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Respondendo ao Adventismo do Sétimo Dia


Tradução de Fábio Silvério

Há duas distintas reivindicações principais do Adventismo do Sétimo Dia que separam-no do resto do Cristianismo:

1. Primeiro, que os cristãos devem manter o Sábado, o Sabbath, santo. Eles se opõem ao culto no Domingo, argumentando que é contra os Dez Mandamentos e anti-escriturístico em geral.

2. Segundo, que a fundadora do Adventismo do Sétimo Dia, Ellen G. White, foi uma profetiza.

O site oficial dos Adventistas do Sétimo Dia declara:

Um dos dons do Espírito Santo é a profecia. Este dom é uma marca identificatória da igreja remanescente e foi manifestado no ministério de Ellen G. White. Como mensageira do Senhor, seus escritos são uma continuante e autorizada fonte de verdade que provê para a igreja conforto, orientação, instrução e correção.

Mas como nós logo veremos, White não era profetiza, e seus trabalhos estão cheios de erros. Vejamos dois de seus maiores argumentos sobre o Sabbath, ambos de seu supostamente-inspirado livro, O Grande Conflito.


I. Quando a Adoração no Domingo começou?

A primeira das idéias que eu quero considerar é a afirmação de White de que todos os cristãos primitivos mantiveram o verdadeiro Sabbath pelos primeiros séculos do Cristianismo:

Nos primeiros séculos o verdadeiro Sabbath foi mantido por todos os Cristãos. Eles eram zelosos pela honra de Deus, e, acreditando que Sua lei é imutável, eles zelosamente guardaram a sacralidade de seus preceitos.

(Ellen G. White, O Grande Conflito, p.52)

Então isso significa que, pelo menos, nós deveríamos ver cada singular cristão cultuando no Sábado por pelo menos dois séculos (já que "primeiros séculos" deve significar pelo menos dois). Agora leia o que São Justino Mártir escreveu em 150 A.D., em sua Primeira Apologia:

E no dia chamado do Sol, todos que vivem nas cidades ou no interior se juntam em um lugar, e as memórias dos apóstolos ou os escritos dos profetas são lidos, tanto quanto o tempo permite; depois, quando o leitor termina, o presidente instrui oralmente, e exorta à imitação destas dos coisas. Então nós todos nos levantamos juntos e rezamos, e, como dissemos antes, quando nossa oração termina, pão e vinho e água são trazidos, e o presidente de modo semelhante oferece orações e agradecimentos [a palavra grega aqui é Eucaristia], de acordo com sua habilidade, e as pessoas assentem, dizendo Amém; e há uma distribuição para cada um, e uma participação daqueles sobre os quais foram feitas ações de graças, e para aqueles que estão ausentes uma porção é enviada pelos diáconos. E aqueles que estão aptos, e querem, dão o que cada um julga cabível; e o que é coletado é depositado com o presidente, que socorre os órfãos e viúvas e aqueles que, por causa da doença ou qualquer outra causa, estão em falta, ou aqueles que estão presos e os estranheiros peregrinos em nosso meio, e em uma palavra cuida de todos os que precisam.
Mas Domingo é o dia em que nós todos temos nossa assembléia em comum, porque é o primeiro dia em que Deus, tendo agido nas trevas e matéria, fez o mundo; e Jesus Cristo nosso Salvador no mesmo dia ressurgiu dos mortos. Pois Ele foi crucificado no dia anterior ao de Saturno [que é o dia antes do Sábado]; e no dia depois do de Saturno, que é o dia do Sol, tendo aparecido aos Seus apóstolos e discípulos, Ele os ensinou estas coisas, que nós temos submetido a vocês também para sua consideração.

Então, bem, dentro dos primeiros séculos do Cristianismo, o culto no Domingo já era praticado. E note que Justino não descreve isto como alguma inovação. Ele está explicando a não cristãos como é a prática do cristão básico, e o culto no Domingo é já a normal para "todos" em 150. Para alguém que alega ser um profeta, White é incapaz de apresentar a verdade mesmo sobre este ponto básico do Sábado.

Surpreendentemente, estudiosos do Adventismo do Sétimo Dia admitem que ela está errada neste ponto. Dr. Samuele Bacchiocchi, talvez o maior estudioso adventista, escreveu:

Os primeiros documentos mencionando o Domingo como dia de culto recuam até Barnabé em 135 e Justino Mártir em 150. Assim, é evidente que o Domingo como dia de culto já estava estabelecido pelo meio do segundo século. Isto significa que para ser historicamente preciso o termo "séculos" deveria ser mudado para o singular "século". Esta simples correção aumentaria a credibilidade d'O Grande Conflito, porque é relativamente fácil defender a observância geral do Sabbath durante o primeiro século, mas é impossível fazer isto a partir do segundo século.

Em outros termos, as palavras da alegada profetiza são verdadeiras, desde que você mude as palavras. Isto soa como um modo educado de dizer que Ellen White é uma falsa profetiza.

Mas e quanto ao argumento de Bacchiocchi de que enquanto adoração no Domingo existia no segundo século, ela não existia no primeiro? Ele está fazendo um argumento de silêncio. É uma tática comum que eu tenho visto ser usada por protestantes na defesa de seus pontos de vista. Se você mostra que Inácio acreditava que a Eucaristia é o Corpo e o Sangue de Cristo em 107 A.D., eles responderão que a Igreja deve ter tomado isto de um modo simbólico até 106. É claro que este tipo de argumento é ridículo. Se você vai fazer um argumento de silêncio, o mais forte argumento é que nenhuma mudança na doutrina ou prática aconteceu - porque se uma mudança de doutrina tivesse acontecido, nós veríamos uma evidência disso. Se cristãos de repente (globalmente) começassem a fazer o culto no Domingo ao invés do Sábado, alguém não teria mencionado isto em algum lugar?


II. Quem mudou o Sábado para o Domingo?

O segundo argumento de White é que foi o imperador Constantino que mudou o dia de culto do Sábado para o Domingo. Isto está na p. 553 do livro que eu acabei de citar, O Grande Conflito:

Na primeira parte do quarto século, o Imperador Constantino assinou um decreto fazendo do Domingo um festival público em todo o Império Romano. O dia do sol foi reverenciado por seus súditos pagãos e foi honrado pelos Cristãos; isto foi uma política do imperador para unir os interesses conflitantes do paganismo e Cristianismo. Ele foi pressionado a isto pelos bispos da Igreja, os quais, inspirados pela ambição e sede de poder, perceberam que se o mesmo dia fosse observado por ambos cristãos e pagãos, isto promoveria a nominal aceitação do Cristianismo pelos pagãos e assim aumentaria o poder e a glória da Igreja.

Nós já sabemos que isto é falso: que os cristãos sempre fizeram o culto no Domingo muito antes de Constantino. Mas o que é interessante é que White teve uma segunda e contraditória profecia. Você vê, ela também disse que foi o grande, mau papa, não Constantino, que mudou a data do Sábado para o Domingo. Assim, por exemplo, em Primeiros Escritos de Ellen Gould White, nós lemos sua descrição de uma visão que ela afirma ter tido em 1850:

O papa mudou o dia de descanso do sábado para o primeiro dia. Ele pensou em mudar o próprio mandamento que foi dado para causar no homem a lembrança do Criador. Ele pensou em mudar o maior mandamento no decálogo e assim fazer a si mesmo igual a Deus, ou até exaltar-se acima de Deus.

Disto, ela entende que o papa é o Anticristo. Em uma visão anterior de 1847, ela diz:

Eu vi que o Sábado não foi cravado na cruz. Se fosse, os outros nove mandamentos teriam sido; e nós estaríamos em liberdade para ir adiante e quebrá-los todos, bem como quebrar o quarto. Eu vi que Deus não mudou o Sábado, pois Ele nunca muda. Mas o Papa mudou-o do sétimo para o primeiro dia da semana; pois ele estava para mudar os tempos e as leis.

É tentador dizer isto: ela claramente é uma falsa profetiza. Adventistas do Sétimo Dia acreditam que o Sabbath seja no Sábado por causa dos ensinos de White e suas profecias. Ambos são demonstravelmente falsos. Ela não tinha idéia do que a história do Sabbath de fato era, e contou do seu jeito. O que eu achei chocante é que, por outro lado, estudiosos Adventistas estão conscientes de que White estava errada tanto em seu trabalho de ensino quanto em suas profecias, e ainda assim eles fazem vista grossa. Este é Bacchiocchi de novo:

Surpreendentemente até alguns de nossos líderes evangelistas acreditam, na base das afirmações de Ellen White, que o Domingo começou a ser o dia de culto na primeira metade do quarto século quando os líderes da Igreja forçaram Constantino a promulgar em 321 a famosa Lei do Domingo.
Esta visão popular expôs nossa Igreja às mais indesejáveis críticas. Estudiosos não adventistas e líderes da Igreja como Dr. James Kennedy acusam nossa Igreja de ignorância crassa, por ensinar que o Domingo começou a ser observado no quarto século, quando há evidências históricas irrefutáveis que colocam sua origem dois séculos antes.
Eu gastei horas sem conta explicando ao Dr. James Kennedy e a professores que viram os recentes programas da NET satélite que esta visão popular adventista não reflete o ensino adventista. Nenhum estudioso adventista tem ensinado jamais ou escrito que a observância dominical começou no quarto século com Constantino. Uma compilação de provas é o simpósio O Sábado na Escritura e na História produzido por 22 estudiosos adventistas e publicado pela Review and Herald em 1982. Nenhum dos estudiosos adventistas que contribuíram para o simpósio sequer sugeriu que a observância dominical começou no quarto século.

Então, uma vez que eles examinaram as evidências, mesmo os especialistas adventistas percebem que os escritos de Ellen White são cheios de erros. Questão óbvia: se este é o caso, porque continuam adventistas?

A Igreja Adventista do Sétimo Dia inteira está desacreditada porque:

(a) declara Ellen White uma profetiza, quando ela claramente não o é;
(b) declara seus escritos uma fonte autorizada da verdade, quando eles claramente não o são; e
(c) continua, com sua missão distintiva, a celebrar o Sabbath no Sétimo Dia, Sábado. Mesmo o nome da igreja é baseado nessa missão, ainda que a missão esteja fundada numa história falsa, falsa profetiza, e em má exegese bíblica.

Não é como se White estivesse errada em apenas alguns detalhes menores. Ela erra nos fatos básicos do coração da doutrina dos Adventistas, e isto é óbvio. Já passou da hora dos Adventistas se desfazerem de Ellen White e voltaram para casa na ortodoxia do Cristianismo.

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Atualização: Checando o post de Brent Stubb em Constantine and the Catholic Church, ele cita Sto Inácio de Antioquia, escrevendo em cerca de 107-110, e que diz:

Se, todavia, aqueles que se converteram da antiga ordem de coisas e tomaram posse de uma nova esperança não mais observam o Sábado, mas, vivendo na observância do Dia do Senhor, no qual também a nossa vida se levantou novamente por Ele e por Sua morte - ao qual alguns negam, pelo mistério pelo qual nós obtivemos a Fé, e assim persistimos, para que nós possamos ser achados os discípulos de Jesus Cristo, nosso único Mestre - como nós poderemos ser capazes de viver separados d'Ele, cujos discípulos os profetas eles mesmos no Espírito esperaram por Ele como Seu Mestre?

Então na primeira década do segundo século, o Domingo já era o dia de assinalar que os Cristãos acreditavam em Jesus como o Messias, e em Sua Ressurreição. Então até o argumento de Bacchiocchi de que o culto cristão no sábado existiu pelos primeiros anos do Cristianismo é falso. E é incrivelmente improvável que esta prática fosse nova no tempo de Inácio. Desde que o Apóstolo João morreu cerca do ano 100 A.D., se poderia pensar que ele teria se pronunciado contra o culto no Domingo, se isto fosse verdadeiramente uma violação do Evangelho. Ao menos, é claro, que ele tivesse tomado uma parte massiva na conspiração de Constantino/Papa. É claro, nós também vemos a observância dominical em lugares como Atos 20,7, então não há razão para ver nisto qualquer outra origem que não a apostólica.

Atualização 2: Brock, nos comentários, cita a Didache, que foi provavelmente escrita do meio para o fim do primeiro século... isto é, ao mesmo tempo que o Novo Testamento. Isto fecha a questão na idéia de que os primeiros cristãos eram adoradores dominicais.

"Mas em todo Dia do Senhor reúnam-se juntos, e partam o pão, e dêem graças [Eucaristia] depois de terem confessado suas transgressões, para que o seu sacrifício seja puro. Mas não deixe ninguém que esteja em desacordo com o seu amigo vir junto com vocês até que eles estejam reconciliados, para que o seu sacrifício não seja profanado. Pois isto é o que falou o Senhor: em todo lugar e tempo ofereçam-me um sacrifício puro; pois eu sou um grande Rei, diz o Senhor, e meu nome é maravilhoso entre as nações."

Boa pegada, Brock! Eu poderia acrescentar que o trecho inteiro trata da necessidade da confissão, da Liturgia Eucarística sendo um Sacrifício, etc. - tudo incrivelmente Católico.

Dia da Expiação e Santuário Celestial


A Escritura nos diz que o santuário antigo foi feito segundo uma cópia celestial. Isto é dito no livro de Êxodo e também por Paulo Apóstolo, no livro dos Hebreus. A lógica também o atesta: a primeira aliança deve relacionar-se com a segunda analogicamente. Deus educa os homens progressivamente, o que indica que Ele teve adotar um método pedagógico. Este método consiste em ir dispondo a humanidade, a partir de atos exteriores e palpáveis, para realidades interiores e sutis. É por isso que é dito que a Antiga Lei foi gravada em pedras enquanto a nova será inscrita nos corações.

Esta relação entre o que é figura e o que é realização, entre símbolo e simbolizado, é chamada, na teologia, de tipologia. A figura é o tipo; o figurado é o antítipo. Pois bem, se o Santuário é um tipo, ele deve ter um antítipo, que é o Santuário Celestial, ou Céu. Os sacerdotes do antigo templo simbolizam o sacerdócio do Cristo. Os sacrifícios contínuos que ocorriam todos os dias eram símbolos do Sacrifício único de Cristo, etc.

Porém, além dos holocaustos diários, havia, uma vez ao ano, o grande Yom Kippur, Dia do Perdão ou da Purificação. Neste dia, uma série de ritos próprios acontecia e o próprio Santuário era purificado. Se isto acontecia enquanto tipo, qual o seu antítipo?

Paulo escreve:

"Se os meros símbolos das realidades celestes exigiam uma tal purificação, necessário se tornava que as realidades mesmas fossem purificadas por sacrifícios ainda superiores. Eis por que Cristo entrou, não em santuário feito por mãos de homens, que fosse apenas figura do santuário verdadeiro, mas no próprio céu, para agora se apresentar intercessor nosso ante a face de Deus." (Hb 9,23-24)

Este texto nos deixa em grande dificuldade, pois, aceitas as premissas e respeitada a lógica, a conclusão não nos parece fazer muito sentido. Veja:

O santuário terrestre simboliza o céu.
O santuário terrestre era purificado por sangue de animais. O santuário celeste é purificado por "sacrifícios superiores", isto é, o de Cristo.
Se o santuário terrestre precisava de purificação, ele tinha contraído algum tipo de impureza.
Se o santuário celeste precisava de purificação, ele também tinha contraído algum tipo de impureza.
Como conceber que o Céu tenha se contaminado?

Mesmo os adventistas sentem dificuldade de entender este texto, e eruditos dentre eles relutam mas terminam admitindo que o Céu de algum modo contraiu a nossa impureza. Como isto é possível, porém, é algo que os escapa, e a nós também.

De que jeito o santuário terrestre ficava impuro? Havia dois modos. Um dos vários tipos de sacrifício que existiam era o pelo pecado, conforme se vê em Lv 4.

Se o pecado fosse cometido pelo sacerdote, por um chefe ou por toda a assembléia, ele exigia que o sacerdote molhasse seus dedos no sangue da vítima e o aspergisse no véu do santuário por trás do qual ficava a Arca da Aliança. O animal morto substituía, no sacrifício, o pecador. Daí que seu sangue estivesse contaminado e precisasse ser derramado, pois, como diz São Paulo, "sem derramamento de sangue não há perdão". (Hb 9,22) Como o sangue contaminado era jogado no Santuário, este contraía a sua impureza, donde ser necessário que houvesse, depois, uma purificação do próprio santuário.

Outro modo de contaminação era o seguinte: quando era uma pessoa comum pecava e desejava fazer sacrifício por sua falta, ela levava um animal ao Santuário e o ofertava e imolava. O sacerdote punha então o sangue do animal sobre os cornos do altar dos holocaustos, derramando o resto ao pé do altar. (Cf Lv 4,27-30) Ora, este altar, embora estivesse fora dos dois lugares (O Santo e o Santíssimo), fazia parte do Santuário, pois se localizava no Pátio. Mas, além disso, os sacerdotes deveriam comer a vítima, como se lê no Cap. 6, v. 19: 

"O sacerdote que oferecer a vítima do sacrifício pelo pecado, comê-la-á em um lugar santo, a saber: no átrio da tenda de reunião."

Este trecho, porém, é ambíguo, pois afirma que é o sacerdote que oferece a vítima, dando a entender a possibilidade de ser um sacrifício restrito ao pecado do sacerdote. Quando uma pessoa oferecia uma vítima, ela mesma a imolava. (Cf Lv 4,29) Porém, no cap. 10, v. 16 em diante, Moisés reclama porque os filhos restantes de Arão, Eleazar e Itamar, não comeram de um boi imolado pelo pecado:

"Por que não comeste no lugar santo o sacrifício pelo pecado? Pois essa é uma coisa santíssima que o Senhor vos deu, a fim de que leveis a iniquidade da assembléia e façais a expiação por ela diante dele. Já que o sangue da vítima não foi trazido para dentro do tabernáculo, vós devíeis tê-la comido em um lugar santo como ordenei" (17-18)

Este trecho também é delicado. O versículo 18 dá a entender que o sangue deveria ter sido levado para dentro do tabernáculo, e o único rito em que isto ocorria era o da aspersão do sangue sobre o véu. Isto, contudo, somente acontecia com sacrifícios dos próprios sacerdotes, dos chefes ou por um pecado coletivo de toda a assembléia. Aqui mais uma vez fica-nos a impressão de que este sacrifício não é o do cidadão comum, mas o do sacerdócio.

Seja como for, é fato que, em alguns deles, o sacerdote comia a carne imolada e isto fazia com que ele levasse a iniquidade da assembléia e fizesse expiação por ela. Não nos fica claro, porém, como a contaminação do Sacerdote implique na contaminação do Santuário. Mas tal é dito pela Sra White:

"O sangue, representando a vida do pecador cuja culpa a vítima assumia, era levado pelo sacerdote ao Lugar Santo e borrifado diante do véu, atrás do qual estava a arca que continha a lei transgredida. Através dessa cerimônia, o pecado era, de maneira simbólica, transferido para o santuário. Em alguns casos o sangue não era levado para o Lugar Santo, mas a carne deveria ser comida pelo sacerdote. Ambas as cerimônias simbolizavam a transferência do pecado do arrependido para o santuário." (O grande conflito, p.195)

Avancemos. 

No dia da Expiação, que acontecia uma vez ao ano, no décimo dia do sétimo mês, como descrito no capitulo 16 de Levítico, o Sacerdote fazia vários ritos. Acompanhemos:

"Tomará um novilho para o sacrifício pelo pecado e um carneiro para o holocausto." (v.3)
"Revestir-se-á da túnica sagrada de linho, cingir-se-á dum cinto de linho e porá na cabeça um turbante de linho. Estas são as vestes sagradas, que ele só vestirá depois de se ter lavado. (v.4)
"Receberá da assembléia dos israelitas dois bodes destinados ao sacrifício pelo pecado e um carneiro para o holocausto." (v.5)
"Aarão oferecerá por si mesmo o touro em sacrifício pelo pecado, e fará a expiação por si mesmo e pela sua casa." (v.6)
"Tomará os dois bodes e os colocará diante do Senhor, à entrada da tenda de reunião." (v.7) 
"Deitará sortes sobre os dois bodes, uma para o Senhor, e outra para Azazel." (v.8)
"Oferecerá o bode sobre o qual caiu a sorte para o Senhor e oferecê-lo-á em sacrifício pelo pecado." (v.9)
"Quanto ao bode sobre o qual caiu a sorte para Azazel, será apresentado vivo ao Senhor, para que se faça a expiação sobre ele, a fim de enviá-lo a Azazel, no deserto." (v.10)
"Aarão degolará o touro destinado ao sacrifício pelo pecado e, tomando o turíbulo, que ele terá enchido de brasas do altar diante do Senhor, bem como dois punhados de perfume aromático em pó, entrará com tudo para dentro do véu." (v.11-12)
"Porá o incenso no fogo diante do Senhor, para que a nuvem do perfume cubra o propiciatório da arca, e Aarão não morra." (v. 13)
"Tomará o sangue do touro e o aspergirá com o dedo sobre o propiciatório, pela frente, e depois aspergirá com o dedo sete vezes defronte o propiciatório." (v. 14)
"Imolará, enfim, o bode do sacrifício pelo pecado do povo, e levará seu sangue para o outro lado do véu. Fará com esse sangue como fez com o sangue do touro, aspergindo o propiciatório e a frente do propiciatório. É assim que fará a expiação pelo santuário, por causa das impurezas dos israelitas e de suas transgressões, e de todos os seus pecados." (vs. 15-16a)

Aqui há um detalhe para o qual eu nunca havia atentado. Observando os versículos 14-16 notamos o seguinte: Aarão já leva o sangue do touro imolado antes (v.11). Quais as coisas que ele leva ao entrar no Lugar Santíssimo? O sangue e o turíbulo. Ele não leva animal. Depois de aspergir o sangue sobre o propiciatório da Arca no Lugar Santíssimo, ele deverá imolar o bode oferecido pelo pecado do povo. Porém: o bode não está lá. Está fora. Além do que seria totalmente inconveniente imolar um bode no Lugar Santíssimo. Portanto, ele tem de sair deste recinto, imolar o animal, e, em seguida, voltar. Veja que o versículo 15 diz que ele "levará seu sangue para o outro lado do véu", ou seja, o imolou do lado de cá, obviamente. Veremos que só isso já demonstra que a concepção adventista do tipo do santuário não se sustenta.

Continuemos.

"Da mesma forma fará pela tenda de reunião, que está com eles no meio de suas imundícies." (v. 16b)
"Ninguém esteja na tenda de reunião quando Aarão entrar para fazer a expiação no santuário até que saia. Fará assim a expiação por si mesmo, pela sua família e por toda a assembléia de Israel." (v. 17)
"Quando tiver saído, irá para o altar que está diante do Senhor e fará a expiação por esse altar: tomará o sangue do touro e do bode e o porá nos cornos do altar em toda a volta. Aspergirá com o dedo sete vezes o altar, para purificá-lo e santificá-lo por causa das imundícies dos israelitas." (v. 18-19)

Aqui estaria concluída a expiação do santuário, conforme diz o próximo versículo:

"Havendo terminado a expiação do santuário, da tenda de reunião e do altar, Aarão trará o bode vivo. Imporá as duas mãos sobre a sua cabeça, e confessará sobre ele todas as iniquidades dos israelitas, todas as suas desobediências, todos os seus pecados. Pô-los-á sobre a cabeça do bode e o enviará ao deserto pelas mãos de um homem encarregado disso." (v. 20-21)
"O bode levará, pois, sobre si, todas as iniquidades deles para uma terra selvagem." (v.22)

Vamos analisar algumas coisas.

Os adventistas aplicam tudo isso aí ao final dos tempos. Segundo eles, o ano de 1844 marca a entrada de Jesus no Lugar Santíssimo, onde estaria até agora. Porém, como vimos, o Sumo Sacerdote entrava duas vezes nesse lugar: quando levava o sangue do touro por si mesmo, e, depois, quando levava o sangue do touro oferecido pela assembléia. Assim, Jesus teria de ter entrado duas vezes. Uma objeção possível seria dizer que o Sumo Sacerdote necessitava fazê-lo por causa da sua impureza, uma vez que o primeiro sacrifício era oferecido por si mesmo e pela sua família. Jesus, porém, não tem pecados por si mesmo, donde a não necessidade de que faça isso duas vezes. Tudo bem, só que isto já prejudica um pouco a correspondência entre os dois ofícios. Outra coisa, o turíbulo com os perfumes é usado apenas na primeira vez em que o Sumo Sacerdote adentra no Lugar Santíssimo. Uma vez que o incenso geralmente representa as orações que sobem aos céus, isto bem poderia ser usado para simbolizar a intercessão de Jesus (cf. Hb 7,25), mas aí teríamos de manter a primeira entrada ou unir a incensação à expiação pelos pecados da assembléia. Enfim..

Quando Jesus sair do Santo dos Santos, Ele voltará à terra, para purificá-la. Isto supostamente poderia ser significado pela purificação da tenda da reunião, "que está com eles no meio de suas imundícies." (v.16b) A dificuldade é que, segundo o que se diz, não deve haver ninguém quando Ele fizer isso. O antítipo exigiria que todos estivessem mortos ou arrebatados. E mais: é dito que ninguém pode estar na tenda enquanto Aarão estiver fazendo "a expiação no santuário até que saia" (v.17), o que dificulta imensamente a adequação de uma coisa à outra, pois isto implicaria que desde 1844 ninguém mais estivesse na terra. Mas essa identificação da tenda do santuário com a terra quem está fazendo sou eu. Nunca vi nenhum trecho adventista que a defendesse. Apenas me pareceu dever fazê-lo, uma vez que a purificação no fim dos tempos é geral, e uma vez que o Dia da Expiação judeu simbolizaria esta purificação total, de modo que a terra teria de ser representada por algum tipo. Com efeito, sabe-se que para as religiões tradicionais - portanto, para o judaísmo -, o templo é uma representação de todo o cosmos. É por isso que Jesus associa a destruição do templo de Jerusalém com a destruição do mundo. Qual seria, então, o correspondente antitípico da tenda da reunião? Notemos que o Santuário somente estará purificado depois da purificação deste último lugar.

Se se quiser ver nesta tenda um símbolo de algum outro compartimento do céu, surge o problema de esta tenda estar no meio das imundícies das pessoas.

Uma vez tendo feito isso tudo é que Jesus voltaria. Se assim é, então a tenda da reunião - seja lá o que for o seu antítipo - é purificada antes da Parusia. 

Depois disso tudo, Aarão traz o bode vivo - aquele que foi sorteado para Azazel -, impõe as mãos sobre a cabeça dele e confessa todas as iniquidades dos israelitas. Um adendo: como Aarão poderia fazer isso se não as conhecesse? E como poderia conhecê-las se elas não lhes fossem contadas? Se isto procede, então é forçoso aceitar que a confissão  auricular dos pecados já existia.

Segundo o adventismo, este bode, que é enviado a Azazel, representa Satanás que no final dos tempos será responsabilizado pelos pecados de todo o universo e, em seguida, será afastado, irá para o deserto, símbolo da sua destruição. Uma dificuldade aqui é que o bode não é Azazel, mas é enviado para Azazel, que é uma entidade demoníaca que habitava no deserto. Se o bode representa Satanás, a conclusão é que Satanás é enviado a algum demônio, o que não parece fazer muito sentido.

Mas, enfim, depois dessas coisas, estaria iniciada a vida eterna para os fiéis de Deus.

Bem, pelo menos segundo o ensino da IASD. Contudo, o ministério de Aarão não acaba aí. Ele prossegue, e sem qualquer antítipo correspondente segundo o adventismo. Eles simplesmente não tratam disso. Vejamos:

"Quando o bode tiver sido mandado para o deserto, Aarão voltará para a tenda de reunião, tirará as vestes de linho que ele pôs à sua entrada no santuário, e as deporá ali." (v. 23)
"Lavará o seu corpo no lugar santo, retomará depois suas vestes e sairá para imolar o seu holocausto e o do povo, fazendo a expiação por ele e pelo povo." (v. 24)"Queimará no altar a gordura do sacrifício pelo pecado." (v. 25)

Como se vê, ainda há expiação depois de tudo isso. Esta expiação pós-purificação do Santuário não é explicada pela Profecia do Santuário. 

Por fim, vamos a mais algumas dificuldades. Os adventistas gostam de relacionar o livro de Levíticos com o de Hebreus. Esta relação de fato é real. Mas São Paulo não parece endossar o duplo ministério de Jesus pós-ressurreição. Vejamos alguns trechos:

"Depois de ter realizado a purificação dos pecados, está sentado à direita da Majestade no mais alto dos céus." (Hb 1,3)

Segundo Paulo, Jesus realizou a purificação total dos pecados na Cruz. Aí Ele completou a Sua obra expiatória, e está, já, sentado à direita de Deus "no mais alto dos céus."

"Temos, portanto, um grande Sumo-sacerdote que penetrou nos céus, Jesus, Filho de Deus." (Hb 4,14)

Por  chamar Jesus de "Sumo-sacerdote" e dizer que Ele "penetrou nos céus", Paulo estabelece uma comparação com a penetração do Sumo-Sacerdote no Lugar Santíssimo, pois entrar no Santo dos Santos era permitido a qualquer sacerdote e podia ocorrer todos os dias. No Lugar Santíssimo, porém, só o Sumo Sacerdote. Portanto, segundo Paulo, Jesus penetrou no Lugar Santíssimo depois da Sua ascensão.

"Esperança esta que seguramos qual âncora de nossa alma, firme e sólida, e que penetra até além do véu, no santuário, onde Jesus entrou por nós como precursor, Pontífice eterno, segundo a ordem de Melquisedec." (Hb 6,19-20)

Jesus entrou além do véu, no Santuário. Embora o Santuário tivesse dois véus, o que separava o Lugar Santíssimo do Lugar Santo, e o que separava este do Pátio, o véu mais "famoso" pela sua importância e por guardar o compartimento onde estava a Arca da Aliança, é o primeiro. Portanto, dizer que Jesus entrou além do véu é dizer que Ele foi ao Lugar Santíssimo, e isso desde o tempo de Paulo.

"Assim sendo, enquanto na primeira parte do tabernáculo entram continuamente os sacerdotes para desempenhar as funções, no segundo entra apenas o sumo-sacerdote, somente uma vez ao ano, e ainda levando consigo o sangue para oferecer pelos seus próprios pecados e pelos do povo. Com o que significava o Espírito Santo que o caminho do Santo dos Santos ainda não estava livre, enquanto subsistisse o primeiro tabernáculo." (Hb 9,6-8)

Aqui Paulo mostra que a necessidade de o sumo sacerdote adentrar no Lugar Santíssimo apenas uma vez ao ano mostra que "o caminho do Santo dos Santos ainda não estava livre." Se o verbo é usado no passado, significa que agora - no tempo de Paulo - ele está livre. Portanto, não é necessário mais que se dê este ministério específico do sumo-sacerdote.

"Porém, já veio Cristo, Sumo-sacerdote dos bens vindouros. E através de um tabernáculo mais excelente e mais perfeito, não construído por mãos humanas (isto é, não deste mundo), sem levar consigo o sangue de carneiros ou novilhos, mas com seu próprio sangue, entrou de uma vez por todas no santuário, adquirindo-nos uma redenção eterna." (Hb 9,11-12)

Paulo diz que Jesus, Sumo Sacerdote, entrou de uma vez por todas no santuário. Se houvesse, na época dele, mais algum compartimento celeste para entrada futura, Paulo não diria que Jesus entrou "de uma vez por todas."

"Enquanto todo sacerdote se ocupa diariamente com o seu ministério e repete inúmeras vezes os mesmos sacrifícios que, todavia, não conseguem apagar os pecados, Cristo ofereceu pelos pecados um único sacrifício e logo em seguida tomou lugar para sempre à direita de Deus." (Hb 10,11-12)

Aqui se diz que Nosso Senhor tomou lugar para sempre à direita de Deus, isto é, adentrou já de uma vez no Lugar Santíssimo depois da Sua ascensão. Está sentado. Embora interceda, não realiza um ministério de expiação restante.

Como se vê, Paulo não sugere que Jesus esteja realizando mais alguma coisa, agora. A expiação está completa, e isso desde a Cruz. Mas, ainda que assim não fosse, não haveria razão de ser para que o antítipo do Dia da Expiação tivesse começado em 1844 e ainda não tivesse terminado.

Livro de Daniel: a profanação do Santuário, a aliança com muitos e a cessação do sacrifício


Deve fazer um mês e pouco, eu comecei a escrever uns artigos sobre a doutrina adventista da Profecia do Santuário, que é um tema difícil e sofisticado. Quaisquer eventuais erros nessa questão só poderão ser identificados com um estudo detido, atento às sutilezas. 

Como já dito, o trecho central da profecia se encontra no livro de Daniel, cap. 8. Nele se fala de um pequeno chifre em um bode. Cito o texto a partir do versículo 9:

"De um deles [de quatro chifres anteriores] saiu um pequeno chifre que se desenvolveu consideravelmente para o sul, para o oriente e para a jóia (dos países). Cresceu até alcançar os astros do céu, do qual fez cair por terra diversas estrelas e as calcou aos pés. Cresceu até o chefe desse exército de astros, cujo (holocausto) perpétuo aboliu e cujo santuário destruiu, junto com o exército; sobre o sacrifício ele pôs a iniquidade; a verdade foi lançada à terra. O pequeno chifre teve êxito na sua empreitada.

Ouvi um santo que falava, a quem outro santo respondeu: 'quanto tempo durará o anunciado pela visão a respeito do holocausto perpétuo, da infidelidade destruidora, e do abandono do santuário e do exército calcado aos pés?' Respondeu: 'duas mil e trezentas noites e manhãs. Depois disso o santuário será restabelecido.'" (Dn 8,9-14)

Depois disso, Gabriel vem a Daniel para explicar a visão. Claro que, quando vemos essas coisas pela primeira vez, tudo nos parece muito esquisito. O próprio Daniel ficou doente por não ter compreendido. Então imagina o que acontece conosco, totalmente alheios? Por isso, eu decidi ler o livro inteiro, e aí muita coisa foi ficando mais clara. Algumas afirmações feitas aqui completarão de modo muito feliz aquilo que foi escrito no outro texto. Embora essas simbologias sejam de fato difíceis, ao ler o livro inteiro fica-nos a impressão de um padrão que é seguido. O simbolismo usado começa a fazer maior sentido.

Então, vejamos só: o pequeno chifre referido guerreia contra um monte de coisas. Seria importante saber de quem se trata e quem são esses contra os quais ele guerreia.

Antes, porém, vejamos o próximo texto que é fundamental para a Profecia adventista:

"Setenta semanas foram fixadas a teu povo e à tua cidade santa para dar fim à prevaricação, selar os pecados e expiar a iniquidade, para instaurar uma justiça eterna, encerrar a visão e a profecia e ungir o Santo dos Santos. Sabe, pois, e compreende isto: desde a declaração do decreto sobre a restauração de Jerusalém até um chefe ungido, haverá sete semanas e sessenta e duas semanas; ressurgirá, será reconstruída com praças e muralhas. Nos tempos de aflição, depois dessas sessenta e duas semanas, um ungido será suprimido, e ninguém (será) a favor dele. A cidade e o santuário serão destruídos pelo povo de um chefe que virá. Seu fim (chegará) com uma invasão, e até o fim haverá guerra e devastação decretada. Concluirá com muitos uma sólida aliança por uma semana e no meio da semana fará cessar o sacrifício e a oblação; sobre a asa das abominações virá o devastador, até que a ruína decretada caia sobre o devastado." (Dn 9,24-27)

Vamos por parte. Tentemos esclarecer o significado de alguns desses símbolos.

Do primeiro texto:

O chifre pequeno é Antíoco IV, chamado Epífanes. O próprio livro falará dele no capítulo 11, mostrando como é dele que se tratam as duas profecias citadas. A bíblia diz que ele cresceu sobre a "jóia dos países". Trata-se da Palestina, pois esta expressão é usada para referir-se a ela, conforme se vê em Ez 20,6.

"Cresceu até os astros do céu, do qual fez cair diversas estrelas e calcou aos pés." Estes astros são o próprio povo de Deus, conforme nos diz o cap. 12,3, ou ainda Mt 13,43. De fato, Antíoco massacrou vários habitantes da Palestina, conforme vemos no cap. 11,33-35: "durante algum tempo, perecerão pela espada, fogo, cativeiro e pilhagem. Enquanto forem caindo dessa maneira, serão um tanto amparados; e um bom número unir-se-á hipocritamente a eles. Muitos desses sábios sucumbirão, a fim de que sejam provados, purificados e branqueados até o termo final."

"Cresceu até o chefe deste exército de astros, cujo perpétuo aboliu e cujo santuário destruiu." Este chefe do exército de astros se refere ao próprio Deus, "dono" dos sacrifícios e do santuário. De novo, Antíoco não só invadiu o Santuário como aboliu os Sacrifícios, conforme se verifica no livro de 1 Macabeus. 

"Após ter derrotado o Egito, pelo ano cento e quarenta e três, regressou Antíoco e atacou Israel, subindo a Jerusalém, com um forte exército. Penetrou cheio de orgulho no santuário, tomou o altar de ouro, o candelabro das luzes com todos os seus pertences, a mesa da proposição, os vasos, as alfaias, os turíbulos de ouro, o véu, as coroas, os ornamentos de ouro da fachada, e arrancou as embutiduras. Tomou a prata, o ouro, os vasos preciosos e os tesouros ocultos que encontrou. Arrebatando tudo consigo, regresso à sua terra após massacrar muitos judeus e pronunciar palavras injuriosas." (1Mc 1,20-24)

"Por intermédio de mensageiros, o rei enviou a Jerusalém e às cidades de Judá, cartas prescrevendo que aceitassem os costumes dos outros povos da terra, suspendessem os holocaustos, os sacrifícios e as libações no templo, violassem os sábados e as festas, profanassem o santuário e os santos, erigissem altares, templos e ídolos, sacrificassem porcos e animais imundos, deixassem seus filhos incircuncidados e maculassem suas almas com toda sorte de impurezas e abominações, de maneira a obrigarem-nos a esquecer a lei e a transgredir as prescrições. todo aquele que não obedecesse à ordem do rei, devia ser morto."  (Mc 1,44-50)

"Sobre o sacrifício ele pôs a iniquidade" - Este trecho é explicado em Dn 11,31 que, a respeito de Antíoco, diz: "tropas sob sua ordem virão profanar o santuário, a fortaleza..."

De novo, o livro de Macabeus descreve:

"No dia quinze do mês de Casleu, do ano cento e quarenta e cinco, edificaram a abominação da desolação por sobre o altar e construíram altares em todas as cidades circunvizinhas de Judá. (...) E, no dia vinte e cinco do mês, sacrificavam no altar, que sobressaía ao altar do templo" (1 Mc 1,54-55;59)

A iniquidade se refere tanto à proibição que Antíoco estabeleceu aos Sacrifícios diários - perseguindo e matando os judeus que não se submetessem à inovações - quanto à profanação dos objetos sagrados e à entronização de ídolos no Santuário, conforme se vê no supracitado.

"A verdade foi lançada à terra" - isto se nota por toda a política de helenização de Antíoco e pela adesão de grande parte dos judeus, que preferiam assistir os esportes ao invés de ocupar-se com as coisas da religião. Os versículos 36-37 dizem sobre Antioco: "O rei fará então tudo o que desejar. Ensoberbecer-se-á, elevar-se-á no seu orgulho acima de qualquer divindade; proferirá até coisas inauditas contra o Deus dos deuses; prosperará até que a cólera divina tenha chegado ao seu termo, porque o que está decretado deverá ser executado."

O livro de Macabeus traz o seguinte:

"Rasgavam e queimavam todos os livros da lei que achavam; em toda parte, todo aquele, em poder do qual se achava um livro do Testamento, ou todo aquele que mostrasse gosto pela lei, morreria por ordem do rei." (Mc 1,56-58)

Daí, um dos santos - provavelmente um anjo - pergunta a outro: "quanto durará o anunciado pela visão a respeito do holocausto perpétuo, da infidelidade destruidora, e do abandono do santuário e do exército calcado aos pés?" Sobre o exército, diz o versículo 41 do cap 11: "Invadirá o país que é a jóia da terra, onde muitos homens cairão." O livro de Macabeus diz: "Serviram de cilada para o templo, e um inimigo constantemente incitado contra o povo de Israel, derramando sangue inocente ao redor do templo e profanando o santuário." Veja como a pergunta do anjo fica clara. O segundo anjo então responde: "duas mil e trezentas tardes e manhãs. Depois disso o santuário será restabelecido."

Como se vê, yoda esta invasiva de Antíoco está bem descrita no primeiro livro de Macabeus. Em 1 Mc 1,54, conforme já citado, se lê: 

"No dia quinze do mês de Casleu, do ano centa e quarenta e cinco, edificaram a abominação da desolação por sobre o altar e construíram altares em todas as cidades circunvizinhas de Judá."

Vamos fixar as datas: 15 do mês de Casleu do ano 145. 

O mesmo livro conta quando o sacrifício voltará a ser oferecido. No cap. 4, 52-53, vemos: 

"No dia vinte e cinco do nono mês, isto é, do mês de Casleu, do ano cento e quarenta e oito, eles se levantaram muito cedo, e ofereceram um sacrifício legal sobre o novo altar dos holocaustos, que haviam construído."

15 de Casleu de 145 - santuário profanado.
25 de Casleu de 148 - holocausto volta a ser oferecido. Vamos calcular..

Temos aí basicamente três anos exatos. Um ano possui 12 meses. Um mês bíblico equivale a 30 dias.

12 x 30 = 360 
1 ano = 360 dias

360 x 3 = 1080 
1080 + 14 dias - 1094 dias

O tempo que o Santuário ficou sem sacrifícios, portanto, foi de 1094 dias. Este é um cálculo aproximado, mas nada exato, da compreensão das 2.300 tardes e manhãs entendidas como 2.300 sacrifícios, o que equivaleria, já que eram dois sacrifícios diários, a 1150 dias, faltando portanto 56 dias para a correspondência exata. Só que há um porém: o calendário judaico era "lunissolar", baseado nas fases da lua, mas tendo de se adaptar ao ciclo solar. Além dos anos comuns - de doze meses -, há no judaísmo os chamados "anos embolísticos", nos quais se acresce mais um mês aos doze anteriores. Este mês é chamado Veadar ou Adar II, e soma um total de 13 meses. Estes meses acontecem nos anos 3º, 6º, 8º, 11º, 14º, 17º e 19º.

Como temos três anos, há que se acrescer um mês de 29 dias no último ano, pelo que teríamos 1123 dias, o que é, convenhamos, uma data já aproximada de 1150, faltando um todo de 27 dias, pouco menos de um mês. Os que porventura estranharem essas imprecisões, considerem o que é dito em Jr 25,11-12: "Converter-se-á esta terra em angústia e solidão, e por setenta anos lhe há de perdurar a servidão ao rei de Babilônia." Porém, na realidade, o cativeiro na Babilônia durou 65 anos, indo de 604 a 539 a.C. É verdade que a diferença é bem menor, mas há que se convir que a duração do tempo da profecia também é menor, e, sobretudo, que de fato temos uma imprecisão, o que dificulta um cálculo exato, permitindo apenas uma idéia aproximada. Com isso queremos dizer que a interpretação de 2.300 tardes e manhãs como sendo 2.300 anos é falsa? Não. Estamos somente vendo as possibilidades. Provaremos isto em outro artigo.

Prossigamos.

Segundo texto:

Quero analisar os seguintes trechos:

Nos tempos de aflição, depois dessas sessenta e duas semanas, um ungido será suprimido, e ninguém (será) a favor dele. A cidade e o santuário serão destruídos pelo povo de um chefe que virá. Seu fim (chegará) com uma invasão, e até o fim haverá guerra e devastação decretada. Concluirá com muitos uma sólida aliança por uma semana e no meio da semana fará cessar o sacrifício e a oblação; sobre a asa das abominações virá o devastador, até que a ruína decretada caia sobre o devastado." (Dn 9,24-27)

Um ungido será suprimido - de fato, trata de Nosso Senhor, cujo título "Cristo" significa exatamente "Ungido". Mas também simboliza o Sacerdote Onias III, assassinado em Antioquia no ano 171 a.C. (Cf. 2Mc 4,30-38)

A cidade e o santuário serão destruídos pelo povo de um chefe que virá. - Trata-se, historicamente, de Antíoco Epifânio, antes de Cristo, e/ou do imperador Tito, que o realizou no ano 7 d.C.

Concluirá com muitos uma sólida aliança por uma semana e no meio da semana fará cessar o sacrifício e a oblação - este trecho aqui é fonte de controvérsias. Os adventistas afirmam que ele se refere a Jesus estabelecendo a Nova e Eterna aliança. Porém, nós entendemos que, uma vez que, segundo o texto, o Ungido já havia morrido, este trecho se refere ao invasor do templo. Isto é reforçado pelo fato de este personagem fazer cessar o sacrifício no meio da semana, o que equivaleria ao terceiro dia e meio, faltando ainda três dias e meio para que se completassem as 70 semanas. Três dias e meio, transmutando em dias de anos, ficariam 3 anos e meio, o que equivaleria a 1260 dias que é sempre uma data que se refere à dominação do povo de Deus pelos inimigos. (Cf Dn 7,25; 12,7; Apo 12,6; 13,5. 

Isso tudo ainda é reforçado pelo próprio livro de Daniel que usa as mesmas expressões para se referir ao profanador: "Dirigirá novamente sua fúria contra a santa aliança, tomará medidas contra ela, fazendo um pacto com aqueles que a abandonarem." (Dn 11,30) 

Note o paralelo: 

"Concluirá com muitos uma sólida aliança por uma semana" (Dn 9,27)
"Fazendo um pacto com aqueles que a abandonarem." (Dn 11,30)
"Submeterá, com suas lisonjas, os violadores da aliança" (Dn 11,32)
"Os que o reconhecerem - ao profanador -, multiplicará as honras, conferir-lhes-á autoridade sobre numerosos vassalos e distribuir-lhes-á terras em recompensa." (Dn 11,39)

Não parecem referirem-se todos estes textos à mesma coisa? Com efeito, todos eles falam de aliança, ou pacto. E o que dizer dos trechos seguintes?

"No meio da semana fará cessar o sacrifício e a oblação" (Dn 9,27)
"Seu coração meditará o mal contra a santa aliança; cometê-lo-á..." (Dn 11,28)
"Farão cessar o holocausto perpétuo" (Dn 11,31)

Se o segundo e o terceiro textos se referem obviamente ao profanador e às suas tropas, por que o primeiro iria se referir a Jesus? Todos eles seguem o mesmo padrão. Estão falando da mesma coisa. Notem ainda as semelhanças nos trechos sublinhados: "fará cessar", "farão cessar".

Por fim, enquanto Dn 9,27 termina dizendo que "sobre a asa da abominação virá o devastador, até que a ruína decretada caia sobre o devastado", Dn 11,31 diz: "instalarão a abominação do devastador" e o v. 36: "porque o que está decretado deverá ser executado."

O leitor note bem: esses paralelos são o argumento mais forte deste texto. Eles provam claramente que o personagem indicado em Dn 9,27 não é Jesus, mas o profanador.

E aí surge outra pergunta no texto. Daniel questiona um homem, provavelmente Jesus, que lhe aparece: "Meu senhor, qual será a conclusão disso tudo?" O contexto é o mesmo que a pergunta do primeiro santo ao segundo. Ele então lhe responde: "Desde o tempo em que for suprimido o holocausto perpétuo e quando for estabelecida a abominação do devastador, transcorrerão mil duzentos e noventa dias." Aqui teríamos duas referências:

O atentado de Antíoco Epifânio ao Santuário no ano 145 a.C. - + 1290, chegaríamos ao ano 1145.
A invasão de Jerusalém por Tito, no ano 70 d.C. - + 1290, chegaríamos ao ano 1360.

Aconteceu algo importante em 1145? Eleição do Papa Eugênio III e a bula Quantum prædecessores convocando a Segunda Cruzada. Nada, porém, que lembre nem de longe o fim de alguma perseguição. Veja aqui.

Aconteceu algo importante em 1360? Guerra dos cem anos, Pedro I de Portugal casou com Inês de Castro, Maomé IV mata o cunhado e se torna o 10º rei de Granada, o condado de Anjou torna-se um ducado, nasceu um monte de gente, morreu um monte de gente... e nada que se assemelhe ao dito. Veja aqui.

Agora, lembramos que esta data de 1290 dias aparece no mesmo contexto que as 2.300 tardes e manhãs. Porém, os 1290 dias não podem marcar o fim, pois é dito logo em seguida, no versículo 12, que "feliz quem esperar e alcançar mil trezentos e trinta e cinco dias!", ou seja, depois dos 1290 dias, feliz quem ainda esperar mais 45 dias.

Como se vê há três datas: 2300 ou 1150, 1290, 1335. Por que escolher uma dessas datas ao invés das outras?

A única conclusão disso tudo é que é tudo muito confuso. É mais fácil dizer o que não é do que o que é. E o que não é eu creio que dissemos seguramente: o personagem de Dn 9,27 não é Jesus.

Ainda sobre o Inferno: símbolo do fogo e trevas exteriores


Depois de ter devidamente provado que a própria Bíblia atesta a existência do inferno, vejamos agora mais uma conveniência bíblica de que o inferno seja real.

No texto passado, vimos como o destino eterno dos condenados é referido como "lago de fogo sulfuroso". Outra expressão que sugere uma idéia similar é "Geena" (Mt 5,22,29). Na verdade, este era um lugar físico, fora de Jerusalém, onde eram jogados os lixos, animais mortos, e, depois,  eram incinerados. É obviamente uma comparação que Jesus faz. Os negadores do inferno creem que a analogia se deve ao fato dos corpos físicos - objetos e animais - serem destruídos. Nós, ao contrário, cremos que Jesus utiliza esta figura para simbolizar o estado contínuo do inferno, não no que se refere à destruição, mas à chama.

E aqui fazemos um parêntese: embora haja de fato teólogos e santos que afirmam haver fogo literal no inferno, crer nisto não é essencial à Fé Católica. Não há consenso entre os teólogos a respeito da natureza do inferno, e as revelações dos santos que supostamente visitaram-no se enquadram no campo das revelações particulares que não obrigam a crença individual.

Além disso, quando consideramos o modo como o ser humano conhece, vemos que é complicado que uma pessoa veja sensivelmente realidades espirituais não sensíveis. Expliquemos: o ser humano é um composto substancial de corpo e alma. A alma possui inteligência e vontade, mas opera través da substância material, que são os órgãos físicos e os sentidos. Assim, a fim de inteligirmos algo, é necessário que o processo se inicie nos sentidos que apreendem as "espécies sensíveis" ou "imagens" dos entes corporais; em seguida, estas espécies são encaminhadas à imaginação e retidas pela memória. Até aí elas continuam sendo realidades singulares, isto é, individuais. Isto significa que tudo quanto temos na imaginação são realidades físicas. Mesmo que juntemos espécies sensíveis distintas compondo entes inexistentes, ainda assim estes entes terão uma figura física. Pois bem: desta matéria prima captada pelos sentidos e depositada na imaginação, a inteligência, agora uma faculdade espiritual, retira, num processo chamado "abstração", as "espécies inteligíveis", os dados universais que estavam "vestidos" pelos traços individuantes. É destes traços universais que virá o conceito ou definição das coisas. Isto significa que o ente humano não pode conhecer, por si mesmo, seres que não sejam materiais, a não ser por comparação com os entes físicos. Desse modo, há um claro limite cognoscitivo, o que faz com que Deus, querendo revelar ao homem realidades suprassensíveis, tenha de as adaptar ao conhecimento sensível humano. Assim, mesmo as visões dos santos e místicos deve necessariamente ter um caráter analógico. O que se conclui disso? Que não é possível dizer, a princípio, que no inferno exista fogo literal.

Agora, o fogo visto pode ter - e tem - um caráter simbólico. Mesmo um fogo literal cumpriria uma função: a submissão de um ente inteligente e espiritual a um elemento material e irracional, o que seria um remédio perpétuo para o orgulho humano. Além disso, o fogo pode meramente simbolizar a inquietude e o sofrimento que, no inferno, são contínuos. O escritor Joseph Pieper dizia que no inferno não há nem silêncio nem música, mas só barulho, isto é, não há a quietude da cessação nem a ordem da harmonia, mas apenas a agitação contínua e ruidosa, perpetuação das desordens da paixão que dominaram a pessoa em vida, efeito da animalidade à qual se submeteu durante sua estadia na terra.

O fogo, segundo o simbolismo antigo e medieval, também é composto de duas características: é seco e é quente. A sequidão é o princípio da fixidez, da não fluidez. O quente é o princípio da fragmentação, da não coesão. O fogo, portanto, poderia simbolizar a dureza dos entes fragmentados, isto é, que não alcançaram a sua coesão interior, e que permanecem nesta condição, o que significa que os condenados manifestariam uma espécie de personificação do estado de guerra. Nada mais adequado, portanto, que o fogo para servir-lhes de símbolo.

Contudo, nem sempre o inferno é referido, na Bíblia, como um lugar de fogo. Com efeito, lemos em 2Pe 2,4 o que segue:

"Pois se Deus não poupou os anjos que pecaram, mas os precipitou nos abismos tenebrosos do inferno onde os reserva para o julgamento..."

Aqui o inferno aparece como "abismos tenebrosos", isto é, lugar onde habitam as trevas. Inferno, aí, tem o sentido de "lugar inferior" em oposição ao "lugar superior", o Céu. Como, porém, o Céu não é uma realidade material e, portanto, é não-espacial, também o "lugar inferior" ou "inferno" pode ser o símbolo de um estado inferior contrário ao celeste, e não exatamente um lugar. A Escritura diz que o demônio, depois do pecado, foi enviado à terra. Se se quiser tomar "inferno" como lugar literal, então talvez tivéssemos de fazer a identificação entre a terra e o inferno. Estariam corretos os que dizem que "o inferno é aqui", hehe.. A coisa complica ainda mais se considerarmos que Paulo, referindo-se a estes que foram precipitados "nos abismos tenebrosos do inferno", habitam nos ares (Ef 6,12). Além disso, qualquer protestante tende a aceitar que os demônios têm liberdade suficiente para tentar os cristãos, o que indica que os abismos onde estão precipitados não é exatamente um lugar.

O Inferno é, portanto, o contrário da beatitude celestial, isto é, um estado de alma. Do mesmo modo, as trevas do inferno são o oposto da luz divina. O que se nota, porém, é que, embora estejam reservados para um futuro julgamento, os anjos decaídos - que chamamos "demônios - habitam desde já nestes estados, o que significa que estas trevas não são um símbolo da sua destruição.

Porém, o próprio Jesus usa o exemplo das trevas para simbolizar o castigo dos proscritos depois do julgamento. Vamos ver?

"Por isso, eu vos declaro que multidões virão do Oriente e do Ocidente e se assentarão no Reino dos céus com Abraão, Isaac e Jacó, enquanto os filhos do Reino serão lançados nas trevas exteriores, onde haverá choro e ranger de dentes." (Mt 8,11-12)

Quando Jesus conta a parábola da festa das bodas do filho do Rei, inclui um personagem que está sem a veste nupcial. Qual será o destino deste sujeito?

"Amarrai-lhe os pés e as mãos e lançai-o nas trevas exteriores. Ali haverá choro e ranger de dentes." (Mt 22,13)

Falando do servo mau e preguiçoso que enterrou o talento ao invés de tê-lo ao menos colocado no banco para correr juros, Jesus, referindo-se à Sua volta, diz:

"E a esse servo inútil, jogai-o nas trevas exteriores; ali haverá choro e ranger de dentes." (Mt 25,30)

Eu estou pegando de propósito somente trechos de Mateus, pois se citasse autores diferentes alguém poderia objetar a diferença de estilos e de símbolos. Mas se é só um autor, fica evidente a intenção dele.

Notem que os trechos acima sempre relacionam o "choro e ranger de dentes" às "trevas exteriores". Agora, observem a seguinte relação:

"O Filho do homem enviará seus anjos, que retirarão de seu Reino todos os escândalos e todos os que fazem o mal e os lançarão na fornalha ardente, onde haverá choro e ranger de dentes." (Mt 13, 41-42)

"Assim será no fim do mundo: os anjos virão separar os maus do meio dos justos e os arrojarão na fornalha, onde haverá choro e ranger de dentes." (Mt 13,49-50)

O que é que se nota aí? Mateus faz uma relação evidente entre "trevas exteriores" e "choro e ranger de dentes". Depois, ele faz o mesmo com "fornalha ardente" e "choro e ranger de dentes", o que indica que "trevas exteriores" e "fornalha ardente" sejam a mesma coisa. Obviamente que a idéia de "trevas exteriores" não sugere destruição.

Como vimos na afirmação de Pedro, as "trevas exteriores" ou "lugares tenebrosos", ou, ainda, "profundezas das trevas" (2Pe 2,17), onde estão os demônios desde já, não simbolizam a destruição literal. Logo, a "fornalha ardente" tampouco a simboliza.

Daqui surge naturalmente a questão: se os demônios já esperam no lugar tenebroso pelo julgamento, o que mudará ao serem julgados se se está dizendo que eles permanecerão neste lugar?

Antes, porém, de respondê-la, notemos o seguinte: Jesus, em Jo 16,11, afirma que o juízo, do qual o Espírito Santo nos convencerá, é o de que o "príncipe deste mundo", isto é, o demônio, "já está julgado e condenado".

Se já está julgado e condenado porque haveria um julgamento também dos demônios no fim dos tempos? Será que o texto quer dizer que apenas Lúcifer já está julgado e condenado e que os demais demônios podem ser ainda inocentados? Obviamente que não. Isto indica que o Juízo Final é um juízo de confirmação e de exposição das obras de cada pessoa - humana ou angélica - a fim de, depois, determinar-lhe justa punição. Os demônios, nesta ocasião, perdem todo o poder de causar mal aos outros, sendo, dentre todos, os que mais sofrerão. Do mesmo modo, os ressurretos para a perdição terão acrescido, pelo fato de estarem agora com seus corpos, o sofrimento de que padecerão pela eternidade.

Uma defesa bíblica do Inferno


A grande maioria dos cristãos entende que o Inferno é real e é eterno. A sua natureza é que é objeto de controvérsia: alguns dizem que é lugar, outros que é estado de alma, outros ainda que é um estado de alma num lugar. Discute-se também se o fogo é literal, ou se é apenas um símbolo, ou se é ambos, etc. Mas há também aqueles que negam que ele exista. Dentre estes, estão os Adventistas e os Testemunhas de Jeová, que o entendem como um símbolo da destruição ou segunda morte da pessoa no fim dos tempos. Esta destruição implicaria a cessação da consciência. Assim, a negação do inferno exige a visão mortalista da alma, enquanto que a sua afirmação, sendo ele uma realidade eterna, pressupõe a crença na imortalidade da alma.

Um dos trechos favoritos dos negadores do inferno se encontra em Mac 3,19 (em algumas versões 4,1), que diz:

"Porque eis que vem o dia, ardente como uma fornalha. E todos os soberbos, todos os que cometem o mal serão como a palha; este dia que vai vir os queimará - diz o Senhor dos exércitos - e nada ficará; nem raiz, nem ramos." 

E há ainda outras várias passagens bíblicas que sugerem a um mortalista o fim da existência dos condenados: Isa 47,14, Pr 10,25; Sl 37,22; Sl 37,9-10, 20, 38; Sl 145,20; etc.

Mas também há os vários trechos que falam de uma punição que perdura eternamente. Dentre eles:

"Se a tua mão for para ti ocasião de queda, corta-a; melhor te é entrar na vida aleijado do que, tendo duas mãos, ires para a geena, para o fogo inextinguível, onde o seu verme não morre e o fogo não se apaga." (Mc 9,43-44)

Mais alguns: Mat. 18:8, Mat. 3:12, Apo. 14:11, Mt. 25:41, Mc. 9:43, Apo 19:3, Jd. 1:7, Lc. 3:17, etc.

Bem, como se vê, a questão é espinhosa, e tanto os textos pró-inferno quanto os contra são, em geral, convincentes. Para resolver o impasse de vez, teríamos de abordar a questão da imortalidade da alma, o que por ora não dá pra fazer, pois este é um tema gigantesco - mas de que ainda iremos tratar detidamente aqui.

Porém há uma combinação de trechos bíblicos que, na primeira vez em que a vi, considerei suficiente para afastar a tese do mortalismo. Ele está no livro do Apocalipse. Acompanhemos:

No capítulo 19, versículo 19 em diante, lemos:

"Eu vi a Fera e os reis da terra com os seus exércitos reunidos para fazer guerra ao Cavaleiro e ao seu exército. Mas a Fera foi presa, e com ela o falso profeta, que realizara prodígios sob o seu controle, com os quais seduzira aqueles que tinham recebido o sinal da Fera e se tinham prostrado diante de sua imagem. Ambos foram lançados vivos no lago de fogo sulfuroso." 

Este lago sulfuroso seria supostamente a destruição última e total de todos os que são lançados lá. Contudo, acompanhemos. No capítulo 20, um anjo desce do céu com a chave do abismo e aprisiona o Dragão, "a primitiva Serpente". Esta prisão dura mil anos, conforme se lê no versículo 2 e 3. Pois bem: mil anos! Atente nisso.

Depois de passar todo esse tempo, chega a hora de o demônio ser solto "por um pouco de tempo", para seduzir as nações dos quatro cantos da terra. É então que ocorre o que lemos a seguir:

"Mas desceu um fogo dos céus e as devorou. O Demônio, sedutor delas, foi lançado num lago de fogo e de enxofre, onde já estavam a Fera e o falso profeta, e onde serão atormentados, dia e noite, pelos séculos dos séculos." (20, 9-10)

Como, depois de mil anos, a Fera e o falso profeta ainda estavam lá? Mas nem que fosse com uma estrelinha de São João! Imagina sendo um "lago de fogo sulfuroso"?

Será um problema de tradução? Vamos à Bíblia de Jerusalém:

"O Diabo que os seduzira foi então lançado no lago de fogo e de enxofre, onde já se achavam a Besta e o falso profeta."

A versão Almeida Corrigida e Revisada Fiel complica ainda mais a vida dos mortalistas:

"E o diabo, que os enganava, foi lançado no lago de fogo e enxofre, onde estão a besta e o falso profeta; e de dia e de noite serão atormentados para todo o sempre."

Além do problema do trecho grifado, o que fazer com a afirmação exatamente subsequente?

"E de dia e de noite serão atormentados para todo o sempre" ou "pelos séculos dos séculos"

O termo utilizado "de dia e de noite" sugere claramente a continuidade do sofrimento, e este, em consonância com o que Nosso Senhor mesmo falou, não tem fim: é contínuo choro e ranger de dentes, pelos séculos dos séculos.

Adventismo: O Juízo Investigativo



A Igreja Adventista do Sétimo Dia - IASD afirma a existência de um negócio chamado "Juízo Investigativo". Na verdade, seriam três juízos ou três fases de um único juízo, como se diz, e aqui iremos estudá-las e ver se há fundamento para elas.

Estes três momentos judicativos surgem como consequência lógica de três eventos.

O primeiro deles é a entronização de Jesus no Lugar Santo em 22 de Outubro de 1844. O segundo seria o reino do milênio, após a primeira vinda de Jesus, antes da ressurreição dos infiéis. O terceiro seria, enfim, quando Jesus decretar o destino dos não convertidos que, ressuscitados, ouvirão a sua sentença e a sofrerão, sendo destruídos em seguida. Estes três juízos ou três fases do juízo recebem nomes específicos.

A primeira, como já dissemos, chama-se Juízo Investigativo.
A segunda, Juízo Judicativo.
A terceira, Juízo Executivo.

Neste texto especificamente nos deteremos no Juízo Investigativo.

Este juízo, como o nome sugere, seria um processo de investigação em que Jesus, tendo entrado no Lugar Santíssimo, examina os escritos dos anjos relatores. O adventismo crê que há anjos responsáveis por escrever tudo quanto fazemos: desde os nossos atos às mais recônditas intenções da nossa alma.

Um fiel registro de todas as suas [dos homens] ações é feito diariamente pelos anjos relatores. Todos os seus atos, mesmo as intenções e propósitos do coração acham-se fielmente revelados. (Testemunhos para a Igreja 1, pg. 468, disponível aqui)

A fim de que seja preservada a Justiça divina, Ele necessita conhecer todos estes fatos antes de uma tomada de decisão:
"Deve haver um exame dos livros de registro para determinar quem, através do arrependimento e fé em Cristo, tem direito aos benefícios de Sua expiação. A purificação do santuário envolve, portanto, uma obra de investigação - um julgamento - antes da volta de Cristo, pois quando Ele vier, Sua recompensa estará com Ele para dar a cada um segundo as suas obras (Ap 22,12)." (O grande conflito, p. 197)

Assim, existiriam livros no Santuário Celestial (Dn 7,10, Apo 20,12), e, neste lugar, Jesus, ministrando, ocasião que corresponderia ao Grande Dia da Expiação, analisa uma a uma as histórias dos homens: "A esse período nos referimos como o antitípico Dia da Expiação." (Questões sobre doutrina, p.315) O objetivo disto é apenas um: decidir quem mantém seu nome escrito no livro da vida ou quem o terá apagado, pois este apagamento pode acontecer (Cf. Ex 32,33; Apo 3,5; Sl 69,28). Por isso, até a fim de economizar tempo (rs), os que um dia foram fiéis são os únicos casos a serem examinados. Isto é: os não cristãos já estão naturalmente excluídos.

Escreve Ellen White:

"No ritual simbólico, os únicos que participavam do Dia da Expiação eram aqueles cujos pecados haviam sido transferidos ao santuário durante o ano. Assim, no grande Dia da Expiação final e do juízo investigativo, os únicos casos examinados são os daqueles que afirmaram fazer parte do povo de Deus. O julgamento dos ímpios é algo distinto e separado, e ocorre posteriormente. 'Porque a ocasião de começar o juízo pela casa de Deus é chegada.' (1Pe 4,17)

Os livros de registro no Céu determinam a decisão do julgamento. O Livro da Vida contém os nomes de todos os que já serviram a Deus. Jesus ordenou aos discípulos: 'Alegrai-vos, [...] porque o vosso nome está arrolado nos Céus.' (Lc 10,20). Paulo fala de seus cooperadores, 'cujos nomes se encontram no Livro da Vida' (Fp 4,3). Daniel declara que o povo de Deus será livrado, 'todo aquele que for achado inscrito no livro [da vida]' (Dn 12,1). E João diz que entrarão na cidade de Deus apenas aqueles cujos nome estão 'inscritos no Livro da Vida do Cordeiro' (Ap 21,27).

No livro 'memorial', estão registradas as boas ações dos 'que temem ao Senhor e para os que se lembram do Seu nome' (Ml 3,16). Cada tentação resistida, cada mal vencido, cada palavra bondosa dita a alguém, cada ato de sacrifício, cada sofrimento suportado por amor de Cristo, está registrado. 'Contaste os meus passos quando sofri perseguições; recolheste as minhas lágrimas no Teu odre; não estão elas inscritas no Teu livro?' (Sl 56,8)." (O Grande Conflito, p. 225)

Veja também isso:
"Assim, compreendemos que o livro da vida é o registro dos que professaram ser seguidores de Deus e deram início à caminhada rumo à vida eterna. O apóstolo Paulo fala da 'Igreja dos primogênitos arrolados nos Céus' (Hb 12,23) Falando em linguagem comum, diríamos que o livro da vida é o registro celestial da igreja. Nessa lista estão todos os que Deus pode considerar candidatos ao Seu reino eterno, desde Adão até a última pessoa na Terra que se volva ansiosamente para Ele, não importando quão limitada seja sua compreensão da gloriosa boa-nova do evangelho.
Cremos que a eliminação dos nomes do livro da vida é uma obra do juízo investigativo. O completo e perfeito exame de todos os candidatos à vida eterna terá de ser feito antes que Cristo volte nas nuvens do céu, pois, quando Ele aparecer, já terão sido tomadas as decisões para vida ou para morte. Os que morreram em Cristo serão chamados à vida, e os seguidores vivos de Cristo serão trasladados (1Ts 4,15-17). Todos são cidadãos do reino eterno. Depois do segundo advento, não haverá tempo para essas decisões." (Questões sobre doutrina, pg. 312)

Considere mais este texto de Ellen White sobre o que ocorre no Juízo Investigativo:

"Ao abrirem-se os livros de registro no juízo, é passada em revista perante Deus a vida de todos os que creram em Jesus. Começando pelos que primeiro viveram na Terra, nosso Advogado apresenta os casos de cada geração sucessiva, finalizando com os vivos. Todo nome é mencionado, cada caso minuciosamente investigado. Aceitam-se nomes, e rejeitam-se nomes. Quando alguém tem pecados que permanecem nos livros de registro, para os quais não houve arrependimento nem perdão, seu nome será omitido do livro da vida, e o relato de suas boas ações apagado do livro memorial de Deus. [...] Todos os que verdadeiramente se tenham arrependido do pecado e que pela fé hajam reclamado o sangue de Cristo, como seu sacrifício expiatório, tiveram o perdão aposto ao seu nome, nos livros do Céu; tornando-se eles participantes da justiça de Cristo, e verificando-se estar o seu caráter em harmonia com a lei de Deus, seus pecados serão riscados e eles próprios havidos por dignos da vida eterna. (O grande conflito Apud Questões sobre doutrinam, p. 315)

Ao término deste exame, acontecerá a volta de Jesus e o início do milênio.

"Tendo concluído Seu ministério como sumo sacerdote, nosso Salvador retorna à Terra, em glória, e então Satanás é lançado no abismo, onde ele e seus confederados de rebelião permanecerão por todo o milênio." (Questões sobre doutrina, p. 316)

Vamos então a alguns problemas

O primeiro problema, e que salta à vista, é a concepção materialista do céu que se tem e a negação prática da onisciência divina. Surpreendentemente, Deus precisa recorrer a livros para conhecer as minúcias da vida dos seres humanos, o que leva também a um segundo absurdo: que os anjos relatores saibam previamente algo que Deus não sabe ainda.

A Sra White nada fala sobre isso - pelo menos não o vimos -. Mas, como é um problema básico e facilmente percebido, o Questões sobre doutrina se apercebe dele e tenta uma justificação:

"Se a questão envolvesse apenas Deus, certamente não haveria necessidade de registros. Mas, para que os habitantes de todo o Universo, incluindo os anjos bons e maus e todos quantos já viveram na Terra, pudessem compreender Seu amor e Sua justiça, a história da vida de toda pessoa que já viveu neste mundo foi registrada, e no juízo serão abertos esses registros - pois todo homem será julgado segundo o que for revelado 'nos livros' do registro (Dn 7,10; Ap 20,12)" (p. 303)

"Cuma foi, seu zé?"
Isso, além de não melhorar muito, levanta outros sérios problemas. O primeiro é que a multidão de homens e anjos é de repente transformada numa plêiade de curiosos e fuxiqueiros. Além disso, o fato de eles precisarem conferir para só então se certificarem de que Deus é justo instaura e sacraliza, nos salvos, a desconfiança de Deus. Os que virem Deus face a face não apenas o amarão e nele confiarão, mas terão ainda quaisquer reservas que os farão conferir o Seu trabalho. E o que garantiria a estes desconfiados que os registros falam a verdade? Se se desconfia de Deus, imagina de um anjo relator? Então, o que se vê é uma série interminável de problemas. Os adventistas julgaram necessário levantar essa questão devido à afirmação bíblica de que os justos julgarão o mundo. (2Pe 2,4) Mas é muito interessante que os tais justos julguem o que já está julgado. Segundo, se se referisse a um desejo espontâneo de conferir um caso ou outro em particular, não seria o mundo que seria julgado, mas apenas alguns casos - por certo, a minoria, pois o Céu deve ser muito mais interessante do que tédio subjacente necessário à perda de tempo que seria fazer isso aí.

Mas que se trata de um caso de desconfiança é dito pelo próprio Questões sobre doutrina:

"O amor e a justiça de Deus têm sido desafiados por Satanás e suas hostes. O arquienganador e inimigo de toda justiça tem feito parecer que Deus é injusto. Portanto, em sua infinita sabedoria, Ele determinou resolver para sempre toda dúvida. Faz isso revelando perante o Universo inteiro a história completa do pecado, desde seu início." (p. 303)
Quer dizer que "em sua infinita sabedoria", Deus resolveu tirar a dúvida dos homens dando-lhes livros? "Vamos fazer do Céu um país de leitores."

Além disso, a segunda citação acima afirma que também os "anjos maus e todos quantos já viveram na Terra" poderão, através desses registros, "compreender Seu amor e Sua justiça", o que traz imediatamente a questão: também os demônios e os perdidos terão acesso a estes registros? Ora, estamos no Milênio, que é quando os "santos curiosos e paranóicos" supostamente reconferirão os tais registros. Mas os demônios não estarão no abismo? Os registros serão levados lá? E o que dizer dos homens maus que já tiverem morrido e estiverem supostamente naquela soneca? Não é só no final que eles serão ressuscitados? Quer dizer que depois da segunda ressurreição ainda haverá tempo de verificar, por parte dos condenados, a história de todas essas pessoas? Então põe mais um milênio aí... Pelo menos morrerão cultos... 

Shandaray...
Outra coisa curiosa: toda a perspectiva adventista pressupõe a existência do tempo no Céu. Na verdade, o tempo é uma criação de Deus para as realidades espaciais e, portanto, materiais. O que é o tempo? É justamente a distância entre o início de um movimento - físico ou mental - e o seu termo. Percorrer essa distância exige que no início do movimento ainda não se tenha o que se terá no fim. Portanto, o tempo exige um ser carecente que busca algo que lhe falta. Ora, Deus é completo e onipresente, o que impossibilita inclusive que Ele se mova, já que mover-se implica ocupar espaço antes não ocupado. Se Deus está em todo lugar, Ele não pode ocupar um lugar ainda não ocupado porque tal lugar não existe. Tempo e espaço existem neste universo. Deus está fora do tempo. É por isso que Deus se chama de "Eu sou".

Tudo quanto está no tempo muda. Ora, Deus não muda, o que significa que Ele não tem um antes e um depois. Ele simplesmente é. Ler livros é fazer um trabalho temporal e sucessivo, onde a consciência transita de nome a nome, de idéia a idéia, de história a história, e, de novo, isto pressupõe a negação da onisciência. Deus pode expressar-se sucessivamente já que Ele se dirige a seres temporais cujos atos cognoscitivos são sucessivos. Mas, enquanto atividade imanente, Deus não tem sucessão.

Poder-se ia objetar que Jesus o faz enquanto homem. Mas isto seria perder tempo, pois Jesus é Deus e pode saber de tudo num átimo. Contrasta com essas verdades evidentes a hipótese de Jesus estar, desde 1844, neste trabalho.

Acaba mair não...

Também do ponto de vista profético, isso não bate. Com efeito, costuma-se atribuir um dia a um ano. As 2.300 tardes e manhãs de Daniel seriam supostamente 2.300 anos, que levariam a 1844 - Na verdade, 1843. Assim, o dia da expiação, sendo somente um dia no tipo do Santuário, deveria ser correspondente a mil anos proféticos no seu antítipo. Chegaríamos então a 1944[43], que já passou faz tempo. Mesmo assim, esta teoria contrastaria com o que dissemos anteriormente.

Os livros de que se fala certamente não são livros literais, mas um símbolo usado pela Escritura para dar à consciência humana uma idéia comparativa de que Deus tem tudo registrado. Em Apocalipse 10,10 se fala de um livro pequeno que o Apóstolo João come, e até descreve o gosto. Ora, não se deve tomar isso literalmente.

O Questões sobre doutrina, a este respeito, diz:

"A que se assemelham esses 'livros' exatamente, não sabemos. Isso não foi revelado. As Escrituras, porém, tornam claro que, seja qual for a natureza desses registros, desempenham papel vital na cena do juízo." (p. 303)

Notem que ele aspeia a palavra "livros". Talvez algum adventista que estivesse nos acompanhando até aqui estivesse vendo com maus olhos o fato de atribuirmos a estes livros um sentido não literal. Mas eis que uma fonte de peso adventista diz o mesmo. Pô-lo entre aspas é o mesmo que dizer que não são livros exatamente. Mas é preciso dizer mais: se estes registros forem quaisquer objetos extrínsecos à mente divina, teremos de novo uma negação prática da onisciência. É preciso, portanto, que eles sejam a própria Inteligência de Deus, pelo que dispensam o "tempo" - que inexiste no Céu - de exame.

Por fim, se a intenção de Deus fosse comunicar as suas decisões e as razões delas, nada O impediria de iluminar simultaneamente a consciência de todos quantos houvesse no mundo, tanto anjos quanto homens.

Outro problema: como é possível que um julgamento da vida inteira de alguém aconteça enquanto o julgado ainda está vivendo? Deus poderia fazê-lo na sua presciência - como de fato Ele já sabe de antemão quem se salvará e quem se condenará -, mas isto dispensaria a necessidade de qualquer exame. A crença adventista, ao contrário, é a de que o meu nome pode estar sendo examinado agora no livro, e as minhas disposições atuais determinarão a minha salvação ou condenação. O meu nome por certo não será revisto, pois isto abriria ocasião para a revisão de todos os demais, e, sendo que o que motivaria uma tal revisão seria uma mudança interior, e sendo que esta pode se dar continuamente, seguir-se-ia daí a possibilidade de uma revisão contínua, e penso que eu que nem a paciência divina daria conta.

Crer no Juízo Investigativo é divinizar a sorte. Depois que o meu nome passar pelo exame e for apagado do livro da vida, de nada adiantará os meus ulteriores arrependimentos. Estarei perdido. Do mesmo modo, se no exame, eu for encontrado arrependido, e meu nome for mantido no livro da vida, isto significa que eu posso até fazer pacto com o demo depois, que nem por isso ele sairá de lá. Se se contestar isso, se terá de admitir a possibilidade da revisão do livro. A única saída é supor que um tal exame não existe, e que o julgamento divino, não precisando ocorrer no tempo, será imediato, no fim dos tempos, quando todos os homens tiverem terminado a sua história, como é a única alternativa lógica.

Vamos a mais uma citação que prova por A+B que o juízo investigativo nega a onisciência divina:

"Evidentemente, o relator celestial fez uma completa biografia de todo indivíduo que já viveu na Terra, não omitindo coisa alguma que pudesse ter qualquer influência na decisão do Juiz Onipotente." (p. 311)

A primeira coisa a se perguntar é: onde se diz na Bíblia sobre os anjos relatores?

A segunda é: por que os anjos relatam tudo de todo indivíduo se, como vimos, apenas os que uma vez foram cristãos serão objetos de exame?

Depois: se os anjos não omitem "coisa alguma que pudesse ter qualquer influência na decisão" de Deus, então isto significa que se eles omitissem, Deus não o saberia, isto é, poderia ser influenciado. Diga-me o leitor? Há sentido dizer isso considerando a onisciência divina?

Vamos a apenas mais dois problemas. Um deles já o adiantamos acima: na primeira citação, Ellen White deixa claro que apenas os uma vez ingressados na vida cristã serão analisados no Juízo Investigativo:

"No ritual simbólico, os únicos que participavam do Dia da Expiação eram aqueles cujos pecados haviam sido transferidos ao santuário durante o ano. Assim, no grande Dia da Expiação final e do juízo investigativo, os únicos casos examinados são os daqueles que afirmaram fazer parte do povo de Deus. O julgamento dos ímpios é algo distinto e separado, e ocorre posteriormente. (O grande conflito, p. 255)


Isto de fato otimizaria bastante o tempo. Mas, de novo: por que os anjos relataram a vida inclusive de quem nunca foi cristão? E o caso desses infiéis seria analisado só durante o Milênio? O Questões sobre Doutrina é taxativo: Depois do segundo advento, não haverá tempo para essas decisões." (p. 312)" Então, o julgamento dos ímpios ocorre posteriormente quando? Além disso, se eles não entraram no convívio dos justos, não já estão julgados? Como saber quem não entra no céu senão julgando-os anteriormente? Note-se que a sra White diz que "os únicos casos examinados são os dos que afirmaram fazer parte do povo de Deus".


Por fim, Ellen White cita Jesus e São Paulo:


"Alegrai-vos, [...] porque o vosso nome está arrolado nos Céus.' (Lc 10,20). Paulo fala de seus cooperadores, 'cujos nomes se encontram no Livro da Vida' (Fp 4,3)." (O grande conflito, p. 255)

Daí eu pergunto: que sentido faz se alegrar porque o nome aparece no livro dos céus se o mais normal do mundo é que depois o corretivo santo ou a borracha do poder entrem em ação e apaguem o nome de lá? Pelo contrário, quando Jesus ou Paulo falam isto, é óbvio que eles estão dizendo que aqueles aos quais eles se referiam eram pessoas eleitas de Deus.
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