Passamos pelo Pentecostes, no último domingo, e adentramos, novamente, no Tempo Comum. Porém, um dia é suficiente para levantar de novo o ânimo dos carismáticos que, baseados numa leitura estranha e extra-católica do livro dos Atos, atribuem ao Espírito Santo uma série de coisas que Ele não faz.
Obviamente, há muitas pessoas sinceras no carismatismo, de modo que, quando escrevemos algo sobre isto, não queremos tratar dos adeptos, mas do movimento em si, e somente o fazemos em vista da Verdade. A caridade nos exige.
Longe de mim querer esgotar num texto assim o número de erros e doutrinas avessas à Fé Católica presentes no carismatismo ou na dita RCC. De fato, são de naturezas muito diferentes, e se há, hoje, qualquer confusão entre o catolicismo e o pentecostalismo, é somente em virtude do desconhecimento do primeiro. De fato, a inequívoca doutrina da Igreja não se coaduna com movimentos nascidos do mais irresponsável e ingênuo protestantismo.Vejamos, somente, alguns pontos.
O sincretismo, isto é, a mistura relativista de movimentos diferentes, como se mil pássaros amarrados, pelo fato de conterem duas mil asas, pudessem fazer algum tipo estrambólico de vôo, sempre foi condenado pela Igreja. Representa, na verdade, um desrespeito contra a Verdade revelada. Pio XII chamava esta atitude de "falso irenismo" que consiste no cultivo de uma falsa paz (caricato da caridade) pelo sacrifício da Verdade. Desde que a Verdade, para os cristãos, é uma Pessoa e esta Pessoa é Deus, amar a Verdade sobre todas as coisas é um dever estrito de todo e qualquer católico. Por isto, Nosso Senhor nos dava a Sua Paz, a Paz que o mundo não pode dar, pois não é fruto da transigência dos retos valores nem da covardia, mas é proveniente da mesma Verdade que se amou e pela qual se entregou a vida.
Se observarmos o carismatismo, ele mantém inúmeros traços de sua origem. Geralmente, os seus adeptos são pessoas muito dadas a esta falsa compreensão do ecumenismo, que defende o ideal maçom da fraternidade universal. Por isto, negam na prática o dogma proclamado no IV Conc. de Latrão, e que afirma firmemente que "Fora da Igreja não há Salvação". Na verdade, negar tal dogma é a única forma de defender a legitimidade do movimento carismático, já que a sua origem protestante não é nenhum mistério. Se a Salvação só se dá pelo Espírito Santo e, se não há Salvação fora da Igreja, o que faria o Espírito Santo no protestantismo? Se realmente a Igreja necessitasse de tal "renovação", porque ela não teria origem na própria Igreja? O Sumo Pontífice Pio XII diz ainda que "nem Salvação nem Santidade" podem ser encontradas fora da Igreja. Eis, portanto, a contradição do Mons. Jonas ao dizer, algum tempo atrás, que os protestantes eram "lindos e santos". As grandes forças do carismatismo somente podem ser duas: ou a ignorância ou a má intenção. Tomemos o cuidado de não atribuir esta última a alguém em particular, pois então cairíamos no pecado do julgamento proibido por Nosso Senhor. Portanto, trabalhemos para que a ignorância dos carismáticos, seja, então, vencida. Repito, a caridade nos exige.
Continuemos. Se se nega a veracidade da proposição "Fora da Igreja não há Salvação", está-se indo contra a infalibilidade da Igreja, o que causa automática excomunhão. Se, porém, um carismático aceita a validade do dogma, então coloca-se em contradição, por ser, ele mesmo, adepto de um movimento de origem protestante.
E não está claro que, se de fato a Igreja precisasse receber o Espírito Santo de uma outra, ela se poria, então, abaixo desta outra, como se dela necessitasse? Eis que, com a defesa desta alternativa, acaba-se por inutilizar toda a hierarquia católica, pela qual Nosso Senhor assiste a Igreja. Se o Espírito Santo nos vem a partir da imposição das mãos de um "pastor" protestante, que necessidade teríamos dos Sacramentos, ou dos ministros ordenados?
Sendo um movimento originalmente protestante, a RCC mantém-se inclinada a isto, vendo com bons olhos todas as seitas que partilham das mesmas "experiências". O quesito fundamental, portanto, torna-se o dito "batismo no Espírito Santo", espécie de ritual de iniciação, reputando ao escanteio os verdadeiros componentes da Fé, como a reta doutrina da Igreja e a centralidade dos sacramentos. Recentemente, tive a infelicidade de ouvir mais uma "pregação" carismática. Nela, se falava do evento de Pentecostes. Dizia a "pregadora" que, naquela ocasião, no cenáculo, o Espírito Santo havia vindo sobre todo mundo, de todas as raças, o que significava que o Espírito Santo não pertencia a um povo, ou a uma raça, ou sequer a uma Igreja, mas que vinha sobre todos que se abrissem.
Ora, esta pregação é muito problemática; típica dos protestantes que "pregam a briba" (sic) sem o mínimo preparo. A pregadora não precisou o que significa este "se abrir". Esqueceu-se de dizer também que, em Pentecostes, o Espírito Santo desceu sobre "Maria e os Apóstolos" e, portanto, sobre a Igreja, e que, com esta graça, Pedro converteu 3.000 pessoas que, então, se tornaram católicas. Não notou a pregadora sincrética (alguns diriam ecumênica) que o Espírito Santo confirmou a hierarquia da Igreja. Pobres dos desavisados que, se levarem a sério o que ali foi dito, em plena solenidade de Pentecostes, vão crer que não há mal algum em entrar em um boteco de esquina e escutar um qualquer só porque ostente o título de "pastor".
O problema da RCC não se reduz, porém, à sua origem ou à sua abertura sincrética, isto é, à negação prática do dogma referido acima. (Lembremos que negar um dogma é causa de excomunhão automática). Ele se estende ao ensinamento carismático, mesmo quando, por vezes, alguns dos seus membros, um pouco mais informados sobre o que a Igreja ensina, tenta acidentalmente conciliar o carismatismo com a doutrina tradicional.
Primeiramente, convinha saber de onde surgiu esta identificação entre os fenômenos "carismáticos" que se observam hoje e aqueles que ocorreram com os primeiros cristãos. Por que se deduziu que o carisma das línguas dos tempos apostólicos era ininteligível? E, ainda que fosse, qual a garantia de que seria um som repetitivo como o que se costuma fazer? Interessantes os modismos: há pessoas que "aprendem" a fazer de um jeito. Depois, escutam um pregador famoso rezar de outro e, logo em seguida, passam a imitá-lo, seja na repetição contínua das mesmas sílabas, seja na entonação com que se "fala" ou se "canta".
Depois, quem disse que estes fenômenos, os carismas autênticos, eram ordinários, isto é, deviam ser para qualquer um?
Está claro que o fenômeno de Pentecostes, onde os Apóstolos se faziam entender em todas as línguas, é uma contraposição àquele da Torre de Babel onde, tomados de soberba, os homens intentavam chegar aos céus por sua própria força e, tendo Deus dividido as suas línguas, já não se entendiam. O Espírito Santo substituiu, portanto, o caos pela ordem. Os carismáticos, porém, parecem preferir a anarquia de Lutero, onde cada um define as suas próprias verdades e acessa o Espírito Santo por si mesmo, num igualitarismo absurdo em que cada um se revela uma autoridade.
Há ainda a ênfase carismática do caráter emotivo, interpretando as sensações e os sentimentos que se experimentam (geralmente induzidos) como se fossem toque de Deus, caindo num fenomenalismo e subjetivismo grosseiros. E tudo isto quando a mística católica adverte a não desejar tais coisas, nem dar-lhes demasiado valor. Cai-se aí num sensacionalismo, enquanto que a espiritualidade católica tende a ver com bons olhos, ao contrário, a simplicidade do cotidiano, a ordinariedade dos pequenos eventos.
Além disto, a RCC, pregando que os ditos carismas são fator essencial, negam o dogma da indefectibilidade que afirma que os elementos essenciais da Igreja jamais desaparecerão. A RCC afirma um grande hiato carismático entre os tempos apostólicos e o surgimento do pentecostalismo, identificando, neste espaço, apenas umas poucas manifestações do Espírito Santo, nos fatos extraordinários da vida dos santos. Dessa forma, eles põem as suas "experiências" em pé de igualdade com aquelas vivenciadas pelos grandes místicos. Já vi, inclusive, um livro que buscava mostrar que Sta Teresa D'avila, nos seus êxtases e arroubos, vivia, na verdade, algo semelhante às experiências que os carismáticos viveriam séculos mais tarde. Pura ingenuidade...
Além disto, a busca irrefletida das primeiras experiências ou dos tempos apostólicos supõe um desprezo pela Tradição, e leva-os a cair na heresia já condenada chamada "antiquarianismo". O costume, também carismático, de dividir a história em três grandes partes, cada qual atribuída a uma das Pessoas da SS. Trindade, culminando no tempo do Espírito Santo ou o que alguns chamam de "Igreja do Apóstolo João" já foi condenado pela Igreja, desde o seu funfador, o herege Joaquim de Fiori. Há um bom tempo atrás, eu ouvia o cantor Laércio Oliveira repetir esta mesmíssima teoria.
Estas e outras questões são extensivamente tratadas em vários artigos. Quem se interessar por elas, se ainda não as tiver estudado mais profundamente, poderá encontrá-las com relativa facilidade. São questões irrenunciáveis a qualquer um que tenha o mínimo de sinceridade.
Portanto, este movimento romântico e aparentemente católico representa um risco para a Fé. Coisa que sempre digo: qualquer um que se dedicar a um mínimo estudo da tradição espiritual da Igreja verá que este meio que misticismo protestante, com fortes características gnósticas, em nada se coaduna com a Igreja. A sua aparência devota se deve ao fato de utilizar elementos católicos, como a devoção a Nossa Senhora, ao Espírito Santo, ou à Santíssima Eucaristia, esta última característica de alguns grupos em particular. O erro, porém, é tanto mais nocivo quanto mais aparenta ser verdade.
Novamente, esclareço: escrevo pelos carismáticos, contra o carismatismo. O verdadeiro católico não precisa se vincular a estas coisas. A mística tradicional é mui rica e madura. Basta conhecê-la para rejeitar estas caricaturas devocionais. Como dizia Nosso Senhor: "A verdade vos libertará".
Obs.: Já fui carismático. Sei do que falo.
Quaisquer dúvidas, comentem aí...
Que a Virgem nos conduza.
Fábio.