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Virgem Maria - A Nova Arca da Aliança - Dr. Scott Hahn


CANTAM OS ANJOS ARAUTOS DA ARCA

Para os judeus do primeiro século, o choque do Apocalipse foi certamente o relato de João no final do capítulo 11. É aí então que, após ouvir os toques das sete trombetas, João vê o templo no céu aberto (Ap 11,19) e, dentro dele, um milagre!- A Arca da Aliança.

Essa teria sido a notícia do milênio! A Arca da Aliança, o objeto mais sagrado do antigo Israel, estava desaparecida havia seis séculos. Por volta de 587 a.C., o profeta Jeremias escondeu a arca, a fim de preservá-la da corrupção, quando os invasores babilônicos chegaram para destruir o Templo. Podemos ler essa história no segundo livro dos Macabeus:

No momento em que chegou, [Jeremias] descobriu uma vasta caverna, na qual mandou depositar a arca, o tabernáculo e o altar dos perfumes; em seguida, tapou a entrada. Alguns daqueles que o haviam acompanhado voltaram para marcar o caminho com sinais, mas não puderam achá-lo. Quando Jeremias soube, repreendeu-os e disse-lhes que esse lugar ficaria desconhecido até que Deus reunisse seu povo e usasse com ele de misericórdia. Então, revelará o Senhor o que ele encerra e aparecerá a glória do Senhor com uma densa nuvem. (2Mc 2,5-8)

Quando Jeremias fala da "nuvem", ele quer dizer a shekinah, ou seja, a nuvem de glória, que envolvia a Arca da Aliança, a qual significava a presença de Deus. Dentro do templo de Salomão, a arca ocupava o Santo dos Santos. Na verdade, era a arca que fazia daquele lugar do santuário o mais sagrado de todos os lugares. A Arca da Aliança trazia as tábuas da Lei, nas quais o dedo de Deus havia escrito os dez mandamentos e um pouco do maná, o pão caído do céu que Deus havia dado ao seu povo durante sua permanência no deserto. Trazia também em seu interior a vara de Aarão, o símbolo de seu ofício sacerdotal.

Feita de madeira de acácia, a arca tinha forma de uma caixa, coberta com ornamento de ouro e dois querubins esculpidos em suas extremidades. No topo da arca estava o propiciatório, sempre desobstruído. De pé diante da arca, dentro do Santo dos Santos*, ficava a menorah, um candelabro de sete braços.

Contudo, os primeiros leitores judeus do Apocalipse sabiam desses detalhes só da história e da Tradição. Desde a época de Jeremias, o esconderijo da arca nunca tinha sido encontrado e a reconstrução do templo não contava com a arca em seu Santo dos Santos, nem com a shekinah, nem maná, nem querubins no propiciatório.

Então, vem João dizendo ter visto a shekinah (a "glória de Deus", Ap 21,10-11.23) e o mais incrível de tudo, a Arca da Aliança.


MARIA TINHA UM PEQUENO CORDEIRO

Jesus prepara seus leitores de várias maneiras para o aparecimento da arca, a qual se revela, por exemplo, após o toque da sétima trombeta do sétimo anjo vingador, numa clara alusão ao Israel da Antiga Aliança. Na primeira e maior batalha que Israel lutou ao entrar na terra prometida, Deus ordenou ao povo eleito para carregar a arca à frente deles para o combate. Especificamente, a passagem de Apocalipse 15,11 ecoa Josué 6,13, que descreve como, durante seis dias, os quais antecederam a Batalha de Jericó, os sete sacerdotes guerreiros de Israel marcharam ao redor da cidade com a Arca da Aliança até que, no sétimo dia, eles tocassem as trombetas, fazendo ruir os muros da cidade. Para o antigo Israel, a arca foi, em certo sentido, a arma mais eficaz, pois representava a proteção e o poder de Deus Todo-Poderoso. Do mesmo modo, o Apocalipse mostra que o novo e celeste Israel também combate a batalha na presença da arca.

Como seria de se esperar, a arca aparece com espetaculares efeitos especiais: "Abriu-se o templo de Deus no céu e apareceu, no seu templo, a Arca da sua Aliança. Houve relâmpagos, vozes, trovões, terremotos e granizo." (Ap 11,19)

Imagine que você é um leitor do primeiro século, criado como um judeu. Você nunca viu a arca, mas a religião e toda a sua educação religiosa lhe ensinaram a todo instante sobre a restauração do templo. João a realiza antecipadamente, de modo que quase parece estar provocando seus leitores ao descrever o som e a fúria que acompanhavam a arca. A dramática tensão se torna quase insuportável. O leitor quer ver a arca como João a vê.

O que se segue, então, é chocante! Nas nossas bíblias atuais, depois de todo esse desenvolvimento, a passagem, de repente, dá uma parada brusca como o capítulo 11 a conclui. João nos promete a arca, mas parece pôr em cena um final abrupto. Devemos ter em mente, entretanto, que as divisões em capítulos no Apocalipse, bem como em todos os livros bíblicos, é artificial, feita por escritores na Idade Média. Logo, não há capítulos no livro original de João; tudo era uma narrativa contínua.

Assim, os efeitos especiais do final do capítulo 11 serviram como um prelúdio imediato para a imagem que, agora, aparece no capítulo 12. Podemos ler essas linhas juntos como que descrevendo um único evento: "Abriu-se o templo de Deus no céu e apareceu, no seu templo, a arca da sua aliança [...]. Apareceu em seguida um grande sinal no céu: uma Mulher revestida do sol, a lua debaixo dos seus pés e na cabeça uma coroa de doze estrelas. Estava grávida e gritava de dores, sentindo as angústias de dar à luz". (Ap 11,19-12,1-2).

João nos mostra a Arca da Aliança... e é uma mulher.

Na verdade, o Apocalipse pode parecer estranho. Anteriormente, nós vimos uma noiva que aparecia como uma cidade; agora, nós vemos a arca que aparece como uma mulher.


LINHAS DE BATALHA

Quem é essa mulher que é também uma arca? A maioria dos exegetas concorda que, num primeiro nível pelo menos, essa mulher (como a noiva de Apocalipse 19) representa a Igreja, que trabalha para dar à luz os seus filhos que creem, em todas as épocas. No entanto, é pouco provável que a mulher descrita por João seja, exclusive ou mesmo principalmente, para representar a Igreja. O cardeal Newman nos oferece um argumento convincente a respeito do porquê essa personificação não ser suficiente na leitura de Apocalipse 12.

A imagem da mulher, segundo as Escrituras geralmente em uso, é muito ousada e importante para uma mera personificação. A Escritura não é muito favorável às alegorias. De fato, temos várias figuras lá, quando, por exemplo, nos fala do braço ou da espada de Deus; assim, também, quando fala de Jerusalém ou da Samaria, no feminino, ou da Igreja como uma noiva ou como a videira. Mas a Escritura não é muito dada a tecer idéias abstratas ou generalizações de atributos pessoais. Esse é o estilo clássic, e não o da Escritura. Xenofonte colocou Hércules entre a Virtude e o Vício, representados como mulheres.

Realmente a mera personificação não parece corresponder ao método de São João durante todo o episódio com a mulher. Ele pode apresentar outros personagens fantásticos que podem assumir certas idéias, mas não há dúvida de que eles também são pessoas reais. Por exemplo, poucos exegetas questionam a identidade do "filho varão", a que a mulher dá à luz (Ap 12,5). Dado o contexto do Apocalipse, este menino só poderia ser Jesus Cristo. São João nos fala que a criança "há de reger todas as nações com cetro de ferro", e isso, claramente, é uma referência ao Salmo 2,9, que descreve o rei messiânico prometido por Deus. João também acrescenta que esta criança "foi arrebatada para Deus e para o seu trono", o que só pode se referir a Jesus que subiu aos céus.

O que é verdade para o menino também o é para o seu inimigo, o dragão. João afirma claramente que o dragão não é apenas uma alegoria, mas uma pessoa específica: "a primitiva serpente, chamada Demônio e Satanás, o sedutor do mundo inteiro." (Ap 12,9)

De modo semelhante, o aliado do dragão, a "besta saindo do mar" (Ap 13,1), também corresponde a uma pessoa real. Observemos essa besta horrível e, depois, olhemos para trás, na história, a fim de vermos o que João viu. A besta tem "dez chifres e sete cabeças, com dez coroas sobre os chifres e um nome blasfemo sobre sua cabeça". A partir do capítulo 7 do livro de Daniel, sabemos que, em profecia, tais bestas geralmente representavam dinastias. Por exemplo, os chifres são um símbolo comum do poder dinástico.

Devemos nos perguntar, então: no primeiro século, que dinastia foi mais ameaçada pela ascensão do rei messiânico a partir da linhagem de Davi? O Evangelho de Mateus (cap. 2) deixa isso bem claro: era a dinastia de Herodes, a dos herodianos. Herodes, afinal, era um não judeu, nomeado pelos romanos para governar a Judéia. A fim de fortalecer o seu reinado ilegítimo, os romanos dizimaram todos os herdeiros da dinastia judaica dos Hasmoneus. E Herodes dizia ser rei em Jerusalém, indo bem longe ao reconstruir o templo em grande escala. Herodes, um líder carismático e ao mesmo tempo gentil, ganhou aos poucos o medo, a gratidão e até mesmo a adoração de seus súditos ao longo de seu sangrento reinado. O primeiro assassinato por ordem de Herodes foi o de sua própria esposa, depois o de seus três filhos, sua sogra, um cunhado e um tio, para não mencionarmos todas as crianças de Belém.

Além disso, Herodes tinha influenciado os sacerdotes do templo durante seu governo. Afinal, a quem Herodes consultou quando soube do Messias recém-nascido? Sua dinastia era uma falsificação satânica da Casa de Davi. Como o verdadeiro herdeiro de Davi, Salomão, Herodes tinha construído o templo e mantinha várias mulheres. Com a ajuda dos romanos, ele também conseguiu unificar a terra de Israel como não ocorria havia séculos.

A dinastia dos Herodes se tornaria, para eles mesmos, o maior obstáculo à verdadeira restauração do reino de Davi. Sete Herodes governaram após seu patriarca e fundador, Antípatro, e havia dez Césares na linha imperial de Roma, desde Júlio César até Vespasiano. A besta com dez chifres e sete cabeças corresponde curiosamente aos sete Herodes coroados que governaram apoiados pelo poder da dinastia dos dez Césares.

Afirmar que Apocalipse 12 é um exercício de personificação seria uma simplificação grosseira. A visão de João, embora rica em simbolismo, descreve uma história real com pessoas reais, embora numa perspectiva celestial.


MAIS DO QUE UMA MULHER

João descreve as lutas em torno do nascimento e da missão do Messias. Simbolicamente, ele mostra quais papéis teriam Satanás, os Césares e os Herodes. No entanto, ainda na peça central de Apocalipse 12, o elemento mais proeminente é a Mulher, que é a Arca da Aliança.

Se ela é mais do que a encarnação de uma idéia, então quem é ela?

A Tradição nos diz que ela é a mesma pessoa a quem Jesus chama de "mulher" no Evangelho de João, a reprise daquela pessoa que Adão chama "mulher" no Jardim do Éden. Como no início desse Evangelho, esse episódio do Apocalipse evoca repetidamente o Protoevangelho de Gênesis.

A primeira pista é que João, tanto no Apocalipse quanto no Evangelho, nunca revela o nome dessa pessoa; refere-se a ela apelas pelo nome que Adão deu a Eva no paraíso: ela é "mulher". No mesmo capítulo do Apocalipse, um pouco adiante, aprendemos que, como Eva era a "mãe de todos os viventes" (Gn 3,20), assim também a mulher da visão de João é mãe não simplesmente do "menino", mas de todo "o resto de sua descendência", mais semelhantes "àqueles que guardam os mandamentos de Deus e dão testemunho de Jesus". (Ap 12,17) Sua prole, então, são todos aqueles que têm nova vida em Jesus Cristo. A nova Eva cumpre a antiga promessa de ser, de modo perfeito, a mãe de todos os viventes.

Contudo, a referência mais explícita do Apocalipse em relação ao Protoevangelho é a figura do dragão, a quem João identifica claramente como a "primitiva serpente" do Gênesis, "o sedutor do mundo inteiro" 9Ap 12,9; ver Gn 3,13). O conflito que se segue, então, entre o dragão e o filho cumpre fielmente a promessa de Gênesis 3,15 quando Deus jurou colocar "inimizade" entre a serpente e "a mulher; entre a tua descendência e a dela". E a angústia da entrega da mulher parece que vem em cumprimento das palavras de Deus a Eva: "Multiplicarei os sofrimentos de teu parto; darás à luz com dores..." (Gn 3,16)

Claramente, João pretende relacionar Eva, a mãe de todos os viventes, com a mulher do Apocalipse, a nova Eva, a pessoa que ele identifica como "mulher" no Evangelho.


MARIA, MARIA, UM RELICÁRIO?

Ficamos, no entanto, com a questão de como essa mulher pode ser a reverenciada Arca da Aliança.

Para entendermos isso, precisamos primeiramente considerar o que fez a arca ser tão santa. Não foi a madeira de acácia ou os ornamentos de ouro. Nem foram as figuras esculpidas dos anjos. A arca continha a aliança, o que a fez se tornar santa. Dentro dessa caixa de ouro estavam os dez mandamentos, a Palavra de Deus escrita pelo dedo de Deus; o maná, o pão milagroso enviado por Deus para alimentar seu povo no deserto; e o cajado sacerdotal de Aarão.

O que quer que tenha feito a arca ser santa, fez Maria ser ainda mais santa. Vejamos. Se a primeira arca continha a Palavra de Deus na pedra, o corpo de Maria continha a Palavra de Deus encarnada. Se a primeira arca continha o pão milagroso do céu, em seu corpo Maria tinha o próprio Pão da Vida que vence a morte para sempre. Se a primeira arca continha o cajado do primeiro sacerdote do povo, o corpo de Maria continha a própria pessoa do sacerdote eterno, Jesus Cristo.

O que João viu no templo celeste era muito maior do que a arca da antiga Aliança, a arca que tinha irradiado a nuvem de glória antes da menorah, no coração do antigo templo de Israel. João viu a arca da nova Aliança, o vaso escolhido para levar a aliança de Deus ao mundo de uma vez por todas.


OBJEÇÕES NEGADAS?

Os primeiros Padres da Igreja deram forte testemunho dessa identificação de Maria com a Arca da Aliança. Ainda assim, alguns exegetas levantaram algumas objeções, às quais os Padres responderam.

Por exemplo, alguns se opuseram quanto às dores de parto da mulher, que pareciam contradizer à longa Tradição de que Maria teria dado à luz sem as dores do parto. Muitos cristãos acreditam que, uma vez que Maria foi concebida sem o pecado original, ela estaria isenta das maldições de Gênesis 3,16; portanto, não sentiria qualquer sofrimento no parto.

Ora, o sofrimento de uma mulher não necessariamente está relacionado às dores físicas do parto. Em outras passagens do Novo Testamento, São Paulo usa a dor do parto como uma metáfora para o sofrimento espiritual, para o sofrimento em geral, ou mesmo para o longo tempo de sofrimento do mundo na expectativa da Redenção no fim dos tempos (Gl 4,19; Rm 8,22). O sofrimento da mulher no Apocalipse poderia representar o desejo de trazer Cristo ao mundo; ou poderia representar os sofrimentos espirituais como o preço da maternidade de Maria.

Outros exegetas se mostram preocupados com a menção aos "outros filhos" da mulher, pois tal ponto contradiz o dogma da Virgindade Perpétua de Maria. Afinal, como ela poderia ter outros filhos se ela permaneceu sempre virgem? No entanto, de novo, esses filhos não precisam ser seus filhos físicos. Os Apóstolos frequentemente falam de si próprios como "pais" das primeiras gerações de cristãos (ver 1Cor 4,15). A "outra prole" de Apocalipse 12 são certamente "aqueles que carregam o testemunho de Jesus" e, então, se tornam Seus irmãos, partilhando o mesmo Pai do céu e Sua mãe.

Ainda outros são simplesmente obscurecidos pelos detalhes do relato de João, por exemplo, quando à mulher foram "dadas duas asas de grande águia, a fim de voar para o deserto [...] fora do alcance da cabeça da serpente" 9Ap 12,14). Tais passagens acreditam que representam a proteção divina dada a Maria contra o pecado e a influência diabólica. Outros vêem como uma narrativa estilizada da fuga para o Egito (Mt 2,13-15), para onde a Sagrada Família foi impulsionada pela besta de Herodes.


SUBINDO AS MONTANHAS

A maior dificuldade para os exegetas, no entanto, parece ser a singularidade aparente da visão tipológica de João no Apocalipse. Afinal, onde mais Maria é chamada de a Arca da Aliança? Um estudo mais atento do Novo Testamento nos mostra que essa visão de João não era única; mas, mais explícita do que em outras passagens; porém, certamente, não a única.

Com os livros de São João, os escritos de São Lucas são a outra grande mina de ouro da doutrina sobre Maria. É Lucas quem nos narra o episódio da anunciação do anjo a Maria, da visitação a sua prima Isabel, das circunstâncias miraculosas do nascimento de Jesus, da purificação da Virgem no templo, de sua busca por seu filho aos doze anos e de sua presença entre os Apóstolos no primeiro Pentecostes.

Lucas era um artista literário meticuloso que poderia alegar a vantagem adicional de ter o Espírito Santo como seu coautor. Ao longo dos séculos, os estudiosos têm se maravilhado com a forma como o Evangelho de Lucas sutilmente faz um paralelo-chave com vários textos do Antigo Testamento. Um dos primeios exemplos em sua narrativa é a história da visitação de Maria a Isabel. A linguagem de Lucas parece ecoar a narração, no segundo livro de Samuel, das viagens de Davi ao trazer a Arca da Aliança para Jerusalém. A história começa com Davi que "levantou-se e foi" (2Sm 6,2). No relato da visitação, Lucas inicia com as mesmas palavras: Maria "levantou-se e foi" (1,39). Em suas viagens, então, tanto Maria quanto Davi ultrapassaram a região montanhosa de Judá. Davi reconhece a sua indignidade com as palavras: "Como pode que a arca do Senhor venha me visitar?" (2Sm 6,9). Palavras semelhantes ecoam quando Maria se aproxima de sua prima Isabel: "Donde me vem que a mãe do meu Senhor venha me visitar?" (Lc 1,43). Note aqui que a frase é quase idêntica, a não ser que a "arca" é substituída por "mãe". Lemos ainda que Davi "dançou" de alegria na presença da arca (2Sm 6,14.16), e nós encontramos expressão similar usada para descrever o pulo da criança no ventre de Isabel quando Maria se aproximou (Lc 1,44). Por fim, a arca permaneceu na região montanhosa por três meses (2Sm 6,11), o mesmo período de tempo que Maria passou com Isabel (Lc 1,56).

No entanto, por que Lucas é tão profundo nesses acontecimentos? Por que não somente dizer que a Virgem Santíssima é um tipo bíblico ou o cumprimento da arca?

O cardeal Newman abordou essa questão de uma forma interessante: "Às vezes, nos perguntam por que os escritores sagrados não mencionaram a grandeza de Nossa Senhora. Eu respondo: ela estava ou poderia ainda estar viva, quando os Apóstolos e Evangelistas escreveram sobre ela. Havia um único livro da Escritura que, com certeza, foi escrito depois de sua morte e este livro (o Apocalipse) o fez, posso assim dizer, canonizando-a e coroando-a."

Será que Lucas, com seu jeito calmo, foi apresentando Maria para ser a Arca da Aliança? A prova é muito evidente para explicar a credibilidade de outra forma.


OS PRIMEIROS INTÉRPRETES

A mulher do Apocalipse é a Arca da Aliança no templo celeste; e aquela mulher é a Virgem Maria. Contudo, isso não exclui outras leituras de Apocalipse 12. A Escritura, afinal, não é um código a ser decifrado, mas um mistério que nós nunca poderemos sondar plenamente.

No século IV, por exemplo, Santo Ambrósio viu a mulher claramente como a Virgem Maria, "porque ela é Mãe da Igreja, pois deu à luz Àquele que é a Cabeça da Igreja"; e ainda viu a mulher do Apocalipse como uma alegoria da própria Igreja. Santo Efrém da Síria chegou à mesma conclusão, sem temer qualquer contradição: "A Virgem Maria é, mais uma vez, a figura da Igreja... Vamos chamar a Igreja pelo Nome de Maria, pois ela é digna de um nome duplo."

Santo Agostinho também considerou que a mulher do Apocalipse "significa Maria, que, sendo impecável, trouxe adiante, a nossa Cabeça impecável. Trouxe também diante de si mesma a figura da Santa Igreja, para que, como Maria trouxe à luz um filho permanecendo virgem, assim também a Igreja deve, durante os séculos, vir trazendo à luz seus membros, e ainda sem perder seu estado de integridade."

Como Maria gerou Cristo para o mundo, assim, a Igreja gera todos os que creem "outros Cristo", a cada geração. Como a Igreja se torna mãe dos crentes pelo Batismo, assim Maria se torna mãe dos crentes como irmãos de Cristo. A Igreja, nas palavras de um recente estudioso, "reproduz o mistério de Maria".

Podemos ler todas essas interpretações como uma marcante passagem de Santo Irineu, que encontramos no último capítulo. Para o menino é, sem dúvida, "o filho puro abrindo impecavelmente o ventre puro que regenera os homens para Deus". E os "outros filhos", vemos em Apocalipse, são certamente aqueles que são regenerados para Deus, ou seja, aqueles que são nascidos do mesmo ventre como Jesus Cristo.

Lido à luz dos Padres, Apocalipse 12 pode iluminar a nossa leitura posterior de todas as passagens do Novo Testamento que descrevem os cristãos como irmãos de Cristo. A palavra grega para "irmão", adelphos, literalmente significa "do mesmo ventre". De João a Irineu até Efrém e Agostinho, os primeiros cristãos acreditaram que esse ventre pertencia a Maria.

A passagem se revela extremamente rica. Outros Padres viram a mulher do Apocalipse como um símbolo de Israel, a qual deu à luz o Messias; ou como o povo de Deus através de todas as épocas; ou como o império de Davi, definido em contraste aos dos Herodes e dos Césares.

Ela e todas essas coisas, mesmo quando é a Arca da Aliança. Enquanto cada uma dessas interpretações é suficiente de uma forma primária ou secundária, nenhuma pode cumprir o significado principal do texto. Todas essas leituras simbólicas apontam, para além de si mesmas, a um significado primordial que é o histórico-literal. Ou, como o Cardeal Newman colocou: "O santo Apóstolo não teria falado da Igreja sob esta imagem em particular, a menos que tivesse existido uma Bem-Aventurada Virgem Maria, que foi elevada às alturas e objeto de veneração de todos os fiéis."

Nas palavras de outro exegeta, a mulher do Apocalipse deve ser "uma pessoa concreta que engloba um coletivo". Além disso, o significado primário para a mulher, bem como para o seu menino, deve pertencer ao indivíduo, à pessoa histórica, Santíssima Virgem Maria, que ao mesmo tempo tornou-se mãe de Cristo e dos membros do Seu corpo, a Igreja.

Dr Scott Hahn, Salve, Santa Rainha. São Paulo: Cléofas, 2013. p.47-59.

Profecia do Santuário IV - O princípio Dia-Ano aplicado a Dn 9,24-27



Dando prosseguimento ao nosso estudo sobre a Profecia do Santuário (PS), trataremos, nesse texto, do Princípio Dia-Ano e suas aplicações.

Princípio Dia-Ano


Como dito no texto de exposição, o fundamento para a contagem dos dias relacionados à purificação do santuário é o princípio dia-ano, onde, profeticamente, um dia equivale a um ano. Segundo vimos também, essa equivalência se baseia sobretudo em dois textos do Antigo Testamento:

"Quando esse período estiver terminado, tu te deitarás sobre o lado direito, para de novo levar a iniquidade da casa de Judá durante quarenta dias; cada dia que te concedo corresponde a um ano." (Ez 4,6)

"Explorastes a terra em quarenta dias; tantos anos quantos foram esses dias pagareis a pena de vossas iniquidades, ou seja, durante quarenta anos, e vereis o que significa ser objeto da minha vingança." (Nm 14,34)

Há outros textos, mas estes dois são os principais. O "Questões sobre doutrina" diz: 

"O princípio a ser adotado na interpretação de tempo simbólico é: '[Eu] te dei cada dia por um ano' (Ez 4,7; comparar com Nm 14;34). Acreditamos, portanto, em harmonia com muitos sábios eminentes ao longo dos anos, que os 2.300 'dias' proféticos indicam 2.300 anos literais no cumprimento, e que algo mais, ou algo menos, seria contrário ao princípio básico do simbolismo de tempo." (2008, p.201)

A primeira impressão que nos dá é que essa base é por demais frágil para sustentar uma regra profética. Estes dois textos em nada se relacionam com questões apocalípticas ou com o livro de Daniel. No entanto, o texto de Ezequiel, que é escolhido na citação acima não por acaso, é truncado, bastante simbólico, e de fato profético. Mas, ainda assim, basear-se num único texto, e tão obscuro, para tomar um princípio profético geral, nos parece temerário.

O texto de Números fala de uma ameaça que Deus faz aos israelitas que reclamavam pouco tempo depois de terem saído do Egito. "'Oxalá tivéssemos morrido no Egito ou neste deserto! Por que nos conduziu o Senhor a esta terra para morrermos pela espada? Nossas mulheres e nossos filhos serão a presa do inimigo. Não seria melhor que voltássemos para o Egito?' E diziam uns aos outros: 'Escolhamos um chefe e voltemos para o Egito'." (14, 1-4)

No trecho usado como uma das fontes do princípio dia-ano, Deus diz que este é o tempo em que eles ficarão no deserto e lá morrerão:

"'Até quando sofrerei eu essa assembléia revoltada que murmura contra mim? Ouvi as murmurações que os israelitas proferem contra mim. Dir-lhes-ás: juro por mim mesmo, diz o Senhor, tratar-vos-ei como vos ouvi dizer. Vossos cadáveres cairão nesse deserto. Todos vós que fostes recenseados da idade de vinte anos para cima, e que murmurastes contra mim, não entrareis na terra onde jurei estabelecer-vos, exceto Caleb, filho de Jefoné, e Josué, filho de Nun. Todavia, introduzirei nela os vossos filhinhos, dos quais dizíeis que seriam a presa do inimigo, e eles conhecerão a terra que desprezastes. Quanto a vós, os vossos cadáveres ficarão nesse deserto, onde os vossos filhos guardarão os seus rebanhos durante quarenta anos, pagando a pena de vossas infidelidades, até que vossos cadáveres apodreçam no deserto. Explorastes a terra em quarenta dias; tantos anos quantos foram esses dias pagareis a pena de vossas iniquidades, ou seja, durante quarenta anos, e vereis o que significa ser objeto de minha vingança. Eu, o Senhor, o disse. Eis como hei de tratar essa assembléia rebelde que se revoltou contra mim. Eles serão consumidos e mortos nesse deserto!" (Nm 14, 26-35)
O que se diz é que, por terem explorado a terra por 40 dias e já estarem cheios de reclamação, por 40 anos - punição - sofrerão. Aqui não há uma equivalência, mas um justiçamento. É só observar o contexto.

O texto de Ezequiel, de que referimos a dificuldade, citamo-lo inteiro para que o leitor fique consciente da sua obscuridade. Estamos no capítulo 4. Os versículos do 1 ao 4 são bastante herméticos.

"Filho do homem, toma um tijolo, põe-no diante de ti, e desenha nele a cidade de Jerusalém. Farás contra ela trabalhos de assédio, contra ela construirás terraços e trincheiras, estabelecerás campos e prepararás aríetes. tomarás em seguida uma frigideira de ferro, e a colocarás como uma muralha de ferro entre ti e a cidade. Em seguida voltarás contra ela a tua face; ela será atacada e farás então o assédio. Será isto um símbolo para a casa de Israel."
O que se depreende do texto é que Jerusalém seria cercada. Do versículo 4 em diante, temos:

"Deita-te sobre o lado esquerdo e toma sobre ti a iniquidade da casa de Israel; todo o tempo em que ficares assim deitado levarás sua iniquidade. E eu fixo o número dos anos do seu pecado, segundo o número de dias que te concedo, trezentos e noventa dias, durante os quais carregarás a iniquidade da casa de Israel. Quando esse período estiver terminado, tu te deitarás sobre o lado direito, para de novo levar a iniquidade da casa de Judá durante quarenta dias; cada dia que te concedo corresponde a um ano."

O texto nos parece bastante confuso, e talvez por isso não pudemos encontrar nenhuma explicação mais detida sobre ele em fontes adventistas. Também não encontramos uma explicação do que seriam os "trezentos e noventa dias". Pegar, portanto, esta idéia e usá-la como critério para o cômputo das demais profecias parece-nos arbitrário. E muito mais quando um dos critérios da hermenêutica adventista é nunca basear nada em apenas um texto da Bíblia. 

Não obstante, este princípio de fato foi muito utilizado não só por adventistas, mas por outras várias denominações protestantes, e inclusive por católicos, e, como veremos, ele de fato parece funcionar, ainda que a coisa às vezes se torne um tanto problemática. É preciso saber quando ele deve ser aplicado e quando não. Para resolver esse problema, não basta observar se o livro é profético ou histórico, como às vezes se faz, pois, como veremos depois, o termo "dia" (yom) é naturalmente polissêmico. A nossa idéia com este texto, então, não é exatamente refutar o princípio, mas problematizá-lo e questionar a sua aplicação em certas questões. Embora presumidamente óbvio, pareceu-nos este um dos pontos mais complexos de todo este estudo.

Um aparente sucesso na sua aplicação se dá no caso das setenta semanas, porque, calculadas como anos desde o ano 457, supostamente a data do Decreto de Artaxerxes, as 70 "setes", que são "semanas de anos", nos levam a pelo menos datas aproximadas do nascimento do Cristo, do Seu batismo e da Sua morte, considerando a identificação do "Ungido" com o Cristo, que eu penso ser coerente, embora alguns o identifiquem com Ciro ou Onias III.

O primeiro problema é que, neste caso das 70 semanas, a Bíblia não especifica se se trata de dias ou de anos. A primeira sugestão de que não se referem a dias vem da própria redação: "setenta setes" (Shebuah), e não "semanas". Em segundo lugar, a profecia dada a Daniel por Gabriel diz respeito aos 70 anos de Jer 25,11-12, e que, conforme 2Cr 36,21, é uma aplicação das ameaças divinas em Lv 25,1-5 por não terem guardado o 7º ano: 

"O Senhor disse a Moisés no monte Sinai: 'Dize aos israelitas o seguinte: quando tiverdes entrado na terra que vos hei de dar, a terra repousará: este será um sábado em honra do Senhor. Durante seis anos semearás a tua terra, durante seis anos podarás a tua vinha e recolherás os seus frutos. Mas o sétimo ano será um sábado, um repouso para a terra, um sábado em honra do Senhor: não semearás o teu campo, nem podarás a tua vinha; não colherás o que nascer dos grãos caídos de tua ceifa, nem as uvas de tua vinha não podada, porque é um ano de repouso para a terra." (Lv 25,1-5)

No versículo 8, lemos:

"Contarás sete semanas de anos, sete vezes sete anos, isto é, o tempo de sete semanas de anos, quarenta e nove anos."

Aqui se fala claramente das "semanas de anos", e, como vimos, isto está intimamente ligado às angústias de Daniel e à resposta de Gabriel. Logo, nada mais natural que a interpretação anual das sete semanas que o Arcanjo deu ao profeta de fato se apliquem. Se assim é, esta não seria exatamente uma prova da funcionalidade do princípio "dia-ano", visto que a palavra "dia" nem aparece.

Outra coisa que bate é a menção que o Anjo Gabriel faz a "um tempo, dois tempos e metade de um tempo", em Dn 7,25 e 12,7. Considerando que "um tempo" equivale a "um ano", teríamos 3 anos e meio. Convertidos em grupos de doze meses de trinta dias, temos 1260 dias. O curioso é que nós encontramos a mesma quantidade de dias, transmutada de modos diferentes, também em duas passagens de Apocalipse: 12,6 e 13,5. A primeira fala explicitamente de 1260 dias, e a segunda de 42 meses, o que lhe é equivalente.

Há aqui um porém. Esses 1260 dias, correspondentes ao "um tempo, dois tempos e metade de um tempo", o que equivaleria a 3,5 tempos, corresponde exatamente à "meia semana" de Dn 9,27. 

Analisemos, então, o contexto de cada trecho:

Dn 7,25 - "Proferirá insultos contra o Altíssimo e porá à prova os santos do Altíssimo; ele tentará mudar os tempos e a Lei, e os santos serão entregues em suas mãos por um tempo, tempos e metade de um tempo.

Parte da nota de rodapé da Bíblia de Jerusalém diz que este trecho "exprime (...) um período de calamidades permitidas por Deus, mas cuja duração, para consolo dos aflitos, será limitada."

Dn 12,7 - "Ouvi o homem vestido de linho, que se achava contra a correnteza do rio, o qual ergueu para o céu a mão direita e a mão esquerda, jurando por Aquele que vive eternamente: 'Será por um tempo, tempos e metade de um tempo. E quando se completar o esmagamento da força do povo santo, essas coisas todas se consumarão!"

Apo 12,6 - "E a Mulher fugiu para o deserto, onde Deus lhe havia preparado um lugar em que fosse alimentada por mil duzentos e sessenta dias."

Parte da nota de rodapé da Bíblia de Jerusalém: "[O deserto é o] refúgio tradicional dos perseguidos do AT (cf. Ex 2,15, 1Rs 19,3, 1Mc 2,29-30)"

Apo 13,5 - Foi-lhe dada uma boca para proferir palavras insolentes e blasfêmias, e também poder para agir durante quarenta e dois meses.

Sendo que 42 meses de 30 dias dão, de novo, 1260 dias.

Como se vê das passagens acima, o período referido sempre se refere a um tempo em que os inimigos do povo de Deus encontram liberdade e ocasião para agir. É um tempo em que o povo de Deus está sendo oprimido. Mesmo em Apo 12,6, a Mulher só vai ao deserto porque está sendo perseguida. 

E o que será que diz Dn 9,27? Vejamos:

"Ele confirmará uma aliança com muitos durante uma semana; e pelo tempo de meia semana fará cessar o sacrifício e a oblação. E sobre a nave do Templo estará a abominação da desolação até o fim, até o termo fixado para o desolador."

Este trecho é interpretado pela IASD como se referindo a Jesus: a aliança durante a semana seria a pregação do Evangelho até a morte de Estêvão, o que iria supostamente do ano 27 ao 34 d.C.. O sacrifício e a oblação cessados se referiria à morte de Jesus, que fez encerrar a Antiga Aliança.

Porém, vamos analisar o texto. Quem é o "ele" com que começa o versículo 27? O 26 responde: "E a cidade e o Santuário serão destruídos por um príncipe que virá. Seu fim será num cataclismo e, até o fim, a guerra e as desolações decretadas."

Então, o "Ele" não é Jesus, mas o "príncipe que virá" e destruirá a cidade e o Santuário, isto é, o imperador romano Tito, aqui aparecendo como um tipo dos perseguidores, já que o mesmo período de tempo está referido no Apocalipse.

E este imperador, destruindo o Templo de Jerusalém, fará cessar o sacrifício e a oblação, naturalmente. 

"E sobre a nave do Templo estará a abominação da desolação até o fim, até o termo fixado para o desolador."

Duas coisas aqui: "o termo fixado para o desolador" parece se referir ao período de 1260 dias, isto é, os três anos e meio. Se se aplicar aqui o princípio dia-ano - que, lembramos, é problemático -, temos 1260 anos. Uma vez que a invasão do templo se deu no ano 70 d.C., a desolação teria de ir pelo menos até 1330, que é o resultado da soma de 1260 e 70. Há algum fato marcante nesse ano? Parece que não. Isso, claro, considerando que quem faz cessar os sacrifícios seja Tito. Se o aplicarmos a Jesus, considerando a interpretação adventista, temos o ano de 31 d.C. No entanto, "o termo fixado para o desolador" fica uma expressão flutuante. Parece haver aí um salto forçado de repente para o ano 70. Mas, ainda assim, em que consistiria o "termo fixado para o desolador"? Vimos que todas os textos bíblicos que falam de um desolador datam o seu período limitado de dominação em 1260 dias.

A outra questão é a seguinte: Devemos observar o trecho "sobre a nave do Templo estará a abominação da desolação." Antes de saber o significado disso, notemos que Jesus faz menção exata à expressão quando está falando da destruição do Templo: "Quando virdes estabelecida no lugar santo a abominação da desolação que foi predita pelo profeta Daniel, então os habitantes da Judéia fujam para as montanhas." (Mt 24,15-16).

Como nota de rodapé, a Bíblia Ave Maria traz: "a abominação da desolação: esta expressão deve designar os estandartes romanos que os exércitos de Tito implantaram no Templo de Jerusalém."

Já a de Jerusalém diz: "Ao que parece, Daniel designava com essa expressão um altar pagão que Antíoco Epífanes ergueu no Templo de Jerusalém em 168 a.C."

Com efeito, antes de Daniel, o Templo de Jerusalém já havia sido destruído por Nabucodonosor e seria depois profanado por Antíoco. A profecia de Daniel, embora se refira naturalmente ao "tempo do fim", parece também fazer menção à profanação efetuada por Antíoco Epífanes, pois já se fala dele em Dn 11, do versículo 21 em diante. Em 1Mc 41 e seguintes, vê-se que Antíoco tinha publicado um edito prescrevendo que todos, judeus e gentios, formassem um único povo e tivessem uma única religião, "sacrificando aos ídolos e violando o sábado" (1Mc 1,43) Pediu que os israelitas suspendessem os holocaustos diários e os demais ritos, e colocassem altares de ídolos no templo, sacrificando animais considerados imundos e não mais circuncidando seus filhos. Os que não obedeciam tinham de ser mortos. Nos versículos 54 a 60, lemos:

"No dia quinze do mês de Casleu, do ano cento e quarenta e cinco, edificaram a abominação da desolação por sobre o altar e construíram altares em todas as cidades circunvizinhas de Judá. Ofereciam sacrifícios diante das portas das casas e nas praças públicas, rasgavam e queimavam todos os livros da lei que achavam; em toda parte, todo aquele, em poder do qual se achava um livro do Testamento, ou todo aquele que mostrasse gosto pela lei, morreria por ordem do rei. Com esse poder que tinham, tratavam assim, cada mês, os judeus que eles encontravam nas cidades e, no dia vinte e cinco do mês, sacrificavam no altar, que sobressaía ao altar do templo. As mulheres, que levavam seus filhos a circuncidar, eram mortas conforme a ordem do rei, com os filhos suspensos aos seus pescoços. Massacravam-se também seus próximos e os que tinham feito a circuncisão."

De novo é dado aos inimigos poder durante um período e se fala aqui claramente de "abominação da desolação", certamente fazendo referência à profecia de Daniel. Há também uma interpretação das 70 semanas que, com outros critérios, faz referir-se a estes eventos do tempo da profanação de Antíoco.

Seja como for, não é possível que Dn 9,27 se refira a Jesus, pois o fazer cessar o holocausto é obra dos inimigos de Deus. Outra razão para isso é que, segundo a descrição profética, a morte de Jesus é dita no versículo 26. Portanto, a "aliança" do v. 27 e a cessação do sacrifício não podem referir-se ao "Ungido".

Vejamos os dois versículos agora em sequência:

"Depois das sessenta e duas semanas um Ungido será eliminado, e ninguém será a favor dele. E a cidade e o Santuário serão destruídos por um príncipe que virá. Seu fim será num cataclismo e, até o fim, a guerra e as desolações decretadas. Ele confirmará uma aliança com muitos durante uma semana; e pelo tempo de meia semana fará cessar o sacrifício e a oblação. E sobre a nave do Templo estará a abominação da desolação até o fim, até o termo fixado para o desolador."

A Bíblia de Jerusalém, em nota de rodapé, confirma essa visão:

"A abolição do sacrifício antigo não significa aqui a sua substituição pelo sacrifício da nova aliança; as passagens paralelas e o contexto mostram que se trata de obra dos ímpios.

A meia semana, então, seria o equivalente aos 1260 dias, que no decorrer dos livros da bíblia simbolizam o tempo dado ao inimigo de Deus sobre os seus.

As dificuldades dessa interpretação residem no seguinte:

- O fazer cessar o sacrifício ocorre na metade da septuagésima semana, isto é, na metade dos últimos sete anos. A invasão de Jerusalém, no entanto, se dá cerca de 40 anos depois da morte de Jesus, em 70 d.C.

- Quais seriam as alianças que Tito teria feito com muitos?

- Ao contrário, parece ser possível estabelecer uma relação entre a "aliança feita com muitos" e o "sangue da nova aliança derramado por muitos" da Santa Ceia. 

Diz o C, Mervyn Maxwell:

"O uso feito por Cristo da palavra 'aliança' e da expressão 'em favor de muitos', mostra que durante a última ceia Ele estava pensando em Daniel 9,27. 'Ele fará firme aliança com muitos por uma semana.' A referência ao Seu sangue significava que o concerto somente poderia tornar-se efetivo se Ele ofertasse o Seu próprio corpo na cruz. Sem derramamento de sangue não há remissão. (Hb 9,22)" (Uma nova era segundo as profecias de Daniel, 2013, p. 234)
Sobre a nossa sugestão de que o "Ele" que inicia o versículo 27 de Dn 9 refira-se não ao Cristo, mas ao invasor do Templo, isto é, ao general romano Tito, o mesmo autor nos diz o seguinte:

"Não é de surpreender que ao longo dos séculos alguns estudiosos da Bíblia tenham mantido a errônea suposição de que o 'ele' desta porção do texto seja o príncipe desolador, e não o Messias Príncipe. Até mesmo o conhecimento comentarista romano Hipólito cometeu esse erro no terceiro século, concluindo que seria um futuro anticristo - e não Jesus Cristo - que faria cessar os sacrifícios. É lamentável que o erro de Hipólito seja ainda hoje por vezes citado, como se fosse verdade." (p. 222-223)

- Em todo caso, mesmo que a cessação dos holocaustos fosse devida ao sacrifício de Cristo, a abominação da desolação só pode ir até o final das 70 semanas, pois é dito na profecia que este era o tempo para acabar a transgressão, embora, de novo, Jerusalém só seja invadida no ano 70 d.C. e, portanto, depois do tempo referido das setenta semanas de anos, se as começarmos a contar a partir de 457 a.C., o que também é controverso. Parece-nos que este trecho - acabar com a transgressão - se encontra no mesmo contexto de Dn 8,14 - de que trataremos longamente depois - que fala da "purificação do santuário". Portanto, "cessar a transgressão" ou "purificar o santuário" - uma vez que a agressão é contra o Templo - seria trazer o santuário à sua ordem natural, isto é, afastar ou destruir os que o transgrediam, embora talvez se possa dizer que o "cessar a transgressão" é a primeira etapa ou negativa da "purificação do santuário", a parte posterior e positiva, uma vez que as 70 semanas comumente se entendem deverem ser cortadas dos 2.300 dias. O "Questões sobre Doutrina", no entanto, traz uma explicação que nos pareceu bastante infundada:

"Para fazer cessar a transgressão - o sentido desta frase é o de levar a transgressão ao máximo. O ato de os judeus encherem a medida da iniquidade foi mencionado por nosso Senhor, ao dizer: 'Enchei vós, pois, a medida de vossos pais' (Mt 23,32; comparar com Gn 15,16). Seu pecado culminante foi, naturalmente, a rejeição e crucifixão do Messias. Dessa maneira, a nação ultrapassou o limite além do qual não haveria retorno. 'Eis que a vossa casa os ficará deserta', declarou Jesus (Mt 23,38). Isso cumpriu a profecia do Mestre: 'O reino de Deus vos será tirado e será entregue a um povo que Lhe produza os respectivos frutos.' (Mt 21,43)" (2008, p. 217)

Não nos parece que isso tudo signifique "fazer cessar a transgressão". O que o leitor pensa?

Uma outra obra adventista, já citada, o "Uma nova era segundo as profecias de Daniel", tentando explicar essa expressão, discorda da anterior:

"O livro de Hebreus representa grande auxílio na compreensão de Daniel 9,24. Hebreus 9,26 fala de Jesus como Aquele que 'Se manifestou uma vez por todas para aniquilar pelo sacrifício de Si mesmo o pecado.' Esta afirmação corresponde obviamente à parte A de Daniel 9,24, 'para fazer cessar a transgressão, para dar fim aos pecados, para expiar a iniquidade.' Hebreus também nos incentiva a olhar a Jesus Cristo como o 'Autor da salvação eterna' (Hb 5,9) - conselho que corresponde à promessa de Deus em Daniel 9,24, de que o Messias traria 'justiça eterna'." (2013, p. 218)
Aqui há dois detalhes. A citação em negrito, note, está sem a conjunção aditiva "e", o que dá a entender falsamente que as três expressões "cessar a transgressão", "dar fim aos pecados" e "expiar a iniquidade" são sinônimos exatos. Neste caso, a conjunção geralmente vem no final da citação, dando a entender que cada uma das expressões usadas possui um sentido específico. Por isso, se não a citou inteiramente, o autor deveria ter posto uma reticência ao final. Vejamos outras traduções

Ave Maria - "... para dar fim à prevaricação, selar os pecados e expiar a iniquidade..."

De Jerusalém - "... para fazer cessar a transgressão e apagar a iniquidade e instaurar uma justiça eterna..."

Almeida Corrigida e Revisada - "... para cessar a transgressão, e para dar fim aos pecados, e para expiar a iniqüidade, e trazer a justiça eterna..."

Nova Versão Internacional - "... Setenta semanas estão decretadas para o seu povo e sua santa cidade para acabar com a transgressão, para dar fim ao pecado, para expiar as culpas, para trazer justiça eterna, para cumprir a visão e a profecia, e para ungir o santíssimo." (citamos inteira por causa da conjunção no final, que tira a idéia da equivalência entre as expressões. No caso da citação utilizada pela obra adventista, que termina com um ponto final, isto torna o sentido da frase ambíguo e permite o sentido que eles querem forçar.

Sociedade Bíblia Britânica - "... para consumir a transgressão, para dar fim aos pecados, para expiar a iniqüidade, para trazer a justiça eterna, para selar a visão e profecia e para ungir o santíssimo." (Mesmo caso de cima)

No entanto, é óbvio que cada uma dessas expressões traz um significado próprio. Neste sentido, o "Questões sobre doutrina" parece-nos mais completo e correto, pois ele explica expressão por expressão.

O segundo detalhe é que a citação diz que o texto de Hebreus 9,26 corresponde obviamente às três primeiras expressões de Dn 9,24, o que significa dizer que o "Questões sobre doutrina" estaria obviamente errado. E aí temos uma fonte adventista discordando obviamente de outra.

Fica, então, a pergunta: o que danado significa "fazer cessar a transgressão?" Consideramos mais coerente relacioná-la à cessação de uma força inimiga que atenta contra o Templo, como em todos os demais casos correspondentes. Mas disso surgem outros problemas, como vimos. Outra coisa: qual é o "tempo fixado para o desolador", do final de Dn 9, 27? Isto, de novo, parece-nos harmonizar-se com o "fazer cessar a transgressão" de modo que poderíamos juntar as duas idéias do seguinte modo:

"A transgressão será cessada quando se completar o tempo fixado para o desolador." Mas ficam ainda outras questões por responder.

Pois é, amigo, não resolveremos esse impasse. Mas tampouco era nossa intenção. Apenas queremos indicar que a aplicação que a IASD faz não é assim tão óbvia. E tampouco há algum interesse particular nosso em negar este ponto, visto que várias denominações, incluindo a Igreja Católica, geralmente aplicam as 70 semanas ao tempo messiânico, o que ainda nos parece mesmo o mais conveniente, embora, diferentemente da IASD, a cessação dos sacrifícios nos pareça se referir aos profanadores.

Veja o que diz a nota de rodapé da Bíblia Ave Maria sobre o versículo 27 de Dn 9:

"Este oráculo recebeu duas principais interpretações: a que vê em toda a profecia uma descrição dos tempos macabeus, e a que vê nela um pré-anúncio dos tempos messiânicos. Os partidários da primeira admitem, no entanto, por trás da descrição dos tempos macabeus, a existência de um segundo plano referente aos tempos messiânicos. A interpretação puramente messiânica, entretanto, prevalece na Igreja e na tradição católicas. Em cada um dos dois sistemas, o modo de contar as 'semanas de anos' será necessariamente diferente. Mas em caso algum as setenta semanas devem ser consideradas como um cálculo exato. Finalmente, é preciso reconhecer que o profeta entrevê uma terceira perspectiva, a do fim dos tempos."

Aqui está uma advertência para que as semanas não sejam calculadas literalmente, como semanas de dias. Mas mesmo em se tratando de semanas de anos - que seria o intuito profético -, é comum que os números tenham um simbolismo místico - como os frequentes números 40, 400, 12, 7, etc - e que eles às vezes sejam, mesmo com a transposição, literalmente imprecisos e somente aproximados. Um exemplo:

Em Jer 25,11-12, a profecia que está no background do que o Anjo Gabriel diz a Daniel, lemos:

"Converter-se-á esta terra em angústia e solidão, e por setenta anos lhe há de perdurar a servidão ao rei de Babilônia."

Nota de rodapé da Bíblia Ave Maria: "Setenta anos: na realidade, o cativeiro em Babilônia durou sessenta e cinco anos, ou seja, aproximadamente, de 604 a 539, data da queda de Babilônia sob o domínio persa."

Nota de rodapé da Bíblia de Jerusalém: "Número arredondado da duração do exílio, retomado em 29,10 e numa outra forma em 27,7. O tema se encontra em 2Cr 36,21 e fundamenta Dn 9."

E se às vezes o número, mesmo transmutado, não é exato, como ficam as suas aplicações?

No próximo artigo, pois este já vai longo, trataremos do princípio dia-ano aplicado a Dn 8,14.

Até lá.

Fábio

Profecia do Santuário III - Crítica I


Como pudemos observar, assim, genericamente, a Profecia do Santuário (PS) parece uma teoria bem fundamentada e lógica. E é por isso que ela possui tantos adeptos e que estes estão geralmente muito seguros da sua verdade. A crítica que faremos aqui é uma crítica sincera, e o que nos move a fazê-la é o desejo de fazer o bem. Não nos interessa a crítica pela crítica, mas o bem resultante disso. Desse modo, estamos abertos a ressalvas e comentários.

1- Sola Scriptura - Vício fundamental




Para não nos estendermos sobre este ponto, visto que já tratamos dele de outras vezes, remetemos o leitor aos seguintes artigos.

a- A Sola Scriptura não tem sentido;
b- 21 razões para rejeitar a Sola Scriptura;
c- O erro da Sola Scriptura;
d- Resposta à desonestidade de um protestante - Sola Scriptura;
e- Incoerências do protestantismo;
f- O que é a Tradição da Igreja;
g- Dois pastores protestantes debatem sobre a Igreja Católica;
h- A Bíblia era desconhecida pelos católicos?;

E como se trata de um tema adventista, leia também, se estiver com disposição, o seguinte artigo:

i) Adventista nos interroga - respondemos.

Mas, se o leitor não quiser ir de texto a texto, pomos aqui, de modo bem genérico, o argumento principal. Façamos um silogismo, pra ficar mais claro:

Premissa 1 - Só deve ser crido o que está na Bíblia;
Premissa 2 - Não está na Bíblia que só deve ser crido o que está na Bíblia;
Conclusão: Não deve ser crido que só o que está na Bíblia deve ser crido.

Substituamos a expressão "Só deve ser crido o que está na bíblia" pelo seu equivalente latino "Sola Scriptura". Teríamos:

Premissa 1 - Devemos professar a Sola Scriptura;
Premissa 2 - A Sola Scriptura não está na Bíblia;
Conclusão - A Sola Scriptura não deve ser professada ou crida.

Conforme o leitor verá nos textos indicados, a Bíblia não somente não proíbe outras fontes como, antes, as indica. Além do mais, o próprio fato de ela não se ter feito sozinha já pressupõe necessariamente - se o amigo quiser manter as leis da lógica - uma autoridade que lhe seja precedente. 

Esta autoridade agiu: 

a) Antes, escrevendo-a;
b) Depois, escolhendo os textos canônicos.
c) Durante, guardando o modo correto de interpretá-la, já que a interpretação não deve ser particular (2Pe 1,20)

Por fim, a Bíblia relata fatos. Um relato nunca esgota um fato. Logo, o fato transcende o relato. A Bíblia, portanto, necessariamente não pode ser a única autoridade já que há coisas que lhe escapam.

Se o amigo tiver alguma refutação a esses pontos, por favor, não deixe de contatar-nos. Passemos adiante.


2- Datar marcas e tempos para a Segunda Vinda é expressamente proibido por Jesus




A curiosidade sobre o fim dos tempos é muito comum na humanidade. Os Apóstolos também a possuíam, e foi por isso que Jesus lhes disse:

"Mas daquele dia e hora ninguém sabe, nem os anjos do céu, mas unicamente meu Pai."
(Mt 24,36)

Marcos é ainda mais enfático ao transmitir-nos a afirmação de Jesus:

"Quanto ao dia e à hora ninguém sabe, nem os anjos no céu, nem o Filho, senão somente o Pai. (Mc 13,32)

E, de outra vez, como Lhe perguntassem, disse novamente:

Não vos compete saber as épocas ou as datas que o Pai estabeleceu por sua exclusiva autoridade." (At 1,7)

Estes três trechos, lidos conjuntamente, nos revelam detalhes importantes. Observem as partes grifadas:

a) Quanto àqueles dias, nem os anjos sabem. Os precursores do adventismo, com especial menção a Guilherme Miller, pressupunham que as revelações feitas pelo Anjo Gabriel a Daniel tratavam do fim do mundo, pois o mesmo é dito, depois: 

"Filho do homem, disse-me ele, compreende bem que essa visão simboliza o tempo final." (Dn 8,17)

Entendeu-se "tempo final" como o "final dos tempos", rs. Mas, na realidade, a expressão "tempo final" parece se harmonizar com a expressão paulina "plenitude dos tempos" (Cf Gl 4,4). Ora, aquilo que chega à sua plenitude chega à sua fase final, obviamente. Contudo, "fase" não indica um "ponto", mas um "processo". Assim, "tempo final" não é o mesmo que "final dos tempos".

Também Pedro escreve que "está próximo o fim de todas as coisas" (1Pe 4,7), e, no entanto, estamos ali no Século I. Poderíamos com razão dizer que o tempo em que "está próximo o fim de todas as coisas" é tanto a "plenitude dos tempos" como o "tempo final". Também Jesus, quando começou a Sua vida pública, iniciou Sua pregação dizendo que "o Reino está próximo". Ora, o que é o "Fim" senão a chegada do Reino? E, no entanto, lá se vão 21 séculos. O próprio Pedro explica essa aparente contradição, num trecho que trata exatamente das profecias que, aos olhos dos zombadores, pareciam não se realizar devido à compreensão literal e cronológica da proximidade: "Um dia diante do Senhor é como mil anos, e mil anos como um dia." (2Pe 3,8) Isso significa que os critérios humanos são nulos para sondar qual seria o dia exato daquela vinda.

Além disso, se Jesus, lá pelo ano 30 d.C., afirma que "nem os anjos do céu" sabem o dia concernente ao fim, como que o Anjo Gabriel - que eu julgo ser do céu -, mais de 5 séculos séculos antes, poderia revelá-lo a Daniel, se, conforme Jesus, ele não sabia?

Depois, como o Anjo ou Daniel poderiam sabê-lo se mesmo Jesus diz que não sabia?

Por fim, já depois da Ressurreição, imediatamente antes da Ascensão, Jesus fala claramente aos Apóstolos dizendo que não lhes competia saber as épocas ou datas. Amigo, como você interpreta essa frase? É óbvio que Jesus está dizendo: "Não queiram saber disso. Não faz parte da Revelação."

Isso tudo é muito claro. e os Apóstolos, que entenderam o recado, confirmam essa idéia dizendo que Ele virá como um ladrão. (Cf 1Tes 5,2; 2Pe 3,10). Qual é o significado disso? Jesus viria nos roubar? Óbvio que não. O que se quer dizer é que, assim como um ladrão não avisa quando vai assaltar, assim também Nosso Senhor não avisou quando voltará. Isso não faz parte da Revelação

Os adventistas gostam de se fundamentar num versículo do Antigo Testamento, Amós 3,7, que diz:

"Porque o Senhor Javé nada faz sem revelar seu segredo aos profetas, seus servos."

É óbvio que esta passagem não indica que Deus nos dirá todas as coisas quantas Ele faz, mas apenas aquilo que convém à nossa salvação. É claro que Ele continua sendo um Deus de mistério. É óbvio que nós não temos acesso a tudo o que Ele faz, e mesmo a parte que conhecemos é somente uma ínfima parte. Então, há que se observar o contexto da observação. Essa passagem se assemelha muito, na natureza, com aqueloutra em que Jesus diz aos Apóstolos: "Já não vos chamo servos, mas amigos, pois vos dei a conhecer tudo quanto ouvi de Meu Pai." (Jo 15,15)  De novo: Jesus não está dizendo que revelou todo o segredo divino, mas apenas aquilo que Lhe fora ordenado fazer. Deus é muito superior ao que d'Ele sabemos.

E se observarmos o versículo que antecede o trecho citado de Amós, e do qual ele é uma explicação, e depois o que o sucede, isto é, Am 3,6-8, lemos o que segue: 

"Tocará o alarme na cidade sem que o povo se assuste? Virá uma calamidade sobre uma cidade sem que o Senhor a tenha disposto? (Porque o Senhor Javé nada faz sem revelar seu segredo). O leão ruge, quem não temará? O Senhor Javé fala: quem não profetizará?" - Bíblia Ave Maria.

"Se uma trombeta soa na cidade, não ficará a população apavorada? Se acontece uma desgraça na cidade, não foi Iahweh quem agiu? Pois o Senhor Iahweh não faz coisa alguma sem antes revelar o seu segredo a seus servos, os profetas. Um leão rugiu: quem não temerá? O Senhor Iahweh falou: quem não profetizará? - Bíblia de Jerusalém

"Tocar-se-á a trombeta na cidade, sem que o povo se estremeça? Sucederá algum mal à cidade, sem que o SENHOR o tenha feito? Certamente, o SENHOR Deus não fará coisa alguma, sem primeiro revelar o seu segredo aos seus servos, os profetas. Rugiu o leão, quem não temerá? Falou o SENHOR Deus, quem não profetizará?" - Versão Almeida Corrigida e Revisada

Quando Deus ameaçava uma nação - como quando o fez contra Nínive -, Ele na verdade pretendia a conversão daquele povo. Por isso, sempre revelava sua vontade a um profeta - naquela caso, Jonas - para que este a comunicasse ao povo. Também com Sodoma e Gomorra, diz Deus: "Acaso poderei ocultar a Abraão o que vou fazer?" (Gn 18,17) E, enfim, com o próprio Amós, que profetiza um terremoto em Israel, com dois anos de antecedência (Cf 1,1). Esse trecho, portanto, não serve para contradizer a ordem de Jesus de que não nos convinha saber quando se dará. É-nos suficiente saber que o que o Apocalipse relata se dará.

Além de tudo, há uma conveniência para que isso não nos seja dito. Alguém poderia converter-se apenas perto da Data. Fora que é fácil constatar o nível de desequilíbrio geral que essas datas podem provocar. Jesus não quer isto. Por isso, a ordem é: "Vigiai, pois não sabeis o dia nem a hora. O Filho do homem, como um ladrão, virá numa hora em que vocês menos esperam." (Mt 24,42-44)

Outro texto usado pelos Adventistas para justificar a contagem se encontra em 1Ts 5,4-5:

"Vós, irmãos, não estais em trevas, para que esse dia como ladrão vos apanhe de surpresa; porquanto vós todos sois filhos da luz, e filhos do dia; não somos da noite, nem das trevas".

Novamente, este texto não indica que os "filhos da luz" saberão quando ocorrerão essas coisas, mas que elas, quando sucederem, já os encontrarão vigilantes, de modo que a surpresa do dia não implicará em serem pegos desprevenidos. Isso é confirmado quando, no mesmo capítulo, alguns versículos antes, Paulo escreve: 

"A respeito da época e do momento, não há necessidade, irmãos, de que vos escrevamos. Pois vós mesmos sabeis muito bem que o dia do Senhor virá como um ladrão de noite." (v.1-2)
Então, longe de Paulo estar contradizendo Jesus! E por que não há necessidade de escrever sobre isso? Justamente porque não dá pra saber. Logo, tampouco há necessidade ou utilidade em calcular. É uma empresa fadada ao fracasso. E a prova de que o preparo de que Paulo fala não é especulativo (saber qual é a data precisa), mas existencial, se encontra nos versículos 6 a 8:

"Não durmamos, pois, como os demais. Mas vigiemos e sejamos sóbrios. Porque os que dormem, dormem de noite; e os que se embriagam, embriagam-se de noite. Nós, ao contrário, que somos do dia, sejamos sóbrios. Tomemos por couraça a fé e a caridade, e por capacete a esperança da salvação."

Caros, vigiar é realizar o ato da vigília. O ato da vigília é manter-se acordado O vigilante fica atento, como que esperando o inesperado, para que, se algo ocorrer, ele esteja preparado. Então é intrínseco à vigília o não saber como as coisas se darão. Um vigia que soubesse, por exemplo, que um estabelecimento seria assaltado às três horas da manhã não precisaria vigiar até essa hora. Ele só precisaria ir lá na hora exata. A vigília inclui necessariamente uma insegurança sobre o curso das coisas.

E como é, então, que devemos estar preparados? Professando a Fé, praticando a Caridade e mantendo a Esperança da Salvação. Aqui estão descritas as três virtudes teologais, mas não vamos entrar nisso.

Outro ponto que pode ser levantado é dizer que o evento descoberto não foi evidentemente a Vinda de Jesus, mas a Sua entrada no segundo compartimento do Santuário, isto é, no Lugar Santíssimo. No entanto, o espírito subjacente à suposta descoberta é todo ele antievangélico, pois, então, se cria haver descoberto a data exata da vinda de Cristo: 22 de Outubro de 1844. Como se pode esperar que Deus recompense quem tão frontalmente desobedeceu um preceito tão básico do Evangelho? É óbvio que um cristão, ao ouvir falar daquelas profecias, deveria ter já diante de si a proibição explícita de Jesus. No entanto, a própria Sra White trata com termos não muito amigáveis aos que não aderiam ao "clamor da meia noite" justamente por ser contrário ao que Jesus havia dito.  Abaixo faço umas citações, e comento em seguida.

A proclamação de um tempo definido para a volta de Cristo despertou grande oposição de muitos, dentre todas as classes sociais, desde o ministro do púlpito, até ao mais ousado pecador. Muitos declaravam que não se opunham à doutrina do segundo advento; contestavam apenas a fixação de um tempo definido. Mas os olhos de Deus, que tudo veem, liam seu coração. Não desejavam ouvir acerca da vinda de Cristo para julgar o mundo com justiça. Suas ações não resistiriam à inspeção do Deus que sonda os corações, e temiam se encontrar com o Senhor. Assim como os judeus nos dias de Cristo, não estavam preparados para recebê-Lo. Não apenas se recusavam a ouvir os claros argumentos da Bíblia, como ainda procuravam ridicularizar os que aguardavam o Senhor. Satanás lançava afronta ao rosto de Cristo, de que Seu pretenso povo sentia tão pouco amor por Ele, que não desejava o Seu aparecimento.
"Daquele dia e hora ninguém sabe", era o argumento mais frequentemente apresentado pelos que rejeitavam a fé do advento. Uma explicação clara dessa passagem era apresentada pelos que aguardavam o Senhor, e o emprego errôneo que seus oponentes faziam dela foi claramente demonstrado. Uma declaração do Salvador não deve destruir outra. Embora ninguém saiba o dia ou a hora de Sua vinda, podemos conhecer sua proximidade. (O grande conflito, 2011, p.175)
Aqui a Sra White admite que a proclamação era "de um tempo definido para a volta de Cristo", e reclama porque isso "despertou grande oposição". Motivo de preocupação seria se algo tão antievangélico não a despertasse. Como ela mesma diz, os que contestavam a data, diziam que não eram contrários à doutrina do advento, como nenhum cristão em são juízo pode ser. Contudo, isto não lhe era suficiente, e, fazendo as vezes de Deus, ela afirma saber até as impressões que Deus tinha diante daquilo tudo. Os olhos divinos, diz ela, liam os corações, enquanto que os olhos de Ellen White liam os olhos divinos e, por eles, tinha acesso aos corações dos demais protestantes e também do coração divino. Sobre os primeiros, ela diz: "não desejavam ouvir acerca da vinda de Cristo para julgar o mundo com justiça. (...) Temiam se encontrar com o Senhor." Em seguida, ela fala dos "claros argumentos da Bíblia". O leitor saberá de quais argumentos ela fala nas próximas partes desse estudo.

Ela diz que "uma explicação clara" da proibição do Senhor sobre especular sobre os dias e a hora da Sua vinda era dada por eles. Eu adoraria saber que explicação era essa, pois ainda não a vi. Por fim, ela escreve que "uma declaração do Salvador não deve destruir outra". Exatamente, Sra White. Há pelo menos três menções diretas e inequívocas no Novo Testamento, pela própria boca de Deus encarnado, de que não podemos saber aquelas datas. E o que a senhora está fazendo senão usando textos descontextualizados para tentar competir com a evidência da proibição?

Satanás e seus anjos triunfaram sobre eles. . . . Não perceberam que estavam rejeitando o conselho de Deus contra si próprios, e atuando em união com Satanás e seus anjos para trazerem perplexidade ao povo de Deus, que estava vivendo segundo a mensagem enviada pelo céu. (Primeiros escritos, A mensagem do primeiro anjo, disponível aqui.)

Quem trouxe perplexidade às pessoas foram as profecias desastradas de Guilherme Miller que as expuseram duas vezes a uma constrangedora situação. Seria agir em "união com Satanás" o ter diante de si a proibição evangélica? Seria aceitar o "conselho divino" crer naquilo que não tem qualquer embasamento bíblico?


Como as igrejas se recusassem a receber a mensagem do primeiro anjo, rejeitaram a luz do Céu, e caíram do favor de Deus. Confiaram em sua própria força, e, opondo-se à primeira mensagem, colocaram-se onde não poderiam ver a luz da mensagem do segundo anjo. Mas os amados de Deus, que eram oprimidos, aceitaram a mensagem: "Caiu Babilônia" (Apoc. 14:8), e deixaram as igrejas. (Primeiros escritos, A mensagem do segundo anjo, disponível aqui.)

Os que se ativeram ao Evangelho como critério para discernir as coisas "rejeitaram a luz do Céu", segundo Ellen White. Ou seja: receber a luz do Céu era acreditar que Jesus iria voltar em outubro de 1844. Engraçado que ela afirma que quem não aceitou a novidade "confiou em sua própria força", quando, na verdade, a confiança na própria força vem daqueles que julgam, com base nas próprias contas, chegar ao conhecimento daquilo que nem os anjos nem o Filho sabiam! Neste sentido, Guilherme Miller é um tipo de Bruce Lee profético! E todas as denominações que não aderiram são identificadas por Ellen White com a Babilônia. Que o leitor me perdoe, mas é engraçado, e já é muito difícil para mim escrever um artigo desse de um modo tão sóbrio, porque é como fornecer explicações filosóficas e teológicas da falsidade de uma nota de três reais.

Mesmo alguns pecadores olhavam para aquele tempo com terror; mas a grande maioria manifestou o espírito de Satanás em sua oposição à mensagem. Zombavam e caçoavam, repetindo em toda a parte: "Ninguém sabe o dia nem a hora." Anjos maus com eles insistiam para que endurecessem o coração e rejeitassem todo raio de luz do Céu, a fim de ficar seguros na cilada de Satanás. Muitos que professavam estar à espera de Cristo, não tinham parte na obra da mensagem. A glória de Deus que haviam testemunhado, a humildade e profunda devoção dos expectantes, e o peso esmagador das provas, faziam-nos ter a profissão de receber a verdade; mas não se haviam convertido; não estavam preparados para a vinda de seu Senhor. (ibidem)

Meu comentário ao "peso esmagador das provas": rsrsrs

A "cilada de Satanás" era, de novo, obedecer à advertência de Jesus de não querer calcular aqueles dias. Muitos, com razão, esperavam Jesus voltar mas sem aceitar as datas. A estes, Ellen White, a sondadora dos corações, a onisciência das entranhas, afirmava não se terem convertido de verdade.

Assim, temos que: os que não aceitaram a mensagem milerita "não se haviam convertido", ao mesmo tempo que todos os que aceitaram a mensagem "se haviam convertido". Isso me lembra algo... (Cf Lc 18,9-14)

Satanás e seus anjos estavam ativamente ocupados em procurar desviar da luz as mentes de quantos fosse possível. O grupo que a rejeitou foi deixado em trevas. Vi o anjo de Deus observando com o mais profundo interesse o Seu povo professo, a fim de registrar o caráter que desenvolviam ao ser-lhes apresentada a mensagem de origem celestial. E ao desviarem-se da mensagem celestial com escárnio, zombaria e ódio, muitos que professavam amor a Jesus, um anjo com um pergaminho na mão fazia o vergonhoso registro. Todo o Céu se encheu de indignação porque Jesus fosse assim menosprezado por Seus professos seguidores." (Primeiros escritos, Outra ilustração, disponível aqui.)

A "luz" é a falsa profecia, do que me lembra de outro trecho: (Cf, Isa 5,20)

Ellen White considera conhecer "todo o céu" e a reação negativa de todos os que lá habitam justamente porque, repetimos, alguém ousou levar a sério o "não vos compete saber".

(...) os que têm zombado e ridicularizado a idéia do arrebatamento dos santos serão visitados com a ira de Deus, e serão levados a compreender que não é coisa leve zombar do seu Criador. (Ibidem)

Aqui, ela ameaça os que não aderiram à mentira. Disto só pode nascer um clima sensacionalista baseado sobretudo no medo. Deus os puniria. Imagine o leitor - veja se consegue - um Jesus enraivado porque esses cálculos do Miller não foram adotados e vindo, em seguida, descarregar o Seu furor sobre aqueles que ousaram ater-se ao Evangelho. Todas as virtudes, antes agradáveis a Deus, de uma hora pra outra se resumiram agora a apenas uma sofística matemática.

"Os que rejeitaram a luz da mensagem do primeiro anjo e a ela se opuseram, perderam a luz do segundo, e não puderam ser beneficiados pelo poder e glória que acompanhava a mensagem: "Aí vem o Esposo! Saí-Lhe ao encontro!" Mat. 25:6. Jesus desviou-Se deles com a fisionomia carregada; pois haviam-no menosprezado e rejeitado. (Ibidem)

"Aí vem o Esposo! Saí-Lhe ao encontro!" - Cadê? Onde? Eis a Luz: sair de casa e ficar o dia todo olhando pro horizonte esperando Jesus voltar e Ele não vir. De fato, os juízos do Senhor são imperscrutáveis..

Porém, aqueles que, no seu bom senso, cultivaram qualquer dúvida, se tornaram objeto da "fisionomia carregada" de Jesus. Não esperá-Lo em vão no dia marcado significava tê-Lo "menosprezado e rejeitado." Avalie o amigo se isso de fato faz algum sentido.

"Vi Jesus voltar Sua face dos que rejeitaram e desprezaram Sua vinda, ordenando, então aos anjos que levassem o Seu povo a afastar-se dos impuros, para que não fossem contaminados."

Os mileritas, ludibriados que foram, acreditam que, depois, foram separados pelos anjos, a mando de Jesus, para que não se contaminassem com aqueles que não acreditavam na falsa profecia.

Salta ainda aos olhos que, segundo a onisciência de Ellen White, não havia um protestante sequer que tivesse recusado a mensagem da data e fosse sincero ao mesmo tempo. Impressionante como este se tornou o grande critério para a divisão entre carneiros e bodes.

Porém, mais curioso ainda é que, não obstante ela tenha defendido claramente, como vimos acima, os cálculos para a data da Parusia, ela mesma escreve o que segue, depois:

Vi que alguns estavam fazendo tudo depender do próximo outono; isto é, fazendo seus cálculos, e dispondo de suas propriedades com referência a esse tempo. Vi que isto era errado por esta razão: em lugar de irem diariamente a Deus, desejando fervorosamente saber seu dever presente, eles olhavam adiante, e faziam seus cálculos como se soubessem que a obra findaria este outono, sem indagar de Deus, diariamente, o seu dever. Milton, a 29 de junho de 1851.
Aqui está outro que foi escrito com relação a um homem que estava marcando tempo em 1884, e espalhando largamente seus argumentos para provar suas teorias. Foi-me trazida em Jackson [Michigan], na reunião campal, a notícia do que ele estava fazendo, e eu disse ao povo que não necessitavam dar atenção à teoria desse homem; pois o acontecimento que ele predizia não havia de ocorrer. Os tempos e estações, Deus estabeleceu por Seu próprio poder. E por que não nos deu Deus esse conhecimento? - Porque não faríamos dele o devido uso, caso Ele assim fizesse. Desse conhecimento viria em resultado um estado de coisas entre nosso povo, que retardaria grandemente a obra de Deus no preparar um povo para subsistir naquele grande dia que há de vir. Não devemos viver em agitação acerca de tempo. Não nos devemos absorver com especulações relativamente aos tempos e às estações que Deus não revelou. Jesus disse a Seus discípulos "vigiai", mas não para um tempo definido. Seus seguidores devem encontrar-se na posição dos que estão à escuta das ordens de seu Comandante; devem vigiar, esperar, orar, e trabalhar à medida que se aproxima o tempo da vinda do Senhor; ninguém, no entanto, será capaz de predizer exatamente quando virá aquele tempo; pois "daquele dia e hora ninguém sabe". Não sereis capazes de dizer que Ele virá dentro de um, dois, ou cinco anos, nem deveis retardar Sua vinda, declarando que não será por dez, ou vinte anos. (Disponível aqui)

Este relato é absolutamente surpreendente. Nem parece a mesma pessoa de antes. Mas que "profetiza" mais contraditória.. 

Primeiro, ela diz que viu que isto era errado. Isto o quê? Fazer os cálculos e dispor os bens para esse tempo. Embora isto tenha ocorrido em 1851 e, portanto, já houvesse passado o decepcionante ano de 1844, parece-nos ouvir um eco daqueles dias quando ela escreve: "faziam seus cálculos como se soubessem que a obra findaria este outono." A Ellen White do futuro teria sido acusada pela do passado de "não amar a vinda de Cristo", de "não se ter convertido", de ser objeto do "sobrecenho carregado de Cristo" e de ter caído na "cilada de satanás".

No segundo texto, escrito em 1884, Ellen White recomenda que não se dê atenção às profecias de um homem que demonstrava, através de cálculos bíblicos, que Jesus viria no próximo outono. De novo, algo muito semelhante ao "Grande Desapontamento".

E a próxima citação, embora de novo absolutamente contraditória com a Ellen de anos atrás, que - frise-se - tirava seus conhecimentos e profecias de uma revelação direta de Deus -, esta nova citação é algo com o que nós concordamos profundamente. Quisera que a Ellen White de 1884 tivesse advertido a de 1843/44 com as seguintes palavras: "Os tempos e estações, Deus estabeleceu por Seu próprio poder. E por que não nos deu Deus esse conhecimento? - Porque não faríamos dele o devido uso, caso Ele assim fizesse." Eis a Ellen falando que não nos convinha saber aqueles dias. No entanto, na época isso seria "rejeitar a luz" e "decair do favor divino". Todo o movimento de 1844 só tem sentido se se pensa que seria justo supor que Deus queria que soubéssemos quais seriam aqueles dias. Contradição pura e simples.


Depois, como que reprovando todo o movimento do "clamor da meia noite", ela diz: Não devemos viver em agitação acerca de tempo. Não nos devemos absorver com especulações relativamente aos tempos e às estações que Deus não revelou. Jesus disse a Seus discípulos "vigiai", mas não para um tempo definido.

Sra White, depois de tanta contradição, o que a senhora teria a dizer?

. . .  Serve . . . "Oioioi"?

Pois é, caro leitor. A coisa toda é muito confusa e discordante, ainda que aparentemente - e só aparentemente - bem fundamentada. Isso tudo ficará cada vez evidente. Apertem os cintos para os próximos artigos. Peço também que a nossa linguagem algo sarcástica aqui e ali não seja tida em mau tom. Nossa intenção não é provocar mal estar, senão o necessário para o conhecimento da verdade. É a verdade que liberta, diz Jesus. O problema é que o mais comum é que nos apeguemos aos nossos grilhões ao ponto de cultivá-los, de modo que a verdade, num primeiro momento, surge como destruidora. Mas essa destruição prévia é a condição sem a qual a verdade não pode ser construída. Já dizia Jesus que aquele sobre quem a Verdade - que é Ele mesmo - cair será feito em pedaços (Mt 21,44). Que nossos erros sejam despedaçados para que, enfim, brilhe a Verdade sem impedimentos. Até a próxima.

Fábio.
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