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Artigo III - A São Bartolomeu foi um ato de proscrição política

Catharina de Médicis e Carlos IX

I. Culpabilidade pessoal de Coligny
II. O massacre não foi premeditado
III. Massacres nas províncias

I. As virtudes guerreiras de Coligny, a apologia que Voltaire fez deste personagem, e o culto que lhe dedicaram os protestantes, fizeram por demais esquecer suas ofensas contra o rei, contra a pátria e contra a Religião. Pegando em armas contra o Estado, Coligny tornara-se criminoso de lesa-majestade. A prova de sua rebelião não interrupta acha-se no Diário de suas receitas e despesas, por onde se vê que esbulhou os súditos do rei para mover guerra contra o monarca; nos papéis do almirante, onde se podem ler suas conspirações; nas Memórias de Villeroy, de Brantôme, de Tavannes e de Montluc. Percorrendo-as, ficar-se-á facilmente persuadido que Coligny se tornara insuportável a Carlos IX e a Catarina de Medicis, ao mesmo tempo que se declarava o inimigo encarniçado dos Guises, o cúmplice e o instigador de Poltrot, assassino do duque, cuja morte tanta alegria lhe causara... Por certo, depois de tantos motivos de queixa, não é necessário procurar na Religião um pretexto para esta proscrição inteiramente política.(1)

Julgamos suficiente porém lembrar as últimas circunstâncias que precipitaram o desfecho de uma crise tão longa.

"Durante os reinados de Francisco II e de Carlos IX (1560-1574), Catarina de Medicis, - que de fato governava o reino, - introduziu, na direção dos negócios, uma maquiavélico e perigoso sistema de balança, que consistia em enfraquecer uns pelos outros, por meio da astúcia ou da força, tanto os defensores como os inimigos do Catolicismo, sistema impossível e aliás perigosíssimo; impossível, porque, em parte alguma, as idéias de conciliação e tolerância, em matéria de religião, eram aceitas; perigosíssimo, porque a força de poupar ou favorecer os partidos contrários, acabava-se fatalmente por congregá-los contra si próprio, por originar reações violentas, e não ter outro meio de sair da confusão e do caos senão as catástrofes (2)."

Esta política de partido intermediário manifestara-se no colóquio de Poissy (1561). Inspirou o edito de janeiro de 1562 que assegurava aos reformados o livre exercício de seu culto, permitindo-lhes as predicas fora das cidade. Fiel a esta mesma política, a rainha mãe, assina, em 1570, a paz de São Germano, que concedia tais vantagens aos protestantes que os católicos, logo em seguida às suas vitórias de Jarnac e de Mocontour, se julgaram traídos. Quatro cidades fortificadas estavam entregues aos protestantes por dois anos; ficavam admitidos a todos os empregos, de modo que se pôde dizer que "a realiza capitulou como um vencido".

O almirante Coligny triunfava com todas aquelas concessões; o rei o temia e era influenciado por ele, a tal ponto que Catarina de Medicis ficara apavorada com o ascendente do almirante. É então que a situação veio a complicar-se com um projeto de guerra contra a Espanha, guerra por cuja realização muito se empenhava Coligny. A ela, porém, se opunha a rainha mãe. Desesperada esta por ver que o almirante era mais rei do que o rei, armou o braço de um assassino.

A 22 de agosto de 1572, ao voltar do conselho, Coligny recebeu um tiro de bacamarte. O almirante foi somente ferido, Carlos IX o visita, consola, jura vingá-lo. Por outro lado, os protestantes ficam furiosos e vomitam ameaças. Catarina de Medicis resolve uma vingança mais completa. No conselho efetuado no dia seguinte, com o duque de Anjú e alguns chefes católicos, foi decidida a morte do almirante e de seus principais aderentes.  Depois, tomada esta decisão, a rainha mãe foi ter com Carlos IX e mostrou-lhe o perigo iminente a que ia ficar exposto se não fizesse matar Coligny e os chefes do partido protestante. Assustado, exasperado, o rei declara que quer a morte não só de alguns protestantes, mas de todos. É assim que o massacre geral foi exigido e ordenado pelo rei. É verdade que no dia seguinte, 24 de agosto, quando, às duas horas da madrugada, o dobre do sino deu o sinal, o rei, por uma contra-ordem, proibiu o massacre geral e até a morte de Coligny. Mas já era tarde; o sangue e a morte corriam pelas ruas da capital, onde a carnificina durou três dias. (3)

II. Muito se discutiu a questão de saber se o massacre fora premeditado, ou se fora resolvido subitamente. Os autores protestantes, para pintar a perseguição com cores mais negras, não deixaram de afirmar que a matança era preparada desde muito tempo. Os panfletos contemporâneos fazem mesmo remontar a decisão até a entrevista de Bayonna, em 1565; alguns escritores, à paz de São Germano, 8 de agosto de 1570 (4).

Outros autores, - e partilhamos sua opinião, - querem que a resolução não tenha sido tomada, senão no dia precedente, de tarde. Estes têm a seu favor: 1º o testemunho da rainha Margarida, esposa do rei da Navarra (mais tarde, Henrique IV); o 2º de Tavanes que, nas suas Memórias, afirma que se lançou mão dessa medida só em consequência dos receios que inspiravam os chefes dos protestantes, depois da ferida de Coligny (22 de agosto de 1572); 3º o do duque de Anjú, irmão de Carlos IX (e seu sucessor, sob o nome de Henrique III), relatado por seu médico Miron. Este descreve o conselho reunido a 23 de agosto, no qual a rainha Catarina de Medicis fez prevalecer o seu desígnio de matar Coligny, e o rei, numa grande cólera, propôs o massacre de todos os protestantes de França. 4º Esta opinião tem a seu favor a autoridade de Brantôme, de la Popelinière e de Mathieu, autores contemporâneos. 5º Enfim a crítica moderna, após estudo dos diversos documentos históricos, apega-se de preferência ao mesmo parecer. "Todas essas atestações, escreveu Baguenault de Puchesse, são concordantes e naturais, enquanto é preciso recorrer a suposições muito improváveis para sustentar a tese da dificílima preparação de um acontecimento no qual o acaso tem um papel muito mais preponderante do que o cálculo (5)."

Resumindo os testemunhos dos embaixadores da época, Cavalli, Walsingham, o núncio Salviati, Cuniga, outro sábio crítico, Jorge Gandy, conclui assim: "Chega; a falta de premeditação que esses testemunhos e muitos outros afirmam, é provada até a evidência (6)"

Acrescentamos quão pouco verossímil é que essa resolução tenha ficado secreta durante sete anos, como o querem os protestantes que a fazem remontar à entrevista de Bayonna, e, pelo contrário, quanto se harmoniza melhor o conjunto dos fatos com a opinião de uma determinação súbita, que deixa tudo na conta do imprevisto e do furor das paixões populares.

III. Massacres se deram também nas províncias, em diversas cidades, e em épocas diferentes; em Meaux, a 25 de agosto; em la Charité, a 26; em Orléans, a 27; em Augers e Saumur, a 29; Lyã, a 30; em Troyes, a 4 de setembro; em Burges, a 15; em Ruão, a 17; em Romans, a 20; em Tolosa, a 23; em Bordéus, somente a 3 de outubro; e em Poitiers, a 27.

A respeito desses massacres, apresenta-se logo esta questão: pelo rei terão sido dadas ordens para estender às províncias as sangrentas execuções que se realizaram na capital? - Os historiadores não estão de acordo. Segundo certos, a palavra escapada a Carlos IX, num momento de cólera, deve ser tomada ao pé da letra, e suas ordens secretas foram mandadas aos governadores das províncias, pedindo-lhes uma proscrição geral dos hereges. É a opinião dos protestantes Papyre-Masson, Davila, Maimbourg, acompanhados pelos adversários do Catolicismo. As Memórias do Estado de França afirmam que ordens neste sentido foram igualmente expedidas aos governadores das cidades.

Durante certo tempo foi de uso, entre os defensores da Igreja, negar essas asserções. Mas hoje seria difícil pretender que Carlos IX não tenha enviado ordem alguma. Sua correspondência, já publicada, insere à data de 27, 30 e 31 de agosto, cartas em que se diz que retira mandatos verbais que o receio de sinistros acontecimentos pudera decidir a transmitir ao governador de Lyão, assim como a outros governadores e tenentes regionais.

Depois disso, não é muito possível duvidar da existência de certas ordens verbais expedidas nas províncias, quer pelo próprio rei, quer em nome dele pelos cortesãos.

Agora, vêm a propósito outras perguntas: em que momento foram dads aquelas ordens? Estendiam-se a todo reino? Qual era o seu teor? Pode-se atribuir-lhes os massacres dos protestantes efetuados nas províncias? Aqui também diferem as respostas com os autores.

1º Os historiadores que pretendem que a São Bartolomeu foi uma coisa preparada desde muito tempo, foram obrigados, para ser consequentes, a sustentar que aquelas comunicações foram mandadas antes dos massacres de Paris. Para os partidários da opinião mais acreditada e mais verossímil, que não houve premeditação, é claro que não pôde haver ordens dadas muito tempo antes da execução. A resolução do massacre tendo sido tomada só na tarde de 23 de agosto, é nesse mesmo dia e a uma hora bastante avançada, que o rei esteve no caso de dar suas instruções de viva voz a alguns fidalgos que estavam presentes.

2º As ordens verbais não foram expedidas a todos os governadores das províncias. O autor pouco suspeito das Memórias do Estado de França o atesta, dizendo ele mesmo que essas ordens "foram despachadas aos governadores das cidades notáveis onde havia numerosas pessoas da religião." 

3º  Eram as ordens despidas de toda a compaixão, prescrevendo a morte de todos os hereges, como o querem os escritores partidários de uma carnificina universal? A primeira vista, seria para estranhar que Carlos IX, que, em Paris, não queria tirar a vida senão aos principais chefes, tenha ordenado nas províncias um massacre geral. Mais, a deposição de Tavannes e a do Martirológio dos protestantes concordam neste ponto que o rei queria ferir só "os chefes dos facciosos". Se, numa efervescência popular, as execuções foram além, devem-se responsabilizar as paixões superexcitadas e aquele furor brutal que se manifesta em todas as arruaças.

4º Enfim, a verdade histórica obriga a reconhecer que aquelas ordens orais, de qualquer natureza que tenham sido, foram revogadas quase logo que foram dadas. Desde o dia 24 de agosto, Carlos IX se apressou em escrever a todos os governadores das províncias para lhes transmitir novas instruções. Nelas lê-se textualmente: "Tanto mais que é grandemente para recear que semelhante execução levante meus súditos uns contra outros e se façam grandes matanças em meu reino, de que eu teria extremo pesar, rogo-vos fazer publicar por todos os lugares de vosso governo que cada um tenha que ficar sossegado e em segurança na sua própria casa, e veja a não pegar em armas e a não ofender a ninguém, sob pena da vida (7)"

Portanto, se o sangue correu em diversos pontos do reino, é preciso concluir que foi anterior ou contrariamente às instruções escritas e positivas do rei.

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(1) Para mais amplas informações, consultar a obra do padre Lefortier, la Saint-Barthélemy. - O estudo desta questão, por Jorge Gandy, na Revue des questions historiques, t. I. 1866.
(2) Ver a obra de Carlos Buet. l'Amiral de Coligny et les guerres de religion au XVIº siècle, um Estudo sobre o Caractère de Coligny, por D. d'Aussy, Revue des questions historiques, t. XXXVIII, julho de 1885, e o bem documentado trabalho do barão Kervin de Letenhove, les hugnenots et les Guerres, 6 vol. publicados de 1883 a 1885.
(3) Revue des questions historiques, loc. cit., 1866.
(4) A narrativa que damos é o resumo muito breve do extenso trabalho publicado na Revue des questions historiques, t. I.
(5) Henrique Bordier, no seu livro la Saint-Barthélemy et la critique moderne (1879), esforça-se por fazer prevalecer esta opinião, aliás pouco fundada; porque a paz de São Germano oferecia demasiadas garantias ao partido protestante para não parecer uma verdadeira conciliação. - Heitor de la Ferrière, no seu livro la Saint-Barthélemy; la veille, le jour, le lendemain (1892), refere diversos testemunhos favoráveis a uma premeditação.
(6) Baguenault de Puchesse, la Saint-Barthélemy, questions controversées (2ª série), publicadas pela Sociedade bibliográfica.
(7) Jorge Gandy, la Saint-Barthélemy, segundo a recente obra de Heitor de la Ferrière; Revue des questions historiques, t. XLI (fascículo de abril de 1892).

Pe. Cauly, Curso de Instrução Religiosa, Tomo IV, Apologética Cristã, Parte Histórica, Cap. III. pp.406-413.

Noite de São Bartolomeu II - A Religião Católica não teve parte alguma


1º A Religião não estava diretamente interessada na questão;
2º Nem a Santa Sé interveio, nem eclesiástico algum fazia parte do conselho real;
3º No massacre, não aparece participação alguma da Igreja;
4º A Igreja não aprovou a São Bartolomeu.

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É preciso não ter mais sentimento algum de justiça para acusar a Religião católica dos males sofridos pelos franceses durante as infelizes guerras que assolaram a França nos reinados dos três irmãos, Francisco II, Carlos IX e Henrique III, e ainda mais para lhe atribuir a resolução de Carlos IX.

Por certo, não queremos pretender que a Igreja se desinteressou da grande questão religiosa que agitou a França no século XVI, nem que ela ficou espectadora indiferente na luta que se travava debaixo de seus olhos.

Naquela época, a Religião católica era a religião do Estado na França. Guarda do direito dos reis e dos povos, protetora nata da fé e da moral cristã, tinha por missão e dever de opôr-se à Reforma e às suas intrigas, e assim o fez energicamente. E pois que a heresia protestante atacava com as armas na mão, a Igreja podia, por sua vez, invocar contra ela a força do braço secular. Ninguém pode lhe imputar a crime sua intervenção nas lutas religiosas daquela época agitada.

Mas importa muito determinar de que modo interveio. Será verdade, como pretenderam seus adversários, que a  Igreja seja responsável da São Bartolomeu? Será verdade que por conselhos, manejos, tenha escandalosamente triunfado? - Não, ela não interveio neste fato, nem como motivo, nem como conselho, nem como agente.

1º Antes de tudo, notemos que o verdadeiro motivo do massacre não foi a religião. Se, no princípio da Reforma na França, a crença contribuíra por alguma coisa na luta entre a Liga e os calvinistas, a questão, em 1572, era mais política do que religiosa. Não se tratava mais de dogmas, porém de rebelião. Três revoltas anteriores, muitas cidades subtraídas à obediência real, cercos sustentados, tropas estrangeiras introduzidas no reino, quatro batalhas travadas contra o exército do rei, o duque de Guise assassinado: tais eram os motivos de queixa do rei e de sua mãe. Por isso, Carlos IX, depois da São Bartolomeu, escrevia a Schomberg, seu embaixador na Alemanha, falando dos protestantes: "Não me era mais possível aturá-los."

Em parte alguma é invocado o motivo religioso, e vê-se, pelo contrário, que os editos reais recomendavam de não molestar de modo algum os membros da religião reformada. O martirológio dos protestantes refere que os matadores diziam aos transeuntes, ao mostrar os cadáveres: "São eles que nos quiseram constranger para matar o rei!"

2º Mas será possível admitir-se que a Santa Sé excitou o rei da França ao exterminar os protestantes, sob o pretexto de conservar ao catolicismo sua supremacia religiosa? Interveio a Igreja como conselho? Voltaire, naturalmente copiado por numerosos historiadores, acusa disto São Pio V, um papa, um dominicano, portanto um inquisidor, e enfim um santo. Que há de verdadeiro nesta afirmação?

Carlos IX reinava em França havia já seis anos, quando subiu ao trono de São Pedro um papa de grande virtude, São Pio V. Teve este dois grandes fins: deter os progressos sempre crescentes da Reforma na Europa, e alistar os príncipes cristãos numa cruzada contra os Turcos. - Para alcançar estes fins, compreendia muito bem a necessidade que tinha do concurso da França, e por isso multiplicou os avisos e conselhos a Carlos IX, em vista de reduzir a heresia e assegurar ao rei socorros e alianças.

Desses conselhos faz fé a correspondência pontifical. De conselhos sanguinários, porém, de maquinações pérfidas, de conluios urdidos na sombra, não há vestígio, nem prova (1). Além disso, sabe-se como a corte de França não fez caso dos conselhos do Papa e assinou a paz de São Germano (1570), que fazia dos protestantes um poder político no Estado.

Pio V morreu três meses antes do massacre da São Bartolomeu, Gregório XIII lhe sucedeu a 13 de maio de 1572, e seguiu a mesma norma de conduta que seu predecessor, procurando aproximar a Espanha da França, afim de de alcançar uma pacificação religiosa que permitiria dirigir os esforços comuns contra a ambição da Turquia. O historiador francês, H. Martin, que não se pode suspeitar de parcialidade em favor da Igreja, reconhece que Gregório XIII, "não só não favoreceu as intriga que precederam a São Bartolomeu, mas nem delas teve conhecimento (2)"

Pois do lado de Roma, nenhum conselho de perseguição ou de represálias sangrentas. Mas o rei de França neste ponto teria sido influenciado pelo clero católico?

Nos conselhos reais, segundo a narrativa do doque de Anjú (mais tarde Henrique III), intervieram o rei, a rainha, a senhora de Nemours, o marechal de Tavannes, o duque de Nevers, Birague, de Retz, etc., porém nenhum cardeal, nenhum bispo, nenhum sacerdote. Os essais sur l'Histoire générale andam errados julgando que se trata dos cardeais de Birague e de Retz: são os marechais desses nomes que são designados. O cardeal de Biragues revestiu a púrpura só em 1578, e de Retz em 1587.

3º A Religião católica que não interviera em nada nos conselhos, nem tampouco aparece como agente no massacre. Falou-se em sacerdotes, em frades, de uma milícia inteira de burel, que teria andado de envolta com os matadores e que, como diz Voltaire, como contam os romancistas, imolava suas vítimas com a espada numa das mãos e o crucifixo na outra. Falou-se daquelas famosas cruzes brancas que adornavam os chapéus dos assassinos, daqueles punhais bentos pelo cardeal de Lorena...

Onde está a verdade? Em Paris, por uma especial proteção da Providência, não se vê nenhum sacerdote no massacre, a não ser João Rouillard, cônego da catedral e conselheiro no parlamento, que foi arrastado no lugar  do massacre para dele ser vítima. Os escritores protestantes, na verdade, citam os nomes de alguns sacerdotes que tomaram parte nos massacres das províncias. Mas a ser isto verdade, a conduta repreensível deles, em fim de contas, não pode ser imputada à Igreja.

Eis o que a imparcial e verídica história pode afirmar: o clero católico, durante os massacres, desempenhou o papel que lhe competia. Em lugar de matar ou ferir, salva. Basta lembrar o nobre procedimento do bispo de Lisieux, Hennuyer, que, por sua energia, salvou todos os protestantes de sua diocese.

O martirológio dos protestantes, em que não se pode lançar a suspeita de querer fazer o elogio dos católicos, cita muitos fatos como o precedente. "Em Tolosa, diz ele, os conventos serviram de asilo aos calvinistas; em Burges, católicos pacíficos salvaram alguns; em Romans, de sessenta que foram presos, conseguiram soltar quarenta, e dos mais só pereceram sete; em Troyes, em Bordéus, muitos foram igualmente salvos por sacerdotes."

Em Paris, os huguenotes perseguidos acharam também protetores católicos, e em Nimes, esquecendo-se da Miguelada, houve corações assaz generosos para defender os calvinistas de uma carnificina demais autorizada pelo exemplo, mas de nenhum modo permitida pela Religião.

Como, depois disso, acusar a Igreja e seus ministros de terem banhado as mãos no sangue dos hereges? Quanto às cruzes brancas, não passavam elas de um emblema, de um sinal. Além disso, o cardeal Carlos de Lorena achava-se em Roma desde três meses antes do massacre. Como poderia então benzer os punhais destindados a um massacre que foi improvisado? Portanto, a cena introduzida por Chénier no seu Carlos IX, e por Scribe nos Huguenotes, merece ser desterrada entre as fábulas.

4º Mas, objetar-se-á, se a Igreja não preparou a São Bartolomeu, se o papa não foi dela nem conselheiro, nem cúmplice, não se pode negar que Gregório XIII a tenha altamente aprovado e dela se tenha regozijado. É certo que em Roma, ao receber a notícia desse nefando golpe de Estado, renderam-se a Deus solenes ações de graças; Gregório XIII foi em procissão da igreja São Marcos à de São Luis, indicou um jubileu, mandou cunhar medalhas comemorativas, e encomendou ao pintor Vasari, para o Vaticano, frescos destinados a perpetuar a lembrança de um acontecimento de que a corte romana concebia uma grande alegria.

Que esses fatos materiais sejam verdadeiros, não o discutimos. Mas, para conhecer-lhes o verdadeiro caráter e julgar-lhes a significação, é necessário e justo lembrar suas circunstâncias e explicar seus motivos.

Depois de ter recebido a notícia dos acontecimentos de Paris, o sumo Pontífice foi procissionalmente da igreja São Marcos à igreja São Luis dos Franceses; aí mandou cantar um Te Deum de ação de graças, ordenou procissões, marcou um jubileu, mandou ou deixou cunhar uma medalha comemorativa do massacre. É ainda verdade que o pregador Muret fez um elogio público na presença do papa, e o pintor Vasari representou as diversas cenas desse fato em três quadros que ainda adornam uma das salas do Vaticano. - Mas que pretendia celebrar a corte de Roma com essas demonstrações? Aquilo que lhe tinham revelado as notícias recebidas. Ora, continham o que se publicara por toda a parte na França e fora dela; que o rei e a família real acabavam de escapar ao maior perigo, sufocando uma nova conspiração tramada pelos huguenotes.

Neste ponto, não há dúvida possível; Carlos IX, numa carta dirigida, em 24 de agosto, ao senhor de Ferralz, seu embaixador em Roma, contava resumidamente o fato, deixando ao senhor de Beauvillé, portador da missiva, o cuidado de dar mais pormenores ao embaixador e ao papa Gregório XIII. Os pormenores eram os que tinham sido mandados aos governadores das províncias.

A correspondência oficial de Salvaiati, núncio do papa em Paris, mostra que ele ignorava completamente os projetos da corte. Nos seus relatórios particulares, endereçados ao conselho de Estado, fala da rebelião geral dos protestantes que obrigou a corte de França a lançar mão de uma resolução extrema para se pôr a salvo do perigo. Um curiosíssimo documento, conservado no Vaticano, veio recentemente confirmar todas essas afirmações. E o resumo manuscrito(3), em latim, de um leito de justiça realizado no parlamento de Paris. Encontra-se aí um trecho que explica de um modo, que se poderia dizer definitivo, o massacre da São Bartolomeu. Eis a tradução: "Nesta augusta assembléia, o rei Carlos declarou que, graças a Deus, descobrira as ciladas que o almirante Gaspard de Coligny armava ao governo do rei, chegando ao ponto de ameaçar toda a família real com uma catástrofe e com a morte, e que tendo tratado a ela e a seus cúmplices como o mereciam, queria que, no futuro, não se imputasse este fato a crime àqueles que foram os fiéis ministros de uma tão justa vingança, visto que tinham procedido só por vontade, mandato e ordem do rei".

Este mesmo documento relata que as execuções feitas a 24 de agosto não foram mais do que justas represálias contra as conspirações da facção protestante que devia, duas horas mais tarde, matar os membros da família real. Demonstra em segundo lugar que as execuções, ordenadas por Carlos IX, só assumiram o caráter de massacre pela intervenção do povo de Paris, irritado contra as facções. Menciona enfim a proibição expressa feita pelo rei ao mesmo povo de Paris, "de homicídios, combates, pilhagem e saque dos bens dos huguenotes", sem a intervenção do parlamento e dos magistrados públicos.

Tais foram as notificações feitas ao Papa, donde resulta que Roma entendeu celebrar não o assassinato dos hereges, mas a exterminação dos rebeldes, a libertação do reino, e, sem dúvida, como consequência ulterior, o fim de uma horrorosa guerra civil. O próprio Muret, na sua famosa prática pronunciada a 23 de dezembro seguinte, não celebrava outra coisa.

As medalhas comemorativas, cunhadas em 1572, tendo a legenda: Ugonotorum strages, com a imagem de um anjo exterminador, armado de uma espada e perseguindo guerreiros, significavam a repressão de hereges rebeldes. As pinturas de Vasari não tinham outro sentido e deviam simplesmente transmitir à posteridade a memória de um fato que, aos olhos da corte de Roma, assumia um caráter providencial: a salvação da vida e do trono de Carlos IX, a vitória sobre a heresia, o fim das dissensões intestinas que desolavam a França.

Brantôme conta que, mais tarde, Gregorio XIII, melhor informado sobre os massacres de Paris e das províncias, chorou amargamente: "Lamento, dizia ele, a morte de tantos inocentes que não deixaram de pereceer de envolta com os culpados; é possível que a muitos deles Deus tenha concedido a graça de se arrependerem (4)"

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(1) Sobre esta questão pode-se consultar com fruto o Padre Lefortier, la Saint-Barthélemy, cap. v.
(2) H. Martin, Histoire de France, t. IV.
(3) Manuscrito nº 8041 da biblioteca Vaticana, p. 198. - Estudo pelo Padre Davin, Un nouveau document sur la Saint-Barthélemy (Univers, 24 de agost de 1885).
(4) Para mais amplas informações, consultar a obra do Padre Lefortier, la Saint-Barthélemy - O estudo desta questão, por Joge Gandy, na Revue des questions historiques, t. I, 1866.

Pe. Cauly, Curso de Instrução Religiosa, Tomo IV, Apologética Cristã, Parte Histórica, Cap. III, pp. 399-406

Noite de São Bartolomeu I - Noção Geral e Questões a Examinar


Pessoal, sigo fazendo algumas transcrições do Pe. Cauly sobre certas acusações históricas que se costuma fazer à Igreja. Chamo primeiramente a atenção para o nível de um "Manual de Instrução Religiosa" de antigamente, de onde retiro os estes textos. Compare, o caro leitor, com os livros infantis que andam a circular, hoje, ostentando o nome de católicos. Lembro, como exemplo, do livro teletubiano do Pe. Marcelo Rossi - oh Deus! Depois, o que me motivou a pôr aqui estes artigos sobre a história da Igreja foram, sobretudo, dois acontecimentos: primeiro, a constatação concreta de uma conversão que relutava em se efetuar também pelos equívocos históricos assumidos como verdades; depois, por uma conversa que presenciei entre dois rapazes que, ingenuamente, falavam do que não sabiam - tratavam da São Bartolomeu -, muito embora o fizessem com se tivessem sido espectadores. Deixo aqui, então, este estudo a fim de poder - ou pretender - contribuir com algo para a formação dos amigos com relação a assuntos tão espinhosos e que são usados, com muita má fé, como pretextos para acusar e difamar a Santa Igreja que, como bem disse alguém - e o dizemos nós também - deve ter, não vergonha, mas orgulho do seu passado. 

Assim como os textos da Inquisição, também nestes, os itálicos são do original - com exceção das citações, que decidi pô-las em itálico com o intuito de facilitar a leitura -, enquanto que os negritos são destaques meus.

Boa leitura.

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Entende-se por São Bartolomeu o massacre dos huguenotes ou protestantes, que teve lugar na França, na noite de 24 de agosto, festa de são Bartolomeu, em 1572, por ordem de Carlox IX, influenciado pelos conselhos de sua mãe, Catarina de Médicis.

Este massacre começou em Paris, depois do sino de Saint-Germain-l'Auxerrois ter dado o sinal. Coligny, chefe do partido huguenote, foi uma das principais vítimas. O sangue correu em toda a capital; segundo alguns, houve dois mil mortos; segundo outros, dez e até vinte mil. Vê-se que a diferença é grande, e a verdade deve estar entre os extremos.

Nos dias seguintes, sempre pelas ordens do rei, semelhantes cenas se renovaram em diferentes pontos do país: Meaux, Orléans, Lyão, Burges, Tolosa, Bordéus, etc... Alguns historiadores pretendem que, nas províncias, houve de quinze a vinte mil vítimas. Veremos o que se deve pensar a este respeito.

Tal é o fato da São Bartolomeu... Mesmo sem aceitar as exagerações a respeito dele, foi por demais verdadeiro, e é uma página que se desejaria poder apagar dos anais da história francesa, segundo uma palavra, não do chanceler de l'Hospital, a quem muitas vezes foi atribuída, mas do presidente de Thou: "Excidat illa dies aevo! Pereça para sempre a memória daquele dia!"

O ódio dos protestantes e dos filósofos misturou, de tal modo, o nome da Igreja Católica a este fato histórico, que, a força e o ouvir, muitas pessoas acreditaram que a São Bartolomeu era obra da Igreja. Importa destruir este preconceito. Por outra parte, sob a pena dos escritores protestantes, dos romancistas e outros homens de juízo errôneo, o número das vítimas aumentou de modo sistemático. Não nos será difícil demonstar que aí também o exagero se deu livre curso.

Para proceder com ordem:
1º Examinaremos rapidamente as causas que prepararam este acontecimento deplorável;
2º Mostraremos que a Religião Católica não teve parte alguma no massacre da São Bartolomeu;
3º Foi um golpe de Estado, um ato de proscrição, obra da política de Carlos IX e de Catarina de Médicis;
4º Enfim, a São Bartolomeu fez muitos menos vítimas do que se tem escrito.

É o que vamos demonstrar em outros tantos artigos, onde aparecerá claramente que a Igreja deve ser justificada de qualquer acusação de intervenção no odioso massacre da São Bartolomeu, e convém andar desconfiado a respeito dos números em que se calculam as vítimas.

Artigo I - Causas que prepararam e explicam a São Bartolomeu

I. Princípios da Reforma.
II. Violências e crimes dos protestantes na França.

I. Recentes trabalhos, publicados por investigadores e eruditos, permitem colocar hoje, em plena luz, o acontecimento que deixou uma impressão tão dolorosa na história da Filha primogênita da Igreja, no século XVI. Esses autores remontaram às fontes e acharam nos próprios historiadores da Reforma, declarações que merecem ser recolhidas.

Primeiro, julgamos que não surpreenderemos nossos leitores afirmando que da Reforma procederam as desordens que tão profundamente transtornaram a Europa no século XVI. A doutrina de Lutero e de Calvino continha em germen todos os princípios de revolta, de anarquia, de luta sangrenta.

O protestantismo arrastava consigo a corrupção dos costumes. - O livre exame, a salvação atribuída somente à fé, sem as obras, a rejeição da autoridade da Igreja e de toda a moral importuna, já, ainda em tempo dos reformadores, - os próprios Lutero e Calvino disso gemeram - tinham causado uma depravação geral.

O protestantismo impelia para o socialismo, a pilhagem, a anarquia. - Na livre interpretação da sagrada Escritura, cada um achava, não só uma desculpa, mas uma aprovação de todos os excessos. Pois: "Naqueles tempos, diz Bossuet (1), toda a Alemanha estava em fogo. Os camponeses, revoltados contra os senhores, tinham pegado em armas e imploravam o socorro de Lutero. Além de que seguiam a doutrina dele, pretendia-se que um livro dele, a Liberdade Cristã, muito contribuíra a lhes inspirar a rebelião, pela maneira ousada com que falava contra os legisladores e contra as leis."

"Lutero, diz Luiz Blanc, levava direitinho a Munzer. Milhões de vozes estavam prontas a proferir, contra os reis e os príncipes, o grito que soltara contra Roma (2)" A violência dos novos bárbaros não conheceu mais limites: matanças nos campos de batalha, cidades desmanteladas, mosteiros destruídos, igrejas incendiadas e saqueadas, tesouros de escultura e pintura destruídos; tais foram os resultados da Reforma na Alemanha. Melancton dizia que as ondas do Elba não chegariam para chorar todas as infelicidades e desventuras da Religião e do Estado.

O protestantismo queria a destruição do catolicismo. - É um erro considerável, explorado pelos inimigos da Igreja, acreditar que os protestantes reclamavam simplesmente um lugar ao sol, ao lado dos católicos, que eram inofensivos e tolerantes em excesso. Lutero dissera: "Quem cooperar com o braço ou os bens para a ruína dos bispos e da hierarquia episcopal, é bom filho de Deus, verdadeiro cristão e observa os mandamentos do Senhor." Seus discípulos obedeceram: provam-no seus sangrentos triunfos na Alemanha, na Dinamarca e na Inglaterra.

II. Em França, como alhures, os protestantes queriam acabar com a Religião Católica e substituir-lhe o calvinismo. No século XVI formavam um Estado no Estado; tentavam apoderar-se do poder e pactuavam com os inimigos da pátria. "O calvinismo envolvia a França numa rede de conspirações. Em 1562, seus partidários sublevaram-se, ao mandado de seus chefes, com uma simultaneidade assustadora. Em 1567, pôde-se verificar juntamente o alcance e a rapidez de suas manobras. Neste ano, as ruas de Nimes foram ensanguentadas por uma das mais odiosas São Bartolomeus protestantes, a qual se chamou a Miguelada, efetuada pelos huguenotes, de sangue frio, de caso pensado, sem provocação da parte dos católicos, a 30 de setembro, no dia seguinte à festa de São Miguel. Trezentos cadáveres foram precipitados num grande poço, no pátio do palácio episcopal. Contra este fato, os protestantes organizaram a conspiração do silêncio. Contudo, o nefando crime é confessado por alguns deles. Além disso, a Miguelada não foi um fato isolado, mas o efeito de uma conspiração tramada contra a França (3)"

"As catedrais, as igrejas, os conventos, as capelas e até as bibliotecas e os hospitais são destruídos, saqueados, roubados, profanados. Como os bárbaros, os protestantes apoderam-se de todas as riquezas do culto, quebram as estátuas, dilaceram as pinturas... Pelas mãos deles, os bispos, os sacerdotes, os frades de qualquer ordem são mortos, insultados ou expulsos. As populações, fiéis ao culto de seus pais, são submetidas aos mais cruéis tratamentos. Só na Beauce, os calvinistas triunfantes destruíram trezentas igrejas. Em toda a França, contam-se cento e cinquenta catedrais ou abadias completamente arruinadas (4)"

Assim, é preciso reconhecer que o massacre de Vassy, no qual quarenta e dois protestantes, segundo La Popelinière, sucumbiram numa luta travada entre eles e os católicos, era já vingado e de sobra. Deve-se então ficar surpreendido que a velha fé dos Francos, tão arraigada no solo do reino cristianíssimo, ficasse indignada, e, mais do que Alemanha e a Inglaterra, se tivesse defendido contra as usurpações, os conluios e manejos da Reforma?

É neste verdadeiro ponto de vista histórico, que convém colocar-se para julgar lealmente o fato da São Bartolomeu, e, sem pretender desculpá-lo, patentear pelo menos as muitas circunstâncias atenuantes.

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(1) Bossuet, Histoire des Variations, liv. II, cap. XI
(2) Luiz Blanc, Histoire de la Révolution française, t. I.
(3) Jorge Gandy, Revue des questions historiques, 1866, t. I. - J.-J. Fauriel, Essai sur les événements qui ont précédé la Saint-Barthélemy (thèse)
(4) Carlos Buet, François_de Guise.

Pe. Cauly, Curso de Instrução Religiosa, Tomo IV, Apologética Cristã, Parte Histórica, Cap. III, pp. 394-398.

Não foi a Igreja que perdeu...



"Quem presta ouvidos àquela crônica das derrotas da Igreja, onde se diz que ela perdeu oportunidades e terreno, presta ouvidos aos pruridos e não às palavras da fé. Não lhe passa pelo espírito que foi o mundo que perdeu terreno no reino de Deus e não a Igreja que o perdeu nas cidades do mundo. Não se recorda mais que o banquete de núpcias será completo um dia, ainda que bilhões de convidados inventem as mais engenhosas desculpas para não comparecerem."

(A Descoberta do Outro, pág. 146) 

Fonte: Permanência.

Inquisição IV - Final - Exame das Censuras Feitas à Inquisição



I.                   Observações gerais e importantes
II.                Pormenores e discussão das censuras feitas à Inquisição da Espanha:
1º tribuna de sangue; 2º autos de fé; 3º processos da Inquisição.

I.       É particularmente a Inquisição da Espanha que foi acusada de ser um tribunal de sangue explorado pelo poder monacal.

Não procuraremos justificar a Inquisição Espanhola, pois que até os papas repreenderam-na muitas vezes por causa de seus rigores; repetiremos somente que ela não é instituição da Igreja, mas apenas do poder real; suficientemente o provamos, e os pontífices romanos, amiúde desaprovam-na censurando-lhe os excessos. Não foi nem tampouco um instrumento dos monges; o grande inquisidor foi às vezes cardeal, sempre arcebispo ou bispo. Entre os conselheiros eclesiásticos, seis eram seculares e dois regulares, dos quais um Dominicano e o outro pertenceu sucessivamente às diversas ordens religiosas; os outros conselheiros, em número de três ou quatro, eram leigos. “Este tribunal, disse Lenormand, compunha-se, em maioria, de seculares.” Assim desaparece o fantasma do poder monacal.

Mostraremos mais longe que a Inquisição Espanhola não merece, de modo absoluto, a reputação de crueldade, barbaria e sangue que lhe fizeram certos historiadores. Mas aqui vão logo algumas observações necessárias:

1º Este tribunal não fez mais do que aplicar as leis do reino: leis severas, dirão alguns? Sim, com certeza, mas ao colocar-se na época e nas circunstâncias para as quais foram feitas, reconhecer-se-á que a situação da Espanha as explica e justifica totalmente. Os judeus eram não só os inimigos encarniçados da fé, mas perturbadores do reino e fautores de desordens e crimes; quanto aos maometanos, durante oito séculos, tinham avassalado os espanhóis ou lutado contra eles, e sua má fé, e a violação dos tratados depois da tomada de Granada, exigiam naturalmente represálias.

2º Não devem julgar os atos dos séculos XV e XVI como se fossem dos séculos XIX ou XX. Na idade média, os reinos cristãos consideravam como um crime, não menos prejudicial à sociedade do que à Religião, a heresia ou o insulto feito à fé e à moral. Em toda a Europa, o crime de lesa-majestade era punido com a pena de morte, e este crime se dividia em lesa-majestade divina e humana. Ora, qualquer crime enorme contra a Religião era tratado como crime de lesa-majestade divina. Daí o uso geral de queimar os sacrílegos, parricidas, heresiarcas e hereges obstinados... É preciso pois lançar sobre o tempo e as idéias a culpa dessa severidade que hoje acharíamos excessiva, e não é somente a Inquisição, mas a humanidade inteira que conviria acusar.

3º Enfim, para apreciar uma instituição qualquer, não se deve julgá-la por partes, nem em um momento dado, mas sim nos seus resultados gerais. Graças à Inquisição, a Espanha, em primeiro lugar, viu-se livre de seus inimigos interiores, os judeus e os mouros; e, mais tarde, foi preservada da invasão do protestantismo que, por dois séculos, dilacerou a França, a Alemanha e a Inglaterra, por meio de guerras civis, homicídios e matanças que fizeram mil vezes mais vítimas do que todas as Inquisições. “Não houve na Espanha, confessa Voltaire, durante os séculos XVI e XVII, nenhuma das revoluções sangrentas, das conspirações, dos castigos cruéis que se viam nas outras cortes da Europa”. (1) E esse estranho filósofo atribui tal resultado à Inquisição da qual ele pretende entretanto assinalar os horrores.

II.    Feitas essas observações gerais, vejamos em seus pormenores as censuras feitas à Inquisição Espanhola.

Foi ela um tribunal de sangue? – É claro que a Inquisição, sendo encarregada de aplicar as leis da Espanha, teve de como qualquer tribunal neste mundo, verificar delitos e aplicar castigos. Não é o tribunal, mas a lei que se deve culpar de suas aplicações severas e até sangrentas. É pois à legislação real que se deve imputar toda a responsabilidade daquelas penalidades, e além disso, é bem sabido: 1º que nenhuma prescrição da Inquisição podia não somente ser executada, mas até publicada sem o consentimento prévio do rei; 2º os membros eclesiásticos dos tribunais da Inquisição tinham mais ou menos as mesmas atribuições do que os membros do jury nos tribunais atuais. Os juízes civis perguntavam: “Sim ou não, é o acusado culpado de tal crime ou delito religioso previsto e castigado pelas leis civis?”, isto é, acha-se realmente apóstata, ou herético relapso, manchado de tal crime reputado enorme contra os costumes? Segundo a resposta, os magistrados aplicavam a pena citada pelas leis civis ou soltavam o acusado. Tudo o que Cesar Cantú escreveu dos heréticos da Itália, aplica-se igualmente à Espanha. “Desde então, o culpado não pertencia mais à Igreja; tornava-se criminoso de Estado, e o Estado não executava uma sentença da Inquisição, mas aplicava a pena estabelecida pela sociedade civil.” (1) 3º Os inquisidores que pronunciavam sobre a culpabilidade, não se esqueciam, ao entregar o culpado à justiça secular, de implorar em seu favor a compaixão e a comiseração, mesmo quando todos os meios de o levar ao arrependimento e de salvá-lo não tivessem sucedido.

A despeito dessas certezas, o ódio sistemático em primeiro lugar, pelas penas de Puigblanch e de Villanuyeva, o seu copista, e de um fogoso escritor, Llorente; depois a ingenuidade crédula ou o preconceito e o sistema de hostilidade à Religião, se esforçaram por aumentar o número das vítimas da Inquisição e por imputar tudo à Igreja. (2)

O fator principal desse tumulto é certamente Llorente, autor da História Crítica da Inquisição da Espanha. Que valem os seus testemunhos? Quem era ele? E qual pode ser a autoridade de sua obra? Llorente (1756-1823) era um sacerdote espanhol, apóstata, que livrou sua pátria aos Franceses em 1811; traidor à Igreja, procurou dilacerá-la pelo cisma; traidor à Inquisição mesma, de que era secretário, queimou os arquivos dessa instituição, para poder desfigurá-la à vontade na sua parcial história.

O historiador alemão e protestante, Ranke, disse dele: “Este autor escreve no interesse do partido Frances na Espanha... Por causa do mesmo interesse, vê na Inquisição uma usurpação do poder eclesiástico sobre o poder do Estado. Contudo, dos fatos invocados por ele mesmo, resulta que a Inquisição da Espanha é um tribunal régio. Os inquisidores eram oficiais régios.” (3)

Essa restrição, feita por um adversário, vale a pena de ser conservada.

Outro historiador protestante, Prescott, na sua Historia de Filipe II, dá-nos este aviso sobre a sinceridade de Llorente: “É preciso desconfiar das indicações de Llorente, porque, em diversas circunstâncias, admitiu, com leviandade, as avaliações mais inverossímeis.”

Que podem valer, pois, as asserções de um escritor tão parcial e tão leviano? Não importa, baseando-se neste autor continuar-se-á a caluniar a Inquisição. Dir-se-á, segundo Llorente, que ela, na Espanha, num espaço de trezentos anos, proferiu trinta mil sentenças de morte.

Notemos que essa avaliação fantástica baseia-se num cálculo manifestamente inexato e falso. Procede deste princípio, que no ano de 1481, a Inquisição de Sevilha por si somente mandou queimar duas mil pessoas, e sobre esta única base estabelece uma proporção rigorosa de anos e de tribunais, que o leva ao total de trinta mil. Ora, o número de dois mil, fornecido pelo jesuíta Mariana, não é só do ano 1481, mas de toda a duração da Inquisição de Torquemada (1482-1498), e fornecido pelos quatro tribunais relevando de sua autoridade. O ponto de partida é falso e o cálculo não o é menos, porque não se pode estabelecer uma proporção rigorosa baseada num dado só, e generalizá-lo para tribunais aliás menos importantes do que o de Sevilla. – O número de vítimas citado por Llorente, é pois exagerado, e poderia, segundo o parecer do sábio monsenhor Hefelé, ser reduzido a cinco ou seis mil. (4)

Quanto aos motivos de sua condenação, é preciso lembrar que a Inquisição não sentenciava somente a respeito do crime de heresia, mas, em geral, contra todos os crimes: crimes contra a natureza, pilhagens, extorsões, roubos nas igrejas, usura, magia, feitiçaria, etc. É preciso lembrar também que, não só a Inquisição Espanhola, mas os mesmos Estados protestantes promulgaram semelhantes condenações, especialmente contra os mágicos e feiticeiros, e em proporções consideráveis.

O mesmo Llorente avalia em oitocentos mil o número de judeus expulsos da Espanha, em conseqüência do edito de 1492. Ainda que esse número fosse verdadeiro, dele a Inquisição não fica responsável; é o resultado da política de Izabel e de Fernando. Mas escritores espanhóis mais sinceros e mais dignos de crédito avaliam somente em trinta mil famílias, isto é, aproximadamente a cem mil indivíduos, o total de judeus emigrados. (5)

Este número poderá parecer considerável, assim como rigorosa a medida tomada contra os emigrantes, que não levariam, da venda perfeitamente livre de seus bens, numerário algum, mas simples letras de câmbio. Todavia explicam-se essas medidas ao considerar a exasperação em que se achava a população espanhola, por causa das exações e da usura deles, assim como pelas crueldades monstruosas e pelos odiosos sacrilégios de que eram acusados.

Qualificou-se de severo o edito de 12 de fevereiro de 1502, que proscrevia os Mouros da Espanha. Mas esse rigor também se concebe. Em 1492, depois da tomada de Granada, deixara-se aos mouros a posse de seus bens, de suas leis, e o livre exercício de seu culto. Mas tinham eles o ódio de seus vencedores e um profundo pesar pela perda de sua independência. Daí freqüentes insurreições das quais algumas foram sangrentas. Os reis então não se julgaram mais ligados por sua palavra. Um decreto de 1499 não deixou aos discípulos de Maomé senão a alternativa do batismo ou do exílio, e a pragmática de 1502 estendeu a medida a todos os mouros do reino.

Com poucas modificações, pode-se aplicar aos mouros e aos mouriscos tudo quanto se acaba de dizer dos judeus. Era uma raça detestada, combatida durante oito séculos, inspirando ódio e desconfiança. – Aliás, seu desterro foi longe de ser total, porque ainda se acha uma porção deles, no século XVII, na província de Valença e no antigo reino de Granada, vivendo em paz durante o reinado de Filipe III. (6)

Que se deve pensar dos tremendos autos de fé da Inquisição Espanhola? – Os romances e a má fé representaram os autos de fé da Espanha como cenas de fanatismo e de barbaria. A verdade é que se dava o nome de autos de fé (atos de fé) às sentenças de perdão das pessoas falsamente acusadas e à reconciliação com a Igreja dos pecadores arrependidos. Nesse momento não se queimava e não se torturava a ninguém. Acabada a reconciliação, estava terminado o auto de fé e os inquisidores se retiravam. Então somente os heréticos obstinados ou os criminosos convencidos eram entregues ao braço secular.

A dar fé em Llorente, nos autos de fé de Toledo, a 12 de fevereiro de 1486, teria havido 750 vítimas da Inquisição, 900 a 2 de abril, 1700 a 1º de maio e a 10 de dezembro do mesmo ano. Julgar-se-á, sem dúvida, que se trata de vítimas do fogo ou do gládio? Pois bem, não houve uma só condenação capital, e o próprio Llorente, por toda essa época, não pode citar ao todo mais de vinte e sete condenações à morte pronunciadas pelo tribunal de Toledo. Eis portanto a que se reduzem aquelas espantosas execuções, e é o que levou um ministro da república francesa, o senhor Bourgoing, embaixador na Espanha, a dizer, no seu Quadro da Espanha Moderna: “Confessarei, para prestar homenagem à verdade, que a Inquisição poderia ser citada, em nossos dias, como um modelo de equidade.

Pelo menos, não houve nas devassas da Inquisição, arbitrariedades, violências, processos ignominiosos ou infamantes? A Inquisição Espanhola, dissemos por mais de uma vez, foi, às vezes, de uma severidade excessiva, contrastando especialmente com os nossos costumes atuais. Muitos, obcecados pela paixão, representaram-na como um monstro insaciável, sempre à espreita para, à menor suspeita, agarrar vítimas.

A verdade é que, se os homens que a personificavam puderam exceder em alguma coisa, a instituição mesma tinha regulamentos indulgentes antes do que severos. Tinha que conceder, até três vezes, prazos de graça; a lei queria que os filhos dos heréticos fossem tratados com bondade, mesmo depois desses prazos; que ninguém fosse preso por blasfêmia proferida num momento de raiva, e, quando se tratava de proposições heréticas, exigia um certificado do médico, atestando que não havia alienação mental. O artigo 8 dos estatutos de 1496 ordena um castigo público contra as falsas testemunhas, e recomenda desconfiar dos acusadores. O artigo 23 permite ao acusado de escolher um procurador entre os advogados do Santo Ofício e exigir dele o juramento de guardar o sigilo, de defender sincera e lealmente seu cliente. Se o acusado era pobre, seu advogado era pago pelo fisco. O acusador devia prestar o juramento de que não era inspirado pelo ódio. Os autos eram lidos duas vezes ao acusado na presença de testemunhas eclesiásticas. Enfim, os inquisidores deviam lançar mão de todos os meios para conhecer tudo quanto podia desculpar o acusado, e uma vez concluída a instrução, perguntar-lhe ainda se não desejava que se fizessem novas pesquisas.

Não é verdade que a Inquisição Espanhola tenha inventado tormentos inauditos. Procurava, pelo contrário, tornar mais brandos os processos da justiça, naquela época. Llorente confessa: que quando os outros cárceres eram covas negras e úmidas, os da Inquisição eram quartos de abóbadas e secos. Não havia nem correntes, nem algemas, nem coleiras de ferro. Contrariamente aos hábitos dos tribunais civis, não se permitia renovar a tortura no decurso do mesmo processo.

Quanto ao famoso sambenito, ou sacco-benito (saco bento), de que se fez um vestuário de ignomínia, na verdade, era empregado nos autos de fé, e de reconciliação. Era um fato semelhante ao dos frades. As insígnias com que o guarneciam, nas abjurações de gravi, estavam em harmonia com as idéias da idade média. Este vestuário não tinha nada de infamante e não era destinado senão a fixar os olhares e inspirar mais horror para a heresia e o crime.

Tal foi a Inquisição Espanhola. Para os incrédulos e livres pensadores, para quem Deus, a Religião, a fé e a virtude nada são, seria insensatez defendê-la; mas para quem estima essas grandes coisas, é claro que a Inquisição Espanhola, se por muitas vezes excedeu em rigor, quis servir a causa da Religião e da pátria, e não merece todas as censuras com que a sobrecarregaram seus inimigos.

Além disso, na Espanha, não houve nada que se possa comparar com as matanças e perseguições praticadas pelos protestantes contra os católicos, na França, na Alemanha, na Holanda, e particularmente na Inglaterra. É por milhares que se contam as execuções de Henrique VIII e de sua digna filha, Izabel. “Esta rainha sanguinária, diz Cobbet (cartas sobre a Reforma na Inglaterra), fez morrer mais pessoas em um ano do que a Inquisição em toda a sua existência.”

O historiador inglês Gibbon confessa igualmente que a Inquisição fez morrer infinitamente menos pessoas, conservando a ordem e a unidade, do que o estabelecimento do protestantismo, que espalhou por toda a parte as discórdias e as guerras civis. Só na Inglaterra, a boa rainha Izabel fez supliciar quarenta e três mil vítimas; Henrique VIII setenta mil. Donde vem que tantas vezes se evocam as execuções da Espanha e tão poucas vezes as carnificinas praticadas pela Reforma?

Nem tampouco se fala das vítimas feitas na França pela Inquisição jacobina, durante o período revolucionário. – Todavia, segundo estatísticas sérias e dignas de fé, na capital e nas grandes cidades, em seis anos foram executadas mais de trinta mil pessoas, muito mais do que a Inquisição da Espanha em seis séculos. (7)

Contudo, conviria trazer nessas importantes matérias um espírito equitativo. Dever-se-ia meter em linha de conta os tempos, os países, os costumes, e não deixar a uma instituição o monopólio de todos os rigores e de todos os crimes. Julgamos ter suficientemente restabelecido a verdade dos fatos e julgado as responsabilidades; se não temos feito a luz completa, pelo menos elucidamos alguns pontos nesta difícil e tenebrosa história da Inquisição.

Repitamos: apesar de atenuações importantíssimas às acusações de fanatismo e barbaria, assacadas contra a Inquisição Espanhola, não pretendemos justificar todos os seus atos, pois que os Sumos Pontífices, às vezes, lhe censuraram os excessivos rigores; mas com Balmes, judicioso e grave escritor espanhol, concluiremos:

“Sem desconhecer as circunstâncias excepcionais nas quais se achou esta instituição, creio que teria feito muito melhor de, a exemplo da Inquisição de Roma, evitar, quanto fosse possível, a efusão do sangue. Podia perfeitamente zelar pela conservação da fé, prevenir os males com que a Religião era ameaçada pelos mouros e pelos judeus, preservar a Espanha do protestantismo, sem fazer uso desse rigor excessivo que lhe valeu tão graves censuras, admoestações da parte dos papas, provocou as reclamações dos povos, foi a causa que tantos acusados apelaram para Roma, e forneceu aos adversários do Catolicismo um pretexto para acoimar de crueldade uma Religião a quem horroriza a efusão do sangue. Repito, a Religião católica não é responsável de nenhum dos excessos que puderam ser cometidos em seu nome; e quando se fala na Inquisição, não se deve considerar principalmente a da Espanha, mas sim a de Roma. Lá onde reside o soberano Pontífice, a Inquisição foi em extremo branda e indulgente”. (8)

(1)   Cesar Cantú, Les héretiques de l’Italie, t. I, p. 193.
(2)   Ver, a respeito desses escritores, Balmes, Protestantisme et Catholicisme, t. II, cap. XXVII, apêndice.
(3)   Ranke, Princes et Peuples, t. I.
(4)   Monsenhor Héfélé, Vie du Cardinal Ximenes.
(5)   Mariana, Histoire d’Espagne. – Ferreras, item.
(6)   Padre de Vayrac, État présent de l’Espagne, t. I, p. 241.
(7)   Romain, Sicence et Foi: l’Inquisition, Introdução, XI.
(8)   Balmes, Le Protestantisme compare au Catholicisme, cap. XXXVI e XXXVII e nota 9. – Estudar-se-á com proveito, sobre esta questão, em monsenhor Héfélé, o consciencioso capítulo que consagra a este tribunal (Le cardinal Ximenes, cap. XVIII), em que atenua consideravelmente as acusações feitas contra ele, servindo-se, a maior parte do tempo, das declarações de seu principal acusador, Llorente. – Ver também, Conférences du R. P. Monsabré, 1882 (58ª Conf., 2ª parte; e o notável Index III, no fim do volume).


Pe. Cauly, Curso de Instrução Religiosa, Apologética Cristã, Tomo IV, pp. 383-393

Inquisição III - A Inquisição Espanhola



I.                   Sua origem e seu verdadeiro fim.
II.                É uma instituição régia: sua composição.
III.             Principais personagens que desempenharam o papel de grandes inquisidores
IV.             Verdadeira intervenção da Igreja.

I.       Muitos estados cristãos tinham-se apressado, como já vimos, em estabelecer no seu país um tribunal da Inquisição. É assim que, na França, Filipe Augusto o estabeleceu contra os Albigenses, de acordo com o papa Inocêncio III. A Espanha, desde o século XIII, possuía também um tribunal da Inquisição, porém, puramente eclesiástico.

No século XV, Fernando e Izabel dela fizeram uma instituição política da Espanha, e fundaram em 1479 o primeiro tribunal da Inquisição Espanhola, primeiro limitada, na sua ação, aos únicos judeus batizados, os maranos, que exteriormente se faziam cristãos, mas nem por isso deixavam de ficar apegados às crenças e ao culto do mosaísmo. Esta instituição foi, ao depois, estendida a todos os judeus, cujas conspirações tinham motivado o decreto de proscrição geral contra todos aqueles que não receberiam o batismo. Este decreto, publicado a 31 de março, foi aplicado depois de 31 de julho de 1472.

Era uma medida de bem público: atribuía-se aos judeus uma série de atos de vingança, fanatismo e revolta: cruzes mutiladas, hóstias sagradas profanadas, meninos cristãos crucificados. Em 1485, em Toledo, tinham combinado de apoderar-se da cidade no dia da festa do Corpo de Deus, e matar todos os cristãos.

Depois da conquista do Granada (1492), Izabel e Fernando comprometeram-se em deixar aos Mouros a propriedade de suas mesquitas e o livre exercício de seu culto. Os soberanos não julgaram derrogar às suas promessas fazendo evangelizar os Mouros pelos mais santos bispos da Espanha. Houve numerosas conversões. Daí revoltas da parte dos Mouros fiéis a seu culto. Izabel e Fernando julgaram então poder tratá-los como rebeldes. Não lhes deixaram mais do que a alternativa de receberem o batismo ou emigrarem. Todavia, garantiam-lhes os bens, salvo um imposto de dez florins de ouro por cabeça.

A maior parte dos Mouros fizeram-se cristãos, e foram chamados moriscos. Em 1502 o edito real foi estendido aos Mouros das províncias de Castela e de Leão; foram submetidos como os de Granada à jurisdição dos inquisidores.

A Inquisição Espanhola nunca se propôs de obrigar os judeus e os mouros a mudarem de religião. Usava de rigor somente contra os apóstatas que, depois de terem sido batizados, voltavam ao judaísmo e ao islamismo, e tornavam-se cúmplices dos crimes ou das revoltas de que o povo acusava os correligionários deles. Os reis da Espanha não tinham imaginado a Inquisição apenas com um fim religioso ou absolutista; no seu pensamento, era um meio de fazer prevalecer a nacionalidade espanhola contra o judaísmo e o islamismo; por isso era extremamente popular, e quando um dia o inquisidor, Pedro de Arbues, foi assassinado, toda a cidade de Saragossa sublevou-se para vingar a morte dele.

Mais tarde o papel da Inquisição foi estendido ao protestantismo. Fiel às recomendações de seu pai Carlos Quinto, Filipe II tomara a peito preservar seus estados deste erro “que teria trazido, diz Balmes, a guerra civil na Espanha, como nos outros Estados”. E este escritor acrescenta: “Se Filipe II tivesse procedido de outro modo, tratá-lo-iam de incapaz.” É assim que o crime de heresia dependeu, assim como a magia e certos outros crimes, do tribunal da Inquisição.

II.    A Inquisição Espanhola não pode ser invocada como um argumento sério contra o Catolicismo a não ser que se prove que a Igreja, abusando do seu poder legislativo e coercitivo, tenha ordenado atos bárbaros, não menos contrários às leis da natureza do que ao espírito evangélico. Os inimigos da Religião teimam em confundir a própria instituição do tribunal eclesiástico com a Inquisição Espanhola. Ora, este é um procedimento desleal. Basta ler as atas régias para se convencer de que este último tribunal era intimamente ligado com o absolutismo político.

“Julga-se que este tribunal é puramente eclesiástico, diz Maitre; é um erro. O tribunal da Inquisição Espanhola é puramente régio. É o rei que designa o inquisidor geral, e este, por sua vez, nomeia os inquisidores particulares, com o consentimento do rei.

Com efeito, o regulamento constitutivo deste tribunal foi publicado em 1484 por Torquemada, de acordo com o rei de Espanha. As Cortes ultra-liberais de 1812, que suprimiram a Inquisição, confessam francamente: “Que os reis sempre repeliram os conselhos que lhes foram dirigidos contra este tribunal, porque são, em todos os casos os senhores absolutos de nomear, suspender ou despedir os inquisidores.

Os estatutos que, em 1484, foram dados à Inquisição, indicam, por si próprios, a veracidade dessas asserções, e provam, até a evidência, que ela era realmente uma instituição do Estado. Encontram-se sempre expressões como estas: “Suas Altezas (Izabel e Fernando) querem..., ordenam, etc.

Assim a Inquisição Espanhola é uma instituição régia e não eclesiástica. Ouvimos as Cortes o proclamarem: todo o pessoal, tanto clérigos como leigos, era nomeado pelo soberano e subtraído à autoridade da Igreja. O grande inquisidor foi escolhido pelo rei, e o maior desejo do monarca foi de fazer confirmar pelo papa a nomeação real. Os tribunais da Inquisição foram igualmente estabelecidos pela autoridade do rei, primeiro em Sevilha, em seguida, nas diversas cidades de Castela, de Aragão, de Valença e de Catalunha, onde se contaram até onze tribunais. Quarenta e cinco inquisidores gerais procuravam os culpados, instruíam os processos, que eram depois julgados pelo grande inquisidor, assistido de conselheiros ou familiares escolhidos entre a nobreza.

O tribunal contava seis conselheiros eclesiásticos seculares, e dois regulares, dos quais um Dominicano. Todos, como já dissemos, dependiam da nomeação do rei e do grande inquisidor por ele designado.

O célebre Dominicano Torquemada foi o primeiro grande inquisidor de Espanha (1482-1498). É a seu nome que se ligam as mais graves incriminações e é a seu ofício que a Inquisição Espanhola foi devedora da reputação de terror que lhe conservaram os séculos. Teve por sucessor D. Diego de Deza, a quem o historiador Llorente acusa de ter excedido em severidade o próprio Torquemada; o zelo, na verdade duro e severo, do novo inquisidor não podia deixar de lhe atrair semelhante censura. Ximenes, grande inquisidor especial do Aragão (1507-1717), trouxe no desempenho de sua missão mais discernimento e sabedoria. Com este homem ilustre, a Inquisição foi menos entregue ao arbitrário. Destituiu certo número de mandatários que tinham abusado do poder, e, desde então, o tribunal espanhol perdeu sua reputação de rigor e severidade.

III. No meio de tantas acusações formuladas contra a Inquisição Espanhola, é fácil descobrir a verdadeira intervenção da Igreja.

Não é a ela, certamente, que se deve atribuir esta instituição tão depreciada. Michelet nota que Sixto IV, Inocêncio VIII, Leão X, lembraram aos inquisidores espanhóis a parábola do Bom Pastor, e que, quando Carlos Quinto quis introduzir a Inquisição em Nápoles, o papa Paulo III animou a resistência dos Napolitanos, acusando a Inquisição da Espanha de afastar-se dos exemplos de brandura que lhe eram dados por aquela de Roma. (1)

Todavia, para a justificação da Igreja e dos papas nesta importante matéria, não podemos fazer melhor do que citar os próprios testemunhos de Llorente, historiador da Inquisição da Espanha, adversário da Igreja, autor primeiro e principal de todas as acusações feitas contra a instituição espanhola. Sua narrativa servirá de comentário à afirmação de Michelet. “Sixto IV, não conseguindo impedir pelo menos avisou os inquisidores que não podiam pleitear sem o consentimento dos bispos. Além disso, estabeleceu um Tribunal de apelação papal, ao qual podiam recorrer aqueles que teriam que se queixar da Inquisição, e anulou ou suavizou muitas sentenças.

A despeito dos esforços feitos por Izabel e Fernando, assim como por Carlos Quinto para iludir esta intervenção da Santa Sé, a história conservou a memória de condenados aos quais este tribunal de apelação mandou restituir os bens e direitos civis. A história ensina-nos também que o mesmo tribunal salvou da infâmia e da confiscação os filhos de muitas vítimas.

“Leão X excomungou, em 1521, o inquisidor de Toledo, apesar das prostestações de Carlos Quinto. Queria mesmo reformar radicalmente a Inquisição da Espanha, submetendo-a aos bispos; mas Carlos Quinto o desviou desse intento com o espantalho de Lutero. Mais tarde o erudito escritor Virués, tendo sido condenado como suspeito de luteranismo, Paulo III declarou-o inocente e nomeou-o bispo das Canarias. O célebre latinista Marco-Antonio Muret, condenado à fogueira, foi acolhido em Roma, onde ensinou à juventude sob a proteção do papa” (2)

Por outro lado, os soberanos pontífices não pouparam as exprobações e censuras aos próprios grandes inquisidores, quando se afastavam da mansuetude. – Sixto IV, que só a custo consentira em dar a Bula da instituição da Inquisição da Espanha (1478) e ratificar a nomeação de Torquemada, censurou severamente, num breve de 29 de Janeiro de 1482, os inquisidores de Sevilha por causa de sua dureza. Alexandre IV, em 1494, ameaçou de destituição o grande inquisidor se não tivesse, no exercício de seu ministério, mais brandura evangélica e maior respeito pelas instruções pontifícias.

Deste modo, a Igreja, que não teve nenhuma parte nos regulamentos da Inquisição Espanhola, se esforçava por suavizar-lhe os rigores: excitava à indulgência os juízes por demais severos; tomava a defesa dos oprimidos. Longe de adotar como sua esta instituição da Espanha, repudiava-a energicamente: Paulo III e Pio IV – este último com o concurso de seu sobrinho são Carlos Borromou, - opuseram-se ao projeto de introdução da Inquisição Espanhola em Nápoles e Milão.

Deixe-se, portanto, de atribuir à Igreja o que não é obra dela. Esta observação de José de Maistre fica sempre verdadeira: “Quereis, diz ele, conhecer sobre este ponto essencial o verdadeiro espírito sacerdotal? Estudai-o nos países em que o sacerdote segurou o cetro, e onde o possui ainda. Circunstâncias extraordinárias tinham estabelecido na Alemanha uma multidão de principados eclesiásticos. Para julgá-los relativamente à Justiça e à brandura, bastaria lembrar o velho provérbio alemão: É agradável viver debaixo do báculo. Os provérbios são o fruto da experiência dos séculos e nunca se enganam. Apelo pois para este testemunho, corroborado, além disso, por aquele de todos os homens que têm juízo e memória.” (3)


(1)   Michelet, Précis de l’HIstoire Moderne, p. 50.
(2)   Llorente, Histoire critiqué de l’Inquisition d’Espagne.
(3)   Cartas a um fidalgo russo sobre a Inquisição.

Pe. Cauly, Curso de Instrução Religiosa, Apologética Cristã, Tomo IV, pp. 377-383.
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