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Só quem ama compreende.


Os seres humanos se sentem sós, abandonados em sua auto-afirmação, enquanto não encontrarem um eco, aceitação e confirmação de fora. A tendência de união encontrada em todo o universo, na vida humana apresenta-se em escala e graduação ascendentes, conforme os níveis de vida. No nível biológico, no "sexo", há apenas abraços, contato epidérmico, tentativa de penetração que, de maneira nenhuma, por mais repetidos que sejam, podem saciar o desejo de plena união. No nível emocional, na "paixão", no "Eros" atinge-se certo paralelismo, sintonização de vibrações psíquicas, projeção recíproca de emoções pessoais no parceiro. Um jogo a dois, mas que não é nem de longe verdadeira união. É no nível da vida consciente e livre, no nível pessoal, que se realiza verdadeira união.

O verdadeiro amor é amor-amizade. É união entre duas personalidades. É conhecimento, reconhecimento de um Eu para com outro Eu diferente, que se deve aceitar na realidade própria e inconfundível; mas não como lâmpada excitadora de sonhos e excitações; nem como manequim a vestir a esplêndida roupagem de nossa imaginação.

É significativo como a Escritura designa a união amorosa conjugal: "Adão conheceu sua mulher e ela o concebeu" (Gen 4,1). Não podemos conhecer uma pessoa como os demais objetos que nos rodeiam. A nossa inteligência é um receptáculo de capacidade elástica quase ilimitada: nele podemos receber o mundo todo, dando-lhe assim nova existência. Conhecer alguma coisa é dar-lhe existência reflexa dentro de nós. É uma espécie de nova criação. Quanto mais coisas conhecemos, mais se alargam os nossos horizontes, nosso mundo interior. A todos objetos podemos dar assim nova existência "subjetiva" dentro de nós. Menos a outras pessoas. Nenhuma pessoa é simples"objeto"; é sempre "sujeito", indivíduo: um mundo inteiro, fechado e inacessível a estudo "objetivo". Por mais que observemos e analisemos uma pessoa, não a "compreendemos", não a apreendemos completamente, transferindo-a para nosso mundo interior. A chave única que dá acesso ao "jardim fechado" do Eu diferente é o amor. Só quem ama, compreende.

Mas amar significa antes de tudo: sair do "jardim fechado" do próprio Eu. É abrir-se para encontrar porta aberta. Aí está a razão porque se ama tão pouco nesse mundo. Há uma dolorosa dissonância no homem. De um lado, aspira ardentemente à união que rompa o isolamento. Do outro, receia essa mesma união como ameaça à sua personalidade. Efeito ainda do pecado original. Tendo rompido o homem a união e harmonia com Deus, perdeu também a capacidade de estabelecer, com naturalidade e espontaneidade, relações mútuas, união harmoniosa. Sente-se por demais exposto, vulnerável, inseguro, ameaçado no seu valor pessoal. Mas amar é sempre abrir-se. E abrir-se é arriscar-se. O medo inibe. O egoísmo procura antes de tudo segurança. Mas, quando prevalece o instinto de segurança, nunca se chegará a amar. E sem amor não se encontra a plenitude da vida. A eterna desconfiança, o eterno medo tranca o homem dentro de si mesmo e fá-lo murchar, estiolar, atrofiar-se. Querendo salvar-se, tudo perde. Quem amar a sua vida (a sua segurança pessoal) acima de tudo, perdê-la-á; mas quem a perder (quem se ariscar, se abrir para o Tu), ganhá-la-á. Isso vale tanto para o amor humano, como para o divino. É preciso abrir a porta, senão a vida estancará no isolamento. A união é transfusão de novo sangue. Só nela se encontra sentido e felicidade. Nisso há evidentemente risco. Quem se abre, expõe-se ao perigo de ser invadido e explorado. Mas, antes a possibilidade de uma exploração, que a certeza de estiolamento.

Frei Valfredo Tepe OFM. O sentido da vida. Ascese cristã e psicologia dinâmica. 3ª ed. Bahia: Mensageiro da Fé, 1960. p. 230-232.

Instinto Sexual e Castidade II: Moralidade das poluções noturnas e prazeres sexuais involuntários


Tanto o castelo de fada, como a casa da bruxa exercem misteriosa atração. Não só o desejo, também o medo aprisiona a vida emocional num círculo mágico. A sexualidade não é fada nem bruxa. O conhecimento sóbrio de sua realidade, como tendência psico-biológica de caráter universal e dinamismo considerável, "desencanta" sua atuação sobre fantasia e vida emocional.

Deixar uma criatura na ignorância (na "bela" inocência"), sob pretexto de preservá-la dos perigos da sexualidade, é lamentável desserviço. Justamente tal ignorância afetada de uma realidade dinâmica existente em todos os seres é que produz inquietações e angústias desnecessárias. A tensão nervosa favorece aquilo que se quer evitar. O medo de um perigo desconhecido pode tiranizar o psiquismo a ponto de lhe impor idéias fixas ou atos coercitivos que intimamente se detestam. Devemos aceitar com realismo e humildade a natureza humana como Deus a fez. Então teremos a disposição exata para resolver as dificuldades.

Temos corpo, temos sexo - e não temos mais o dom da integridade. Essas reflexões conservar-nos-ão serenos diante de movimentos e sensações carnais involuntários. O corpo pode ser excitado por fatores independentes da nossa vontade. Nesse ponto, a medicina esclarece a ascese: "Em qualquer idade, homens e mulheres podem experimentar, sob influências diversas, sensações mais ou menos claras, localizadas nos órgãos da geração. É preciso sabê-lo e não se amedrontar. Não se deve prestar a isso atenção maior do que se presta aos demais fenômenos fisiológicos. O sentimento de pureza não deve degenerar em obsessão; e não há motivo para perturbar-se, se uma sensação genital é percebida agradavelmente: nada pode impedir que uma sensação da retina seja luminosa; de igual modo, modificação circulatória da zona sexual é necessariamente acompanhada de prazer. Neste caso, a culpabilidade consistiria na entrega ao prazer, em fazer tudo para melhor experimentar e gozar, e mais ainda na provocação." (1)

Pode ser enfadonho e humilhante constatar e sofrer passivamente tais excitações involuntárias dos órgãos sexuais. É preciso olhar para o movimento da alma e não do corpo. Os fenômenos fisiológicos, considerados em si, são indiferentes. A malícia depende só e sempre da vontade, da parte que essa teve em provocar a sensação ou em comprazer-se nela. Não se confunda complacência da vontade com a sensação fisiológica de prazer. (Sentir na esfera psico-biológica não é o mesmo que consentir na esfera espiritual).

De maneira particular não sejam motivo de perturbações os sonhos e poluções noturnas. Os movimentos semiconscientes que precedem o sono e, mais ainda, os que antecedem e seguem imediatamente o despertar, nunca são plenamente responsáveis. Por isso não há aí pecado mortal. "É preciso não confundir estas manifestações involuntárias da atividade sexual com os atos imorais propriamente ditos, ainda que as poluções noturnas se efetuem tão próximas ao acordar que a sensação que as acompanha se torne plenamente consciente. Mesmo que, ao despertar, o indivíduo tenha consciência de certa participação de gestos, subsiste ainda a diferença entre estes fenômenos e ato voluntário, executado com a intenção de provocar a sensação, que constitui a masturbação." (2)

É preciso não esquecer que a atividade sexual é uma das mais fortes da natureza humana. Ela pode ser refreada, canalizada, mas nunca extirpada. Muitas de suas manifestações fogem ao governo e freio da vontade, sobretudo no sono, cessando a vida espiritual consciente. Os 'sonhos maus' são mesmo a válvula natural para atividade sexual refreada. "É próprio da natureza humana que as poluções noturnas (nós damos à palavra o sentido estrito de ejaculação espermática durante o sono) sejam frequentemente acompanhadas de sonhos voluptuosos, ou que tais sonhos se dêem na mulher enquanto dorme e que tomem como elementos pessoas que se conhecem, se amam, aos quais se está unido espiritualmente. Não há nisso matéria de remorso, mas só de humildade em verificar que se está sujeito à condição humana. Nem há motivo para cessar de ver com toda a simplicidade aqueles ou aquelas que o subconsciente uniu nas suas divagações." (3)

Para quem a autoridade do médico católico, acima citado, que desde longos anos tem sido assistente de seminários e conventos, não é suficiente neste terreno, referimos a palavra de Sto Tomás que dedica um artigo inteiro ao assunto e chega à conclusão: "A polução noturna não é pecado; pode, às vezes, ser consequência de um pecado anterior." (4) Que atitude serena em face de um fato fisiológico que em si nada tem a ver com a moral! Pois sem o uso da razão - suspenso no sono - não se pode falar em atos morais. Pode de alguma maneira ser efeito de uma atitude precedente leviana, como leituras ou conversas excitantes. Mas a culpabilidade desses atos conscientes deve ser julgada por si mesma, não pelo efeito eventual de uma polução noturna, já que é impossível estabelecer o nexo causal exato, podendo influir outras causas inculpáveis.

Fora do sono, admite Sto Tomás ainda duas outras situações em que alguém, sem querer, portanto sem culpa moral, pode experimentar satisfação carnal completa: enfermidade orgânica e "violência em que a alma não consente, embora a carne experimente o prazer".(5)

Provavelmente pensa Sto Tomás em violência física externa, mas nada impede de aplicar a tese também à violência interna de impulsos psíquicos irresistíveis. Indivíduos que procuram libertar-se de vícios contraídos, ou pessoas neuróticas que sofrem de impulsos sexuais coercitivos (não raro contraídos pelo recalque desastroso de toda a esfera sexual), beiram frequentemente o abismo do desespero. Julgam-se, em todos os atos, plenamente culpados. É preciso esclarecê-los que hábitos contraídos e impulsos coercitivos diminuem a liberdade e com isso a culpa; podem mesmo chegar a constituir autêntica violência, e essa, segundo Sto Tomás, exime de culpabilidade.

(1) Blot-Galimard. Guide médical des vocations sacerdotales et religieuses, 19523 p. 269.
(2) Blot - Galimard, op. c. p. 271.
(3) Blot - Galimard, op. c. p. 270.
(4) S. th. II. II. 154, 5.
(5) S. th. II. II. 152, 1 ad 4.

Frei Valfredo Tepe OFM. O sentido da vida. Ascese cristã e psicologia dinâmica. 3ª ed. Bahia: Mensageiro da Fé, 1960. p. 110-112.

Instinto Sexual e Castidade I


As duas necessidades do ser vivo: manter-se e abrir-se, vemo-las expressa marcadamente nas duas paixões mais fortes que incessantemente ocupam o esforço ascético: a tendência sexual que corresponde à necessidade de comunicação, e a tendência agressiva que corresponde à necessidade de auto-conservação. A tendência sexual é dirigida pela castidade; a tendência agressiva, a ira, pela mansidão.

A castidade não tem por objeto a eliminação ou metamorfose dos instintos. Bem diz Pio XII na encíclica sobre a virgindade: 'A virtude da castidade não exige de nós que nos tornemos insensíveis ao estímulo da concupiscência, mas que o subordinemos à razão e à lei da graça.'(1) Aviso importante para almas angustiadas que se atormentam a si mesmas com impressões e sensações de caráter sexual, embora tais sensações não estejam debaixo de seu poder. O que no máximo podia ser classificado como tentação, logo consideram como pecado. Nasce o sentimento de culpabilidade que fixa a atenção sobre o assunto. A fixação da atenção sobre o assunto sexual exacerba a tentação: a alma debate-se num círculo vicioso e chega, pressionada por idéias fixas ou impulsos coercitivos, a fazer o que mais receia e detesta.

Quanta angústia e quanto desgaste nervoso não resulta do desconhecimento da natureza humana! A vida sensitiva funciona, em grande parte, automaticamente. Chegando alguma impressão a um sentido, logo este toma posição e , se lhe convém, acha nele prazer e procura a continuidade da impressão; não lhe convindo, porém, acha-lhe desprazer e procura afastar-se. A procura do bem correspondente é necessidade intrínseca da natureza, tanto na esfera biológica, como psíquica e espiritual. Nenhum homem pode impedir que um prato saboroso lhe agrade e o atraia. Nenhum homem pode evitar que aquilo que convém à sexualidade lhe provoque as sensações e tendências correspondentes. Sob tal aspecto ninguém pode mudar ou eliminar a vida sensitiva. O que é da natureza não se pode expulsar.

Mas essas reações automáticas precisam de regulativo. Nos animais, é o instinto que mantém as tendências sensitivas dentro de um justo limite que não prejudique a vida total. No homem, esse regulador instintivo se encontra mal desenvolvido, especialmente em referência à vida sexual. Para ele, o regulativo é o próprio espírito que, conhecendo as necessidades diversas e os perigos possíveis, deve dirigir e condicionar os movimentos automáticos dos sentidos. Essa direção e vigilância custam esforços contínuos, porque a vida sensitiva está constantemente em atividade; custam, não raro, esforços heróicos, pois, às vezes, as paixões resistem com força, querendo seguir independentes o próprio caminho. Dessa atividade reguladora do espírito depende em grande parte a perfeição do homem, a elaboração espiritual de sua vida, a realização de si mesmo.

A lei estratégica básica dessa atividade é chamada fuga. Por causa da função automática da vida sensitiva, acontecerá muitas vezes que surjam impressões, sensações e tendências que o homem, em vista da finalidade espiritual superior, não pode admitir - em outras palavras, tornam-se para ele tentação, solicitação para canalizar a energia em direção não-construtiva. Que pode e deve o homem fazer em tal caso? A resposta resulta logicamente da natureza automática de tais movimentos. É impossível mudar agrado em desagrado, o prazer em desprazer. O prazer será o estado natural, enquanto durar a impressão exterior. Portanto só resta ao homem uma saída: colocar-se fora do alcance de tal impressão ou do objeto que a provoca. Então se amortece, gradativamente, a sensação e o perigo será debelado.

É antiquíssima a lei ascética de evitar e fugir nas lutas pela castidade. Sendo a única atitude lógica e natural, não demonstra fraqueza ou covardia, mas prudência, isto é, conhecimento exato da realidade e conformação com ela. Enfrentar o perigo, fazer-se de forte, aparentar insensibilidade estóica, é ignorância da natureza humana e desconhecimento das estratégias diferentes na luta pela perfeição: "Os assaltos do pecado devem ser vencidos às vezes pela fuga, e outras pela resistência. Pela fuga, quando uma ocupação demorada dos pensamentos forneceria novo incentivo ao pecado, como acontece na impureza. Por isso, foi dito: 'Fugi da fornicação.' (1Cor 6,18) (2)

(1) Pio XII, Encíclica sobre a Sagrada Virgindade. In: Revista Eclesiástica Brasileira, vol. 14 fasc. 2, julho 1954, p. 451.
(2) S. th. II. II. 35, 1 ad 4.

Frei Valfredo Tepe OFM. O sentido da vida. Ascese cristã e psicologia dinâmica. 3ª ed. Bahia: Mensageiro da Fé, 1960. p. 110-112.
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