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A suposta helenização do cristianismo, o realismo da filiação divina de Cristo e o encontro providencial entre Fé Bíblica e Filosofia Grega


Joseph Ratzinger

As grandes decisões fundamentais dos antigos concílios, que se converteram nos credos ou símbolos da fé, não torcem a fé convertendo-a numa teoria filosófica, porém dão forma verbal a duas constantes importantes da fé bíblica: propugnam o realismo da fé bíblica e vedam uma interpretação meramente simbólica e mitológica; propugnam a racionalidade da fé bíblica, que, na verdade, ultrapassa sim o que é próprio da razão e de suas possíveis “experiências”, mas, não obstante, apelam à razão e apresentam-se com a exigência de declarar a verdade, de abrir ao homem o acesso ao genuíno núcleo da realidade. Gostaria – como tenho feito com certa freqüência – de mostrar isso, resumidamente em um exemplo central, em apenas um vocábulo puramente filosófico e certamente não bíblico, que encontrou acolhida no Credo mais longo e que, portanto, tornou-se o exemplo ostensivo da “helenização” do cristianismo.

Refiro-me ao enunciado de que Jesus Cristo é o Filho unigênito de Deus, homousios com o Pai – consubstancial com o Pai. É bem sabido como se discutiu a respeito desse termo, como se procurou atenuar seu significado, estabelecer acordos - por motivos políticos, como na procura de mediação entre posições opostas, para salvar a paz na Igreja -, para que, finalmente, esse termo fosse mantido precisamente como garantia da fé bíblica.

Aqui se canoniza uma filosofia estranha à fé, uma metafísica elevada à categoria de dogma que pertence precisamente a uma só cultura? Para responder a essa pergunta precisamos ter bem presente a questão de que se tratava então. O Novo Testamento falava de Jesus como o Filho de Deus. Ora bem, as religiões, em cujo mundo a missão cristã penetrou, também falavam em filhos de Deus e filhos de deuses. Era Jesus de Nazaré um filho de Deus desse tipo? Seria essa, portanto, uma maneira de falar “mitológica, com exagero poético, como talvez seja comum entre enamorados, que colocam num plano absoluto a pessoa amada, mas, naturalmente, não acima da própria realidade, e querendo expressar uma mera decisão? Seria essa uma figura de linguagem ou que tipo de realismo pretendia ter?

Desta pergunta depende a decisão sobre o que é realimente o cristianismo – se Jesus pode ser contado entre os Avataras, entre as múltiplas formas de manifestação da deidade no mundo, se o cristianismo é uma variedade religiosa entre outras ou se aqui se encontra um outro realismo. A palavra homoousius responde à pergunta: a palavra “filho” não se deve entender no sentido poético e alegórico (mitológico, simbólico), mas plenamente no sentido realista. Jesus é realmente o Filho, não se tratando apenas de uma maneira de falar. Defende-se o realismo da fé bíblica, e nada mais; propugna-se a seriedade do sucedido, do novo acontecer que chega de fora. Nesse “é” ressoa o “Eu sou” escutado junto à sarça ardente (Ex 3,14), qualquer que possa ter sido o seu sentido histórico original. “Eu o sou” disse Jesus mais de uma vez, expressando com isso todo o realismo da fé bíblica. A fórmula, aparentemente tão avançada, do Credo, o homoousius, diz-nos em última análise que devemos tomar a Bíblia ao pé da letra, que ela, nos seus supremos enunciados, vale literalmente e não meramente no sentido alegórico.

Nas suas decisões, os padres conciliares entenderam com muita exatidão que a Bíblia não queria introduzir simplesmente uma “ortopráxis” qualquer. Sua pretensão é mais elevada: que o homem é apto para a verdade e quer confrontá-lo com a própria verdade, abrir-lhe a verdade, que, em Jesus Cristo, encontra-se diante dos homens como pessoa. O característico da filosofia grega era que não se contentava com as religiões tradicionais nem com as imagens do mito, mas levantava com toda seriedade a questão da verdade. E já nesse lugar podemos quiçá ver o dedo da Providência: porque o encontro entre a fé da Bíblia e a filosofia grega foi verdadeiramente “providencial”.
 
Joseph Ratzinger, Fé, Verdade e Tolerância, Cap II, pp. 88-90.

O Protestantismo, o Naturalismo e o Materialismo


Mons. Marcel Lefebvre

Pode parecer estranho e paradoxal chamar o protestantismo de naturalista. Nada há em Lutero de exaltação à bondade intrínseca da natureza porque, segundo ele, a natureza está irremediavelmente decaída e a concupiscência é invencível. No entanto a opinião excessivamene niilista que o protestante tem sobre si mesmo, desemboca em um naturalismo prático: na intenção de menosprezar a natureza e de exaltar o poder "só da fé", relegam a graça divina e a ordem sobrenatural ao domínio das abstrações. Para os protestantes a graça não opera uma verdadeira renovação interior; o batismo não é a restituição de um estado sobrenatural habitual, é somente um ato de fé em Jesus Cristo que justifica e salva.

A natureza não é restaurada pela graça, permanece intrinsecamente corrompida; e somente a fé obtém de Deus que deite sobre nossos pecados o manto pudico de Noé. Todo o organismo sobrenatural que o batismo agrega à natureza enraizando nela a graça, todas as virtudes infusas e os dons do Espírito Santo são reduzidos a nada, reduzidos a um só ato forçado de fé-confiança em um redentor que gratifica somente para retirar-se para longe [d]a criatura, deixando um abismo intransponível entre o homem definitivamente miserável e Deus transcendente três vezes santo. Este pseudo-supernaturalismo, como chama o Padre Garrigou-Lagrange, deixa finalmente o homem, apesar de haver sido redimido, sujeito somente à força de suas aptidões naturais; fatalmente se afunda no naturalismo. Deste modo os extremos opostos se unem! Jacques Maritain exprime bem o desenlace naturalista do luteranismo:

"A natureza humana terá que rechaçar como um inútil acessório teológico o manto de uma graça que não é nada para ela e cobrir-se com sua fé-confiança para converter-se em uma bela besta livre, cujo infalível e contínuo progresso encanta hoje o universo inteiro". (Trois Reformateurs, pag. 25)

Este naturalismo se aplicará à ordem civil e social: ficando a graça reduzida a um sentimento de fé-confiança, a Redenção será somente uma religiosidade individual e particular, sem influência na vida pública. A ordem pública, econômica e política fica condenada a viver e se desenvolver sem Nosso Senhor Jesus Cristo. O protestante busca no seu êxito econômico o critério de sua justificaçaõ diante de Deus; assim, de bom grado escreverá sobre sua porta: "Rendei honras a Deus por teus bens, oferecei a primícias de teus ganhos, então teus celeiros se encherão e teus tonéis transbordarão de vinho". (Prov. III, 9-10)

Jacques Maritain escreveu excelentes páginas sobre o materialismo do protestantismo, que dará nascimento ao liberalismo econômico e ao capitalismo:

"Por trás dos chamados de Lutero ao Cordeiro que salva, por trás de seus movimentos de confiança e sua fé no perdão dos pecados, há uma criatura humana que levanta a cabeça e faz seus negócios no lodaçal em que está submersa por causa do pecado de Adão! Desenvolver-se-á no mundo, seguirá a sede do poder, o instinto dominador, a lei deste mundo que é o seu mundo. Deus será somente um aliado um poderoso". (op. cit. pag. 52-53)

O resultado do protestantismo foi que os homens se apegaram ainda mais aos bens deste mundo, esquecendo-se dos bens eternos. E se um certo puritanismo chega a exercer uma vigilância exterior sobre a moralidade pública, não impregnará os corações do espírito verdadeiramente cristão, que é um espírito sobrenatural, onde reina a primazia do espiritual. O protestantismo, necessariamente, será conduzido a proclamar a emancipação do temporal em relação ao espiritual. Esta emancipação, justamente, vai reencontrar-se no liberalismo.

Mons. Marcel Lefebvre, Do Liberalismo à Apostasia.Cap 1, pp 12-14.

Resposta a um comentário curioso


Nestes dias eu recebi um comentário, no mínimo, curioso. Nele, ao mesmo tempo em que fui criticado pelo que escrevi a respeito do Pe. Fábio de Melo, fui também convidado, por alguém que supunha conhecer-me a alma a partir do que eu escrevera, a fazer uma certa experiência com a ayahuasca, popularmente conhecida como santo daime. No comentário, a pessoa fazia algumas observações divertidas: “Se você quiser... não, você quer, só não sabe...” Pergunto-me se ela viu isso quando tomou o chazinho...rs. 

Eu não costumo fazer postagens com comentários recebidos; na verdade, nunca fiz. Mas este me pareceu que merecesse uma resposta um pouco maior, pelo que o destaco com um post.

Reproduzo abaixo algumas partes que julgo mais importantes e mais relevantes. Em todo caso, a pessoa parecia estar sendo sincera, pelo que a respeito. Responderei as suas críticas e ao seu convite com a máxima sinceridade.

O comentário completo se encontra na seguinte postagem: Estranha entrevista do Pe. Fábio de Melo no Jô Soares.

Vamos à resposta. As partes em negrito são da comentadora Leila. As em itálico, são minhas.

**
Sim. Pe. Fábio é um apóstata.. e eu adoro isso!!..awuhuawh.”

 Não Pe. Fábio não é um apóstata... pelo menos não até agora. Ele pode ter cometido heresia, o que o torna um herege. Mas apostasia é outra coisa. Não vou me deter nisso, porque não vem ao caso.

“Ele consegue com palavras amenas levar um pouco de LUZ, as trevas da ignorância do meio católico.”

Para afirmar isto, é necessário utilizar um critério para que se identifique o que é luz e o que são trevas neste contexto. Por exemplo: nós, católicos, nos submetemos à Fé Católica e, com isto, sabemos quando uma negrura tenta se disfarçar de luz sem o ser.

Para que você, porém, identifique o discurso do Pe. Fábio com a luz e a doutrina católica com a treva, naturalmente deve utilizar um critério. Eu perguntaria: qual é? Não me diga que é o chazinho...

Além disto, dizer que o catolicismo é treva implica que o conheças profundamente. É o caso, minha cara? rs...

“Ai daqueles que às trevas chamam luz e à luz chamam trevas” (Is 5,20). Isto parece se aplicar perfeitamente a você, cara Leila.

“Desculpe minha sinceridade tão ...an..herética. É que o fato de já ter estado aí..do lado de vcs usando desse mesmo discurso e agora estar aqui do lado de cá faz enxergar as coisas de outro ângulo. É como a primeira vez que o homem foi ao espaço, e enxegou a Terra de fora.” 
Mudar de lugar faz enxergar as coisas de outro ângulo; isto não é nenhuma conclusão pra se orgulhar. Depois, segundo a tua comparação com o astronauta, queres dizer que agora, fora da Igreja, consegues ter uma visão panorâmica dela? Isto é muita pretensão, não acha?

1-      Se procuras observá-la de forma puramente natural, como se fosse objeto inerte da tua pesquisa, nem entenderás bem o que vês e muito mais é o que ficará por ver. A Igreja é um Mistério cuja verdade é revelada por Deus pelo dom da Fé. Se a olhas com soberba, Deus te resistirá...
2-      Para conhecer bem a Igreja é preciso estar nela, vivenciar o seu mistério, encarnar as suas verdades. E, ainda assim, o mistério nos ultrapassa infinitamente.
3-      Por fim, a sua própria afirmação contém a refutação da sua pretensão. Se mudar de lugar é ver as coisas por um ângulo diferente, isto significa que a nossa visão não abarca  toda a totalidade. Para conhecer, portanto, a verdade a fundo é necessário uma revelação que transcenda, na sua efetivação, todos os pontos de vista. O cristianismo, minha cara, é justamente fruto desta revelação do Deus que se fez homem e habitou entre nós.

Ainda que o teu astronauta possa sair da terra, ele não a pode observar de todos os ângulos, pelo que sua visão permanece limitada. Outra: a visão geral lhe tira a apreciação dos pormenores. Na revelação divina, não... A Fé ilumina-nos sobre as grandes verdades e sua luz também confere sentido profundo sobre o evento mais ordinário. Sua comparação, portanto, é pueril.

Mas o que mais me chamou atenção nesse post não foi o Pe. Fábio mas o discurso seu, Fábio Graa... Vc me lembra o discurso de um conhecido meu amante de Krishnamurti, usando sempre da boa sobriedade tentando ser bem fundamendado, embora confesse que os pilares desse fundamento católico..tsc., me parecem sempre tijolos mau encaixados que deixam brejas aos que ousam futricar.

Bem. Se sou comparado a alguém que se destaca pela sobriedade, creio que não há nada a me queixar neste sentido. E se eu te chamei a atenção, posso bem estar servindo de isca para a sua conversão. Deus faz destas coisas e é uma honra para mim poder ser um instrumento.

Você, porém, afirma que os “tijolos” que fundamentam o catolicismo deixam brechas. Como você me parece uma pessoa sincera, cara Leila, pergunto-lhe: quais as brechas que você vê? Eu gostaria muito de que vc mas expusesse. E com isto manifesto o desejo de que sigamos dialogando.

Se vc é tradicionalista vc provavelmente se identifica mais com os santos contemplativos da Igreja. Vc já compreendeu que o caminho a percorrer É pra dentro do ser.

De fato, me identifico muito com os contemplativos, embora hoje eu também admire muito os combatem no que se convencionou chamar “carisma missionário”. E sei de muitos tradicionalistas que provavelmente se identificam mais a estes últimos. Quanto a mim, de fato, tenho uma atratividade particular pela contemplação, o que já me fez questionar várias vezes a respeito da minha vocação. Cheguei até a considerar a vida monástica, mas hoje sei que aquela especificidade não é para mim.

Depois você diz que eu já compreendi que se deve caminhar pra dentro do ser. Esta questão é bastante ambígua, e tem sido frequentemente tratada com pouca profundidade, sobretudo pelos que se apressam a criticar tais expressões como se fossem manifestamente gnósticas, budistas, etc e etc. Isto se deve, particularmente, a um paradoxo usado pelo G.K Chesterton, presente num livro de muita estima pelos tradicionais, chamado Ortodoxia. Lá o Chesterton faz uma comparação entre o budista e o católico, afirmando coisas de um modo que, a princípio, e detendo-se estritamente no pouco que ali é dito, permanecem insuficientes para fundamentar uma compreensão mais profunda sobre o tema. Como dizem alguns "o buraco é mais embaixo".

Sinto muito aos chestertonianos que me considerarão talvez um ingênuo, mas, neste ponto, o Ortodoxia é bem modesto. Não que o Chesterton fosse escritor de nível modesto, mas que, na obra e neste ponto, ele brinca com os paradoxos e não pretende ser precisamente analítico com a questão. 

Até agradeço este comentário que me dá oportunidade de tratar também destes assuntos pois, de outro modo, dificilmente o faria. O Chesterton diz que o “santo” budista se caracteriza pelos olhos semi-abertos, o que denuncia uma atitude introspectiva de busca da verdade em si mesmo. Dizer daí que tal atitude implica auto-suficiência é muito precipitado. Há pessoas aos montes que copiam e colam esta parte da obra, e acham que já falaram o suficiente do assunto. É uma ingenuidade.

Quanto ao santo católico, o Chesterton diz que ele tem os olhos bem abertos, olhando a realidade dos seres que, de fato, são. Chesterton foi um pensador muito profundo, o que é inegável, e o argumento que ele apresenta aqui pode ser bem compreendido e é muito verdadeiro, mas apenas se já tivermos assumido alguns pressupostos.

Mas se a gente for observar, há um traço no budismo, embora não se identifique com ele, que atenta para a nua realidade das coisas, tal como elas são, sem máscaras, sem vestimentas; é o Zen. O tema é complexo e não há que aprofundá-lo aqui; além do que o zen pretende-se anterior a qualquer argumentação. Poderia, então, ser defendido que o fato de buscar a iluminação implica que este sujeito praticante do zen deseja, na verdade, ver melhor.  entendido desta forma, bem se poderia argumentar que a atitude de cerrar os olhos poderia ser como uma preparação para abri-los bem.

De outro lado, há um forte traço no cristianismo que prega justamente esta busca interior, esta ida ao centro da alma. E, neste campo, eu sou bem mais confortável para fazer afirmações. Apenas uns poucos exemplos:  

Santo Agostinho escreve: “Entrei no meu íntimo sob tua guia....” e ainda “estavas em mim e eu não estava em ti”. Sto Agostinho afirma que encontrou Deus dentro de si.  Ele diz à Verdade que encontrou no seu interior: "Tu és o meu Deus".

Sta Teresa D’Avila, por sua vez, escreve: “tendes visto com freqüência que os manuais de espiritualidade recomendam a que se corra para dentro. E eu digo: é isto mesmo”. A sua obra “Castelo Interior” é, toda ela, um convite e um pedido para que se adentre mais no palácio real que é a alma. 

Já São João da Cruz escreve: “Devemos procurar Deus principalmente dentro de nós mesmos” e ainda, num pequeno canto que compôs: “Olvido do que é criado, memória do Criador, atenção ao interior, e estar amando o Amado”.  

Notem que eu cito três doutores e estas são apenas umas poucas de uma infinidade de afirmações neste sentido. 

Não quero com isto, de jeito nenhum, fazer uma intersecção entre budismo ou filosofia oriental e cristianismo. Se há pontos em comum, são meramente acidentais. É a falsa compreensão da acidentalidade deste aspecto o que motiva os sincretismos que se costuma fazer.  

Ainda que um budista e um cristão meditem e cerrem os olhos em direção ao interior, o objeto que procuram é radicalmente diferente. O Cristão busca a Cristo presente na sua alma. O budista busca o nada.

Este “nada” ainda pode dar pano pra manga numa discussão que se proponha estabelecer paralelos acidentais entre a “negação” budista e o ramo da mística chamado “teologia apofática”. Mas, mais uma vez, não vamos tratar disto.
 

Pra que pus tudo isto? Pra dizer duas coisas: Primeiro, que não podemos ficar na superficialidade, atribuindo um pecho irresponsável só porque se viu algo parecido com outro algo que se leu e de que se lembrou vagamente segundo aqueles aspectos secundários. Segundo: que, embora exteriormente ou esteticamente parecidos em certos traços, eles são radicalmente distintos. Isto é necessário, creio, para que se compreenda bem a resposta que darei a este comentário.

Dito isto, sigamos. Eu, de fato, admiro muito a vida contemplativa. E isto me leva a admirar também pelo menos a estética de outros movimentos contemplativos não católicos como, por exemplo, o zen que citei e a sua respectiva prática da meditação sentada (zazen), a meditação do tai chi, etc. Os amigos mais próximos já conhecem este meu traço oriental..rs... Haverá, talvez, a minha interlocutora se convencido, com estas minhas declarações, da veracidade da sua suposição a meu respeito? rs...

Como eu falei, a admiração não se estende aos princípios destas vertentes. Compreendo bem que são atrativos enquanto caricaturas de cristianismo. Ademais, o rigor que acompanha os tais praticantes dessas coisas dá certa atratividade a estes movimentos. Eu estudo um pouco disso e me interesso,mas com sobriedade. Não farei como o Thomas Merton que quase debandou pra o outro lado.

Agora, note o seguinte: se já há aqui uma explícita rejeição dos princípios errados destes sistemas que não apelam para o uso de substâncias indutoras de um suposto estado meditativo, quanto mais com relação ao uso deste chazinho... Isto aí, como me dizia um protestante ainda ontem enquanto coversávamos, "tá repreendido!". rs...

Não é só por causa da tradição católica. É seu coração que diz que vc encontra a Verdade quando fecha os olhos.

Veja.. Se meu coração busca a verdade, então ele sempre caminhou rumo ao catolicismo. Como já dizia algum santo, todo aquele que busca a verdade, busca a Deus sem o saber. E, completo eu, aquele que busca a Deus está rumando para o catolicismo, ainda que não saiba. Se meu coração busca a verdade, ele encontrou e encontra no catolicismo a plena satisfação dos seus anseios mais profundos e, iluminado pela fé, compreende melhor estas coisas. A tradição católica, pura e perfeita, corresponde plenamente à natureza do coração humano. Ela é, na verdade, a sistematização da verdadeira forma de entender as coisas. Ela facilita o acesso à verdade que liberta. Enquanto corpo sistemático, a tradição prepara o espírito para o que está além do sistema, a Deus que é inefável.

 Todo e qualquer movimento filosófico e/ou contemplativo que atinja algum aspecto de verdade, somente o faz pelo Verbo. Como dizia Sto Agostinho, toda verdade provém do Espírito Santo.

A verdade, porém, completa e isenta de mistura de erros está na Igreja Católica. Disse o Verbo: “pois vos revelei tudo quanto ouvi de meu Pai”.

Quanto mais, portanto, um movimento não cristão atinja a verdade, mais ele caminha rumo ao catolicismo. Se prosseguir indefinidamente neste processo de acesso à verdade, chegará o momento da sua conversão. Isto se faz pela graça de Deus: “ninguém virá a mim se o Pai não o atrair”.

Eu adoraria discutir muitos assuntos do tipo com você, mas provavelmente seria inútil.

Me pergunto por que seria inútil... Se vc tiver a pretensão de me convencer a abandonar a Santa Igreja, então toda a sua tentativa, de fato, estará fadada ao fracasso. Porém, se não obstante o seu chazinho, vc aceita que não sabe tudo e que pode pelo menos aprender algo sobre a Igreja que não sabia, não vejo porque seja inútil.


 
Se vc um dia quiser fazer uma experiência com ayahuasca, num lugar que zela pela sobriedade. Me procure. Se você quiser, não. Você quer, apenas não sabe.

Aqui vc fala de sobriedade e faz uma afirmação do tipo “Walter Mercado”. Não, minha cara, não tenho o mínimo interesse de provar do seu chá, e não vejo como um alucinógeno pode conferir sobriedade a alguém.

E eu sei que não quero.


 
Mas alguém que vai a fundo a estudar os mistérios..e a doutrina. É alguém que tem sede de verdade. Eu não vou ganhar nada com isso. E eu não saio por aí convidando as pessoas. Apenas senti que eu devia lhe proporcionar essa oportunidade. E levantar essa possibilidade pra vc.
 

De fato, todo cristão deve ter sede da Verdade, visto que a Verdade é uma Pessoa, Nosso Senhor Jesus Cristo.

 Agradeço o seu convite, mas não quero. Quero aproveitar, então, e também te fazer um convite: estude a sério, sem chá, a doutrina católica e, quaisquer dúvidas que você tiver, estamos por aqui. Somos já muitos os tradicionais, graças a Deus, e nós nos ajudamos no que um não souber.

 Você diz que sentiu que devia me dar esta oportunidade. Sinto dizer que sentiu errado. Aliás, talvez tenha sido Nosso Senhor te inquietando a alma e te trazendo a um ambiente católico onde podes respirar ar fresco e se expor à cálida luz do Sol da Verdade.


Um abraço fraterno em Cristo.

Depois de me falar do Santo Daime e de dizer tuas pérolas sobre a “ignorância católica”, tu te despedes em nome de Nosso Senhor. Rs...

Espero, minha cara, que Cristo te traga de volta. Estarei rezando pela sua conversão. Que a Virgem Santíssima te reconduza.

Fábio.

A tragédia do comunismo - Pe. Leonel Franca


Depois de ter presenciado algo do “Grito dos Excluídos”, evento que sempre nos prova a infinita paciência divina, creio ser conveniente transcrever algo a respeito do pano de fundo que motiva estas manifestações sociais supostamente católicas. Abaixo, um texto muito esclarecedor do grande Pe. Leonel Franca, uma verdadeira sumidade na Filosofia do nosso país e grande defensor da Fé Católica.

**

Da sistematização marxista não há só uma peça que tenha resistido vitoriosamente à análise científica. As suas principais doutrinas – postulados filosóficos e teorias econômico-sociais – estão hoje cientificamente superadas. Não suportaram o exame da crítica e o confronto dos fatos. Sobrevivem, porém, popularmente, com uma força de expansão formidanda. O partido comunista que se encarna, por uma conjunção acidental de circunstâncias favoráveis, empolgou o poder na grande e misteriosa e enigmática Rússia. Mobilizou os seus inesgotáveis recursos econômicos, galvanizou o messianismo secular do seu povo e pôs este imenso poder a serviço da mais hábil, mais tenaz e mais tecnicamente organizada das propagandas imperialistas. Destarte, o que há 30 anos, como doutrina era um sistema historicamente classificado, como força política era uma inexistência ou uma insignificância, assumiu, em nossos dias, o vulto da maior ameaça à civilização humana.
 
O comunismo, de fato, não é apenas um sistema econômico, é uma filosofia integral da vida. Não aspira apenas a reformas da estrutura social, baseadas numa redistribuição mais eqüitativa dos bens materiais, reclama o monopólio incontrastável das almas. Pretende implantar a ditadura do proletariado e a ditadura das consciências. Uma religião às avessas. Seu dogma: o materialismo histórico. Sua ética: nova hierarquia de valores aferidos pelo imperativo condicional da vitória do partido. Seu ideal messiânico que eletriza as massas numa grande esperança escatológica: conquista emancipadora da humanidade. Nunca um totalitarismo estadeou pretensões tão radicais.

Na propaganda deste programa, os postulados metafísicos, que já não se discutem, ficam em planos mais afastados da perspectiva. Concentrando as atenções imediatas, figuram a exploração hábil de ressentimentos históricos das classes sofredoras, as críticas contundentes das injustiças e desumanidades do capitalismo, a pintura risonha da sociedade futura, colorida com um otimismo ingênuo e sereno em contraste com o pessimismo azedo que projeta as suas negruras sobre todo o passado histórico do homem alienado e decaído. Assim se hipnotizam as massas. Assim se cria a mística do comunismo, e se mobilizam as energias religiosas da alma a serviço de uma ideologia atéia. Fé e esperança, dedicação e sacrifício, amor da justiça e da liberdade, todo este patrimônio de riquezas humanas, que só têm valor numa ordem ontológica de realidades espirituais, são exploradas para acelerar a implantação de uma nova concepção da vida que as declara ficções sem conteúdo e abstrações malfazejas.

Eis a grande tragédia do comunismo: a mobilização das melhores energias humanas para a construção de um porvir que será o maior desastre e a decepção total da humanidade.

Este mundo que a revolução marxista prepara para a felicidade do homem será um mundo sem Deus. Um mundo em que se verificará o que Chesterton chamou “anomalia suprema dos tempos anormais, a derradeira negação que, para além de todos os dogmas, fulmina a crença mais necessária à alma: a de que existe uma razão das coisas”. A inteligência já não poderá encontrar respostas às interrogações supremas sem as quais não lhe é possível viver. À vontade, com a negação do Infinito Bem, faltará a mola insubstituível do seu dinamismo metafísico. A consciência, reduzida a reflexo de condições sociais, perderá a sua dignidade de norma racional de ação. Os supremos valores da ordem ideal – a Verdade, o Amor e a Beleza – sem o único fundamento ontológico que lhes assegura realidade e vida, eclipsam-se numa noite sem esperanças. A morte impossível de Deus precipitaria a existência universal na negação eterna do nada. Não podemos prever o caos em que se desconjuntaria uma estrutura social em que fosse possível a extinção de Deus nas consciências humanas.

Ateísmo e materialismo são solidários no sistema de Marx. Este mundo que se pretende elevar sobre tantas ruínas será ainda o mais inumano dos mundos. O problema central em qualquer estruturação da sociedade, o problema da pessoa foi, pelo marxismo, não só preterido, nos aspectos que lhe são próprios, mas de todo em todo falseado na natureza dos seus dados fundamentais.

No homem não se viu senão a atividade econômica, característica de sua essência e plasma de sua sociabilidade. Os domínios mais nobres de sua vida individual e social – a cultura, o direito, a moral, a religião – foram anexados ao primado da economia. Onde convinha libertar o homem da hegemonia crescente e humilhante das forças de produção, consumou-se, como definitiva e ideal, a sua ditadura incontrastável. O homem já não deve dominar e disciplinar as relações econômicas para dirigi-las aos fins superiores da realização plena de sua personalidade, curva resignado o colo à tirania do seu jugo. A escravização ao econômico em vez de emancipação do econômico consuma a alienação irreparável e desumanizante.

Com esta inversão de valores desnatura-se e avilta-se a dignidade do trabalho. O esforço humano já não tem outra razão de ser senão aperfeiçoar a matéria e criar utilidades. O trabalho é isto, mas não é só isto. O que o constitui uma atividade especificamente humana, é, antes de tudo, ser uma obra viva interior das almas [que] sobrelevam em qualidade as riquezas materiais que multiplica. Trabalhando, o homem desenvolve harmoniosamente as suas mais nobres faculdades, colabora com a realização dos planos divinos da criação e procura transfigurar este mundo, de que foi constituído senhor, numa habitação em que possa desenvolver as suas energias e realizar a nobreza de seus destinos.

No horizonte das esperanças humanas o comunismo acena com felicidades sonhadas de um paraíso perdido. Mas são estreitos estes horizontes e falazes estas promessas. No indefinido em que se perde o olhar perscrutador do futuro, não se distingue senão riqueza e mais riqueza, conforto e mais conforto. Uma cúpula de chumbo, imensa e pesada, cinzenta e fria, não permite que se elevem as vistas acima dos bens materiais. O surto para o infinito, que constitui a essência mesma da personalidade, estará para sempre condenado a cair sobre si mesmo, no tantalismo de um desespero mortal. O homem transformar-se-á num animal de vista baixa: a terra estreitará para sempre o horizonte de suas perspectivas: o vôo de suas aspirações como o termo de suas atividades. Quando o trabalho se degrada à simples força criadora de valores econômicos, o homem, preso à matéria, verá alienado o melhor e mais nobre de sua natureza.

E esta alienação vai ainda mais longe. Quando se desconhece a dignidade do espírito, o homem já não tem um destino próprio, essência da personalidade. Decai à categoria de coisa ou do instrumento a serviço da sociedade. Na fórmula de Marx, o ser humano “na realidade, é o conjunto das relações sociais”. Os vínculos que, num dado momento histórico, o ligam ao meio, definem-lhe a natureza e esgotam-lhe a razão de ser. Já não há em cada homem uma vocação original que importa respeitar, uma fonte de direitos que não podem ser postergados, uma autonomia de atividades realizadoras de uma finalidade moral, indeclinável. Cerceiam-se assim, pela raiz, todas as liberdades humanas. O indivíduo é sacrificado à comunidade, o cidadão ao Estado, que lhe impõe o mais absoluto conformismo de idéias, de vontades e de sentimentos. Compreende-se que Marx ridiculariza: “o inevitável estado-maior das liberdades de 1848: liberdade pessoal, liberdade de imprensa, de palavra, de associação, de reunião, de ensino, de cultos, etc.” Compreende-se que seja imolada a geração presente à felicidade quimérica do futuro. O homem, totalmente alienado de sua excelência natural, não passa de joguete sem dignidade nas mãos dos que encarnam a falsidade de uma ideologia na tirania de uma ditadura.

A grande tarefa da hora presente é dissociar do marxismo a obra imensa da elevação das classes operárias à participação mais eqüitativa em todas as riquezas da cultura. Ele não é nem pode ser o agente das transformações sociais por que suspiramos.

A tentativa comunista, se realizada, comprometeria a civilização e mergulharia o homem, para sempre transviado dos seus destinos, na desgraça de uma catástrofe irreparável.

Não é possível combater a Deus sem ferir o homem de morte.

Ateísmo militante, humanismo inumano.

Pe. Leonel Franca, Ateísmo Militante.

Religião de Esquerda e o Paraíso na terra...


Relendo, ontem, um texto do prof. Drago Romano, entitulado "A Gnose e a morte de Deus",  disponibilizado pelo site Permanência, encontrei a transcrição da fala de um pastor protestante, de nome Harvey Cox que, adotando uma leitura hegeliana da religião, escreveu certas coisas que representam bem o pano de fundo ideológico de muito do que vemos, hoje, entre os "católicos de esquerda". Reproduzo abaixo as linhas do Ph.D em História e Filosofia da Religião, de Harvard, com breves complementações do prof. Drago entre colchetes.

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"A noção de outro mundo (otherworldiness) conta a existência de um outro mundo mais elevado, mais santo ou mais sagrado do que o mundo secular em que vivemos. Esta suposição tem muito pouco em comum com a fé hebraica, excetuando algumas passagens apocalípticas. As escrituras dos judeus ensinam que este mundo é o único criado por Deus, que o ama e o conduz ao aperfeiçoamento. A idéia de dois mundos, sendo um secular com inferior "status", tem raízes não em fontes bíblicas, mas principalmente na Pérsia e nas filosofias helênicas que formaram a atmosfera cultural da bacia do Mediterrâneo nos primeiros séculos de vida da Igreja. (...) Nosso emergente consenso ecumênico da fé é que este mundo é o mundo que Deus está renovando e redimindo, que nossa história é a história na qual Deus age, e que o triunfo final de Deus previsto pela Bíblia será a realização daplenitude deste mundo e não do outro".

(...) O triunfalismo foi posto de lado. Agora os cristãos vêem-se mais e mais como "Povo de Deus", chamados para servir este mundo e não como uma privilegiada colônia destinada à salvação no outro mundo. (...) Secularizaçaõ (...) pretendo que signifique: perda de interesse por outros mundos, com a resultante intensificação de interesse por este mundo, e a nova emergente função da Igreja, mais como minoria e serva [deste mundo, é claro] do que maioria e senhora. (...) Uma nova teologia para uma sociedade secularizada só se produzirá quando a Igreja aceitar a eliminação de seu "status" temporal e livrar-se de todo o saudosismo de um róseo passado.

Secularização significa que o mundo onde se processa a história humana agora fornece o horizonte no qual o homem compreende sua vida.

Nossa tarefa não é nem de perpetuar essa síntese [quer ele dizer a aliança entre a revelação e a filosofia grega] nem de dispensá-la. Preferível é forjar uma nova expressão de fé bíblica dentro das categorias culturais de hoje.

Se Deus ainda é vivo e ativo, o lógico é procurar discernir sua atividade na nossa história atual (...) Uma Igreja que não se identifica com o mundo, com a mesma intensa solidariedade que Deus tem por ele, trai sua missão (...) nossas várias doutrinas herdadas surgiram do esforço da Igreja para falar em diferentes idades do mundo (...) Podemos ver que o significado de qualquer trecho de doutrina não é fixado nem fechado. (...) Se Deus age no mundo dos eventos seculares e se a responsabilidade do seu povo é discernir sua ação, isto requer uma teologia secular.

Os cristãos podem reunir-se para se consultarem uns aos outros acerca do que agora está fazendo Deus no mundo secular, participando, assim, alegremente na missão secular de Deus.

Nossa tarefa de teólogos não é podar ou preservar a fé, mas interpretá-la e reinterpretá-la para sucessivas épocas do homem.

Uma interpretação secular do Evangelho deve ser ética (...) e em nosso mundo isto significa que deva ser política."

Helio Drago Romano, A Gnose e a Morte de Deus.

Chesterton: "superstição" medieval e superstição moderna


Desde o Renascimento até ao século XIX, os modernos tiveram um amor quase monstruoso aos antigos. Ao considerarem a vida medieval, não podiam considerar os cristãos senão como discípulos dos pagãos: de Platão, nas idéias; de Aristóteles, na razão e na ciência. Não era assim. Em certos aspectos, até do ângulo mais monotonamente moderno, o catolicismo estava muitos séculos adiantado tanto ao platonismo como ao aristotelismo.

Podemos observá-lo ainda, por exemplo, na impertinente tenacidade da Astrologia. Neste assunto, os filósofos estavam todos do lado da superstição, enquanto oso santos e todas as pessoas semelhantemente supersticiosas eram contra a superstição. Mas até os grandes santos tiveram dificuldade em se desvencilhar dela.  Sempre fizeram duas objeções os que suspeitavam do aristotelismo de Tomás de Aquino; consideradas em conjunto, parecem-nos hoje muitíssimo estranhas e cômicas. Uma era a opinião de que as estrelas são seres pessoais que nos governam a vida; a outra, a grande teoria genérica de que os homens têm uma inteligência coletiva, opinião evidentemente oposta à individualidade do espírito humano imortal. Ora, ambas essas teorias têm curso entre os modernos, tão forte é ainda a tirania dos antigos. A astrologia espalha-se pelos jornais de domingo, e a outra doutrina revestiu a sua centésima forma naquilo a que se chama comunismo, ou espírito da colmeia.

G. K. Chesterton, Santo Tomás de Aquino

O papel da Filosofia e a idéia de Destino


A filosofia é, essencialmente, uma resposta ao problema da vida. O homem ocupa o lugar central na órbita da criação. Ele, porém, depende intrinsecamente em seu ser de Deus criador, e d'Ele depende como ser moral.

Não é o homem, apenas, um ser físico; o elemento fisico é nele a envoltura corporal de uma alma com destino eterno. Neste destino não está só; sendo criatura e filho de Deus com os demais homens, tem com eles uma comunidade de destino.

A noção de destino é algo essencial para a ordenação da vida humana; privado do seu destino, o homem desintegra-se, dissolve-se numa pluralidade de atos, fica apenas como "ser para a morte", na angustiada expressão do existencialismo heideggeriano.

O destino, a consciência de sentir-se espiritual e imortal, ordenado a outra existência mais valiosa, reduz à unidade todos os atos humanos integrando-os numa síntese superior. É esta idéia que penetra e sustenta ao homem cristão, e é graças a esta consciência do destino que tinge de sentido humano e valoriza até os atos mais humildes; e deles faz atos humanos e meritórios de altíssimo valor. Pelo contrário, quando o homem não ajusta sua vida à moral, afasta-se de seu destino eterno e desaparece aquela ordenação dos seus atos que orientam sua vida.

Perdida a unidade de referência, que só o destino dá, e que unifica os atos do homem, este se desumaniza, se desmoraliza, e esta situação repercute gravemente em suas atitudes para com seus semelhantes.

Mas a imortalidade e o destino do homem só são compreensíveis dentro da doutrina que, acerca de Deus, trouxe a mensagem cristã.

Os antigos filósofos não lograram um conceito claro de um Deus pessoal, transcendente e criador. Isto é levado do Cristianismo que à idéia de Deus criador acresce a da Providência - em sentido mui diferente dos estóicos - e ainda ensina que Ele se identifica com o amor. Idéias luminosas que esclarecem toda a vida humana.

Emílio Silva de Castro, Filosofias da Hora e Filosofia Perene.

Tomismo: A filosofia do Ser e da Verdade


“A todos quantos agora sentem sede da verdade, dizemos-lhes: ide a Tomás de Aquino” 
(Papa Pio XI)

Dom. Odilão Moura, O.S.B.

Qual a nota fundamental da filosofia de S. Tomás? - É ser ela "realista". Parte o Tomismo da realidade das coisas, não de idéias imaginadas pelo filósofo que delas conclui todo um sistema coordenado de teses. Origina-se o Tomismo da percepção sensível do mundo, para, após, dela tirar, no plano abstrativo da inteligência, todo um conjunto consequente e harmonioso de teses. Bem define a filosofia de S. Tomás o Pontífice Leão XIII, quando escreve na genial Encíclica Aeterni Patris: "O Doutor Angélico buscou as conclusões filosóficas nas razões principais das coisas, que têm grandíssima extensão e conservam em seu seio o germe de quase infinitas verdades, para serem desenvolvidas em tempo oportuno e com abundantíssimo fruto pelos mestres dos tempos posteriores."
(Leão XIII, Enc. Aeterni Patris (04/08/1879) nº 22)

"As razões principais das coisas", eis o ponto de partida do Tomismo. Das coisas existentes, apreendidas pelos sentidos, conceituadas, após, pela inteligência, sobe S. Tomás até as explicações últimas das mesmas. E é subindo das percepções mais primitivas das coisas que S. Tomás chega à certeza do supremo Criador delas. Vindo das mudanças das coisas, da causalidade existente entre elas, da contingência, das perfeições, e da ordem harmoniosa das mesmas, pelo caminho das cinco vias, é que o Angélico atinge a sublimidade, a suma perfeição, o ato puro, de Deus. Conhece assim a última explicação das coisas que está em Deus.

Por isso o realismo tomista é a filosofia do ser e a filosofia da verdade. A verdade é a obsessão de S. Tomás, justamente porque a verdade é a correspondência da mente com as coisas. Em primeiro lugar, as coisas; depois, a mente. Em primeiro lugar, o objeto; depois, o sujeito. Do conúbio sujeito-objeto nasce a harmoniosa construção tomista. Repugna-lhe toda doutrina subjetivista. O realismo tomista tem os pés no chão. Foge dos devaneios, por vezes atraentes, das filosofias que partem da negação da "coisa espiritual" e reduzem as coisas ao mundo corpóreo. Evidentemente, como não pode haver concordância do Tomismo com tais filosofias, não pode haver também concordância com o materialismo.

Embora o Tomismo puro negue todas essas filosofias, contudo, havendo nelas algum elemento de verdade, assume-o S. Tomás. O Tomismo, por isso, é eminentemente crítico. A verdade é de todos, e o Angélico escreve que "toda verdade, dita por quem quer que seja, vem do Espírito Santo", e diante das diversas opiniões dos filósofos: "não olhes por quem são ditas, mas o que dizem". O critério supremo do Tomismo é a verdade imparcialmente aceita e proposta. Escreve S. Tomás: "O estudo da filosofia não é para se saber o que os homens pensaram, mas para que se manifeste a verdade" (De Coelo et Mundo, I, 22). Naturalmente decorre da filosfia da verdade ser ela "a filosofia do ser". O ato de ser é o fundamento primeiro das coisas e a última determinação da perfeição das mesmas. A noção do ser é a primeira que afeta a nossa inteligência, e perpassa todos os nossos conhecimentos. O ser é a própria natureza de Deus, isto é, sabemos certa e logicamente que Deus é. Todavia, conhecemo-lo por analogia, não de modo unívoco. Se o Tomismo admite entes de razão, cuja realidade objetiva está tão somente na inteligência, os seres de razão nada mais são que idéias formuladas pela razão, para que melhor se atinja a realidade existencial das coisas. Somente em Deus o ser atinge a sua suprema perfeição. Deus une todas as perfeições na infinitude de um ser que vem de si mesmo e que desconhece mudanças e sucessão. Deus é o ser de ato puro destituído de qualquer imperfeição ou potência - a perfeita posse e simultânea de todas as perfeições: é o ser eterno (Boécio).

O Papa Paulo VI com felicidade descreve a filosofia tomista como abrangendo o Ser "quanto no seu valor universal, quanto nas suas condições essenciais". Ao que João Paulo II acrescenta em belos termos que "esta filosofia poderia ser chamada filosofia da proclamação do ser, o canto em honra daquilo que existe".

D. Odilão Moura, O.S.B, Os Princípios da Filosofia de Sto Tomás de Aquino, Introdução do Tradutor.

Uma reta filosofia contra a pretensão dos liberais

 
Para combater o subjetivismo e o racionalismo, que são a base dos erros liberais, não farei alusão às filosofias modernas infectadas precisamente de subjetivismo e racionalismo. Não é nem o sujeito, nem seus conhecimentos e nem seus anseios que a filosofia de sempre, e em particular a metafísica, toma por objeto, é o ser mesmo das coisas, é aquilo que é. Com efeito, é o ser com suas leis e princípios, o que nosso conhecimento mais espontâneo descobre. E no seu ápice a sabedoria natural (que é essa filosofia) chega pela teodicéia ou teologia natural ao Ser por excelência, ao Ser subsistente por si mesmo. É este Ser primeiro que o senso comum, apoiado, sustentado e elevado pelas verdades de fé, sugere que seja colocado no topo do real, conforme à sua definição revelada: “Ego sum qui sum” (Ex 3,14): Eu sou aquele que sou. Vocês sabem que quando Moisés perguntou seu nome, Deus lhe respondeu: Eu sou o que sou, o que significa: Eu sou Aquele que é por si mesmo, possuo o ser por mim mesmo. É o “ens a se”: o ser por si mesmo, em oposição a todos os outos seres que são “ens ab alio”: ser por outro ser, pelo dom que Deus lhes fez da existência! Este é um princípio tão admirável, que se pode meditar sobre ele durante horas. Ter o ser por si, é viver na eternidade, é ser eterno. Aquele que tem o ser por si mesmo sempre teve que tê-lo, o ser nunca poderia havê-lo abandonado. É sempre, foi sempre, será sempre. Pelo contrário, aquele que é “ens ab alio”, ser por outro ser, recebeu de outro, portanto começou a ser em algum momento, portanto começou!

Como esta consideração nos deve manter em humildade! Compenetrarmo-nos do nada que somos diante de Deus! “Eu sou aquele que é, e tu és aquele que não é”, dizia Nosso Senhor a uma santa alma. Como é verdadeiro! Quanto mais o homem absorver este princípio da mais elementar filosofia, melhor sentirá seu verdadeiro lugar diante de Deus.

Somente o fato de dizer: eu sou “ab alio”, Deus é “ens a se”; eu comecei a ser, Deus é sempre. Que contraste admirável! Que abismo! É por acaso este pequeno “ab alio”, que recebe seu ser de Deus, que teria o poder de limitar a Glória de Deus? Teria o direito de dizer a Deus: tens direito a isto, mas a mais nada? “Reina nos corações, nas sacristias, nas capelas, sim; mas na rua e na cidade não!” Que petulância! Igualmente seria este “ab alio” quem teria o poder de reformar os planos de Deus, de fazer com que as coisas sejam de outra maneira, diferentes de como Deus as fez? E as leis que Deus em sua sabedoria e onipotência criou para todos os seres e especialmente para o homem e a sociedade, teria o desprezível “ab alio” o poder de rechaçá-las a seu capricho, dizendo: “Eu sou livre!” , que pretensão! Que absurda esta rebelião do liberalismo! Vede como é importante possuir uma sã filosofia e ter assim um conhecimento profundo da ordem natural, individual, social e política.

Mons. Marcel Lefebvre, Do Liberalismo à Apostasia, Cap. XXXIII.
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