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Pequeno Exorcismo de S. Miguel Arcanjo escrito por Leão XIII



São Miguel Arcanjo, defendei-nos no combate, sede o nosso refúgio contra as maldades e ciladas do demônio. Ordene-lhe Deus, instantemente o pedimos, e vós, príncipe da milícia celeste, pela virtude divina, precipitai no inferno a satanás e aos outros espíritos malignos, que andam pelo mundo para perder as almas.
Leão XIII escreveu ele mesmo essa oração. A frase [os demônios] “que vagam pelo mundo para perdição das almas” tem uma explicação histórica, que nos foi referida várias vezes por seu secretário particular, Mons. Rinaldo Angelo. Leão XIII experimentou verdadeiramente a visão dos espíritos infernais que se concentravam sobre a Cidade Eterna (Roma); dessa experiência surgiu a oração que quis fazer rezar em toda a Igreja. Ele a rezava com voz vibrante e potente: o ouvimos muitas vezes na basílica vaticana. Não somente isso, mas que escreveu de seu próprio punho e letra um exorcismo especial contido no Ritual Romano (edição de 1954, tít. XII, c. III, pp. 863 y ss.). Ele recomendava aos bispos e sacerdotes que rezassem freqüentemente esse exorcismo em suas dioceses e paróquias. Ele, por sua parte, a rezava com muita freqüência ao longo do dia.
Cardenal Nasalli Rocca, Carta Pastoral para a Quaresma, Bologna, 1946, apud Boletim Sacrificium, ano I, volume I, número 28.

Sobre Missas-Shows e certos eventos que nem o demônio ousaria...

"Carniceiros", como os chama Nosso Senhor.
O que a Santa Missa é, na verdade...

Eu fico olhando este costume pavoroso que se tornou comum nos dias de hoje. Uma atitude tão profundamente cruel, tão nefasta e blasfema e que, não obstante sua fealdade suprema, tem tomado lugar frequentemente nos ambientes ditos católicos. Falo da instrumentalização do Santo Sacrifício da Missa para fins outros. Que terrível é que os padres não tenham mais a mínima noção da absoluta sacralidade da Liturgia Eucarística e saiam promovendo todo tipo de eventos e festas, pondo, às vezes, a Santa Missa em paralelo ou abaixo de outras atrações que sequer alcançam o nível básico da moralidade.

Dias atrás, presenciava eu um desses eventos. A Santa Missa acontecia sobre um palco, no extremo lado direito, num canto apagado. Ao centro, ia um telão. Depois do Sacrifício do Senhor, os presentes assistiriam um filme. Parecia, na verdade, que essa era a atração principal: o filme. Ali não se via nenhum cuidado com a Liturgia e as músicas se assemelhavam muito mais a um batidão. Qualquer sombra de verdadeira arte estava ausente. A dispersão dos presentes era total. Barracas, aos lados, vendiam churrascos e batatas fritas. Ninguém tinha a menor idéia do que estava a acontecer: um sacrilégio coletivo.

Por diversas vezes, eu li que a comunhão indigna é um pecado imensíssimo. No entanto, não há mais qualquer cuidado. Os padres não se importam em formar os fiéis; nunca falam do pecado mortal, não acompanham os poucos que ainda pretendem ter uma vida espiritual minimamente coerente. Os fiéis que querem seguir o catolicismo de modo absoluto devem se animar a dar passos solitários, guiando-se a si mesmos, formando-se a si mesmos, e sendo mal vistos a todo o tempo como pessoas suspeitas.

Uma tal de Missa dos Vaqueiros está aí a ser anunciada. Virá um cantor relativamente famoso para fazer a festa depois da Missa. É claro que os que comparecerão a este evento estarão visando sobretudo o show posterior. Sequer quero imaginar as disposições de alma dos que lá estarão, as estratégias de diversão, as roupas com que aparecerão na "mesa dos escarnecedores". E ai dos que criticarem este tipo de coisa; serão vistos como fanáticos, fundamentalistas, alienados e adeptos de qualquer modinha perigosa e inconveniente que não deve ter mais espaço nos nossos dias.

E lá se vão tantas e tantas comunhões sacrílegas de tantas almas em pecado mortal. E lá se vão tantos fragmentos da Eucaristia caindo pelo chão e sendo pisoteados nas danças imorais que se seguirão. E lá virá Nosso Senhor, de novo, dar-Se em sacrifício pelos seus, mas não ser por eles reconhecido, nem amado, nem adorado, nem sequer respeitado. A Missa torna-se como que atração cultural de abertura de um show estranho. Reduz-se o Calvário aos festejos típicos de uma certa região. Deixa de ser a Redenção do mundo, para ser uma comemoração vazia, uma simples agitação de cadáveres sem alma que tentam, à força de sacrilégios e barulhos fátuos, distraírem-se da própria nulidade, da ausência de sentido com que vivem. E, quando a Santa Missa poderia e deveria ser o encontro com o Cristo na Cruz, à semelhança dos feridos no deserto que olhavam para a Serpente de Bronze, alguns outros fazem questão de encobrir a cruz e brincar de reunião fraterna, com chapéus de festa, ao jeito de infantes irresponsáveis, com gritinhos e sons de berrantes; tudo isto para abafar, no alarido nonsense destes desesperados, o grito terrível dAquele que, pendente na Cruz, deu a vida por nós, nós que agimos como imbecis irresponsáveis e dignos mil vezes do inferno.

Advertiu São Paulo: "de Deus não se zomba". Eu gostaria muitíssimo de ver o braço absoluto de Nosso Senhor. Ando muitíssimo saturado disso tudo. Imensamente cansado... E toda essa bagunça tem repercussão na minha vida espiritual. Eu gostaria de ver pelo menos um traço da indignação do Senhor, mas Jesus tem um amor e uma paciência infinitos. Porém, a justiça será feita. E nenhum devasso escapará. 

**

PS.: 
* As profanações, nos dias de hoje, são ainda piores do que as piadas que os fariseus soltavam diante da Cruz. Naquela ocasião, Nosso Senhor pedia ao Pai para lhes perdoar, pois eles não sabiam o que faziam. Hoje,  porém, Jesus não poderia repetir tal petição.

* Este mascaramento do Sacrifício do Senhor impede, objetivamente, que as pessoas conheçam a Deus tal qual Ele é, isto é, impede que muitas pessoas se convertam, dando-lhes uma visão equivocada sobre Deus e Sua Igreja, ameaçando eternamente as suas almas. Se, na verdade, toda a ação da Igreja deveria se orientar para a glória de Deus e a salvação das almas, este tipo de brincadeira irresponsável impede um e outro. Só Deus poderia dizer o tamanho desta afronta.

* Ontem foi dia de Nossa Senhora da Salette. Ela, quando apareceu, falou-nos de tudo isso. Recomendo a leitura aqui. Peçamos ao Céu que nos socorra. E os que podem ter uma vida católica completa, agradeçam infinitamente e rezem por nosotros.

Fábio.

Pérolas da TL II

Expoente da TL em momento de "Síntese Mística do Universo"

Pessoal, ponho mais algumas pérolas dos teóricos da Teologia da Libertação. Dessa vez, não resisti e pus, em azul, pequeníssimos comentários entre parênteses no meio das citações. Esse povo é muito estranho, rs...
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"Esta questão da espiritualidade é de fato muito polêmica, porque tem uma tradição na Igreja segundo a qual espiritualidade é cuidar do céu e a melhor maneira de hoje, no mundo, se descuidar dos problemas da vida. Essa era uma tradição, infelizmente, quase vigente na Igreja Católica e em outras Igrejas cristãs. Ora, a Teologia da Libertação é uma teologia que cuida da vida. É uma teologia prática, que surge da prática e vai para a prática: a prática libertadora, a comunhão com a vida do oprimido, o resgate de todos os valores da vida e da terra. Então, como é que vai se preocupar com uma história que é meio do céu, abstrata, de uma coisa muito individualista, de oração e de contemplação de Deus?" (É.. como, né? Se o céu não existe...)

M. Barros
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"Em última instância, o projeto de uma nova sociedade justa e igualitária terá que necessariamente se desembocar na questão da mística. Por isso é que - um pouco brincando, ms também bastante sério - eu costumo dizer que no futuro da América Latina, o homem e a mulher novos serão filhos do casamento de Santa Tereza D'Avila e Ernesto Che Guevara." (credo!)

F. Betto.
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"Os processos de libertação necessitam de uma práxis popular, sindical, etc. Necessitam de uma teoria social, política e teológica. Mas nós, seres humanos, necessitamos também de espírito, que não é o mesmo que a prática, a teoria. O que quero dizer com espírito? Pode-se teoricamente fazer uma revolução por amor ou por protagonismo. Pode-se lutar pelo bem do outro ou pelo bem de mim mesmo. Isso eu chamo espírito: por que fazemos as coisas, de que modo as fazemos. Isso eu chamo espiritualidade."

J. Sobrino
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"A grandeza do ser humano é poder se interiorizar. Unir o universo inteiro dentro de si (Ele é um Cavaleiro do Zodíaco, só pode...), fazer aí uma síntese e entregá-la em forma de amor e amizade ao outro, em forma de doação a Deus. Quando uma pessoa faz isso - pode ser um soviético como Gorbatchev que também fala de espiritualidade, como pode ser um cristão -, aí se realiza esse fenômeno extraordinário que só é possível entre os humanos: a espiritualidade. É o entrar dentro de si, sintetizar todo o universo (Vai Seya!), para fazê-lo doação ao outro. Para mim, quem consegue fazer isso vive o dom maior do espírito (O meteoro de Pegasus), que é a capacidade de ser livre, e sempre livre para os outros."

L. Boff
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"Os nossos companheiros de luta têm uma espiritualidade profundíssima (Pense!), uma vivência de fé permanente que os leva até ao martírio. A dificuldade, porém, está em explicitar isso. Eles têm a espiritualidade, mas não convivem muito bem com as expressões dessa espiritualidade. Por que não convivem? Por vários motivos. A espiritualidade assumiu durante os séculos formas e expressões que são alienadas, que são opressoras (¬¬), de um caráter muito marcado por uma filosofia dualista (a luta de classes não é dualista nadinha...). Isto faz com que o pessoal não se encontre à vontade com tal espiritualidade."

M. Barros
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"Você imagina o seguinte: o pessoal estava acostumado antigamente a um tipo de celebração muito legalista, muito baseada no folheto ou nas formas litúrgicas antigas. De repente, entram em contato com uma visão de fé mais histórica, da fé como expressão da vida, etc. Qual é a consequência disso? Eles querem de tal maneira integrar essa vitalidade, essa experiência das comunidades na liturgia, que esta fica sendo uma expressão intelectual grande da luta, um encontro comunitário muito importante onde há muita reflexão libertadora, mas que de vez em quando perde esse elemento de gratuidade, da expressão da fé mais afetiva."

M. Barros
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"As nossas liturgias, as liturgias populares nas CEBs têm uma dimensão muito orante, muito cantante, na medida em que as pessoas se sentem ali unidas na fraternidade, se sentem juntas, emuladas, apoiadas nos seus engajamentos. porém, há muitas vezes o risco da liturgia cair num discurso racional, dela se transformar quase que numa espécie de reunião política onde sempre se martela a questão da opressão, da miséria, da libertação, sem dar espaço a toda essa dimensão da gratuidade que a vida litúrgica, que a mística supõe. Creio que é preciso trabalhar mais aprofundadamente a questão da liturgia (rs... só pode ser piada), de modo que ela seja o grande espaço da alegria, da gratuidade e da comunhão. Eu sou muito mais por uma liturgia festa que por uma liturgia reunião. Acho que temos o momento de fazer reunião, mas devemos criar a vinculação de tal maneira que o espaço da festa esteja muito presente na experiência litúrgica."

F. Betto
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"A espiritualidade se revoluciona no momento em que a Igreja toda se coloca na escola dos pobres e os pobres como mestres de vida espiritual (não necessariamente.. esse romantismo barato é que dista da realidade.. Será que eu deveria trocar S. João da Cruz por Seu Lunga?). Porque se tem alguém que sente Deus como uma questão vital, substancial, é o pobre. (...) Então, nós devemos nos colocar na escola deles, essa é a tradição dos grandes mestres espirituais (de quais?). Nós descobrimos, assim, que Deus é libertador, justiça, revolução, que Deus quer uma sociedade nova, uma Igreja nova, enfim, que Deus quer o Reino de Deus nessa terra. (não há dúvidas que Deus quer que o mundo seja mais justo, mas o que fazer com a afirmação "O meu Reino não é deste mundo", oh néscios?)"

C. Boff
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"Quem conhece a América Latina por dentro, a caminhada das CEBs, e o movimento da Teologia da Libertação acompanhando essa caminhada e dela se alimentando, sabe que muito mais importante que os livros dos teólogos, muito mais importantes que as obras - que aliás o povo não chega a ler - é essa maravilhosa produção de novos cantos, nova poesia, etc." (Ou seja, não importa que corresponda à verdade, desde que seja produto dos pobres... Isso aí, além de relativismo tosco, é preconceito e uma clara oposição entre classes bem ao modo tradicional marxista)

H. Assmann
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"A fé é outra coisa. Nasce quando você, com o seu olhar de alegria e de sofrimento, de esperança e vontade de viver, olha para os meus olhos e nossos olhares constroem algo em comum e começamos a olhar em direção ao horizonte (quase chorei...). Como dizia João Guimarães Rosa, "nada devora tanto como o horizonte"! De repente, nós temos um horizonte de caminhada, algo que vale a pena. É assim que, inesperadamente, nós acreditamos em algo (na mula sem cabeça, vale?). O que é ter fé? Não é recitar o credo. Crer não é um blá, blá, blá de palavras. (blá blá blá é esse papo mole de se olhar e ver o horizonte e crer em algo. Vai te danar!) Crer é ter existencialmente dentro, não certezas matemáticas, calculadas, mas aquela outra certeza de que VALE A PENA! Descobrir que isso tem um sentido. E isso só se descobre coletivamente."

H. Assmann
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"Assim como é um ativismo absurdo pensar que a teoria não faz falta para resolver os problemas graves, parece-me que, na perspectiva cristã, é um absurdo pensar que não nos temos que confrontar com o mistério de Deus, porque se realmente confrontar-se com o mistério de Deus não ajuda para resolver os problemas graves, eis que então Deus não serve!" (Utilitarismo discreto, o seu... e falaram tanto de gratuidade... zé mané)

J. Sobrino
***

"Na Teologia da Libertação o nexo corporal começa na nossa reflexão sobre a fome, sobre as necessidades básicas, mas não termina aí, porque tem que chegar à explosão da alegria de viver. A espiritualidade tem muito a ver com o corpo, até com as relações espontâneas, eróticas. Vamos erotizar o mundo! (só podia ser coisa do "Assman", o homem bunda) Vamos devolver a este mundo a espontaneidade da fraternura, da ternura fraternal!"

H. Assmann
***

"A espiritualidade hoje é algo que está sendo muito refletido pelos teólogos da libertação. E realmente está se trazendo perspectivas novas e bastante libertadoras, mas acho que esta vertente do feminino é de fato riquíssima, embora não tenha sido ainda explorada e refletida (Isso parece brincadeira.. aff). É um papel da mulher, justamente, refletir sobre isso. Porque a mulher tem uma maneira própria de viver a espiritualidade, como igualmente de fazer teologia, de viver a fé, de se situar dentro do conjunto do revelado e da revelação. A mulher é alguém que não faz separações estanques como o homem." (aff... ¬¬')

M. Clara
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"Eu tenho uma intuição: os que são contra a Teologia da Libertação temem mais uma teologia da libertação que insiste na prática da libertação, inclusive da revolução, e fala em nome de Deus, do que se somente falasse da revolução. Porque, se imperasse o segundo caso, poderiam dizer: são sociólogos, revolucionários, marxistas e, claramente podem ser condenados; mas se alguém faz isso, se está inserido em processos de libertação e fala de Deus e o faz em nome de Deus, isso os incomoda muito mais, porque então não têm que atacar somente a Teologia da Libertação, mas também a Deus! (kkkkkk.. isso foi muito engraçado rsrs... Imagina a Igreja com medo de condenar os hereges só porque eles falavam de Deus, rsrs.. Azuado..) Para mim, é esse o problema que pode existir no Vaticano (Pense!). Eu disse uma vez que a Igreja não tem medo do marxismo, porque o marxismo é uma coisa criada, de seres humanos, está de igual para igual com a Igreja (kk.. muito hilário esse cara; ainda acham que isso é católico? Herege de meia tigela!); mas a Igreja, sim, tem medo de Deus, porque não pode dizer: "de você eu não vou me aproximar". (A TL se tornou, então, a suma representante da divindade na terra. Ora, vão flatular infinitamente...)

J. Sobrino (Sem Noção)

TEIXEIRA, Faustino Luiz Couto (Org.). Teologia da Libertação: Novos Desafios. São Paulo: Ed. Paulinas, 1991. pp. 51-87

"O velho é melhor..."


"E ninguém, depois de beber vinho velho, deseja vinho novo; porque diz: o velho é melhor”.  (Luc 5, 39)

É notória a luta que hoje se trava entre os católicos tradicionais (isto sim, uma redundância) e os modernistas de toda conta. Na verdade, os subgrupos são tantos e de matizes tão variados que é grandemente complicado defini-los com precisão. Mas poderíamos, sem descer aos pormenores, dividi-los em dois grupos: aqueles que valorizam a Tradição da Igreja e reconhecem a sua importância fundamental, e aqueles outros que consideram que, a partir do Conc. Vaticano II, a Igreja despertou de um longo sono e se abriu a uma suposta primavera, rejeitando tantos séculos de obscurantismo. Sem precisarmos tratar as coisas com muito rigor, poderíamos dizer tranquilamente que o segundo grupo não é católico, pois nega verdades fundamentais da Fé.

Pois bem. Embora isto seja tão evidente para quem conheça minimamente a Igreja, o fato é que as supostas autoridades da Igreja no Brasil ou se debandaram para o segundo grupo ou ficaram num híbrido estranho e contraditório entre as duas posições, seja pela indecisão, seja pela tentativa de elaborar uma síntese hegeliana; ou, ainda, mantiveram uma certa convicção do valor da tradição, mas assumiram uma postura tímida e politicamente correta demais que os impede de elevar a voz ou de se pronunciar com clareza a respeito dos erros que pululam no nosso Brasil. Lembro-me, agora, do excelente texto do Pe. Leonardo Castellani "A Covardia é pecado". É difícil supor um caso em que ela seja mais grave do que o do terreno da Fé. Claro que há poucas exceções de bispos e padres corajosos... são poucas, mas há.

No entanto, como Deus nunca deixa a sua Igreja desamparada, é próprio do nosso tempo o fato de que muita gente, depois de uma aparente vitória do modernismo e da Teologia da Libertação, vem redescobrindo o frescor da Tradição. Saturados de um discurso por demais ideológico e que claramente se afasta da proposta do Evangelho, já são várias as pessoas que reencontraram água cristalina nos documentos antigos da Igreja, na voz dos Papas, nos autores espirituais, nos santos doutores, enfim, nesta Tradição bimilenar da qual podemos absolutamente nos orgulhar.

Eu posso me dizer um desses casos. Sempre me pareceu que algo ia estranho na fé contemporânea. Ela me soava claramente distinta da de antigamente. Eu sequer conhecia direito esse mundo belíssimo da Tradição Católica, a não ser por alguns livros de santos que eu sempre li. 

Mas, quem passa a se debruçar sobre estas questões, mesmo que tente disfarçar, vai percebendo que coisas estranhas aconteceram. As mudanças foram, por demais, radicais. Aquilo que vinha sendo guardado com tanto carinho e por tanto tempo viu-se, de repente, reputado como caduco. Não quero insinuar que, em todo este percurso anterior, tudo fora um mar de rosas. Nem eu vivi aquela época, nem os documentos a respeito se referem a esta suposta absoluta harmonia empírea. Não. Mas, o que agora vivemos e tem sido promovido por certas autoridades religiosas, se comparado com a clareza e o rigor de antes, se mostra como um negócio caótico. E muita coisa mudou sem que tivesse uma razão clara para isso.

Um caso muito especial é, por exemplo, o da Santa Missa no rito antigo. Embora seja a Missa que santificou a maior parte dos santos católicos, ela simplesmente, sem nenhum motivo que sequer se aproximasse de uma razão justa, foi proibida, e isso quando pesava sobre qualquer possível mudança substancial na sua estrutura uma grave proibição do Papa Pio V.

Sobre isso, então, temos pelo menos dois problemas: primeiramente, ordenou-se uma proibição ilícita do rito tridentino, quando Pio V havia decretado, explicitamente, o que segue:

"Além disso, em virtude de Nossa Autoridade Apostólica, pelo teor da presente Bula, concedemos e damos o indulto seguinte: que, doravante, para cantar ou rezar a Missa em qualquer Igreja, se possa, sem restrição seguir este Missal com permissão e poder de usá-lo livre e licitamente, sem nenhum escrúpulo de consciência e sem que se possa incorrer em nenhuma pena, sentença e censura, e isto para sempre." (Quo Primum Tempore, n. 8)

Em segundo lugar, efetuou-se uma modificação radical da estrutura da Santa Missa, quando o mesmo papa supracitado havia, na mesma bula, determinado o seguinte:

"a presente Bula não poderá jamais, em tempo algum, ser revogada nem modificada, mas permanecerá sempre firme e válida, em toda a sua força." (n. 9) e concluía do seguinte modo: "Se alguém, contudo, tiver a audácia de atentar contra estas disposições, saiba que incorrerá na indignação de Deus Todo-poderoso e de seus bemaventurados Apóstolos Pedro e Paulo."

Ou seja, o negócio é muito sério! Se é verdade que contra fatos não há argumentos, o que se seguiu depois da reforma radical que se empreendeu e se tomou como o surgimento de uma nova Igreja foi um grande arrefecimento da Fé! Muitos apostataram; outros tantos, ávidos de assumir as novidades das novas interpretações, foram aos poucos escasseando a frequência nos sacramentos ou simplesmente considerando-os desnecessários. O zelo litúrgico desapareceu em muitos lugares. O grande e glorioso patrimônio da música sacra foi posto de lado em favor das novas composições, muitas delas de uma mediocridade tal que, se comparadas às tradicionais, seriam capazes de corar os anjos de vergonha. 

Abandonou-se irrefletidamente um imenso tesouro cultivado por séculos e aderiu-se irresponsavelmente aos inúmeros sofismas de um humanismo mesquinho, um antropocentrismo idólatra, relativizando, para tal, a verdade pela qual deram a vida tantos homens santos da Igreja. 

Mas, graças a Deus, muitas pessoas, velhos e jovens, voltam, nestes dias, a ter contato com o espírito absolutamente único do catolicismo tradicional. Voltam a se deparar com um rigor teológico e filosófico, com uma coerência doutrinária tão maior, que torna-se necessário fazer um esforço a fim de conciliar o antes e o agora e afirmar que é a mesma Igreja. Daí a tentação do sedevacantismo e de outras tantas correntes radicais. De fato, para quem se detém a olhar tudo isso com sinceridade, é impossível não constatar que algo não foi bem. Algo de muito errado se produziu e a literatura que o comprova é extensíssima.

E todo esse texto que vou pondo agora me foi motivado por apenas uma frase do Evangelho de hoje, onde Nosso Senhor diz: "E ninguém, depois de beber vinho velho, deseja vinho novo; porque diz: o velho é melhor”.  (Luc 5, 39)

De fato. De fato. De fato. Quem experimenta a vida pulsante da Tradição Católica verá com clareza que, comparadas a ela, as inovações e tentativas de uma fé imanente aparecem como cadáveres, estruturas sem vida, sem espírito; um mero constructo do engenho humano, um simulacro da Fé.

Por fim, um recado à CNBB: "custa-me dizê-lo, mas, não me submeto à vossa brincadeira irresponsável!"

Que a Virgem Maria nos ajude porque, sinceramente, precisamos muito.

Fábio

A Comunhão na Mão não tem nada a ver com a Igreja Primitiva; é de origem calvinista



Athanasius Schneider tem 50 anos, é ucraniano e desde 2006 tem exercido como bispo auxiliar em duas dioceses do Cazaquistão, uma ex república soviética com uns 26% de população cristã, majoritariamente ortodoxa mas com uma pujante comunidade católica.

Recentemente, monsenhor Schneider, que é expert em Patrística e Igreja Primitiva, explicou na emissora de Rádio Maria no sul do Tirol as diferenças entre a forma de comungar na Igreja Primitiva e a atual prática da comunhão na mão.

Segundo afirmou, este costume é "completamente novo" depois do Concílio Vaticano II e não tem suas raízes nos tempos dos primeiros cristãos, como se tem sustentado com frequência.

Na Igreja Primitiva havia que se purificar as mãos antes e depois do rito, e a mão estava coberta com um corporal, donde se tomava a forma diretamente com a língua: "Era mais uma comunhão na boca que na mão", afirmou Schneider. De fato, depois de fazer desaparecer a Sagrada Hóstia o fiel devia recolher da mão com a língua qualquer mínima partícula consagrada. Um diácono supervisava esta operação.

Jamais se tocava com os dedos: "O gesto da comunhão na mão tal como o conhecemos hoje era completamente desconhecido" entre os primeiros cristãos.

Origem Calvinista

Ainda assim, se abandonou aquele rito pela administração direta do sacerdote na boca, uma mudança que teve lugar "instintiva e pacificamente" em toda a Igreja. A partir do século V, no Oriente, e no Ocidente um pouco depois. O Papa São Gregório Magno no século VII já o fazia assim, e os sínodos franceses e espanhóis dos séculos VIII e IV sancionavam a quem tocasse a Sagrada Forma.

Segundo monsenhor Schneider, a prática que hoje conhecemos da comunhão na mão nasceu no século XVII entre os calvinistas, que não criam na presença real de Jesus Cristo na eucaristia. "Nem Lutero", que acreditava nela ainda que não na transubstanciação, "o haveria feito", disse o bispo cazaquistão: "De fato, até há relativamente pouco os luteranos comungavam de rodelas na boca, e todavia hoje alguns o fazem assim nos países escandinavos".

[Tradução minha, do Espanhol.]

Um sonho estranho e cômico.

Estávamos nos preparando para tocar numa Santa Missa. Ela ia acontecer num convento, um lugar meio separado da cidade, se bem que este ponto só me foi percebido posteriormente. Como os sonhos fazem mudanças e não justificam, fundindo informações, não me houve nenhum estranhamento pelo fato de que, de início, parecesse-me que estávamos na igreja. Mas a coisa toda, de resto, deu-se de modo totalmente descabido. Não sei bem o que foi, mas a música de entrada me causou algum tipo de indignação. O negócio, porém, me pareceu absurdo de todo quando, na leitura do salmo, um sujeito abandona o lecionário, põe-se à frente do ambão, e começa a discursar longamente sobre alguma coisa pretensamente relacionada ao texto, mas ornamentada com suas “profundíssimas” meditações pessoais. Algum tipo de contextualização histórico-social acrescida a alguma chave hermenêutica de leitura. 

Desisti de tocar e saí, convencido de que eu não deveria estar ali. O padre, então, me parecia também desgostoso; fazia uns sinais, mas era totalmente ignorado. Devia ser daqueles tipos em que o respeito humano é mais forte do que o zelo litúrgico; devia manusear o chicote, mas se limitava a uns gestos tímidos. Deste tipo, há muitos. Como eu já adiantei, foi nesta altura que saí e só agora é que eu venho a notar que estávamos no convento, mas não numa capela, e sim numa sala de aula. O altar parecia ser improvisado: um daqueles birôs de professor. Eu fiquei ao longe, donde, por uma janela central, se podia ver o que acontecia no lugar. E, a partir de então, qualquer semelhança forçada com a liturgia católica sumira. As músicas, absurdas, porém assemelhadas às propostas de inculturação da CNBB. De longe, uma garota, com roupas curtíssimas, rebolava e rodava ao lado do altar, como se estivesse num ambiente carnavalesco. Tudo se orientava em função da descontração. Parecia-me aquelas confraternizações escolares de fim de ano. 

Foi nesse ponto que eu retornei ao recinto. O padre, sentado, ostentava uma expressão grave. Era provavelmente um medroso. Discordava, mas não se pronunciava. Os demais estavam sentados no fundo da sala. A ornamentação do lugar mudara bastante desde que eu tinha saído. Umas espécies de varetas enormes, em que se destacavam as de cor vermelha, percorriam a sala em diagonal ascendente. Nesta altura, eu portava algo nas mãos e entrei na sala. Minha fala foi: “licença professor... quer dizer... padre..” O que eu segurava caiu-me das mãos e rolou um pouco forçando-me a aproximar-me dos que me viam ao fundo. Segui falando algumas coisas, dentre as quais eu me recordo destas: “desculpem-me o modo desajeitado. É que nunca estive num lugar assim. Isso tudo me é muito novo. Porque, de certo, esta não é a Liturgia tal qual Roma a prescreve.” Neste ponto, eu fitava o padre e falava com mais vagar, assegurando-me de que cada sílaba fosse bem compreendida, e as pronunciava em tom de desafio. Por fim, já retirando-me da sala, despedi-me: “sua bênção, professor...” 

Apenas ouvi algumas reclamações que provinham do fundo da sala, onde uma voz familiar me censurava a intolerância, a visão retrógrada e a obediência cega à hierarquia romana. Eu temi que o padre me perseguisse, mas ele ficou simplesmente quieto. Obviamente, era uma marionete nas mãos dos leigos lá atrás. 

Como eu saíra da sala com esse receio de que o padre viesse tomar satisfações, fui correndo e, agora sim, eu via de modo mais panorâmico o ambiente do convento. Fui descendo uma estreita ladeira, uma estradinha no meio de um campo com plantinhas à volta. Vi-me sem camisa, se bem que a segurava nas mãos. Deparei-me com algumas religiosas, de hábito, que levavam crianças para algum lugar na direção de onde eu viera. Cobri improvisadamente a minha parcial nudez com a blusa que trazia nas mãos e, após ter passado pelas pequenas, perdi perdão a Deus por aquela imprudência. Terminei por encontrar a porta de saída onde, sentindo-me agora confortável, reencontrei alguns dos meus. Contei o ocorrido, provocando o riso de uns e vi um seminarista conhecido meu, bastante tradicional, que, então, assumira uma posição curiosa: estava em posição de flexão de braço, mas com apenas um deles no chão, apoiado sobre o punho fechado. A outra mão ia atrás das costas. Talvez estivesse se mortificando pelo que houvera escutado. 

Numa sala ao lado, porém, uns possíveis organizadores do evento escolar que eu havia presenciado falavam entre si de suas influências litúrgico-artísticas. Escutei um curiosa mistura: Dom Helder Câmara e Santo Daime. Realmente, uma combinação e tanto. Rsrs...

Fábio

Exemplo do Zelo pelo Sagrado da CNBB

Dom Dimas Lara Barbosa, arcebispo eleito de Campo Grande, celebra missa no IV Encontro de Jornalistas da CNBB, realizado no último mês de março. Detalhe para o sacrário no meio do horrendo altar.

Dom Dimas Lara Barbosa, arcebispo de Campo Grande, celebra missa no IV Encontro de Jornalistas da CNBB, realizado no último mês de março. Detalhe para o pobre sacrário no meio do horrendo altar.

Música Sacra deve levar à Nostalgia do Transcendente



Entrevista ao cardeal Zenon Grocholewski

ROMA, quarta-feira, 1º de junho de 2011 (ZENIT.org) - A música sacra tem de levar a viver algo de transcendente, diferente da completa banalidade dos cantos que não se adaptam à oração e que são apenas barulho.
É o que afirma o cardeal Zenon Grocholewski, prefeito da Congregação para a Educação Católica e grão-chanceler do Pontifício Instituto de Música Sacra, nesta entrevista a ZENIT, durante um congresso em Roma.
ZENIT: Como se harmoniza a música sacra com as novas tendências?
Cardeal Grocholewski: O problema não é fácil. Trata-se, por um lado, de unir a tradição da Igreja e, por outro, de dar possibilidades às novas contribuições musicais. Por isso Pio X fundou o Instituto, para estudar a problemática. Aqui estudam pessoas do mundo todo. É para formar as pessoas e sensibilizá-las quanto ao papel da música sacra.
ZENIT: Como a música sacra se integra na liturgia?
Cardeal Grocholewski: A música sacra é uma parte integrante da liturgia, e, portanto, tem que ser uma oração que expressa aquele momento. Ela não é um acessório, ela é essencial. Neste congresso, falaram mais de cem pessoas, dos mais variados ambientes, e elas deram uma contribuição para entender como conciliar a tradição com elementos novos que podemos agregar.
Hoje observamos uma completa banalidade desses cantos que não se adaptam à oração, que são apenas barulho. A liturgia precisa também de silêncio.
Por outro lado, o canto é oração coerente com a eucaristia. Na verdade, no passado, grandes músicos fizeram composições estupendas referentes à missa, como Giovanni de Palestrina. Todos fizeram muitas coisas estupendas propícias à oração.
ZENIT: Hoje talvez fosse necessário voltar a ter um pouco mais de música sacra nas igrejas, não?
Cardeal Grocholewski: Sim, seria preciso reforçar a compreensão da música sacra. Há novas composições, muitas vezes eu as ouço nas igrejas, completamente novas e muito bonitas. Por exemplo, no ano passado eu estive em Marselha, onde tinha celebrado para alguns juristas numa igreja que quase foi demolida, porque não havia fiéis.
Chegou um padre novo, e, agora, aos domingos, aquela igreja está cheia. Entre outras coisas, por causa do canto e da oração. São composições dele. Esse padre, antes de entrar no seminário, cantava nos cabarés de Paris, depois se converteu e se ordenou padre. Eu fiquei fascinado de ver que composições dele expressam a oração! Isso é oração e aquela igreja enche!
Na saída, perguntei às pessoas e muitas me diziam que vinham de longe “porque aqui se reza, o padre prega e nós o entendemos, e há uma bela música”.
ZENIT: O senhor falou de sacralidade. O que é sacralidade?
Cardeal Grocholewski: A sacralidade se expressa na medida em que se manifesta a oração, como nostalgia por algo, na medida em que se expressa a transcendência. Eu acho muito importante. Hoje, por exemplo, algumas músicas modernas, que escutamos na televisão, não têm nada de transcendental, são pura diversão aqui na terra, não têm nostalgia de nada.
Claro, não é fácil de definir, não é uma coisa física, material, se bem que existe sensibilidade na Igreja, que sabe reconhecer quando uma coisa é sacra ou não é.
ZENIT: Em alguma oportunidade, um prelado dizia que a música na liturgia nos leva a viver o que será o paraíso. O que a música sacra nos dá?
Cardeal Grocholewski: Muitas coisas belas sobre a música sacra foram escritas por Ratzinger antes de ser Papa. Agora saiu uma opera omnia de Ratzinger, e na Itália saiu um volume justamente sobre a liturgia, com 200 páginas sobre música sacra. São coisas muito bonitas. Com razão, Bento XVI sublinha que a música sacra tem que nos levar para outro mundo, para uma nostalgia do transcendente.
Não é mero som que nos tira da realidade. O Papa fala que quando se perde esse horizonte transcendente da vida humana, tudo se reduz ao terreno, mesmo a música e a profundidade do pensamento. A música tem que abrir espaço para o transcendental.
ZENIT: Há certo consenso na Igreja de que o órgão é o instrumento sacro por excelência, sem excluir outros?
Cardeal Grocholewski: Acho que sim, eu acho que, quando uma pessoa entra numa igreja, o órgão cria uma atmosfera, dá certa plenitude. Em muitas igrejas modernas, inclusive importantes, procura-se conservar o órgão.
ZENIT: O senhor daria algum conselho aos párocos, especialmente aos mais jovens?
Cardeal Grocholewski: Eu acho que precisamos sensibilizar as pessoas para a música sacra, aquela que é oração. Claro que não é possível criar um lindo coro em cada paróquia. Mas é necessário sensibilizar as pessoas sobre a sacralidade do canto que se interpreta na igreja.

Fonte: Zenit

Reconhecimento Canônico da Fraternidade O Caminho


É com imensa alegria que comunicamos que no dia 31 de julho de 2001, às 10h em Franca (Interior de SP), a Fraternidade “O Caminho” será reconhecida como Associação Privada de Fiéis. O reconhecimento será dado por Sua Excelência Reverendíssima Dom Pedro Luiz Stringhinni, Bispo da Diocese de Franca, que presidirá a Santa Missa em ação de graças.

Local: Centro de Evangelização Cenáculo

Av. Dom Pedro I, 1040, Jd. Petrâglia, Franca – SP

A Fraternidade tem se destacado pela correta doutrina litúrgica e pela zelosa prática na celebração da Santa Missa.

60 anos de Ordenação Sacerdotal de Bento XVI - Deo Gratias!


HOMILIA DO PAPA BENTO XVI
Basílica Vaticana 29 de Junho de 2011


Amados irmãos e irmãs!


«Non iam servos, sed amicos» - «Já não vos chamo servos, mas amigos» (cf. Jo 15, 15). Passados sessenta anos da minha Ordenação Sacerdotal, sinto ainda ressoar no meu íntimo estas palavras de Jesus, que o nosso grande Arcebispo, o Cardeal Faulhaber, com voz um pouco débil já mas firme, nos dirigiu, a nós novos sacerdotes, no final da cerimónia da Ordenação. Segundo o ordenamento litúrgico daquele tempo, esta proclamação significava então a explícita concessão aos novos sacerdotes do mandato de perdoar os pecados. «Já não sois servos, mas amigos»: eu sabia e sentia que esta não era, naquele momento, apenas uma frase «de cerimónia»; e que era mais do que uma mera citação da Sagrada Escritura. Estava certo disto: neste momento, Ele mesmo, o Senhor, di-la a mim de modo muito pessoal. No Baptismo e na Confirmação, Ele já nos atraíra a Si, acolhera-nos na família de Deus. Mas o que estava a acontecer naquele momento, ainda era algo mais. Ele chama-me amigo. Acolhe-me no círculo daqueles que receberam a sua palavra no Cenáculo; no círculo daqueles que Ele conhece de um modo muito particular e que chegam assim a conhecê-Lo de modo particular. Concede-me a faculdade, que quase amedronta, de fazer aquilo que só Ele, o Filho de Deus, pode legitimamente dizer e fazer: Eu te perdoo os teus pecados. Ele quer que eu – por seu mandato – possa pronunciar com o seu «Eu» uma palavra que não é meramente palavra mas acção que produz uma mudança no mais íntimo do ser. Sei que, por detrás de tais palavras, está a sua Paixão por nossa causa e em nosso favor. Sei que o perdão tem o seu preço: na sua Paixão, Ele desceu até ao fundo tenebroso e sórdido do nosso pecado. Desceu até à noite da nossa culpa, e só assim esta pode ser transformada. E, através do mandato de perdoar, Ele permite-me lançar um olhar ao abismo do homem e à grandeza do seu padecer por nós, homens, que me deixa intuir a grandeza do seu amor. Diz-me Ele em confidência: «Já não és servo, mas amigo». Ele confia-me as palavras da Consagração na Eucaristia. Ele considera-me capaz de anunciar a sua Palavra, de explicá-la rectamente e de a levar aos homens de hoje. Ele entrega-Se a mim. «Já não sois servos, mas amigos»: trata-se de uma afirmação que gera uma grande alegria interior mas ao mesmo tempo, na sua grandeza, pode fazer-nos sentir ao longo dos decénios calafrios com todas as experiências da própria fraqueza e da sua bondade inexaurível.

«Já não sois servos, mas amigos»: nesta frase está encerrado o programa inteiro duma vida sacerdotal. O que é verdadeiramente a amizade? Idem velle, idem nolle – querer as mesmas coisas e não querer as mesmas coisas: diziam os antigos. A amizade é uma comunhão do pensar e do querer. O Senhor não se cansa de nos dizer a mesma coisa: «Conheço os meus e os meus conhecem-Me» (cf.Jo 10, 14). O Pastor chama os seus pelo nome (cf. Jo 10, 3). Ele conhece-me por nome. Não sou um ser anónimo qualquer, na infinidade do universo. Conhece-me de modo muito pessoal. E eu? Conheço-O a Ele? A amizade que Ele me dedica pode apenas traduzir-se em que também eu O procure conhecer cada vez melhor; que eu, na Escritura, nos Sacramentos, no encontro da oração, na comunhão dos Santos, nas pessoas que se aproximam de mim mandadas por Ele, procure conhecer sempre mais a Ele próprio. A amizade não é apenas conhecimento; é sobretudo comunhão do querer. Significa que a minha vontade cresce rumo ao «sim» da adesão à d’Ele. De facto, a sua vontade não é uma vontade externa e alheia a mim mesmo, à qual mais ou menos voluntariamente me submeto ou então nem sequer me submeto. Não! Na amizade, a minha vontade, crescendo, une-se à d’Ele: a sua vontade torna-se a minha, e é precisamente assim que me torno de verdade eu mesmo. Além da comunhão de pensamento e de vontade, o Senhor menciona um terceiro e novo elemento: Ele dá a sua vida por nós (cf. Jo 15, 13; 10, 15). Senhor, ajudai-me a conhecer-Vos cada vez melhor! Ajudai-me a identificar-me cada vez mais com a vossa vontade! Ajudai-me a viver a minha existência, não para mim mesmo, mas a vivê-la juntamente convoco para os outros! Ajudai-me a tornar-me sempre mais vosso amigo!

Esta palavra de Jesus sobre a amizade situa-se no contexto do discurso sobre a videira. O Senhor relaciona a imagem da videira com uma tarefa dada aos discípulos: «Eu vos destinei, para que vades e deis fruto e o vosso fruto permaneça» (Jo 15, 16). A primeira tarefa dada aos discípulos, aos amigos, é pôr-se a caminho – destinei, para que vades –, sair de si mesmos e ir ao encontro dos outros. A par desta, podemos ouvir também a frase que o Ressuscitado dirige aos seus e que aparece na conclusão do Evangelho de Mateus: «Ide fazer discípulos de todas as nações…» (cf. Mt 28, 19). O Senhor exorta-nos a superar as fronteiras do ambiente onde vivemos e levar ao mundo dos outros o Evangelho, para que permeie tudo e, assim, o mundo se abra ao Reino de Deus. Isto pode trazer-nos à memória que o próprio Deus saiu de Si, abandonou a sua glória, para vir à nossa procura e trazer-nos a sua luz e o seu amor. Queremos seguir Deus que Se põe a caminho, vencendo a preguiça de permanecer cómodos em nós mesmos, para que Ele mesmo possa entrar no mundo.

Depois da palavra sobre o pôr-se a caminho, Jesus continua: dai fruto, um fruto que permaneça! Que fruto espera Ele de nós? Qual é o fruto que permanece? Sabemos que o fruto da videira são as uvas, com as quais depois se prepara o vinho. Por agora detenhamo-nos sobre esta imagem. Para que as uvas possam amadurecer e tornar-se boas, é preciso o sol mas também a chuva, o dia e a noite. Para que dêem um vinho de qualidade, precisam de ser pisadas, há que aguardar com paciência a fermentação, tem-se de seguir com cuidadosa atenção os processos de maturação. Características do vinho de qualidade são não só a suavidade, mas também a riqueza das tonalidades, o variegado aroma que se desenvolveu nos processos da maturação e da fermentação. E por acaso não constitui já tudo isto uma imagem da vida humana e, de modo muito particular, da nossa vida de sacerdotes? Precisamos do sol e da chuva, da serenidade e da dificuldade, das fases de purificação e de prova mas também dos tempos de caminho radioso com o Evangelho. Num olhar de retrospectiva, podemos agradecer a Deus por ambas as coisas: pelas dificuldades e pelas alegrias, pela horas escuras e pelas horas felizes. Em ambas reconhecemos a presença contínua do seu amor, que incessantemente nos conduz e sustenta.

Agora, porém, devemos interrogar-nos: de que género é o fruto que o Senhor espera de nós? O vinho é imagem do amor: este é o verdadeiro fruto que permanece, aquele que Deus quer de nós. Mas não esqueçamos que, no Antigo Testamento, o vinho que se espera das uvas boas é sobretudo imagem da justiça, que se desenvolve numa vida segundo a lei de Deus. E não digamos que esta é uma visão veterotestamentária, já superada. Não! Isto permanece sempre verdadeiro. O autêntico conteúdo da Lei, a sua summa, é o amor a Deus e ao próximo. Este duplo amor, porém, não é qualquer coisa simplesmente doce; traz consigo o peso da paciência, da humildade, da maturação na educação e assimilação da nossa vontade à vontade de Deus, à vontade de Jesus Cristo, o Amigo. Só deste modo, tornando verdadeiro e recto todo o nosso ser, é que o amor se torna também verdadeiro, só assim é um fruto maduro. A sua exigência intrínseca, ou seja, a fidelidade a Cristo e à sua Igreja, requer sempre que se realize também no sofrimento. É precisamente assim que cresce a verdadeira alegria. No fundo, a essência do amor, do verdadeiro fruto, corresponde à palavra relativa ao pôr-se a caminho, ao ir: amor significa abandonar-se, dar-se; leva consigo o sinal da cruz. Neste contexto, disse uma vez Gregório Magno: Se tendeis para Deus, tende cuidado que não O alcanceis sozinhos (cf. H Ev 1, 6, 6: PL 76, 1097s). Trata-se de uma advertência que nós, sacerdotes, devemos ter intimamente presente cada dia.

Queridos amigos, talvez me tenha demorado demasiado com a recordação interior dos sessenta anos do meu ministério sacerdotal. Agora é tempo de pensar àquilo que é próprio deste momento.

Na solenidade dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo, antes de mais nada dirijo a minha mais cordial saudação ao Patriarca Ecuménico Bartolomeu I e à Delegação por ele enviada, cuja aprazível visita na ocasião feliz da festa dos Santos Apóstolos Padroeiros de Roma, vivamente agradeço. Saúdo também os Senhores Cardeais, os Irmãos no Episcopado, os Senhores Embaixadores e as autoridades civis, como também os sacerdotes, os colegas da minha Missa Nova, os religiosos e os fiéis leigos. A todos agradeço a presença e a oração.

Aos Arcebispos Metropolitanos nomeados depois da última festa dos grandes Apóstolos, será agora imposto o pálio. Este, que significa? Pode recordar-nos em primeiro lugar o jugo suave de Cristo que nos é colocado aos ombros (cf. Mt 11, 29-30). O jugo de Cristo coincide com a sua amizade. É um jugo de amizade e, consequentemente, um «jugo suave», mas por isso mesmo também um jugo que exige e plasma. É o jugo da sua vontade, que é uma vontade de verdade e de amor. Assim, para nós, é sobretudo o jugo de introduzir outros na amizade com Cristo e de estar à disposição dos outros, de cuidarmos deles como Pastores. E assim chegamos a um novo significado do pálio: este é tecido com a lã de cordeiros, que são benzidos na festa de Santa Inês. Deste modo recorda-nos o Pastor que Se tornou, Ele mesmo, Cordeiro por nosso amor. Recorda-nos Cristo que Se pôs a caminho pelos montes e descampados, aonde o seu cordeiro – a humanidade – se extraviara. Recorda-nos como Ele pôs o cordeiro, ou seja, a humanidade – a mim – aos seus ombros, para me trazer de regresso a casa. E assim nos recorda que, como Pastores ao seu serviço, devemos também nós carregar os outros, pô-los por assim dizer aos nossos ombros e levá-los a Cristo. Recorda-nos que podemos ser Pastores do seu rebanho, que continua sempre a ser d’Ele e não se torna nosso. Por fim, o pálio significa também, de modo muito concreto, a comunhão dos Pastores da Igreja com Pedro e com os seus sucessores: significa que devemos ser Pastores para a unidade e na unidade, e que só na unidade, de que Pedro é símbolo, guiamos verdadeiramente para Cristo.

Sessenta anos de ministério sacerdotal! Queridos amigos, talvez me tenha demorado demais nos pormenores. Mas, nesta hora, senti-me impelido a olhar para aquilo que caracterizou estes decénios. Senti-me impelido a dizer-vos – a todos os presbíteros e Bispos, mas também aos fiéis da Igreja – uma palavra de esperança e encorajamento; uma palavra, amadurecida na experiência, sobre o facto que o Senhor é bom. Mas esta é sobretudo uma hora de gratidão: gratidão ao Senhor pela amizade que me concedeu e que deseja conceder a todos nós. Gratidão às pessoas que me formaram e acompanharam. E, subjacente a tudo isto, a oração para que um dia o Senhor na sua bondade nos acolha e faça contemplar a sua glória. Amen.

São João Batista e a Eucaristia


Passei esses dias sem net, mas aqui ponho um texto que une, muito oportunamente, a pessoa de S. João Batista, que celebramos hoje, e a Eucaristia, cuja instituição celebrávamos ainda ontem. O texto é do excelente e altamente recomendável Pe. Ronald Knox e nele há afirmações e sutilezas que, se meditadas, poderão resultar numa compreensão bem mais profunda deste tesouro escondido que é a vida com Cristo. Boa Leitura.

***
Pe. Ronaldo Knox

Penso que não me engano se digo que a festa do Corpus Christi é comemorada este ano no dia mais distante em que pode recair: 24 de junho. E assim choca, por uma curiosa coincidência, com a única festa de verdadeira importância com que pode coincidir e sobre a qual prevalece: o nascimento de São João Batista. Na verdade, não é que a joguemos para fora do calendário; celebramos essa festa amanhã. Mas, por uma vez, o grande Precursor vem atrás do seu Mestre.

Não penso que haja nenhum santo a quem possamos imaginar aceitando esta situação de mais bom grado que São João Batista. Nasceu, se podemos dizê-lo, para ser o homem que sempre fica de fora. O próprio Senhor no-lo confirmou: "Pobre João! - disse-. É o maior homem nascido de mulher, e, no entanto, é menos que o último dos que estais aqui, porque o Reino dos céus é para vós, não para ele" (Cfr. Mt 11,11). Situa-se ao lado dos heróis do Antigo Testamento, que viveram na esperança, mas nunca a viram realizada; de Profetas e Reis que suspiraram por longo tempo pela vinda do Messias, mas morreram sem vê-lo. Todos se lançam em corrida para entrar no Reino dos céus, os mais violentos arrebatam-no à força, e ele, João, fica de fora. Lembremo-nos de que o Precursor não tinha morrido quando o Senhor disse isso; estava apenas preso. Mas a verdade é que não estava destinado a ver como se cumpriria a salvação do mundo.

São João percebia-o, pressentia-o. As multidões que costumavam ir a ele, desejosas de ser batizadas, tinham quase desaparecido, e os seus discípulos queixavam-se de que Jesus de Nazaré, esse profeta novo, lhe tirara os seus ouvintes, apoderara-se dos seus métodos e o vinha eclipsando. E São João replicava com as palavras que citei acima: Importa que ele cresça e eu diminua. O seu destino - disse - era ser como o padrinho numa cerimônia de casamento: todo o interesse converge para o noivo e a noiva, todas as aclamações são para os dois, e ele há de prestar-lhes a sua companhia... Com inveja?, mal-humorado? Não, mas alegrando-se de ouvir a voz do esposo (cfr. Jo 3,29) Tinha aprendido a pôr-se de lado e abrir caminho para Cristo. Por isso vo-lo proponho hoje como um dos santos do Santíssimo Sacramento.

Não pôde viver para chegar à Última Ceia e receber o corpo de Jesus das mãos do próprio Jesus. Não pôde viver para esperar com a Virgem e os Apóstolos a vinda do Espírito Santo no Cenáculo. Mas deixou-nos essa frase preciosa que nunca devemos esquecer quando esperamos que o Senhor venha a nós na sagrada comunhão: Importa que ele cresça e eu diminua.

Se lermos o último versículo do primeiro capítulo de São Lucas, encontraremos as palavras: O menino foi crescendo, referidas a São João Batista. Se lermos um pouco mais adiante, no versículo 40 do capítulo seguinte, encontraremos de novo as mesmas palavras: O menino crescia, mas desta vez referidas a Cristo. Tomemos esses dois versículos juntos e teremos toda a biografia de São João. Exatamente, São João cresceu; internamente, na sua alma, não cresceu nunca: era o menino-Jesus Cristo, seu primo, que crescia dentro dele. O grão de trigo que cai no sulco e morre, para produzir muito fruto, foi semeado no coração de São João Batista, e o que brotou não foi São João, mas o Verbo de Deus: Jesus Cristo.

A imagem do grão de trigo leva-nos à parábola das sementes que o semeador lança a mãos-cheias e que produzem frutos maiores ou menores consoante o terreno em que caem e as vicissitudes que se seguem. Saiamos ao campo nesta época do ano e observemos algum pedaço de terra que tenha sido semeado em data recente. Que encontraremos? Um mar verde que deleita os olhos como faz o mar com as suas ondas de diversas tonalidades de luz. Mas aproximemo-nos um pouco mais e olhemos de perto. Que vemos? No meio do trigo que cresce..., urtigas, cardos, ervas daninhas, toda uma vegetação silvestre. Eram as antigas donas do terreno, até que um dia chegou o agricultor e espalhou pelo solo o misterioso tesouro do bom grão. Houve uma luta entre as plantas originais, velhas e fortes, e as sementes intrusas, uma luta para decidir qual das duas espécies desfrutaria da riqueza da terra, qual cresceria mais alto e roubaria o sol à outra. E a plantação introduzida pelo homem ganhou a batalha.

É uma imagem das nossas almas, ou melhor, oxalá o seja. É a imagem de uma alma em que a graça divina venceu, da alma de um santo ou de alguém perto de ser santo. O salmista põe na boca de Deus todo-poderoso estas palavras dirigidas ao seu Filho: Dominare im medio inimicorum tuorum, "domina entre os teus inimigos" (Sal 109,2). Esta deve ser a nossa oração, cada vez que o Senhor vem a nós na sagrada comunhão.

Queremos que Ele domine as nossas almas, sempre cheias de inimigos seus: o orgulho, a cobiça, a sensualidade, o ressentimento, que estão empenhados em disputar-lhe cada polegada de terreno. Somos criaturas caídas: os espinhos e abrolhos brotam em nós sem cessar. E a graça chega como um intruso, disposto a lutar pela sua supremacia em paragens hostis. Ora, a mais santificada das almas humanas não é melhor que esse campo de trigo do que falamos: olhemos sob a sua superfície e veremos ali todas as paixões humanas, abatidas, mas não plenamente desarraigadas. Se é assim com as melhores, que será com as nossas?

Profundamente enraizado na nossa natureza, misteriosamente prolífico, estendendo-se numa rede de ramificações sutis, encontra-se o instinto de auto-afirmação. Vemo-lo na sua forma mais crua nas crianças, no seu desejo de brilhar, que às vezes é divertido, mas às vezes irrita. Chegam os dias do colégio e os professores e os colegas esforçam-se por extirpar esse evidente defeito. Depois que crescemos, talvez os convencionalismos sociais nos obriguem a disfarçá-lo; afinal, não fica bem exibirmo-nos. Mas sabemos que está aí. Como são poucas as pessoas que aceitam com equanimidade, mesmo externamente, que não lhes peçam conselho, ou, se lhes pedem, que não se faça caso dele; que sejam preteridas quando se trata de preencher um cargo; que os seus rivais profissionais adquiram fama na mesma especialidade em que elas pensavam conquistá-la! E se olharmos para o interior do nosso coração, o sentimento amargo de termos sido maltratados, quando se fere a nossa importância, jaz às vezes muito mais lá no fundo de nós mesmos do que poderíamos imaginar. Não é caso para desesperar, mas devemos reconhecer que é talvez o sinal mais certo de que estamos muito longe de ser santos.

E uma das razões, sem dúvida, de que o Senhor venha a nós na sagrada comunhão é a de fazer com que afirmemos mais a pessoa de Cristo, e, em consequência, afirmemos menos as nossas próprias pessoas. E se o instinto de auto-afirmação continua a ter força dentro de nós, podemos estar certos de que Cristo ainda não domina entre os seus inimigos. É esse "eu" que infecta até mesmo as nossas orações e as nossas virtudes, que faz com que queiramos ser puros para nos podermos sentir puros, ser humildes para ter a liberdade de criticar o orgulho dos outros, mortificar-nos para nos podermos gloriar da nossa austeridade, em vez de querermos simplesmente que se cumpra a vontade de Deus em nós e em todos os outros. É esse "eu" que leva tão a mal todos os seus fracassos e decepções, que pergunta por que "isto" há de ser poupado aos outros e acontecer-me "só a mim".

Devemos procurar humilhar-nos de vez em quando, tomar consciência do pouco que progredimos, pensando na figura de São João Batista. Quando o sacerdote ergue diante de nós a Sagrada Hóstia antes de nos dar a comunhão, repete as palavras do Precursor: Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo (Jo 1,29). E quando São João disse isso, sabia que estava encaminhando  os pensamentos dos seus discípulos para outro Mestre e que ele os perderia, que perderia gradualmente toda a sua popularidade, mas não se importava. Via fechar-se para ele o Reino dos céus - mais exatamente a manifestação terrena desse Reino -, tal como uma criança que amassa o nariz contra a vitrine onde se expõem os brinquedos que deseja; mas não se queixava. Importa que ele cresça e eu diminua. Era preciso que Cristo fosse cada vez mais e mais, e ele cada vez menos e menos; que houvesse cada vez menos dele para que houvesse cada vez mais de Cristo.

Pe. Ronald Knox, Reflexões Sobre a Eucaristia

Fizestes da Minha casa um covil de ladrões...


"A minha casa é uma casa de orações, mas vós fizestes dela um covil de ladrões."

Esta é a frase que Jesus diz aos fariseus e aos que usavam o Templo como lugar de comércio, pervertendo o sentido original da casa de Deus e causando uma inversão na hierarquia dos valores. Jesus, movido de zelo, derruba as barracas e expulsa os vendilhões. Ele é Deus e, como tal, tem o direito de fazê-lo. Vem purificar o culto, as intenções para com Deus, nos ensinar como Deus quer ser servido e reafirmar o primado do amor a Ele.

É próprio da virtude da justiça repôr em ordem aquilo que foi bagunçado. No templo, em Jerusalém, as pessoas perdiam de vista a primazia do sagrado em virtude do faturamento e comercialização dos materiais de culto. Se o templo era um lugar de sacrifícios, nada mais oposto que a instrumentalização do divino em função da auto-promoção. Quando se faz isto, causa-se uma desordem e naturalmente atenta-se contra a virtude da justiça, cujo imperativo é amar a Deus sobre todas as coisas e, portanto, fazer tudo gravitar em torno dEle.

No templo, porém, parecia haver qualquer distração, como se o comércio assumisse um valor em si. Certos aspectos culturais eram legítimos, como, por exemplo, a venda de animais para o sacrifício ou a troca das moedas romanas que ostentavam a face de César. No entanto, o fim primordial para o qual convergem todas essas práticas parecia ter sumido do horizonte, e o templo surgia no coração daqueles sujeitos como uma oportunidade sobretudo rentável. Tinha-se, então, o primado dos próprios interesses, a idolatria de si mesmo, a exclusão do verdadeiro espírito de sacrifício, a extinção da devoção, e tudo isso em pleno Templo como a afrontar a dignidade de Deus, de Quem, no entanto, não se deve zombar.

Depois da intervenção enérgica de Nosso Senhor, os apóstolos se lembram das palavras da Escritura: "O zelo por tua casa me consome". Era por zelo e, portanto, por amor que Jesus os acusava de erro e os chamava ao amor primeiro, à prevalência da oração, à devoção autêntica, ao verdadeiro louvor que somente poderia ser dado pelos que se faziam como crianças, isto é, pequenos diante de Deus.

Eu penso que chegamos, hoje, a um estado de coisas muito mais grave do que o que havia no templo de Jerusalém. E, considerando que atualmente fazemos parte da Igreja fundada por Aquele que purificou o Templo, o descaso que somos obrigados a contemplar na Sua casa ganha, agora, uma dimensão ainda mais absurda. Aquela idolatria ou aquele desprezo pelo Dono da Casa em função dos próprios interesses é uma irrazoável usurpação e o temos visto, hoje, no descaso com a Liturgia, no barulho das igrejas, nas músicas ideológicas, na adesão a uma religião naturalista e anti-metafísica, no abandono das promessas de Cristo pelos devaneios de Marx, no primado da ação sobre a contemplação, na invenção de um culto ao modo humano em detrimento daquilo que é dado por Deus e independe aos diferentes contextos, sendo, portanto, universal.

"A minha casa é uma casa de oração; mas vós fizestes dela um covil de ladrões". Ladrões porque roubam aquilo que é direito de Deus! Ladrões porque usam da religião para frontalmente contrariar aquilo que o fundador do Catolicismo instituiu. Ladrões porque dificultam, a partir de um poder paralelo - como o denunciava o valente Pe. Paulo Ricardo - que se ponha ordem ao caos, que a verdadeira suprema autoridade da Igreja exerça sem impedimentos aquilo que lhe convém por direito, que as almas sejam bem orientadas, que Nosso Senhor, enfim, reine absoluto na nossa sociedade. Usurpação é roubo...

Precisamos redescobrir que a casa de Deus não é uma boate, não é uma casa de shows onde nos encontramos para dançar e jogar conversa fora. A casa de Deus é, sempre e em todo momento, um lugar de oração, de respeito, de silêncio e de sacrifício. É o monte santo do Senhor e, como tal, nos separa, por força, da baixeza do mundo; é o lugar onde não podemos entrar sem retirar as sandálias; é onde absolutamente não nos é dado ser protagonistas, sendo, como diz Jacó, a terrível casa de Deus, onde Ele, de fato, habita. Precisamos redescobrir que, sendo Monte Santo, a Igreja é o verdadeiro Monte Calvário, onde ocorre o Sacrifício do Senhor. Subir neste monte é, portanto, imitar o Seu sacrifício, pondo o interesse de Deus em primeiro plano e lhe respeitando o posto de Verdadeiro Rei, diante do qual assumimos a nossa verdadeira natureza, somos libertados do erro e da mentira, e somos apresentados, enfim, à alegria da Sua Presença e da Sua visão. O Monte Santo, onde nos encontramos com Ele, é o lugar em que O devemos imitar, abandonando-nos ao Seu amor.

Purifiquemos a casa de Deus. E se não o podemos fazer efetivamente nos templos físicos, não sejamos nós participantes das algazarras e das troças que estes ladrões promovem contra o Sagrado. A casa de Deus é um lugar de oração e, portanto, de silêncio e profundo respeito. Que o zelo pela casa do Senhor também nos consuma.

Deus seja louvado.

Ad Iesum Per Mariam

Fábio.
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