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O Magnificat e a pobreza da riqueza deste mundo


Existem planos e aspectos da realidade que não se percebem a olho nu, mas apenas com o auxílio de uma luz especial: ou com os raios infravermelhos ou com os raios ultravioletas. A imagem obtida com esta luz especial é muito diferente e surpreendente para quem está habituado a ver este mesmo panorama à luz natural. A Igreja possui, graças à Palavra de Deus, uma imagem diversa da realidade do mundo, a única definitiva, porque obtida com a luz de Deus e porque é aquela mesma que Deus tem. Ela não pode ocultar tal imagem. Deve antes difundi-la, sem jamais se cansar, torná-la conhecida aos homens, porque dela depende o seu destino eterno.

É a imagem que no final ficará quando tiver passado "o esquema deste mundo". Torná-la conhecida, às vezes, com palavras simples, diretas e proféticas, como aquelas de Maria, como são ditas as coisas de que se está íntima e tranquilamente convicto. E isto mesmo à custa de parecer ingênua e fora do mundo, defronte à opinião dominante e ao espírito do tempo.

O Apocalipse nos á um exemplo desta linguagem profética, direta e corajosa, na qual, à opinião humana, vem contraposta a verdade divina: "Tu dizes (e este 'tu' pode ser a pessoa individual, como pode ser uma sociedade toda): 'Sou rico, me enriqueci; não tenho necessidade de nada!', mas não sabes que és um infeliz, um miserável, um pobre, cego e nu (Ap 3,17)".

Numa célebre fábula, fala-se de um rei a quem se fez crer, por embrulhões que existe um tecido maravilhoso que tinha o privilégio de tornar, quem o vestisse, invisível aos tolos e aos ineptos, e visível apenas aos sábios. Ele, por primeiro, naturalmente não o vê, mas tem medo de dizê-lo, por temor de passar por um dos tolos, e assim fazem todos os seus ministros, e todo o povo. O rei desfila pelas estradas sem nada em cima, mas todos, para não se trair, fingem admirar o belíssimo vestido, até se ouvir a vozinha de uma criança que grita entre a multidão: 'Mas o rei está nu', rompendo o encantamento, e todos finalmente têm a coragem de admitir que aquele famoso vestido não existe.

A Igreja deve ser como a vozinha de uma criança, a qual, a certo mundo todo enfatuado das próprias riquezas e que induz a considerar louco e tolo quem mostra não acreditar nelas, repete, com as palavras do Apocalipse: 'Tu não sabes que estás nu!'. Aqui se vê positivamente como Maria, no Magnificat, 'fala profeticamente pela Igreja': ela, por primeiro, partindo de Deus, pôs a nu a grande pobreza da riqueza deste mundo.

Todavia seria desvirtuar completamente esta parte do Magnificat que fala dos soberbos e dos humildes, dos ricos e dos famintos, se a limitássemos apenas ao âmbito das coisas que a Igreja e o crente devem pregar ao mundo. Aqui não se trata de algo que se deve somente pregar, mas algo que se deve antes de tudo praticar. Maria pode proclamar a bem-aventurança dos humildes e dos pobres porque ela própria está entre os humildes e os pobres. A reviravolta por ela prevista deve acontecer primeiro no íntimo de quem repete o Magnificat e reza com ele. Deus - diz Maria - abateu os soberbos "nos pensamentos do seu coração". De súbito, o discurso é levado de fora para dentro; das discussões teológicas, em que todos têm razão, aos pensamentos do coração, no qual todos temos errado. O homem que vive "para si mesmo", do qual Deus não é o Senhor, mas o próprio "eu", é um homem que se construiu um trono e no qual se assenta ditando lei aos outros. Ora Deus - diz Maria - derruba estes tais do seu trono; põe a nu a sua não-verdade e injustiça. Há um mundo interior, feito de pensamentos, vontade, desejos e paixões, do qual - diz São Tiago - provêm as guerras e os litígios, as injustiças e injúrias que estão em meio a nós (cf Tg 4,1) e até que alguém comece a sanar esta raiz, nada muda verdadeiramente no mundo, e se alguma coisa muda é para reproduzir, dali a pouco, a mesma situação de antes.

Como o cântico de Maria nos atinge de perto, como nos questiona a fundo e como põe de verdade " o machado na raiz"! Que loucura e incoerência seria a minha se cada dia, às Vésperas, repetisse com Maria que Deus "derrubou os poderosos dos tronos" e, no entanto, continuasse a cobiçar o poder, um posto mais alto, uma promoção humana uma promoção de carreira e perdesse a paz se isso demora a chegar; se cada dia proclamasse, com Maria, que Deus "mandou os ricos de mãos vazias" e, no entanto, aspirasse sem descanso enriquecer e possuir sempre mais coisas e coisas sempre mais refinadas; se preferisse estar de mãos vazias diante de Deus, antes que de mãos vazias diante do mundo, vazias dos bens de Deus, mais que vazias dos bens deste mundo. Que loucura seria a minha se continuasse a repetir com Maria que Deus "olha para os humildes", que se avizinha deles, enquanto mantém à distância os soberbos e os ricos de tudo, e depois fosse daqueles que fazem exatamente o contrário.. 

"Todos os dias - escreveu Lutero comentando o Magnificat - devemos constatar que cada ujm se esforça por elevar-se além de si, para uma posição de honra, de poder, de riqueza, de domínio, para uma vida abastada e para tudo que é grande e soberbo. E cada um quer estar com tais pessoas, corre atrás delas, serve-as voluntariamente, cada um quer participar da sua grandeza... Ninguém quer olhar para baixo, onde existe pobreza, ignomínia, necessidade, aflição e angústia, antes, todos afastam o olhar de uma tal situação. Todos evitam as pessoas assim provadas, as afastam, deixam-nas sozinhas, ninguém pensa em ajudá-las, em assisti-las e em fazer com que elas tornem-se também alguém: devem permanecer embaixo e ser desprezadas". 

Deus - diz Maria - faz o oposto disto: tem à distância os soberbos e eleva até a si os humildes e os pequenos; está mais prazerosamente com os necessitados e os famintos que o atormentam com súplicas e com pedidos, do que com os ricos e saciados que não têm necessidade dele e não lhe pedem nada. Assim fazendo, Maria nos exorta, com ternura materna, a imitar Deus, fazer nossa a sua escolha. Ensina-nos os caminhos de Deus.

O Magnificat é na verdade uma maravilhosa escola de sabedoria evangélica. Uma escola de conversão contínua. Como toda a Escritura, ele é um espelho (cf. Tg 1,23) e sabemos que do espelho podem-se fazer dois usos muito diversos. Pode-se usá-lo para o exterior, para os outros, como espelho ustório, projetando a luz do sol para um ponto distante até incendiá-lo, como fez Arquimedes com as naves romanas, ou pode-se usá-lo tendo-o voltado para si, para ver nele a própria imagem e corrigir-lhe os defeitos e as sujeiras. São Tiago nos exorta a usá-lo sobretudo deste segundo modo, para pôr "em evidência" nós mesmos, antes que os outros.

A Escritura - dizia São Gregório Magno - "cresce por força de ser lida" (Mor. 20,1; PL 76,135). O mesmo acontece com o Magnificat, as suas palavras são enriquecidas, não consumidas, pelo uso. Antes de nós, multidões de santos ou de simples fiéis oraram com estas palavras, saborearam-lhe a verdade, puseram em prática seu conteúdo. "ora, aconteceu - escreveu um deles - que no dia de Natal assistia às Vésperas em Notre-Dame e, escutando o Magnificat, tive a revelação de um Deus que me estendia os braços" (P. Claudel, Corrispondenza, cit., p.33).

Pela comunhão dos santos no corpo místico, todo este imenso patrimônio se adere agora ao Magnificat. É bom rezá-lo assim, em coro, com todos os orantes da Igreja. Deus o escuta assim. Para entrar neste coro que atravessa os séculos, basta que pretendamos reapresentar a Deus os sentimentos e o entusiasmo de Maria que por primeira o entoou "em nome da Igreja", dos doutores que o comentaram, dos artistas que o musicaram com fé, dos piedosos e dos humildes de coração que o viveram. Graças a este maravilhoso cântico, Maria continua a engrandecer o Senhor por todas as gerações; a sua voz, como aquela de uma solista, sustenta e arrasta a Igreja. Um orante do saltério convida todos a unir-se a ele, dizendo: "Glorificai o Senhor comigo, exaltemos em uníssono o seu nome" (Sl 34,4). Maria repete aos seus filhos as mesmas palavras: Glorificai o Senhor comigo! "Vinde, filhos, escutai-me, ensinar-vos-ei o temor do Senhor" (ib.). Maria, a Mãe do Senhor, a figura da Santa Igreja, arrasta atrás de si a Igreja ao louvor de Deus, ao júbilo da salvação; a arrasta para Deus. E nós dizemos: Sim, Maria, nós glorificamos o Senhor contigo e por ti, pelas granes coisas que fez em ti o Onipotente e pelas grandes coisas que fez também a nós. Desde sempre e para sempre.

Pe Raniero Cantalamessa. O mistério do Natal. Aparecida SP: Editora Santuário, 1993. p.30-34.

Natal ou Páscoa?



Natal ou Páscoa? Qual dos dois momentos deve reinar no coração dos cristãos? Como frequentemente acontece, os católicos são instados a escolher entre duas alternativas; e escolhem ambas.

Ao longo da história, os santos notaram que os eventos estão misteriosamente ligados. Nas cenas do Natal, os cristãos sempre encontraram prenúncios do mistério pascal.

Jesus começou a sua vida numa caverna usada como estábulo. Seu berço era um nicho escavado numa parede de pedra que servia de manjedoura aos animais. No dia de sua morte, seu corpo também foi posto num nicho de pedra dentro de um túmulo.

Já aqueles que imaginam uma manjedoura feita de madeira observam que Ele foi posto sobre esse material tanto no nascimento como na crucifixão.

Em seu nascimento e em sua morte, Jesus foi envolvido em faixas. (cf. Lc 2,7 e Jo 19,40).

Tanto o seu nascimento como a sua ressurreição foram anunciados pelos Anjos.

Já traçamos a conexão entre Belém - que significa "casa do pão" - e a Última Ceia, quando Jesus dá o seu corpo como Pão da Vida. Ao ser posto na manjedoura, o Menino Jesus já se apresentava como "a comida que dura até a vida eterna" (cf. Jo 6,27.55).

Já falamos sobre a sua circuncisão, que antecipa o sangue que seria derramado na sua execução. Ela prefigura também a sua ressurreição, por representar um desprendimento em relação ao corpo mortal (cf. Col 2,11).

O Natal, portanto, não ameaça a importância da Páscoa. Pelo contrário, ambas as celebrações estão relacionadas por serem expressões do mesmo amor divino, ordenadas uma à outra pela mesma Divina Providência.

Scott Hahn. A alegria do mundo: como a vinda de Cristo mudou tudo (e continua mudando). Trad. Diego Fagundes. São Paulo: Quadrante, 2018. p.166-167.

Homilia de Santo Efrém sobre o Natal


Hoje, Maria, ao levar a divindade, se tornou para nós céu; e Cristo, sem deixar a glória paterna, se encerrou nos apertados limites do ventre materno, para exalçar os homens à dignidade mais elevada. Escolheu só esta Virgem, dentre todas as virgens, para instrumento de nossa salvação.

Nela se realizaram todos os vaticínios de todos os justos e profetas. Dela própria saiu aquele esplendidíssimo astro sob cuja guia o povo que andava em trevas viu grande luz. (Is 9,2)

De diversos nomes pode ser Maria acertadamente designada. E, com efeito, é ela o templo do filho de Deus que dela saiu de modo diverso do que entrou, pois no ventre entrara sem corpo e dele saíra revestido de nossa humanidade.

É ela o místico novo céu (Ap 21,1) em quem habitou, como em sua sede, o Rei dos reis, e donde baixou à terra, levando diante de si forma e semelhança terrenas. É ela a videira de frutificação de suave odor (Ecle 24,23), cujo fruto, embora diferente da natureza da árvore, dela devia ter tomado algo semelhante.

É ela a fonte que brota (Joel 3,18) da casa do Senhor da qual jorraram para os sedentos águas vivas que matarão a sede para sempre (Jo 4,13) de todo aquele que apenas com os lábios as tiver provado.

Erra, portanto, caríssimos, quem julga poder comparar-se o dia de hoje de reparação ao da criação! E, de fato, no princípio, a terra foi criada; hoje, foi renovada. No início, dado o crime de Adão, foi maldita por causa da obra dele (Gn 3,17); hoje, porém, a paz e a segurança lhe foi restituída. No início, pelo delito dos  primeiros pais, a morte passou a todos os homens (Rm 5,12); hoje, no entanto, por Maria, passamos da morte à vida (1Jo 3,14) No início, a serpente penetrou nos ouvidos de Eva, donde o veneno infeccionou todo o corpo: hoje, Maria deu ouvidos à afirmação da felicidade perpétua. O que, portanto, fora de morte passou a ser, ao mesmo tempo, instrumento de vida.

Aquele cujo trono assenta sobre os querubins (Sl 98,1) ei-lo sentado nos braços de uma mulher; aquele que o mundo todo não encerra, só Maria o abraça; aquele que os tronos e as dominações reverenciam, a donzela acaricia; aquele cuja sede se acha nos séculos dos séculos (Sl 44,7), eis que se senta nos joelhos virginais; a terra é escabelo de seus pés, tocando-a com as plantas dos pés infantis.

Ó feliz e afortunado Adão, que, ao nascer o Senhor, recobrou a honra e o esplendor perdidos! Felicíssimos mortais que, vasos de ira para a morte (Rm 9,22) lhe deram o revestimento da própria argila! Redirei felicíssimos aqueles a quem foi dado ver o fogo de nossos corações envolto em seus paninhos!

Tamanhas coisas fez Deus para corrigir a estultície de um só homem! Visto que o servo caíra pela própria soberba, o Senhor o levantara em sua humildade.

Demos, pois, irmãos caríssimos, graças a Deus Pai que, para remir servos, entregou o próprio Filho. Exaltemos igualmente a Jesus com os máximos louvores, pois curou com tanta felicidade as feridas dos homens. E, por fim, veneremos piamente o Espírito de ambos, que nos foi dado (Rm 5,5) para que tenhamos a vida e a tenhamos em abundância. (Jo 10,10)

Santo Efrém, Doutor da Igreja. Sermão III de diversis.

O Natal está chegando. Preparemo-nos!


"O amigo se alegra em ouvir a voz do Esposo", falou S. João Batista, este que, anos antes, tinha vibrado no ventre de Isabel ao pressentir a presença do Cristo através da saudação de Maria. Este "salto" faz lembrar de perto a esposa dos cantares: "meu Amado passou a mão na fechadura da porta, e minha alma estremeceu." O Natal está chegando. O Esposo está vindo. Que Ele nos conceda estremecer na Sua vinda. Que Ele nos dê um coração de Simeão, que vive apenas para vê-Lo. Este santo tremor faz ainda lembrar do Pentecostes, quando o Espírito Santo, vindo do alto céu como vento impetuoso, prepara os Apóstolos para a consumação da união divina. Neste natal, estejamos com o coração preparado, esvaziado de si e pleno da Graça. Confessemo-nos, portanto, para que a nossa alma esteja em condições de percebê-Lo quando se avizinha, e possa estremecer de amor. É pela Graça que poderemos nos alegrar ao ouvir a voz do Esposo que, como infante, rompe em choro na escuridão do mundo. É por estar plena de Graça que Maria pode dizer: "minha alma se alegra em Deus." Que Deus seja a nossa alegria e, para isso, purifiquemos o coração pela Confissão.

"Não sei, Senhor, a hora em que vireis. (...) Mas o coração puro de longe, Senhor, Vos perceberá." Santa Faustina

Feliz Natal e Feliz Ano Novo.


Eu sempre costumo escrever algo na véspera de ano novo e, em geral, os meus artigos sobre isso não são muito animadores. Vamos ver como sai esse.

Bem, o ano vindouro é novo em que sentido? No sentido de que nunca ocorreu.. Ora, mas se assim é, a hora vindoura também é nova, assim como o minuto, ou o segundo, e nem por isso estamos a todo instante comemorando ou celebrando a novidade. E não sei se deveríamos fazê-lo ou não. Penso um pouco que sim. Contudo, ao lermos o livro do Eclesiastes, parece que as nossas expectativas de uma novidade radical vão pro espaço, pois ele nos brinda, dentre outras coisas, com a seguinte afirmação: "não há nada novo debaixo do sol". Com isto, ele quer dizer que o paradoxo da vida terrena é que, ao mesmo tempo em que ela é contínua abertura ao futuro e, por isso, ela é plena recepção da novidade, esta novidade é também incapaz de provocar uma ruptura completa com aquilo que é velho e termina se adequando a este velho. Bem, parece que há uma exceção: o momento da morte rompe com toda a lógica anterior e nos insere numa nova, absolutamente não prevista. Neste sentido, talvez só devêssemos comemorar como passagem para uma absoluta novidade o dia da nossa morte. Lembro-me agora das palavras do Chesterton: "eu nunca sorrirei tanto quanto naquele dia." No entanto, é precisamente o contrário que fazemos, o que nos mostra que a nossa vontade de um "novo", embora exista, é sempre moderada, pois somos medrosos.

Mas até lá, essas comemorações, se possuem algo de legítimo, são também algo supersticiosas. Talvez a legitimidade delas consista em ser prefiguração da novidade real que está mais adiante - a eternidade. A superstição está em esperar que o mero movimento translacional da terra - combinado com a cor da roupa - possa produzir qualquer coisa de novo. É muita tolice..

Na verdade, a única novidade, segundo Salomão, está acima do Sol, onde não há vaidade. Quem quiser experimentar a novidade real, há de tornar-se íntimo das realidades celestes, habitando nelas, e vencer a própria vaidade. E é por isso que o melhor modo de "romper" o ano é participando da Santa Missa, pois aí temos, por um lado, a plena comunicação com o Céu - a Missa é como um céu aberto onde a nossa relação com Deus é garantida e efetivada. - e, por outro, temos a humilhação gloriosa do filho de Deus que renova seu Sacrifício misticamente, vencendo-nos a vaidade e o orgulho. Encarnar a Liturgia na própria vida é plantar o alicerce para que uma real novidade surja. Sem isso, tudo é ilusão e engano.

Portanto, mais tarde, quando estivermos celebrando a passagem para 2014, não adianta pular ondas nem levar flores a entidades, mas, antes, pensar em Deus, colocar o nosso coração ao alto e comungá-Lo à medida em que o permitam as nossas disposições interiores.

Só assim poderemos de fato desejar um Feliz Ano Novo que tenha alguma substância e que não seja mera flatus vocis, isto é, vazio vocal. Mas, antes de tudo, é preciso desejar feliz natal! Ainda não acabou.. E, diante do Natal, o Ano Novo é pardo, é sem graça. O Natal é uma verdadeira novidade; é a entrada da novidade - da Boa Notícia, dAquele que está acima do sol - no nosso mundo sem graça. Ele é, em verdade, o doador da Graça. Acolhamos esta novidade e permitamos que ela faça o que quiser conosco.

Que a Virgem Maria nos auxilie.

Fábio.

Feliz Natal!


Desde a queda de Adão e Eva, a alma humana foi obscurecida, privada da comunhão com Deus e impossibilitada de realizar seu fim mais essencial: a posse de Deus na eternidade. Todos eventos da vida terrena retiravam seu sentido deste fim último, para ele se ordenando como meios. A alegria da vida humana existia porque hauria seu brilho e calor daquele Sol divino para o qual, porém, os homens estavam agora impossibilitados de ir.

A desordem proveniente do pecado não apenas cavou um fosso intransponível ao homem entre nós e Deus, como ainda inseriu a desordem dentro da nossa alma. Desde então, passamos a buscar fontes alternativas de realização e, como estas inexistiam, fomos obrigados a fundamentar a vida inteira na mentira. A fim de produzirmos, nós mesmos, aquilo que não havia, passamos a forçar a realidade para que se adequasse às nossas fantasias e, neste processo, tornamo-nos violentos e cada vez menos sensíveis à delicadeza do amor. Cada pessoa, assim, ia perdendo a vista da unidade fundamental de toda a criação e se via restrita a um caminho extremamente individual e fragmentado do todo no qual lhe importava sobretudo a satisfação de si mesmo. Sobre isso, escreveu o Profeta Isaías:

"Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas; cada um se desviava pelo seu caminho" (Is 53,6)

Era noite na nossa alma e, nessa noite, tateávamos semi-cegos por caminhos que trilhávamos por suposições, isto é, à medida em que nos dispúnhamos afetivamente para eles. Estávamos, rigorosamente, cativos dos nossos interesses e da nossa sensibilidade, ou seja, o nosso horizonte era estreitíssimo e ia somente até onde iam os nossos cálculos interesseiros. É verdade que, pela insistência divina em não nos abandonar e manter contato com os homens, havia, ainda, um quê de saúde no mundo e os homens conduzidos por Deus nos faziam relembrar daqueles tempos áureos em que o homem podia, de fato, ser feliz sem falsificações. Esses homens não apenas nos punham nostálgicos, como também nos anunciavam uma felicidade futura, a qual, no entanto, não tínhamos a menor capacidade de sondar em profundidade. Tivemos a notícia, mas escapava-nos a substância do anúncio. Embora Deus mesmo tivesse conduzido esse pontos luminosos, que chamamos de Profetas, a imensa maioria dos homens permanecia num profundo sono.. Os profetas foram como estrelas num extenso céu escuro... E era noite..

Mas eis o que ocorre:

"O povo que andava nas trevas viu uma grande luz, e sobre os que habitavam na região da sombra da morte resplandeceu uma luz." (Is 9,2)

As duas maiores festas cristãs acontecem de noite para mostrar que Deus intervém, justamente, quando as coisas estão escuras. O nascimento de Jesus se deu não apenas numa noite física, mas também numa noite espiritual. Na alma dos homens, o sol divino estava "escurecido"; não que Deus possa escurecer-se, mas é possível, como escreveu Sta Teresa D'Avila, envolvê-lo com uma espessa camada de modo que sua luz não incida na alma e esta fique em trevas. Isto ocorre no pecado mortal. E foi justamente nesta noite que brilhou uma grande luz: Jesus nasceu. Qual o significado disto?

Primeiramente, notemos que, se a treva é ausência de luz, a noite da alma nos homens era a falta da luz divina. Faltava Deus aos homens e eles não eram capazes de reconstruir o que fora perdido. Estando tal conserto acima das forças humanas, forçoso era que, se ele fosse feito, o fosse pelo próprio Deus. E é isto o que se dá: Deus como que "sai de si", movido pelo imenso amor pelos homens, e vem a nós. Em seguida, Ele une em Si mesmo aquilo que estava separado: Deus e os homens. Com efeito, Jesus será Deus e homem e não é possível que as duas naturezas, antes impedidas de união pelo abismo do pecado, agora, unidas na pessoa do Cristo, cultivem ainda qualquer distância. Jesus, ao assumir a nossa natureza, como que se casou conosco tornando-nos, desse modo, um só com Ele.

Tornou-Se humano para que o homem pudesse tornar-se divino. Com isto, Ele nos restituiu a esperança da felicidade completa, da realização mais plena. Ao vê-Lo, hoje, nascido na gruta de Belém, em tão aparente indigência, nós podemos perceber a grandeza do Seu amor em vir resgatar-nos de tão profunda baixeza. Isto é motivo de uma vertiginosa alegria. Se não sabíamos mais o que fazer, se estávamos desesperados e tínhamos por certo a nossa condenação, agora abriu-se para nós uma porta, uma imensa luz brilhou para nós. Deus nos deu a certeza mais cabal de que somos amados. Agora, nós não precisamos seguir caminhando pelos nossos próprios caminhos, nos quais íamos desgarrados. Agora, surgiu para nós O caminho que não engana e nos leva ao Pai. Todos nós, por Ele, transcendemos a nossa fantasia, os nossos caprichos, os nossos interesses egoístas, e retomamos contato com a mais sólida realidade, com a Verdade. Superamos o mesquinho cálculo dos nossos interesses, e adentramos na dinâmica do amor. Imitando a Ele, que saiu de Si, nós sairemos de nós mesmos e iremos a Ele. Nisto está a nossa Salvação. Eis a Luz que nos permite ver com clareza o que até então era-nos invisível pela densidade da noite. Eis o Sol da Justiça que nos nasce e nos restitui a dignidade perdida pelo pecado. Eis que o divino infante participará do nosso sofrimento, chorando copiosamente na noite de Belém, e nós, que já estávamos acostumados às lágrimas, participaremos da alegria divina e, depois de tanto tempo, voltará à nossa face aquele sorriso que nasce, não do campo superficial das sensações, nas do íntimo da alma, expressão de uma alegria da qual participa a totalidade do ser do homem.

Esta alegria, portanto, não é forjada, não é artificial, e não é, como dizia S. Josemaria Escrivá, uma alegria de animal sadio, que surge da boa constituição física. É algo mais interno, mais profundo e que, ao mesmo tempo em que nos preenche, nos relembra que nós somos mais que animais que seguem seus instintos e seus desejos; somos filhos de Deus, criados à Sua imagem e semelhança. Somos vocacionados à eternidade. Na pobreza de seus trapinhos, o Cristo nos relembrou que nós somos Sacerdotes, Profetas e Reis.

Feliz Natal!

Poema do Pe. José de Anchieta sobre Jesus na Manjedoura


- Que fazeis, menino Deus,
Nestas palhas encostado?
- Jazo aqui por teu pecado.

- Ó menino mui formoso,
Pois que sois suma riqueza,
Como estais em tal pobreza?

- Por fazer-te glorioso
E de graça mui colmado,
Jazo aqui por teu pecado.

- Pois que não cabeis no céu,
Dizei-me, santo Menino,
Que vos fez tão pequenino?

- O amor me deu este véu,
Em que jazo embrulhado,
Por despir-te do pecado.

- Ó menino de Belém,
Pois sois Deus de eternidade,
Quem vos fez de tal idade?

- Por querer-te todo o bem
E te dar eterno estado,
Tal me fez o teu pecado.

Padre José de Anchieta.

Fonte: Montfort

Exultai todos os cristãos: é o Natal de Cristo!


Sto Agostinho

Celebremos o Natal de Cristo com afluência e solenidade devida. Rejubilem-se os homens, rejubilem-se as mulheres: nasceu Cristo homem, nasceu de uma mulher e ambos os sexos são honrados. Passe, pois, já para o segundo homem, o que no primeiro foi condenado. Inoculara-nos a mulher a morte; nova mulher os deu à luz a vida. Nasceu em semelhança da carne do pecado pela qual seria purificada a carne do pecado.

Rejubilai-vos, jovens clérigos, que escolhestes em seguir de modo particular a Cristo, que não procurastes matrimônio: não veio a vós pelo matrimônio aquele a quem, segundo, encontrastes.

Exultai, virgens consagradas; para vós, a Virgem deu à luz aquele que desposastes sem alteração da virgindade, e que não podeis perder o vosso amado nem concebendo nem dando à luz. Exultai, justos, é o Natal do justificador. Exultai, enfermos, e doentes: é o natal do que dá saúde. Exultai, cativos, servos, é o Natal do Senhor. Exultai, livres: é o Natal do libertador. Exultai, todos os cristãos, é o Natal de Cristo.

Cristo, nascido de mãe, preparou este dia, desde séculos, e foi quem, nascido do Pai, criou todos os séculos. Em seu Natal divino, não pôde ter mãe alguma, nem no natal humano, pai algum. Enfim, nasceu Cristo tanto de pai quanto de mãe, e sem pai nem mãe: Deus, por parte de Pai; homem, por parte de Mãe; Deus, sem mãe; homem, sem pai. Quem, pois, narrará sua geração? (Is 53,8) ou aquela, sem o tempo, ou esta, sem sêmen; aquela, sem início, esta, sem exemplo; aquela, que nunca deixou de ser; esta, que nem antes nem depois existiu; aquela que não tem fim; esta que tem seu início onde tem seu fim. Justo, pois, que os profetas pressagiassem e que os céus e os anjos anunciassem tão grande nascimento.

Foi posto em manjedoura quem encerrava o mundo; e era criancinha e o Verbo. Aquele que os céus não encerram, o ventre de uma mulher levava. Ela governava nosso Rei; levava ela aquele em quem existimos, aleitava nosso pão. Ó manifesta fraqueza e admirável humildade em que assim se ocultou toda a divindade! O poder governava a Mãe, a quem se achava submetido; e aquele que se alimentava aos peitos dela, a alimentava da verdade.

Complete em nós seus dons aquele que não desprezou nossos primórdios; e faça-nos ele próprio filhos de Deus, que por nós quis tornar-se filho do homem.

Sto Agostinho, Sermão CLXXXIV, 2-4, Ofício Marial.

Vigília da Natividade


S. Boaventura, Bispo

O que nela foi concebido é do Espírito Santo (Mt 1,20).

Embora não se possa encontrar na natureza exemplo adequado para o que é acima da natureza, contudo vemos de modo diverso originar-se o esplendor da luz, o broto da vide, a flor da haste da árvore.

O raio se origina da luz, que é da mesma natureza, mas não dizemos que a luz sejam raios e vice-versa; assim, é o Filho, do Pai, dado que é substancial ao Pai, mas nem o Filho é o Pai, nem o Pai é o Filho. Por isso é que, relembrando a Igreja essa gloriosa natividade, canta: Ó Oriente, esplendor da luz eterna. (Antífona do Advento).

Nasce o broto na vide por isso que a fecunda e vitaliza, mas não a abre nem a viola, nem lhe altera a integridade. Assim nasce Deus na virgem a ponto de a cumular, fecundar, santificar, mas sem a dilacerar, sem a violar, sem a macular. Por isso, ao comparar o que dela nasceu ao broto, diz o Senhor pelo Profeta: "A Davi suscitarei rebento justo; (Jer 23,5) e, vós, ó céus, lá do alto orvalhai, e chovam as nuvens o justo; abra-se a terra e brote o Salvador. (Is 45,8).

Origina-se a flor do ramo ou da árvore, de modo que nem altera o ramo mas o melhora: nem o dilacera, senão que o adorna. Assim nasceu da Virgem, não abrindo nem alterando, pois essa porta será fechada para sempre, não se abrirá e varão não passará por ela (Ez 44,2), diz Ezequiel, mas fecundando e ornando. Por isso se compara seu nascimento ao desabrochar da flor: Sairá haste da raiz de Jessé e uma flor se desprenderá dela. (Is 11,1).

Assim, pois, o dela nascido, nasceu de Deus Pai, antes de estar no ventre, assim como o esplendor, da luz; nascido do ventre da Virgem Mãe, assim como o broto, da videira; nascido também do ventre, assim como a flor nasce do ramo, da haste ou da árvore.

No primeiro nascimento, nasceu e sempre nasce de seu Pai, segundo a natureza divina; no segundo e no terceiro, nasceu da Virgem Mãe, segundo a natureza humana; no segundo e no terceiro, se nos mostrou na terra para remédio; o primeiro se nos reserva no céu, como prêmio. O segundo nascimento se refere ao dia da presente solenidade, em que lemos acerca de seu nascimento; o terceiro diz respeito ao da solenidade de amanhã, em que cantamos: Nasceu-nos um menino; o primeiro se refere ao dia da eterna solenidade.

S. Boaventura, Vigília da Natividade, Ofício Marial.

Feliz Natal e Feliz Ano Novo - Que 2012 seja um ano santo!

É Ele quem faz a terra girar e quem a sustenta...

E chegamos ao último dia do ano. Só mais um pouco e estaremos em 2012, o ano do fim do mundo (hahaha)... Alguns já lerão esta postagem depois da transição.

Muitas pessoas na blogosfera têm feito os seus tradicionais votos de um ano feliz e próspero e tal. Eu, particularmente, não me comovo muito com estes festejos de fim de ano. Reconheço, no entanto, a sua legitimidade. Mas, a princípio, parece-me estranho que, embora estejamos ainda na oitava de Natal, ninguém mais pareça lembrar. Mas isto é muito ilustrativo.

Como se sabe, nós, católicos, costumamos lutar contra o pecado, contra os erros, contra as falsas filosofias, etc. Todos estes inimigos têm em comum o fato de serem produzidos a partir da nossa soberba, do nosso egoísmo, da satisfação de nós mesmos. O que é o pecado senão isso? O que são as falsas filosofias imanentistas senão a renúncia à transcendência para que o indivíduo assuma o centro da existência e se explique a partir de si mesmo?

Nós só chegamos a um nível tão profundo de decadência quando excluímos do nosso horizonte o campo da metafísica ou das realidades transcendentes. Cortamos da nossa vida a dimensão do mistério e do absoluto. Tendo-o feito, não nos resta mais senão absolutizar o efêmero, o curso da história, o processo do devir. Trocamos Deus pelo tempo. Eis Marx, eis Freud, eis Darwin.

E eis o ano novo... Esquecemos o menino de Belém e celebramos a mera transição cronológica impessoal. Na nossa superstição de divinizarmos o que não é divino, até chegamos a vestir branco como se isto fosse resultar em qualquer efeito mágico no futuro curso dos eventos. Deus, se não é absolutamente posto de lado, torna-se algo acidental, secundário, ritual, de tradição, reduzido ao costume, isto é, submetido ao tempo. A Missa de ano novo é assistida por costume, porque todo ano tem...

"Não terás outros deuses diante de Mim", disse uma vez o Deus ciumento. E na substituição do Absoluto pelo tempo, terminamos por aviltar a nossa própria condição, que é a de sermos indivíduos eternos, altas imortais.

Feitas estas precauções, desejo, eu também, um feliz Ano Novo a todos, desde que fique entendido que esta felicidade não provém da novidade do ano, mas somente pode ser dada por Nosso Senhor, o Deus Verdadeiro, Aquele que transcende o Tempo, sendo este apenas uma criatura Sua. 

Que neste novo ano, Deus possa nos dar forças para renovar também a nossa vida, pondo-a sob a sombra da eternidade. Consideremos que um novo ano, ou um novo tempo, é sempre uma nova oportunidade para que nos emendemos e nos tornemos melhores, mais puros, mais bondosos, mais santos.

Sobre isto, meditava o Gustavo Corção: 

"A vida é longa de mais. Ou será o tempo uma frase e a repetição dos dias e dos anos um sinal de divina paciência, duma paciência que espera resposta e não cansa de chamar? Mas ninguém ouve e cá estamos..."

Escutemos o apelo que Deus nos faz neste passar dos anos, nesta Santa Missa de hoje, e no decorrer dos dias. Busquemos, caríssimos, primeiramente e até unicamente o agrado divino; conformar a nossa vida com Ele é o mais importante. Se o fizermos, como Ele mesmo disse, tudo o mais virá por acréscimo.

Deixemos, enfim, as superstições, quaisquer que sejam. Que a Virgem Santíssima nos ensine a ter um coração que adore somente ao Verbo divino. Eis a vida nova que devemos ter. Que Nosso Senhor, pela intercessão de Maria Santíssima, no-la conceda.

"Quem perseverar até o fim será salvo", isto é, quem não se curvar ao tempo.

Feliz Natal. Feliz Ano Novo.

Que Deus nos abençoe e guarde a todos. 

Ad Iesum Per Mariam

Fábio

Fim de ano e o costume de Indispor-se com os outros


No Natal e Fim de Ano, mesmo para quem não é cristão, parece haver qualquer coisa de terno a invadir o mundo. Quem ficar sóbrio há de perceber.

E um dos temas mais frequentes que nessa época surgem nas conversações é o da reconciliação, do perdão e da paz que muitos tentam evocar e até supersticiosamente produzir pelo simples fato de vestir branco.

Pois bem. Acontece que nós vivemos numa sociedade que é profundamente egocêntrica. Não é de nenhum modo difícil encontrarmos livros e teorias que, não obstante sejam as mais variadas, trazem o traço comum de estarem fundamentadas sobre o umbigo dos seus autores. Basta acompanhar minimamente as intensas manifestações nas redes sociais para toparmos com todo tipo de filosofia pessoal onde o sujeito se coloca como o centro do universo, o ser mais importante de todos, como se todos os demais indivíduos estivessem contra ele e fosse seu dever defender-se e auto-promover-se. Temos, então, uma sociedade formada por pessoas preocupadas antes de tudo consigo mesmas.

Num ambiente assim, surge um costume a meu ver profundamente infantil e que consiste em facilmente se indispor com outras pessoas. Qualquer discordância ou qualquer atrito resulta em intriga e aquela amizade, talvez já de longa data, desfaz-se por capricho, por vaidade, por um ego ferido que, para restabelecer-se, recorre ao término da relação. Isto é muito revelador... A amizade, em todos os tempos, sempre foi muito exaltada e tida como algo de grande valor. "Encontrar um amigo é encontrar um tesouro", dizemos. No entanto, ela costuma ser abandonada por motivos fúteis. Tal fenômeno é sintomático da mediocridade que invadiu as almas e que termina por banalizar tudo. Os amigos são mantidos somente enquanto nos proporcionam prazer e bem-estar. Tão logo nos espetem, acabarão por ser abandonados. Uma sociedade assim, obviamente, não terá da amizade qualquer dimensão.

É mais ou menos o que aconteceu com a alegria. Hoje ela se encontra profundamente escassa. É difícil vê-la por aí, pois, em seu lugar, os homens puseram o prazer e este manipulado de todas as formas para que possa ser prolongado e intensificado. Deste modo, as pessoas perderam o senso da alegria gratuita. E, para disfarçar a angústia e a tristeza, recorrem novamente a altas doses de prazer. Os vícios não são outra coisa. Thomas Merton escreve a este respeito: "se não sabes a diferença entre prazer e alegria, sequer começaste a viver".

Pois bem. E falamos em reconciliação no fim do ano. Difícil, não? Talvez o que precisemos seja mudar a nossa compreensão sobre a natureza da amizade. Para isto, temos de abandonar esta imatura e torpe "filosofia do ego". Nós precisamos descobrir urgentemente que não somos o que de mais importante há no universo. Uma ofensa contra nós não é um sacrilégio. Por diversas vezes estaremos errados e um amigo que se preze será sincero em nos mostrar o nosso erro, se necessário.  Nós não devemos abandonar esses tesouros. Não importa o quanto nosso ego reclame; mandemos ele - o ego - plantar batatas. O que importa é a verdade e o bem.

Se amarmos a verdade e o bem, poderemos construir relações sólidas e duradouras, pois a verdade e o bem são universais, isto é, existem em todo lugar e a todo o tempo; são absolutamente estáveis. Poderemos intervir na vida de nosso amigo ou permitir-lhe intervir na nossa sem que isto resulte em briga. Digo e repito: esse costume de ficar intrigado é um negócio infantil. Nós, humanos, somos sujeitos difíceis e muitos de nós somos cheios de frescuras. Mas as frescuras não somos nós; nós não somos o nosso capricho. A amizade tem de ter um fundamento mais profundo do que a epiderme das vaidades e da imagem. Se cultivarmos uma amizade tendo isto em vista, é óbvio que não abriremos mão dela na primeira incompreensão.

Se nos dizemos cristãos, então, esta obrigação se avoluma. Cristo morreu por nós quando ainda éramos seus inimigos e perdoou a enormidade dos nossos crimes. Se não perdoamos a outra pessoa e dela guardamos mágoa, ainda quando nos dá mostras de arrependimento embora não tenha tido a coragem de desculpar-se claramente, é sinal de que pouco conhecemos a nossa própria miséria. Nós somos muito tolerantes conosco mesmos. E, no entanto, nos dizemos cristãos e seguidores do Cristo. Rezamos diariamente o "perdoai as nossas ofensas assim como perdoamos a quem nos ofende", e escutamos com relativa frequência o que disse Nosso Senhor: "antes de levar as tuas oferendas, reconcilia-te com teu irmão".

Nem é preciso repetir esses conselhos de Jesus. Todos nós provavelmente já os conhecemos. O que, no entanto, nos impede de ver é o nosso orgulho. Eis aí o nosso inimigo, a trave no nosso olho. Detectado o alvo que precisamos combater, mãos à obra. Não é o outro que eu devo pisar, mas o meu próprio egoísmo, a minha própria soberba. Ser cristão é assumir a disposição de colocar-se em último lugar e de oferecer a outra face, de abrir mão das próprias vontades e caprichos, de crucificar-se, como dizia S. Paulo, com as próprias paixões e concupiscências.

Para terminar, eu quero contar um breve acontecido que se deu num dos primeiros conventos do Carmelo Descalço, onde residiam S. João da Cruz e um outro irmão já de idade. Indo visitar o mosteiro, Sta Teresa D'Avila avistou ao longe este outro irmão a varrer a frente do convento com uma vassourinha bem humilde. Aproximando-se do tal monge idoso, a santa perguntou: "Oh irmão, onde está a vossa honra?", ao que ele respondeu: "Maldito o dia em que a tive".

Pensemos nisto. Este tipo de "honra", referente à preocupação que temos com a nossa imagem, em não passar por baixo, é o que nos tem afastado por vezes de um bem mais profundo; é o que nos tem tirado talvez pessoas amadas do nosso convívio.

Bem, isto tudo se aplica quando somos nós os ofendidos. Diferente é o caso quando o ofendido é Deus. Nestas situações e em caso de obstinação, por vezes o afastamento será legítimo.

O orgulho tem me tirado
O que o amor me tinha deixado
Vou aprender ao meu ego abaixar
Pra que a alma se possa elevar
Só saberei o que é ter Jesus Cristo
Se compreender o que é ser um amigo.

Fábio

Feliz Natal - Algumas Meditações


E estamos, novamente, às portas do Natal. O menino Deus, o Rei de Israel, o desejado das nações, virá. A estrela já lhe anuncia a chegada. Os reis já rumam ao seu encontro e os pastores daqui a pouco ouvirão o canto dos anjos.

Aquele de quem se falou que iria reger com cetro de ferro e que iria restaurar o reino de Israel vem ao mundo como uma criança indefesa, inofensiva, pobre. Buscarão um lugar para que ele nasça com algum conforto e dignidade, mas não encontrarão sequer o mais modesto quartinho. Quem imaginaria que o aparente caos do improviso seria, antes, uma escolha d'Ele?

"Não há lugar aqui para vós", foi o que escutou dos homens ocupados com suas coisas. Encontrará abrigo sob a vigília dos animais, do boi e do burro que, diferentemente dos homens, conhecem o presépio do seu Senhor. (Isa 1,3)

Ei-Lo exposto ao frio, na nudez de Sua pobreza, sem um berço ou uma cama Aquele que não terá onde reclinar a cabeça e cujo trono será uma cruz. Eis Aquele de Quem Francisco chorava: "o Amor não é amado".

Nós somos, nesta festa misteriosa, chamados a acercar-nos da sua manjedoura. Mas para fazê-lo, espera-se que encaremos com profundidade o que aqui acontece. Costumamos dizer que o Natal é um tempo de festa - e o é - mas isto parece legitimar o nosso riso fácil, a nossa dispersão, o nosso superficialismo.

Porém, a alegria de que aqui se fala surge dentro da alma, da contemplação detida da presença dAquele que veio para nos salvar. Deveria ser uma alegria extasiante, mas a maioria de nós compreende muito pouco a sublimidade deste evento.

Devemos nos ater a algumas coisas:

Quando Ele vier, nós não O reconheceremos se, antes, não nos tivermos esvaziado das nossas suposições a Seu respeito. Tampouco lhe daremos abrigo se não aprendermos a parar o fluxo frenético das nossas preocupações e da satisfação dos nossos interesses. "Cessai e vede que eu sou Deus"  (Sl 45,11)

Assim como os reis magos, é preciso que saiamos de nossa própria terra, isto é, dos nossos interesses pessoais, do nosso "mundinho", e viajemos e trabalhemos e tenhamos algum cansaço em procurá-Lo. "Sofrer pelo Amado é melhor que fazer milagres", escrevia S. João da Cruz. Neste percurso, o que nos guiará é a luz obscura da Fé e a sede da fonte que o deserto desperta. Ao encontrá-Lo, deveremos também Lhe entregar os três presentes: o incenso, reconhecendo que aquele menininho frágil é Deus Soberano; o ouro, testemunhando que o pequeno ser é Rei verdadeiro e absoluto ao qual nos submetemos inteiramente; e a mirra, compreendendo o mistério da Sua vida à luz da Cruz e oferecendo a Ele os nossos trabalhos e fadigas para sermos menos indignos de Sua Majestade.

Assim como os pastores, devemos acorrer a Ele na nossa pobreza, na nossa humilde condição e compreender que Ele é, na verdade, o verdadeiro Pastor, Aquele que veio para nos atrair a Si, nós que andávamos desgarrados e perdidos, cada um em seu próprio caminho. (Isa 53,6)

E há aqui uma questão fundamental: muitos de nós nos aproximamos d'Ele como se fosse um ser inerte, uma imagem de gesso ou somente um infante que nada sabe. E, no entanto, estaremos diante de Deus. Isto é algo aterrador! Jacó, ao acordar do seu sonho, afirmou abismado: "que terrível é este lugar; é nada menos que a casa de Deus!". Com muito maior razão deveríamos repetir exclamação semelhante: "Que terrível é este menino; é nada menos que Deus Onipotente!" Triste é saber que muitas das nossas visitas ao Presépio são marcadas pela banalidade.

Jesus menino, ainda que não saiba falar, é Aquele que tudo sabe. S. Josemaría Escrivá, sobre isto, dizia: 

"Diante do Presépio, sempre procurei ver Cristo Nosso Senhor desta maneira, envolto em paninhos, sobre a palha de uma manjedoura; e, enquanto ainda é Menino e não diz nada, vê-lo já como Doutor, como Mestre. Preciso considerá-lo assim, porque tenho que aprender dEle."

Vê-Lo é deixar-se ver. Contemplar a nudez do pequeno Deus é expor a nossa própria nudez. O olhar de Cristo nos transpassa e penetra até o fundo. Aqui está um dos pontos que mais me tocam: não sei como não ficar constrangido diante d'Ele. Vê-Lo significa contrastar com Ele, a Humildade Encarnada, a minha vida marcada pela soberba e os meus caprichos egoístas. É contemplar o mistério da sua Kenose, do seu rebaixamento, a partir do falso alto da minha presunção. E Ele me vê a fundo. Como não ficar constrangido? "O amor de Cristo me constrange" (II Cor 5,14)

Este mesmo olhar, anos depois, incidirá sobre Pedro quando da sua negação. Jesus o olhará nos olhos e Pedro, sem poder recorrer a subtefúrgios, sem quaisquer outras máscaras sob as quais pudesse defender-se, absolutamente nu diante dEle, só pôde romper em choro por ter abandonado o seu Mestre. Quisera que o olhar do divino Infante produzisse efeito semelhante em nós que O contemplaremos. Quisera antes as lágrimas de amor do que o sorriso forçado de uma convenção.

Muito comovente, porém, é ver que, mesmo diante dos meus crimes, Ele não hesitou. Veio a mim e expôs-se. Conhecendo-me até a medula dos ossos, parecia antecipar-se ao meu constrangimento e dizer-me nos seus vagidos: "não temas". Foi o amor que O trouxe a uma terra estranha, onde experimentará a dor e a morte. Foi o amor que O levou à total entrega de Si mesmo para que, por fim, Ele pudesse garantir-me um lugar ao Seu lado. "Onde eu estou, quero que eles também estejam", dirá Ele em súplica ardente ao Seu Pai. 

Por fim, temos de amar o infinito amor humilhado. O amor implica imitação do amante com relação ao amado. Se amamos ao menino Jesus que é, nos termos de Sto Afonso, "excessivamente amável" no presépio, teremos de imitá-Lo. Se Ele se esvaziou, devemos nos esvaziar de nós mesmos. Se Ele se fez pequeno, devemos nos rebaixar para adorá-Lo. Se Ele, que repousava no Seio do Pai, humilhou-se até o ponto de chorar numa noite ao relento, não devemos ficar presos aos limites do nosso conforto. É preciso sair, enfrentar o frio da vigília ao relento e estar com Ele.

Imitá-Lo é abraçar a Sua pobreza, é querer unir-Se a Ele em amor perfeito. Se compreendêssemos bem estas coisas, a alegria do Natal brotaria naturalmente no íntimo da nossa alma e os nossos sorrisos denunciariam aquilo que S. Francisco definiu tão bem: "o cristão é alguém que não consegue esconder a sua alegria por ter descoberto tão precioso tesouro".

É esta alegria que eu desejo a todos os amigos do GRAA, a todos os leitores deste blog e a todos os seus familiares. Que a Virgem Santíssima nos conduza à contemplação deste adorável mistério e que, por suas mãos, o Cristo infante infunda nas nossas almas o fogo do amor cujo ateamento foi sempre o Seu único desejo.

Feliz Natal.

Fábio Graa.

Carol of Joy


CAROL OF JOY
by Dan Forrest

Green leaves all fallen, withered and dry;
Brief sunset fading, dim winter sky.
Lengthening shadows,
Dark closing in...

Then, through the stillness, carols begin!
Oh fallen world, to you is the song--
Death holds you fast and night tarries long.

Jesus is born, your curse to destroy!
Sweet to your ears, a carol of Joy!

Pale moon ascending, solemn and slow;
Cold barren hillside, shrouded in snow;
Deep, empty valley veiled by the night;
Hear angel music--hopeful and bright!

Oh fearful world, to you is the song--
Peace with your God, and pardon for wrong!
Tidings for sinners, burdened and bound--

A carol of joy!
A Saviour is found!

Earth wrapped in sorrow, lift up your eyes!
Thrill to the chorus filling the skies!
Look up sad hearted--witness God's love!
Join in the carol swelling above!

Oh friendless world, to you is the song!
All Heaven's joy to you may belong!
You who are lonely, laden, forlorn
Oh fallen world!
Oh friendless world!

To you,
A Saviour is born!

O Verbo eterno de grande se fez pequeno - queria ser amado, não temido - Sto Afonso



Parvulus natus est nobis et Filius datos est nobis.
Nasceu-nos um Menino e foi-nos dado um filho (Is 9,6)

Platão dizia que o amor atrai amor: Magnes amoris, amor. Daí o provérbio citado por S. João Crisóstomo: Se queres ser amado, ama. De fato, o mais seguro de cativar-se o afeto duma pessoa, é amá-la e dar-lhe a entender que é amada.

Mas, Jesus meu, essa regra, esse provérbio é para os outros, para todos os outros e não para vós. Os homens são gratos para com todos, menos para convosco. Não sabeis o que mais fazer para testemunhar aos homens o amor que lhes tendes; nada mais vos resta a fazer para conquistardes o coração dos homens. E quantos são os que vos amam? Ah! a maior parte, digamos melhor, quase todos não só não vos amam, mas nem sequer vos querem amar. Ainda mais: vos ofendem e desprezam.

Queremos também nós ser do número desses ingratos? Oh! não, que não o merece esse Deus tão bom, tão amante que, sendo grande, e duma grandeza infinita, quis fazer-se pequeno para ser amado por nós. - Peçamos a Jesus e Maria nos esclareçam.

Para se compreender qual foi o amor que determinou a um deus fazer-se homem e criancinha em favor dos homens, seria preciso ter uma idéia da grandeza de Deus. Mas que homem ou que anjo poderia compreender a grandeza divina que é infinita?

Segundo S. Ambrósio, dizer de Deus que ele é maior que os céus, que todos os reis da terra, que todos os santos é fazer-lhe injúria, como seria injuriar a um príncipe o dizer que ele é maior do que um calamo de erva ou uma mosca. Deus é a grandeza mesma, e toda a grandeza é apenas uma mínima parcela da grandeza de Deus.

Considerando essa divina grandeza, convencido de sua absoluta incapacidade para compreendê-la, Davi exclamou: "Senhor, onde encontrar uma grandeza comparável à vossa?" De fato, como poderia uma criatura, cuja inteligência é finita, compreender a grandeza de Deus, a qual não tem limites?: Grande é o Senhor, cantava o mesmo profeta; ele é digno de todo o louvor, e sua grandeza é infinita. - Não sabeis, disse Deus aos judeus, que eu encho o céu e a terra? De sorte que para falarmos segundo o nosso modo de entender, não passamos de atomozinhos imperceptíveis nesse imenso oceano da essência divina. Dizia o apóstolo: "Nele temos a vida, o movimento e o ser".

Que somos nós em relação a Deus? Que são todos os homens, todos os monarcas da terra, e mesmo todos os santos e todos os anjos do céu diante da infinita grandeza de Deus? Somos menos que um átomo relativamente ao mundo inteiro; e para falarmos como Isaías, todas as nações são na presença de Deus como a gota d'água suspensa no bordo do vaso, como o peso que faz pender apenas a balança; e todas as ilhas não são senão um pouco de pó; numa palavra, todo o universo é diante dele como se não existisse.


Ora esse Deus tão grande se fez criança, e para quem? Por nós: Nasceu-nos um Menino, disse ainda Isaías. Mas para que fim? S. Ambrósio responde: "Fez-se pequeno para nos tornar grandes: quis ser envolvido em paninhos para nos livrar das cadeias da morte; desceu à terra a fim de que pudéssemos subir ao céu".

Eis pois o Ser imenso feito criança; Aquele que os céus não podem conter, ei-lo enfeixado em pobres paninhos, e deitado num presépio estreito e grosseiro, sobre um pouco de palhas que lhe servem de leito e de travesseiro! S. Bernardo exclama: vinde ver um Deus que pode tudo, preso em paninhos de sorte a não poder mover-se; um Deus que sabe tudo, privado da palavra; um Deus que governa o céu e a terra, necessitando ser carregado nos braços: um Deus que nutre todos os homens e todos os animais, precisando dum pouco de leite para viver; um Deus que consola os aflitos, que é a alegria do paraíso, e que chora, que geme e que procura quem o console!

Em suma, diz S.Paulo que o Filho de Deus vindo à terra se aniquilou a si próprio. E por que? Para salvar o homem e para ser por ele amado. "Meu divino Redentor, exclama S. Bernardo, na medida que vos abaixastes fazendo-vos homem e criança brilharam a misericórdia e o amor que nos mostrastes a fim de ganhar os nossos corações."

Embora os Hebreus tivessem claro conhecimento do verdadeiro Deus que se lhes manifestara por tantos milagres, não estavam satisfeitos. Queriam vê-lo face a face. Deus achou o meio de contentar também esse desejo dos homens. Tomou a natureza humana e tornou-se visível a seus olhos, diz S. Pedro Crisólogo. E para melhor se insinuar aos nossos corações, continua o mesmo Santo, quis mostrar-se primeiro como uma criancinha, porque nesse estado ele devia parecer-nos mais grato aos nossos afetos. Sim, acrescenta S. Cirilo de Alexandria, ele se abaixou à humilde condição duma criancinha a fim de se tornar mais agradável aos nossos corações. Era esse, com efeito, o meio mais próprio para se fazer amar.

O profeta Ezequiel tinha pois razão de dizer, ó Verbo encarnado, que a época da vossa vinda à terra devia ser o tempo do amor, o tempo dos que amam. E com efeito por que outro motivo Deus nos amou tanto e nos deu tantas provas de seu amor, se não para ser amado por nós? Deus só ama para ser amado, diz S. Bernardo. Aliás o Senhor mesmo o declarou desde o início: E agora, ó Israel, que é o que o Senhor teu Deus pede de ti se não que o temas... e o ames? (Dt 10,12).

Para obrigar-nos a amá-lo, Deus não quis confiar a outrem o negócio de nossa salvação, mas quis fazer-se homem e vir resgatar-nos em pessoa. S. João Crisóstomo faz uma bela observação sobre a expressão de que se serve S. Paulo ao falar desse mistério; Ele nunca tomou a natureza dos anjos, mas tomou a carne dos filhos de Abraão. Por que, pergunta ele, não diz o apóstolo simplesmente que Deus se revestiu da carne humana, mas que a tomou como que à força, segundo a significação própria do vocábulo Apprehendit? E responde: disse assim por metáfora, para explicar que Deus desejava ser amado pelo homem, mas o homem lhe voltara as cotas e não queria reconhecer o amor que Deus lhe tinha.

Eis porque desceu do céu e tomou um corpo humano para se fazer conhecer e amar, como que à força, pelo homem ingrato que dele fugia.

É por isso que o Verbo Eterno se fez homem, e é também por isso que Ele se fez criança. Ele poderia apresentar-se sobre a terra como homem feito à semelhança do nosso primeiro pai Adão, mas o Filho de Deus preferiu mostrar-se ao homem sob a forma duma graciosa criança, a fim de ganhar mais depressa e com mais força o seu coração. As crianças são amáveis por si mesmas e atraem o amor de quem as vê. o Verbo divino fez-se menino, diz S. Francisco de Sales, a fim de conciliar o amor de todos os homens.


Ouçamos S. Pedro Crisólogo: "Não é por ventura desse modo que deveria vir a nós Aquele que queria banir o temor e fazer reinar o amor? Que alma haverá tão feroz que se não deixe vencer pelos encantos dessa criança? Que coração tão duro que não se enterneça à sua vista? E que amor não exige Ele de nós? Assim pois quis nascer Aquele que queria ser amado e não temido". O Santo Doutor nos faz compreender que, se o divino Salvador quisesse, vindo ao mundo, fazer-se temer e respeitar pelos homens, ter-se-ia apresentado sob a forma dum homem perfeito e cercado da dignidade régia. Mas, como procurava apenas ganhar os nossos corações, quis aparecer no meio de nós como uma criança e como a criança mais pobre e humilde, nascida numa fria gruta entre dois animais, colocado sobre a palha num presépio, sem lume e envolta em paninhos insuficientes para defendê-la do frio: Assim quis nascer Aquele que queria ser amado e não temido! Ah! Meu Senhor e meu Deus, quem pois vos obrigou a descer do trono dos céus, para nascerdes num estábulo? Foi o amor que tendes aos homens! Quem vos arrancou da destra do Pai Eterno, onde estais assentado, e vos deixou numa vil manjedoura? Vós que reinais sobre a abóbada estrelada, quem vos estendeu sobre a palha? Quem do meio dos anjos vos fez residir entre dois animais? Foi o amor. Vós abrasais os serafins, e tremeis de frio! Vós sustendes o céu, e é preciso que vos levem nos braços! Vós nutris homens e animais, e tendes necessidade dum pouco de leite para vos sustentar! Vós sois a felicidade dos Santos, e eu vos ouço chorar e gemer! Quem pois vos reduziu a tão grande miséria? Foi o amor: Assim quis nascer Aquele que queria ser amado, e não temido!

Amai, pois, almas cristãs, exclama S. Bernardo, amai essa criança que é tão amável! "Grande é o Senhor, merece louvores infinitos; pequeno é o Senhor, merece infinitamente nosso amor." Sim, diz-nos ele, esse Deus era desde toda a eternidade, como o é ainda agora e sempre, digno de todo o louvor e respeito por sua grandeza, como já cantou Davi: grande é o Senhor, e muito digno de louvor. Hoje porém que o vemos feito menino, necessitado de leite, sem se poder mover, tremendo de frio, vagindo, chorando, procurando quem o pegue, aqueça e console; ah! como é amável e caro aos nossos corações. O Senhor é pequeno e excessivamente amável!

Devemos adorá-lo como Deus, mas o nosso amor deve igualar à nossa veneração para com um Deus tão amável e tão amante.

"Uma criança, observa S. Boaventura, gosta de achar-se entre crianças, no meio de flores e nos braços dos que a amam". Se quisermos comprazer ao divino Infante, quer dizer o Santo, devemos tornar-nos crianças com ele, isto é, simples e humildes; levar-lhes flores das virtudes, mormente as da mansidão, da mortificação, da caridade; tomá-lo em nossos braços com amor.

"Que queres mais, ó homem, acrescenta S. Bernardino de Sena, que esperas ainda para te dares sem reserva a teu Deus? Considera as penas que Jesus sofre por ti; vê com que amor esse terno Salvador desceu do céu para te procurar. Não ouves os seus gritos, os seus vagidos infantis? Apenas nascido, dirige-se a ti; escuta como ele te chama com seus vagidos: Ó alma a quem amo, parece dizer-te, eu te procuro; é por amor de ti, para obter o teu amor que vim do céu à terra."

Ó Deus, os próprios animais, quando lhes fazemos algum benefício, quando lhes damos alguma coisa, mostram tanto reconhecimento! Vêm a nós, obedecem-nos a seu modo como sabem, testemunham-nos alegria ao ver-nos. E nós, como podemos ser tão ingratos para com Deus, que se deu a nós, que desceu do céu à terra, se fez menino para nos salvar e ser de nós amado? Amemos pois o Menino de Belém! exclama o seráfico S. Francisco. Amemos a Jesus Cristo que com tanto empenho procurou ganhar os nossos corações!

Sto Afonso de Ligório, Nascimento e Infância de Jesus Cristo

A Sombra da Cruz sobre o Presépio: Natal, Eucaristia, Abandono em Deus, Paixão e Ressurreição


Edith Stein

"E o Verbo se fez carne". Isto se tornou realidade no estábulo de Belém. Mas cumpriu-se ainda de outra maneira. "Quem comer a minha carne e beber o meu sangue, este terá a vida eterna." O Salvador que sabe que somos e permanecemos humanos, tendo que lutar dia após dia, com fraquezas, vem em auxílio da nossa humanidade de maneira verdadeiramente divina. Assim como o corpo terrestre precisa do pão cotidiano, assim também a vida divina em nós precisa ser alimentada constantemente.

"Este é o pão vivo que desceu do céu". Quem come deste pão todos os dias, neste se realizará, diariamente, o mistério do Natal, a Encarnação do Verbo. E este, certamente, é o caminho mais seguro, para se tornar "um com Deus" e de penetrar dia a dia de maneira mais firme e mais profunda no Corpo Místico de Cristo.

Eu sei que para muitos pode parecer um desejo por demais radical. Para a maioria, isto significa começar de novo, uma reorganização de toda a vida interna e externa. Mas deve ser assim! Na nossa vida deve se criar espaço para o Cristo eucarístico, para que Ele possa transformar a nossa vida na Sua vida: será que exigir demais?

A gente tem tempo para tantas coisas fúteis, tantas coisas inúteis: ler livros, revistas, jornais, frequentar restaurantes, conversar na rua 15 ou 30 minutos, tudo isto são "dispersões", onde esbanjamos tempo e força. Não se poderá reservar uma hora pela manhã para se concentrar e ganhar força para enfrentar o resto do dia?

Mas, na verdade, é necessário mais que uma hora. Devemos viver de tal maneira, que uma hora se suceda à outra e estas preparem as que vierem. Assim, não será mais possível "deixar-se levar" mesmo temporalmente pelo afã do dia. Com quem se vive diariamente, não se pode desconsiderar o seu julgamento. Mesmo sem dizer palavras, percebemos como os outros nos consideram. Tentamos nos adaptar conforme o ambiente e, se não conseguimos, a convivência se torna um tormento. Assim também acontece na comunicação diária com o Senhor. Tornamo-nos cada vez mais sensíveis àquilo que Lhe agrada ou desagrada. Se antes, estávamos mais ou menos contentes com nós mesmos, agora isto se torna diferente. E descobriremos em nós muita coisa que precisa ser melhorada (...). Assim nos tornaremos pequenos, humildes, pacientes e condescendentes com o "cisco no olho de nosso próximo", pois a "trave" no nosso olho nos incomoda. Finalmente, aprenderemos a aceitar-nos tal qual somos à luz da presença divina e a nos entregar à divina misericórdia, que poderá vencer tudo aquilo que está além de nossas forças.

Da auto-suficiência de um "bom católico" que "cumpre com seus deveres", que "lê um bom jornal" e "vota certo", etc. - mas que, no entanto, pratica o que ele bem quer - há um longo caminho até chegar a viver na mão de Deus e da mão de Deus, na simplicidade da criança e na humildade do cobrador de impostos. Mas quem uma vez andou, não voltará atrás. Assim, filiação divina quer dizer: tornar-se pequeno e, ao mesmo tempo, tornar-se grande. Viver da eucaristia quer dizer: sair, espontaneamente, da estreiteza da própria vida e penetrar na amplitude da vida de Cristo. Quem visita o Senhor na sua casa não quer se ocupar sempre e somente com seus problemas. Vai começar a interessar-se pelas coisas do Senhor. A participação no sacrifício diário nos leva livremente à totalidade litúrgica. As orações e os ritos do culto divino nos apresentam, no correr do ano litúrgico, a história da salvação diante da nossa alma, deixando penetrar-nos sempre mais profundamente de sentido.

E a ação sacrificial nos impregna sempre de novo o mistério central da nossa fé, o ponto angular da história universal: o mistério da Encarnação e Redenção. Quem poderia com coração aberto participar do santo sacrifício  sem ser tomado pelo desejo dele mesmo e com sua pequena vida pessoal se integrar na grande obra do Salvador? Os mistérios do cristianismo são um todo indiviso. Quando nos aprofundamos num deles, somos conduzidos para todos os outros. Assim, o caminho de Belém conduz, seguramente, para o Gólgota; do presépio para a Cruz. Quando a bem-aventurada Virgem levou a criança para o templo, foi-lhe profetizado que uma espada atravessaria a sua alma, e que esta criança seria a causa da queda e do reerguimento de muitos; um sinal de contradição. É o anúncio da paixão, da luta entre a luz e treva, que já se manifesta no presépio.

Em alguns anos a apresentação do Senhor coincide com a septuagésima, a celebração da encarnação e a preparação para a paixão. Na noite do pecado brilha a estrela de Belém. No esplendor da luz, que sai do presépio, cai a sombra da cruz. A luz se apaga nas trevas da sexta-feira santa, mas se levanta com mais fulgor, como sol da graça, na manhã da ressurreição. Através da cruz e da paixão para a glória da ressurreição, foi o caminho do Filho de Deus encarnado.

Chegar com o Filho do homem, pela paixão e morte à glória da Ressurreição, é o caminho de cada um de nós, por toda a humanidade.

Sta Teresa Benedita da Cruz (Edith Stein), O Mistério do Natal

O Natal é Mistério; não o reduzamos à nossa medida


É preciso ver o Menino, nosso Amor, no seu berço, olhar para Ele sabendo que estamos perante um mistério. Precisamos aceitar o mistério pela fé, aprofundar no seu conteúdo. Para isso necessitamos das disposições humildes da alma cristã: não pretender reduzir a grandeza de Deus aos nossos pobres conceitos, às nossas explicações humanas, mas compreender que esse mistério, na sua obscuridade, é uma luz que guia a vida dos homens.

Vemos - diz São João Crisóstomo - que Jesus saiu de nós, da nossa substância humana, e que nasceu de Mãe virgem; mas não entendemos como pôde ter-se realizado esse prodígio. Não nos cansemos tentando descobri-lo: aceitemos antes com humildade o que Deus nos revelou, sem esquadrinhar com curiosidade o que Deus nos escondeu. (In Matthaeum homiliae 4, 3 (PG 57, 43)).

Assim, com este acatamento, saberemos compreender e amar; e o mistério será para nós um esplêndido ensinamento, mais convincente que qualquer raciocínio humano.

S. Josemaría Escrivá, É Cristo que Passa

Natal, Eucaristia, Sacramento e Sacrifício


As relações entre o nascimento do Salvador em Belém com a Eucaristia considerada como Sacramento, também se estabelecem com a Eucaristia sob o aspecto de sacrifício.

Em verdade, é um cordeirinho que nasce em Belém: Jesus nasce como o cordeiro, no estábulo, e a seu exemplo conhece unicamente sua Mãe. Seu primeiro vagido é oferecer-se desde logo ao sacrifício: "Hóstias et oblationes noluisti, corpus autem aptasti mihi" - Pai, não quiseste senão me dar um corpo, eis-me aqui (cf. Sl 39,7-9; Hb 10,5-7). Este corpo é a condição necessária para a imolação, e Jesus o oferece a seu Pai.

O cordeirinho vai crescer, ao lado de sua Mãe, e, dentro de quarenta dias, Ela conhecerá o segredo de sua imolação. Maria O alimentará com seu leite puro e virginal, guardando-O para o dia do sacrifício. Este caráter de vítima está de tal forma gravado sobre Ele que São João, ao avistá-lO no primeiro dia de sua vida pública, O designou pelo nome de Cordeiro divino: "Ecce Agnus Dei, ecce qui tollit peccata mundi" (Jo 1,29)

O sacrifício começado em Belém se consuma sobre o altar na Santa Missa.

S. Pedro Julião Eymard, Flores da Eucaristia

O Presépio e a Eucaristia


"Em Belém, Jesus começa também a praticar as virtudes do estado sacramental. Oculta sua divindade para acostumar o homem a tratar com Deus e esconde sua glória divina a fim de chegar, gradativamente, a esconder mesmo a sua humanidade; tolhe o seu poder pela fraqueza dos membros infantis: mais tarde há de torná-lo cativo sob as santas espécies. Faz-se pobre, despoja-se de toda propriedade, ele que é o Criador e Soberano Senhor de todas as coisas. O presépio não Lhe pertence, foi-Lhe dado por esmola; vive, com sua Mãe, das ofertas dos pastores e dos presentes dos Magos. Mais tarde, na Eucaristia, há de pedir ao homem abrigo, matéria para o Sacramento, e vestes para o seu Sacerdote e o seu altar."

S. Pedro Julião Eymard, Flores da Eucaristia.
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