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Liturgia - Obedecer a Quem?


Quem quiser seguir os preceitos litúrgicos da Igreja à risca, sem transgressões, experimentará uma dificuldade imensa. E isto não acontece somente quando se pretende observar os costumes do Antigo Rito, o Tridentino. Também com relação ao Novus Ordo, costuma-se promover hoje uma total liberdade com relação àquilo que foi determinado pelo Concílio Vaticano II e pelos documentos que se seguiram, como a Redemptionis Sacramentum, de João Paulo II.

Parece haver um certo espírito progressista que precisa em tudo acompanhar as mudanças da época de modo que, hoje, mesmo as determinações do último Concílio tornam-se ultrapassadas e passíveis de desprezo. Em seu lugar, cumpre erigir outras normas, de acordo com o tempo e o lugar. E o mais irônico é que, não obstante este curso de coisas tenha por pressuposta a desobediência à Igreja, ele costuma exigir, no entanto, a adesão do fiel sob pena de chamar-lhe desobediente. Quem quiser, por exemplo, cantar o Glória segundo a fórmula que a Instrução Geral do Missal Romano prescreve, enfrentará todo tipo de dificuldades e será visto como se estivesse animado por qualquer capricho, apegado a rubricismos, e precisando acompanhar o transitar natural da vida, aceitando o espírito de contínua renovação. Se se opuser a este espírito, o sujeito será tido como rebelde. Embora nada mais queira senão obedecer, o fiel submisso à Igreja e ao Papa será tido como o  inconveniente, o arengueiro, o divisor, o que não aceita a pluralidade natural da Igreja que supostamente se manifestaria, também, neste caráter fluido com que cada comunidade e cada pessoa "cumpre" o seu papel na Liturgia.

Quem obedecer à Igreja será tachado de desobediente. Quem, no entanto, isento de qualquer maior zelo pela Sagrada Liturgia, não se importa de transgredi-la, será identificado como quem compreendeu bem a alma da coisa. Um movimento ou uma organização - ou uma Conferência -, contudo, que se obstina na expressa desobediência ao Papa não pode arvorar-se o direito de ser obedecida. A sua pertinácia é constante grito de revolta. Os seus desmandos são expressão da sua cerviz altiva, incapaz de submeter-se. Pluralismo, democracia, apego ao gosto pessoal, ignorância da natureza real da Liturgia: eis o que caracteriza este espírito que anda às soltas na Igreja, sobretudo na América Latina onde ainda se sente, de modo muito vivo, a influência da Teologia da Libertação que fez e continua a fazer estragos imensuráveis.

Em que compensa obedecer à Igreja se o sujeito se verá sozinho, se atrairá para si a animosidade de muitos e complicará a própria vida? Compensa sim! Estar do lado de Nosso Senhor quando este está a ser ultrajado é o que de melhor podemos fazer. Defendê-lo das injúrias e ofensas; ser uma voz, ainda que solitária, a gritar no meio de uma multidão dispersa: "servirei! Faça-se como o Espírito Santo e a Igreja determinaram"; tudo isso é uma honra sem tamanho! "Sofrer pelo Amado é melhor que fazer milagres", diz S. João da Cruz. Experimentar a solidão deste maior Solitário que é Nosso Senhor... Compensa sim.. Lutemos e amemos, compreendendo que o nosso amor por Ele também se expressa pelo zelo por Sua casa.

Em que compensa desobedecer à Igreja para brincar de protagonismos e desmandos na Liturgia? Mesmo se obtiveres o apreço das pessoas, "que vale ao homem ganhar o mundo se vier a perder a própria alma?"

Diz S. Paulo: "Se eu quisesse agradar aos homens, eu não seria servo de Cristo". Eis algo que deveria nos nortear no nosso serviço litúrgico! Obedeçamos à Igreja, ainda que isto nos dê a fama de rebeldes. Sirvamos à Igreja, ainda que isto arruíne a nossa "carreira". Lutemos por uma Liturgia bem celebrada, pedindo a Nosso Senhor que o zelo por Sua casa também nos devore e rezando para que as pessoas despertem de seu sono e façam como Jacó que, ao acordar, exclamou: "Que terrível é este lugar! É aqui a casa de Deus!"

Caos Litúrgico, Alguns Pressupostos e Frutos.


Como se sabe - e não há coisa mais fácil de provar irrefutavelmente do que isso - vivemos num caos litúrgico. Depois do último Concílio, o do Vaticano II, é fato que a coisa desandou. Não que antes gozasse de perfeição, mas os desmandos que se seguiram raiam ao absurdo. Haverá quem diga que o problema está no modo como se leu o Concílio; haverá, também, quem afirme ser o próprio Concílio o problema. Se formos algo além de "torcedores" que optam por uma das posições segundo lhe pareça mais simpática, devemos reconhecer que isto é algo realmente delicado e cuja discussão requer, sim, bastante preparo, tanto filosófico e teológico quanto histórico.

Deixemos, pois, a natureza do Concílio um pouco de lado aqui. Observemos, ao invés, os inúmeros problemas litúrgicos a que somos obrigados a assistir diariamente. Por que eles se mantêm? O que pressupõem? Quais os efeitos que geram?

Primeiramente, notemos que um dos grandes fatores que favorecem a perseverança no erro é a ausência de uma reta formação. Este fator, porém, não é o único, pois muitos dos responsáveis diretos desta bagunça litúrgica são sujeitos dos quais se pode presumir conheçam bem as regras e os preceitos litúrgicos. Contudo, a falta de uma formação mais profunda, também por parte dos leigos, favorece imensamente que os erros tomem lugar. Este problema - o de uma formação insuficiente - pode ser visto como produto da carência dos meios para se obter uma compreensão mais exata do assunto. Porém, penso ser mais razoável a hipótese de que isto se faz por puro interesse. Parece haver um desejo positivo de que os desmandos continuem e, para assegurar tal intento, cumpre manter os leigos e, se possível, os seminaristas e sacerdotes, distantes e distraídos de uma formação mais ortodoxa.

Isto provoca em pouco tempo a perda da unidade litúrgica. Com a ausência de preceitos claros e fixos, a Liturgia se torna um constructo arbitrário da comunidade ou do Ordinário. Isto significa que teremos uma Liturgia relativizada aos gostos de cada um. Há como que um protestantismo na Liturgia e que se exerce pela prática do livre exame do Sagrado. Surge, logo, o falso pressuposto de que a Liturgia é, antes de tudo, construída pelos homens. Se tal é assim, ela perde todo o seu caráter sobrenatural, e se torna reduzida ao tamanho humano. Teremos uma naturalização da Mística, isto é, um reducionismo absurdo da religião que se torna mero capricho humano - como uma brincadeira - donde consequentemente se segue a super-valorização da criatividade como garantia de se ter uma liturgia mais real e dinâmica. O realismo aqui identifica-se com a agradabilidade. Se a Liturgia é feita pelos homens e para os homens, cumpre que ela seja, também, agradável. A naturalização da mística se degrada na religião do bem estar. Como se pode perceber, esta via leva à auto-promoção do homem, à adoração de si mesmo, à auto-suficiência e, naturalmente, à perda do senso do sagrado. É um modo muito eficaz de se utilizar da religião para perpetuar, a partir dela, a grande revolta contra a objetividade divina.

A não obediência aos preceitos Litúrgicos em função dos próprios gostos só pode ser promovida por aquele mesmo espírito que moveu os nossos primeiros pais à infidelidade com Deus, donde resultou a entrada de toda a espécie de males no mundo. Uma Liturgia, portanto, que se submeta aos gostos pessoais será, antes, uma proclamação de revolta, e não aquela suave e alegre docilidade a Deus, característica dos Seus amigos, e que se traduz de modo perfeito no singelo "Fiat" de Maria Santíssima.

Por trás, portanto, dos desmandos litúrgicos, há um espírito de revolta, de auto-promoção, de soberba - e lembremos que Deus resiste aos soberbos. Uma "liturgia criativa" veda ou dificulta, pois, o acesso a Deus. Há também o falso pressuposto de que a Liturgia é construída por nós, quando na verdade ela é dada por Deus, isto é, ela nos precede e nos ultrapassa, sendo o modo perfeito de como Deus quer ser cultuado. A obstinação no erro causa, ainda, divisão no seio da Igreja Católica, que deve ser Una, e faz com que cada paróquia tenha uma Liturgia peculiar, segundo os próprios gostos, num ato contínuo de subversão. Tal estado de coisas leva, por fim, à religião do bem estar, a um certo hedonismo pretensamente espiritual que identifica o Bem e a Verdade com o bem-estar e a opinião dos sujeitos. Nada há de bom, portanto, que surja disto. 


O que podemos fazer é rezar bastante, reconhecendo que o auxílio maior nestes tempos de crise é dado pelo próprio Deus. Depois, devemos estudar para ter uma reta compreensão da natureza da Igreja, da Liturgia, da Mística, etc. Em seguida, temos de nos despir dos cuidados e respeitos humanos, a fim de que possamos entrar nesta luta sem receios e fazer, dentro das nossas capacidades, o possível para que mais e mais pessoas se tornem conscientes destas coisas. É fundamental, também, que cuidemos para não cair num certo extremismo que pensa ser virtude todo tipo de balbúrdia e agitação e desaforo, ainda que supostamente favoráveis à Tradição. Já dizia S. Josemaria Escrivá: "Intransigência não é destempero". Não é preciso comprar o desgosto e o desapreço de todo mundo, como se isso fosse um valor em si. É preciso, somente, ter a disposição de uma exposição sincera, clara, sem ambiguidades, e, dentro do que nos convém e do que de nós depende, sem falsos protagonismos, promover a retidão dos costumes litúrgicos. Em suma: ensinar e discutir com argumentos e, além disto, se exercermos alguma função litúrgica, fazer o possível para que seja correta. Busquemos, também, que não estejamos sozinhos nesta empresa. Só não deixemos que o descaso passe a nós por osmose.

Pe. Paulo Ricardo - Inculturação



Todos os padres e fiéis deveriam assistir.
As 'maluquices litúrgicas' são, na verdade, um atentado ao nosso direito de fiéis, garantido pela Igreja, de ter a Santa Missa celebrada do modo correto.

Cardeal Ratzinger: “A grandeza da liturgia fundamenta-se exatamente na sua não-arbitrariedade”



Citação do Cardeal Joseph Ratzinger comentada por Sua Excelência Reverendíssima Dom Henrique Soares da Costa:

A propósito da “reforma pós-conciliar”, Ratzinger explica: “Depois do Concílio Vaticano II generalizou-se a idéia de que o Papa poderia fazer aquilo que desejasse em matéria litúrgica, sobretudo agindo em nome de um concílio ecumênico. Desse modo, aconteceu que a idéia da liturgia como algo que nos precede e não pode ser ‘fabricada’ segundo nossa própria vontade, foi desaparecendo em larga escala na consciência difusa do Ocidente [1]. No entanto, de fato, o Concílio Vaticano I [2] não quis de modo algum definir o Papa como um monarca absoluto, mas, ao contrário, como o primeiro guardião da obediência em relação à Palavra transmitida: o seu poder é ligado à Tradição da fé e isto vale também no campo da liturgia [3]. Se se abandonam as intuições fundamentais da Igreja antiga, chegar-se-á realmente à dissolução dos fundamentos da identidade cristã. A liberdade do Papa não é ilimitada; ela está a serviço da santa Tradição. Menos ainda se pode concordar com uma genérica liberdade de fazer que, desse modo, transformar-se-ia em arbitrariedade para com a essência da fé e da liturgia. A grandeza da liturgia – deveremos ainda repetir muito freqüentemente – funda-se exatamente na sua não-arbitrariedade” [4]. (Do livro Introduzione a Ratzinger, de Dag Tessore)
[1] Ocidente, aqui, é a Igreja latina, a nossa Igreja de rito latino, ao contrário das igrejas católicas de ritos orientais unidas a Roma ou as igrejas ortodoxas separadas de Roma.

[2] Esse Concílio definiu solenemente, como dogma de fé católica, o poder do Papa sobre toda a Igreja, bem como sua infalibilidade em assuntos de fé e moral.

[3] O Papa não é o dono da Igreja. Ele é o primeiro que deve obedecer e ensinar seus irmãos a fazerem o mesmo. Um Papa infiel à fé e à Tradição da Igreja já não seria Papa, seria um herege.

[4] A intuição de Ratzinger é perfeita: a Liturgia não pode ser fabricada por nós nem pela comunidade que celebra. Se assim fosse, a tal comunidade somente celebraria a si própria, seus sentimentos e sua subjetividade! A comunidade - e cada cristão -, é chamada a sair de si mesma para entrar no âmbito de Deus, que é Mistério Santo que se nos dá através de Cristo na potência do Espírito. Somente assim a Liturgia será uma perene novidade, capaz de renovar efetivamente a nossa vida. Fora disso, a celebração será somente auto-celebração e não celebração do Mistério de Cristo, tornando-se um ridículo e cansativo teatrinho de mau gosto, um pobre programa de auditório.

Zelo Litúrgico da CNBB e Documentário sobre o Vaticano II


Exemplo do zelo litúrgico da CNBB.
Cansado... Abusado de tudo isso... Por que as coisas ficaram assim? 

Sugiro aos amigos que assistam estes dois videos, disponibilizados pelo amigo Daniel Adversus Haereses



Somente um ato de fé cega pra absolver o CVII. Sinceramente...

A falsa paz da traição é desejada por soldados covardes


“Estão muito equivocados os que acreditam possível e esperam para a Igreja um estado permanente de plena tranquilidade; porém, é pior, e mais grave, o erro daqueles que se iludem pensando que alcançarão essa paz efêmera mediante a dissimulação dos direitos e interesses da Igreja, sacrificando-os aos interesses privados, diminuindo-os injustamente, comprazendo ao mundo, ‘no qual domina inteiramente o demônio’ (I Jo V,19), com o pretexto de captar a simpatia dos fautores de novidade e atraí-los à Igreja, como se fora possível a harmonia entre a luz e as trevas, entre Cristo e o demônio. Trata-se de sonhos doentios, de alucinações que sempre ocorreram e ocorrerão enquanto houver soldados covardes que deponham as armas à simples presença do inimigo, ou traidores que pretendam a todo custo fazer as pazes com os opositores, a saber, com o inimigo irreconciliável de Deus e dos homens”. 

S. Pio X, Encíclica Communium Rerum, de 21 de abril de 1909

Fonte: IPCO

O que é o Progressismo


"Que é Progressismo? É o novo nome do Modernismo, objeto de severa condenação por parte de São Pio X, na Encíclica "Pascendi Dominici Gregis". Um e outro tendem a "solapar pelos alicerces o Reino de Jesus Cristo". Por isso São Pio X os chamava de "os mais perigosos inimigos da Igreja". Não atacam de frente. Disfarçam. Habitualmente usam a baldeação ideológica inadvertida, ou seja, fazem uma lavagem cerebral mudando as idéias aos poucos sem a pessoa perceber.

O Progressismo não nega frontalmente o dogma revelado. Age mais através dos ambientes que vai criando com imprecisões de linguagem e termos ambíguos. Seus caminhos são tortuosos. Há, no entanto, um critério para surpreendê-los, que não falha. Todas as suas imprecisões, ambigüidades, novos formulários, etc, obedecem à mesma direção. Operam no sentido de afastar os fiéis da Tradição, das fórmulas tradicionais, dos limites precisos entre a verdade e o erro, dos costumes elaborados lenta e seguramente pelos séculos de Cristianismo, de tudo enfim que indique, sem o menor perigo de engano, o Cristianismo autêntico, ortodoxo, a fidelidade à Revelação e ao Espirito de Nosso Senhor Jesus Cristo."

Pe. Elcio Murucci

Sobre Missas-Shows e certos eventos que nem o demônio ousaria...

"Carniceiros", como os chama Nosso Senhor.
O que a Santa Missa é, na verdade...

Eu fico olhando este costume pavoroso que se tornou comum nos dias de hoje. Uma atitude tão profundamente cruel, tão nefasta e blasfema e que, não obstante sua fealdade suprema, tem tomado lugar frequentemente nos ambientes ditos católicos. Falo da instrumentalização do Santo Sacrifício da Missa para fins outros. Que terrível é que os padres não tenham mais a mínima noção da absoluta sacralidade da Liturgia Eucarística e saiam promovendo todo tipo de eventos e festas, pondo, às vezes, a Santa Missa em paralelo ou abaixo de outras atrações que sequer alcançam o nível básico da moralidade.

Dias atrás, presenciava eu um desses eventos. A Santa Missa acontecia sobre um palco, no extremo lado direito, num canto apagado. Ao centro, ia um telão. Depois do Sacrifício do Senhor, os presentes assistiriam um filme. Parecia, na verdade, que essa era a atração principal: o filme. Ali não se via nenhum cuidado com a Liturgia e as músicas se assemelhavam muito mais a um batidão. Qualquer sombra de verdadeira arte estava ausente. A dispersão dos presentes era total. Barracas, aos lados, vendiam churrascos e batatas fritas. Ninguém tinha a menor idéia do que estava a acontecer: um sacrilégio coletivo.

Por diversas vezes, eu li que a comunhão indigna é um pecado imensíssimo. No entanto, não há mais qualquer cuidado. Os padres não se importam em formar os fiéis; nunca falam do pecado mortal, não acompanham os poucos que ainda pretendem ter uma vida espiritual minimamente coerente. Os fiéis que querem seguir o catolicismo de modo absoluto devem se animar a dar passos solitários, guiando-se a si mesmos, formando-se a si mesmos, e sendo mal vistos a todo o tempo como pessoas suspeitas.

Uma tal de Missa dos Vaqueiros está aí a ser anunciada. Virá um cantor relativamente famoso para fazer a festa depois da Missa. É claro que os que comparecerão a este evento estarão visando sobretudo o show posterior. Sequer quero imaginar as disposições de alma dos que lá estarão, as estratégias de diversão, as roupas com que aparecerão na "mesa dos escarnecedores". E ai dos que criticarem este tipo de coisa; serão vistos como fanáticos, fundamentalistas, alienados e adeptos de qualquer modinha perigosa e inconveniente que não deve ter mais espaço nos nossos dias.

E lá se vão tantas e tantas comunhões sacrílegas de tantas almas em pecado mortal. E lá se vão tantos fragmentos da Eucaristia caindo pelo chão e sendo pisoteados nas danças imorais que se seguirão. E lá virá Nosso Senhor, de novo, dar-Se em sacrifício pelos seus, mas não ser por eles reconhecido, nem amado, nem adorado, nem sequer respeitado. A Missa torna-se como que atração cultural de abertura de um show estranho. Reduz-se o Calvário aos festejos típicos de uma certa região. Deixa de ser a Redenção do mundo, para ser uma comemoração vazia, uma simples agitação de cadáveres sem alma que tentam, à força de sacrilégios e barulhos fátuos, distraírem-se da própria nulidade, da ausência de sentido com que vivem. E, quando a Santa Missa poderia e deveria ser o encontro com o Cristo na Cruz, à semelhança dos feridos no deserto que olhavam para a Serpente de Bronze, alguns outros fazem questão de encobrir a cruz e brincar de reunião fraterna, com chapéus de festa, ao jeito de infantes irresponsáveis, com gritinhos e sons de berrantes; tudo isto para abafar, no alarido nonsense destes desesperados, o grito terrível dAquele que, pendente na Cruz, deu a vida por nós, nós que agimos como imbecis irresponsáveis e dignos mil vezes do inferno.

Advertiu São Paulo: "de Deus não se zomba". Eu gostaria muitíssimo de ver o braço absoluto de Nosso Senhor. Ando muitíssimo saturado disso tudo. Imensamente cansado... E toda essa bagunça tem repercussão na minha vida espiritual. Eu gostaria de ver pelo menos um traço da indignação do Senhor, mas Jesus tem um amor e uma paciência infinitos. Porém, a justiça será feita. E nenhum devasso escapará. 

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PS.: 
* As profanações, nos dias de hoje, são ainda piores do que as piadas que os fariseus soltavam diante da Cruz. Naquela ocasião, Nosso Senhor pedia ao Pai para lhes perdoar, pois eles não sabiam o que faziam. Hoje,  porém, Jesus não poderia repetir tal petição.

* Este mascaramento do Sacrifício do Senhor impede, objetivamente, que as pessoas conheçam a Deus tal qual Ele é, isto é, impede que muitas pessoas se convertam, dando-lhes uma visão equivocada sobre Deus e Sua Igreja, ameaçando eternamente as suas almas. Se, na verdade, toda a ação da Igreja deveria se orientar para a glória de Deus e a salvação das almas, este tipo de brincadeira irresponsável impede um e outro. Só Deus poderia dizer o tamanho desta afronta.

* Ontem foi dia de Nossa Senhora da Salette. Ela, quando apareceu, falou-nos de tudo isso. Recomendo a leitura aqui. Peçamos ao Céu que nos socorra. E os que podem ter uma vida católica completa, agradeçam infinitamente e rezem por nosotros.

Fábio.

Pérolas da TL II

Expoente da TL em momento de "Síntese Mística do Universo"

Pessoal, ponho mais algumas pérolas dos teóricos da Teologia da Libertação. Dessa vez, não resisti e pus, em azul, pequeníssimos comentários entre parênteses no meio das citações. Esse povo é muito estranho, rs...
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"Esta questão da espiritualidade é de fato muito polêmica, porque tem uma tradição na Igreja segundo a qual espiritualidade é cuidar do céu e a melhor maneira de hoje, no mundo, se descuidar dos problemas da vida. Essa era uma tradição, infelizmente, quase vigente na Igreja Católica e em outras Igrejas cristãs. Ora, a Teologia da Libertação é uma teologia que cuida da vida. É uma teologia prática, que surge da prática e vai para a prática: a prática libertadora, a comunhão com a vida do oprimido, o resgate de todos os valores da vida e da terra. Então, como é que vai se preocupar com uma história que é meio do céu, abstrata, de uma coisa muito individualista, de oração e de contemplação de Deus?" (É.. como, né? Se o céu não existe...)

M. Barros
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"Em última instância, o projeto de uma nova sociedade justa e igualitária terá que necessariamente se desembocar na questão da mística. Por isso é que - um pouco brincando, ms também bastante sério - eu costumo dizer que no futuro da América Latina, o homem e a mulher novos serão filhos do casamento de Santa Tereza D'Avila e Ernesto Che Guevara." (credo!)

F. Betto.
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"Os processos de libertação necessitam de uma práxis popular, sindical, etc. Necessitam de uma teoria social, política e teológica. Mas nós, seres humanos, necessitamos também de espírito, que não é o mesmo que a prática, a teoria. O que quero dizer com espírito? Pode-se teoricamente fazer uma revolução por amor ou por protagonismo. Pode-se lutar pelo bem do outro ou pelo bem de mim mesmo. Isso eu chamo espírito: por que fazemos as coisas, de que modo as fazemos. Isso eu chamo espiritualidade."

J. Sobrino
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"A grandeza do ser humano é poder se interiorizar. Unir o universo inteiro dentro de si (Ele é um Cavaleiro do Zodíaco, só pode...), fazer aí uma síntese e entregá-la em forma de amor e amizade ao outro, em forma de doação a Deus. Quando uma pessoa faz isso - pode ser um soviético como Gorbatchev que também fala de espiritualidade, como pode ser um cristão -, aí se realiza esse fenômeno extraordinário que só é possível entre os humanos: a espiritualidade. É o entrar dentro de si, sintetizar todo o universo (Vai Seya!), para fazê-lo doação ao outro. Para mim, quem consegue fazer isso vive o dom maior do espírito (O meteoro de Pegasus), que é a capacidade de ser livre, e sempre livre para os outros."

L. Boff
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"Os nossos companheiros de luta têm uma espiritualidade profundíssima (Pense!), uma vivência de fé permanente que os leva até ao martírio. A dificuldade, porém, está em explicitar isso. Eles têm a espiritualidade, mas não convivem muito bem com as expressões dessa espiritualidade. Por que não convivem? Por vários motivos. A espiritualidade assumiu durante os séculos formas e expressões que são alienadas, que são opressoras (¬¬), de um caráter muito marcado por uma filosofia dualista (a luta de classes não é dualista nadinha...). Isto faz com que o pessoal não se encontre à vontade com tal espiritualidade."

M. Barros
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"Você imagina o seguinte: o pessoal estava acostumado antigamente a um tipo de celebração muito legalista, muito baseada no folheto ou nas formas litúrgicas antigas. De repente, entram em contato com uma visão de fé mais histórica, da fé como expressão da vida, etc. Qual é a consequência disso? Eles querem de tal maneira integrar essa vitalidade, essa experiência das comunidades na liturgia, que esta fica sendo uma expressão intelectual grande da luta, um encontro comunitário muito importante onde há muita reflexão libertadora, mas que de vez em quando perde esse elemento de gratuidade, da expressão da fé mais afetiva."

M. Barros
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"As nossas liturgias, as liturgias populares nas CEBs têm uma dimensão muito orante, muito cantante, na medida em que as pessoas se sentem ali unidas na fraternidade, se sentem juntas, emuladas, apoiadas nos seus engajamentos. porém, há muitas vezes o risco da liturgia cair num discurso racional, dela se transformar quase que numa espécie de reunião política onde sempre se martela a questão da opressão, da miséria, da libertação, sem dar espaço a toda essa dimensão da gratuidade que a vida litúrgica, que a mística supõe. Creio que é preciso trabalhar mais aprofundadamente a questão da liturgia (rs... só pode ser piada), de modo que ela seja o grande espaço da alegria, da gratuidade e da comunhão. Eu sou muito mais por uma liturgia festa que por uma liturgia reunião. Acho que temos o momento de fazer reunião, mas devemos criar a vinculação de tal maneira que o espaço da festa esteja muito presente na experiência litúrgica."

F. Betto
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"A espiritualidade se revoluciona no momento em que a Igreja toda se coloca na escola dos pobres e os pobres como mestres de vida espiritual (não necessariamente.. esse romantismo barato é que dista da realidade.. Será que eu deveria trocar S. João da Cruz por Seu Lunga?). Porque se tem alguém que sente Deus como uma questão vital, substancial, é o pobre. (...) Então, nós devemos nos colocar na escola deles, essa é a tradição dos grandes mestres espirituais (de quais?). Nós descobrimos, assim, que Deus é libertador, justiça, revolução, que Deus quer uma sociedade nova, uma Igreja nova, enfim, que Deus quer o Reino de Deus nessa terra. (não há dúvidas que Deus quer que o mundo seja mais justo, mas o que fazer com a afirmação "O meu Reino não é deste mundo", oh néscios?)"

C. Boff
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"Quem conhece a América Latina por dentro, a caminhada das CEBs, e o movimento da Teologia da Libertação acompanhando essa caminhada e dela se alimentando, sabe que muito mais importante que os livros dos teólogos, muito mais importantes que as obras - que aliás o povo não chega a ler - é essa maravilhosa produção de novos cantos, nova poesia, etc." (Ou seja, não importa que corresponda à verdade, desde que seja produto dos pobres... Isso aí, além de relativismo tosco, é preconceito e uma clara oposição entre classes bem ao modo tradicional marxista)

H. Assmann
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"A fé é outra coisa. Nasce quando você, com o seu olhar de alegria e de sofrimento, de esperança e vontade de viver, olha para os meus olhos e nossos olhares constroem algo em comum e começamos a olhar em direção ao horizonte (quase chorei...). Como dizia João Guimarães Rosa, "nada devora tanto como o horizonte"! De repente, nós temos um horizonte de caminhada, algo que vale a pena. É assim que, inesperadamente, nós acreditamos em algo (na mula sem cabeça, vale?). O que é ter fé? Não é recitar o credo. Crer não é um blá, blá, blá de palavras. (blá blá blá é esse papo mole de se olhar e ver o horizonte e crer em algo. Vai te danar!) Crer é ter existencialmente dentro, não certezas matemáticas, calculadas, mas aquela outra certeza de que VALE A PENA! Descobrir que isso tem um sentido. E isso só se descobre coletivamente."

H. Assmann
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"Assim como é um ativismo absurdo pensar que a teoria não faz falta para resolver os problemas graves, parece-me que, na perspectiva cristã, é um absurdo pensar que não nos temos que confrontar com o mistério de Deus, porque se realmente confrontar-se com o mistério de Deus não ajuda para resolver os problemas graves, eis que então Deus não serve!" (Utilitarismo discreto, o seu... e falaram tanto de gratuidade... zé mané)

J. Sobrino
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"Na Teologia da Libertação o nexo corporal começa na nossa reflexão sobre a fome, sobre as necessidades básicas, mas não termina aí, porque tem que chegar à explosão da alegria de viver. A espiritualidade tem muito a ver com o corpo, até com as relações espontâneas, eróticas. Vamos erotizar o mundo! (só podia ser coisa do "Assman", o homem bunda) Vamos devolver a este mundo a espontaneidade da fraternura, da ternura fraternal!"

H. Assmann
***

"A espiritualidade hoje é algo que está sendo muito refletido pelos teólogos da libertação. E realmente está se trazendo perspectivas novas e bastante libertadoras, mas acho que esta vertente do feminino é de fato riquíssima, embora não tenha sido ainda explorada e refletida (Isso parece brincadeira.. aff). É um papel da mulher, justamente, refletir sobre isso. Porque a mulher tem uma maneira própria de viver a espiritualidade, como igualmente de fazer teologia, de viver a fé, de se situar dentro do conjunto do revelado e da revelação. A mulher é alguém que não faz separações estanques como o homem." (aff... ¬¬')

M. Clara
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"Eu tenho uma intuição: os que são contra a Teologia da Libertação temem mais uma teologia da libertação que insiste na prática da libertação, inclusive da revolução, e fala em nome de Deus, do que se somente falasse da revolução. Porque, se imperasse o segundo caso, poderiam dizer: são sociólogos, revolucionários, marxistas e, claramente podem ser condenados; mas se alguém faz isso, se está inserido em processos de libertação e fala de Deus e o faz em nome de Deus, isso os incomoda muito mais, porque então não têm que atacar somente a Teologia da Libertação, mas também a Deus! (kkkkkk.. isso foi muito engraçado rsrs... Imagina a Igreja com medo de condenar os hereges só porque eles falavam de Deus, rsrs.. Azuado..) Para mim, é esse o problema que pode existir no Vaticano (Pense!). Eu disse uma vez que a Igreja não tem medo do marxismo, porque o marxismo é uma coisa criada, de seres humanos, está de igual para igual com a Igreja (kk.. muito hilário esse cara; ainda acham que isso é católico? Herege de meia tigela!); mas a Igreja, sim, tem medo de Deus, porque não pode dizer: "de você eu não vou me aproximar". (A TL se tornou, então, a suma representante da divindade na terra. Ora, vão flatular infinitamente...)

J. Sobrino (Sem Noção)

TEIXEIRA, Faustino Luiz Couto (Org.). Teologia da Libertação: Novos Desafios. São Paulo: Ed. Paulinas, 1991. pp. 51-87

"O velho é melhor..."


"E ninguém, depois de beber vinho velho, deseja vinho novo; porque diz: o velho é melhor”.  (Luc 5, 39)

É notória a luta que hoje se trava entre os católicos tradicionais (isto sim, uma redundância) e os modernistas de toda conta. Na verdade, os subgrupos são tantos e de matizes tão variados que é grandemente complicado defini-los com precisão. Mas poderíamos, sem descer aos pormenores, dividi-los em dois grupos: aqueles que valorizam a Tradição da Igreja e reconhecem a sua importância fundamental, e aqueles outros que consideram que, a partir do Conc. Vaticano II, a Igreja despertou de um longo sono e se abriu a uma suposta primavera, rejeitando tantos séculos de obscurantismo. Sem precisarmos tratar as coisas com muito rigor, poderíamos dizer tranquilamente que o segundo grupo não é católico, pois nega verdades fundamentais da Fé.

Pois bem. Embora isto seja tão evidente para quem conheça minimamente a Igreja, o fato é que as supostas autoridades da Igreja no Brasil ou se debandaram para o segundo grupo ou ficaram num híbrido estranho e contraditório entre as duas posições, seja pela indecisão, seja pela tentativa de elaborar uma síntese hegeliana; ou, ainda, mantiveram uma certa convicção do valor da tradição, mas assumiram uma postura tímida e politicamente correta demais que os impede de elevar a voz ou de se pronunciar com clareza a respeito dos erros que pululam no nosso Brasil. Lembro-me, agora, do excelente texto do Pe. Leonardo Castellani "A Covardia é pecado". É difícil supor um caso em que ela seja mais grave do que o do terreno da Fé. Claro que há poucas exceções de bispos e padres corajosos... são poucas, mas há.

No entanto, como Deus nunca deixa a sua Igreja desamparada, é próprio do nosso tempo o fato de que muita gente, depois de uma aparente vitória do modernismo e da Teologia da Libertação, vem redescobrindo o frescor da Tradição. Saturados de um discurso por demais ideológico e que claramente se afasta da proposta do Evangelho, já são várias as pessoas que reencontraram água cristalina nos documentos antigos da Igreja, na voz dos Papas, nos autores espirituais, nos santos doutores, enfim, nesta Tradição bimilenar da qual podemos absolutamente nos orgulhar.

Eu posso me dizer um desses casos. Sempre me pareceu que algo ia estranho na fé contemporânea. Ela me soava claramente distinta da de antigamente. Eu sequer conhecia direito esse mundo belíssimo da Tradição Católica, a não ser por alguns livros de santos que eu sempre li. 

Mas, quem passa a se debruçar sobre estas questões, mesmo que tente disfarçar, vai percebendo que coisas estranhas aconteceram. As mudanças foram, por demais, radicais. Aquilo que vinha sendo guardado com tanto carinho e por tanto tempo viu-se, de repente, reputado como caduco. Não quero insinuar que, em todo este percurso anterior, tudo fora um mar de rosas. Nem eu vivi aquela época, nem os documentos a respeito se referem a esta suposta absoluta harmonia empírea. Não. Mas, o que agora vivemos e tem sido promovido por certas autoridades religiosas, se comparado com a clareza e o rigor de antes, se mostra como um negócio caótico. E muita coisa mudou sem que tivesse uma razão clara para isso.

Um caso muito especial é, por exemplo, o da Santa Missa no rito antigo. Embora seja a Missa que santificou a maior parte dos santos católicos, ela simplesmente, sem nenhum motivo que sequer se aproximasse de uma razão justa, foi proibida, e isso quando pesava sobre qualquer possível mudança substancial na sua estrutura uma grave proibição do Papa Pio V.

Sobre isso, então, temos pelo menos dois problemas: primeiramente, ordenou-se uma proibição ilícita do rito tridentino, quando Pio V havia decretado, explicitamente, o que segue:

"Além disso, em virtude de Nossa Autoridade Apostólica, pelo teor da presente Bula, concedemos e damos o indulto seguinte: que, doravante, para cantar ou rezar a Missa em qualquer Igreja, se possa, sem restrição seguir este Missal com permissão e poder de usá-lo livre e licitamente, sem nenhum escrúpulo de consciência e sem que se possa incorrer em nenhuma pena, sentença e censura, e isto para sempre." (Quo Primum Tempore, n. 8)

Em segundo lugar, efetuou-se uma modificação radical da estrutura da Santa Missa, quando o mesmo papa supracitado havia, na mesma bula, determinado o seguinte:

"a presente Bula não poderá jamais, em tempo algum, ser revogada nem modificada, mas permanecerá sempre firme e válida, em toda a sua força." (n. 9) e concluía do seguinte modo: "Se alguém, contudo, tiver a audácia de atentar contra estas disposições, saiba que incorrerá na indignação de Deus Todo-poderoso e de seus bemaventurados Apóstolos Pedro e Paulo."

Ou seja, o negócio é muito sério! Se é verdade que contra fatos não há argumentos, o que se seguiu depois da reforma radical que se empreendeu e se tomou como o surgimento de uma nova Igreja foi um grande arrefecimento da Fé! Muitos apostataram; outros tantos, ávidos de assumir as novidades das novas interpretações, foram aos poucos escasseando a frequência nos sacramentos ou simplesmente considerando-os desnecessários. O zelo litúrgico desapareceu em muitos lugares. O grande e glorioso patrimônio da música sacra foi posto de lado em favor das novas composições, muitas delas de uma mediocridade tal que, se comparadas às tradicionais, seriam capazes de corar os anjos de vergonha. 

Abandonou-se irrefletidamente um imenso tesouro cultivado por séculos e aderiu-se irresponsavelmente aos inúmeros sofismas de um humanismo mesquinho, um antropocentrismo idólatra, relativizando, para tal, a verdade pela qual deram a vida tantos homens santos da Igreja. 

Mas, graças a Deus, muitas pessoas, velhos e jovens, voltam, nestes dias, a ter contato com o espírito absolutamente único do catolicismo tradicional. Voltam a se deparar com um rigor teológico e filosófico, com uma coerência doutrinária tão maior, que torna-se necessário fazer um esforço a fim de conciliar o antes e o agora e afirmar que é a mesma Igreja. Daí a tentação do sedevacantismo e de outras tantas correntes radicais. De fato, para quem se detém a olhar tudo isso com sinceridade, é impossível não constatar que algo não foi bem. Algo de muito errado se produziu e a literatura que o comprova é extensíssima.

E todo esse texto que vou pondo agora me foi motivado por apenas uma frase do Evangelho de hoje, onde Nosso Senhor diz: "E ninguém, depois de beber vinho velho, deseja vinho novo; porque diz: o velho é melhor”.  (Luc 5, 39)

De fato. De fato. De fato. Quem experimenta a vida pulsante da Tradição Católica verá com clareza que, comparadas a ela, as inovações e tentativas de uma fé imanente aparecem como cadáveres, estruturas sem vida, sem espírito; um mero constructo do engenho humano, um simulacro da Fé.

Por fim, um recado à CNBB: "custa-me dizê-lo, mas, não me submeto à vossa brincadeira irresponsável!"

Que a Virgem Maria nos ajude porque, sinceramente, precisamos muito.

Fábio

Pérolas da TL - Parte I



Aproveitando que estou meio que em "férias extraordinárias", tenho lido um livro sobre a Teologia da Libertação e quero pôr, aqui, algumas pérolas que vou encontrando no folhear das páginas. Claro que não as ponho todas, mas vou fazendo um modesto apanhado destes erros travestidos de um romantismo barato. Fazendo este amontoado neste espaço, espero poder contribuir para que os leitores se convençam, de todo, que a TL é uma deturpação do catolicismo, um reducionismo da religião e uma instrumentalização do cristianismo para fins ideológicos de esquerda. Eu gostaria muito de comentar uma a uma as citações abaixo, mas, ao menos por ora, limito-me a transcrevê-las e apenas destacar algumas expressões, para não ficar um negócio muito extenso. Quaisquer dúvidas, xingamentos ou pedidos de socorro, deixem comentários.

***

"Quando dizemos Igreja dos pobres, devemos fazê-lo com uma alegria imensa. Primeiro, com a alegria de saber que é uma dimensão evangélica; segundo, para dizer que aqueles queridos de Deus, aqueles com os quais jesus mais se identificou, estão hoje ativos, presentes na Igreja: querem participar das decisões, das deliberações, nos movimentos eclesiais; querem também participar na escolha daqueles que devem dirigir a Igreja."

João Batista Libâneo
***

"(...) o povo torna-se povo de Deus quando escolhe Deus, e mais, quando se sente escolhido por Deus e assume o projeto de Deus na história. Não é que Deus tenha um projeto para cada pessoa (é lógico que cada pessoa é única, é amada por Deus), mas a pessoa está dentro da família humana, está dentro de um povo e esse povo tem uma missão histórica."

L. Boff
***

"Essa porta (O CVII) é que permitiu o refletir, o viver, o acercar-se não ao mundo dos ricos, mas ao mundo dos pobres. Daí surgiram as CEBs, todo esse movimento diferente de uma Igreja nova que, na realidade, é a Igreja mais primitiva, mais evangélica, mais das origens. Nasce do Vaticano II, mais relido e vivido a partir da América Latina"

V. Codina
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"De certo modo deveria ser uma tautologia (o termo Igreja dos pobres), porque a Igreja - por sua natureza, por sua formação e origens - nasce do meio dos pobres. Só que, depois de uma trajetória de mais de dois mil anos, teve tantas aventuras que ficou de certo modo monopolizada, dominada, manipulada por todas as formas de dominação, de direção, deixando de ser dos pobres. Nesse sentido, a Igreja dos pobres atualmente é como que uma utopia, uma aspiração, um desejo, embora haja também subjacente, oculta, escondida, uma Igreja dos pobres que é diferente. Os pobres que têm toda uma herança cristã, no fundo não confiam nunca plenamente nos padres, nos bispos e religiosos. É verdade que há alguns ingênuos, mas de modo geral não confiam plenamente. Não vão competir, nem discutir ou brigar, pois sabem muito bem que perdem. Qualquer discussão vão perder. Mas ficam com a sua consciência e ficam se olhando. Sabem bem que existe a religião do padre e a sua religião, a Igreja do padre e a sua Igreja."

J. Comblin
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"A Igreja dos pobres é sobretudo a comunidade eclesial constituída por uma grande rede de comunidades de base. Comunidades onde os pobres têm o privilégio, o lugar central. As CEBs seriam o tecido vivo, a carne e o sangue dessa nova Igreja. Porém, a Igreja dos pobres não é só constituída pelas CEBs, como se pensa. As CEBs são o eixo dessa Igreja dos pobres. Junto com as CEBs, em torno desse eixo que elas constituem, a Igreja dos pobres integra também a Igreja institucional renovada com todas as suas instâncias ministeriais (bispos novos, seminaristas novos, freiras novas, teólogos novos, cúrias diocesanas novas, movimentos religiosos renovados, etc.)"

C. Boff
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"Toda a tradição da Igreja ocidental esqueceu o Espírito Santo! Não formalmente, pois continuou-se cantando no credo: "creio no Espírito Santo...". Mas, praticamente sem consciência, dentro de um esquema rigidamente autoritário, em que tudo vem de cima para baixo e o povo mantém-se puramente receptivo. Como dizia Pio X, o papel dos leigos é obedecer. Se o papel dos leigos é somente obedecer, receber, então não há lugar e espaço para o Espírito Santo. Na prática, inclusive, ele está reservado para a hierarquia. É aquele que justamente aconselha a hierarquia e lhe dá poder e força. E isto é uma inversão completa de toda  revelação bíblica.

J. Comblin
***

"Para a Teologia da Libertação a preocupação central é o Reino de Deus, que é algo absoluto na história. (...) A Igreja é algo relativo e a realidade do Reino de Deus, tal como vai aparecendo, como se vai construindo nos processos populares de libertação, é o que dá sentido à Igreja. Para nós, a Igreja é algo relativo. É importante porque sem a Igreja não seríamos capazes de descobrir a presença do Reino de Deus nos processos revolucionários, nos processos de libertação. A Igreja é necessária, mas relativa."

P. Richard
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"Na Igreja de hoje o leigo não tem muito lugar, embora seja 99% da Igreja. Ele está na margem da Igreja. O ideal é chegarmos a uma Igreja comunidade, de irmãos e irmãs, fraternos, igualitários, onde as pessoas ocupem distintos lugares, distintas funções. Em que não se falasse mais de leigos contrapostos a clérigos, mas de cristãos, homens e mulheres, com distintas tarefas, onde tanto conta o violeiro como o padre que anima a comunidade; tanto um coordenador de comunidade, que é ao mesmo tempo líder sindical, como um bispo; onde todos se sentissem bem na comunidade, com uma vocação secular, dentro do mundo."

L. Boff
***

"Até agora, a reflexão sobre Maria tem sido feita por homens. Não que a gente veja nisso algo de ruim, má fé, etc. Não é isso. Mas, realmente, os homens é que pensaram, falaram, refletiram sobre essa mulher, criatura humana, criatura de Deus, que foi Maria de Nazaré. Consequentemente, a visão que se tem de Maria tem sido até agora uma visão masculina, marcada pela projeção do ideal do feminino que o homem faz. Nesse sentido, tem havido - acredito que até involuntariamente - uma espécie de domesticação da mulher por parte da mariologia. Ou seja, a mulher cristã tem Maria como modelo e, portanto, deve imitar Maria, uma mulher que era apresentada como muito difícil de ser imitada: virgem e mãe que sempre diz sim, toda aquela coisa clássica, passiva, submissa. A mulher cristã que começou a tomar consciência de seu papel de ser pensante e desejante, começou a rejeitar isso."

M. Clara


TEIXEIRA, Faustino Luiz Couto (Org.). Teologia da Libertação: Novos Desafios. São Paulo: Ed. Paulinas, 1991. pp. 21-50

O logro da Teologia da Libertação


"Só quem nunca frequentou os espaços da pastoral popular pensa que ela é apenas lugar de reflexão política e de crítica social. É verdade que em alguns lugares a discussão ofuscou a celebração e a comunidade de fé correu o risco de reduzir-se a um grupo ideológico. Mas, uma vez mais, a dimensão religiosa do povo tende a emergir as virtudes teologais que estão nos corações, e a recuperar a densidade da relação com Deus. Há enorme criatividade nas celebrações litúrgicas e, principalmente, no escutar a palavra de Deus. Todos estes anos viram o crescimento dos círculos bíblicos, que trazem permanentemente o sinal e o chamado do Deus da vida".

Luiz Alberto Gómes de Souza, Teologia da Libertação: Novos Desafios, Prólogo. São Paulo: Ed. Paulinas, 1991. Pg. 8

**

É curiosa essa afirmação que vai acima. Eu já frequentei, não exatamente uma reunião específica da TL, mas já fui a eventos que eram conduzidos por adeptos desta corrente ideológica e sei bem como que é. De fato, o norte das discussões é sempre a dimensão social. Esta é como a pedra base sobre a qual tudo o mais será construído e reduzido. As passagens da Sagrada Escritura funcionam, neste contexto, apenas como instrumentos que, por via da analogia, servirão para dar autoridade ao discurso pseudo-cristão. Toda a História da Salvação é lida sob a lente da luta de classes fazendo com que Jesus e os profetas se convertam, por fim, em meros revolucionários.

Afirmar que "a dimensão religiosa do povo tende a emergir as virtudes teologais que estão nos corações" é dizer coisa com coisa. Primeiro, que as virtudes teologais não têm sua origem "nos corações". Elas são dons de Deus e podem ser facilmente perdidas. Não basta um movimento religioso que mobilize sujeitos inocentes e cultores de uma "mística popular" para que as virtudes teologais venham a emergir. Isso é um naturalismo barato próprio de quem não tem idéia do que seja o catolicismo. Ao contrário, é preciso possuir uma fé verdadeira e completa, tal qual a Igreja a ensina, sem inovações ou novidades, para que a Fé, como virtude teologal, se estabeleça na alma. E é Deus quem a dá. Para tanto, é mister submeter a inteligência e a vontade à doutrina tradicional da Igreja. A Esperança, como virtude teologal, tem seu fundamento na Fé. Portanto, se não há Fé Teologal, não há Esperança. Por fim, a Caridade é a mais fácil de se perder. Basta não ir à Santa Missa num domingo por um motivo banal e já era. Muitos destes adeptos de uma "religião popular" faltam as Missas dominicais para participar de celebrações festivas nas periferias ou em sítios. Não venham, portanto, dizer que há virtude teologal nisso aí. E isso é só um exemplo dentre tantos outros que poderiam ser citados.

Por fim, se não há a Graça, não há "densidade da relação com Deus". A gente vai percebendo que, nesse ambiente revolucionário pseudo-devoto, há sempre um reducionismo da religião, a adesão a um certo imanentismo do sagrado. A espiritualidade se reduz, pra esse povo, aos meros sentimentos dos presentes, às intuições provindas dos mil símbolos que utilizam; enfim, a mística é esgotada pelo subjetivo. Neste contexto, a presença objetiva de Nosso Senhor é dispensável. Importa apenas que Ele sirva de inspiração revolucionária, numa leitura forçada da Escritura. Mas isso não é catolicismo, oras. Isto é, como dizia Sta Teresa, abobamento.

Dizer que "há muita criatividade nas celebrações litúrgicas" não é fazer nenhum elogio, mas apenas constatar definitivamente o quão distante da Igreja andam essas reuniões pseudo-católicas. Na verdade, as celebrações litúrgicas não precisam de muita criatividade, mas do acatamento e do senso do mistério, do respeito. Ao invés da auto-promoção da invencionice, requer-se a renúncia de si mesmo diante do Sacrifício do Senhor, o silêncio, a gravidade, a seriedade, a integridade de alma. Uma celebração que traz a grande criatividade dos presentes torna-se uma celebração muito ordinária, reduzida à medida humana e que, como bem dizia Bento XVI, configura-se como um grito no escuro. Na Celebração Católica, ao contrário, é Deus quem determina o que acontece e a celebração tem o jeito d'Ele. É por isso que ela nos santifica, porque é como uma "invasão" do Sagrado no nosso cotidiano. 

É preciso ganhar um senso agudo de que sozinhos não podemos nada. Não adianta fazer mil invenções com o nosso gosto. Será só barulho, como diz S. Paulo. Abrir-se a Deus é saber que Ele nos ultrapassa e aprender a respeitar aquilo que Ele determinou; reconhecer que a Liturgia tem uma natureza própria e que isto demanda obediência. Para tal, não convém criatividade e invencionice, mas tão somente acatamento e respeito. E quem pensa que esta segunda atitude provoca na alma um desgosto, uma tristeza, está enganado. Ao contrário, é quando nos abandonamos em Deus, fazendo a Sua vontade, que a alegria que não tem fim pode reluzir na alma. "Que a minha alegria esteja em vós e que a vossa alegria seja plena", disse Ele aos Apóstolos. E lembremos que esta é a alegria de uma vida cujo único intento era fazer a vontade do Pai. É quando descobrimos ser esta Vontade algo que está além da nossa que, renunciando a nós mesmos, nos abrimos à profundidade do Mistério que nos ultrapassa.

O contrário, porém, isto é, a livre manipulação da celebração, o fechamento em nosso próprio limite, não faz mais do que causar uma espécie de frustração que só é agravada pelo auto-esforço do sujeito de disfarçar a absoluta fatuidade do que se construiu. Muito barulho, muitos sorrisos, mas, no fim, um nada. Não há nisso verdadeira conversão. O fim deste percurso é a mediocridade ou o abandono total da religião. 

Com relação aos sujeitos que promovem estes tipos de criatividade e que, em simultâneo, se negam a obedecer as determinações da Igreja, Nosso Senhor bem lhes poderia dizer: "Vós nem entrais no Céu, nem deixais que os outros entrem, porque ludibriais os inocentes. Com esses cultos à vossa medida e segundo o vosso gosto e vossas paixões, causais nas almas dos pequenos a falsa suposição de que isto os dispensa da vida sacramental. Vós demonstrais querer saciar-lhes a sede quando, na verdade, ofereceis veneno para que bebam e morram."

A "criatividade na escuta da Palavra de Deus" nessas reuniões da TL é obviamente importante para que se possa interpretar a Escritura de modo diverso do que ensina a Santa Igreja. É preciso, mesmo, ser muito criativo para fazer de Jesus um precursor de Marx e reduzir o Seu projeto a uma luta contra as estruturas econômico-sociais. Em toda essa conversa, vê-se a total abstração da Graça, dos Sacramentos, do Transcendente, etc.

A Teologia da Libertação, sob as máscaras de um cuidado zeloso pelos pobres e marginalizados, esconde uma face perversa, avessa a Deus e à Religião; uma ideologia que pretende fazer que o homem acredite que o céu a que é chamado é aqui e agora, devendo ele, portanto, militar em prol da "sagrada revolução". O pior é que muitos destes pobres terminam comportando-se como típicos esquerdistas ao mesmo tempo em que levam na alma a certeza de que se tornaram católicos exemplares. 

O grande ponto que se deve considerar é que todos estes pressupostos marxistas apenas encontram espaço na alma quando esta ignora a doutrina da Igreja. "Meu povo se perde por falta de conhecimento", diz Nosso Senhor no livro de Oséias. Portanto, para combatermos este erro pernicioso, cumpre formar bem os cristãos. Mostremos, caríssimos, os problemas desses discursos e lutemos para que todas as pessoas, inclusive os pobres e marginalizados, tenham contato com a legítima luz católica. Como dizia Sto Tomás, a Fé é mais importante que a vida, pois ela nos livra da segunda morte. Lutar para que a Fé seja conhecida sem erro é, portanto, o maior ato de caridade que podemos fazer pelos homens. É a partir de uma Fé correta e íntegra que as intervenções, inclusive sociais, ganharão legitimidade e, de fato, promoverão a pessoa humana, sem reduzi-la.

Que Nosso Senhor, Deus verdadeiro, nos ensine. Que a Virgem Santíssima esmague os erros que se insinuam na Igreja de Seu Filho. Que Deus nos guarde a todos.

Fábio

A cultura moderna e a "insuportável presença" de Jesus


"Não suportaram, outrora, judeus e pagãos, o convívio com Deus vivo e verdadeiro. Deram-lhe morte, e morte de cruz. Da mesma "insuportável presença" quer também livrar-se a moderna cultura. A seu reino é anteposta a promessa de um paraíso terrestre gerado pela revolução, pelo desenvolvimentismo e pela tecnocracia. Não disse estar Ele em sua Igreja, presente nela e até a consumação dos séculos? Pretendem pois aniquilá-la, querendo-a infiel e idólatra: no mundo e do mundo; e, como supremo, final, satânico objetivo atingir pelo "cristianismo secularizado" o que chamam a "morte de Deus"".

Hélio Drago Romano, A Gnose e a "Morte de Deus"

Um sonho estranho e cômico.

Estávamos nos preparando para tocar numa Santa Missa. Ela ia acontecer num convento, um lugar meio separado da cidade, se bem que este ponto só me foi percebido posteriormente. Como os sonhos fazem mudanças e não justificam, fundindo informações, não me houve nenhum estranhamento pelo fato de que, de início, parecesse-me que estávamos na igreja. Mas a coisa toda, de resto, deu-se de modo totalmente descabido. Não sei bem o que foi, mas a música de entrada me causou algum tipo de indignação. O negócio, porém, me pareceu absurdo de todo quando, na leitura do salmo, um sujeito abandona o lecionário, põe-se à frente do ambão, e começa a discursar longamente sobre alguma coisa pretensamente relacionada ao texto, mas ornamentada com suas “profundíssimas” meditações pessoais. Algum tipo de contextualização histórico-social acrescida a alguma chave hermenêutica de leitura. 

Desisti de tocar e saí, convencido de que eu não deveria estar ali. O padre, então, me parecia também desgostoso; fazia uns sinais, mas era totalmente ignorado. Devia ser daqueles tipos em que o respeito humano é mais forte do que o zelo litúrgico; devia manusear o chicote, mas se limitava a uns gestos tímidos. Deste tipo, há muitos. Como eu já adiantei, foi nesta altura que saí e só agora é que eu venho a notar que estávamos no convento, mas não numa capela, e sim numa sala de aula. O altar parecia ser improvisado: um daqueles birôs de professor. Eu fiquei ao longe, donde, por uma janela central, se podia ver o que acontecia no lugar. E, a partir de então, qualquer semelhança forçada com a liturgia católica sumira. As músicas, absurdas, porém assemelhadas às propostas de inculturação da CNBB. De longe, uma garota, com roupas curtíssimas, rebolava e rodava ao lado do altar, como se estivesse num ambiente carnavalesco. Tudo se orientava em função da descontração. Parecia-me aquelas confraternizações escolares de fim de ano. 

Foi nesse ponto que eu retornei ao recinto. O padre, sentado, ostentava uma expressão grave. Era provavelmente um medroso. Discordava, mas não se pronunciava. Os demais estavam sentados no fundo da sala. A ornamentação do lugar mudara bastante desde que eu tinha saído. Umas espécies de varetas enormes, em que se destacavam as de cor vermelha, percorriam a sala em diagonal ascendente. Nesta altura, eu portava algo nas mãos e entrei na sala. Minha fala foi: “licença professor... quer dizer... padre..” O que eu segurava caiu-me das mãos e rolou um pouco forçando-me a aproximar-me dos que me viam ao fundo. Segui falando algumas coisas, dentre as quais eu me recordo destas: “desculpem-me o modo desajeitado. É que nunca estive num lugar assim. Isso tudo me é muito novo. Porque, de certo, esta não é a Liturgia tal qual Roma a prescreve.” Neste ponto, eu fitava o padre e falava com mais vagar, assegurando-me de que cada sílaba fosse bem compreendida, e as pronunciava em tom de desafio. Por fim, já retirando-me da sala, despedi-me: “sua bênção, professor...” 

Apenas ouvi algumas reclamações que provinham do fundo da sala, onde uma voz familiar me censurava a intolerância, a visão retrógrada e a obediência cega à hierarquia romana. Eu temi que o padre me perseguisse, mas ele ficou simplesmente quieto. Obviamente, era uma marionete nas mãos dos leigos lá atrás. 

Como eu saíra da sala com esse receio de que o padre viesse tomar satisfações, fui correndo e, agora sim, eu via de modo mais panorâmico o ambiente do convento. Fui descendo uma estreita ladeira, uma estradinha no meio de um campo com plantinhas à volta. Vi-me sem camisa, se bem que a segurava nas mãos. Deparei-me com algumas religiosas, de hábito, que levavam crianças para algum lugar na direção de onde eu viera. Cobri improvisadamente a minha parcial nudez com a blusa que trazia nas mãos e, após ter passado pelas pequenas, perdi perdão a Deus por aquela imprudência. Terminei por encontrar a porta de saída onde, sentindo-me agora confortável, reencontrei alguns dos meus. Contei o ocorrido, provocando o riso de uns e vi um seminarista conhecido meu, bastante tradicional, que, então, assumira uma posição curiosa: estava em posição de flexão de braço, mas com apenas um deles no chão, apoiado sobre o punho fechado. A outra mão ia atrás das costas. Talvez estivesse se mortificando pelo que houvera escutado. 

Numa sala ao lado, porém, uns possíveis organizadores do evento escolar que eu havia presenciado falavam entre si de suas influências litúrgico-artísticas. Escutei um curiosa mistura: Dom Helder Câmara e Santo Daime. Realmente, uma combinação e tanto. Rsrs...

Fábio

Exemplo do Zelo pelo Sagrado da CNBB

Dom Dimas Lara Barbosa, arcebispo eleito de Campo Grande, celebra missa no IV Encontro de Jornalistas da CNBB, realizado no último mês de março. Detalhe para o sacrário no meio do horrendo altar.

Dom Dimas Lara Barbosa, arcebispo de Campo Grande, celebra missa no IV Encontro de Jornalistas da CNBB, realizado no último mês de março. Detalhe para o pobre sacrário no meio do horrendo altar.

Fizestes da Minha casa um covil de ladrões...


"A minha casa é uma casa de orações, mas vós fizestes dela um covil de ladrões."

Esta é a frase que Jesus diz aos fariseus e aos que usavam o Templo como lugar de comércio, pervertendo o sentido original da casa de Deus e causando uma inversão na hierarquia dos valores. Jesus, movido de zelo, derruba as barracas e expulsa os vendilhões. Ele é Deus e, como tal, tem o direito de fazê-lo. Vem purificar o culto, as intenções para com Deus, nos ensinar como Deus quer ser servido e reafirmar o primado do amor a Ele.

É próprio da virtude da justiça repôr em ordem aquilo que foi bagunçado. No templo, em Jerusalém, as pessoas perdiam de vista a primazia do sagrado em virtude do faturamento e comercialização dos materiais de culto. Se o templo era um lugar de sacrifícios, nada mais oposto que a instrumentalização do divino em função da auto-promoção. Quando se faz isto, causa-se uma desordem e naturalmente atenta-se contra a virtude da justiça, cujo imperativo é amar a Deus sobre todas as coisas e, portanto, fazer tudo gravitar em torno dEle.

No templo, porém, parecia haver qualquer distração, como se o comércio assumisse um valor em si. Certos aspectos culturais eram legítimos, como, por exemplo, a venda de animais para o sacrifício ou a troca das moedas romanas que ostentavam a face de César. No entanto, o fim primordial para o qual convergem todas essas práticas parecia ter sumido do horizonte, e o templo surgia no coração daqueles sujeitos como uma oportunidade sobretudo rentável. Tinha-se, então, o primado dos próprios interesses, a idolatria de si mesmo, a exclusão do verdadeiro espírito de sacrifício, a extinção da devoção, e tudo isso em pleno Templo como a afrontar a dignidade de Deus, de Quem, no entanto, não se deve zombar.

Depois da intervenção enérgica de Nosso Senhor, os apóstolos se lembram das palavras da Escritura: "O zelo por tua casa me consome". Era por zelo e, portanto, por amor que Jesus os acusava de erro e os chamava ao amor primeiro, à prevalência da oração, à devoção autêntica, ao verdadeiro louvor que somente poderia ser dado pelos que se faziam como crianças, isto é, pequenos diante de Deus.

Eu penso que chegamos, hoje, a um estado de coisas muito mais grave do que o que havia no templo de Jerusalém. E, considerando que atualmente fazemos parte da Igreja fundada por Aquele que purificou o Templo, o descaso que somos obrigados a contemplar na Sua casa ganha, agora, uma dimensão ainda mais absurda. Aquela idolatria ou aquele desprezo pelo Dono da Casa em função dos próprios interesses é uma irrazoável usurpação e o temos visto, hoje, no descaso com a Liturgia, no barulho das igrejas, nas músicas ideológicas, na adesão a uma religião naturalista e anti-metafísica, no abandono das promessas de Cristo pelos devaneios de Marx, no primado da ação sobre a contemplação, na invenção de um culto ao modo humano em detrimento daquilo que é dado por Deus e independe aos diferentes contextos, sendo, portanto, universal.

"A minha casa é uma casa de oração; mas vós fizestes dela um covil de ladrões". Ladrões porque roubam aquilo que é direito de Deus! Ladrões porque usam da religião para frontalmente contrariar aquilo que o fundador do Catolicismo instituiu. Ladrões porque dificultam, a partir de um poder paralelo - como o denunciava o valente Pe. Paulo Ricardo - que se ponha ordem ao caos, que a verdadeira suprema autoridade da Igreja exerça sem impedimentos aquilo que lhe convém por direito, que as almas sejam bem orientadas, que Nosso Senhor, enfim, reine absoluto na nossa sociedade. Usurpação é roubo...

Precisamos redescobrir que a casa de Deus não é uma boate, não é uma casa de shows onde nos encontramos para dançar e jogar conversa fora. A casa de Deus é, sempre e em todo momento, um lugar de oração, de respeito, de silêncio e de sacrifício. É o monte santo do Senhor e, como tal, nos separa, por força, da baixeza do mundo; é o lugar onde não podemos entrar sem retirar as sandálias; é onde absolutamente não nos é dado ser protagonistas, sendo, como diz Jacó, a terrível casa de Deus, onde Ele, de fato, habita. Precisamos redescobrir que, sendo Monte Santo, a Igreja é o verdadeiro Monte Calvário, onde ocorre o Sacrifício do Senhor. Subir neste monte é, portanto, imitar o Seu sacrifício, pondo o interesse de Deus em primeiro plano e lhe respeitando o posto de Verdadeiro Rei, diante do qual assumimos a nossa verdadeira natureza, somos libertados do erro e da mentira, e somos apresentados, enfim, à alegria da Sua Presença e da Sua visão. O Monte Santo, onde nos encontramos com Ele, é o lugar em que O devemos imitar, abandonando-nos ao Seu amor.

Purifiquemos a casa de Deus. E se não o podemos fazer efetivamente nos templos físicos, não sejamos nós participantes das algazarras e das troças que estes ladrões promovem contra o Sagrado. A casa de Deus é um lugar de oração e, portanto, de silêncio e profundo respeito. Que o zelo pela casa do Senhor também nos consuma.

Deus seja louvado.

Ad Iesum Per Mariam

Fábio.
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