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Crônica: A Experiência da Cegueira


Josef Pieper

Meditando sobre o andamento do mundo, vem-se a desejar que a verdade pudesse, ainda uma vez, mostrar-se de forma totalmente irrefutável, imponente pela sua própria força arrebatadora.

Mas quão duvidosos são tais desejos (quão sinistras podem ser as formas em que realmente se dão a liberdade e também a fraqueza dos homens) e como a verdade de modo algum "se impõe", tudo isso torna-se manifesto na história que narraremos a seguir.

Nela se descreve uma experiência. Uma experiência que, aliás, não pode ser repetida por todo mundo. Mas, talvez, esse "todo mundo" reconheça que pode muito bem ocorrer uma repetição em qualquer época, de modo igual ou semelhante. Trata-se de uma experiência com a cegueira: um dos protagonistas é um homem cego. Ao final, demonstra-se que também um olho que vê pode estar cego. Aliás, esse tino especial de cegueira é mesmo o tema próprio de nossa história.

Um dos protagonistas é, como dizia, um cego, um homem ainda relativamente jovem. Todos o acolhem, pois ele não sabia fazer outra coisa a não ser ficar sentado na rua pedindo esmola.

Porém, que quer dizer exatamente "todos o conhecem"? Conheciam sim, seu jeito, sua voz e aquele seu rosto um tanto vazio e rígido. Mas seriam capazes de reconhecê-lo em outro ambiente, digamos, no jantar em casa de seus pais com quem mora ou no caminho guiado por um menino? Isto é duvidoso, e esta circunstância terá um certo significado em nossa história.

Para ir direto ao ponto mais importante: aconteceu que, um dia, esse homem, repentinamente, recobrou a visão - não, "recobrou não! mas pela primeira vez pôde ver (pois ele era cego de nascença). O mendigo lavou-se numa água parada e, de repente, ganhou a visão.

Talvez esse lavar-se não tenha sido o decisivo; algo tinha ocorrido antes. E por isso, precisamos falar ainda de um outro personagem principal. Mas esse não pode ser descrito tão facilmente.

O povo andava falando do "homem milagroso", muitos o chamam "o bom" e outros até "o abençoado". Mas isto, para nossa história não é propriamente importante. Mais importante é que ele era suspeito. Suspeito ante quem? E suspeito de quê? Também isto - esta última pergunta - é difícil de responder. Ele era suspeito junto aos detentores do poder. Mas por quê? Bem, isto só eles sabiam. Diziam que ele desprezava as leis e os costumes. Mas claramente não era essa a razão da suspeita, ainda que a conduta daquele homem parecesse a muitos fora do comum, fora da ordem.

Aliás, "suspeita" não é também a palavra certa; o que havia era antes inveja, quase ódio. Os detentores do poder temiam a crescente popularidade do homem dos milagres, sua influência sobre a massa insensata. E isso com razão, se bem que a gente do povo, que não quer cair na antipatia dos poderosos, já começava a acautelar-se em manifestar de maneira demasiadamente clara sua um tanto desorientada admiração por aquele homem, pois não era totalmente isento de perigo fazê-lo. E, por fim, não sabiam realmente a quantas andavam com ele.

O fato é que esse homem - também ele ainda relativamente jovem, pouco mais de trinta anos - tinha-se encontrado com o cego na rua. Deu-se um curto diálogo no qual o mendigo ouviu, misturadas, também, algumas vozes. E, então, o cego sentiu um dedo sobre seus olhos que parecia esfregá-los com uma espécie de pomada. Ao mesmo tempo que uma das vozes lhe dizia que ele devia ir lavar-se naquela piscina. E então, como dissemos, tornou-se capaz de ver. E assim começa a experiência.

***

Dizíamos que com este fato iniciava-se a experiência com a cegueira. No decorrer dessa experiência, mostrar-se-á o que acontece com a irrefutabilidade de um fato límpido.

Já entre os primeiros que viram o mendigo passar pela rua, até mesmo entre seus vizinhos, não foram poucos os que simplesmente questionavam que este homem fosse o mesmo que, desde há anos, tinha estado sentado, cego, na rua.

Alguns afirmavam que sim, que apesar de tudo era ele, inconfundível. Pois não se via no rosto, no cabelo, nos andrajos? Tudo exatamente o mesmo! Outros, porém, teimavam: não, certamente há determinadas semelhanças, mas trata-se de outra pessoa.

Ora, podia-se perguntar a ele mesmo. E sua resposta, naturalmente, foi contar o que tinha ocorrido. Mas, o que sabia ele do ocorrido? Se o "abençoado" neste instante passasse diante dele, o mendigo não o teria reconhecido, pois nem sequer o tinha visto. E assim, à irônica pergunta: "Onde está então o que te curou?", ele teve que responder que não sabia. Não se pode imaginar a envolvente satisfação com que os espíritos críticos constataram o caráter já nem sequer duvidoso do caso: um cego, um sujeito tipo por cego, e, além disso, claramente um marginalizado, pretende ter sido curado por aquele de quem tanto se fala. e então verifica-se que a coisa nem sequer se deu na presença do taumaturgo; o rapaz só ouviu falar dele e absolutamente não o conhece. Não, esta história está muito esquisita, mal arranjada.

***

A experiência continua. Porém, deve-se falar ainda de uma circunstância especial e, na realidade, um tanto desconcertante. O milagroso era tido, como já ficou dito, como um detrator de costumes. E não só havia muitos costumes, mas também cuidava-se com especial rigor de observá-los. Por exemplo, havia dias em que, por motivo algum, se podia sujar as mãos: isso era tido quase como sacrilégio. Ora, por que aquele homem tinha que fazer, precisamente num desses dias, uma suja pomada de cuspe e pó da rua para com ela esfregar os olhos do mendigo? O fato é que o fez e isto basta! E não é surpreendente que, desse modo, aquilo tudo ganhasse o aspecto de provocação pública.

Em todo caso, o mendigo - ainda meio atordoado pelo ocorrido - foi conduzido ante os detentores do poder. E novamente contou de modo breve e já um tanto impaciente o que lhe tinha acontecido.

A partir daí, formaram-se dois partidos entre os poderosos: um, que julgava que o decisivo era o desprezo pelos costumes e, portanto, tinha por impossível a cura, enquanto o outro indagava se alguém capaz de curar um cego pode ser um mau homem. E ele mesmo, o pretensamente curado, que dizia? Bem, ele o considerava um grande homem. Sim, é compreensível. Mas, se ele nem sequer conhecia o seu "grande homem"! O resultado foi que já ninguém mais acreditava no fato. Não era verdade, não podia ser verdade.

***

Mas não haveria nenhum modo de descobrir se o mendigo que costumava ficar sentado na rua aos olhos de todos era o mesmo que este jovem, cujos olhos claramente estavam sãos e que afirmava ter sido cego e subitamente curado? (Talvez até ele nunca tivesse realmente sido cego!). Onde se podia obter informações sobre o que na verdade tinha ocorrido? Bem, se há alguém que pode dizer algo são os pais do homem.

Foram pois trazidos e indagados. Não, não foram simplesmente indagados, foi um autêntico interrogatório. E precisamente isto pôs tudo a perder. Essas pessoas de condição humilde, não acostumadas ao erudito linguajar jurídico ficaram simplesmente com medo. Já tinham ouvido dizer que quem falasse a favor do taumaturgo seria proscrito, o que era algo que não se podia considerar levianamente. E, além disso, que tinham a ver com aquele homem? Absolutamente nada. De modo que simplesmente recusaram-se a informar sobre o assunto. Em todo caso, não negaram que era seu filho e admitiram também que tinha sido cego desde o nascimento, pois isso não poderia ser mal interpretado. Agora, de que modo ele hoje vê - disso, não sabiam nada, absolutamente nada. Ele, aliás, já não é nenhuma criança; e mudo também não é.

***

Mas para que, exatamente, era necessário saber o que os pais pensavam da cura? Se eles não tinham deixado nenhuma dúvida sobre o fato de que este homem, hoje com visão, realmente lhes tinha nascido cego; era seu filho e até ontem cego.

O que então não estava claro? Naturalmente, o que "não estava claro" era como se podia explicar essa cura. Mas que cura tinha havido...

Por isso, convocaram, ainda outra vez, o próprio mendigo a interrogatório. Evidentemente, já não se tratava de ouvir e "entender", mas precisamente de não ouvir, de abafar. Numa palavra: o mendigo devia ser reduzido ao silêncio.

Tal objetivo - como todo mundo sabe - pode ser atingido de diversos modos, ou melhor, pode-se tentar atingir (no caso, não se conseguiria).

"Você não pode - assim disseram os poderosos ao mendigo - você não pode, naturalmente, entender nossas razões, por isso seu erro é compreensível. Mas nós estamos muito bem informados de que você se engana. Seria bom para você considerar isso. E, principalmente, grave na memória uma coisa: quem está dizendo isto a você não é um qualquer, mas somos nós, nós que somos não só os sábios, mas também os poderosos. Então, pense bem, medite com calma e quando você tiver compreendido conte-nos pela última vez: que aconteceu realmente?"

Não é totalmente certo que o mendigo se tivesse apercebido das ameaças que se encerravam nessas palavras: era demasiadamente simples para isso. Mas sentiu-se subitamente enfastiado do palavreado e deixou-se arrastar pela ira. Ajudou-o a isso (por assim dizer) o fato de não ter nenhuma destreza na arte de ter direitos; tudo o que ele tinha "aprendido" era unicamente levar o transeunte a dar esmola, e isto lhe bastava.

Mas, seja como for, o mendigo opôs à intimação dos poderosos uma resposta inesperadamente atrevida, não lhes poupou sequer a marota e irônica pergunta de se por acaso eles também estavam querendo se tornar adeptos do abençoado.

E, em vez de atender-lhes o desejo de uma vez mais contar o ocorrido, começou a demonstrar-lhes que não era ele quem se enganava, mas eles, os poderosos.

Naturalmente, a coisa terminou com a expulsão do mendigo.

***

Mas o mendigo não tinha ainda visto o homem a quem devia a luz dos olhos. E não demorou muito até que se encontrassem. Todas as audiências e também o desfecho do último interrogatório não eram desconhecidos pelo abençoado. E ele, de propósito, fez com que o mendigo inesperadamente deparasse com ele no meio da agitação e barulho do mercado. Falou ao curado e perguntou-lhe de modo totalmente direto se ele cria no homem capaz de fazer coisas sobre-humanas. O indagado, de início, mal se surpreendeu, cansado que estava de perguntas que não levam a nada, e sua resposta foi um tanto evasiva: que lhe mostrassem afinal este homem e então veria o assunto da fé.

Mal, porém, acabava de falar, interrompeu-se e fechou os olhos - num máximo esforço de escutar - fechou os olhos para, nas trevas que lhe eram tão familiares, reconhecer, ou melhor, re-conhecer a voz do outro.

E quando a voz lhe disse: "Este homem está diante de ti" - então, num instante, o mendigo compreendeu tudo. Soube, de um só golpe, que só naquele preciso momento é que tinha realmente começado a ver. E essa felicidade atravessou-o como um raio e lançou-o ao solo, enquanto o abençoado, inclinando-se sobre o que no chão estava prostrado, disse algo muito obscuro a respeito de cegos que vêem e de gente que vê mas é cega.

É quase certo que ninguém ali compreendeu o que ele queria dizer. E quando um dos que por lá estava, um do partido dos poderosos, disse, irônico e ameaçador, que então, segundo isso, eles, os poderosos, seriam também cegos, obteve a resposta de que isto é que era o mal: que eles não eram cegos. Aí já não houve mais ninguém que ainda perguntasse o que isso significava; perguntavam-se se tinha afinal algum significado, se havia, afinal, algo a ser compreendido.

E assim termina a experiência da cegueira.

***

Disse eu que termina a experiência da cegueira? Não, essa seria uma formulação um tanto imprecisa, e até mesmo incorreta. O que terminou foi o relato; a experiência... a experiência continua.

Josef Pieper In: LAUAND, Jean. Linguagem e Ética; Ensaios. Curitiba: Editora Universitária Champagnat, 1989.

A Temperança: Defender-se da Autodestruição


Um autor tão moderno como James Joyce, cuja obra principal foi chamada - não sem razão - "missa negra", considerou durante toda a sua vida o ato sexual como algo vergonhoso. Um fato inesperado, mas que só à primeira vista surpreende.

Um significativo contraponto desse fato é que, por um lado, nenhum dos grandes teólogos católicos jamais falou tão negativamente da sexualidade; como também, por outro lado, afirmaram que justamente por ser o sexo uma força natural fundamental do homem, proveniente do ato criador de Deus, uma força necessária e boa, deve também ser controlada pelo homem de modo especial.

E o sentido da quarta virtude cardeal, da Temperantia, é precisamente a realização da ordem interna da pessoa.

Mas tudo isto ainda está formulado de maneira excessivamente inofensiva: ainda nem se manifestou o caráter extra-ordinário, ou melhor, até misterioso da virtude da Temperança: trata-se na verdade de que justamente as forças do ser do homem orientadas por natureza para a autoconservação, aperfeiçoamento e realização, são aquelas mesmas forças que podem também desnaturar-se para a autodestruição. Todas elas e, talvez, somente elas.

A sexualidade é apenas uma dessas forças e é dela que menos se precisa falar especificamente, na medida em que o cristão entenda que a castidade não visa à repressão da força sexual mas a defender-se da autodestruidora perversão dessa força. Como também, naturalmente, nem o prazer nem a reta afirmação de si parecem condenáveis ao cristão; mas - tema também da Temperança - encontrar uma compreensível fundamentação antropológico-ética para o jejum e a abstinência como também para a virtude da humildade, já parece mais difícil.

Pior ainda é que províncias inteiras do reino da força fundamental chamada Temperança se tornaram quase sem nome, no pensamento contemporâneo.

Como expressar, por exemplo, a força da ira, a capacidade de irar-se, que, nos ensinamentos vitais da grande tradição cristã, pertence também aos impulsos fundamentais imprescindíveis do ser humano, e que foi considerada sua real capacidade de resistência? Sem a força para a ira - é o que se diz no pensamento cristão - o homem permaneceria passivo e inerte diante das injustiças que acontecem no dia-a-dia. Mas, ao mesmo tempo, essa mesma força pode, se não é controlada, destruir totalmente a convivência - por exemplo, sob as formas por todos conhecidas, de irreconciliabilidade e amargor, que envenenam o clima de relacionamento com os outros, sobretudo se espicaçadas ideologicamente.

É triste encontrar o reto controle sobre a força da ira, a virtude cristã da mansidão, equivocamente confundida com essa pálida incapacidade para a ira que, como todos sabem, navega sob essa mesma bandeira. Na verdade, "mansidão" no sentido original significa aquela força interior (atualmente incapaz de ser denominada com uma palavra com vida, frescor e vigor) da qual a Escritura diz que é por ela que o homem guarda sua alma (Ecle 10,31)

O mais surpreendente, entretanto - e é algo simplesmente inacreditável - parece-me ser o fato de que uma determinada força fundamental do homem - da qual os Antigos, com justeza, tratam exaustivamente - seja simplesmente silenciada e omitida no pensamento cristão atual sobre a Temperança. E isto, apesar de essa força dizer respeito, mais do que nunca, precisamente à vida dos nossos dias. Refiro-me à ânsia, à concupiscência de ver.

Poder-se-ia, nesse caso, como o fazem os grandes Mestres, antes de mais nada, falar do caso geral de concupiscência do saber; e não é pouco o que haveria aí para dizer. Naturalmente não falaríamos, como os Antigos, dentre as formas de perversão do desejo de saber, de "Magia"; mas a pergunta sobre se não estamos dispostos a pôr em jogo o bem e a integridade da Humanidade pela resolução de um problema científico - ou se até já não o estamos fazendo - bem que pode ser atual.

Mas, permaneçamos no desejo de ver com os próprios olhos, em sentido literal. E isso realmente constitui um dos mais fortes impulsos do homem: "Preferimos o ver a qualquer outra coisa" - é o que se lê já no primeiro capítulo da Metafísica de Aristóteles. Para mostrar até que ponto isso é verdade, não nos custaria muitas palavras; e também não as precisaríamos gastar para evidenciar que a autonomia da vida intelectual se baseia - em boa medida - justamente em assegurar-se da verdade por "ver com os próprios olhos".

Mas, também aqui, claramente vale a complementação: que esta força fundamental necessita de maneira especial de controle, porquanto ela pode, como quase nenhuma outra, degenerar autodestruidoramente. E aqui acontece literalmente que não dispomos de nome nem para a virtude nem para o vício.

Pois se encontramos o descontrole do desejo de ver, nos Antigos, sob o nome de "curiosidade" (curiositas), pensamos antes na perdoável fraqueza da vizinha do que no verdadeiro e profundo mal que a "concupiscência dos olhos", este "ver por ver", pode causar na existência humana. E, quanto ao vocábulo tradicional para o controle do querer ver, studiositas, simplesmente não significa mais nada.

Martin Heidegger designou por "curiosidade" (Neugier) aquilo que realmente queriam dizer os Antigos com curiositas: o que interessa à curiosidade não é a captação da realidade, mas a "possibilidade de abandonar-se ao mundo".

Penso que deveria ser possível mostrar claramente ao contemporâneo crítico da "geração da TV" o perigo - que tão profundamente atinge a existência - e de que estamos aqui tratando: o de perder, no meio do barulho ensurdecedor, ótico e acústico, de vazias baboseiras, a capacidade original de captar a realidade. O controle do "desejo de ver", tão vital hoje como antigamente, poderia alcançar um valor quase salvador na medida em que, por uma ascese do conhecimento, conservássemos aquilo que desde sempre perfaz uma existência humana plena de sentido: ver a realidade criada por Deus tal como ela é, e viver e agir da verdade assim apreendida.

Josef Pieper In: LAUAND, Jean. Linguagem e Ética; Ensaios. Curitiba: Editora Universitária Champagnat, 1989.

Fortaleza: O mais fraco resiste


Josef Pieper

Fortaleza, heroísmo, vitória - tais conceitos sempre se pensam juntos. Isto pode não ser errado, mas simplifica demais a situação. Já chama a atenção para esse fato a frase de um dos primeiros escritores da Igreja: "Vencemos quando nos matam". E quando ouvimos um dos grandes mestres do cristianismo medieval dizer que talvez os soldados menos fortes - bem entendido, no sentido da terceira virtude cardeal - sejam os melhores soldados, então a dificuldade do tema se mostra bem surpreendente.

A quem isto não basta, pode considerar ainda a sentença de S. Ambrósio: "A Fortaleza não deve fiar-se de si mesma". Tudo isto como prefácio, para abalar um pouco convicções por demais firmemente estabelecidas.

O núcleo daquilo que verdadeiramente está implicado na virtude da Fortaleza é exposto pela ironia de Bertold Brecht: que ele desconfia quando ouve dizer que um navio precisa de uma tripulação de heróis; pois então se pergunta se algo não estará errado com esse navio, talvez velho ou podre.

Provavelmente, esse moderno autor de peças não imaginava que quinze séculos antes dele alguém já havia dito quase exatamente o mesmo. Este alguém é ninguém menos que S. Agostinho, que, é bem verdade, não fala de um navio mas do mundo como um todo: com o mundo realmente há algo de errado, já que nele há o mal e o mau. E: justamente por isso é necessária a Fortaleza; pelo fato nu e cru de que é preciso existir Fortaleza, atesta-se o poder do mal no mundo.

Dizendo-o de outra maneira: o bem não se impõe por si mesmo, como opinam os liberalismos; para que isto ocorra há necessidade do empenho da pessoa.

Empenhar-se pela realização do bem contra o poder do mal (que poderá também ser sobrepoder): eis aí circunscrito de forma bem completa aquilo que perfaz o ato da virtude da Fortaleza.

"Empenhar-se": com isto não se indica um agir qualquer, mas um agir pelo qual o agente está disposto a sofrer um prejuízo. Com estouvados saltos de esqui ou perigosas escaladas de montanha (com o que, não há muito tempo, se tentou explicar - de modo suficientemente inadequado - a virtude da Fortaleza na televisão alemã) consegue-se perfeitamente não atingir aquilo que é decisivo nessa virtude. Com um tal enfoque, por um lado exige-se demais, se realmente a Fortaleza pertencer aos elementos do "estar-certo" de todo homem (pois como pretender que tais atos sejam realizados pelo "homem comum"?); e, por outro lado, pede-se de menos; dizendo-o mais exatamente: falta seriedade.

Em geral, o ato de virtude é algo totalmente sem brilho: por exemplo, assumir ser publicamente ridicularizado por tomar o partido de uma causa justa.

Mas, quem como empiricamente mais fraco resiste ao poderio do mal, talvez arrisque coisas que tocam já mais perigosamente a existência: a liberdade, a saúde, a vida. Ao final das contas, toda verdadeira Fortaleza baseia-se na disposição para a morte; ou, mais precisamente, na disposição para o testemunho de sangue. O verdadeiro símbolo da Fortaleza é o mártir. Mas, a ausência de brilho permanece, através de todos os graus de realização, como uma característica praticamente distintiva: nada se diz de ousadia, de risco, nem de "empenho heróico" (aliás, quando disto se fala já se trata, quase com certeza, de um sinal de que nem existe a situação que exigiria autêntica Fortaleza).

E precisamente ao extremo teste da virtude, o próprio martírio costuma faltar completamente o brilho do "heróico". A ousadia, a disposição de partir para a luta, o espírito vital de ataque  do primeiro momento desvaneceram-se, e a dúvida talvez esteja penetrando até à própria consciência - a tal ponto que o sacrificado, quando, digamos, a porta da masmorra fechou-se definitivamente, é assaltado pela pergunta de se, afinal, não seria ele o idiota. DO mártir, afinal de contas, se fala só post festum; as coroas de flores da veneração só vêm depois. Antes, na própria consumação do martírio, nada há senão um prisioneiro, um solitário, um objeto de riso e, sobretudo, um emudecido.

Só lhe fica então a paciência que, ao longo de toda a tradição espiritual, tem sido considerada parte elementar da Fortaleza. Hildegard von Bingen chama à paciência coluna "que por nada se deixa amolecer".

E nós, tarde nascidos, começamos a perceber porque os antigos consideravam como a parte essencial da Fortaleza o resistir, e não o atacar.

Josef Pieper In: LAUAND, Jean. Linguagem e Ética; Ensaios. Curitiba: Editora Universitária Champagnat, 1989.

A Justiça: Dar o que é devido


Josef Pieper

Quem hoje pensa em "Justiça", sobretudo se é jovem, logo se lembrará do estribilho "sociedade"; a sociedade parece-lhe a injustiça encarnada, com o que, talvez, não deixe de ter razão. No entanto, deve deixar-se lembrar que estamos agora falando da Justiça como virtude, portanto de uma atitude que só pode ser exigida da pessoa singular e por ela realizada.

A Justiça já foi chamada também "arte de conviver"; uma formulação que por sua vez pode também ser mal-interpretada: como se não se tratasse de nada mais do que arranjar-se com os outros. Não é isso no entanto o que se quer dizer; mas, mais propriamente, um conviver em que cada um recebe o que lhe é devido: "A cada um o que é seu" (como diz a antiga sentença).

Exatamente isto - assim o tem afirmado o clássico pensamento ocidental desde os antigos gregos até as encíclicas sociais dos papas - exatamente isto é a Justiça: a vontade constante de dar a cada um, com quem nos relacionamos, aquilo que lhe é devido.

A Justiça é pois, como vemos, algo que está em segundo lugar: ela pressupõe algo diferente de si mesma: a saber, que haja alguém a quem algo é devido e que aquele que é convidado a exercer a Justiça aceite esse "dever".

Agora, quanto à pergunta sobre se e por que razão algo é devido ao outro (e, naturalmente, também a mim), e sobre o que se lhe deve dar ou conceder - esta pergunta não é facilmente respondida. Que ao trabalhador é devido o justo salário, ainda é o mais fácil de evidenciar. Ainda que na época dos campos de trabalhos forçados isto não seja tão evidente quanto parece.

No que deve residir então a causa de que a todo aquele que porta uma face humana, simplesmente pelo seu ser-homem, inalienavelmente algo lhe seja devido? Por exemplo, que sua honra como pessoa seja respeitada. O conceito de pessoa, de fato, é aqui decisivo - enquanto se compreende "pessoa" como um ente que existe para seu próprio aperfeiçoamento e realização. Mesmo assim, em caso de conflito, ao se chegar aos extremos, não basta retroceder ao mero ser-pessoa (como supunham alguns filósofos idealistas). É necessário nesses casos, poder colocar em jogo uma instância absoluta, mais além de qualquer instância humana, ou, dito de outro modo: o outro deve ser-me intocável por eu o ver como ente criado por Deus como pessoa.

Não se pense ser esta uma concepção especificamente cristã ou teológica. Foi um chinês confuciano quem declarou, - aos seus, presumivelmente atônitos, colegas da comissão da UNESCO para a reformulação dos direitos humanos -, que lhe havia sido transmitido por tradição, como fundamento dos direitos humanos, que: "O Céu ama o povo e o que exerce o poder deve obedecer ao Céu". E Emanual Kant - que não era lá propriamente um teólogo cristão - diz: "Temos um santo regedor e o que ele deu ao homem de sagrado é o direito dos homens".

Garantir e proteger esse direito é o sentido intrínseco do Poder. E quer se trate do poder político ou da autoridade em círculos menores (família, unidade militar, empresa) sempre vale: quando o poder não cuida da Justiça, ocorre invariavelmente a injustiça, e não há injustiça mais desesperadora no mundo dos homens do que o uso injusto do poder. E, no entanto - e é uma idéia tão desagradável -, poder do que não se pode abusar, no fundo não é poder...


Mas, aquele que se aprofunda mais, deparará com uma nova complicação, ainda mais radical, no tema da Justiça. Pois o mundo dos homens está feito de maneira tal que, em alguns casos determinados e altamente significativos, é impossível dar de fato ao outro aquilo que - sem sombra de dúvida - lhe é devido. Os antigos pensavam aqui, antes de mais nada, nas relações com Deus; a Ele não podemos, na verdade, dizer nem a respeito de um instante sequer: "Já te dei o que te devia, agora estamos quites".

Por isso, os grandes mestres do cristianismo afirmavam que, dada a incapacidade da Justiça, ao invés de Justiça, no caso das relações com Deus, deveria entrar como substituto, como Ersatz, a modo de recurso improvisado, a religio; entrega, adoração, disposição para o sacrifício, atitude de reparação.

Mas também no âmbito do convívio humano há dívidas que por natureza não podem ser realmente pagas e quitadas. Também à minha mãe, aos meus professores, aos justos administradores das funções públicas não posso, em sentido estrito, restituir na medida em que lhes devo; se olharmos exatamente nem sequer sou capaz de "pagar", de tal maneira  que recebam tudo o que lhes devo, a amabilidade de um garçom ou a lealdade de uma empregada doméstica.

E assim deve - quando os casos são como devem ser - novamente entrar no lugar da Justiça (impossibilitada de realizar-se), outra coisa: piedade. A atitude de honrá-los e o respeito (não realizado apenas interiormente) que diz: devo-te algo que não posso pagar, e manifesto que estou consciente disso através dessas atitudes.

Quando nos sabemos assim agraciados e endividados diante de Deus e dos homens, não colocamos tão facilmente nossa vida em atitude de reivindicações pela pergunta: "O que me é devido?"

Josef Pieper In: LAUAND, Jean. Linguagem e Ética; Ensaios. Curitiba: Editora Universitária Champagnat, 1989.

A Prudência: Ver Aquilo que É


Josef Pieper

Se perguntarmos, então, sóbria e objetivamente, o que se pode exigir e esperar em termos de "ser-bom" do homem comum - e, portanto, de cada um de nós -, logo pede a palavra a antiga sabedoria que fala do espectro de quatro cores em que se desdobra a luz da perfeição. É a doutrina das "Virtudes Cardeais": Prudência, Justiça, Fortaleza e Temperança. O termo latino cardo significa gonzo, que abre o portal da vida.

Esses quatro nomes certamente já foram ouvidos muitas vezes, sem que se significado fosse levado a sério. No momento, porém, em que isto se faça, a situação torna-se complicada. Por exemplo: como pode a Prudência ser virtude? - é o que já à primeira vista cabe perguntar. E a compreensão tornar-se-á ainda mais difícil quando nos disserem que a seqüência não é casual, mas obedece a um significado e a uma hierarquia: à Prudência, cabe, portanto, o primeiro e mais elevado posto. E mais ainda, tal formulação nem ao menos é precisa; a rigor, a Prudência não ocuparia um lugar como elo dessa série: ela não é algo assim como a irmã das outras virtudes; ela é sua mãe e já foi designada literalmente como "genitora das virtudes" (genitrix virtutum).

Desse modo, ninguém poderia - e, por estranho que possa parecer, de fato é a assim - praticar a Justiça, a Fortaleza ou a Temperança a não ser que seja ao mesmo tempo prudente. Ao mesmo tempo e até antes.

Pelo uso comum da linguagem e pelos hábitos de pensamento temos alguma dificuldade não só para concordar com o acima afirmado, mas até para entendê-lo. Pois não dizemos na língua alemã que é "prudente" (klug em alemão significa prudente e esperto) quem é esperto e com ágil inteligência logo percebe como levar vantagem? E não dizemos que Fulano ou Sicrano é "prudente demais" e, portanto, não defende com determinação e coragem suas convicções? Tudo isto, sem dúvida, é certo. No entanto, devemos esquecer estes casos, deixá-los de lado e lembrar-nos de outras situações que nos são igualmente familiares - por exemplo, de que, digamos, em caso de conflito, ninguém pode tomar uma decisão justa se não conhece a realidade: como são as coisas e em que pé estão. O mais puro desejo de Justiça, a "melhor das boas vontades", a "boa intenção" - tudo isto não basta. Antes, a realização do bem concreto pressupõe o conhecimento da realidade.

Isso se pode exprimir também do seguinte modo: o agir humano é bom e ordenado quando procede da verdade, que afinal de contas nada mais é que o vir-a-encarar a realidade. E precisamente este é o sentido da prudência e de sua posição privilegiada: que - tanto quanto possível - vejamos a realidade, que eu veja como realmente são os elementos que compõem a situação que exige de mim uma decisão.

Este "ver as coisas", entretanto, não é de modo algum assunto acessório, que se possa considerar com ligeireza. Além do mais, a capacidade de "ver a realidade" é ameaçada de diversas maneiras. Pois não se trata  de uma neutra contemplação da natureza, mas da incorruptível "busca da verdade" a respeito de situações nas quais costumam estar fortemente envolvidos fatores de interesse. O que importa, portanto, é fazer calar nosso interesse - e, talvez também, ouvir o outro, possivelmente oponente. Quem não consegue isto, ou a isto não está disposto, jamais chegará a ver a realidade como ela é.

Mas isso é apenas o começo e a primeira metade da Prudência. A outra, bem mais difícil, consiste em transformar aquilo que foi visto, a verdade das coisas, em diretriz do próprio querer e agir. Só então se perfaz a virtude da Prudência, que com razão foi definida como sendo "a arte de decidir-se corretamente".

Só quem domina esta arte pode ser considerado como um homem moralmente maior, adulto. Para ele foi cunhada a palavra da Sagrada Escritura: "Se o teu olho é simples (simplex), então todo teu corpo estará na luz" (Mt 6,22)

Josef Pieper In: LAUAND, Jean. Linguagem e Ética; Ensaios. Curitiba: Editora Universitária Champagnat, 1989.

A Virtude como "Ultimum Potentiae" - Josef Pieper


Josef Pieper

O último grande mestre da cristandade ocidental ainda unificada, Tomás de Aquino, designou a virtude humana como "ultimum potentiae", ou, em linguagem de hoje, o máximo daquilo que uma pessoa pode ser.

É evidente que a concepção expressa nessa breve sentença nem sequer permite o aparecimento das famigeradas deformações que, de diversos modos, costumamos associar à palavra virtude. Nem vale a pena falar muito a respeito delas. O que sim vale a pena é procurar compreender de forma mais exata alguns elementos que a definição de Tomás traz consigo e, à primeira vista, talvez também esconda consigo.

Quem, por exemplo, fala do ultimum e, portanto, do máximo, já pensou ao mesmo tempo que há também um penúltimo e um primeiro. Com isso, afirma-se também algo a respeito do homem: que a sua vida quotidiana se situa em meio a esses diferentes graus de realização, procurando, é certo, o máximo do poder ser, mas não necessariamente atingindo-o. Que o ser humano é, no seu núcleo mais profundo, um ser-que-se-torna; em todo caso, não é meramente um ser conformado desta ou daquela maneira, não é algo pura e estaticamente existente mas sim sujeito do acontecer, realidade dinâmica, como aliás todo o Cosmos.

Naturalmente, isto não é uma concepção especificamente cristã. O poeta grego Píndaro já há mais de dois mil anos formulou-a na famosa frase: "Torna-te aquilo que és" - com o que, na realidade, se diz, (e parece tão estranho) que nós ainda não somos o que entretanto somos. Disto também está convencida a sabedoria teológica do cristianismo, quando reconhece verdadeira virtude somente naquele que realiza o máximo do que lhe é possível ser.

Já algo especificamente cristão se encontra na resposta à pergunta sobre como se deveria pensar o primeiro começo desse processo de auto-realização: assume-se claramente que o início já vem dado previamente. O homem - quando com liberdade faz o bem - não está pondo os pés pela primeira vez num caminho ainda não trilhado ou sequer aberto; o agir moral (isto é, todo agir humano baseado em decisão e responsabilidade) vem a ser antes uma continuação, um levar adiante pelo caminho algo já começado e que se encontra em processo.

Muito antes de se decidir livremente, já há algo que orienta o homem para seu alvo; como uma seta disparada ele já está a caminho. A Teologia fala aqui de um querer natural, de um impulso que nos é inerente por natureza e que seguimos quando fazemos o bem. No entanto, essa afirmação a respeito da natureza humana e do querer natural é apenas algo precário e, por assim dizer, provisório. Somente a compreendemos bem, quando entendemos "natureza humana" como aquilo que o homem é em função da Criação. No ato de Criação, foi o homem posto por Deus a caminho, num caminho ao final do qual está aquele máximo que pode chamar-se, em sentido pleno, Virtude: a realização do projeto divino incorporado à criatura.

Quem pensa nisto consegue entrever a exigência quase inatingível que reside no conceito de virtude. E, talvez, torne-se-lhe claro, de repente, aquela certeira sentença um tanto enigmática do Novo Testamento: "Ninguém é bom senão só Deus" (Mc 10,18).

Joseph Pieper In: LAUAND, Jean. Linguagem e Ética; Ensaios. Curitiba: Editora Universitária Champagnat, 1989.
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