Tradutor / Translator


English French German Spain Italian Dutch Russian Portuguese Japanese Korean Arabic Chinese Simplified
Mostrando postagens com marcador João Paulo II. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador João Paulo II. Mostrar todas as postagens

Karol Woytila descobre o "Tratado"



"A leitura deste livro fez com que eu mudasse a minha vida de forma radical e definitiva. Apesar disto, meu caminho interior foi longo, coincidindo com a preparação clandestina ao sacerdócio que eu vivenciava. Na ocasião, este tratado singular caiu em minhas mãos. Não se trata de um simples livro que se lê, apenas, e basta. Eu o levava sempre comigo, mesmo quando ia à fábrica de soda, se bem que a bela capa já estivesse manchada de cal. Eu lia e relia, sem cessar, e, sucessivamente, certas passagens.

Logo percebi que, além da sua forma barroca, o livro apresentava algo de fundamental. A partir de então, a devoção que, outrora eu dedicava à Mãe de Jesus, tanto na infância quanto na adolescência, deixou lugar a uma nova atitude de minha parte, transformando-se numa devoção vinda da mais profunda fé, como sendo o próprio cerne da realidade Trinitária e Cristológica. Antes, eu me mantinha retraído, temendo que a devoção mariana pudesse se avultar, em detrimento do amor a Cristo Jesus, em vez de ceder-lhe o merecido lugar; compreendi, então, à luz do tratado de Grignon de Montfort, que a realidade era bem outra. Nossa relação interior com a Mãe de Deus resulta, de forma orgânica, de nosso elo com o mistério de Cristo. Não existe a menor hipótese de que o amor que dedicamos à Virgem supere nosso amor a Deus. (...) Podemos até afirmar que, àquele que procura conhecer e amar a Deus, o próprio Cristo designa sua Santa Mãe, como caminho e intercessora, como fez no Calvário, oferece ndo-a a seu discípulo, João."

(João Paulo II e André Frossard, Não Tenhais Medo! 1982, pp.184-185) 

A concepção de Liturgia da CNBB

Um homem, que poderia ser um apóstolo, 
torna-se uma úlcera na Igreja por falta de justa indignação,
Pe. Frederick William FABER


Estive dando uma zapeada pela net e, mais uma vez, entrei no site da CNBB quando, de repente, o nome de um artigo me chamou a atenção. Nele se lia "A Primazia da Assembléia" e, já imaginando do que se tratava, lá fui eu ler o artigo, apenas para confirmação das minhas suposições. De fato, um texto muito problemático do qual ponho abaixo alguns excertos. Os grifos e comentários entre parênteses são meus.

**

"Reunidos em nome de Jesus, os fiéis (...) recebem o mandato de repetir seus gestos e palavras  em sua memória (1 Co 11,23-25)." (Esta passagem inicial é muito coerente com o nome do artigo, afinal, se a primazia na Liturgia é da assembléia, então é ela quem "rememora" os gestos e palavras de Jesus... O realismo do Sacrifício e a diferenciação do sacerdote ordenado, como se poderá ver, estão nublados em todo o artigo.)

Esta assembléia sacerdotal (...) deve ser a referência mais importante dos autores, compositores e demais agentes litúrgico-musicais. (A referência mais importante, então, deixa de ser a Tradição Católica, aquela que tantos músicos de elite invejaram pela sua excelência, e passa a ser a "assembléia sacerdotal". Notem que aí se usa um termo ambíguo e não há qualquer interesse em esclarecer possíveis equívocos.)

Foram estas convicções elementares que levaram a renovação da música litúrgica católica a compreender e a insistir no primado da assembléia! (A consequência é lógica: de premissas erradas, segue-se uma dedução errada. Na Liturgia não é a assembléia quem tem o primado, pois a Sagrada Liturgia é, antes, dada, e não construída).

Servir à assembléia é a base de toda liturgia verdadeiramente pastoral. Servir não quer dizer que se satisfaçam não importa quaisquer desejos manifestados na comunidade. Trata-se de introduzi-la sempre mais, pela fé, no mistério de Jesus Cristo. Mas como fazê-lo sem conhecer a comunidade, sem levá-la em conta, para que ela, toda ela, se ponha em marcha?” 

 “Levar em consideração a assembléia celebrante, com suas possibilidades, sua riqueza e seus limites, é a primeira preocupação de uma liturgia verdadeiramente pastoral. É o caminho mais seguro para se chegar a uma celebração cheia de vida, significativa e personalizada, sobretudo quando se trata de música e canto” ( GELINEAU, Canto e Música no culto cristão. Cfr. também SC 27).

(Como sabemos, a Liturgia tem duas grandes finalidades: a primeira não é o serviço da assembléia, mas a glória de Deus. Isto nos coloca, forçosamente, diante da objetividade do Culto, no cumprimento daquilo que nos foi dado por Nosso Senhor, e não na promoção de criatividades sem conta. Em segundo lugar, a Liturgia se orienta para a santificação dos fiéis, mas esta santificação não se realiza pela relativização do sagrado; ao contrário, se dá pela conversão dos fiéis à objetividade do Bem, da Verdade e da Beleza, que deveriam ser expressos, em sua forma real, pela Liturgia. Dizer, então, que uma liturgia "personalizada" é o "caminho mais seguro para se chegar a uma celebração cheia de vida" é um disparate só possível por quem não faça idéia de onde esteja pisando. Aliás, esta idéia do pisar me lembra a exclamação de Jacó que, acordando de seu sono, exclamou: "Que lugar terrível este! É nada menos que a casa de Deus!". Com muito mais propriedade o podemos dizer nós, católicos, e a expressão nos dá uma idéia longínqua da seriedade do assunto de que estamos a tratar. Esta nova liturgia, promovida desgraçadamente pelos que juraram obediência à Igreja, tira Deus do centro e, aí, põe o homem. Deus deve, aqui, servir ao homem, adaptando-se a ele. Estamos numa inversão total da idéia de conversão. Não há, aqui, a "negação de si mesmo" de que nos fala Jesus. Há, antes, a afirmação, mesmo que em detrimento do sagrado.")

"Não tem sentido, por exemplo, escolher os cantos de uma celebração em função de alguns, que se apegam a um repertório tradicional, ou ainda de outros que cantam somente as músicas próprias de seu grupo ou movimento, nem de outros que querem cantar exclusivamente cantos ligados à realidade sócio-política, se isto vai provocar rejeição de parte da assembléia. Pois todos têm o direito de compreender e participar, com gosto,  sobretudo os mais desprovidos. É preciso que se pense em todos, e em cada um na comunhão com os demais." (Notem como tudo se torna subjetivo, e o metafísico simplesmente some. O optar pela tradição é tratado, neste texto, como se fosse um simples apego, uma moda. Quando, porém, se objeta que não se deve cantar coisas exclusivamente ligados ao social, toma-se cuidado para incluir aí um condicional: "se isto vai provocar rejeição de parte da assembléia". Quer dizer, não é que haja problemas em si..rsrs Aqui está denunciado o espírito da coisa. Depois, é dito que todos têm o "direito de compreender" e  isto pode ser compreendido como uma crítica à Santa Missa em latim. É que aí parte-se do pressuposto de que a Missa só é real quando é compreendida pela assembléia a quem pertence, como sugerido, a primazia. Mas isto é falso. Na Santa Missa, que é a perpetuação do Sacrifício da Cruz de modo incruento, é oferecida a Deus a divina Vítima, por um sacerdote ordenado que age em Persona Christi. A assembléia aí não tem primazia e não determina nada.)

Não é coisa fácil conhecer as necessidades verdadeiras, as capacidades reais e os gostos especiais de uma assembléia. O pior que pode acontecer é achar que tudo se resolve entre quem preside e o  regente ou animador do canto. E  o melhor será uma prática comunitária e democrática, onde as pessoas recebem as informações e a formação necessárias em matéria de liturgia e música, trocam seus pontos de vista, e com critérios e bom senso fazem seu discernimento, avaliam permanentemente sua prática  e vão encontrando a feição musical e litúrgica da assembléia. (E, neste contexto, nada da tradição musical da Igreja. É feita total abstração do canto gregoriano como modelo supremo da música litúrgica. O que importa aí é que se reconheçam os "gostos especiais" e que a escolha seja "democrática", feita pela troca dos "pontos de vista". Depois da promoção de toda esta ditadura do subjetivismo, o autor deste texto diz algo interessante: é preciso fazer isto com "critério e bom senso". rsrs.. Critério! Que Critério?! O único critério que se dá, aí, é o dos gostos pessoais da assembléia. E que bom senso? Bom senso seria reconhecer a realidade terrível da Liturgia e obedecê-la tal como a Igreja o ordena. Mas faltou bom senso a quem escreveu este artigo. Por fim, fala-se da "feição musical e litúrgica da assembléia". Para que, então, chamar-se Igreja Romana? Se cada um deve ter a sua própria feição, então ignore-se e despreze-se o imenso tesouro católico em prol das vontadezinhas de um grupinho que pensa que a liturgia é um brinquedo. É isso o que a CNBB pensa da Liturgia? Complicado.)

"Celebrar com uma assembléia homogênea não é algo que aconteçe(sic) sempre, nem parece ser o mais significativo. É bem mais fácil escolher cantos, música ou coreografia com ou para  uma comunidade monástica, um grupo de jovens, um encontro da Pastoral Operária ou um retiro de catequistas... Mas não é esse tipo de celebração o que melhor revela a feição católica, isto é, universal, da Igreja, onde ninguém é mais do que ninguém, onde todos cabem e são acolhidos com suas diferenças, seus valores e seus dons, para formarem o único Corpo de Cristo." (Aqui quero destacar duas coisas. A "coreografia" simplesmente não existe na Liturgia. Simplesmente não cabe. Insistir nisso é obstinação de desobedientes. Depois, a expressão destacada "onde ninguém é mais do que ninguém" é, de novo, ambígua. De fato, há um modo de se falar em igualdade sem ter que cair na ludribriação comunista. Mas, se o termo quer ser um ataque sutil à idéia de hierarquia, aí é problemático. De fato, o sacerdócio é mais alto que o estado laical e negá-lo é deixar de ser católico. Por fim, há uma ideologia que ataca qualquer uniformidade e exalta toda alteridade. Isto é um sofisma. Há, de fato, uma diversidade legítima e que enriquece a Igreja e lhe permite ser reconhecida como "Corpo Místico de Cristo", uma vez que um corpo dispõe, naturalmente, de uma diversidade de membros. Mas, ao fundo desta diversidade, há sim uma unidade essencial que é o que mantém a vida em comum dos membros. Esta unidade essencial põe limite à diversidade, de modo que esta não pode estar aberta ao infinito. Eu já dei este exemplo diversas vezes, mas vai de novo: num corpo humano há diversos membros. Mas disto não decorre que possamos ter esperanças de que, num ou noutro, nasça uma asa. E por quê? Porque a diversidade de membros é limitada pela essência, neste caso, a humana. Daí que esta conversa de dizer que todo diferente enriquece é balela. Se não se coadunar com o espírito do único Corpo de Cristo, não serve e não enriquece. Lembremos, por fim, da oração de Jesus: "Que todos sejam um". Esta unidade não se dá pela junção irrefletida de todos os diferentes, mas pela conversão e purificação destes àquela unidade. Se não é possível unir-se, deve ser rejeitado. E, dentre as culturas, há muito que simplesmente não cabe. A CNBB, porém, parece estar se lixando pra a harmonia do Corpo de Cristo. Ela parece preferir a bagunça...)

(...) seria melhor empenhar-se em ir ao encontro de cada situação, tornando-se “servo de todos , a fim de ganhar o maior número possível” (1 Co 9,19). (rs.. Não é assim que se ganha "o maior número possível". Isto me lembrou a fala de um sacerdote conhecido meu quando, num dia 20 de novembro, os adeptos do candomblé entraram na igreja com os seus trajes, batuques e danças. Interrogado sobre o porquê daquilo, ele simplesmente respondeu: "a Igreja é mãe. Vai que, desse modo, um deles se converte..." Pura evasiva...)

"Imaginemos uma assembléia de  adultos, na qual há uma presença importante de adolescentes, a quem os cantos litúrgicos do gosto de seus pais, parecem “cafonas” e enfadonhos... Sem privar os mais velhos de seus cantos tradicionais, por que não introduzir, em momentos estratégicos da celebração, cantos litúrgicos de um outro estilo, com os quais os mais jovens se identifiquem e através dos quais se expressem mais a gosto? Em momentos assim, eles vão entrar de cheio e toda a celebração, de repente, vai tomar um outro aspecto para eles e, quem sabe, vai mudar o clima geral da mesma para todos.
(Como sempre, por trás desses disparates, reside a idéia de que a liturgia é, sobretudo, construída. Nada há aí de dado.. Tudo não passa de uma tentativa meramente humana de atingir o sagrado, ou, como escrevia o Cardeal Joseph Ratzinger, tudo isto parece consistir num mero grito no escuro. No entanto, esta concepção está anos luz distante da verdadeira Liturgia, uma Liturgia que nos foi entregue por Deus e que nos mostra como Deus quer ser cultuado. Na Liturgia, é a vontade de Deus que se cumpre, não os gostos dos jovens. O objetivo é a glorificação de Deus e não a mudança do clima geral. Enquanto estes sujeitos brincam com a liturgia e até arrancam um riso ou outro, e até, quem sabe, conseguem uma "participação" mais ruidosa dos presentes, eles estão, objetivamente, privando estas almas incautas de Deus, negando aquilo que é direito delas: o acesso real a Deus e que não se faz de qualquer modo. Por entre risos e reboladas, eles escondem o céu dos cristãos.)

"Imaginemos ainda uma comunidade eclesial de base na periferia da cidade, ou mesmo alguma igreja de centro, onde sempre costuma haver uma presença significativa de negros ou mestiços: seria bom inserir em toda celebração alguns cantos, alguma música, alguma coreografia do recente, mas já rico e significativo repertório afro-brasileiro." (É sempre a mesma idéia. Como já falamos, a coreografia não existe na Liturgia. Com relação ao repertório "afro-brasileiro", sugiro a leitura dos seguintes artigos: Cultura, Inculturação, Encontro de Culturas, Missa-Afro, inculturação?, África sem missa-afro, Discurso do Santo Padre aos bispos do Regional Norte II, Dica para celebrações com inculturação.)

"Tocar, cantar e dançar muita ou pouca música... escolher entre este ou aquele repertório... não vale igualmente para todo tipo de assembléia. O critério decisivo não será jamais a própria música, mas a assembléia que se reúne para cantar, tocar e dançar, ao celebrar sua fé." (Eles não estão "nem-thuiú" pra Deus nem pra Igreja. O que importa é a assembléia. Antropocentrismo puro!"

Nada mais sem graça e enfadonho do que uma celebração-robô, um “enlatado” litúrgico, sem o rosto da comunidade que celebra, sem raiz nos acontecimentos que marcam a sua vida, sem atualidade, fora do tempo e do espaço. (De fato, uma liturgia assim "com o rosto da comunidade" será, com certeza, uma celebração no tempo e no espaço; mas isto difere infinitamente da Liturgia Católica, que tem o rosto de Deus, e que está para além do tempo e do espaço, sendo tempo da graça e nos transportando para o Calvário. A catequese mais básica faltou a esse povo.. Ah, e se me permitem dizer: nada mais sem graça do que as invenções sem noção desse povo rodando no meio da igreja ou tocando tambor, ou vomitando teses marxistas nas músicas e nas homilias. Isso sim é, não somente sem graça, mas sem a Graça).

"Pelo contrário, onde se tem experiência de uma celebração significativa e interessante, há sempre por trás uma  equipe de celebração,  capaz de encontrar, com a assembléia por ela animada, o seu próprio estilo." (Eu gostaria de saber qual o critério que eles usam pra afirmar que uma celebração é "significativa e interessante". Pelo que se lê, é quando ela encontra seu próprio estilo. O que vale é, então, a originalidade! Deveríamos ter, então, igrejas auto-céfalas. É essa a proposta da CNBB? Não, meus caros. A Igreja, onde quer que esteja, deve expressar a sua romanidade.)

"Justamente por isso que as assembléias que se exprimem com cantos criados dentro delas e para elas - para um tal público, tais intérpretes, tais instrumentos, tal espaço, tal arrumação - parecem muito mais autênticascheias de vida. A tradição do “Cantor”, que compõe para as celebrações de sua comunidade, é, sem dúvida, a hipótese mais interessante." (Como sempre e "sem-fim-amém" está aí escancarada a promoção do subjetivo: é preciso que as liturgias "pareçam" autênticas e cheias de vida. Como vimos, o critério para tal é que todos cantem e que a música seja expressão fiel dos gostos e ideologias locais. É sempre a compreensão do sagrado como construção humana, como expressão cultural. O metafísico, o transcendente sai de cena. A "hipótese mais interessante", segundo se diz, é que o sujeito componha - a Igreja sempre teve o maior cuidado com isso e afirma que os compositores devem estar profundamente embebidos do Sensus Ecclesiae, coisa que a CNBB parece nem saber o que é - e execute sua produções, muitas vezes autênticas cacofonias, para a satisfação dos expectadores do show. Triste...)

"Nada a temer, nada a perder, se cada assembléia tem sua personalidade musical, como cada pessoa tem seu rosto, seu semblante, desde que se possa reconhecer sob  traços  tão diferentes, o único semblante da Esposa de Cristo, a sua Igreja." (O texto segue na mesma linha, exaltando a "personalidade musical" de cada pessoa e, por fim, tem a coragem de, depois da confusão toda, colocar algo como: "desde que se possa reconhecer o único semblante da Esposa de Cristo".. rsrs.. Acontece que eles não têm idéia do que seja este semblante - já tanto O desfiguraram - e isto parece apenas constar a fim de tentar situar o artigo dentro de uma visão, pelo menos por longe, em comunhão com a Igreja. Muito vago...)

Por fim, terminado o texto, dentre as perguntas que eles põem para suscitar uma reflexão sobre o que foi lido, estava:

"Você é dos que se alegram com a variedade da vida, ou parte para uma uniformidade, que empobrece e sufoca?" (Como diz a cara Giovana, Puxa que Puxa!)

Fonte:
http://www.cnbb.org.br/site/component/docman/doc_download/341-a-primazia-da-assembleia

**
Sei que já vai um tanto extenso este artigo. Mas quero que o leitor contraste os disparates acima com o que vai abaixo, e veja se há alguma forma de conciliação. Note que, em todo o texto que se pretende uma formaçao sobre Liturgia, o caráter sacrificial da Santa Missa não foi sequer sugerido. Mas veja o que diz a Igreja:

"Às vezes transparece uma compreensão muito redutiva do mistério eucarístico. Despojado do seu valor sacrificial, é vivido como se em nada ultrapassasse o sentido e o valor de um encontro fraterno ao redor da mesa. Além disso, a necessidade do sacerdócio ministerial, que assenta na sucessão apostólica, fica às vezes obscurecida, e a sacramentalidade da Eucaristia é reduzida à simples eficácia do anúncio. Aparecem depois, aqui e além, iniciativas ecumênicas que, embora bem intencionadas, levam a práticas na Eucaristia contrárias à disciplina que serve à Igreja para exprimir a sua fé. Como não manifestar profunda mágoa por tudo isto? A Eucaristia é um dom demasiado grande para suportar ambiguidades e reduções."

(João Paulo II, Ecclesia de Eucharistia)

E, por fim, este texto do Cardeal Joseph Ratzinger:

"Juntamente a essas soluções radicais e ao grande pragmatismo da Teologia da Libertação, existe também o pragmatismo cinza do cotidiano eclesial, em que tudo parece ser correto, mas a fé vai-se consumindo e acaba se afundando na mesquinhez. Penso em dois fenômenos que observo com preocupação. Em primeiro lugar, vai-se impondo, em graus de intensidade variáveis, a tentativa de estender o princípio da maioria à fé e à moral, ou seja, o projeto de “democratizar” decididamente a Igreja.


Essa tentativa se expressa da seguinte maneira: o que não parece evidente à maioria, não se pode impor como obrigatório. Mas, de que maioria se trata? Não haverá amanhã outra, diferente da de hoje? Uma fé que nós mesmos podemos estabelecer não é fé. E não existe nenhuma razão para deixar que uma minoria permita que a sua fé lhe seja prescrita por uma maioria. A fé, e a sua práxis, ou nos vem do Senhor por meio da Igreja e seus ministérios sacramentais ou não existe.


O outro ponto para o qual quero chamar a atenção diz respeito à liturgia. As diversas fases da reforma litúrgica levaram à opinião de que a liturgia poderia ser mudada à vontade. Se houvesse algo imutável, quando muito seriam as palavras da consagração, tudo o mais podendo ser feito de outro modo. O pensamento que então se segue é lógico: se uma autoridade central pode fazê-lo, por que não a local? E se a instância local pode, porque não a paróquia? Afinal, é ela que deveria se expressar e reencontrar na liturgia. Depois das tendências racionalistas e puritanas dos anos 1970, e também dos 1980, estamos cansados de uma liturgia de palavras e desejamos uma liturgia mais vivencial, que rapidamente se aproxima das tendências da Nova Era: procura-se a embriaguez e o êxtase, não a racionabilis oblatio (o culto divino conforme a razão e o logos), de que fala Paulo e a liturgia romana (Rom 12, 1).

(...) Pede-se vigilância para que não se substitua, furtivamente, o Evangelho por outra coisa diferente daquilo que nos foi entregue pelo Senhor. Pedras em lugar de pão.


(Joseph Ratzinger, Fé, Verdade e Tolerância)

Fábio.

Dia de Santa Cecília, dia dos músicos


João Paulo II

Para transmitir a mensagem que Cristo lhe confiou, a Igreja tem necessidade da arte. De facto, deve tornar perceptível e até o mais fascinante possível o mundo do espírito, do invisível, de Deus. Por isso, tem de transpor para fórmulas significativas aquilo que, em si mesmo, é inefável. Ora, a arte possui uma capacidade muito própria de captar os diversos aspectos da mensagem, traduzindo-os em cores, formas, sons que estimulam a intuição de quem os vê e ouve. E isto, sem privar a própria mensagem do seu valor transcendente e do seu halo de mistério.

(...) A Igreja tem igualmente necessidade dos músicos. Quantas composições sacras foram elaboradas, ao longo dos séculos, por pessoas profundamente imbuídas pelo sentido do mistério! Crentes sem número alimentaram a sua fé com as melodias nascidas do coração de outros crentes, que se tornaram parte da Liturgia ou pelo menos uma ajuda muito válida para a sua decorosa realização. No cântico, a fé é sentida como uma exuberância de alegria, de amor, de segura esperança da intervenção salvífica de Deus.

Portanto, a Igreja tem necessidade da arte. Pode-se dizer também que a arte precisa da Igreja? A pergunta pode parecer provocatória. Mas, se for compreendida no seu recto sentido, obedece a uma motivação legítima e profunda. Na realidade, o artista vive sempre à procura do sentido mais íntimo das coisas; toda a sua preocupação é conseguir exprimir o mundo do inefável. Como não ver então a grande fonte de inspiração que pode ser, para ele, esta espécie de pátria da alma que é a religião? Não é porventura no âmbito religioso que se colocam as questões pessoais mais importantes e se procuram as respostas existenciais definitivas?

De facto, o tema religioso é dos mais tratados pelos artistas de cada época. A Igreja tem feito sempre apelo às suas capacidades criativas, para interpretar a mensagem evangélica e a sua aplicação à vida concreta da comunidade cristã. Esta colaboração tem sido fonte de mútuo enriquecimento espiritual. Em última instância, dela tirou vantagem a compreensão do homem, da sua imagem autêntica, da sua verdade. Sobressaiu também o laço peculiar que existe entre a arte e a revelação cristã. Isto não quer dizer que o génio humano não tenha encontrado estímulos também noutros contextos religiosos; basta recordar a arte antiga, sobretudo grega e romana, e a arte ainda florescente das vetustas civilizações do Oriente. A verdade é que o cristianismo, em virtude do dogma central da encarnação do Verbo de Deus, oferece ao artista um horizonte particularmente rico de motivos de inspiração. Que grande empobrecimento seria para a arte o abandono desse manancial inexaurível que é o Evangelho!

Com esta Carta dirijo-me a vós, artistas do mundo inteiro, para vos confirmar a minha estima e contribuir para o restabelecimento duma cooperação mais profícua entre a arte e a Igreja. Convido-vos a descobrir a profundeza da dimensão espiritual e religiosa que sempre caracterizou a arte nas suas formas expressivas mais nobres. Nesta perspectiva, faço-vos um apelo a vós, artistas da palavra escrita e oral, do teatro e da música, das artes plásticas e das mais modernas tecnologias de comunicação. Este apelo dirijo-o de modo especial a vós, artistas cristãos: a cada um queria recordar que a aliança que sempre vigorou entre Evangelho e arte, independentemente das exigências funcionais, implica o convite a penetrar, pela intuição criativa, no mistério de Deus encarnado e contemporaneamente no mistério do homem.
 
Cada ser humano é, de certo modo, um desconhecido para si mesmo. Jesus Cristo não Se limita a manifestar Deus, mas « revela o homem a si mesmo ».(23) Em Cristo, Deus reconciliou consigo o mundo. Todos os crentes são chamados a dar testemunho disto; mas compete a vós, homens e mulheres que dedicastes a vossa vida à arte, afirmar com a riqueza da vossa genialidade que, em Cristo, o mundo está redimido: está redimido o homem, está redimido o corpo humano, está redimida a criação inteira, da qual S. Paulo escreveu que « aguarda ansiosa a revelação dos filhos de Deus » (Rm 8,19). Aguarda a revelação dos filhos de Deus, também através da arte e na arte. Esta é a vossa tarefa. Em contacto com as obras de arte, a humanidade de todos os tempos — também a de hoje — espera ser iluminada acerca do próprio caminho e destino.

A vocação do artista

Venerável João Paulo II

Nem todos são chamados a ser artistas, no sentido específico do termo. Mas, segundo a expressão do Gênesis, todo o homem recebeu a tarefa de ser artifice da própria vida: de certa forma, deve fazer dela uma obra de arte, uma obra-prima.

É importante notar a distinção entre estas duas vertentes da atividade humana, mas também a sua conexão. A distinção é evidente. De fato, uma coisa é a predisposição pela qual o ser humano é autor dos próprios atos e responsável do seu valor moral, e outra a predisposição pela qual é artista, isto é, sabe agir segundo as exigências da arte, respeitando fielmente as suas regras específicas. Assim o artista é capaz de produzir objetos, mas isso de per si ainda não indica nada sobre as suas disposições morais. Neste caso não se trata de plasmar-se a si mesmo, de formar a própria personalidade, mas apenas de fazer frutificar capacidades operativas, dando forma estética às idéias concebidas pela mente.

Mas, se a distinção é fundamental, importante é igualmente a conexao entre as duas predisposições: a moral e a artística. Ambas se condicionam de forma recíproca e profunda. De fato, o artista, quando modela uma obra, exprime-se de tal modo a si mesmo que o resultado constitui um reflexo singular do próprio ser, daquilo que ele é e de como o é. Isto aparece confirmado inúmeras vezes na história da humanidade. De fato, quando o artista plasma uma obra-prima, não dá vida apenas à sua obra, mas, por meio dela, de certo modo manifesta também a própria personalidade. Na arte, encontra uma dimensão nov e um canal estupendo de expressão para o seu crescimento espiritual. Através das obras realizadas, o artista fala e comunica com os outros. Por isso, a História da Arte não é apenas uma história de obras, mas também de homens. As obras de arte falam dos seus autores, dão a conhecer o seu íntimo e revelam o contributo original que eles oferecem à história da cultura.

(...) O tema da beleza é qualificante, ao falar de arte. Esse tema apareceu já, quando sublinhei o olhar de complacência que Deus lançou sobre a criação. Ao pôr em relevo que tudo o que tinha criado era bom, Deus viu também que era belo. A confrontação entre o bom e o belo gera sugestivas reflexões. Em certo sentido, a beleza é a expressão visível do bem, do mesmo modo que o bem é a condição metafísica da beleza. Justamente o entenderam os Gregos, quando, fundindo os dois conceitos, cunharam uma palavra que abraça a ambos: "Kalokagathía", ou seja, "beleza-bondade". A este respeito, escreve Platão: "A força do Bem refugiou-se na natureza do Belo".

Vivendo e agindo é que o homem estabelece a sua relação com o ser, a verdade e o bem. O artista vive numa relação peculiar com a beleza. Pode-se dizer, com profunda verdade, que a beleza é a vocação a que o Criador o chamou com o dom do "talento artístico". E também este é, certamente, um talento que, na linha da parábola evangélica dos talentos (Cf Mt 25,14-30), se deve pôr a render.

Tocamos aqui um ponto essencial. Quem tiver notado em si mesmo esta espécie de centelha divina que é a vocação artística - de poeta, escritor, pintor, escultor, arquiteto, músico, ator... - adverte ao mesmo tempo a obrigação de não desperdiçar este talento, mas de o desenvolver e colocá-lo ao serviço do próximo e de toda a humanidade.

(...) A vocação diferente de cada artista, ao mesmo tempo que determina o âmbito do seu serviço, indica também as tarefas que deve assumir, o trabalho duro a que tem de sujeitar-se, a responsabilidade que deve enfrentar. Um artista, consciente de tudo isto, sabe também que deve atuar sem deixar-se dominar pela busca duma glória efêmera ou pela ânsia de uma popularidade fácil, e menos ainda pelo cálculo do possível ganho pessoal. Há, portanto, uma ética ou melhor uma "espiritualidade" do serviço artístico, que a seu modo contribui para a vida e o renascimento do povo.

João Paulo II, Carta aos Artistas
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...