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De que modo os acidentes permanecem na Eucaristia


 Em segundo lugar, o acidente pode ser miraculosamente separado da substância e permanecer sem suporte algum, sustentado pela virtude divina, visto que o efeito depende muito mais da causa primeira do que da sua causa segunda. A influência da causa primeira, porque ela é mais universal e mais eficaz, pode manter o efeito quando desaparece a causa segunda. Quando um governo deixa de existir, todos os poderes subalternos, que estavam subordinados à sua autoridade, deixam de existir com ele;; mas, se no mesmo instante do desaparecimento uma melhor e mais forte autoridade substitui a que desaparece e penetra nos mesmos poderes subalternos, de fato eles não continuam as suas funções e representações? É isto que acontece no sacramento do altar. Deve-se concluir, pois, sem hesitação alguma, acrescenta Sto Tomás, que Deus pode fazer existir o acidente sem suporte algum.

HUGON, Padre Édouard, O. P. Os princípios da Filosofia de São Tomás de Aquino: as vinte e quatro teses fundamentais. Porto Alegre: EDIPUCRS, 1998. p. 75-76

Contemplação filosófica: ver as coisas à luz da eternidade


Olavo de Carvalho

Na filosofia grega, a palavra theoria tinha uma acepção precisa. Era correlata das noções de logos ("razão" ou "linguagem"), de eidos ("idéia" ou "essência"), de ón ("ser", "ente") e de aletheia ("patência", "desvelamento", revelação da verdade oculta).

O homem teorético, o filósofo, não se ocupava genericamente de contemplar, de olhar, num sentido em que os demais homens também podiam contemplar e olhar. Por exemplo, todos os homens contemplavam os espetáculos de teatro, a beleza dos seres humanos e da paisagem, etc. A contemplação do homem comum podia ser lúdica, estética, utilitária ou o que quer que fosse. A do filósofo, não. Era um tipo muito determinado de contemplação, com um motivo específico e um objetivo específico, que faziam dela, propriamente, uma contemplação filosófica e não outra qualquer. O filósofo contemplava as coisas para captar a sua essência (eidos), patenteando (aletheia) o seu verdadeiro ser (ón); em seguida o filósofo dizia (logos) o que era essa coisa, patenteando em palavras (aletheia) o verdadeiro ser (ón) que estava oculto.

Dito de outro modo, as coisas, os fenômenos, eram para o filósofo signos, que ele decifrava em busca do significado ou essência. Entre o signo e o significado, a chave interpretativa era a razão ou logos. Pela razão, o homem filósofo saltava de um plano para o outro: do plano da fenomenalidade instável, movediça, enganosa, para o plano das essências, do ser verdadeiro. Este plano era considerado superior, por abranger e ultrapassar o mundo dos fenômenos (ele contém todos os fenômenos manifestos, e mais um sem-número de essências não manifestadas ou possibilidades), e também por ser estável, imutável, eterno. Esta postura se tornou mais clara e autoconsciente a partir do platonismo, porém já era a dos eleáticos. Em suma, ela se baseia na crença de que todos os fatos e todos os entes são fenômenos - "aparecimentos" - de alguma coisa: são exteriorizações ou exemplificações das essências ou possibilidades, contidas eternamente na Inteligência Divina. O filósofo grego contemplava as coisas, portanto, sub specie aeternitatis, isto é, na categoria da eternidade, à luz da eternidade; buscava nelas a sua significação eterna, superior à aparência fenomênica e transitória. Esta contemplação conferia a essas coisas, portanto, uma dignidade e uma realidade superiores, uma consistência ontológica superior. Pouco importa, para os fins desta análise, a diferença entre platonismo e aristotelismo. Para Platão, as essências constituíam um mundo separado, transcendente; para Aristóteles, o núcleo inteligível era imanente ao mundo sensível; mas em ambos os casos tratava-se de passar da fenomenalidade imediata a um estrato mais profundo e permanente.

A interpretação (hermeneia) das aparências consistia nessa subida de nível ontológico, desde o ente fenomênico até o ser essencial. O termo hermeneia deriva do nome do deus Hermes, ou Mercúrio, o deus psicopompo, isto é, "guia das almas", encarregado de levá-las na escalada e descida através dos mundos ou planos de realidade, do sensível ao inteligível, do particular, transitório e aparente ao universal e estável. Nisto consistia, basicamente, a postura interpretativa do filósofo grego.

Qual a diferença essencial entre a atitude contemplativa - ou interpretativa - e a atitude transformante, isto é, entre a theoria e a praxis?

A theoria, ao elevar o objeto até o nível da sua idéia, essência ou arquétipo, capta o esquema de possibilidades do qual esse objeto é a manifestação particular e concreta. Por exemplo, o arquétipo de "cavalo", a possibilidade "cavalo", pode manifestar-se em cavalos pretos ou malhados, árabes, percherões ou mangalargas, de sela ou de trabalho, etc. Pode manifestar-se em prosaicos cavalos de carroças ou em cavalos célebres e quase personalizados como o cavalo de Alexandre. Pode manifestar-se em seres míticos que "participam da cavalidade", como o pégaso ou o unicórnio, cada qual, por sua vez, contendo um feixe de significações e intenções simbólicas. Enfim, a razão, ao investigar o ser do objeto, eleva este último até o seu núcleo superior de possibilidades; resgatando-o da sua acidentalidade empírica e restituindo, por assim dizer, seu sentido "eterno". A consequência "prática" disto é portentosa. Ao conhecr um arquétipo, sei não apenas o que a coisa é atualmente e empiricamente, mas tudo o que ela poderia ser, toda a latência de possibilidades que ela pode manifestar e que se insinua por trás da sua manifestação singular, localizada no espaço e no tempo.

A praxis, ao contrário, transforma a coisa, isto é, atualiza uma dessas possibilidades, excluindo imediatamente todas as demais. Por exemplo, uma árvore. Se investigo o objeto "´rvore" para captar o seu arquétipo, tomo consciência do que ela é, do que poderia ser, do que ela pode significar para mim, para outros, em outros planos de realidade, etc. Porém, se a transformo em cadeira, ela já não pode transformar-se em mesa ou estante, e muito menos em árvore. De cadeira, ela só pode agora transformar-se em cadeira velha, e depois em lixo.

Para o filósofo, portanto, o fenômeno, a aparência sensível imediata é sobretudo um signo o símbolo de um ser. Para o homem da praxis, a aparência é sempre matéria-prima das transformações desejadas. A investigação teórica insere o ser no corpo da possibilidade que o contém, e o explica e integra no sentido total da realidade. A praxis, ao contrário, limita suas possibilidades, realizando uma delas, sem via de retorno. Para a theoria, o ente é sobretudo a sua forma, no sentido aristotélico, isto é, aquilo que faz com que ele seja o que é; para a praxis, o ente é sobretudo matéria, isto é, aquilo que faz com que ele possa tornar-se outra coisa que não aquilo que é. Não se deve confundir esta oposição com a do "estático" e a do "dinâmico", porque o dinamismo interno faz parte da forma (por exemplo, a forma da semente é a planta completa em que ela tem o dom de se transformar). Mais certo é dizer que a theoria se interessa pelo que um ente é em si e por si, e a praxis se interessa pelo que ele não é, pelo ser secundário, às vezes pelo falso ser ou arremedo de ser que podemos fabricar com ele. Era neste sentido que as escrituras hindus negavam que a ação pudesse trazer conhecimento, de qualquer espécie que fosse. A ação produz apenas transformação, fluxo de impressões, ilusão, da qual saímos apenas pelo recuo reflexivo posterior, pela "negação" teorética e crítica da ação consumada: o espírito filosófico, potência latente no homo sapiens, só se atualiza como reflexão sobre as desilusões do homo faber.

Olavo de Carvalho. O jardim das aflições. 2ª Ed. São Paulo: É Realizações, 2000. p.112-114.

O objeto natural da vontade - o Sumo Bem


"Não é a vontade humana, como apetite, cega em si, que está sabendo para que ela tende, impulsionada pela fome e sede de felicidade, apetecendo o bem correspondente que a sacie plenamente, mas é a razão metafísica que descobre a realidade necessária deste bem. Ela analisa, antes de tudo, o objeto formal da vontade como tendência natural. Este objeto não é tal ou tal bem, mas o bem como tal, bem como bem, sem nenhuma limitação. Daí resulta que a vontade humana, como apetite natural, tende para o bem ilimitado, a fim de saciar a sua sede de felicidade, o amor. A felicidade pode realizar-se só possuindo o bem correspondente à amplidão da aspiração natural. Esta amplidão é ilimitada. Portanto, o bem correspondente não pode ser encontrado em nenhum ente finito, mas só no Bem que concentre em si a totalidade do bem, ou seja, no Sumo Bem. Por isso o Sumo Bem é real. É impossível que o amor natural volitivo, reto, que proclama perante a razão metafísica a realidade do Bem sem limites, seja frustrado. O amor natural é sempre reto, não mente. Sem a realidade do Sumo Bem, a vontade no seu apetite natural seria contraditória, pois ela existiria assim lançada, porque existe e, ao mesmo tempo não existiria, porque o Sumo Bem, para o Qual tende inevitavelmente, que a atrai, não poderia existir. O Sumo Bem é Deus, como a metafísica evidencia competentemente. Deus, possuído como Sumo Bem, gera o amor e manifesta-se como Amor, Raiz profunda e última, a Fonte da felicidade."

LADUSÃNS, Prof. Dr. Pe. Stanislavs. Gnosiologia Pluridimensional. São Paulo: Loyola, 1992. p.26-27.

O Panteísmo e a Gnose, fundadores da Modernidade, contra a Igreja


Prof. Orlando Fedeli

"Com a morte de Cristo no Calvário, o homem foi redimido e o Reino de Deus começou de novo a existir, por meio da Igreja. Com a morte de Jesus na Cruz, o demônio foi vencido e começava a ser construída solidamente a Civitas Dei. 

Ela teve como fundamento a verdade revelada por Cristo e o sangue vertido por Cristo no Calvário. A Cidade de Deus foi combatida incessantemente na História, ora pela violência - pelo leão panteísta -, ora pela astúcia da heresia suscitada pela serpente. Violência e heresia se sucedem na História, atacando a Igreja Católica. 

Logo depois do Calvário, supremo ato de violência deicida cometida pelo fermento fariseu, começaram as perseguições na arena romana. O sangue dos mártires foi semente de cristãos. Em 313, o edito de Constantino livrou a Igreja da violência romana. Imediatamente nasceram as grandes heresias cristológicas: o arianismo (317), o nestorianismo, o eutiquismo, a iconoclastia, para citar algumas heresias orientais.

Vencida estas pelos grandes Padres da Igreja e pelos grandes Concílios, recomeçou a perseguição violenta à Igreja Católica, através do maometismo, nascido da pregação de um rabino, em Meca. As cruzadas puseram um dique à expansão islâmica. Surgiu então a gnose cátara que quase destruiu a Cristandade. Simão de Montfort e a Santa Inquisição salvaram a Igreja, a civilização, e a própria humanidade, como reconheceu o historiador protestante Lea.

A Gnose se refugiou no Trovadorismo e no Humanismo.

A Cidade de Deus alcança seu apogeu na Idade Média, no século XIII. Foi nessa época histórica que o homem alcançou o equilíbrio tetraédrico, alcançou a mais alta sabedoria com base na Metafísica escolástica de São Tomás de Aquino.

Desgraçadamente, num mesmo ano, em 1274, a Igreja perdeu São Tomás e São Boaventura.

Com Duns Scoto - declarou-o Bento XVI em sua aula magistral de Regensburg - com Duns Scoto a Catedral do Saber medieval, a Escolástica, começou a ser destruída. Esse filósofo franciscano defendeu a univocidade do ser, e destruiu a analogia escolástica. Ele fez triunfar o voluntarismo independente do intelecto.

De Duns Scoto nasceram a Gnose do dominicano Mestre Eckhart, e o Panteísmo do franciscano Frei Guilherme de Ockham, dos quais vai nascer a Modernidade.

Esses dois naturalistas perverteram a Verdade católica.

Perverteram... Isto é, colocaram a verdade em seu versum, em seu avesso.

Desde então, como confessou Hegel, nasceu a Filosofia como a "ciência que coloca o mundo às avessas".

Colocar o Mundo às avessas. Fazer da Verdade, mentira. Do bem, mal. Fazer a criatura ser Deus. Identificar Deus, o Eu e o Mundo. Inverter o tetraedro. Negar o intelecto e o conhecimento racional. Instaurar a dialética gnóstica, que afirma a identidade dos contrários. A mentira como verdade. O diabo como Deus.

Repetiu-se o pecado de Adão.

Repetiu-se o pecado antimetafísico.

E foi desse pecado antimetafísico que nasceu a Modernidade.

O Pecado de Adão.

A imortalidade como premissa do método filosófico


Olavo de Carvalho

Se somos imortais, temos de sê-lo em essência e não por acidente. A imortalidade é então a nossa verdadeira condição e o plano de realidade no qual efetivamente existimos. Nesse caso, a presente vida corporal não é senão uma fração diminuta da nossa realidade, uma aparência momentânea que encobre a nossa verdadeira substância. Em consequência, todo o conhecimento que podemos adquirir dentro dos limites da existência corporal é apenas uma aparência dentro de uma aparência. Ainda que apreenda porções genuínas da realidade, não pode ter em si seu próprio fundamento, mas tem de buscá-lo na esfera da imortalidade.

Tudo isso é bem claro. O que confunde as coisas é que o termo "imortalidade", na presente cultura, adquiriu a conotação de algo que só se manifesta - se existe - depois da morte física. Esconde-se aí uma sugestão inteiramente absurda: somos mortais em vida, mas "tornamo-nos" imortais após a morte, como se a morte fosse a passagem a um estado de existência radicalmente separado, heterogêneo e incomunicável com a vida presente. É nesse pressuposto que repousa toda a esperança de um conhecimento puramente imanente, sem referências ao "além". Se a imortalidade existe, essa esperança é tão absurda quanto o pressuposto que a sustenta. Se temos uma vida que transcende toda duração, essa vida transcende, e portanto abrange, em vez de excluir, a sua fatia imersa em duração. Se somos imortais, temos de sê-lo agora, desde a vida presente, em vez de sermos, por assim dizer, imortalizados pela morte. A morte não pode imortalizar o mortal: só pode tornar manifesta a imortalidade preexistente e impugnar, no mesmo ato, a ilusão da mortalidade.

Mas, se já somos imortais nesta vida, é claro que não podemos conhecer adequadamente esta última senão à luz da imortalidade: o conhecimento mortal da vida mortal é o conhecimento ilusório de uma ilusão.

O esclarecimento da imortalidade torna-se assim uma exigência primeira do método filosófico: ou demonstramos que a imortalidade não existe ou, caso a aceitemos ao menos como hipótese, temos de fundar nela toda a possibilidade de um conhecimento efetivo da realidade.

Demonstrar que a imortalidade existe pode ser difícil, mas provar que ela não existe é impossível: todas as provas estariam limitadas ao acessível na vida presente, em nada debilitando a possibilidade de que haja algo para além dela. Já as provas da imortalidade nada perdem com essa limitação, de vez que a vida presente está dentro da vida imortal e o que se sabe de uma pode revelar algo da outra.

As provas, no entanto, de nada servem se, uma vez obtidas, não modificam em nada o hábito reflexo de raciocinar a partir da vida presente como se esta fosse um todo fechado e auto-suficiente - hábito que tanto pode fundar-se na negação quanto na afirmação da imortalidade.

A própria busca de provas cientificamente válidas, obrigantes, portanto, para toda a comunidade dos estudiosos, já tende a fazer da existência presente a medida da vida imortal, já que, na escala desta última, a autoridade humana da comunidade científica não conta para absolutamente nada.

De um lado, a prova científica da imortalidade não dá a ninguém, por si, uma consciência de imortalidade pessoal e muito menos a força para operar a passagem de nível desde uma cognição baseada na experiência temporal a outra fundada no senso de imortalidade.

De outro lado, quem quer que tenha operado esta passagem não precisa de provas científicas daquilo que lhe foi dado em experiência pessoal direta. Pode usar essas provas como meios pedagógicos para estimular os outros a buscar experiência idêntica, ou para tapar a boca de adversários da imortalidade, mas esses dois objetivos são menores e secundários em comparação com a experiência em si.

A expressão "experiência da imortalidade" é, decerto, metonímica. Designa o objeto da experiência por uma de suas partes, subentendendo que esta requer incontornavelmente a existência do todo. Deve-se falar de experiências de cognição extracorpórea, ou mais propriamente supracorpórea, estando aí implícito que, se a consciência opera fora e acima do corpo, não tem por que morrer quando ele morre.

Essas experiências não são necessariamente "paranormais". Qualquer um pode ter acesso a elas, contanto que se prepare para isso mediante uma série adequada de meditações. Em geral não se trata de perceber objetos à distância, ou futuros, mas de tomar consciência daquilo que, na percepção comum e corrente, já é supracorpóreo embora não seja percebido habitualmente como tal. Tão logo você assuma consciência dos elementos supracorpóreos que perpassam e fundamentam a percepção corporal, sua noção de "eu" vai modificar-se automaticamente. Quando digo "assumir consciência"quero dizer que há aí algo mais que um simples ato de percepção isolado ou mesmo repetido. "Assumir consciência" é algo mais que "tomar consciência": implica um ato de responsabilidade intelectual e moral pelo qual você se compromete intimamente a não permitir que a porta aberta para a consciência de extracorporeidade se feche e o conteúdo aí assimilado se dilua no fluxo de impressões corporais até ser esquecido ou ao menos perder toda força estruturante sobre a sua vivência de "eu".

Olavo de Carvalho, A Filosofia e o seu inverso.  São Paulo: Vide Editorial, 2012. p.105-108.

Consequências concretas da perda da capacidade de apreciação da bondade intrínseca dos seres

Os modernos meios de comunicação de massas exercem um influxo mais poderoso nos domínios do bonum [que nos domínios do verum]. Pois, enquanto bom, tudo aquilo que é reivindica também uma réplica, uma resposta, por parte do homem, ainda que de natureza distinta daquela que lhe é solicitada enquanto verdade. Poderíamos desdobrar essa relação em três momentos:

1) em primeiro lugar o bom pede nossa aprovação, que nós adiramos a ele: também verbalmente, mas sobretudo com as fibras mais íntimas de nosso ser, com toda a nossa pessoa;

2) na continuação, o que se encontra dotado de bondade postula que se deseje sinceramente sua plenitude, seu enaltecimento perfectivo, o desabrochar enriquecedor contido na energia primordial do seu ato de ser;

3) por fim, nossa "resposta" ao bom levar-nos-á, na medida do possível, a apoiar esse desenvolvimento de perfeição com nossa própria atividade, a cooperar com fatos para a realização do seu derradeiro apogeu.

Tudo o que diminua o alcance dessa resposta, por suprimir um ou mais desses elementos, eqüivale - naquilo que está nas nossas mãos - a cercear a realidade em sua constitutiva índole de ente-bom.

Dando continuidade ao argumento, podemos dizer que, obviamente, o bombardeio informativo a que, com maior ou menor vontade, nossos contemporâneos são submetidos, acaba por lhes tolher uma possível ação plena de vibração e de brio, tal como exige a realidade que os circunda em virtude de sua intrínseca bondade.

E, como consequência, posto que ens e bonum se identificam, o universo deixa de ser percebido e vivido como real.

Logicamente, nenhum homem tem a obrigação de responder com todas as suas consequências à bondade ou malícia de quanto os meios de comunicação oferecem a seu conhecimento. Sua própria índole espaço-temporal o impede. Não vão por aí aos tiros. O perigo reside em que a contínua exposição à realidade perante as quais não pode reagir, nem na promoção do seu bem nem sufocando o seu mal, vá atrofiando a sua própria capacidade de resposta e acabe por se comportar perante a própria circunstância do mesmo modo como se relaciona com o que está fora de seu âmbito de ação. Um grande número de estudos experimentais mostram que esse processo afetou boa parte de nossos concidadãos.

E é lógico. A criança exposta durante anos a milhares de cenas de violência, as quais não só não repudia, senão que acaba inclusive por aprovar e buscar; o adulto que dia-a-dia vê desfilar diante dele no jornal da televisão atrocidades que exigiriam uma atuação decidida com o objetivo de suprimi-las; o cidadão que se acostuma a simples condenações verbais de atentados por parte daqueles que, podendo, não movem um dedo para pôr fim a esses despropósitos ...; como não irão todos eles habituando-se a desnudar a realidade de seu caráter constitutivo de bondade ou malícia, que reclama uma resposta? Como não acabarão por tratar as mediações com a família, o trabalho ou a comunidade política com a mais radical atonia e carência de ação incisiva que lhes impõem os meios de comunicação? Como não haveriam de se retrair ao privado?

Porque, inclusive, a simples aprovação ou desaprovação profunda, sincera, da multiplicidade de acontecimentos de que toma notícia submeteria qualquer subjetividade a uma tal tensão que apenas pessoas de especial riqueza humana seriam capazes de suportar. A conclusão é evidente: evitam-se as respostas pessoais nos três níveis a que antes aludíamos e, quase instintivamente, estende-se esse modo de comportamento à totalidade do próprio mundo. Em consequência, o universo assim mutilado vai-se tornando chato, insubstancial, monocórdio e incapaz, por sua vez, de construir um homem que possa se abrir francamente ao som da verdade e do bem. 

E surge, onipresente, o aborrecimento: um tédio sem precedentes, universal, quase ontológico, derivado de uma "realidade-sem-ser". Inicia-se, então, a ansiosa busca dos sucedâneos: sexo, droga, emoções "fortes"... O incomparável êxito das denominadas "novelas televisivas" explica-se, em parte, pelo fato de oferecerem um substitutivo à exigência humana de mover-se e trabalhar diante do bom e do mau: uma débil alternativa que substitui a reação vital e ontológica por uma simples comoção sentimentalóide, mas que oferece ao sujeito a pequena e superficial sacudida que pode suportar uma existência sem autêntica paixão pelo real, sem pathos metafísico.

(Refleti muito sobre tudo isso, antes que os dramas televisivos baseados na vida real tivessem sido produzidos em tal quantidade que dessem origem a um processo inflacionário. O que levou Alejandro Navas a sentenciar: "O interminável desfile de situações trágicas sobre a telinha tem outro efeito complementar sobre o espectador habitual: o entretenimento obsessivo com as vidas dos demais provocado por uma curiosidade mórbida. O espectador, que desaparece na passividade, preenche seu vazio com as imagens das vidas alheias. Essa contemplação dos dramas e problemas alheios oferecidos pela televisão serve de desculpa para contentar-se com a própria mediocridade. E ver como os poderosos, os bem-arrumados, os famosos sofrem da mesma maneira que os demais mortais, torna mais fácil ao espectador massificado realizar a sua parte de se sentir eximido da tarefa de assumir as próprias responsabilidades.

E, na medida em que a televisão ocupa cada vez mais horas dos espectadores, a comunicação interpessoal debilita-se, decai a vida familiar, diminui a atenção dedicada às crianças. E o resultado desse processo será o surgimento de novas gerações de indivíduos alienados, sem defesas intelectuais, facilmente manipuláveis").

Evidentemente, quanto venho assinalando não é a raiz, apenas um sintoma da desestrutura metafísica inerente à civilização que nos acolhe: incapaz de perceber que o universo e, de forma eminente, as pessoas, são verdadeiros e bons precisamente enquanto são. Análises similares poderiam ser realizadas em muitos outros âmbitos. Todas conduziriam a um mesmo resultado: o fundamento da anemia e cegueira contemporâneas é, como antes já sugeri, uma profusão de formas de opção pela subjetividade, por um eu antiontológico e esquecido do ser, que acaba por obscurecer tudo aquilo que, de um ou de outro modo, não se refira ao sujeito que o considera. O esquecimento do ser, a que tantas vezes temos chamado a atenção, é inseparável de uma atitude egoísta que faz depender o valor constitutivo de qualquer realidade de um único e privilegiado aspecto: sua dependência em relação à subjetividade que se auto-introduz nela. As coisas e as pessoas já não têm valor em si mesmas, só exclusivamente enquanto apreciadas por mim e úteis para mim.

Tomás Melendo, Metafísica da realidade. São Paulo: Instituto brasileiro de filosofia e ciência "Raimundo Lúlio" (Ramon Llull), 2002. p. 109-111.

Projeto, Compromisso, Fidelidade e Amor

Projeto, compromisso, fidelidade.

Sempre em respeito, e no fomento mais excelente do próprio ser pessoal individualmente perfectível, a inteligente combinação desses três elementos instaura a possibilidade de transcender a dispersão que o tempo e a pluralidade de tendências só virtualmente unificadas impõem ao sujeito humano.

Prefigurar o futuro, projetando-o na direção em que culmina o próprio ser; comprometer-se de modo absolutamente livre com essa antecipação da plenitude pessoal; manter-se fiel à decisão transcendental que nos encaminha até nosso destino, com as retificações pertinentes... eis aqui três "atividades" intimamente compenetradas e reciprocamente dependentes, capazes de resgatar o ser do homem da fragmentação que origina sua recepção em uma essência afetada pela matéria, e conduzi-lo até o ápice de sua condição humana. Com efeito, na mesma medida em que "constrói" sua unidade, o homem "fabrica" o próprio apogeu de perfeição: completa-se como ente superior, dotado de liberdade. Unidade e entidade caminham de mãos dadas.

Resta acrescentar o papel imprescindível que, na construção dessa unidade, corresponde ao amor, enquanto expressão cabal e completa da mais genuína liberdade. O que eleva o homem infinitamente acima dos animais é a atitude para captar o fim enquanto fim e, consequentemente, para subordinar a este fim todos os meios, também concebidos como tais. Mas o fim, segundo já recordava Aristóteles, identifica-se radicalmente com o bem, na acepção mais acabada dos dois vocábulos. E o bom, também em seu sentido mais nobre, é o que goza de entidade suficiente para despertar e atrair as vontades, suscitando nelas o amor: o amor do fim, do bom em si, capaz de dirigir-se a este objetivo, aglutinando todas as atividades de toda uma existência.

Trata-se, portanto, de um grande amor: um amor che nella mente mi ragiona, como escrevia Dante; um amor que opera também em toda e cada uma das demais faculdades. Só um amor assim possui o poder de reunir, ao redor de si, o conjunto inefável de forças que põe em atividade a energia primordial do homem, oculta no próprio ato de ser.

Ao dotar de unidade o projeto comprometido e fiel com o qual qualquer pessoa se completa, o amor manifesta uma vez mais sua vocação ontológica. Não só se relaciona com o ente enquanto ente, tornando-o "realmente real", senão que, se podemos expressá-lo dessa forma, estabelece uma íntima conexão com o ente enquanto um. Em nosso caso, com esse ente superior que é a pessoa humana, e que conquista sua unidade-entidade definitiva através da atualização de um projeto vital coerente.

Tomás Melendo. Metafísica da Realidade. São Paulo: Instituto Brasileiro de Filosofia e Ciência "Raimundo Lúlio", 2002. p.95-96.

"Sócrates" mostra a "Marx" a contradição lógica do evolucionismo ateu


MARX: Darwin e eu, juntos, eliminamos Deus: ele da natureza, eu da história. Sabes que até enviei uma cópia de meu livro a Darwin?

SÓCRATES: Sim. Sei também que ele nunca te respondeu.

MARX: Sabes de muitas coisas.

SÓCRATES: Sei também por que ele nunca te respondeu.

MARX: Como sabes isso?

SÓCRATES: Eu dialoguei com ele.

MARX: Oh.

SÓCRATES: Gostarias de saber o que ele pensava a respeito do teu livro?

MARX: Isso não tem importância.

SÓCRATES: E o que tu pensas de seu livro? Aceitas sua teoria da evolução?

MARX: Sim, aceito.

SÓCRATES: Assim, dizes que, anteriormente, não existia vida, mas, então, muitos séculos mais tarde, havia; dizes também que, antes, existia apenas vida subumana e, então, séculos mais tarde, havia vida humana.

MARX: Sim. A vida evoluiu por seleção natural. Pode-se até ver analogias entre a seleção natural e a dialética histórica...

SÓCRATES: Eu percebo isso. Mas, penso, também vejo uma outra coisa. Por favor, pondera acerca destas três coisas nas quais dizes acreditar. Primeiro, acreditas na evolução. Segundo, não crês que haja um Deus - um Criador, uma Causa Primeira ou uma Mente Arquiteta - por trás da evolução. Terceiro, acreditas no princípio científico da causalidade, ou seja, crês que os efeitos não podem exceder suas causas, que nada vem à existência sem uma causa adequada - em verdade, tu mesmo dirias, sem uma causa necessária ou determinista. Acreditas nessas três coisas?

MARX: Sim.

SÓCRATES: Pois vês algum problema nisso tudo?

MARX: Estou um passo à tua frente, Sócrates. Dirás que há uma contradição lógica em se aceitar todas essas três idéias, pois se os efeitos não podem exceder suas causas, então o vivente não pode ser causado pelo não-vivente, as formas superiores de vida não podem ser causadas apenas pelas inferiores e tampouco a inteligência pode ser causada por algo ininteligente ou os planos, os projetos e a ordem pelo puro acaso, a menos que essas causas inferiores sejam só instrumentos de uma causa divina superior. Dirás, então, que devo desistir ou da teoria da evolução, ou de meu ateísmo, admitindo assim um Deus que a explique.

SÓCRATES: Mas que maneira formidavelmente clara de se equacionar o problema! Tens uma solução igualmente clara?

MARX: Sim, tenho. A existência de um Deus sabotaria por completo todo o meu materialismo científico, portanto meu ateísmo não é discutível, e a mesma razão justifica minha crença na evolução: essa é a única alternativa ao desígnio divino que explica a existência de ordem na natureza. A teoria da evolução é o trunfo da ciência em sua batalha contínua contra a religião e a superstição. Logo, se há de fato uma tensão lógica entre essas três idéias, temos de modificar o princípio mais geral e abstrato dos três, o princípio da causalidade, ou então teremos de alterar um princípio ainda mais geral e abstrato, o qual acolheremos caso haja o mais mínimo problema na aceitação simultânea dessas três idéias: isto é, o princípio lógico da não-contradição. Talvez as contradições lógicas sejam o veículo pelo qual a história se move; talvez tenhamos de aprender a aceitar as tensões lógicas, em vez de evitá-las.

SÓCRATES: Que interessante! Em nome da ciência, modificarias um ou mesmo dois de seus princípios mais fundamentais, o princípio da causalidade e a lei da não contradição lógica. Podes me dizer o nome de um só cientista bem sucedido e reconhecido, em toda a história, que tenha feito isso?

MARX: Penso ser o primeiro.

SÓCRATES: No entanto, há muitos cientistas que rejeitam o teu ateísmo.

MARX: Sim...

SÓCRATES: E há também alguns que rejeitam a seleção natural.

MARX: Talvez. Mas ambos os tipos são assaz tolos.

SÓCRATES: Quiçá. Porém, eles são cientistas. Não diria a maioria deles que negas dois dos princípios mais inquestionáveis da ciência em favor de duas das mais questionáveis teorias científicas?

MARX: Não, a menos que fossem loucos. Mas eu não ligo para o que dizem; eu vi algo na história que eles não viram.

KREEFT, Petter. Sócrates encontra Marx. São Paulo: Vide Editorial. 2012. p.73-75

Jovem ateia, leitora do “novo ateísmo”, até que leu Bento XVI e Santo Tomás de Aquino


Megan Hodder é inglesa, tem 21 anos e é uma leitora voraz. Desde o Pentecostes deste ano, também é católica, recém-batizada. 

Há cerca de dois ou três anos ninguém poderia prever isto, porque Megan não recebeu absolutamente nenhuma educação cristã e lia com assiduidade e gosto autores de divulgação do “novo ateísmo”: Dawkins, Harris, Hitchens…

Mas tudo mudou quando decidiu que para poder zombar da Igreja Católica, grande símbolo da irracionalidade, devia ler diretamente Bento XVI. E aí foi onde começou uma conversão marcada pela lógica, razão e pensamento.

CRESCER DEPOIS DO 11 DE SETEMBRO

“Fui educada sem religião, e tinha 8 anos quando sucedeu o atentado das Torres Gêmeas no dia 11 de setembro de 2001. A religião era irrelevante em minha vida pessoal, e durante meus anos de estudo a religião só proporcionava um fundo de notícias sobre violência e extremismo”, assinala em seu testemunho no “The Catholic Herald”.

Megan é representante de uma geração jovem que cresceu lendo autores como Dawkins, Harris e Hitchens, que com um estilo informativo afirmam que a religião é a causa de quase todos os males do mundo, que o terrorismo islâmico é a prova e que o cristianismo é quase a mesma coisa.
Mas desde a adolescência, Megan entendeu que tinha que ler algo mais do que apenas os polemistas do novo ateísmo. Decidiu se instruir sobre “os mais distintos inimigos da razão, os católicos”, para refutá-los em sua ignorância.

UMA FÉ COMPATÍVEL COM A RAZÃO

A primeira coisa que fez foi ler o famoso discurso em Ratisbona de Bento XVI, que defendia a razão frente à fé cega. A maneira com a qual a BBC em línguas asiáticas difundiu este discurso nos países islâmicos causou grandes manifestações anticristãs, com violência e vítimas fatais.

Também leu o livro mais curto que pôde encontrar de Bento XVI: “Sobre a consciência” (tradução livre da obra).

“Esperava e desejava mostrar sua irracionalidade e preconceitos, para justificar meu ateísmo. Mas em contrapartida, um Deus que era o Logos se apresentou a mim; não um ditador sobrenatural que esmaga a razão humana; mas a fonte da bondade e verdade objetivas, que expressa a Si mesmo, para a qual se orienta nossa razão, e onde alcança sua plenitude; uma entidade que não controla nossa moral de maneira robótica, mas que é a fonte da nossa percepção moral…”.

O fato é que aquilo que Megan encontrava não era o que os autores do “novo ateísmo” diziam. “Era uma percepção da fé mais humana, sutil e, sim, crível, do que esperava. Não me conduziu a uma epifania espiritual dramática, mas me animou  a buscar mais o catolicismo, a reexaminar com um olhar mais crítico alguns problemas que tinha com o ateísmo”.

OS PROBLEMAS DA MORAL SEM DEUS

Megan entendia que uma moralidade sem Deus tem duas tendências problemáticas, ou é tão subjetiva que chega a ser absurda, ou tenta seguir uma suposta lógica estreita que leva a resultados tão desumanizantes que causa repugnância.

As teorias éticas que melhor superavam estes problemas, entendeu, eram teístas, e depois de ler Bento XVI o teísmo não parecia tão absurdo.

DAWKINS NÃO ENTENDEU TOMÁS DE AQUINO

Outro problema presente no “novo ateísmo” é a metafísica. “Logo percebi que confiar nos novos ateus para ter argumentos contra a existência de Deus foi um erro, porque Dawkins, por exemplo, trata de maneira desdenhosa Santo Tomás de Aquino em “Deus, um delírio”, Dawkins só aborda um resumo das Cinco Vias e sem entender aquilo que apresentam. Foquei-me nas ideias tomistas e aristotélicas, e vi que apresentavam uma explicação válida do mundo natural, uma explicação que os filósofos ateus não souberam atacar de maneira coerente”, escreve Megan.
Megan buscou incoerências e inconsistências na fé católica, mas teve que admitir que uma vez aceitando sua estrutura e conceitos básicos, tudo se encaixa “com uma velocidade impressionante”.

O GRANDE OBSTÁCULO: A MORAL SEXUAL

A exigente moral sexual católica começava a ter sentido quando era abordada a partir dos textos da “Teologia do Corpo” de João Paulo II. George Weigel deu a ideia fundamental em “Cartas a um jovem católico”, quando disse: “as coisas importam”. No catolicismo o sexo importa, o corpo importa, a vida e a fertilidade importam, o que se faz é importante, tem consequências e expressa algo.

“A moral sexual católica não é uma lista de proibições, como pintam por aí”, escreve Megan em seu blog. “É o reconhecimento de que existe uma harmonia entre Deus e a humanidade que está incrustada no mundo material, que se manifesta de uma forma assombrosa e aguda na complementaridade entre o homem e a mulher e seu chamado a ser uma só carne”.

Megan, que cresceu numa Inglaterra de liberalismo sexual absoluto, assinala “o fato de que os métodos contraceptivos são responsáveis por quase dois terços dos abortos do Reino Unido, e as doenças sexualmente transmissíveis alcançam níveis altos, históricos”, para indicar o fracasso do “sexo-sem-consequências”.

Sobre o feminismo, constata que a cultura pansexual converteu a mulher num mero objeto, não num ser humano com igual dignidade, e que desconhece a realidade da fertilidade feminina e seus ritmos naturais.

A “Teologia do Corpo” e a moral sexual católica oferecem assim “um modelo de relações humanas que é seguro, duradouro e comprometido, encima de bases sólidas, ordenado para a unidade e a vida. O ideal católico das relações humanas é um desafio exigente, mas um desafio rumo à excelência, para ser fiéis às nossas necessidades reais e às de nossos companheiros”.

É A VONTADE, NÃO O INTELECTO

Megan se deu conta de que os livros levavam-na à fé, mas que, apesar disso,“a fé não é um exercício intelectual, um assentir a certas proposições, mas um ato radical da vontade, que gera uma mudança total na pessoa”. Percebeu como eram os católicos que conhecia, gostou e deu o passo.

No domingo de Pentecostes de 2013, Megan foi batizada e ingressou, assim, na Igreja Católica.
Hoje assinala que “para cada ateu confesso e embasado, existe outro sem nenhuma experiência pessoal com a religião, nem interesse no debate, que simplesmente se deixa levar pela corrente cultural. Espero ser um exemplo, ainda que seja pequeno, da atuação do catolicismo, em uma era que às vezes parece ser tão oposta a ele de maneira indiscutível”.

Fonte: Reparatoris

A vontade humana deseja o Bem infinito


Eis o que a metafísica diz a respeito! Não é a vontade humana, como apetite, cega em si, que está sabendo para que ela tende, impulsionada pela fome e sede de felicidade, apetecendo o bem correspondente que a sacie plenamente, mas é a razão metafísica que descobre a realidade necessária deste bem. Ela analisa, antes de tudo, o objeto formal da vontade como tendência natural. Este objeto não é tal ou tal bem, mas o bem como tal, bem como bem, sem nenhuma limitação. Daí resulta que a vontade humana, como apetite natural, tende para o ilimitado, a fim de saciar a sua sede de felicidade, o amor. A felicidade pode realizar-se só possuindo o bem correspondente à amplidão da aspiração natural. Esta amplidão é ilimitada. Portanto, o bem correspondente não pode ser encontrado em nenhum ente finito, mas só no Bem que concentre em si a totalidadedo bem, ou seja, no Sumo Bem. Por isso o Sumo Bem é real. É impossível que o amor natural volitivo, reto, que proclama perante a razão metafísica a realidade do Bem sem limites, seja frustrado. O amor natural é sempre reto, não mente. Sem a realidade do Sumo Bem, a vontade no seu apetite natural seria contraditória, pois ela existiria assim lançada, porque existe e, ao mesmo tempo não existiria, porque sem o Sumo Bem, para o Qual tende inevitavelmente, que a atrai, não poderia existir. O Sumo Bem é Deus, como a metafísica evidencia competentemente. Deus, possuído como Sumo Bem, gera o amor e manifesta-se como Amor, Raiz profunda e última, a Fonte da felicidade.

Esta conclusão metafísica é confirmada pela análise da experiência interna. É um fato inegável que nenhum bem finito do mundo aquieta o desejo natural de felicidade do homem: não o pode aquietar a riqueza, nem as honras e as glórias mundanas, nem o poder, nem algum bem do corpo, nem os prazeres sensíveis, nem os atos das virtudes morais, nem a operação artística, nem a ciência, nem mesmo o conhecimento de Deus. Só o pode aquietar o Sumo Bem, isto é, Deus mesmo! É inegável esta experiência interna, que testemunha tudo isso vivencialmente à pessoa adulta e madura: o homem tende para além de todo e qualquer bem finito, para o Bem sem limites - Sumo Bem, que portanto é real, é a realidade plena, que transcende todas as realidades, conforme a conclusão metafísica, baseada na análise do objeto formal da vontade como apetite natural.

Prof. Dr. Pe. Stanislavs Ladusãns, Gnosiologia Pluridimensional. São Paulo: Loyola, 1992. p.26-27.

Uma defesa das Imagens - São Thomas More


Imagens são livros necessários aos sem instrução e são bons livros também aos instruídos. Pois todas as palavras são apenas imagens que representam coisas que o escritor ou o orador concebe em sua mente, tanto quanto a figura de uma coisa emoldurada pela imaginação, e deste modo concebida na mente, é tão-somente a imagem representativa da coisa mesma sobre a qual o homem pensou.

Por exemplo, se eu lhe conto um episódio da vida de um amigo meu, a imaginação que dele tenho em minha mente não é ele mesmo, mas uma imagem que o representa. E quando eu o nomeio, seu nome não é nem ele mesmo nem a figura que dele tenho em minha imaginação, mas apenas uma imagem que apresenta a você a imaginação da minha mente. Se eu estiver muito longe de você para lhe contar tal episódio, então será a escrita, e não o nome mesmo, uma imagem representativa do nome. E, no entanto, todos esses nomes falados e todas essas palavras escritas não são signos ou imagens naturais, mas signos construídos por consentimento e convenção entre os homens para significar as coisas, enquanto as imagens pintadas, esculpidas ou entalhadas podem ser tão bem trabalhadas, tão fiéis à verdade e ao objeto vivo, que, naturalmente, acabam representando-o muito mais eficazmente do que o nome falado ou escrito. Pois aquele que nunca tenha ouvido o nome do meu amigo, mas que tenha visto um seu retrato, se um dia o vir em pessoa, o reconhecerá através da imagem trazida à memória.

São Thomas More, A Refutação das Respostas de Tyndale

Ir. Miriam Joseph, O Trivium.

Uma educação que amputa o cérebro


ESCRITO POR JOSÉ MARIA E SILVA | 07 SETEMBRO 2012

O Brasil das Olimpíadas segue as diretrizes do Ministério da Educação e trata os negros como seres dançantes e gregários, destituídos de razão pelos feitores de almas.

Antes mesmo de pisar em solo inglês para disputar as Olimpíadas de 2012, o Brasil já vinha de uma queda de braço com o Reino Unido. Trata-se de uma disputa econômica para ver quem ocupa o sexto lugar da economia mundial. A princípio, a vitória é do Brasil. Com um PIB (Produto Interno Bruto) de 2,45 trilhões de dólares em 2011, o Brasil havia ultrapassado o Reino Unido, tornando-se a sexta maior economia do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos, China, Japão, Alemanha e França. Todavia, com a desvalorização do real frente ao dólar, ocorrida nos últimos meses, o PIB brasileiro deve cair para o patamar de 2,34 trilhões de dólares, levando o Reino Unido a recuperar a sexta posição, enquanto o Brasil voltará a ser a sétima economia mundial, ainda assim, à frente da Itália, Rússia e Canadá.

Em outras palavras, o Brasil não é mais o longínquo País de 1936, do qual o escritor Stefan Zweig (1881-1942) se despediu, ao cabo de sua primeira visita, pensando: “Percebi que havia lançado um olhar para o futuro do mundo”. Nosso futuro já chegou.

Talvez não saibamos aproveitá-lo. Antes daquele elogio do escritor austríaco, o Conde Afonso Celso (1860-1938), enumerando, em 1900, as grandezas que o levavam a ufanar-se do Brasil, indagava a respeito do País: “É verdade que a grandeza não deriva da simples posse de dons valiosos, mas do seu sábio aproveitamento. Por que, porém, deixaremos de pôr em ação os nossos prodigiosos recursos?”. Essa pergunta reboa até hoje nos ouvidos da nação, que, a despeito de estar entre as maiores economias do mundo, ainda se vê como a pátria da esperança e não das realizações.

O brasileiro nunca percebeu o Brasil como obra sua e, sim, como dádiva de Deus. Por isso, a despeito de ser a sexta ou sétima economia do mundo, o gigante continua deitado em berço esplêndido, comodamente adaptado ao olhar estrangeiro, que sempre viu o País como uma exuberante natureza morta, destituída de pessoas à altura da história. Como confessa Stefan Zweig: “Imaginava que o Brasil fosse uma república qualquer das da América do Sul, que não distinguimos bem umas das outras, com clima quente, insalubre, com condições políticas de intranquilidade e finanças arruinadas, mal administrada e só parcialmente civilizada nas cidades marítimas, mas com bela paisagem e com muitas possibilidades não aproveitadas – país, portanto, para emigrados ou colonos e, de modo nenhum, país do qual se pudesse esperar estímulo para o espírito”.

A fúria machadiana

E esse mal não é novo. Já incomodava o “Escritor Nacional” (como diria o personagem Donga Novais do novelário de Autran Dourado), a propósito de quem a escritora Nélida Piñon cinzelou a máxima: “Se Machado de Assis existiu, então o Brasil é possível”. Escrevendo semanalmente na Gazeta de Notícias, do Rio de Janeiro, entre 24 de abril de 1892 e 11 de novembro de 1900, o criador do alienista Simão Bacamarte dedicou uma de suas crônicas a repudiar o viciado olhar estrangeiro que só via no Brasil a paisagem natural, desprezando completamente o povo que habitava essas paragens, como se não fora digno de constar nem mesmo no rodapé da história.

Em 20 de agosto de 1893, a propósito de um telegrama de Sarah Bernhardt (1844-1923), em que a atriz parisiense desmentia os conceitos a respeito do Brasil que um jornal argentino lhe atribuíra, Machado de Assis (1839-1908) discorre sobre essa espécie de síndrome do Brasil telúrico, sempre mais próximo da natureza do que da cultura. Para desculpar-se com o Brasil, Sarah Bernhardt havia empregado a expressão “pays féerique” (“país feérico”), razão da crítica de Machado: “Uma das minhas convicções (e tenho poucas) era esta: se algum dia Sarah escrever a nosso respeito, não empregará a velha chapa de todos os viajantes que por aqui passam: ce pays féerique. E tu, amiga minha, tu arrancas-me sem piedade esta ilusão do meu outono”.

Machado de Assis é sarcástico: “O meu sentimento nativista, ou como quer que lhe chamem, – patriotismo é mais vasto, – sempre se doeu desta adoração da natureza. Raro falam de nós mesmos; alguns mal, poucos bem. No que todos estão de acordo, é no pays feérique. Pareceu-me sempre um modo de pisar o homem e as suas obras. Quando me louvam a casaca, louvam-me antes a mim que ao alfaiate. Ao menos, é o sentimento com que fico; a casaca é minha; se não a fiz, mandei fazê-la. Mas eu não fiz, nem mandei fazer o céu e as montanhas, as matas e os rios. Já os achei prontos”.

O escritor lembra, nesta crônica, que há muitos anos havia ciceroneado um estrangeiro no Rio e que este, numa noite em que falaram da cidade e sua história, mostrou desejo de conhecer uma velha construção: “Citei-lhe várias; entre elas a igreja do Castelo e seus altares. Ajustamos que no dia seguinte iria buscá-lo para subir o morro do Castelo. Era uma bela manhã, não sei se de inverno ou primavera. Subimos; eu, para dispor-lhe o espírito, ia-lhe pintando o tempo que por aquela mesma ladeira passavam os padres jesuítas, a cidade pequena, os costumes toscos, a devoção grande e sincera”.

Mas a decepção de sempre aguardava Machado: “Chegamos ao alto, a igreja estava aberta e entramos. Sei que não são ruínas de Atenas; mas cada um mostra o que possui. O viajante entrou, deu uma volta, saiu e foi postar-se junto à muralha, fitando o mar, o céu e as montanhas, e, ao cabo de cinco minutos: ‘Que natureza que vocês têm!’ (...) A admiração do nosso hóspede excluía qualquer ideia da ação humana. Não me perguntou pela fundação das fortalezas, nem pelos nomes dos navios que estavam ancorados. Foi só a natureza”.

Enegrecimento à força

Se Machado de Assis encarnasse uma de suas criaturas, o defunto-autor Brás Cubas, e se fizesse cronista póstumo deste Brasil da Copa e das Olimpíadas, haveria de notar que as coisas pioraram ainda mais e que já não é apenas a geografia do País que se conforma em ser cartão-postal – hoje, é a própria alma da nação que se entrega feito natureza morta. Como no verso do poeta e crítico piauiense Mário Faustino (1930-1962) – “o olhar recebe a forma e esquece a essência” –, o brasileiro é convocado a encarnar em sua própria alma a aparência que o mundo formou dele: um ser feito só de sentidos, em que o instinto é maior do que a razão.

É o que se percebe, por exemplo, no clipe com a canção-tema das Olimpíadas, dirigido por Estevão Ciavatta, da Pindorama Filmes, e lançado em agosto pela Prefeitura do Rio de Janeiro. O clipe reforça esse Brasil para inglês ver, expresso pela alma carioca no que ela ter de pior – a absorção, em si mesma, do clima tórrido e insalubre, palco da terrível febre amarela, no passado, e da dengue, no presente, como se essas enfermidades do corpo plasmassem o próprio espírito da gente trêfega, que, de modo bisonho e malemolente, desfila por esse vídeo que vai mostrar ao mundo a imagem do palco oficial das Olimpíadas de 2016.

Composta por Arlindo Cruz, Rogê e Arlindo Neto e produzida por Alexandre Kassin, a música-tema Os Grandes Deuses do Olimpo Visitam o Rio de Janeiro é interpretada por Diogo Nogueira, Mart’nália, Mr. Catra, Thalma de Freitas, Zeca Pagodinho, Ed Motta e pelo próprio Arlindo Cruz. Além dos intérpretes, ela reúne vários músicos, como Buchecha, Fernanda Abreu, Fundo de Quintal, Jorge Aragão, Pedro Luís, Roberta Sá, Ronaldo Bastos, Sandra de Sá, Toni Garrido, Zélia Duncan e as Velhas Guardas do Império Serrano e da Vila Isabel. No clipe, aparece até mesmo a escritora Nélida Piñon, fazendo o papel da deusa Atena, em meio a outros artistas, como Fernanda Montenegro e Rodrigo Santoro, que também encarnam personagens mitológicas. Mas a música nada tem a ver com o corpo atlético de Apolo. Ela exalta o corpo relaxado de Baco: “Ficaram na roda de samba até clarear / ficaram até de perna bamba de tanto sambar”.

Os deuses do Olimpo são praticamente os únicos brancos do clipe. A inclusão do negro no imaginário visual do país está sendo feita à custa da exclusão do branco – que, no entanto, representa 47,7% do total de brasileiros, segundo dados do IBGE. Os negros propriamente ditos são apenas 7,6%. Mas como o governo petista – cavalo de santo do racismo de laboratório produzido pela academia – está empenhado em fomentar uma guerra racial no país, os negros passaram a ser chamados oficialmente de “pretos” (termo que até outro dia era amaldiçoado pela ditadura do politicamente correto) e, somados aos 43,1% de pardos (que foram enegrecidos à força), formam um contingente de 50,7% de negros estatísticos. Obviamente, essa população negra só existe na mente pueril das autoridades, teleguiada pela insanidade moral dos intelectuais universitários.








Eugenia às avessas

O clipe das Olimpíadas de 2016 reduz os brasileiros ao perfil simiesco de exportação, em que as gentes dos trópicos são sempre apresentadas como não tendo cérebro, feitas exclusivamente para rebolar no samba e jogar bola. E, como sempre, o negro é convocado a fazer esse papel abjeto. Seguindo a política racialista iniciada pelo governo Fernando Henrique e transformada em eugenia às avessas pelo governo Lula, o clipe faz do Brasil um país exclusivamente de negros. E o que é mais grave: uma vez que o País é uma nação de negros, a Prefeitura do Rio entendeu que é também uma nação de bola, pandeiro e cachaça. Só faltou explorar a indefectível imagem das mulatas seminuas esfregando as calipígias formas no rosto louro de algum estrangeiro.


Nos últimos anos, especialmente depois da ascensão de Lula ao poder, o símbolo por excelência do Brasil passou a ser o negrinho de periferia jogando bola nas ruas, utilizado exaustivamente em comerciais de TV. Essa imagem, confesso, me dá asco duplamente: primeiro, por vilipendiar o negro, circunscrito a corpo e sentido, sem cérebro; segundo, por conseguir esconder o verdadeiro e óbvio racismo que está por trás dessa redução do negro a uma espécie de fenômeno bruto da natureza, incapaz de se relacionar com elementos nobres da cultura, como um livro, um violino, uma aquarela.

É claro que jogar bola e dançar capoeira não avilta ninguém, mas fazer dessas atividades a expressão por excelência da cultura negra é, sem dúvida, alijar o negro do universo intelectual que produziu o teatro de Shakespeare, as sinfonias de Beethoven, a física de Einstein.



Mas, no fundo, é justamente isso o que faz o Ministério da Educação no documento Orientações e Ações para a Educação das Relações Étnico-Raciais, publicado em 2006, na gestão do ex-ministro Fernando Haddad, atual candidato a prefeito de São Paulo. Citando o jornalista e sociólogo Muniz Sodré, professor titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro, o documento do MEC enfatiza textualmente: “Na cultura negra o corpo é fundamental”. Só na cultura negra? – cabe a pergunta. Um povo que não considerasse o corpo como fundamental estaria condenado ao suicídio coletivo.

Toda cultura zela pelo corpo com sua melhor tecnologia, sejam as raízes cultivadas pela tradição, seja o bisturi adestrado na ciência. Até a cultura judaico-cristã, acusada de vilipendiar o corpo com jejuns e martírios, foi uma precursora da profilaxia, como se vê nas leis de Moisés.

Mas, obviamente, o MEC não está falando da dimensão simplesmente física e médica do corpo. Fala de um corpo que é quase um cosmos em si mesmo. O documento parte de uma concepção demencial do negro, como se ele não fosse um brasileiro como os outros e tivesse acabado de aportar no Brasil do século XXI proveniente da Angola do século XVI. É o que fica claro no restante do texto do MEC: “Na cultura negra o corpo é fundamental. Sobre o corpo se assenta toda uma rede de sentidos e significados. Esse não é apartado do todo, pertence ao cosmos, faz parte do ecossistema: o corpo integra-se ao simbolismo coletivo na forma de gestos, posturas, direções do olhar, mas também de signos e inflexões microcorporais, que apontam para outras formas perceptivas”.

Negro como natureza

Não há limite para a demência do MEC e das universidades nas orientações que fornecem à escola sobre o modo de tratar a cultura negra. Depois de afirmar que “o corpo é a representação concreta do território em movimento” (uma frase digna de hospício), o documento do MEC sustenta: “Ao contrário de uma percepção de mundo na qual a alma é onde reside a força e a possibilidade de continuidade, para uma cultura negra a força está no corpo, não existe essa ideia de uma força interior alavancada pela ação da fé. Toda possibilidade encontra-se no corpo potente que procura suas mediações nas relações que constitui no cosmos, daí o compartilhamento como práxis ser uma questão fundamental para se entender a dinâmica de uma cultura negra no Ocidente”.

Releiam esta absurda frase: “Para uma cultura negra a força está no corpo, não existe essa ideia de uma força interior alavancada pela ação da fé”. Esse documento do MEC fere frontalmente a Constituição ao querer impedir os negros brasileiros – majoritariamente cristãos – de exercer livremente sua crença. E mais do que ofender a fé do negro, o MEC – neste texto vil e moralmente criminoso – vilipendia a própria humanidade do negro ao negar-lhe a alma, o espírito, a razão, deixando-lhe tão-somente o corpo, como faziam os traficantes de escravos. Estarrece saber que esse documento oficial do MEC foi escrito por cinco mulheres – vítimas potenciais de toda cultura centrada na força física. A mulher só tem lugar na civilização, onde impera o cérebro; onde manda o corpo, ela vira repasto do macho, como ocorre entre a maioria dos animais.

Mas o MEC não se contém em suas orientações sobre a cultura negra na escola e chega a reduzir o negro a um mero elemento da natureza. Eis o que diz o documento: “Todos trocam algo entre si, homens, mulheres, árvores, pedras, conchas. Sem a partilha, não há existência possível. Faz-se necessário pensar que a cultura negra não está marcada por uma necessidade de conversão. Existe um sentido de agregação que não gira em torno de uma verdade única”. Após esse ataque nada sutil ao cristianismo, o MEC regurgita outras bobagens sobre as “comunidades de matriz africana” (isso existe no Brasil?) para concluir: “Uma visão de mundo negra implica a possibilidade de abertura para o mundo, para a vida e principalmente para o outro. Por exemplo, em uma ‘roda de capoeira’, todos que compartilham os códigos são aceitos, desde que se coloquem como parceiros(as) e respeitem a hierarquia”.

Pensamento mágico do MEC

Para essa abominável pedagogia do MEC, herdeira da nefasta autoajuda marxista de Paulo Freire, o negro não é um brasileiro como os demais: cristão, falante do português, eivado dos mesmos sonhos da gente comum, que quer estudar, trabalhar, constituir família, criar filhos, vencer na vida. Para os lunáticos do MEC, o negro é um ser à parte, prisioneiro da materialidade do seu próprio corpo, que se agrega à natureza como um elemento indistinto dela. O MEC está tratando o negro como sempre tratou o índio: arranca-lhe a alma humana, legada pela civilização, e o atira na paisagem de uma cultura telúrica – em vez de ser sujeito da natureza, o negro se torna tão objeto dela quanto os bichos, as pedras, as plantas. Se isso não for racismo, não sei o que seja.

Para completar, o documento do MEC chega a flertar com o pensamento mágico, que vê na cultura do negro brasileiro uma circularidade ancestral. Eis o que diz o texto, sentenciosamente: “E aqui vale uma pequena abordagem relativa à circularidade. Para a cultura negra (no singular e no plural), o círculo, a roda, a circularidade é fundamento, a exemplo das rodas de capoeira, de samba e de outras manifestações culturais afro-brasileiras. Em roda, pressupõe-se que os saberes circulam, que a hierarquia transita e que a visibilidade não se cristaliza. O fluxo, o movimento é invocado, e assim saberes compartilhados podem constituir novos sentidos e significados, e pertencem a todos e todas elas”. Alguém consegue imaginar cientistas e matemáticos movimentando-se em rodas de capoeira para formular teoremas, descobrir o antibiótico, inventar o avião? Pensar é concentrar-se. Esse negro gregário, plástico, permanentemente aberto ao outro que o MEC inventa não é capaz de criar civilização – é objeto e não sujeito de sua própria cultura.

E aí voltamos ao clipe das Olimpíadas de 2016, da Prefeitura do Rio, que segue integralmente as diretrizes do MEC e das universidades relativas à cultura negra. O clipe mostra um Dionísio caindo de bêbado nas ruas (numa infeliz referência a Baco, que é o antônimo de Olimpíadas), uma negra sambando num bar e ainda um trabalhador negro, de calção e sem camisa, carregando uma geladeira ao mesmo tempo em que dança. É essa a imagem que o Brasil vende ao mundo: a de um povo tão esculhambado que não leva a sério nem o trabalho. E, como sempre, cabe ao negro encarnar esse papel vergonhoso.

Como se não bastasse tudo isso, entre os negros chamados a representar o Brasil monocromático do samba está um tal Mr. Catra. Fui pesquisar quem é o sujeito. Ele se diz convertido ao judaísmo apenas para poder praticar, sob as leis do país, a poligamia de Fernandinho Beira-Mar, tendo várias mulheres e mais de 20 filhos, dos quais ele nem sabe o nome. Suas letras – facilmente encontradas na Internet – colocam as mulheres muito abaixo das cadelas de rua. Impossível citá-las aqui como exemplo. Seria como abrir o esgoto. Não creio que alguma corrente do judaísmo aprove isso. Mas a Prefeitura do Rio, o MEC e os intelectuais universitários aprovam. Tanto que Mr. Catra é um queridinho da mídia.

Feitores de almas

É lamentável que se dê espaço tão nobre para esse tipo de negro, como se ele fosse representativo da cultura afro-brasileira. Os negros legaram ao Brasil, entre muitas outras coisas, o maior poeta simbolista do país, que é também o maior escritor de um dos Estados mais brancos – Cruz e Sousa (1861-1898), de Santa Catarina. Também legaram um dos maiores músicos eruditos da América Latina, o padre José Maurício Nunes Garcia (1767-1830), em cuja obra se inspira o próprio Hino Nacional Brasileiro. E seria preciso escrever um verdadeiro tratado de história e sociologia do conhecimento para enumerar todos os mulatos – começando por Machado de Assis, Lima Barreto (1881-1922) e o engenheiro André Rebouças (1838-1898) – que, em plena escravidão, legaram obras fundamentais ao país em todas as áreas.

Mas tanto no clipe das Olímpiadas, quanto nas diretrizes do MEC e nas teses universitárias, não há lugar para esse tipo de negro altivo, cerebral, não gregário. Para os racialistas do MEC e da academia, os negros foram feitos para dançar e sorrir. Não sentem tristeza, não sabem o que é reflexão, não se permitem ser introspectivos. E andam sempre em bando, como se não fossem indivíduos, mas reses de algum rebanho. Sua música jamais seria um blues. É sempre um samba, falando ao corpo, jamais à alma. Aliás, todas as manifestações culturais tidas como autenticamente negras pelas universidades – como a capoeira, o hip hop, a roda de samba, o funk – costumam ter essas duas características: são gregárias e dançantes, condenando o negro a viver em bando, superficialmente.

Ao tratar o negro dessa forma, a universidade brasileira age da mesma forma que os brutais traficantes de escravos. Foram eles que criaram – na base do açoite – esse negro dançante e sorridente. No livro A Vida dos Escravos do Rio de Janeiro (Editora Companhia das Letras, 2000), a historiadora norte-americana Mary Karasch descreve a venda de escravos no Valongo (o grande mercado de negros da corte) e conta que os comerciantes negreiros, a fim de convencer os compradores de que suas peças não estavam com “preguiça” ou depressão, ministravam-lhes estimulantes como pimenta, gengibre e tabaco. “Um segundo remédio para a nostalgia era ‘estimular’ os africanos a cantar e dançar a música de suas terras natais”, acrescenta a historiadora.

“Assim, o som de tambores e palmas e das canções africanas enquanto os escravos dançavam contribuía para a atmosfera do Valongo. Se alguns escravos se recusassem a tomar parte, um feitor forçava-os a dançar, porque acreditavam que a falta de movimento estimularia a nostalgia e assim diminuiria seus lucros. Além disso, exigia-se com frequência que os africanos dançassem de ‘maneira alegre’ durante seu exame físico, a fim de convencer os compradores de sua saúde excelente. Se expressassem seus verdadeiros sentimentos ou apatia e depressão eram açoitados”, conta a historiadora. Felizmente, o negro se libertou daqueles antigos feitores de corpos; mas precisa se libertar dos atuais feitores de almas – que tentam anular sua mente, reduzindo seu ser a um corpo que samba.

Publicado no Jornal Opção, de Goiânia.

Ilustrações: Jornal Opção

José Maria e Silva é sociólgo e jornalista.

Chesterton sobre certas teorias modernas


Há, de fato, uma classe de escritores e pensadores modernos que não pode ser ignorada (...). Refiro-me àqueles que vencem todos os abismos e reconciliam todas as guerras falando sobre "aspectos de verdade" (...). Direi aqui apenas que isso me parece uma evasão que nem sequer teve a preocupação de se disfarçar com palavras engenhosas. Caso falemos de alguma coisa com um aspecto da verdade, é evidente que alegamos conhecer o que é a verdade; da mesma forma que, ao falarmos sobre a pata traseira de um cachorro, alegamos conhecer o que é um cachorro. Infelizmente, o filósofo que fala a respeito de aspectos da verdade geralmente também pergunta, "O que é a verdade?" Muitas vezes até nega a existência da verdade, ou diz ser inconcebível à inteligência humana. Como, então, pode reconhecer seus aspectos? Não gostaria de ser um artista que levasse um esboço arquitetônico a um construtor, dizendo, "Essa é a vista sul do chalé com vista para o mar, contudo, tal chalé não existe". Não gostaria sequer de ter de explicar, sob tais circunstâncias, que um chalé com vista para o maro pode até existir, mas que é impensável à mente humana. Muito menos gostaria de ser o confuso e ridículo metafísico que afirma ser capaz de ver em todos os lugares aspectos de uma verdade que não existe. É perfeitamente óbvio que há verdades em Kipling, que há verdades em Shaw e Wells. Mas, o grau com que as podemos perceber depende estritamente de quão distante estamos de uma concepção interna e definida do que seja a verdade. É ridículo supor que quanto mais céticos, mais veremos o bem em todas as coisas. É claro que quanto mais certos estivermos a respeito do que é o bem, mais o veremos em todas as coisas.

Peço, então, que concordemos ou discordemos desses homens. Rogo que concordemos com eles ao menos em ter uma crença abstrata. Mas sei que no mundo moderno é comum haver várias objeções indeterminadas a se ter uma crença abstrata, e sinto que não devemos seguir adiante até que tenhamos nos ocupado de algumas delas. A primeira objeção é facilmente apresentada.

Uma incerteza comum em nossos dias no tocante ao uso de convicções extremas é a noção de que tais convicções, especialmente em questões muito abrangentes, foram responsáveis por aquilo que chamamos de intolerância. Contudo, um pouco de experiência direta dissipará tal visão. Na vida real, as pessoas mais intolerantes são as que não têm nenhuma convicção. Os economistas da escola de Manchester que discordam do socialismo, levam o socialismo a sério. O jovem da rua Bond não sabe o que o socialismo significa, muito menos sabe se concorda com isso, e tem certeza absoluta que os socialistas fazem tempestade em copo d'água. O homem que compreende a filosofia calvinista o bastante para com ela concordar deve compreender a filosofia católica para discordar. É o dúbio homem moderno, que não está certo sobre nada, que tem certeza de que Dante estava errado. O circunspecto opositor da Igreja Latina ao longo da história, mesmo ao mostrar que ela produziu grandes infâmias, deve saber que produziu grandes santos. É o obstinado comerciante, que não conhece história e não acredita em nenhuma religião, que está, contudo perfeitamente convencido que todos os padres são patifes. (...) A intolerância pode ser definida, grosso modo, como a raiva dos homens que não têm opinião. É a resistência apresentada às idéias definidas por um grupo indefinido de pessoas cujas idéias são excessivamente incertas. Tal intolerância pode ser chamada de aterrador furor [d]os indiferentes. Esse furor [d]os indiferentes é na verdade uma coisa terrível; causou todas as perseguições muito generalizadas. Neste estágio, não foram os diligentes os que perseguiram; não havia número suficiente. Foram os imprudentes que espalharam fogo e opressão pelo mundo. Foram as mãos dos indiferentes que acenderam as tochas; foram as mãos deles que produziram ruína. Da dor de uma certeza passional nasceram algumas perseguições; mas estas produziram não intolerância, mas fanatismo - uma coisa muito diferente e, de certo modo, admirável. A intolerância, em geral, sempre foi a onipotência generalizada dos imprudentes esmagando os precavidos.

Há pessoas, contudo, que tentam achar algo mais profundo do que isso nos possíveis males do dogma. Muitos sentem que uma forte convicção filosófica, embora não produza (do modo como percebem) aquela condição morosa e essencialmente leviana que chamamos intolerância, produz certa atenção, exageros, e alguma impaciência moral, que podemos concordar em chamar de fanatismo. Dizem, de modo geral, que idéias são coisas perigosas. Na política, por exemplo, é comum exortarem contra um homem como o Sr Balfour, ou contra alguém como o Se John Morley, cuja profusão de idéias é perigosa. A verdadeira doutrina neste ponto certamente não é, mais uma vez, difícil de expressar. Idéias são perigosas, mas o tipo de homem para quem são menos perigosas é o homem de ideais. Está familiarizado com as idéias e caminha por elas como um domador de leões. Idéias são perigosas, mas o tipo de homem para quem são mais perigosas é o homem sem idéias. O homem sem idéias verá a primeira delas subir à cabeça como o vinho num abstêmio. Creio que é um erro comum entre os idealistas radicais de meu partido e período sugerir que financistas e comerciantes sejam perigosos para o império porque são demasiado sórdidos e materialistas. A verdade é que financistas e comerciantes são perigosos para o império porque podem ser sensíveis a qualquer sentimento e idealistas a respeito de qualquer ideal, de qualquer um que encontram a esmo. Assim como um garoto que não sabe nada a respeito de mulheres, e facilmente toma uma mulher qualquer por aquele tipo de mulher, assim também tais homens práticos, desacostumados com causas, sempre tendem a pensar que caso uma coisa tenha provado ser um ideal, seguramente provou ser o ideal.

Muitos seguiram Cecil Rhodes abertamente, por exemplo, porque tinha uma visão. Poderiam tê-lo seguido por ter um nariz. Um homem sem qualquer tipo de sonho de perfeição é uma monstruosidade equivalente a um homem sem nariz. As pessoas dizem sobre tal indivíduo, em sussurros quase febris, "Ele sabe o que quer", o que equivale exatamente a dizer, em idênticos sussurros, "Ele assoa o próprio nariz". A natureza humana simplesmente não pode subsistir sem algum tipo de esperança e propósito; como o juízo do Antigo Testamento diz, com razão: "quando não há ideal o povo perece". Mas é justamente porque o ideal é necessário ao homen, que o homem sem ideal está em permanente risco de cair no fanatismo. Não há nada [que] tenha mais probabilidade de deixar o homem aberto às incursões repentinas e irresistíveis de visões desequilibradas do que o cultivo de hábitos comerciais. Todos conhecem homens de negócio inflexíveis, que acreditam que a Terra é chata ou sabem que o Sr Kruger estava à frente de um grande despotismo militar, ou creem que os homens são herbívoros ou que Bacon escreveu as peças de Shakespeare. Crenças religiosas e filosóficas são, realmente, tão perigosas quanto fogo, e nada pode tirar-lhes a beleza do perigo. Mas há apenas uma forma de nos protegermos do perigo excessivo que oferecem; devemos imergir na filosofia e nos encharcar de religião.

Então, em poucas palavras, descartamos os perigos antagônicos da intolerância e do fanatismo; a intolerância que seria uma grande indefinição e o fanatismo que seria uma grande atenção. Declaramos que a cura para a intolerância é a crença; afirmamos que a solução para os idealistas são idéias. Conhecer as melhores teorias sobre a existência e escolher dentre elas a melhor (ou seja, escolher o melhor das próprias convicções) nos parece o modo apropriado para não nos tornarmos intolerantes ou fanáticos, mas para sermos algo mais firme que um intolerante e mais terrível que um fanático: uma pessoa de opinião definida. Mas a opinião definida deve, neste sentido, começar com as questões básicas do pensamento humano, e estas não devem ser descartadas como coisas irrelevantes, tal como acontece com a religião em nossos dias. Mesmo se pensarmos na religião como um problema insolúvel, não deveremos considerá-la irrelevante. Mesmo se não tivermos nenhuma opinião a respeito das verdades definitivas, deveremos sentir que onde quer que tal questão exista no homem, deve ser para esta pessoa algo mais importante que todas as demais coisas. No momento em que uma coisa deixa de ser incognoscível, passa a ser indispensável.

Não há dúvida de existir atualidade na idéia de algo limitado, irrelevante ou mesmo mesquinho no ataque à religião de outra pessoa, ou ao discutir política ou ética tomando por base outra pessoa, ou ao discutir política ou ética tomando por base a religião. Pode haver menos dúvida ainda de que a acusação dessa limitação é, em si, quase ridícula e limitada. Tomemos um exemplo de acontecimentos relativamente atuais: sabemos que não raro um homem era considerado um monstro de intolerância e obscurantismo caso suspeitasse dos japoneses serem pagãos. Ninguém pensaria existir nada de obsoleto ou fanático em desconfiar de um povo por conta das diferenças práticas ou nos mecanismos políticos. Ninguém pensaria ser intolerante dizer de um povo: "Receamos a influência deles, pois são protecionistas". Ninguém pensaria ser tacanho dizer: "Lamento que tenham progredido porque são socialistas, ou individualistas manchesterianos, ou ferrenhos defensores do militarismo e do serviço militar obrigatório". Importa a diferença de opinião sobre a natureza dos Parlamentos; mas a respeito da natureza do pecado não significa absolutamente nada. A diferença de opinião acerca do objeto dos impostos tem muita importância; mas diferir de opinião a respeito da finalidade da existência humana não tem nenhuma importância. Temos o direito de desconfiar de alguém que vive num tipo diferente de municipalidade; mas não temos o direito de suspeitar de um homem que vive num tipo diferente de cosmo. Este tipo de esclarecimento certamente tem relação com o tipo menos esclarecido que se possa imaginar. Para recorrer a uma frase que empreguei anteriormente, isso equivale a dizer que tudo tem importância, exceto tudo. A religião é exatamente o tipo de coisa que não pode ser deixada de fora - porque inclui tudo. A mais desatenta das pessoas não pode colocar tudo dentro de uma mala de mão e simplesmente esquecer a mala. Gostemos ou não, sempre temos uma idéia geral sobre a existência. E tal visão, gostemos ou não, altera, ou mais precisamente, cria e envolve tudo que dizemos ou fazemos. Caso consideremos o cosmo como um sonho, consideraremos a questão fiscal como um sonho. Caso consideremos o cosmo como uma piada, consideraremos a catedral de São Paulo como uma piada. Caso tudo seja ruim, então devemos acreditar (se isto for possível) que a cerveja é ruim; caso tudo seja bom, seremos forçados à conclusão um tanto fantástica de que a filantropia científica é boa. Todo homem comum deve defender um sistema metafísico, e crê-lo firmemente. A grande possibilidade é a de que possa ter acreditado nele tão tenazmente e por tanto tempo que o tenha esquecido por completo.

A referida situação, com certeza, é possível. De fato, é a situação de todo o mundo moderno. O mundo moderno está repleto de homens que creem em dogmas de modo tão inflexível que nem mesmo sabem que são dogmas. Pode ser dito até que o mundo moderno, como um corpo coletivo, crê em certos dogmas com tanto vigor que nem sabe que são dogmas. Pode ser considerado "dogmático", por exemplo, em certos círculos tidos como progressistas, supor a perfeição ou aprimoramento do homem num outro mundo. Mas não é considerado "dogmático" supor a perfeição ou aprimoramento do homem neste mundo; ainda que a idéia de progresso não esteja demonstrada tanto quanto não está a idéia de imortalidade e seja, do ponto de vista racionalista, muito improvável. O progresso é um de nossos dogmas, e um dogma é algo que não é tido como dogmático. Ou, novamente, não vemos nada de "dogmático" na inspiradora, embora demasiado assustadora, ciência física, que afirma devermos coletar os fatos pelos fatos, mesmo que pareçam tão inúteis como gravetos e fios de palha. Esta é uma grande e sugestiva idéia cuja utilidade pode ser provada, mas que, considerada em abstrato, é tão questionável quanto recorrer a oráculos ou a templos sagrados, que dizem ser capazes de se comprovar. Assim, por não estarmos numa civilização que acredita firmemente em oráculos ou locais sagrados, vemos o total furor daqueles que se mataram para descobrir o Santo Sepulcro. No entanto, por estarmos numa civilização que acredita no dogma dos fatos pelos fatos, não vemos o total frenesi daqueles que se matam para descobrir o polo Norte. Não me refiro a uma defensável utilidade suprema que é verdadeira tanto em relação às cruzadas quanto em relação às explorações polares. Digo apenas que vemos a singularidade estética e superficial, a qualidade assustadora da idéia de homens cruzando um continente com exércitos para conquistar um lugar onde um homem morreu. Contudo, não vemos a singularidade estética e assustadora de homens morrendo em agonia para descobrir um lugar onde ninguém vive - um lugar que é interessante apenas porque supõem ser o lugar de encontro de algumas linhas que não existem.

Empreendamos uma longa jornada e comecemos uma busca incômoda. Escavemos e procuremos até encontrarmos nossas próprias opiniões. Os dogmas que realmente defendemos são muito mais fantásticos e, talvez, muito mais belos do que pensamos. No curso destes ensaios, temo ter falado, de tempos em tempos, de racionalistas e de racionalismo de uma forma depreciativa. Por estar cheio daquela brandura que deve vir ao fim das coisas, até mesmo ao fim de um livro, peço desculpas aos racionalistas, exatamente por chamá-los de racionalistas. Não há racionalistas. Todos nós acreditamos em contos de fada e neles vivemos. Alguns, com um suntuoso viés literário, acreditam na existência de uma mulher vestida de sol. Outros, com um instinto mais rústico, mais élfico, (...) acreditam apenas no impossível sol propriamente dito. Alguns acreditam no indemonstrável dogma da existência de Deus; outros, no igualmente indemonstrável dogma da existência do homem da casa ao lado.

As verdades se transformam em dogmas no instante em que são contestadas. Assim, todo homem que expressa uma dúvida, descreve uma religião. E o ceticismo de nosso tempo realmente não destrói as crenças, ao contrário, as cria; definiu-lhes os limites e a forma simples e desafiante. Nós, que somos liberais, outrora acreditávamos no patriotismo, antes o considerávamos razoável, e pensávamos pouco a esse respeito. Agora que sabemos que é incompreensível, o consideramos correto. Nós, que somos cristãos, nunca nos daremos conta do grande senso comum filosófico inerente àquele mistério, até que os escritores anticristãos nos chamaram a atenção. A grande marcha da destruição mental continuará. Tudo será negado. Tudo se tornará um credo. É razoável negar a existência das pedras da rua; será um dogma religioso declará-lo. É uma tese racional dizer que vivemos num sonho; será sanidade mística dizer que estamos acordados. Velas serão acesas para atestar que dois mais dois são quatro. Espadas serão empunhadas para provar que as folhas são verdes no verão. Ficaremos a defender, não somente as virtudes e sanidades inacreditáveis da vida humana, mas algo mais inacreditável ainda, este imenso universo impossível que salta aos olhos. Seremos aqueles que olharão a grama e os céus impossíveis com estranha coragem. Seremos aqueles que viram e creram.

G.K. Chesterton, Hereges.
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