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Bento XVI aos Namorados


Queridos namorados!

Sinto-me feliz por concluir este dia intenso, ápice do Congresso Eucarístico Nacional, encontrando-me convosco, como que querendo confiar a herança deste acontecimento de graça às vossas jovens vidas. De resto, a Eucaristia, dom de Cristo para a salvação do mundo, indica e contém o horizonte mais verdadeiro da experiência que estais a viver: o amor de Cristo como plenitude do amor humano. 

Agradeço a saudação cordial do Arcebispo de Ancona-Osimo, D. Edoardo Menichelli, e a todos vós por esta vivaz participação; obrigado também pelas perguntas que me fizestes e que acolho confiando na presença entre nós do Senhor Jesus: só Ele tem palavras de vida eterna para vós e para o vosso futuro!

Aquilo que pondes em questão, no atual contexto social, assume um peso maior. Gostaria de vos oferecer apenas algumas orientações para uma resposta. Em certos aspectos, o nosso é um tempo difícil, sobretudo para vós jovens. 

A mesa está posta com tantas coisas apetecíveis, mas, como no episódio evangélico das bodas de Caná, parece que faltou o vinho da festa. Sobretudo a dificuldade de encontrar um trabalho estável é causa de incerteza sobre o futuro. Esta condição contribui para adiar a tomada de decisões definitivas, e incide de modo negativo sobre o crescimento da sociedade, que não consegue valorizar plenamente a riqueza de energias, de competências e de criatividade da vossa geração.

Falta o vinho da festa também a uma cultura que prescinde com frequência de critérios morais claros: na desorientação, cada qual é estimulado a mover-se de maneira individual e autônoma, muitas vezes unicamente só no perímetro do presente. 

A fragmentação do tecido comunitário reflete-se num relativismo que afeta os valores essenciais; a consonância de sensações, de estados de ânimo e de emoções parece mais importante do que a partilha de um projeto de vida. Também as opções fundamentais se tornam assim frágeis, expostas a uma revogabilidade perene, que com frequência é considerada expressão de liberdade, mas ao contrário, indica a sua carência. 

Faz parte de uma cultura privada do vinho da festa também a aparente exaltação do corpo, que na realidade banaliza a sexualidade e tende a fazê-la viver fora de um contexto de comunhão de vida e de amor.

Queridos jovens, não tenhais medo de enfrentar estes desafios! Nunca percais a esperança. Tende coragem, também nas dificuldades, permanecendo firmes na fé. Tende a certeza de que, em todas as circunstâncias, sois amados e protegidos pelo amor de Deus, que é a nossa força. 

Deus é bom. Por isso é importante que o encontro com Ele, sobretudo na oração pessoal e comunitária, seja constante, fiel, precisamente como o caminho do vosso amor: amar a Deus e sentir que Ele me ama. Nada nos pode separar do amor de Deus! 

Depois, tende a certeza de que também a Igreja está próxima de vós, vos ampara, não cessa de olhar para vós com grande confiança. Ela sabe que tendes sede de valores, dos verdadeiros, sobre os quais vale a pena construir a vossa casa! O valor da fé, da pessoa, da família, das relações humanas, da justiça. Não desanimeis face às carências que parecem afastar a alegria da mesa da vida. 

Nas bodas de Caná, quando o vinho terminou, Maria convidou os servos a dirigirem-se a Jesus e deu-lhes uma indicação clara: «Fazei o que Ele vos disser» (Jo 2, 5). Valorizai estas palavras, as últimas de Maria descritas nos Evangelhos, quase um seu testamento espiritual, e tereis sempre a alegria da festa: Jesus é o vinho da festa!

Como namorados estais a viver uma fase única, que abre para a maravilha do encontro e faz descobrir a beleza de existir e de ser preciosos para alguém, de poder dizer um ao outro: tu és importante para mim. Vivei com intensidade, gradualidade e verdade este caminho. Não renuncieis a perseguir um ideal alto de amor, reflexo e testemunho do amor de Deus! 

Mas como viver esta fase da vossa vida, como testemunhar o amor na comunidade? Gostaria de vos dizer antes de tudo que eviteis fechar-vos em relações intimistas, falsamente animadoras; fazei antes com que a vossa relação se torne fermento de uma presença ativa e responsável na comunidade. 

Depois, não vos esqueçais de que para ser autêntico, também o amor exige um caminho de amadurecimento: a partir da atração inicial e do «sentir-se bem» com o outro, educai-vos a «amar» o outro, a «querer o bem» do outro. O amor vive de gratuidade, de sacrifício de si, de perdão e de respeito do outro.

Queridos amigos, cada amor humano é sinal do Amor eterno que nos criou, e cuja graça santifica a escolha de um homem e de uma mulher de se entregarem reciprocamente a vida no matrimônio. 

Vivei este tempo do namoro na expectativa confiante desse dom, que deve ser aceite percorrendo um caminho de conhecimento, de respeito, de atenções que nunca deveis perder: só sob esta condição a linguagem do amor permanecerá significativa também com o passar dos anos. 

Portanto, educai-vos desde já para a liberdade da fidelidade, que leva a proteger-se reciprocamente, até viver um para o outro. Preparai-vos para escolher com convicção o «para sempre» que conota o amor: a indissolubilidade, antes de ser uma condição, é um dom que deve ser desejado, pedido e vivido, para além de qualquer mutável situação humana. 

E não penseis, segundo uma mentalidade difundida, que a convivência seja uma garantia para o futuro. Acelerar as etapas acaba por «comprometer» o amor, que ao contrário precisa de respeitar os tempos e a gradualidade nas expressões: tem necessidade de dar espaço a Cristo, que é capaz de tornar um amor humano fiel, feliz e indissolúvel. 

A fidelidade e a continuidade do vosso gostar um do outro tornar-vos-ão capazes de estar também abertos à vida, de ser pais: a estabilidade da vossa união no Sacramento do Matrimônio permitirá que os filhos que Deus vos conceder cresçam confiantes na bondade da vida. 

Fidelidade, indissolubilidade e transmissão da vida são os pilares de qualquer família, verdadeiro bem comum, patrimônio precioso para toda a sociedade. Desde já, fundai sobre eles o vosso caminho rumo ao matrimônio e testemunhai-o também aos vossos coetâneos: é um serviço precioso! 

Sede gratos a quantos vos acompanham na formação com zelo, competência e disponibilidade: são sinal da atenção e da solicitude que a comunidade cristã vos dedica. Não estejais sós: sede os primeiros a procurar e a acolher a companhia da Igreja.

Gostaria de voltar mais uma vez a falar de um aspecto essencial: a experiência do amor tem no seu interior a propensão para Deus. O verdadeiro amor promete o infinito! Por conseguinte, fazei deste vosso tempo de preparação para o matrimônio um percurso de fé: redescobri para a vossa vida de casal a centralidade de Jesus Cristo e do caminhar na Igreja. 

Maria ensina-nos que o bem de cada um depende do escutar com docilidade a palavra do Filho. Em quem confia n’Ele, a água da vida quotidiana transforma-se no vinho de um amor que torna a vida boa, bela e fecunda. 

De fato, Caná é anúncio e antecipação do dom do vinho novo da Eucaristia, sacrifício e banquete no qual o Senhor nos alcança, nos renova e transforma. Não percais a importância vital deste encontro: a assembleia litúrgica dominical vos encontre sempre plenamente partícipes: da Eucaristia brota o sentido cristão da existência e um novo modo de viver (cf. Exort. ap. pós-sinodal Sacramentum caritatis, 72-73). Então, não tereis medo de assumir a importante responsabilidade da escolha conjugal; não receareis entrar neste «grande mistério», no qual duas pessoas se tornam uma só carne (cf. Ef 5, 31-32).

Caríssimos jovens, confio-vos à proteção de São José e de Maria Santíssima; seguindo o convite da Virgem Mãe — «Fazei o que Ele vos disser» — não vos faltará o gosto da verdadeira festa e sabereis levar o «vinho» melhor, aquele que Cristo dá à Igreja e ao mundo. Também eu gostaria de vos dizer que estou próximo de vós e de todos os que, como vós, vivem este maravilhoso caminho de amor. Abençoo-vos de coração!

Bento XVI, 21 de setembro de 2011

Fonte: Opus Dei

A abertura criadora do amor humano e o egoísmo do nosso século


Thomas Merton

A Igreja compreende o amor humano com uma inteligência melhor e mais profunda do que o homem hoje, que pensa conhecer-lhe todos os segredos. A Igreja bem sabe que frustrar a finalidade criadora da geração humana é confessar um amor que é insincero. E insincero porque é menos que humano, menos até que animal. Amor que só procura gozar, sem nada criar, não é sequer uma sombra de amor. Não tem poder nenhum. A impotência psicológica da nossa exagerada geração deve ser imputada à irresistível acusação de insinceridade que todo homem e toda mulher que amam unicamente pelo prazer sentem no fundo da alma. Um amor que tem medo de filhos por qualquer motivo que seja, é um amor que tem medo do amor. É dividido contra si próprio. É uma mentira e contradição. A própria natureza do amor exige o aproveitamento da sua força criadora, a despeito de qualquer obstáculo. O amor, mesmo humano, é mais forte do que a morte. Por conseguinte, o verdadeiro amor é mais forte do que a pobreza, a fome ou a angústia. E, no entanto, os homens do nosso tempo não põem, em amar, essa coragem de arriscar mesmo o incômodo.

Não é surpreendente que a Igreja despreze completamente os argumentos econômicos dos que pensam ser o dinheiro e o conforto mais importantes do que o amor? A vida da Igreja é em si mesma a forma mais alta do amor, e nesse amor mais elevado todos os amores menores recebem a proteção e a guarda de uma sanção divina. É inevitável que no dia em que os homens esvaziem de toda a sua força e conteúdo o amor humano, continue a Igreja o seu último defensor. Mas, o que é certamente irônico, é que a sábia doutrina da Igreja proteja mais o prazer físico do amor humano, do que os sofismas daqueles cujo fim aparente é só o prazer. Aqui, ainda, sabe a Igreja de que é que está falando, ao lembrar-nos que o homem é feito de corpo e alma, e que o corpo só preenche bem as suas funções quando inteiramente sujeito à alma, e esta à graça, isto é, ao amor divino. Segundo a doutrina da Igreja, a virtude da temperança não é destinada a esmagar ou desviar o instinto humano de prazer, mas a levá-lo a servir a seu fim: conduzir o homem à perfeição e à felicidade em união com Deus.

E, assim, é a Igreja obrigada pela sua inflexível lógica a deixar ao homem toda a ordenada plenitude de prazeres necessários ao bem-estar da pessoa e da comunidade. Ela jamais considera o prazer como um "mal necessário" a tolerar. É um bem, que pode contribuir à santificação do homem, embora seja extremamente difícil ao homem decaído fazer dele um bom emprego. Daí o rigor das suas leis. Mas não devemos esquecer a finalidade das leis, que é a de assegurar tanto os direitos de Deus, como os do homem. Inclusive, os direitos do corpo do homem.

Uma vez ainda, não me acusem de exagero ao buscar o problema da sinceridade em suas raízes no amor humano. O egoísmo de uma época devotada ao mero prazer manchou toda a raça humana com um erro que converte todos os nossos atos mais ou menos em mentiras contra Deus. Um século como o nosso não pode ser sincero.

MERTON, Thomas. Homem Algum é Uma Ilha. Rio de Janeiro: Agir, 1968. p. 167-168.

Cerimônia de União Homoafetiva


Hoje, aqui na cidade de União dos Palmares, efetivou-se a primeira cerimônia de união civil homoafetiva. O povo todo já vinha comentando sobre o referido há dias e nesta manhã, mal eu tinha acordado, já escutava no rádio, num programa que tratava do assunto, as falas de vários palmarinos que telefonavam a fim de defender a decisão, ou criticá-la.

Como já seria de se esperar, as opiniões se dividiam. Os que eram a favor da união geralmente argumentavam apelando para os sentimentos dos dois rapazes: "eles não se gostam? Isso é o que vale"; ajuntando, depois, a frase de que "o que importa é ser feliz". Outros ainda falavam em Deus ou, mais especificamente, em Jesus Cristo, com frases do tipo: "Jesus não ensinou o amor?", etc.

Dentre os que eram contrários à cerimônia, via-se que a imensa maioria era composta de protestantes. Como argumento mais comum, usavam termos do tipo "Deus abomina isso" ou citações da Escritura. Um outro chegou a dizer que se Deus aprovasse tal coisa, teria criado, ao invés de Adão e Eva, Adão e Ivo.

Gracejos à parte, veremos que este tipo de argumentação ajuda muito pouco porque pressupõe verdades que não são aceitas por outros, e terminam abrindo a vala de incompreensão entre crentes e não crentes. Citar as Escrituras só tem valor para cristãos que têm Fé na inerrância bíblica. Mas nem todo mundo é cristão... E nem todo cristão aceita, sem reservas, a Escritura...

O argumento do "Adão e Ivo", embora mais voltado à comicidade, pode sim funcionar como um argumento, mas somente enquanto se aceita ser a humanidade criada por Deus e, como determinante, o fato de Ele ter criado homem e mulher. Tal gracejo, então, esconde um profundo bom senso e é ancorado na evidência empírica, mas, para o nosso tempo subjetivista e míope, isso não é suficiente. Se as coisas bem explicadas são, ainda assim, renegadas, o que se dirá de algo que exija uma certa reflexão?

Em todo caso, como vimos, os argumentos usados contra a união homossexual repousam sobre premissas que são, elas mesmas, postas em cheque pela maioria das pessoas de hoje. Portanto, o cristão que pretenda não apenas polemizar ou simplesmente expôr-se na defesa da sua Fé, deve utilizar-se também de argumentos que possam ser aceitos pelos não cristãos e/ou os "cristãos" relativistas.

Pois bem. Tendo criticado o teor das idéias em defesa da moralidade cristã na referida ocasião, passo à crítica do argumentos usados pelos paladinos da libertinagem sexual.

Quero, primeiramente, afirmar que nada tenho contra as pessoas dos que foram sujeitos da tal cerimônia. Minha exposição aqui faz referência somente ao evento em si e à própria idéia da pretensa legitimidade da união civil homoafetiva.

Quais, foram, então os argumentos usados em favor? Foram dois: o dos sentimentos dos indivíduos e o de que Jesus tinha pregado o amor. Sobre este último - o do amor pregado por Jesus -, qualquer sujeito que tenha uma certa boa vontade haverá de reconhecer que isto não chega a ser um argumento; é, antes, uma apelação. A Sagrada Escritura está cheia de passagens que condenam as relações homossexuais. Sodoma e Gomorra até hoje são cidades conhecidas sobretudo pelas depravações de que eram palco, motivo pelo qual foram sumariamente destruídas. Jesus nunca se opôs às Escrituras; ao contrário, sempre afirmou que nem sequer um jota seria revogado. S. Paulo, um dos maiores divulgadores do Evangelho, também condena com termos severos o que ele chama de "paixões contra a natureza". Disto tudo se conclui que o amor de que Cristo veio falar não se coaduna, de nenhum modo, com os afetos homossexuais. E, dizendo de um modo claro, defender tal hipótese chega a constituir uma ofensa a quem quer que tome o cristianismo a sério, ofensa que, no entanto, costuma ser levada a termo sem hesitação ou maiores considerações. Tal argumento, portanto, não vale e é de se espantar que ele seja, ao menos, usado. 

Vamos, então, à alegação de que os sentimentos podem legitimar a união homoafetiva, pois este é o coração de toda essa discussão. Como se sabe, há a esfera do subjetivo, isto é, dos afetos, sentimentos, intenções, etc, e a esfera do objetivo, daquilo que faz parte do mundo real e que independe das determinações interiores dos sujeitos ou a elas não se submete. Pois bem: por mais importantes que sejam os sentimentos ou vontades pessoais de um indivíduo, elas não podem exigir realização sem que sejam consideradas as possibilidades reais que têm de se efetivar, e isto dentro de uma certa legitimidade objetiva. O que isto quer dizer? É simples: o objetivo deve ter a primazia sobre o subjetivo. Não se trata de aderir somente a um e reputar o segundo ao campo do não-valor, mas de estabelecer uma correta hierarquia. É preciso entender que por mais forte que seja num homem o desejo de voar, nem por isso é legítimo deixar que salte de um precipício motivado por tola esperança; neste caso, tem-se uma impossibilidade objetiva. De outro lado, ainda que um sujeito intente matar um seu conhecido para roubar-lhe um órgão necessário à sua subsistência, nem por isto está liberado para fazê-lo, pois, então, temos não mais uma impossibilidade objetiva, mas uma ilegitimidade moral.

Alguém me objetará: "mas quando houver consenso entre as partes, então haverá legitimidade". Não, pois o que faz a legitimidade não é o mero consenso, como por vezes pensa a nossa querida sociedade. Ainda tomando o último exemplo que usamos, digamos que a vítima permita ser morta para ceder o tal órgão; nem neste caso a situação ganharia licitude. O consenso, portanto, não é suficiente; é preciso que a situação seja objetivamente válida.

Daí que, se o ato homossexual é objetivamente imoral, ele não será tornado moral somente com base nos sentimentos das partes envolvidas.

Mas, continuemos. Peguemos ainda este argumento que afirma serem os tais sentimentos suficientes para garantir a moralidade do ato. O que diríamos, por exemplo, de um adulto que se apaixonasse por uma criança, e vice versa? Neste caso, haveria consenso. Mas seria legítima a consumação da união? Se os sentimentos forem mesmo o determinante, teremos de admitir que sim, que será legitima. Mas todos nós somos capazes, acredito e espero, de dizer que tal conclusão não procede. Logo, os fatores subjetivos não são, assim, tão absolutos.

Continuemos seguindo a "lógica da permissividade" - tão em moda - e critiquemos o tabu segundo o qual um relacionamento deve dar-se somente entre "duas" pessoas, afinal, quem falou que é impossível apaixonar-se em três, ou em quatro, ou em cinco? Alguém dirá que isto vai contra a lei; pois bem, se o argumento dos sentimentos é válido, então diremos que a lei jurídica é, por natureza, anti-humana ou anti-natural, já que contraria um tipo de inclinação natural e legítima no ser humano.

Se dissermos, então, que deveria também ser permitida a consumação de união inter-espécie, isto é, entre seres humanos e animais, quem ousará duvidar da sinceridade do amor entre homens e cães ou gatos? Se o critério maior for, de fato, o subjetivo, deixemos, então, estes seres serem felizes; não lhes barremos, por causa das nossas tolas crendices, o caminho da realização amorosa.

Esta lista de bizarrices poderia ser estendida ao infinito, mas fiquemos por aqui, por amor aos nossos estômagos.

Não se trata de fazer quaisquer ligações - como o pretenderão alguns - entre a união homoafetiva e estas outras práticas. De modo algum. O que estou a fazer é tão somente pegando o argumento usado numa situação específica e mostrando que, com este mesmo argumento, é possível legitimar-se muitas outras coisas estranhas e evidentemente imorais.

No caso das uniões entre adultos e crianças, ainda que ambos defendam estarem apaixonados mutuamente, alguns arguirão que o que impossibilita tal relação é o fato de que, segundo a lei, seja necessário ter atingido a maioridade. Pois bem, vejamos o que é a maioridade. Ela é tão somente a consideração pela madureza psico-física de um sujeito, isto é, um argumento que utiliza critérios totalmente objetivos e que respeitam a natureza das coisas. Se assim é, por quais motivos assombrosos quer-se, agora, abrir mão destes mesmos critérios para legitimar as tais uniões homoafetivas? "Mas como - me perguntarão - argumentas que se está a abrir mão dos aspectos físicos objetivos neste caso, já que ambos são adultos?"

Respondo: os tais aspectos físicos objetivos de que se trata incluem, claro, a idade, mas não só! A fisiologia sexual também deve ser levada em consideração. Se assim não é, qual seria o critério para a divisão, dentre os caracteres físicos, daqueles que determinam a licitude do comportamento sexual e daqueles que não? Por que a idade deve ser levada em conta, mas a genitalidade, não?

O argumento dos sentimentos pode soar bonitinho, à primeira vista, mas não se sustenta. Os afetos só têm valor quando estão em consonância com a objetividade da vida. O sonho de ganhar a São Silvestre num paraplégico pode até ser nobre e enlevá-lo, mas não permite que ele levante de sua cadeira e vença a prova. E mais: se alguém ousa motivá-lo ao disparatado ato, merece antes reprimenda que elogio. 

No caso da união homossexual, é evidente que se está diante de algo que vai contra a natureza. E isto é de uma evidência infinita: o corpo masculino se ordena ao feminino e vice versa. O ânus, como já outras vezes tratei aqui, não é um órgão sexual. A própria natureza testemunha a naturalidade da relação heterossexual com a geração de uma vida. A relação homossexual, por sua vez, não gera nada - é estéril. A insistência numa moralidade do ato homossexual, fundando-se numa supervalorização do aspecto subjetivo dos sujeitos e na abstração da objetividade do real, não se pode caracterizar como maturidade pessoal, mas, antes, como incapacidade de aceitar e, portanto, tentativa de burlar aquilo que a natureza determinou. Alguns românticos, então, me perguntarão com o dedo em riste: "então, queres dizer que é preciso submeter-se à natureza? E a liberdade humana, onde que fica?". Por "liberdade humana", já se entende uma liberdade que está limitada ao campo do humano. Nunca vi nenhum homem ou mulher reclamar da suposta falta de liberdade porque não gosta de comer capim ou porque não possui chifres como os do boi. Seriam, então, tais impossibilidades sinais da nossa inaceitável escravidão? Claro que não. Há uma liberdade real, mas ela se dá dentro da nossa humanidade. Assim também, dentro das possibilidades sexuais legítimas de um homem está o de envolver-se com uma mulher ou o de não envolver-se.

Porém, se ainda assim, alguém deseja contrariar à própria natureza, no fim das contas, ele é dono do seu livre-arbítrio. Todos nós aviltamos a nossa natureza a cada vez que pecamos, e isto não é mero discurso religioso. Porém, que a sociedade esteja de acordo e aprove e celebre tais coisas, é, sem dúvida, estranho. Tudo isto indica que, aos poucos, os homens vão perdendo contato com o mundo real, do qual faz parte também a esfera dos valores, e vão adentrando no campo da invenção pessoal, da soberba que reduz tudo ao estreito tamanho de sua subjetividade onde têm máximo valor os desejos, fantasias e caprichos, e termina-se por se construir algo como um "fantástico mundo de Bob", para o qual tais pessoas pretendem - vãmente - dar total concretude, não obstante as contradições em que tenham de incorrer para tal.

Enfim, reitero que não tenho nada contra os que positivaram juridicamente a sua união. A estes, só desejo que Deus os conduza.

Fábio.

Olet? Cheira?


Jean Lauand

O técnico, o artista, o profissional, são antes de tudo homens.

A tendência, porém - cada vez mais acentuada em nossa sociedade organizada com base na divisão do trabalho - é a de pensarmos que uma ação, por estar classificada como trabalho, seria, por isso mesmo, neutra moralmente. "Eu estou trabalhado", podem dizer o físico ou o químico que inventam uma nova bomba; o jornalista que indevidamente desvenda a intimidade pessoal alheia e a divulga; o médico que pratica um aborto ou, como cinicamente se diz hoje, "interrupção da gravidez".

Tito, herdeiro do Império, censurara o pai, o Imperador Vespasiano, por haver lançado um imposto sobre os mictórios públicos. Quando o Imperador recebeu as primeiras contribuições deu uma moeda ao filho para que a cheirasse, perguntando se fedia: - Olet? (Cheira?) - Não, não cheira. - Pois, é dinheiro das urinas; o dinheiro (e acrescentaríamos hoje: o trabalho), meu filho, não tem cheiro.

A propósito, Pieper lembra que Rudolf Höss, o comandante de Auschwitz, na sua auto-biografia, apresenta aquele campo de concentração como uma enorme organização, onde a preocupação era cumprir os cronogramas do Ministério de Obras Públicas. Assim, num campo de extermínio, cada um dos "funcionários" podia se considerar cumprindo sua função ("Eu estou só trabalhando!"): um, como "abastecedor de gás"; outro, "transportador de reclusos"; outro, "fechador de janelas"; outro "alavanquista (acionador de alavancas que liberam gás)", etc.

E o inventor da napalm, confrontado com fotos de pessoas queimadas pela sua bomba, declarou que, para ele, seu trabalho era simplesmente científico, uma contribuição para o progresso da ciência...

LAUAND, Jean. Linguagem e Ética; Ensaios. Curitiba: Editora Universitária Champagnat, 1989.

A Temperança: Defender-se da Autodestruição


Um autor tão moderno como James Joyce, cuja obra principal foi chamada - não sem razão - "missa negra", considerou durante toda a sua vida o ato sexual como algo vergonhoso. Um fato inesperado, mas que só à primeira vista surpreende.

Um significativo contraponto desse fato é que, por um lado, nenhum dos grandes teólogos católicos jamais falou tão negativamente da sexualidade; como também, por outro lado, afirmaram que justamente por ser o sexo uma força natural fundamental do homem, proveniente do ato criador de Deus, uma força necessária e boa, deve também ser controlada pelo homem de modo especial.

E o sentido da quarta virtude cardeal, da Temperantia, é precisamente a realização da ordem interna da pessoa.

Mas tudo isto ainda está formulado de maneira excessivamente inofensiva: ainda nem se manifestou o caráter extra-ordinário, ou melhor, até misterioso da virtude da Temperança: trata-se na verdade de que justamente as forças do ser do homem orientadas por natureza para a autoconservação, aperfeiçoamento e realização, são aquelas mesmas forças que podem também desnaturar-se para a autodestruição. Todas elas e, talvez, somente elas.

A sexualidade é apenas uma dessas forças e é dela que menos se precisa falar especificamente, na medida em que o cristão entenda que a castidade não visa à repressão da força sexual mas a defender-se da autodestruidora perversão dessa força. Como também, naturalmente, nem o prazer nem a reta afirmação de si parecem condenáveis ao cristão; mas - tema também da Temperança - encontrar uma compreensível fundamentação antropológico-ética para o jejum e a abstinência como também para a virtude da humildade, já parece mais difícil.

Pior ainda é que províncias inteiras do reino da força fundamental chamada Temperança se tornaram quase sem nome, no pensamento contemporâneo.

Como expressar, por exemplo, a força da ira, a capacidade de irar-se, que, nos ensinamentos vitais da grande tradição cristã, pertence também aos impulsos fundamentais imprescindíveis do ser humano, e que foi considerada sua real capacidade de resistência? Sem a força para a ira - é o que se diz no pensamento cristão - o homem permaneceria passivo e inerte diante das injustiças que acontecem no dia-a-dia. Mas, ao mesmo tempo, essa mesma força pode, se não é controlada, destruir totalmente a convivência - por exemplo, sob as formas por todos conhecidas, de irreconciliabilidade e amargor, que envenenam o clima de relacionamento com os outros, sobretudo se espicaçadas ideologicamente.

É triste encontrar o reto controle sobre a força da ira, a virtude cristã da mansidão, equivocamente confundida com essa pálida incapacidade para a ira que, como todos sabem, navega sob essa mesma bandeira. Na verdade, "mansidão" no sentido original significa aquela força interior (atualmente incapaz de ser denominada com uma palavra com vida, frescor e vigor) da qual a Escritura diz que é por ela que o homem guarda sua alma (Ecle 10,31)

O mais surpreendente, entretanto - e é algo simplesmente inacreditável - parece-me ser o fato de que uma determinada força fundamental do homem - da qual os Antigos, com justeza, tratam exaustivamente - seja simplesmente silenciada e omitida no pensamento cristão atual sobre a Temperança. E isto, apesar de essa força dizer respeito, mais do que nunca, precisamente à vida dos nossos dias. Refiro-me à ânsia, à concupiscência de ver.

Poder-se-ia, nesse caso, como o fazem os grandes Mestres, antes de mais nada, falar do caso geral de concupiscência do saber; e não é pouco o que haveria aí para dizer. Naturalmente não falaríamos, como os Antigos, dentre as formas de perversão do desejo de saber, de "Magia"; mas a pergunta sobre se não estamos dispostos a pôr em jogo o bem e a integridade da Humanidade pela resolução de um problema científico - ou se até já não o estamos fazendo - bem que pode ser atual.

Mas, permaneçamos no desejo de ver com os próprios olhos, em sentido literal. E isso realmente constitui um dos mais fortes impulsos do homem: "Preferimos o ver a qualquer outra coisa" - é o que se lê já no primeiro capítulo da Metafísica de Aristóteles. Para mostrar até que ponto isso é verdade, não nos custaria muitas palavras; e também não as precisaríamos gastar para evidenciar que a autonomia da vida intelectual se baseia - em boa medida - justamente em assegurar-se da verdade por "ver com os próprios olhos".

Mas, também aqui, claramente vale a complementação: que esta força fundamental necessita de maneira especial de controle, porquanto ela pode, como quase nenhuma outra, degenerar autodestruidoramente. E aqui acontece literalmente que não dispomos de nome nem para a virtude nem para o vício.

Pois se encontramos o descontrole do desejo de ver, nos Antigos, sob o nome de "curiosidade" (curiositas), pensamos antes na perdoável fraqueza da vizinha do que no verdadeiro e profundo mal que a "concupiscência dos olhos", este "ver por ver", pode causar na existência humana. E, quanto ao vocábulo tradicional para o controle do querer ver, studiositas, simplesmente não significa mais nada.

Martin Heidegger designou por "curiosidade" (Neugier) aquilo que realmente queriam dizer os Antigos com curiositas: o que interessa à curiosidade não é a captação da realidade, mas a "possibilidade de abandonar-se ao mundo".

Penso que deveria ser possível mostrar claramente ao contemporâneo crítico da "geração da TV" o perigo - que tão profundamente atinge a existência - e de que estamos aqui tratando: o de perder, no meio do barulho ensurdecedor, ótico e acústico, de vazias baboseiras, a capacidade original de captar a realidade. O controle do "desejo de ver", tão vital hoje como antigamente, poderia alcançar um valor quase salvador na medida em que, por uma ascese do conhecimento, conservássemos aquilo que desde sempre perfaz uma existência humana plena de sentido: ver a realidade criada por Deus tal como ela é, e viver e agir da verdade assim apreendida.

Josef Pieper In: LAUAND, Jean. Linguagem e Ética; Ensaios. Curitiba: Editora Universitária Champagnat, 1989.

Fortaleza: O mais fraco resiste


Josef Pieper

Fortaleza, heroísmo, vitória - tais conceitos sempre se pensam juntos. Isto pode não ser errado, mas simplifica demais a situação. Já chama a atenção para esse fato a frase de um dos primeiros escritores da Igreja: "Vencemos quando nos matam". E quando ouvimos um dos grandes mestres do cristianismo medieval dizer que talvez os soldados menos fortes - bem entendido, no sentido da terceira virtude cardeal - sejam os melhores soldados, então a dificuldade do tema se mostra bem surpreendente.

A quem isto não basta, pode considerar ainda a sentença de S. Ambrósio: "A Fortaleza não deve fiar-se de si mesma". Tudo isto como prefácio, para abalar um pouco convicções por demais firmemente estabelecidas.

O núcleo daquilo que verdadeiramente está implicado na virtude da Fortaleza é exposto pela ironia de Bertold Brecht: que ele desconfia quando ouve dizer que um navio precisa de uma tripulação de heróis; pois então se pergunta se algo não estará errado com esse navio, talvez velho ou podre.

Provavelmente, esse moderno autor de peças não imaginava que quinze séculos antes dele alguém já havia dito quase exatamente o mesmo. Este alguém é ninguém menos que S. Agostinho, que, é bem verdade, não fala de um navio mas do mundo como um todo: com o mundo realmente há algo de errado, já que nele há o mal e o mau. E: justamente por isso é necessária a Fortaleza; pelo fato nu e cru de que é preciso existir Fortaleza, atesta-se o poder do mal no mundo.

Dizendo-o de outra maneira: o bem não se impõe por si mesmo, como opinam os liberalismos; para que isto ocorra há necessidade do empenho da pessoa.

Empenhar-se pela realização do bem contra o poder do mal (que poderá também ser sobrepoder): eis aí circunscrito de forma bem completa aquilo que perfaz o ato da virtude da Fortaleza.

"Empenhar-se": com isto não se indica um agir qualquer, mas um agir pelo qual o agente está disposto a sofrer um prejuízo. Com estouvados saltos de esqui ou perigosas escaladas de montanha (com o que, não há muito tempo, se tentou explicar - de modo suficientemente inadequado - a virtude da Fortaleza na televisão alemã) consegue-se perfeitamente não atingir aquilo que é decisivo nessa virtude. Com um tal enfoque, por um lado exige-se demais, se realmente a Fortaleza pertencer aos elementos do "estar-certo" de todo homem (pois como pretender que tais atos sejam realizados pelo "homem comum"?); e, por outro lado, pede-se de menos; dizendo-o mais exatamente: falta seriedade.

Em geral, o ato de virtude é algo totalmente sem brilho: por exemplo, assumir ser publicamente ridicularizado por tomar o partido de uma causa justa.

Mas, quem como empiricamente mais fraco resiste ao poderio do mal, talvez arrisque coisas que tocam já mais perigosamente a existência: a liberdade, a saúde, a vida. Ao final das contas, toda verdadeira Fortaleza baseia-se na disposição para a morte; ou, mais precisamente, na disposição para o testemunho de sangue. O verdadeiro símbolo da Fortaleza é o mártir. Mas, a ausência de brilho permanece, através de todos os graus de realização, como uma característica praticamente distintiva: nada se diz de ousadia, de risco, nem de "empenho heróico" (aliás, quando disto se fala já se trata, quase com certeza, de um sinal de que nem existe a situação que exigiria autêntica Fortaleza).

E precisamente ao extremo teste da virtude, o próprio martírio costuma faltar completamente o brilho do "heróico". A ousadia, a disposição de partir para a luta, o espírito vital de ataque  do primeiro momento desvaneceram-se, e a dúvida talvez esteja penetrando até à própria consciência - a tal ponto que o sacrificado, quando, digamos, a porta da masmorra fechou-se definitivamente, é assaltado pela pergunta de se, afinal, não seria ele o idiota. DO mártir, afinal de contas, se fala só post festum; as coroas de flores da veneração só vêm depois. Antes, na própria consumação do martírio, nada há senão um prisioneiro, um solitário, um objeto de riso e, sobretudo, um emudecido.

Só lhe fica então a paciência que, ao longo de toda a tradição espiritual, tem sido considerada parte elementar da Fortaleza. Hildegard von Bingen chama à paciência coluna "que por nada se deixa amolecer".

E nós, tarde nascidos, começamos a perceber porque os antigos consideravam como a parte essencial da Fortaleza o resistir, e não o atacar.

Josef Pieper In: LAUAND, Jean. Linguagem e Ética; Ensaios. Curitiba: Editora Universitária Champagnat, 1989.

A Justiça: Dar o que é devido


Josef Pieper

Quem hoje pensa em "Justiça", sobretudo se é jovem, logo se lembrará do estribilho "sociedade"; a sociedade parece-lhe a injustiça encarnada, com o que, talvez, não deixe de ter razão. No entanto, deve deixar-se lembrar que estamos agora falando da Justiça como virtude, portanto de uma atitude que só pode ser exigida da pessoa singular e por ela realizada.

A Justiça já foi chamada também "arte de conviver"; uma formulação que por sua vez pode também ser mal-interpretada: como se não se tratasse de nada mais do que arranjar-se com os outros. Não é isso no entanto o que se quer dizer; mas, mais propriamente, um conviver em que cada um recebe o que lhe é devido: "A cada um o que é seu" (como diz a antiga sentença).

Exatamente isto - assim o tem afirmado o clássico pensamento ocidental desde os antigos gregos até as encíclicas sociais dos papas - exatamente isto é a Justiça: a vontade constante de dar a cada um, com quem nos relacionamos, aquilo que lhe é devido.

A Justiça é pois, como vemos, algo que está em segundo lugar: ela pressupõe algo diferente de si mesma: a saber, que haja alguém a quem algo é devido e que aquele que é convidado a exercer a Justiça aceite esse "dever".

Agora, quanto à pergunta sobre se e por que razão algo é devido ao outro (e, naturalmente, também a mim), e sobre o que se lhe deve dar ou conceder - esta pergunta não é facilmente respondida. Que ao trabalhador é devido o justo salário, ainda é o mais fácil de evidenciar. Ainda que na época dos campos de trabalhos forçados isto não seja tão evidente quanto parece.

No que deve residir então a causa de que a todo aquele que porta uma face humana, simplesmente pelo seu ser-homem, inalienavelmente algo lhe seja devido? Por exemplo, que sua honra como pessoa seja respeitada. O conceito de pessoa, de fato, é aqui decisivo - enquanto se compreende "pessoa" como um ente que existe para seu próprio aperfeiçoamento e realização. Mesmo assim, em caso de conflito, ao se chegar aos extremos, não basta retroceder ao mero ser-pessoa (como supunham alguns filósofos idealistas). É necessário nesses casos, poder colocar em jogo uma instância absoluta, mais além de qualquer instância humana, ou, dito de outro modo: o outro deve ser-me intocável por eu o ver como ente criado por Deus como pessoa.

Não se pense ser esta uma concepção especificamente cristã ou teológica. Foi um chinês confuciano quem declarou, - aos seus, presumivelmente atônitos, colegas da comissão da UNESCO para a reformulação dos direitos humanos -, que lhe havia sido transmitido por tradição, como fundamento dos direitos humanos, que: "O Céu ama o povo e o que exerce o poder deve obedecer ao Céu". E Emanual Kant - que não era lá propriamente um teólogo cristão - diz: "Temos um santo regedor e o que ele deu ao homem de sagrado é o direito dos homens".

Garantir e proteger esse direito é o sentido intrínseco do Poder. E quer se trate do poder político ou da autoridade em círculos menores (família, unidade militar, empresa) sempre vale: quando o poder não cuida da Justiça, ocorre invariavelmente a injustiça, e não há injustiça mais desesperadora no mundo dos homens do que o uso injusto do poder. E, no entanto - e é uma idéia tão desagradável -, poder do que não se pode abusar, no fundo não é poder...


Mas, aquele que se aprofunda mais, deparará com uma nova complicação, ainda mais radical, no tema da Justiça. Pois o mundo dos homens está feito de maneira tal que, em alguns casos determinados e altamente significativos, é impossível dar de fato ao outro aquilo que - sem sombra de dúvida - lhe é devido. Os antigos pensavam aqui, antes de mais nada, nas relações com Deus; a Ele não podemos, na verdade, dizer nem a respeito de um instante sequer: "Já te dei o que te devia, agora estamos quites".

Por isso, os grandes mestres do cristianismo afirmavam que, dada a incapacidade da Justiça, ao invés de Justiça, no caso das relações com Deus, deveria entrar como substituto, como Ersatz, a modo de recurso improvisado, a religio; entrega, adoração, disposição para o sacrifício, atitude de reparação.

Mas também no âmbito do convívio humano há dívidas que por natureza não podem ser realmente pagas e quitadas. Também à minha mãe, aos meus professores, aos justos administradores das funções públicas não posso, em sentido estrito, restituir na medida em que lhes devo; se olharmos exatamente nem sequer sou capaz de "pagar", de tal maneira  que recebam tudo o que lhes devo, a amabilidade de um garçom ou a lealdade de uma empregada doméstica.

E assim deve - quando os casos são como devem ser - novamente entrar no lugar da Justiça (impossibilitada de realizar-se), outra coisa: piedade. A atitude de honrá-los e o respeito (não realizado apenas interiormente) que diz: devo-te algo que não posso pagar, e manifesto que estou consciente disso através dessas atitudes.

Quando nos sabemos assim agraciados e endividados diante de Deus e dos homens, não colocamos tão facilmente nossa vida em atitude de reivindicações pela pergunta: "O que me é devido?"

Josef Pieper In: LAUAND, Jean. Linguagem e Ética; Ensaios. Curitiba: Editora Universitária Champagnat, 1989.

A Prudência: Ver Aquilo que É


Josef Pieper

Se perguntarmos, então, sóbria e objetivamente, o que se pode exigir e esperar em termos de "ser-bom" do homem comum - e, portanto, de cada um de nós -, logo pede a palavra a antiga sabedoria que fala do espectro de quatro cores em que se desdobra a luz da perfeição. É a doutrina das "Virtudes Cardeais": Prudência, Justiça, Fortaleza e Temperança. O termo latino cardo significa gonzo, que abre o portal da vida.

Esses quatro nomes certamente já foram ouvidos muitas vezes, sem que se significado fosse levado a sério. No momento, porém, em que isto se faça, a situação torna-se complicada. Por exemplo: como pode a Prudência ser virtude? - é o que já à primeira vista cabe perguntar. E a compreensão tornar-se-á ainda mais difícil quando nos disserem que a seqüência não é casual, mas obedece a um significado e a uma hierarquia: à Prudência, cabe, portanto, o primeiro e mais elevado posto. E mais ainda, tal formulação nem ao menos é precisa; a rigor, a Prudência não ocuparia um lugar como elo dessa série: ela não é algo assim como a irmã das outras virtudes; ela é sua mãe e já foi designada literalmente como "genitora das virtudes" (genitrix virtutum).

Desse modo, ninguém poderia - e, por estranho que possa parecer, de fato é a assim - praticar a Justiça, a Fortaleza ou a Temperança a não ser que seja ao mesmo tempo prudente. Ao mesmo tempo e até antes.

Pelo uso comum da linguagem e pelos hábitos de pensamento temos alguma dificuldade não só para concordar com o acima afirmado, mas até para entendê-lo. Pois não dizemos na língua alemã que é "prudente" (klug em alemão significa prudente e esperto) quem é esperto e com ágil inteligência logo percebe como levar vantagem? E não dizemos que Fulano ou Sicrano é "prudente demais" e, portanto, não defende com determinação e coragem suas convicções? Tudo isto, sem dúvida, é certo. No entanto, devemos esquecer estes casos, deixá-los de lado e lembrar-nos de outras situações que nos são igualmente familiares - por exemplo, de que, digamos, em caso de conflito, ninguém pode tomar uma decisão justa se não conhece a realidade: como são as coisas e em que pé estão. O mais puro desejo de Justiça, a "melhor das boas vontades", a "boa intenção" - tudo isto não basta. Antes, a realização do bem concreto pressupõe o conhecimento da realidade.

Isso se pode exprimir também do seguinte modo: o agir humano é bom e ordenado quando procede da verdade, que afinal de contas nada mais é que o vir-a-encarar a realidade. E precisamente este é o sentido da prudência e de sua posição privilegiada: que - tanto quanto possível - vejamos a realidade, que eu veja como realmente são os elementos que compõem a situação que exige de mim uma decisão.

Este "ver as coisas", entretanto, não é de modo algum assunto acessório, que se possa considerar com ligeireza. Além do mais, a capacidade de "ver a realidade" é ameaçada de diversas maneiras. Pois não se trata  de uma neutra contemplação da natureza, mas da incorruptível "busca da verdade" a respeito de situações nas quais costumam estar fortemente envolvidos fatores de interesse. O que importa, portanto, é fazer calar nosso interesse - e, talvez também, ouvir o outro, possivelmente oponente. Quem não consegue isto, ou a isto não está disposto, jamais chegará a ver a realidade como ela é.

Mas isso é apenas o começo e a primeira metade da Prudência. A outra, bem mais difícil, consiste em transformar aquilo que foi visto, a verdade das coisas, em diretriz do próprio querer e agir. Só então se perfaz a virtude da Prudência, que com razão foi definida como sendo "a arte de decidir-se corretamente".

Só quem domina esta arte pode ser considerado como um homem moralmente maior, adulto. Para ele foi cunhada a palavra da Sagrada Escritura: "Se o teu olho é simples (simplex), então todo teu corpo estará na luz" (Mt 6,22)

Josef Pieper In: LAUAND, Jean. Linguagem e Ética; Ensaios. Curitiba: Editora Universitária Champagnat, 1989.

A Virtude como "Ultimum Potentiae" - Josef Pieper


Josef Pieper

O último grande mestre da cristandade ocidental ainda unificada, Tomás de Aquino, designou a virtude humana como "ultimum potentiae", ou, em linguagem de hoje, o máximo daquilo que uma pessoa pode ser.

É evidente que a concepção expressa nessa breve sentença nem sequer permite o aparecimento das famigeradas deformações que, de diversos modos, costumamos associar à palavra virtude. Nem vale a pena falar muito a respeito delas. O que sim vale a pena é procurar compreender de forma mais exata alguns elementos que a definição de Tomás traz consigo e, à primeira vista, talvez também esconda consigo.

Quem, por exemplo, fala do ultimum e, portanto, do máximo, já pensou ao mesmo tempo que há também um penúltimo e um primeiro. Com isso, afirma-se também algo a respeito do homem: que a sua vida quotidiana se situa em meio a esses diferentes graus de realização, procurando, é certo, o máximo do poder ser, mas não necessariamente atingindo-o. Que o ser humano é, no seu núcleo mais profundo, um ser-que-se-torna; em todo caso, não é meramente um ser conformado desta ou daquela maneira, não é algo pura e estaticamente existente mas sim sujeito do acontecer, realidade dinâmica, como aliás todo o Cosmos.

Naturalmente, isto não é uma concepção especificamente cristã. O poeta grego Píndaro já há mais de dois mil anos formulou-a na famosa frase: "Torna-te aquilo que és" - com o que, na realidade, se diz, (e parece tão estranho) que nós ainda não somos o que entretanto somos. Disto também está convencida a sabedoria teológica do cristianismo, quando reconhece verdadeira virtude somente naquele que realiza o máximo do que lhe é possível ser.

Já algo especificamente cristão se encontra na resposta à pergunta sobre como se deveria pensar o primeiro começo desse processo de auto-realização: assume-se claramente que o início já vem dado previamente. O homem - quando com liberdade faz o bem - não está pondo os pés pela primeira vez num caminho ainda não trilhado ou sequer aberto; o agir moral (isto é, todo agir humano baseado em decisão e responsabilidade) vem a ser antes uma continuação, um levar adiante pelo caminho algo já começado e que se encontra em processo.

Muito antes de se decidir livremente, já há algo que orienta o homem para seu alvo; como uma seta disparada ele já está a caminho. A Teologia fala aqui de um querer natural, de um impulso que nos é inerente por natureza e que seguimos quando fazemos o bem. No entanto, essa afirmação a respeito da natureza humana e do querer natural é apenas algo precário e, por assim dizer, provisório. Somente a compreendemos bem, quando entendemos "natureza humana" como aquilo que o homem é em função da Criação. No ato de Criação, foi o homem posto por Deus a caminho, num caminho ao final do qual está aquele máximo que pode chamar-se, em sentido pleno, Virtude: a realização do projeto divino incorporado à criatura.

Quem pensa nisto consegue entrever a exigência quase inatingível que reside no conceito de virtude. E, talvez, torne-se-lhe claro, de repente, aquela certeira sentença um tanto enigmática do Novo Testamento: "Ninguém é bom senão só Deus" (Mc 10,18).

Joseph Pieper In: LAUAND, Jean. Linguagem e Ética; Ensaios. Curitiba: Editora Universitária Champagnat, 1989.

Catolicismo X "Cristianismo" Meramente Moral

Ser "bonzinho", educado, tolerante... suficiente?

Dia a dia, é comum que os católicos se deparem com certas críticas à sua religião ou ao seu modo de entender a religião. Dentre as inúmeras ressalvas que outros costumam fazer, está a de que a religião deveria nos tornar pessoas mais tolerantes e mais gentis, ao contrário do que acontece com certos meios tradicionais em que se notam grupos de sujeitos irredutíveis e de resposta rápida e um tanto ríspida quando o assunto diz respeito à sua Fé ou Moral.

Por causa disso, não poucas pessoas, até sinceras e bem intencionadas, ficam um tanto confusas e lhes parece estarem assistindo a qualquer coisa de contraditória e avessa ao que seja o cristianismo. Esta impressão negativa tende a despertar neles uma reação de repúdio e, então, alguns passam a julgar terem visto claros sinais de hipocrisia. Mas.. será possível que estes sujeitos - os católicos - sejam todos assim tão superficiais ao ponto de sequer entenderem direito o Evangelho de Jesus, que prega a mansidão, o amor, a fraternidade, etc, etc..., eles que vivem tanto na Igreja?

Primeiro, convém iniciar a tentativa de resolução deste problema dizendo que o que, na verdade, difere os dois grupos - o de católicos e o de observadores espantados - é a concepção do que seja o Cristianismo ou de Quem seja Jesus. É natural que, enquanto homens, ajamos segundo as nossas concepções. A ação sempre segue a compreensão. Se algumas pessoas julgam que ser cristão é tão somente ser bonzinho e educado, isto se dá porque elas aderiram a uma certa compreensão do cristianismo. Cumpre, porém, pesquisar se tal concepção seja a correta.

Primeiramente, mostremos que, por trás das pretensões aparentemente modestas dos que tendem a reduzir o Cristianismo a um moralismo agradável a todos, existe, na verdade, um senso de auto-suficiência e um orgulho disfarçado. E por quê? Vejamos.

O catolicismo tradicional - que, convenhamos, é o único sustentável, por razões infinitamente lógicas e evidentes - só pode ser compreensível se for observado no contexto do sobrenatural, da presença constante de algo sobre-humano, supra-natural. Há um contínuo influxo da Graça divina sobre a Igreja e é isto o que permite que os homens possam efetivamente caminhar rumo à santidade, fazendo atos sobrenaturais e, por recorrerem continuamente aos sacramentos como à Fonte de toda e qualquer virtude, é-lhes possível anelar à perfeição sem soberba, pois sabem que ela só se atinge porque Deus lha concede. "Senhor meu, como a Ti elevará o homem que criaste se Tu não o levantares?", já dizia S. João da Cruz. Isto tudo significa que um autêntico catolicismo só se torna praticável a partir de um senso agudo da nossa própria fraqueza e da necessidade absoluta que temos de um auxílio constante de um Outro, detentor exclusivo da bondade, para que os nossos atos sejam, de fato, algo bons. "Só Deus é bom". Tudo isto quer apenas significar que a humildade ou a pobreza interior é um dos primeiros pressupostos do cristianismo real. É o "sem Mim nada podeis fazer" visto de um modo claro e levado a sério.

Se é necessário esta contínua intervenção do sagrado na vida católica, torna-se, também, possível e efetivo um conhecimento íntimo deste Interventor. Se estamos incessantemente a Ele recorrendo, nada mais natural que O venhamos a conhecer gradativamente, na proporção da nossa busca e na generosidade da nossa entrega. Isto significa que, conforme O conheçamos, conheceremos a Verdade, pois Ele é a verdade. E é a verdade o que fundamenta todo e qualquer valor. De nada vale eu fazer campanhas e me doar e me cansar e me desgastar no intuito de promover uma ilusão. De nada vale eu aplicar à minha própria vida o meu conceito de virtude se, objetivamente, a virtude real não se afina com esta minha concepção. E o mais fácil, hoje em dia, é que vivamos segundo as nossas suposições mui subjetivas e que surgem, quase sempre, de movimentos da alma em função dos nossos próprios interesses.

Os que pregam ser o cristianismo apenas um caminho gradativo para se tornar cada vez mais agradável e aceitável às pessoas estão, primeiramente, fazendo uma abstração do próprio Cristo, reduzindo-O a um mero exemplo; um dentre outros tantos, como Ghandi, Buddha, etc, etc. Jesus deixa de ter uma influência efetiva sobre a vida do sujeito ou, se continua a ter, esta se reduz apenas a certos apoios morais ou a certas inspirações sentimentais e auto-afirmativas; qualquer coisa de muito genérico. Além disto, se ser cristão fosse somente desenvolver algumas virtudes morais, teria sido realmente necessário que Ele morresse por nós? Não existiram homens, desde o início do mundo, que eram capazes de nos espantar por sua eminente integridade de vida? Tode este equívoco somente advoga em favor de uma auto-suficiência humana, pois ser educado está ao meu alcance. Cumprimentar a todos e respeitar todas as diferenças sem complicar a minha vida na defesa de algo absoluto e exclusivo é o que há de mais fácil. Passar a vida assim, escorregando aqui e ali, conforme as conveniências, e ainda vender a imagem de ser um sujeito mente aberta e respeitoso de todas as diferenças é, convenhamos, muito confortável. Não preciso ser católico para fazer isto. Basta-me aderir a qualquer coisa que absolutize a ética, ou a qualquer movimento romântico demagógico moderno, existente aos montes por aí, cujo discurso esteja cheio de lugares comuns e faça corar pela mediocridade.

Os católicos sabem que tudo isto existe. Porém, sabem também que nada disso vale. E mais: sabem que, sem Deus, sequer são capazes de um ato verdadeiramente generoso, desprendido e honesto. Encenar é-nos possível, mas não nos é permitido e nem nos interessa. Temos sede da verdade e é a Ela que acorremos. Não é que n'Ele nos escoremos como que para completar o que já fazíamos de bom; é que, sem Ele, não há bondade possível; não existe bondade alternativa e, portanto, a verdadeira fonte de toda e qualquer virtude é Ele. Tudo, por isso, deve estar submetido à Verdade. E isto não é tão difícil de notar. Se perguntarmos a alguém: "o que é preferível? Ser bom ou ser ruim?", por certo, uma pessoa honesta dirá: "ser bom". Então, poderíamos retrucar: "é verdade que ser bom é preferível?". O que fizemos aqui foi somente mostrar que, qualquer que seja a afirmação, ela pretende ser verdade e não teria valor se estivesse dissociada da verdade. Portanto, não é capricho dos cristãos esse apego extremo à verdade; é que eles sabem que, por mais agradável que seja o que quer que seja a quem quer que seja, nada tem valor se é falso.

Humildade e verdade são, pois, os grandes pressupostos do Cristianismo. Conviria, então, saber o que são, de fato, a humildade e a Verdade. Não será pretensioso que os cristãos se afirmem de posse da Verdade absoluta?  Será possível conhecer esta Verdade absoluta? Será, ainda, compatível com a humildade esta certa atitude de altivez e excessiva segurança com que eles, os cristãos, partem em defesa do que crêem? Tentarei responder isto num próximo artigo.

Aborto, em qualquer caso, é assassinato.

Marcela de Jesus, anencéfala que viveu por 20 meses.

Participei de uma discussão em que um médico, dono de diversas clínicas, defendia o aborto. Dizia ele que, com uma aparelhagem de ultra-som, pode-se saber com 80% de certeza se o feto é mongolóide, e que nesse caso, poderia ser abortado. Perguntei se, já que admitia 20% de incerteza, por que não deixar nascer a criança e depois trucidá-la ao vivo? Então haveria 100% de certeza. Ele não teve resposta e ficou irritado.

Testemunho dado pelo jurista Celso Bastos, renomado constitucionalista brasileiro, em entrevista à revista Catolicismo (nº 525, setembro/1994)

Recomendo a leitura de todo o artigo "Perguntas e Respostas Sobre os Casos de Anencefalia", disponibilizado pelo blog Sociedade Apostolado.

Recomendo ainda a leitura do livro "Catecismo Sobre o Aborto", disponibilizado pelo mesmo blog.

E que Deus ajude o Brasil.

Deus livre o Brasil do aborto


Manifestação contra o Aborto


Divulgo aqui o comunicado para a participação conjunta que acontecerá contra a liberação do aborto pelos 11 ministros(as) do STF - Supremo Tribunal Federal - Participemos, a vida humana é um dom de Deus.

1 - VIGÍLIA ECUMÊNICA DE ORAÇÃO PRESENCIAL 

Dias 10 e 11.04.2012 - Vigília de Oração Ecumênica em frente ao STF - Supremo Tribunal Federal

(a partir das 18:00 horas do dia 10.04.2012 )

Participações de artistas: Elba Ramalho e Nael de Freitas

2 - VIGÍLIA de ORAÇÃO pela VIDA nas DIOCESES

CNBB convoca VIGÍLIA de ORAÇÃO pela VIDA

em TODAS AS DIOCESES DO BRASIL

Dia 10.04.2012 a partir das 18:00 horas

3 - TWITAÇO VIGÍLIA - #abortonuncamais

A partir das 18:00 horas do dia 10.04.2012, durante toda a noite e durante todo o dia 11.04.2012, até o término do julgamento no STF

4- FACEBOOK E OUTRAS MÍDIAS

Direito à vida aos anencéfalos - Aborto nunca - Saúde para proteger mulher da morte Materna -

CPI da VERDADE sobre o ABORTO,JÁ!

5 - ENVIO DE EMAILS 

A partir das 9:00 horas, nos dias 10 e 11.04.2012. até o término do julgamento - envio de emails para os Ministros do STF - Emails dos ministros e TEXTOS abaixo

EMAILS DOS MINISTROS

mgilmar@stf.jus.br, mgilmar@stf.gov.br,
mcelso@stf.jus.br, mcelso@stf.gov.br,
marcoaurelio@stf.jus.br,
gabinete-lewandowski@stf.gov.br,
anavt@stf.gov.br, anavt@stf.jus.br,
carlak@stf.gov.br, carlak@stf.jus.br,
gabminjoaquim@stf.jus.br, gabcob@stf.jus.br, audienciacarmen@stf.jus.br,
audienciasgilmarmendes@stf.jus.br,
gabinete-lewandowski@stf.jus.br,
gabineteluizfux@stf.jus.br,
gabmtoffoli@stf.jus.br


MODELO n. 01 de TEXTO DE EMAIL PARA OS MINISTROS

"Exmo(a) Senhor(a) Ministro(a) do Supremo Tribunal Federal:

1 - Não concordo com a a possibilidade do aborto de bebês anencefálicos e cujo julgamento está marcado para o dia 11 de abril.

2 - A liberação do assassinato de bebês anencéfalos não resolve a principal do problema, apontada pela medicina brasileira: a falta de ácido fólico na época da gestação. Em vez de matar os bebês, melhor será obrigar os governos a dar condição alimentar especial para as gestantes, a partir da fecundação do óvulo.

3 - A liberação do aborto de anencéfalos fere a dignidade humana, pois o bebê apresenta de fato uma má-formação, porém ele não está em morte cerebral. Seguindo o protocolo de definição de morte cerebral para recém nascidos (que, aliás, apresenta particularidades diferentes do protocolo de adultos) não se chega à conclusão de morte encefálica, pois nenhuma técnica pode preencher as exigências legais para comprovar a morte cerebral de um feto vivo, dentro do útero. Inclusive, é de conhecimento público que a Associação Médica dos E.U.A. suspendeu a autorização de doação de órgãos nestes casos, exatamente por não ser possível diagnosticar a morte cerebral das crianças portadoras de anencefalia durante a gravidez ou depois do nascimento, pelo fato de estarem vivas.

4- Não existe risco de morte para a gestante. O argumento de que a gestação de fetos com anencefalia é um risco de morte para a mãe não procede com a literatura da Obstetrícia clássica. Os riscos físicos e para o futuro obstétrico da mãe são menores se houver a espera do desenlace natural da gestação, com acompanhamento médico.

5 - O aborto provocado em qualquer época da gestação é que traz sérios riscos à mãe. Não há base sólida em argumentos médicos e psicológicos para ser solicitada a liberação do aborto no caso de bebês anencefálicos.

6 - É evidente a ingerência de interesses internacionais na liberação do aborto e no uso político das expectativas dessas mães para chegar a esse objetivo.

7 - Por isso, solicitamos de V. Excia que vote NÃO à interrupção da gravidez de bebês com anencefalia, e SIM ao acompanhamento ALIMENTAR, MÉDICO E PSICOLÓGICO das gestantes, as grandes vítimas dessa CULTURA DA MORTE que pretendem implantar no Brasil, com a ajuda da mais Alta CorteBrasileira.

Atenciosamente ......."

MODELO N. 02 DE TEXTO DE EMAIL PARA OS MINISTROS:

Excelentíssimos Senhores Ministros do Supremo Tribunal Federal, antes de julgarem a ADPF 54 sobre o aborto dos bebês anencéfalos, peço leiam o que tenho a dizer:

“...Mas, se ergues da justiça a clava forte, Verás que um filho teu não foge à luta, Nem teme, quem te adora, a própria morte...”

Eu, ________________________________________________, venho por meio desta carta manifestar que sou contrário(a) ao aborto em todas as circunstancias, inclusive nos casos em que o feto é portador de anencefalia.
A vida é o maior dom de que dispomos e não compete a ninguém o poder de tirá-la.
Em um Estado Democrático de Direito, é preciso que seja resguardado o primeiro e mais importante Direito Fundamental, o Direito de Viver, sem o qual não se pode obter os demais direitos à saúde, educação, moradia, alimentação e lazer.
Não pode haver justiça numa decisão que opta por retirar a vida de seres inocentes, que se encontram numa situação de tamanha fragilidade como a dos bebes anencéfalos.
É pela vida do bebê e pelo bem-estar da mãe que lutamos.
O Estado deve zelar pelos cuidados para com a gestante e o bebê providenciando o conforto possível e todos os cuidados paliativos cabíveis, de maneira a aliviar o sofrimento. Além disso, devem ser implementadas medidas preventivas (vide art. 198, inc.II da CRFB/88) no sentido de propiciar a ingestão diária de ácido fólico por parte das mulheres em idade fértil, por ser este um meio comprovadamente eficaz de prevenção às malformações do tubo neural, dentre as quais se encontra a anencefalia ou, como mais corretamente denominada meroanencefalia (ausência parcial do encéfalo).
Defendemos que a mãe possa descobrir a importância do seu papel materno no chamado a amar seu filho, mesmo que ele esteja doente ou tenha pouca expectativa de vida.
A vida, mesmo que breve, merece ser vivida com intensidade e amor.
Esta é uma carta de quem ama a vida e luta para que todos tenham vida e a tenham em abundância.
Atenciosamente,
_____________________________________
(Assinatura)

“NÃO TENHO MEDO DO BARULHO DOS MAUS,

MAIS ME APAVORA O SILÊNCIO DOS BONS!”

Martin Luther King

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Seja você também um defensor da vida humana!

ANENCEFALIA E STF - Carta Endereçada aos Senhores Ministros do STF

Prezados senhores ministros,

Como cidadão brasileiro, gostaria de lhes comunicar que a possibilidade dos senhores votarem, no próximo dia 11, a despenalização da antecipação do parto (o que equivale ao aborto) de crianças portadores de anencefalia está aterrorizando o povo brasileiro. Se esses seres humanos extremamente indefesos forem considerados como material descartável, o que podemos esperar para o futuro do nosso País? Causa-nos muito estranhamento o fato dos senhores, exclusivamente, serem os responsáveis de uma decisão tão relevante, especialmente porque sabemos bem que há uma iniciativa popular que promove a aprovação do “Estatuto do Nascituro”, que pretende garantir o respeito da vida humana desde sua concepção até à morte natural.

Gostaríamos de lembrar aos senhores que mais de 82% da população brasileira é contrária à prática do aborto. Além disso, os senhores não foram eleitos pelos brasileiros, mas sim colocados como ministros por indicação presidencial, presidente esta que se declarou várias vezes favorável ao aborto. Temos a sensação de que como nem por referendo, nem através do poder legislativo (Congresso e Senado) tal prática seria aprovada, a única via possível foi através do poder judiciário. Sabemos bem que, de acordo com o que está escrito na nossa Constituição, esse não pode legislar. Tememos que os senhores ministros mais uma vez atuem de forma contrária ao posto na nossa Constituição, em vistas de um suposto “espírito da lei” ou de uma “extensão dos direitos humanos” a pessoas desprotegidas. A conduta do STF tem sido classificada por muitos como “ativismo jurídico”; entretanto, há vozes que a qualificam como uma forma explícita de “niilismo jurídico”, ou seja, de negação de que o Direito Positivo tenha fundamentos no Direito Natural. Há ainda outros teóricos que observam uma mera posta em prática por todos os meios possíveis da vontade de “multinacionais da morte”, como a Fundação Ford, a IPPF e outros na América Latina, que visam impor nos nossos países legislações de controle de natividade por qualquer meio possível, inclusive contrariando a Declaração Universal dos Direitos Humanos da ONU (de 1948), o texto da Nossa Constituição, o Tratado de Costa Rica e a imensa vontade popular. Há quem qualifique dita postura como “terrorismo jurídico”, no qual são impostos à imensa maioria dos cidadãos brasileiros o silêncio e a impossibilidade de se manifestarem.

Não há nada que justifique cientificamente a interrupção da gravidez de crianças anencéfalas. A medicina deve curar os doentes e, na sua impossibilidade, aliviar os sofrimentos dos enfermos. Jamais deveria causar a morte do enfermo. A criança anencefálica não nasce em situação de morte encefálica, como foi reconhecido pelo governo dos EUA e comitê de bioética da Itália recentemente. Essa pode viver meses ou, em alguns casos, mais de um ano. Nesse tempo ela pode ser amada, respeitada e, uma vez morta, receber uma digna sepultura. O aborto não resolve nada, pois mata a pessoa enferma e destrói moralmente a mãe e, na maioria das vezes, toda a estrutura familiar.

O aborto não é livre de riscos para a mulher que o pratica e, em algumas vezes, a anencefalia pode ser mal diagnosticada. Da vossa decisão depende a vida de muitas pessoas.

Gostaríamos de lhes dizer que se os senhores despenalizarem o aborto nesses casos, os senhores estarão atuando contra a vontade popular, a democracia (porque darão a sensação de não respeitar a divisão de poderes), o que diz a ciência biomédica e os senhores serão os únicos responsáveis diante da História do nosso País de tal decisão. Tal ato poderá ser comparado num futuro bem próximo aos mais repugnantes atos da história do nosso País, como foi a “escravidão legal”. Negar o direito à vida desses seres humanos, de fato, será uma injustificada e cruel forma de discriminação. Sabemos que a imensa maioria dos que sofrem a “anencefalia” no Brasil são pessoas pobres e a anencefalia poderia ser reduzida com a ingestão de “ácido fólico” por parte das mulheres durante os três meses que antecedem a gravidez e no decurso da mesma. Essa substância é barata e seria desejável que o SUS a dispusesse a todas as mulheres gratuitamente e não que o Estado permitisse ou promovesse a morte desses seres que não tiveram os recursos suficientes para serem bem formados. Nosso Estado deveria trabalhar na promoção do nosso SUS e não permitir (ou obrigar) que os médicos, formados para salvar vidas, tenham que começar a praticar atos que só podem produzir a morte. Isso seria totalmente irresponsável, discriminatório e injusto.

Infelizmente, a maioria dos brasileiros não pode participar nessa decisão, esse poder nos foi negado e está exclusivamente nas mãos dos senhores decidir. Nós, povo brasileiro, não nos calamos antes dessa decisão e não nos calaremos depois dela. Continuaremos mobilizando a nossa população para exigir do nosso Governo políticas dignas que promovam um Sistema de Saúde decente, defensor e promotor da vida humana e estaremos educando a juventude sobre os riscos e os sofrimentos causados pelo aborto, que sempre destrói ao menos duas vidas: fisicamente a do filho (ainda que haja quem queira chamar somente de “feto” ou de “embrião”) e moralmente a da mãe. Ao mesmo tempo, estaremos exigindo um genuíno respeito pelo texto da nossa Constituição, pela autêntica divisão de poderes no Brasil, pela verdadeira participação democrática. Nosso trabalho buscará ainda a formação dos mais jovens, de modo a educá-los para uma verdadeira responsabilidade nas suas relações interpessoais e familiares, de modo que não tenham que jamais pensar em praticar o aborto. Um governo responsável deveria investir nisso e não conformar-se com o dar a morte aos pobres e inocentes.

A despenalização da prática equivalente ao aborto desses seres humanos seria extremamente injusta porque negaria a essas o direito à vida. Além disso, poderia ser terrível para nossa população devido ao valor pedagógico das leis. O dito ato poderia aparentar a muitos uma radical banalização da vida humana. O povo brasileiro não quer isso.

Pedimos, pois, vossa atenta consideração à vontade do povo brasileiro e aos argumentos que as mesmas ciências médicas e bioéticas nos ensinam. Pedimos ao senhores uma atenta consideração aos dados reais da medicina e aos casos reais de famílias que no Brasil sofrem com o problema. A decisão dos senhores no próximo dia 12 marcará uma etapa nova da História do nosso País. Esperamos que seja positivamente, que nosso País possa continuar sendo reconhecido como um dos que mais amam e defendem a vida dos seres humanos mais indefesos e que se preocupam com o direito humano de todos, não somente dos mais fortes.

Agradecemos sinceramente a vossa atenção e esperamos uma afirmação incondicional
dos senhores do valor de toda vida humana.
Indicamos-lhes um texto científico sobre o tema. E casos reais de famílias que acolheram a vida de crianças portadoras de anencefalia.



Atenciosamente, Anderson Alves

Doutorando em Filsosofia na Pontifícia Universidade da Santa Cruz em Roma.

Atenciosamente, Pe. Anderson Alves

Criança anencéfala com dois anos e dois meses. Pais testemunham sua fé

"Somente a morte me calará" Dom Luiz Bergonzini


Depois de ler as belas palavras de Dom Luiz Bergonzini,

"Vocês, blogueiros e internautas de Cristo, são os "caras limpas da Internet" que transformarão o Brasil, sem se deixar ser usados. Estejam todos a postos para, daqui para frente, mostrar que vocês querem um Brasil da Verdade, diferente de todos os que foram propostos anteriormente, um Brasil com Jesus Cristo. 
Embora com 75 anos de idade, continuarei firme na minha fé em Jesus Cristo e combatendo o bom combate, com todas as minhas forças, em defesa do Evangelho e da Vida humana. Somente a morte me calará!"
Dom Luiz Bergonzini

Lembrei-me deste trecho, que lia ainda ontem, de autoria do Pe. Tyrrel, sacerdote modernista e absolutamente não recomendável. Mas o texto abaixo é belo e verdadeiro.

"Arranca-me os olhos, mas, depois de arrancá-los, vê se podes arrancar também o Sol do céu. Lança-me numa prisão e dá volta à chave: há de sempre vencer a liberdade, que não morrerá comigo. Algema-me estas mãos que manejam a pena - a pena, que é o gládio mais temido por bandidos: há-de outra mão, há-de outra pena renovar a luta, enquanto palpite por Deus e para a Vida um coração. Emudeçam, embora, meus lábios selados na escuridão do túmulo: entre dez mil vozes que ficam a trovejar altíssonas, que falta lhes poderá fazer a minha? Certamente pensas que a Primavera morre e lhe morrem a luz, o canto, a seiva e a força, tão só porque tuas mãos estúpidas conseguiram estrangular um pobre rouxinol..."

Forças, Dom Luiz! Estamos com o senhor!

O Papel da Mulher no Corpo Místico de Cristo


Edith Stein (Sta Teresa Benedita da Cruz)

A finalidade da formação religiosa consiste em fazer que os jovens encontrem seu posto no Corpo Místico de Cristo, o lugar que para eles foi preparado desde a eternidade. Todos os que participam da redenção se transformam em filhos da Igreja, e nisto não há diferenças entre homens e mulheres. A Igreja não é só a comunidade dos crentes, senão também o Corpo Místico de Cristo, quer dizer, um organismo no qual os indivíduos assumem o caráter de membro e de órgão, e por natureza os dons de um são distintos do outro, e do todo; por isso a mulher enquanto tal tem um posto particular orgânico na Igreja. Ela está chamada a personificar, no desenvolvimento mais alto e puro de sua essência, a essência mesma da Igreja, a ser seu símbolo. A formação das meninas e das jovens tem que conduzir até estes graus de pertença à Igreja.

A primeira condição necessária para compreender esta função consistirá em conhecer com claridade qual é a essência da Igreja. Para a razão humana é particularmente acessível o conceito de Igreja como comunidade dos crentes. Quem crê em Cristo e em seu Evangelho, quem espera suas promessas, se une a Ele por amor e observa seus mandamentos, se liga na mais profunda unidade de pensamento e de amor com todos aqueles que têm a mesma convicção. Aqueles que viveram em torno ao Senhor durante sua vida terrena, se converteram no fundamento da grande comunidade cristã: a propagaram, deixando como herança aos tempos vindouros o tesouro da fé encerrada nela.

Se a sociedade humana natural é mais que um simples agrupamento de indivíduos e, como se pode constatar, esta se funde num tipo de unidade orgânica, isto vale com mais razão para a sociedade sobrenatural que é a Igreja. A união da pessoa com Cristo é algo muito distinto da união entre pessoas humanas: é um radicar-se n'Ele e crescer n'Ele (assim nos diz a parábola da videira e os ramos); inicia com o batismo e se fortalece sempre mais com os outros sacramentos, assumindo em cada indivíduo uma orientação diversa. Este real fazer-se uno com Cristo provoca a transformação de membros uns dos outros em todos os cristãos. E assim a Igreja se converte no Corpo de Cristo. O Corpo é um corpo vivo, e o espírito que o vivifica, é o Espírito de Cristo, que se transmite da Cabeça aos membros; o espírito que se difunde de Cristo é o Espírito Santo, por isso a Igreja é templo do Espírito Santo.

Apesar da unidade real, orgânica, entre a Cabeça e o corpo, a Igreja está frente a Cristo como pessoa independente. Enquanto Filho do Pai eterno, Cristo vivia antes que o tempo e que todos os seres humanos. Com a criação, a humanidade começou a viver antes que Cristo assumisse a natureza e entrasse nela. E quando entrou, levou consigo sua vida divina. Com a redenção, a fez receptiva e a preencheu de graça: a gerou de novo. A Igreja é a humanidade novamente gerada, redimida por Cristo. A primeira célula da humanidade redimida é Maria: ela foi a primeira na qual se atuou a pureza e a santidade de Cristo, a plenitude do Espírito Santo. Antes de que o Filho do homem nascesse desta Virgem, o Filho de Deus criou esta Virgem plena de graça e nela e com ela criou a Igreja. Por isso Maria, enquanto criatura nova, está a seu lado, ainda que esteja ligada indissoluvelmente a Ele.

E assim cada alma, purificada pelo batismo e elevada ao estado de graça, é gerada por Cristo e dada à luz por Cristo. Mas é gerada na Igreja e dada à luz por meio da Igreja. De fato, é por meio dos órgãos da Igreja que todo novo membro é formado e preenchido de vida divina. Por isso, a Igreja é mãe de todos os redimidos. Mas o é por sua união íntima com Cristo: ela é Sponsa Christi, que está a seu lado e colabora com Ele em sua obra, a redenção da humanidade.

Órgão essencial nesta maternidade sobrenatural da Igreja é a mulher, fundamentalmente com sua maternidade corporal. Para que a Igreja alcance sua perfeição - ligada ao alcance do número de membros estabelecido -, a humanidade tem que continuar crescendo. A vida da graça pressupõe a vida natural. O organismo corpóreo-espiritual da mulher está formado para a função da maternidade natural, e a procriação dos filhos foi ratificada pelo sacramento do matrimônio e deste modo assumida no processo vital da Igreja. Mas a participação da mulher na maternidade espiritual vai muito mais além; ela está chamada a favorecer nos filhos a vida da graça. A mulher é um órgão imediato da maternidade sobrenatural da Igreja e participa desta maternidade sobrenatural. E isso não se reduz só aos próprios filhos. O sacramento do matrimônio inclui fundamentalmente a missão recíproca de favorecer o fazer nascer a vida de graça no cônjuge; ademais é próprio da mãe incluir em sua preocupação maternal a todos os que vivem dependendo dela; e, finalmente, é missão de todo cristão suscitar e promover a vida de fé em toda alma, sempre que seja possível. A mulher está chamada de modo particular a esta missão, pela peculiar posição em que ela se encontra frente ao Senhor.

A narração da criação põe a mulher junto ao homem como ajuda proporcionada, para que obrem juntos como ser único. A carta aos Efésios representa esta relação como uma relação entre cabeça e corpo, como um símbolo da relação entre Cristo e a Igreja. Por isso há que ver na mulher um símbolo da Igreja. Eva, que nasce do lado de Adão, é um símbolo da nova Eva - por tal entendemos a Maria, mas também a Igreja inteira, que nasce do lado aberto do novo Adão. A mulher ligada por um matrimônio autenticamente cristão, quer dizer, por uma unidade de vida e de amor indissolúvel com seu esposo, representa a Igreja, esposa de Cristo. Esta personificação da Igreja é mais íntima e perfeita na mulher que, qual Sponsa Christi, consagrou sua vida ao Senhor e se uniu com Ele com um vínculo indissolúvel. Ela está a seu lado como a Igreja, como a Mãe de Deus, que é o protótipo e célula germinal da Igreja e que colaboradora na obra da redenção. O dom total de seu ser e de toda sua vida lhe faz viver com Cristo e colaborar com Ele; o que significa também sofrer com Ele e morrer essa morte da qual surge a vida da graça para a humanidade. E assim a vida da esposa de Deus se enriquece com a maternidade espiritual sobre toda a humanidade redimida; e não existe diferença se ela trabalha diretamente entre as pessoas ou se ela com o sacrifício traz frutos de graça de que nem ela nem nenhum outro ser humano tem conhecimento.

Maria é o símbolo mais perfeito da Igreja porque ela é protótipo e origem. Ela é um órgão particularíssimo: o órgão do qual foi formado todo o Corpo Místico, inclusive a mesma Cabeça. Por sua posição orgânica central e essencial é chamada de modo muito feliz o coração da Igreja. As expressões corpo, cabeça e coração são imagens com as quais se pretende expressar uma realidade. A cabeça e o coração desempenham no corpo humano umas funções fundamentais: os outros órgãos e membros dependem desses dois em seu ser e atuar; e entre a cabeça e o coração há uma conexão especialíssima. O mesmo sucede com Maria que por sua especial união com Cristo necessita de um ligamento real - entendido como místico -, com todos os outros membros da Igreja, união que supera qualitativamente e quantitativamente a união que se dá entre os membros, união semelhante à existente entre mãe e filho, superior à existente entre os filhos. Chamar a Maria como Mãe não é uma simples imagem. Ela é nossa Mãe em sentido real e emimente, em um sentido que transcende a maternidade terrena. Ela nos gerou a vida da graça quando se entregou a si mesma, de todo o seu ser, seu corpo e alma à maternidade divina.

Por tudo isto ela nos é muito próxima. Nos ama, nos conhece, se empenha em fazer de nós o que temos que ser; sobretudo, nos quer conduzir à união mais íntima com o Senhor. Isto é válido para todos os homens; mas para a mulher tem necessiarmaente uma importância particular. Em sua maternidade natural e sobrenatural, e em sua esponsalidade com Deus, continua em certo modo a maternidade e esponsalidade da Virgo-Mater. E assim como o coração de uma mulher nutre e sustenta todos os seus órgãos corporais, assim podemos crer que Maria colabora ali onde uma mulher cumpre com sua missão feminina, assim como está presente a colaboração de Maria em todas as atividades da Igreja. Mas posto que a graça não pode atuar nas almas se estas não se abrem à sua presença, do mesmo modo Maria não pode realizar plenamente sua maternidade se os homens não se abandonam. As mulheres que desejam corresponder plenamente com sua vocação feminina, em todos os modos possíveis, alcançarão seu fim de um modo mais seguro se, além de terem presente a imagem da Virgo-Mater e tratarem de imitá-la em sua atividade formativa, se confiarem à sua direção e se abandonarem totalmente à sua guia. Ela pode formar à sua imagem a todos os que lhe pertencem.

Edith Stein, La Mujer Como Miembro Del Cuerpo Mistico de Cristo.
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