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Implicações da Comunhão dos Santos - Léon Bloy




“Nossa liberdade é solidária do equilíbrio do mundo, e é isso que é preciso compreender para não se ficar espantado com o profundo mistério da Reversibilidade, que é a designação filosófica do grande dogma da Comunhão dos Santos. Todo homem que produz um ato livre projeta sua personalidade ao infinito. Se dá de má vontade um vintém a um pobre, esse vintém fura a mão do pobre, cai, fura a terra, rompe os sóis, atravessa o firmamento e ameaça o universo. Se comete um ato impuro, obscurece talvez milhares de corações que não conhece, que correspondem misteriosamente a ele e que têm necessidade de que esse homem seja puro, como um viajante que morre de sede tem necessidade do copo de água do Evangelho. Um ato caridoso, um movimento de verdadeira piedade, conta em seu favor os louvores divinos desde Adão até o fim dos séculos, cura os doentes, consola os desesperados, apazigua as tempestades, resgata os cativos, converte os infiéis, protege o gênero humano.”

Léon Bloy

Léon Bloy - quem saberá dizer o que é a Eternidade?


A mais alta inteligência sofre a incapacidade absoluta de assimilar o Infinito. Há poucas palavras tão empregadas quanto essa: eternidade. No entanto, onde se encontra o monstro de gênio que conseguirá dar uma explicação qualquer desse lugar-comum? O que não tem começo nem fim! Sabe-se pela fé, e mesmo pela razão, que isso existe. Chega-se mesmo a saber que somente isso existe, realmente. Mais, eis tudo. Mais além, é o muro de aço ao encontro do qual esbarra toda força intelectual. É o domínio de Deus, o Jardim do Milagre, o tabuleiro da Rosa Mística. Os muito pequenos e os muito humildes podem perceber, algumas vezes, de infinitamente longe, os altos bosques. Excessiva condescendência do Mestre e privilégio raro entre os raros. E estes não compreendem mais do que os outros. Apenas, o dom dos milagres lhes é então outorgado como um perfume revelador, como um átomo de poeira das flores desconhecidas. Aquele por quem é necessário esperar, o Estrangeiro que só ele poderá pôr fim à incomensurável Tribulação, será certamente um homem de eternidade, nesse sentido que terá permissão para beber no Reservatório do temível jardim, não muito longe da velhíssima Árvore da Ciência, justo no lugar onde caía o Sangue da Mão direita de Jesus, logo depois de ter sido pregado na Cruz, face ao Ocidente.

Octávio de Faria. Léon Bloy. Rio de Janeiro: Gráfica Record, 1968. p.86-87

Octávio de Faria sobre Léon Bloy


Assim como sua vida pode ser considerada, em seu todo, como o testemunho vivo de sua fé em Deus, também seu pensamento pode se sintetizar em uma frase: Deus existe. Esse homem, Léon Bloy, acreditava em Deus, e sua mensagem, por mais rica e complexa que se nos apresente, é apenas a expressão disso, a afirmação, não importa em quantos tons e sob que variantes, dessa realidade fundamental. É de que, em consequência, existe entre o mundo divino e o mundo humano uma constante intercomunicação. Sua maior grandeza, sua força principal para nós que vivemos home, vem daí, desse fato de ter acreditado na existência de Deus como nenhum outro homem, e de ter consagrado uma obra e uma existência inteira a essa afirmação nuclear: Deus existe. Deus existe e Jesus Cristo, seu Filho, morreu por nós, e o Espírito Santo, Terceira Pessoa da Trindade Divina, virá um dia varrer a terra com o seu fogo de purificação - Tal é a sua mensagem essencial.

Da intensidade com que esse cristão privilegiado acreditava em Deus, não sei como dar uma idéia, aqui. Não sei que trechos escolher numa obra que, toda ela, diz a mesma coisa, mostrando a todos os momentos a presença ou a ausência de Deus em tudo, nas coisas que acontecem tão bem quanto nas que deixam de acontecer. Mas, não será suficiente relembrar que para ele o visível era, apenas, "o rastro dos passos do invisível"? ... Ou, simplesmente, recordar o que sua existência foi, como toda ela o exprime, e diariamente, a mesma idéia fundamental: a diferença entre o mundo e eu, Léon Bloy, é que eu, Léon Bloy, acredito em Deus e a Ele me entreguei por inteiro, e o mundo não acredita em Deus, renegando-o a todos os instantes. Daí meu sofrimento - daí a glória do mundo...

Acreditou em Deus nos detalhes mais ínfimos das horas que passavam e no desenrolar dos destinos maiores de que a história deu notícia, no dos Imperadores de Bizâncio, no de Joana D'Arc, no de Cristóvão Colombo, no de Maria Antonieta e no de seu pobre filho, no de Napoleão ("face de Deus nas trevas") e, sobretudo, no seu próprio. Viu-O por toda a parte, até mesmo por detrás da linguagem despreocupada do burguês - nessas espantosas exegeses de lugares-comuns que valem como o "police-verso" dirigido contra o mundo da Burguesia - e viu_o na glória dos seus maiores santos e dos místicos que mais perto d'Ele chegaram. Acreditou n'Ele, esperou n'Ele e por Ele, "discutiu" com Ele, sofreu aos Seus pés e ao Seu lado. E foi mesmo mais longe ainda, para escândalo do mundo, dos homens da ciência e dos filósofos que tudo sabem e demonstram: acreditou realmente no demônio, temeu-o, distinguindo nas coisas do mundo, as suas coisas das de Deus. Proclamou-o sem medo, fez até, dessa distinção, uma de suas principais revelações. Chegou mesmo a declarar (cubram a cara os que quiserem): "Tudo, nesse mundo, é inexplicável sem a intervenção do Demônio."

É que seu catolicismo era um catolicismo vivo, catolicismo de quem só conhecia uma regra fundamental: o Evangelho. E, o Evangelho sem a distinção, a seus olhos odiosa, demoníaca, entre o preceito e o conselho. O Evangelho, que ensina: é preciso ser pobre para se salvar, o Evangelho que ele próprio propõe: "Vender tudo, deixar tudo, destruir em si o espírito do mundo." O Evangelho, a quem todos deviam configurar suas vidas diárias, porque nele está escrito, para sempre, a história de todos os homens. Dirá mesmo: "A ressurreição de Lázaro é a história de todo o mundo, a cura do cego de nascença, do surdo-mudo, do paralítico ou dos dez leprosos, todos os milagres do Evangelho são a história de todo o mundo, mas ninguém o percebe. Aliás, como percebê-lo, se mais de uma vez ele próprio nos adverte: "A nenhum homem é dado conhecer a sua própria história"?

Catolicismo vivo, intransigente, de quem sabe que, se Deus existe, existe em todas as coisas e a todos os momentos, na dor como na alegria, na glória dos céus como pregado no Madeiro, sangrando e sofrendo. Catolicismo de quem, como já tivemos ocasião de ver, aprendeu com Pascal que Jesus o Cristo está em agonia até a consumação dos séculos, até que os homens tenham suficiente piedade dele pra ir tirá-lo da Cruz, abandonando as riquezas e os prazeres do mundo, renegando o Dinheiro que é o "Sangue do Pobre". Catolicismo de todos os instantes, que sabe perfeitamente: nada se faz, nada se diz, nada se pensa, que não vá diretamente tocar as pessoas da Trindade Divina, o Pai que é Amor e Glória, o Filho que é Sofrimento e Pobreza, o Espírito Santo que é Fogo e Mistério. Catolicismo de quem, de tanto caminhar à sombra do Espírito Santo, conseguiu descobrir: "Quer o queira ou não, quer o saiba ou o ignore, cada homem é forçado, a todos os instantes de sua vida, a declarar a morte de Jesus Cristo. Aquele que compra um pão, anuncia a morte de Jesus Cristo." - e que diz também, com igual inspiração divina: "Jesus está no centro de tudo, assume tudo, sofre tudo. É impossível golpear uma criatura sem golpeá-lo, humilhar alguém sem humilhá-lo, amaldiçoar ou matar quem quer que seja sem amaldiçoá-lo ou matá-lo. O mais vil de todos os miseráveis é obrigado a tomar emprestada a Face do Cristo para receber uma bofetada, de não importa que mão."

Catolicismo, portanto, de quem tem de ver tudo de modo diferente do comum dos homens, de quem tem de denunciar os perigos que o mundo corre, de quem tem de lhe gritar - já que esse mundo criminoso esqueceu completamente o Cristo e a verdadeira prática de sua religião -: "É preciso rezar. Tudo mais é vão e estúpido. É preciso orar para suportar o horror desse mundo, é preciso rezar para ser puro, é preciso rezar para obter a graça de "esperar". Catolicismo profundo, visceral, de quem orava incessantemente, de quem trazia nas calças as marcas das constantes genuflexões que fazia. E Léon Bloy, realmente, andava pelas ruas rezando, de rosário no bolso, sem que os homens o percebessem, como também não viam o rosário no bolso de Péguy - desse Péguy que passou, provavelmente mais de uma vez, rezando, a seu lado nas ruas de Paris, sem que nenhum dos dois tivesse consciência disso...

Rezar, portanto. Rezar para que os homens tenham noção do perigo que estão correndo - outro não tendo sido o aviso da Virgem na Salette - e voltem enfim a Deus. Pois, como Bloy tão bem disse: "Ninguém, seja entre os melhores cristãos, parece procurar Deus, nem mesmo pensar n'Ele. Todos se sentam à mesa como cães e vão pra a cama como porcos. Impossível conseguir a menor atenção, quando se fala de Deus."

Esquecimento de Deus - esquecimento de Cristo. E, se Dostoievsky, nessa época, do fundo da Rússia, denunciava na perda do Cristo o motivo fundamental da decadência da civilização ocidental, Léon Bloy, em pleno campo de batalha, não vê diferentemente o problema. Também para ele, a renegação do Cristo, tácita ou explícita, o esquecimento ou a deturpação do seu ensino, é a razão decisiva do esboroamento do mundo moderno, desse universo católico que via marchando tão violentamente para as anunciadas catástrofes finais que não havia terremoto na Sicília, naufrágio no Atlântico ou incêndio na Ópera ou num Bazar de Caridade qualquer, que não lhe parecesse logo o mais evidente sinal de que o castigo último ia enfim começar - o dilúvio esperado, ardentemente esperado, não devendo demorar muito...

O mundo e Judas traíram o Cristo. Bloy, no entanto, ao mundo, ainda prefere Judas. Pelo menos, esse pobre miserável, que reuniu contra si o universo inteiro, teve o movimento final de revolta contra sua miséria, contra sua traição. Renegou-se publicamente. O mundo, não. Dele, nenhum desespero a esperar, nada que se pareça com a devolução dos trinta dinheiros. (...) Tal é o mundo que odiou tanto (talvez como ninguém mais), e de um modo tal que frequentemente o surpreendia, já que, na verdade, era capaz de muito amor, de grandes movimentos de ternura, como o provam inúmeros trechos de sua obra, especialmente os consagrados à glorificação da Virgem e à propagação de sua mensagem da Salette. No entanto, para o mundo propriamente, eram bem outros seus impulsos, e mais de uma vez teve de fazer dessas confissões: "Sim, é verdade, sinto-me cheio de ódio desde a minha infância e ninguém jamais amou os homens mais ingenuamente do que eu. Detestei, porém, as coisas, as instituições, as leis do mundo. Odiei infinitamente o Mundo e as experiências de minha vida não serviram senão para exasperar essa paixão."

nenhuma dúvida: entre Deus e Mamon, não teve vacilações. Não as compreenderia, nesse terreno. Considerando-se, como sabemos, um apóstolo "do cristianismo absoluto", não transigia em nada, não abandonava coisa alguma para que, em troca, lhe fizessem concessões vantajosas. Seu catolicismo é absoluto, repitamos mais uma vez. E os exemplos acorrem para desacoroçoar, de início, os que acaso sonhem em em adaptá-lo à meia-luz e aos meios-tons de suas tristes telas. A Alguém que, na Dinamarca, certa vez, lhe oferece jornais do dia para ler as novidades, responde: "Quando quero saber as últimas novidades, leio São Paulo." A um inquérito sobre "clericalismo", replica, furioso: "Clericalismo é uma palavra vaga e covarde, uma palavra podre que rejeito com asco. Se se quer designar, desse modo, o Catolicismo romano, isto é: a única forma religiosa, eis a minha resposta, bem nítida, às três questões propostas: I) - Eu sou pela Teocracia absoluta, tal qual é afirmada na Bula "Unam Sanctam", de Bonifácio VIII. II) - Eu penso que a Igreja deve deter em suas mãos as duas Espadas, a Espiritual e a Temporal, que tudo lhe pertence, as almas e os corpos, e que, fora dela, não pode haver salvação, nem para indivíduos nem para sociedades. III) - Enfim, acho que é ofensivo para a razão humana por em discussão princípios tão elementares."

Mais intransigentemente, ainda, declara adiante: "Vazio de tudo o que não é divino." ou, variando, "insuficiência e miséria de tudo o que não é divino." E, cumula sua intransigência com essa afirmação que, por certo, desorientará a muitos, mas vale por um de seus melhores retratos de corpo inteiro que conheço: "Enfim, tudo o que não é estritamente, exclusivamente, desesperadamente católico, deve ser atirado às latrinas" ...

Octávio de Faria. Léon Bloy. Rio de Janeiro: Gráfica Record, 1968. p. 60-64

Somente o que é Absoluto é verdadeiro

 

"Quando se é um homem e se toca num princípio qualquer, é preciso esgotá-lo, sendo possível. Quando se toma uma certa direção, e não se é um imbecil ou um covarde, é preciso ir até o fim, não importa o que aconteça, ou então nunca se deveria ter tomado o bastão do viajante. Os corações valentes não param nunca no meio do caminho. Não tomam da Verdade isso, deixando aquilo, mas aceitam-na toda inteira, de modo a lhe serem fiéis até mesmo além da morte. Os semi-ordinários fazem-nos pena, e é um sentimento muito justo, pois todo erro não é senão um abuso da verdade. Mas, o que diremos de um homem honesto pela metade e, com mais razão, da metade de um cristão? Somente o que é Absoluto é verdadeiro." 

Léon Bloy

Léon Bloy sobre a Comunhão Diária


"Quando não se comunga todos os dias, não se é cristão, salvo no caso de invencível empecilho. É o seu caso? Então, é vontade divina que lhe seja infligida tal provação. Sob esse ponto, não posso lhe dar conselho... Tudo o que sei, ei-lo aqui: preferiria me expor aos maiores perigos, do que ser privado da comunhão diária. Como poderá Jesus resistir a uma alma que morre de fome e lhe pede para receber seu Corpo? É, muito simplesmente, uma imensa confiança em Deus."

A dor humana após a Cruz


"Desde então (desde a Cruz), toda dor sofrida por um cristão está liberada desse terrificante Indefinido, desse insondável vinco do sofrimento que devia, antes, torná-la tão terrível, e que a torna ainda tal aos olhos dos descrentes que, para não vê-la, precipitam-se na morte. A doutrina católica circunscreve toda a possibilidade da dor humana nos intransponíveis limites de uma Dor divina, absoluta e sinteticamente perfeita. E, como essa Dor é o contrário de uma prodigiosa prevaricação - posto que se tratava de remediar, sem destruir a liberdade do homem -, torna-se evidente que ela não podia realmente se produzir senão com o acompanhamento do perpétuo entusiasmo de um amor sem limites. É o que a linguagem católica chama, energicamente, de a Loucura da Cruz."

Léon Bloy

A terrível experiência de Comungar


"Vou comungar. O padre pronunciou as terríveis palavras que a piedade carnal chama de consolantes: DOMINE, NON SUM DIGNUS... Jesus vai chegar e não tenho senão um minuto para me preparar para recebê-Lo... Em um minuto, Ele estará sob o meu teto.

Não me recordo de ter varrido essa morada em que Ele vai penetrar como um rei e como um ladrão, pois não sei o que pensar dessa visita. Tê-la-ei mesmo varrido, essa minha morada de impudicícia e carnificina? Lanço um olhar, um pobre olhar apavorado, e vejo-a cheia de poeira e de porcarias. Por toda a parte há como que um cheiro de putrefação e de imundícies. Não ouso olhar nos cantos sombrios. Em lugares menos obscuros, percebo nódoas horríveis, antigas ou recentes, que me recordam de que massacrei inocentes. E quantos! E com que crueldade!

Meus muros estão cheios de bichinhos nojentos e neles escorrem gotas frias que me fazem pensar nas lágrimas de muitos desgraçados que me imploraram em vão, ontem, anteontem, há dez anos, há vinte, há quarenta anos... E eis! Ali, diante daquela pobre porta, quem é aquele monstro acocorado, que até agora não tinha notado, e que se assemelha a alguém que algumas vezes entrevi em meu espelho? Parece dormir na placa de bronze que tranquei e aferrolhei com tanto cuidado de modo a não ouvir o clamor dos mortos e seu lamentável Miserere. Ah, é preciso realmente ser Deus para não temer entrar numa tal casa! E ei-Lo aqui! Qual será a minha atitude? E que vou dizer ou fazer?

Absolutamente nada. Antes mesmo que tenha transposto meu limiar, terei cessado de pensar n'Ele, não estarei mais presente, terei desaparecido. Não sei como, mas estarei infinitamente longe, entre as imagens das criaturas. Ficará só. E Ele mesmo limpará a morada, ajudado por Sua Mãe, de que pretendo ser o escravo, e que é, na verdade, minha humilde serva. Quando tiverem ido embora, Um e Outra, para visitar outras cavernas, voltarei. E trarei comigo outras imundíceis."

Léon Bloy

Léon Bloy sobre os santos inocentes


"É o rebanho dos pequenos de Deus. "Quem quer que receba em meu nome um desses pequenos" disse Jesus, "é a mim mesmo que recebe". O que pensar daquele que os degola, que os mutila, ou que inflige às suas almas puras uma tristeza mais negra do que a morte? (...) A maldição de uma multidão de crianças, é um cataclisma, um prodígio de terror, uma cadeia de montanhas sombrias no céu, com uma cavalgada de raios e trovões em seus cimos. É o infinito dos gritos de todos os abismos, é um não sei o que de altamente poderoso que não perdoa e que extingue a esperança de qualquer perdão."

Léon Bloy In FARIA, Octávio. Léon Bloy.

Depois de ler este relato visceral do Léon Bloy, como não pensar na terrível situação que vivenciamos hoje em que milhares são os infantes que morrem por dia, por hora, por minutos... no mundo? A estes sequer é dado o direito de nascer e, novamente, pelo seu grito impedido eles clamam justiça Àquele que já havia dito: "É a Mim que o fazeis..." Que terrível, que terrível!

"Até quando, ó Senhor santo e verdadeiro,
tardarás a fazer justiça,
vingando nosso sangue
contra os habitantes da terra?"
(Ap 6,10)

Frases de Léon Bloy sobre o mundo moderno


"Um homem que opõe a Razão à Fé é tão estúpido quanto um cavaleiro que não dê de comer a seu cavalo. Ora, sabeis que esse é o nível mental atual, não só dos descrentes como da maioria dos católicos. Ficar-vos-ia reconhecido se me dissésseis como poderei fazer para não desprezar tudo isso."

"Julgo que nunca houve época tão desprovida de interesse. Desesperante uniformidade da baixeza e da porcaria, atestada pelas secreções do jornalismo."

"Chegamos a esse momento formidável e absolutamente estranho em que, Deus tendo sido expulso de toda a parte, nenhum homem saberá mais onde ir..."

"Já agora, o idiota é dono do mundo. É ele que é necessário, é ele que é procurado. Só ele é capaz de representar, de legislar, de presidir! A experiência está feita. Se há alguma coisa impossível é imaginar um homem, não digo superior, mas apenas dotado de uma inteligência rudimentar, podendo ser considerado digno de fazer leis ou de exercer uma função pública. O cretinismo é rigorosamente exigido."

"Dez mil manifestantes, bandeiras vermelhas e negras. Sindicalistas de um lado, agentes e soldados de outro. 250 feridos, ao que se diz. Seria necessário um novo Pentecostes para fazer compreender a esses pobres operários libertários, dominados e martirizados por alguns pândegos, quanto eles são imbecis!"

"Sabeis o que foi dito na Salette. O mundo moderno está entregue a Satanás, por decreto, de há um século, e a grande fortaleza, a Igreja, foi atingida. Pareceis esperar não sei que retorno dos povos a Deus, percebi isso em vosso livro. Não o espero, eu. O passado está bem para trás, bem abolido. Sem dúvida, é forçoso que Deus triunfe, no fim. Mas, depois de que terríveis trevas!"

"Outrora, havia a Glória que viva sem rumor e sem magnificência, e que, ainda que fosse a grande soberana, não vestia jamais outra púrpura senão a do seu próprio sangue, quando o derramava para se tornar imortal. Hoje que essa imortal está morta, a infame folgazona que a destronou, a Opinião pública, nada em esplendores, pois seu concubino preferido é o mais incontinente dos cegos rigos e se chama o Sucesso."

"É verdade que o mundo não é muito difícil de ficar espantado. É tão medíocre e tão baixo, esse apanágio de Satanás, que uma aparência de força ou de grandeza basta, comumente. Foi o que muitas vezes se viu nos nossos dias quando políticos ou escritores, capazes no máximo de aguilhoar carne ou de filar jantares, puderam se fazer admirar por multidões".

"Onde estão, hoje, as almas heróicas? Sei bem que o heroísmo pode ser encontrado, pelo menos em estado rudimentar, entre os nossos combatentes, mas o heroísmo integral, sem costura nem emenda, onde está ele? É o do cristão completo que tudo deu por amor de Deus antes de dar alguma coisa à pátria, e deve ser extremamente raro".

FARIA, Octávio de. Léon Bloy. Rio de Janeiro: Gráfica Record, 1968.

Os santos sustentam o mundo


"O culto dos santos é sobretudo odioso para aquele inimigo (o Espírito do mal), porque os santos são uma carne mortal traspassada de glória, e porque, honrá-los é dedicar a essa divina Glória a mais perfeita das adorações. Ao mesmo tempo, os santos sustentam o mundo. Deus só fez a raça humana para que ela lhe desse Santos. E, quando essa raça não puder proporcioná-los mais, o universo se dissolverá como um pouco de poeira."

"Só há uma tristeza: não se ser santo."

Léon Bloy

Sobre cadáveres que andam


"Quantas almas realmente vivas [existem] nesse fervilhar de seres humanos? Uma por cem mil, talvez. Ou, por cem milhões. Não se sabe. Há seres superiores, homens de gênio mesmo, talvez, cuja alma não foi vivificada e que morrem sem ter vivido. Um coração simples dirá cada dia, chorando de angústia: "Em que pé estou com o Espírito Santo? Sou verdadeiramente um vivo ou um morto que se devia enterrar?" É terrificante pensar que se subsiste no meio de uma multidão de mortos que se acredita vivos e que o amigo, o companheiro, o irmão que se viu de manhã e que se vai tornar a ver à noite, só tem vida orgânica, uma aparência de vida, uma caricatura de existência. E que, na verdade, é apenas diferente daqueles que já se estão desfazendo nos túmulos. É intolerável, por exemplo, pensar que se nasceu de pai e mãe que não existiam. E que esse padre, presente no altar, talvez não seja muito diverso de um outro já falecido e que o Fármaco de imortalidade, o Pão que ele consagrou para vos transmitir a Vida eterna, ele o vai estender com mão de cadáver, proferindo com voz defunta as santas palavras da liturgia! Funcionam, no entanto, todos esses fantasmas, com uma perfeita regularidade. A missa daquele padre é tão válida quanto a de um santo. Certa, a absolvição que administra aos pecadores. A força de seu ministério sobrenatural perdura enquanto a morte não triunfou definitivamente dele. E assim sucede com todos os semi-trespassados que nos rodeiam e que somos forçados a chamar, por antecipação: mortos. Continua-se a agir e mesmo a pensar mecanicamente, com uma alma destituída de vida"

Léon Bloy

FARIA, Octávio de, Léon Bloy. Rio de Janeiro: Gráfica Record, 1968, pág. 126

Se Deus existe...


"Deus existe ou Deus não existe. Se se lhe concede a existência, é preciso concedê-la efetiva, supondo uma infinita continuidade da Criação, o que implica a onipotência absoluta no conhecido e no desconhecido, no visível e no invisível. Se o Ato criador de interrompesse, no mesmo instante o maus duro granito e todos os metais se reduziriam a poeira, e essa própria poeira não subsistiria. Nâo haveria mais nada. A natureza inteira se dissolveria no ininteligível vazio. Se esse postulado não for admitido, é-se forçosamente um ateu ou um imbecil, o que é aliás, equivalente, do ponto de vista estético."

Léon Bloy

Léon Bloy sobre os católicos modernos


"Simples observação. Ninguém, mesmo entre os melhores cristãos, parece procurar Deus, ou mesmo, pensar nele. Vai-se para a mesa como cães, e para a cama como porcos. Impossível conseguir a menor atenção quande se fala de Deus."

"Penso frequentemente na afirmação de Ana Catarina Emmerich: "Não há mais cristãos no verdadeiro sentido da palavra".

"Os amigos de Jesus vêem à sua volta os cristãos modernos e é assim que podem conceber o inferno".

"Simão o Cirenaico ajuda Jesus a carregar a sua Cruz. Os cristãos modernos põem suas cruzes nas costas de Jesus".

"Tive muito frequentemente a ocasião de falar da tolice de nossos católicos, prodígio enorme, demonstrativo, por si só, da divindade de uma religião capaz de resistir-lhe".

"Tens perfeitamente razão de dizer que esse indivíduo jamais poderá me compreender. É um católico que permaneceu protestante - conheço o caso."

"Preocupam-se muito os russos com a comemoração de um centenário de 1912. A esse respeito, Raoux me escreve e me fala o grande Exército morto de frio. Respondo-lhe que o grande exército sem vitórias dos nossos católicos modernos morrerá, este ano talvez, do frio que está nele mesmo..."

"Há duas causas para este ostracismo de meus escritos no mundo católico: a extraordinária ininteligência dos cristãos modernos e sua profunda aversão do Belo. Entre uma página escrita com esplendor e uma outra página exprimindo as mesmas idéias chãmente, a escolha deles não é nunca duvidosa: vão, por instinto, à mediocridade. Tivestes mil ocasiões de ver isso e o vereis cada vez mais, pois o nível baixa todos os dias."

"O que se vê por toda a parte, e cada vez mais, é, por parte dos cristãos, o ateísmo prático, pelo menos na maior parte deles."

"Perguntais se esta guerra não esclareceu os católicos a meu respeito, se não pôs o clero a meus pés, etc. Eis a minha resposta. Nada poderá mudar esses católicos de que falais. A guerra, longe de esclarecê-los, aumenta sua cegueira e, mais do que nunca, sou seu pesadelo, tendo cometido o imperdoável crime de levar a sério a lei divina, de ser um católico absoluto - o único entre todos os que falam ou escrevem. Isso nunca me será perdoado. O castigo é fácil. Proibição de comprar meus livros, de lê-los e de deles falar. Sabe-se que o autor é pobre. Que vitória se se pudesse matá-lo pela miséria! A conspiração do silêncio. É uma imensa honra para mim ser tratado exatamente como Nossa Senhora da Salette, a quem é recomendado não dar a menor atenção. O efeito do castigo é, naturalmente, a miséria, sobretudo nos dias de hoje..."

"Os católicos desonram o seu Deus, como jamais os judeus e os mais fanáticos anticristãos foram capazes de o desonrar"

Octávio de Faria, Léon Bloy.

19 de setembro - Dia de Nossa Senhora da Salette


Léon BLoy

"A Santa Virgem tinha pedido Apóstolos. Deram-lhe estalajadeiros. Tinha querido verdadeiros discípulos de Jesus Cristo, desprezando o mundo e a si próprios. Instalaram-se padres negocistas, piedosos contadores encarregados de "aumentar" o pecúlio comum."

"A Revelação da Salette, considerada como uma ruptura do silêncio de dezoito séculos, oferece, ao mesmo tempo, consolo e terror. E não penso aqui nem mesmo na Mensagem, isto é: nas ameaças e nas promessas. Tenho unicamente em vista o incrível acontecimento da Santa Virgem falando com autoridade, na Igreja. Digo que esse fato é consolador por causa do caráter d'Aquela que fala, já que a Igreja a invoca sob o nome de Consolatrix e, também, porque é uma espécie de cumprimento, sob os nossos olhos, da Terceira Palavra de Jesus moribundo. Mas é, ao mesmo tempo, terrível, por causa do silêncio desse mesmo Jesus, que parece implicar. Jesus e Maria não falam juntos. Quando Jesus começa a sua Prédica, Maria se abisma no silêncio e, se dele sai, agora, quererá isso dizer que Jesus não vai mais falar? Eis, ao que me parece, um dos aspectos mais obscuros da Salette. E um dos menos explorados, provavelmente em razão do imenso terror nele contido. Alguns escritores ascéticos, tais como o santo bispo de Lausanne, Amadeu e, sobretudo, no décimo sétimo século, o Venerável Grignion de Montfort, afirmaram que o Reino de Maria está reservado para os últimos tempos. O que faria supor que, nossa Mãe, tendo enfim falado como Soberana, Jesus não tornará a tomar a palavra senão para fazer ouvir o temível ESURIVI, "eu tive fome" (Mt XXV, 35-42) que deve acabar com tudo..."

"Os padres são para Ela (Nossa Senhora da Salette) o que são para Deus e para a Igreja. Cada um deles representa Jesus Cristo, e imagino-a perfeitamente se ajoelhando diante deles, como se ajoelhou diante de seu Filho, quando este lhe veio humildemente pedir permissão para ir sofrer. - "Peço-vos, meus muito queridos filhos, que não desprezeis minha Mensagem. É o meu último esforço para salvar o rebanho de que sois os pastores e de que vos serão pedidas severas contas. Se não lhe disserdes que vim e que sobre ele chorei com amargor, se não lhe repetirdes todas as minhas palavras, quem poderá lhas ensinar? E como vos salvareis, vós e eles? Tudo o que disse a meus dois testemunhos, tudo o que lhe reveie para que o propagassem por todo o meu povo, é infinitamnte precioso e salutar, e não podeis fazer uma separação entre elas sem me ferir bem na pupila do olho e sem traspassar vossas almas... Vós que tanto recebestes de meu Filho, ocupando até mesmo seu divino lugar, vós que deveríeis ser tão santos!, como podereis deixar de chorar comigo, batendo em vossos peitos?! Como ousastes caçoar dos meus avisos e impedir que outros acreditassem neles?!... Dei uma Regra. Que fizeram dela? Foi em vão que dois papas quiseram fazê-la pôr em prática. Meus queridos Apóstolos dos Últimos Tempos, meus doces filhos muito amados, onde estão eles? Tinha-os escolhido. Eu mesma, selecionando-os com cuidado, como os grãos de fermento do Pão dos Anhos. Alguns deles estão bem perto de vós. Se os nomeasse, agora, logo faríeis com que sofressem... Pelo temibilíssimo Nome de vosso Mestre, cuja descida à terra forçais cada dia, suplico-vos para que tenhais medo..."

"Mas, não há refúgio para a Indignação de Deus. É uma criatura selvagem e faminta, para quem todas as portas estão fechadas, uma verdadeira criatura do deserto que ninguém conhece. Os leões, no meio dos quais foi gerada, morreram, ceifados à traição pela fome e pelos vermes. Arrastou-se diante de todas as soleiras, suplicando que a albergassem, mas não houve ninguém que tivesse piedade da Indignação de Deus. É bela, no entanto. Mas, inseduzível. E infatigável. Apavora tanto que a terra teme, quando passa. A Indignação de Deus veste andrajos e quase nada tem para esconder sua nudez. De pés descalços, está toda ferida, e há sessenta e três anos* - coisa terrível -, não tem mais lágrimas! Seus olhos são fundos abismos. E sua boca não profere mais nem uma única palavra. QUando encontra um padre, torna-se mais pálida e mais silenciosa, pois os padres a condenam, achando-a mal vestida, excessiva e pouco caridosa. Sabe perfeitamente que, já agora, tudo é inútil! Segurou às vezes criancinhas nos braços, oferecendo-as ao mundo, mas o mundo atirou esses inocentes no montão das imundícies, dizendo-lhe: - "És livre demais para me agradar! Tenho leis, polícia, oficiais de justiça, proprietários!" - "O vencimento está próximo e eu pagarei com toda a exatidão", respondeu a Indignação de Deus."

* Faziam 63 anos da aparição da Salette quando Léon Bloy escreveu isto.

Octávio de Faria, Léon Bloy.

Leia o segredo dito por Nossa Senhora da Salette aqui

Léon Bloy


Se Deus existe...

Deus existe ou Deus não existe. Se se lhe concede a existência, é preciso concedê-la efetiva, supondo uma infinita continuidade da Criação, o que implica a onipotência absoluta no conhecido e no desconhecido, no visível e no invisível. Se o Ato criador se interrompesse, no mesmo instante o mais duro granito e todos os metais se reduziriam a poeira, e essa própria poeira não subsistiria. Não haveria mais nada. A natureza inteira se dissolveria no ininteligível vazio. Se esse postulado não for admitido, é-se forçosamente um ateu ou um imbecil, o que é, aliás, equivalente, do pondo de vista estético.

O verdadeiro bem aos outros

Falais em melhorar a condição dos que sofrem. Como podeis acreditar nessa possibilidade, se não tendes em vista senão o bem-estar material? E sois forçados a só ter isto em vista, posto que não tendes absolutamente nada a dar a suas almas. Ninguém fez tanto por eles, materialmente, quanto os homens de grande fé que a Igreja chama os Santos. Mas os santos sabiam que o corpo humano não é senão a aparência do homem e trabalhavam sobretudo por suas almas, as quais não morrem. Sabiam, também, que o Sofrimento é bom, sobrenaturalmente, para todos. E que o homem que não sofre ou não quer sofrer, é um filho deserdado do Filho de Deus que esposou a Dor, pois somente aquele que aceita sofrer, pode entrever o preço de sua alma.

O Ato único

Então Deus, que conhece a miséria de suas criaturas, confere misteriosamente a alguns que escolheu por testemunhos a suprema graça de um desprezo sem limites, no qual não subsiste nada mais senão Ele mesmo em suas Três Pessoas inefáveis e nos milagres de seus Santos. Quando o padre eleva o cálice para receber o Sangue do Cristo, pode-se imaginar o enorme silêncio de toda a terra que o adorador supõe cheia de pavor em presença do Ato indizível que torna semelhantes a nada todos os outros atos, logo assimiláveis a vãs gesticuçações em trevas. A mais hedionda e a mais cruel das injustiças, a opressão dos fracos, a perseguição dos cativos, o próprio sacrilégio e o consecutivo desencadeamento das luxúrias infernais, todas essas coisas, nesse momento, parecem não mais existir, não mais ter sentido em comparação com o Ato Único. O que subsiste é, somente, o apetite dos sofrimentos e a efusão das magníficas lágrimas do grande Amor, antegoso de beatitude para os alunos do Espírito Santo que estabeleceram sua morada no tabernáculo do Desprezo real por todas as aparências deste mundo.

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Deus vos quer santo. Não digo virtuoso, nem honrado, o que basta aos burgueses. Mas, SANTO. E, a isso saberá vos obrigar, nem que seja à custa de terríveis dores.


Octávio Faria, Léon Bloy.
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