade de Cristo de atribuir a Pedro um papel especial dentro do Colégio apostólico fica demonstrada em numerosas provas: quando a multidão se apinhava em volta dele nas margens do lago de Genesaré, entre as duas barcas ali atracadas, Jesus escolhe a de Simão (Lc 5,3); quando em determinadas circunstâncias Jesus se faz acompanhar só de três discípulos, Pedro sempre é mencionado como o primeiro do grupo: assim foi na ressurreição da filha de Jairo (cf. Mc 5,37; Lc 8,51), na Transfiguração (cf. Mc 9,2; Mt 17,1; Lc 9,28) e, por último, durante a agonia no Jardim de Getsêmani (cf. Mc 14,33; Mt 26,36). E ainda tem mais: quando se dirigem a Pedro os cobradores de taxas do templo, o Mestre só paga por si e por ele (cf. Mt 17,24-27); Pedro é o primeiro a quem Ele lava os pés na Última Ceia (cf. Jo 13,6), e reza só por ele para que não se perca a fé e possa fortalecer com ela os demais discípulos (cf. 22,20-31).

Além do mais, o próprio Pedro é consciente de sua posição particular: frequentemente, em nome dos demais, intervém pedindo uma explicação para uma parábola difícil (Mt 15,15), ou o sentido concreto de um preceito (Mt 18,21), ou a promessa formal de uma recompensa (Mt 19,27). É ele quem resolve certas situações intervindo em nome de todos. Assim, quando Jesus, chateado pela incompreensão da multidão depois do discurso sobre o "pão da vida", pergunta: "Vocês também querem ir embora?", a resposta de Pedro é peremptória: "A quem iremos, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna" (Jo 6,67-69). Igualmente determinada é a profissão de fé que, também em nome dos Doze, faz em Cesareia de Felipe. Quando Jesus pergunta: "E vocês, quem dizem que eu sou?", Pedro responde: "Tu és o Messias, o filho de Deus vivo" (Mt 16,15-16). Em resposta, Jesus pronuncia então a declaração solene que estabelece, de maneira definitiva, o papel de Pedro na Igreja: "Por isso eu lhe digo: você é Pedro, e sobre esta pedra construirei a minha Igreja, e o poder da morte nunca poderá vencê-la. Eu lhe darei as chaves do reino do céu, e o que você ligar na terra será ligado no céu e o que você desligar na Terra será desligado no céu" (Mt 16,18-19). As três metáforas a que Jesus recorre são muito claras em si mesmas: Pedro será o alicerce de pedra sobre o qual se apoiará o edifício da Igreja; ele terá as chaves do reino do céu para abri-lo e fechá-lo a quem lhe pareça apropriado; por último, ele poderá atar e desatar, quer dizer, poderá estabelecer ou proibir o que considerar necessário para a vida da Igreja, que é e continua sendo a de Cristo. Sempre será a Igreja de Cristo e não de Pedro. Isto que está descrito com imagens tão plásticas ilustra o que a reflexão posterior qualificou com o termo de "primado de jurisdição".

Esta posição preeminente que Jesus quis conferir a Pedro verifica-se também depois da ressurreição: Jesus encarrega as mulheres de levarem a notícia a Pedro, sem citar os demais apóstolos (cf. Mc 16,7); em direção a ele e a João corre Madalena para informar que a pedra fora movida na entrada do sepulcro (cf. Jo 20,2), e João lhe cederá o passo quando os dois chegarem diante do túmulo vazio (cf. Jo 20,4-6); depois será Pedro, dentre todos os discípulos, a primeira testemunha de uma aparição do Ressuscitado (cf. Lc 24,34; 1Cor 15,5). Este papel, evidenciado com decisão (cf. Jo 20,3-10), marca a continuidade entre sua preeminência no grupo apostólico e a preeminência que seguirá tendo na comunidade nascida com os eventos pascais, como testemunha o livro dos Atos (cf. 1,15-26; 2,14-40; 3,12-16; 4,8-12; 5,1-11,29; 8,14-17; 10 etc.). Seu comportamento é considerado tão decisivo que ele se torna o centro dos olhares e também das críticas (cf. At 11,1-18; Gl 2,11-14). No conhecido Conselho de Jerusalém, Pedro desempenha uma função diretiva (cf. At 15; Lg 2,1-10) e, precisamente por ser testemunha da fé autêntica, o próprio Paulo lhe reconhecerá certa qualidade de "primeiro" (cf. 1Cor 15,5; Gl 1,18; 2,7 s. etc.). Além do mais, o fato de que vários textos-chave atribuídos a Pedro possam ser interpretados no conceito da Última Ceia, em que Cisto confere a Pedro o ministério de confirmar aos irmãos (cf. Lc 22,31 s.), mostra como a Igreja que nasce do memorial pascal celebrado na Eucaristia tem no ministério confiado a Pedro um de seus elementos constitutivos.

Esta contextualização do Primado de Pedro na Última Ceia, no momento constituinte da Eucaristia, Páscoa do Senhor, indica também o sentido último de seu Primado: Pedro, por todos os tempos, deve ser o guardião da comunhão com Cristo; deve guiar na comunhão com Cristo; deve preocupar-se que a rede não se rompa e possa perdurar a comunhão universal. Só juntos podemos estar com Cristo, que é o Senhor de todos. A responsabilidade de Pedro é garantir a comunhão com Cristo, com a caridade de Cristo, guiar-nos na realização desta caridade na vida de cada dia. Rezemos para que o Primado de Pedro, confiado a pobres seres humanos, possa exercer-se sempre com este sentido original desejado pelo Senhor e possa ser sempre melhor reconhecido em seu verdadeiro significado por irmãos que, todavia, não estão em plena comunhão conosco.

Bento XVI, Os Apóstolos e Os Primeiros Discípulos de Cristo
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