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Amemos o bom Deus - S. Cura D'Ars



O homem criado por amor não pode viver sem amor: ou ama a Deus ou ama o mundo. Aquele que não ama a Deus apega o seu coração a coisas que passam como a fumaça.

Quanto mais conhecemos os homens, tanto menos os amamos. É o contrário relativamente a Deus: quanto mais o conhecemos, tanto mais o amamos. Esse conhecimento abrasa a alma de tão grande amor, que ela não pode mais amar nem desejar senão a Deus...

O amor de Deus é um antegozo do céu: se soubéssemos frui-lo, oh! como seríamos felizes! O que faz que sejamos infelizes é não amarmos a Deus.

Há pessoas que não amam o bom Deus, que não lhe rezam e que prosperam; é mau sinal! Têm feito um pouco de bem através de muito mal. O bom Deus recompensa-os nesta vida.

Cumpre fazer com os pastores nos campos durante o inverno: acendem fogo: mas de quando em quando correm a apanhar lenha de todos os lados para alimentá-lo. Se soubéssemos, como os pastores, alimentar sempre o fogo do amor de Deus no nosso coração mediante orações e boas obras, ele não se apagaria.

S. João Maria Vianney, Pensamentos Escolhidos do Cura D'Ars

Sta Teresinha fala sobre sua Primeira Comunhão


Raiou, enfim, o "mais belo de todos os dias". Quão inefáveis não são as recordações que na alma me deixaram as mínimas circunstâncias dessa data do Céu!... A alegre alvorada, os respeitosos e afetuosos ósculos das mestras e das colegas maiores... O salão nobre, repleto de tufos cor de neve, com os quais cada criança se via adornada por sua vez... Acima de tudo, a entrada na Capela e a entoação matinal do lindo cântico: "O Santo Altar, que de Anjos sois rodeado!"

Não quero, contudo, descer a pormenores. Coisas há que perdem a fragrância, quando expostas ao ar. Existem pensamentos da alma que não se podem traduzir em linguagem terrena, sem perderem o sentido autêntico e celestial. São como a "pedrinha branca que se dará ao vencedor, sobre a qual está escrito um nome, que ninguém CONHECE, senão QUEM a recebe. (Ap 2,17). Ah! como foi afetuoso o primeiro ósculo de Jesus à minha alma!...

Foi um ósculo de amor. Sentia-me amada, e de minha parte dizia: "Amo-vos, entrego-me a Vós para sempre". Não houve pedidos, nem porfias, nem sacrifícios. Desde muito, Jesus e a pobre Teresinha se tinham olhado e compreendido. Naquele dia, porém, já não era um olhar, era uma fusão. Já não eram dois, Teresa desvanecera, como a gota de água que se dilui no bojo do oceano. Ficava só Jesus, era Ele o Senhor, o Rei. Teresa pedira-lhe tirasse sua liberdade, pois sua liberdade lhe fazia medo. Sentia-se tão fraca, tão frágil, que desejava permanecer para sempre unida à Força Divina!... Sua alegria era grande demais, era profunda demais, para que a pudesse represar. Não tardou em debulhar-se em deliciosas lágrimas, com grande espanto das colegas que, mais tarde, diziam entre si: "Por que será que chorou? Sentiria algo que a acabrunhasse?... Não será, antes, por não ver junto a si a própria mãe ou a irmã, que é carmelita, a quem tanto ama?" - Não compreendiam que, ao descer a um coração toda a alegria do Céu, não a pode suportar um coração banido, sem derramar lágrimas... Oh! não! A ausência de Mamãe não me contristava no dia de minha Primeira Comunhão. Não estava o Céu dentro de mim, e nele não tinha Mamãe desde muito tomado lugar? Desta forma, quando recebi a visita de Jesus, recebi também a de minha querida Mãe, que me abençoava e se regozijava com minha felicidade...

Não chorava, outrossim, a ausência de Paulina. Sem dúvida alguma, ficaria contente, se a visse ao meu lado, mas desde muito meu sacrifício estava aceito. Nessa data, meu coração se encheu só de alegria. Uni-me a ela, que irrevogavelmente se dava Àquele que tão amorosamente se dava a mim!...

Sta Teresinha de Lisieux, História de Uma Alma

02 de Agosto - Dia de Indulgência Plenária


Pessoal, hoje, dia 02 de Agosto, todos nós podemos obter a grande graça da Indulgência Plenária, desde que observemos alguns requisitos.

Esta indulgência foi, primeiramente, conseguida por S. Francisco de Assis após um encontro místico com Jesus, no ano de 1216. Estando recolhido em oração na igreja de Santa Maria dos Anjos, S. Francisco obteve de Nosso Senhor uma celestial visita e a graça de lhe ser concedido o que desejasse. Ele pediu, então, que todos aqueles que entrassem naquela igrejinha da Porciúncula, em Assis, recebessem o perdão total de seus pecados, tanto das culpas quanto das penas. Jesus, após lhe dizer que aceitava seu pedido, mandou-o solicitar tal graça com o Santo Padre, na época o Papa Honório III.

Não obstante fosse um pedido incomum, o Santo Padre, adivinhando a sua natureza verdadeiramente sobrenatural, lho concedeu tal graça, e a estendeu para sempre. Esta graça foi, depois, concedida a todas as igrejas católicas do mundo, de modo que nós podemos obter o produto do pedido de Francisco na nossa própria paróquia.

Vamos, então, aos requisitos:

1- É preciso estar em Estado de Graça, isto é, estar sem NENHUM pecado mortal.
2- Visitar uma igreja católica.
3- Rezar o Credo, Um Pai Nosso e um Glória, suplicando a Indulgência.
4- Rezar um Pai Nosso, Uma Ave Maria e um Glória pelas intenções do Santo Padre.
5- Comungar
6- Ter uma total aversão ao pecado.

Lembramos que esta Indulgência pode ser aplicada também em favor de alguma alma do Purgatório ou pela conversão de terceiros.

Aproveitemos, pois.

A Mística de S. Bernardo de Claraval III


O amor

O amor é uma tendência muito natural da alma humana. Visto que tudo quanto compõe a nossa natureza depende imediatamente de Deus, é dever da alma voltar-se amorosamente para Ele como seu objeto e fim primeiro e natural. Justifica-se esta assertiva pela enumeração sumária dos motivos que impõem a todo homem, inclusive ao gentio, a obrigação de amar a Deus: todos os homens devem-Lhe a existência, os bens corporais, tais como o ar, o alimento, a luz, etc., os bens espirituais, tais como a razão que nos distancia do animal e, mormente, a "dignitas" humana por excelência: o livre arbítrio.

I Aberrações do amor

A despeito de tudo isso, o homem falhou ao seu dever de amar a Deus. Foi preciso que se lhe impusesse em forma de mandamento aquilo que de per si é reto e natural, a fim de forçá-lo a esse amor natural, que é o amor a Deus sem limites nem medida. Nessas condições o amor tem de, forçosamente, evoluir, passando por várias fases sucessivas de aperfeiçoamento.

1. O amor próprio ou carnal como imposição da natureza

O primeiro grau do amor, no estado presente, é o amor a nós mesmos. Este amor, como se insinua em S. Paulo, precede todas as demais modalidades de amor: "mas não é o espiritual que vem primeiro, e si o animal; o espiritual vem depois" (I Cor 15,46).

Essa prioridade do amor próprio ou "amor carnal" deve entender-se como uma necessidade decorrente da própria natureza humana. Pois o homem não é puro espírito, mas um ser composto de corpo e alma. O termo "carnal" significa precisamente a parte animal ou corpórea da natureza do homem, pela qual este é obrigado a satisfazer em primeira linha as necessidades do corpo. E estas necessidades, como sabemos por experiência, manifestam-se de maneiras mui diversas: "Quem ignora que a necessidade do homem é realmente tão diversa? Quem será capaz de explicar esta diversidade? O sabemos pela própria experiência que no-lo dá a conhecer seu próprio tormento."

2. O amor de concupiscência

Embora o amor próprio, enquanto exigência necessária da natureza, não seja pecaminoso, ele não deixa, contudo, de constituir um mal, em vista de sua depravação pelo pecado original. Longe de ser uma necessidade importuna, o amor carnal degenera em concupiscência, e como tal nos atrai e solicita. A concupiscência é o amor próprio a extravagar dos limites da necessidade.

Ao passo que a necessidade concerne principalmente ao corpo, a concupiscência nasce do coração; donde a violência e a multiplicidade das suas manifestações. O coração humano ama as coisas terrenas por crer encontrar nelas a sua felicidade. Entretanto, tais coisas externas não só não conseguem satisfazê-lo, senão que, ao contrário, o tornam infeliz: "A necessidade nasce na debilidade do corpo; o desejo provém do vazio e olvido do coração. Por isso mesmo mendiga a alma o estranho, porque se esqueceu de comer seu pão; por isso anela as realidades terrenas, porque não pensa nas celestiais". Destarte a primeira forma do amor se perverte pela concupiscência. O elemento animal sobrepuja o elemento espiritual, não só por causa da corporeidade característica do ser humano, mas por causa da corrupção de sua natureza pelo pecado; e esta corrupção é o que transforma a "anima recta" em "anima curva".

3. Vontade própria e vontade comum.

Para facilitar a compreensão desta "curvatura", Bernardo distingue um duplo movimento na vontade ou no amor: um movimento egoístico ("vontade própria") e um movimento desinteressado ("vontade comum"). Entre estas duas vontades existe uma oposição diametral. A vontade desinteressada ou comum constitui a caridade.

E assim chegamos ao termo da nossa descrição da deturpação do estado original do homem. Ao passo que a caridade ou vontade desinteressada inclina o homem a partilhar seus bens com outros, a vontade própria ou concupiscência nada quer compartilhar, quer com Deus, quer com o próximo, mas deseja reter tudo para si. É uma enfermidade fatal da alma. Por causa de sua oposição direta coma caridade, e por tanto com Deus, que é a caridade em pessoa, a vontade própria se vê em estado de guerra contra Deus: "Escutem e tremam os escravos da vontade própria com que fúria atacam ao Senhor da Majestade. Em primeiro lugar se fazem independentes e ao declararem-se autônomas se subtraem daquele a quem devem servir como Criador seu. Mas não se contentam com isso. Em quanto delas depende, se apropriam e saqueiam tudo o que é de Deus. A ambição humana não aceita fronteiras... (segue-se uma comparação com a cobiça). Digamo-lo abertamente: ao que se deixa levar pela vontade própria, não lhe basta o mundo inteiro. Se ao menos ficasse satisfeito com todas estas coisas, e não se enfurecesse - causa horror dizê-lo - contra o mesmo Criador! Desejaria que Deus fosse incapaz de castigar seus pecados, ou melhor que não quisesse fazê-lo ou que os desconhecesse. Quer dizer, que em vez de ser Deus, fosse impotente, injusto e ignorante. A maldade mais cruel e detestável lhes é intentar destruir o poder, a justiça e a sabedoria de Deus. É uma besta cruel, uma fera sem entranhas, uma loba sanguinária, uma leoa implacável. É a lepra horrorosa da alma."

II. A Cura do Amor

O desamparo em que se encontra o homem na "regio dissimilitudinis" não é motivo para desespero, dada a indestrutibilidade da imagem de Deus na alma. A graça, a fé e o arrependimento sincero tornam possível a reconquista do amor e a restauração da divina semelhança. E uma vez restabelecida a caridade, a vontade própria cede lugar ao amor desinteressado. Com o amor de Deus, a alma recupera sua verdadeira vida, a vida divina, pois Deus é amor. E este amor atinge o seu ponto culminante nas núpcias espirituais da alma com o Verbo.

O passo inicial no caminho do retorno a este amor perfeito é a humildade. Esta pode definir-se como a virtude pela qual o homem adquire um conhecimento verdadeiro de si mesmo e de sua própria miséria. A humildade é, ao mesmo tempo, o primeiro grau da verdade, e esta nos reconduz à caridade em três graus sucessivos:

* O primeiro grau da verdade é, como vimos, o reconhecimento da nossa própria miséria.

* O segundo grau é a caridade; pois o conhecimento próprio desperta um sentimento de compaixão sincera para com a miséria dos nossos semelhantes; de sorte que o amor social e as obras de caridade têm sua raiz na humildade.

* O terceiro grau é atingido quando o homem, plenamente purificado, volve a sua atenção para a contemplação das coisas invisíveis.

De modo semelhante, e ainda a partir da consideração da própria miséria, podemos distinguir quatro graus de amor:

* Primeiro grau: o homem ama-se a si mesmo sob o império da necessidade; este é o "amor carnal".

* Segundo grau: o homem reconhece sua miséria e se dá conta da precisão que tem de Deus; e assim dá o primeiro passo no amor de Deus, embora ainda não O ame por Ele mesmo, mas em atenção ao seu próprio interesse.

* Terceiro grau: graças a um conhecimento sempre mais perfeito de Deus e a uma crescente intimidade com Ele, o homem começa a amá-Lo por Ele mesmo, mas também em vista de seu próprio bem, por haver experimentado em si próprio a doçura do seu Deus. Este estágio sói ser o mais longo de todos, e é provável que o homem jamais consiga ultrapassá-lo na vida presente.

Quarto grau: o homem ama-se a si mesmo única e exclusivamente por causa de Deus. Nesse grau supremo do amor o homem atinge a sua perfeição. A necessidade e a concupiscência se desvanecem. Contudo, nem mesmo esse amor supremo exclui o amor próprio, pelo menos em sua forma totalmente purificada pelo amor a Deus. Numa palavra: o homem torna a ser uma perfeita semelhança de Deus, e essa assemelhação ou deificação faz com que ele se ame a si mesmo enquanto semelhança de Deus. O amor a Deus e o amor à sua semelhança, que é o homem, vêm a ser uma só e mesma coisa.

BOEHNER, Philotheus; GILSON, Etienne. História da Filosofia Cristã. Rio de Janeiro: Vozes, 2009.

A Mística de S. Bernardo de Claraval - II


II. A Liberdade

Dentro dos moldes de sua antropologia S. Bernardo elaborou uma psicologia da vontade, que merece uma exposição à parte. Não é possível isolar esta doutrina do seu contexto místico sem lhe fazer certa violência. Contudo, enquanto não perdermos de vista esta circunstância, poderemos não só expô-la sem receio de desfigurá-la, como também auferir grande proveito das novas perspectivas que nela se abrem para o campo filosófico.

1. O livre arbítrio

O homem foi criado para participar da felicidade de Deus. Para ser feliz é mister que se possa gozar o bem desejado; e para atingi-lo requer-se um ato de assentimento ou afirmação. Ora, o poder de assentir implica a liberdade. Por isso o homem foi dotado de uma vontade livre, a que cabe decidir de sua salvação ou perdição eterna. Como vimos acima, o que o capacita a participar de Deus é precisamente esta sua vontade livre; pelo que a liberdade constitui a essência mesma da imagem de Deus no homem.

Ao passo que Agostinho repõe a imagem de Deus preferentemente no espírito do homem, com suas potências e relações mútuas, S. Bernardo propende mais para a opinião dos Padres gregos, vinculando a idéia da imagem com a da liberdade.

O livre arbítrio é uma estrutura complexa que, além dos fatores "livre" e "arbítrio", contém dois outros aspectos, relacionados a outras potências da alma.

a) O fator "livre"

A vontade consiste essencialmente no poder de consentir ou dissentir. Onde há vontade, ali há liberdade: liberdade da necessidade ("libertas a necessitate") ou, em vista da incompatibilidade entre liberdade e constrangimento, liberdade da coação ("libertas a coactione").

A liberdade da necessidade e da coação é um privilégio inseparável da vontade; encontra-se da mesma maneira em todos os seres dotados de vontade: nos homens, nos anjos, em Deus; possuem-na, igualmente, os santos e os pecadores. Nem mesmo o pecado, pois, é capaz de anulá-la. Por este motivo, o próprio pecador continua a ser uma imagem de Deus.

b) O fator "arbítrio"

O segundo fator constitutivo do livre arbítrio é uma energia espiritual. O "arbítrio" envolve conhecimento e julgamento. A vontade é apta a julgar seus próprios atos, isto é, a decidir de sua bondade ou malícia.

Por isso o livro arbítrio não é apenas autodeterminação livre, mas também autojulgamento, dado que o ato volitivo, enquanto ato de um ser racional, vem sempre acompanhado de um ato cognoscitivo. Este poder de autojulgamento inere ao próprio livre arbítrio, e por isso é inamissível.

c) A "libertas consilii et complaciti"

O livre arbítrio, e portanto, a liberdade da necessidade e da coação estão sempre presentes onde quer que haja uma vontade que se julgue a si mesma; entretanto, há duas outras liberdades que, embora devessem acompanhar o livre arbítrio, são contudo facilmente amissíveis. Pois nem sempre tomamos a reta decisão, e nem sempre nos regozijamos no que é objetivamente reto.

Como se vê, a estrutura do ato volitivo é bem mais complexa do que poderia parecer à primeira vista. A decisão da vontade é precedida de uma espécie de reflexão sobre se algo deve ser feito ou não, bem como de um ato de agrado ou desagrado. Aquela consiste na ponderação dos motivos, e este é o efeito da atração ou da repulsa que os motivos exercem sobre o sujeito; a decisão final, por sua vez, procede de um ato livre da vontade. A ponderação dos motivos chama-se "consilium", e "complacitum" o ser-solicitado pelos mesmos motivos. Em poucas palavras: o "consilium" tem a função de oferecer ao livre arbítrio os objetos; estes são aceitos ou rejeitados pelo "complacitum", que lhes avalia o valor subjetivo; ao livre arbítrio, enfim, compete tomar a decisão definitiva.

O livre arbítrio é simplesmente inamissível; a "libertas complaciti", ao contrário, pode perder-se, o que infelizmente acontece com frequência. Enquanto o livre arbítrio é um poder de decisão e auto-determinação, a "libertas consilii" é a aptidão de bem avaliar os valores em vista da ação, e portanto, de os libertar do pecado; a "libertas complaciti" é o poder da complacência imperturbada nos referidos valores, pela qual nos libertamos da miséria.

2. Liberdade e Servidão

O homem é imagem de Deus pelo "liberum arbitrium", e semelhança de Deus pelo "liberum consilium" e o "liberum complacitum"; esta pode ser perdida, aquela não. Só a posse de todas estas liberdades, porém, o torna verdadeira e perfeitamente livre. A perda do "liberum consilium" e do "liberum complacitum", ocasionada pelo pecado original, reduziu o homem à condição de escravo.

Mas como pôde ele perder aquelas liberdades? A princípio, o homem era naturalmente livre de toda coação, e sobrenaturalmente isento do pecado e da miséria. Mas, infelizmente, ele abusou de sua liberdade. Tal abuso foi possível porque as duas formas superiores da liberdade - em oposição à liberdade fundamental do livre arbítrio - são passíveis de certa gradação. Com efeito, cada espécie de liberdade admite pelo menos dois graus. Assim, a "libertas consilii", que consiste na reta avaliação das coisas, e portanto, na liberdade do pecado, pode significar: a) a impecabilidade ("non posse peccare"), que é própria de Deus, dos anjos e dos bem-aventurados, e b) o poder de não pecar ("posse non peccare"), e este é o grau inferior da "libertas consilii". Semelhantemente, a "libertas complaciti" comporta um grau superior: o não-poder-sofrer ("non posse turbari"), e um grau inferior: o poder-não-sofrer ("posse non turbari"). Ainda que o homem só possua o grau menos perfeito dessas liberdades, a sua posse lhe assegura uma posição privilegiada entre a totalidade dos seres vivos. Graças à sua vontade livre, ele é o único ser capaz de alcançar uma genuína vitória, pois a liberdade não lhe foi dada para pecar, mas para triunfar do pecado.

Todavia, em consequência do abuso da liberdade, o homem perdeu a liberdade do pecado e da miséria; o poder de não pecar e não sofrer transformou-se na impossibilidade de não pecar e não sofrer. Só lhe fica o poder de livre decisão. Donde a sua condição de escravo do pecado e devedor da morte.

Pela queda, o livre arbítrio se vê na presença de uma razão em desacordo com a vontade, e de uma vontade em desacordo com a razão. Despojado da semelhança com Deus, fonte da sua dignidade sobrenatural, e descaído de sua antiga nobreza, o homem terminou por condenar-se ao exílio e à solidão da "regio dissimilitudinis".

a) O descaimento do estado original

Essa deformação é um efeito da perda do poder de reta avaliação e da reta complacência nas coisas. A perda da reta complacência conduz à deformação do amor e da vontade, que de "vontade comum" se desfigura em "vontade própria"; o poder da justa avaliação, por sua vez, é suplantado pelo "proprium consilium".

A vontade própria ou egoísta é um dos piores flagelos da alma. Mais pernicioso, por mais espiritual, é o "proprium consilium", isto é, a teimosia e obstinação na avaliação das coisas. Por causa de sua natureza oculta, ele deve ser considerado como o mais nocivo de todos os males da alma. Corrompe-a na mesma medida em que a domina. O "proprium consilium" reina nos corações daqueles que, embora zelosos pela causa de Deus, carecem de conhecimento (como diz S. Paulo), e se obstinam em seguir seus próprios erros, rejeitando toda instrução. Têm-se em conta de grandes e, desconhecendo a justiça de Deus, preferem confiar na própria justiça. Na verdade, é grande a presunção daquele que prefere seu próprio julgamento ao da comunidade inteira! Em suma, o "proprium consilium" não passa de uma espécie de idolatria mal disfarçada.

b) A cura da vontade

A cura da vontade pressupõe, necessariamente, a restauração daquelas duas liberdades. Embora fundamentalmente possível, graças ao livre arbítrio, tal restauração é inexequível pelo só esforço humano.

O primeiro passo para o restabelecimento das referidas liberdades é a erradicação da vontade própria; tal renúncia, por sua vez, pressupõe que a intenção ("intentio") volte a orientar-se pelo amor. Esta reorientação, enfim, pressupõe a cura da perversão capital que é o "proprium consilium". A emenda da intenção requer que se submeta o próprio julgamento à verdade, pois ao saneamento da vontade deve preceder a cura da cegueira do entendimento. É mister que a vista interior volte a ser lúcida, simples e verdadeira; o que só é possível pela fé.

BOEHNER, Philotheus; GILSON, Etienne. História da Filosofia Cristã. Rio de Janeiro: Vozes, 2009.

A Mística de S. Bernardo de Claraval - I


I - O homem como imagem e semelhança de Deus

1. A Imagem de Deus

Diz a Escritura que o homem foi criado conforme a imagem de Deus. Por conseguinte, ele não é a imagem de Deus em sentido estrito, visto haver apenas uma imagem de Deus, a saber, o Verbo. O homem é a imagem desta imagem de Deus.

Que significa "ser imagem de Deus"? Em primeiro lugar, a expressão denota a extraordinária dignidade da condição humana, e sua aptidão para participar na glória de Deus. Na verdade, o homem possui uma "anima magna", uma grande alma. Essa dignidade, recebida no ato da criação, é inseparável da alma humana; todavia, ela apenas informa a alma, sem identificar-se com esta. Não obstante isso, a alma não pode perder esta forma sem cessar de ser o que é.

2. A semelhança de Deus

Além desta aptidão para participar da glória de Deus, a alma traz em si uma aspiração concriada para os bens superiores: ela é "appetens supernorum". Sob este ponto de vista ela é uma semelhança ("similitudo") de Deus.

Esta aspiração fundamenta a retidão sobrenatural da alma. Assim como sua grandeza deriva da aptidão de participar da vida divina, sua retidão provém do desejo de participar desta vida de Deus. Como a grandeza, assim a retidão é algo distinto da alma; além disso, a grandeza difere da retidão, visto que esta é separável da alma, e aquela não. Priva-se da retidão todo aquele que perde o amor e o desejo dos bens superiores.

Desta dupla semelhança depende, pois, a integridade e a perfeição do ser humano: sem a imagem o homem cessa de ser homem, e sem a semelhança ele se desfigura ou deforma. Por isso o homem se humaniza na mesma medida em que cresce na semelhança com Deus. Nisto está toda a sua grandeza.

II- Perda e recuperação da semelhança divina.

1. A dessemelhança

Desgraçadamente, o homem distanciou-se livre e conscientemente das coisas do céu, preferindo-lhes os bens da terra. Antepondo seus próprios interesses aos de Deus, e recurvando-se sobre si mesma, sua alma transformou-se de "anima recta" em "anima curva".

É verdade que mesmo neste estado a alma retém sua semelhança com Deus, graças à sua grandeza; mas desassemelha-se de Deus em consequência daquela "curvatura". Pela mesma razão ela se desassemelha de si mesma. Pois uma vez perdida a semelhança com o modelo original, a imagem deixa, pelo mesmo fato, de assemelhar-se a si mesma. Todavia, a alma conserva a consciência de sua grandeza: sabe-se ao menos parcialmente semelhante a Deus, e por conseguinte à sua própria natureza, pois sua capacidade para o divino permanece. Ao mesmo tempo, porém, ela se dá conta de haver sido infiel à sua própria natureza. Este estado anormal dá origem a um penoso sentimento de desequilíbrio interior em que a alma, com saber-se de certo modo semelhante a si, sente-se contudo dessemelhante de si mesma. Donde o horror que tem de si própria.

2. A possibilidade do retorno

A possibilidade do retorno é assegurada pela indestrutibilidade da imagem de Deus no homem, ou, em outros termos, por sua receptividade incoercível para o divino.

Como vimos, "ser imagem de Deus" equivale a "ser capaz de Deus". Por isso a imagem de Deus impressa no homem forma o ponto de partida da mística cisterciense, que outra coisa não é do que a teoria e a prática daquilo que se exige do homem que aspira a restaurar do modo mais perfeito possível a semelhança divina em sua alma, até atingir ao "amplexus Verbi", que é o grau mais elevado deste processo de assimilação à Divindade.

Em vista desse ideal, é mister que o homem arrepie caminho, extirpando de sua alma, pela graça e pela prática da humildade e da caridade, as causas da dessemelhança com Deus. Pela renúncia ao pecado, pelo restabelecimento de sua condição original e pela reorientação espontânea e amorosa para as coisas de Deus, a alma se dispõe para a união extática ao divino esposo. A alma torna a ver-se tal qual fora na aurora da criação: como semelhança pura de Deus; e nesta visão interior de si mesma ela vê a Deus assim como é vista por Ele, e O ama assim como é amada por Ele. Neste conhecimento e amor recíprocos entre esposo e esposa consiste o êxtase místico. Este, por sua vez, não é senão um antegosto da visão beatífica, onde a semelhança perfeita com Deus permitirá uma união definitiva, embora sem confusão de substâncias.

Não cabe aqui uma análise pormenorizada desta sublime mística cisterciense. suas idéias principais podem resumir-se no seguinte: a alma é criada segundo a imagem de Deus; ela é grande por ser capaz de Deus e é reta enquanto aspira às coisas de Deus. A alma que perde este desejo e tende às coisas da terra se "recurva"; mas, graças à sua grandeza nativa, ela retém a possibilidade de retornar a Deus.

BOEHNER, Philotheus; GILSON, Etienne. História da Filosofia Cristã. Rio de Janeiro: Vozes, 2009.

"Só no Céu haverá alegria sem anuviamento"


Bonitos para mim eram os dias em que meu "rei querido" me levava à pescaria consigo. Tinha tanto amor ao campo, às flores e às aves! Tentava às vezes pescar com minha varinha, mas de preferência ia sentar sozinha na relva florida. Meus pensamentos aprofundavam-se bastante e, sem saber o que era meditar, minha alma mergulhava em autêntica oração... Ouvia ruídos ao longe... O murmúrio do vento e até a música indecisa de soldados, cuja sonoridade me chegavam aos ouvidos, melancolizavam suavemente meu coração... A terra parecia-me lugar de degredo, e eu sonhava com o Céu... A tarde passava rápida, e dentro em pouco era hora de regressar aos Buissonnets. Antes de partir, porém, tomava o lanche trazido no meu cestinho. Mudara de aspecto, a linda merenda com geléia de fruta que me tínheis preparado. Em lugar da cor ativa, já não via senão uma ligeira mancha cor de rosa, toda ressequida e amarfanhada... Então a terra se me apresentava mais tristonha ainda, e compenetrava-me de que só no Céu haverá alegria sem anuviamento...

Sta Teresinha de Lisieux, História de Uma Alma

"Não quero ser santa pela metade"


"Mais tarde, quando se me tornou evidente o que era perfeição, compreendi que para se tornar santa era preciso sofrer muito, ir sempre atrás do mais perfeito e esquecer-se a si mesmo. Compreendi que na perfeição havia muitos graus e que cada alma era livre no responder às solicitações de Nosso Senhor, no fazer muito ou pouco por Ele, numa palavra, no escolher entre os sacrifícios que exige. Então, como nos dias de minha primeira infância, exclamei: "Meu Deus, escolho tudo". Não quero ser santa pela metade. Não me faz medo sofrer por vós, a única coisa que me dá receio é a de ficar com minha vontade. Tomai-a vós, pois "escolho tudo" o que vós quiserdes"

Sta Teresinha de Lisieux, História de Uma Alma

Tudo é nada comparado a Ele


Considera o que há de mais formoso e grande na terra..., o que apraz ao entendimento e às outras potências..., o que é recreio da carne e dos sentidos... E o mundo, e os outros mundos que brilham na noite: o Universo inteiro.

E isso, mais todas as loucuras do coração satisfeitas..., nada vale, é nada e menos que nada, ao lado deste Deus meu! - teu! -, tesouro infinito, pérola preciosíssima, humilhado, feito escravo, aniquilado sob a forma de servo no curral onde quis nascer, na oficina de José, na Paixão e na morte ignominiosa..., e na loucura de Amor da Sagrada Eucaristia.

S. Josemaria Escrivá, Caminho, n. 432

Pe. Reus mais próximo da beatificação!



Aqui vai uma ótima notícia do Jornal VS neste mês de julho (datada de 04/07, quarta-feira passada), em que rezamos a Novena em honra do Servo de Deus Pe. João Baptista Reus, SJ (de 12 a 20 de julho, a oração pode ser vista aqui), que temos como um dos co-patronos da ARS.

Neste ano, 2012, comemoraremos os 65 anos da morte do Servo de Deus, ocorrida em 21/07/1947.

Estudo deixa processo de beatificação de Padre Reus mais perto

Ângela Virtuoso/Da Redação

Novo Hamburgo  - Passados 65 anos de sua morte, Padre Reus continua a fazer história. Ao longo desse período, conquistou milhares de fiéis, principalmente no Brasil, onde viveu mais da metade da vida, e teve seu nome levado ao Papa para reconhecimento de sua santidade. Um processo de beatificação e canonização foi, então, instalado entre 1953 e 1958, outorgando a ele o título de Servo de Deus. No entanto, a primeira fase foi concluída somente na manhã de ontem, em um tribunal eclesiástico, ocorrido a portas fechadas na casa episcopal da Diocese de Novo Hamburgo.

Na presença do padre Mark Lindeijer, enviado do Vaticano como representante do padre Anton Witwe, postulador da causa do Padre Reus; do vice-postulador, padre Guido Lawisch, também reitor do Santuário Sagrado Coração de Jesus, em São Leopoldo; do bispo da Diocese de Novo Hamburgo, Dom Zeno Hastenteufel, e dos demais integrantes da Comissão Postuladora Diocesana, os quatros historiadores convidados Arthur Rambo, padre Inácio Spohr, Luiz Leite e Ângela Molin apresentaram o resultado de dois anos de estudo da vida do religioso. Foram cerca de três horas de reunião.

Além de entregarem relatórios individuais e um compilado de 30 páginas, o quarteto respondeu a 12 perguntas do Papa, trazidas por padre Mark Lindeijer. O representante de Roma saiu da sessão com um pilha de depoimentos e documento de mais de um metro de altura. "Agora, levarei o material para ser analisado por nove historiadores e seis teólogos do Vaticano a fim de se comprovar a fama de santidade do Padre Reus e suas virtudes, entre elas as de fé, esperança e amor", destaca padre Mark.

Biografia de Padre Reus

Nascido em 1868, na aldeia de Pottenstein, na Baviera, maior Estado da Alemanha, Johann Baptist Reus (João Batista Reus) era o oitavo filho de uma família de 11 irmãos. Na juventude, entrou para a Companhia de Jesus, ordenou-se padre, com 25 anos, e foi mandado para o Brasil, em 1900, sete anos depois. Passou por Rio Grande e Porto Alegre antes de chegar a São Leopoldo. No município, trabalhou como capelão do Colégio São José e lecionou Teologia no Colégio Cristo Rei. 

Ficou conhecido por ser místico: tinha muitas visões, principalmente durante as missas, dentre elas da Santíssima Trindade. Esses e outros eventos foram descritos e desenhados por ele e constam em seu diário. Padre Reus morreu em 1947, com 79 anos. Seu túmulo está localizado no Cemitério dos Jesuítas, no Santuário Sagrado Coração de Jesus e recebe a visita de milhares de devotos a cada ano.


Dia São Tomé, Apóstolo de Nosso Senhor


Sempre presente nas quatro listas do Novo Testamento, nos primeiros três Evangelhos ele aparece junto a Mateus (cf. Mt 10,3; Mc 3,18; Lc 6,25), enquanto nos Atos se encontra ao lado de Felipe (cf. At 1,13). Seu nome deriva da raiz hebraica, ta'am, que significa "emparelhado, gêmeo". De fato, o Evangelho de João o chama muitas vezes pelo apelido de "Dídimo" (cf. Jo 11,16; 20,24; 21,2), que em grego quer dizer "gêmeo". Não está clara a razão deste apelido.

É o quarto Evangelho o que nos oferece mais informações que permitem evidenciar alguns traços significativos de sua personalidade. O primeiro tem a ver com a exortação que fez aos demais apóstolos, quando Jesus, num momento crítico de sua vida, decidiu ir a Betânia para ressuscitar Lázaro e aproximou-se perigosamente de Jerusalém (cf. Mt 10,32). Naquela ocasião Tomé disse a seus condiscípulos: "Vamos nós também, para morrermos com Ele!" (Jo 11,16). Esta sua determinação de seguir o Mestre é verdadeiramente exemplar e nos oferece um ensinamento precioso: revela a total disponibilidade para juntar-se a Jesus, até identificar a própria sorte com a dele e querer compartilhar com Ele a prova suprema da morte. De fato, o mais importante é não separar-se nunca de Jesus. Além do mais, quando os Evangelhos usam o verbo "seguir" é para significar que para onde Ele se dirige, ali também deve ir o seu discípulo. Deste modo, a vida cristão se define como uma vida com Jesus Cristo, uma vida que deve ser vivida junto a Ele. São Paulo escreve algo parecido, quando tranquiliza assim os cristãos de Corinto: "Vocês estão em nossos corações para a vida e para a morte" (2Cor 7,3). O que se produz entre o apóstolo e os seus cristãos deve naturalmente valer, antes de mais nada, para a relação entre os cristãos e o próprio Jesus: morrer junto a Ele, viver junto a Ele, estar em seu coração como Ele está no nosso.

Na Última Ceia ocorre uma segunda intervenção de Tomé. Nessa ocasião, Jesus, prevendo a sua iminente partida, anuncia que se vai para preparar os seus discípulos e para que estejam também onde ele se encontra; e lhes precisa: "E para onde eu vou, vocês já conhecem o caminho" (Jo 14,4). E então Tomé intervém dizendo: "Senhor, nós não sabemos para onde vais; como podemos conhecer o caminho?" (Jo 14,5). Na verdade, com esta resposta ele está se colocando num nível de entendimento bastante limitado; mas estas palavras suas oferecem a Jesus a ocasião de pronunciar a célebre definição: "Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida" (Jo 14,6). Portanto Tomé é o primeiro a quem Ele faz esta revelação, embora seja válida para todos nós e para todos os tempos. Cada vez que ouvimos ou lemos estas palavras, podemos nos colocar na mente de tomé e imaginar que o Senhor fala também conosco como falou com ele. Ao mesmo tempo, a sua pergunta nos dá o direito, por assim dizer, de pedir explicações a Jesus. Frequentemente não compreendemos a Ele. Temos a coragem de dizer: não o compreendo, Senhor, ouça-me, ajude-me a compreender. Deste modo, com esta franqueza, que é a verdadeira forma de rezar, de falar com Jesus, expressamos a pobreza de nossa capacidade de compreensão, e ao mesmo tempo nos mostramos confiantes como quem espera luz e força da parte de quem está capacitado a dá-las.

Conhecidíssima e até proverbial é a cena de Tomé incrédulo, realizada oito dias depois da Páscoa. Num primeiro momento, não acreditou que Jesus tivesse aparecido em sua ausência e disse: "Se eu não vir a marca dos pregos nas mãos de Jesus, se eu não colocar o meu dedo na marca dos pregos, e se eu não colocar a minha mão na ferida dele, eu não acreditarei" (Jo 20,25). Do fundo destas palavras emerge a convicção de que Jesus é reconhecível não tanto por seu rosto quanto por suas feridas. Tomé considera que as marcas significativas da identidade de Jesus agora são, antes de tudo, suas feridas, nas quais se revela até que ponto Ele nos amou. Nisso o apóstolo não se equivoca. Como sabemos, oito dias depois Jesus volta a aparecer entre os seus discípulos, e desta vez Tomá está presente. E Jesus o interpela: "Estenda aqui o seu dedo e veja as minhas mãos. Estenda a sua mão e toque a minha ferida. Não seja incrédulo, mas tenha fé" (Jo 20,27). Tomé reage com a profissão de fé mais maravilhosa de todo o Novo Testamento: "Meu Senhor e meu Deus!" (Jo 20,28). 

Santo Agostinho comenta a este propósito: Tomé "via e tocava ao homem, mas confessava a sua fé em Deus, que não via e nem tocava. Mas aquilo que via e tocava o induzia a crer naquilo de que até aquele momento duvidava" (In Iohann, 121,5). O evangelista continua com uma última palavra de Jesus a Tomé: "Você acreditou porque viu? Felizes os que acreditaram sem ter visto!" (Jo 20,29). Esta frase também pode ser transportada para o presente. Aqui Jesus enuncia um princípio fundamental para os cristãos que viriam depois de Tomé, quer dizer, para todos nós. É interessante observar como outro Tomás, o grande teólogo medieval de Aquino, compara esta fórmula de felicidade com aquela aparentemente oposta que transmite Lucas: "Felizes os olhos que vêem o que vocês vêem" (Lc 10,23). Mas o de Aquino comenta: "Merece muito mais quem crê sem ver do que quem crê vendo" (In Iohann, XX lectio VI, 2566). De fato, a Carta aos Judeus, quando refere toda a série de antigos patriarcas bíblicos, que acreditaram em Deus sem ver a realização de suas promessas, define a fé como uma "forma de possuir o que se espera, um meio de conhecer as coisas que não se vêem" (Hb 11,1). O caso do apóstolo Tomé é importante para nós ao menos por três motivos: primeiro, porque nos consola de nossa insegurança; segundo, porque nos demonstra que toda dúvida pode desembocar numa saída luminosa livre de qualquer incerteza; e, por último, porque as palavras que lhe dirige Jesus nos lembram o verdadeiro sentido da fé madura e nos animam a continuar, apesar das dificuldades, em nosso caminho de adesão a Ele.

Há uma última observação sobre Tomé no quarto Evangelho, que o apresenta como testemunha do Ressuscitado no momento seguinte à pesca milagrosa no lago de Tiberíades (cf. Jo 21,2). Naquela ocasião ele é mencionado, precisamente, logo depois de Simão Pedro: sinal evidente da notável importância de que gozava entre as primeiras comunidades cristãs. De fato, em seu nome logo foram escritos os Atos e o Evangelho de Tomé, ambos apócrifos, mas importantes para o estudo das origens do cristianismo. Por último, vamos lembrar que, segundo uma antiga tradição, Tomé evangelizou primeiro a Síria e a Pérsia (assim é referido por Orígenes, partindo de Eusébio de Cesareia, Hist. Eccl. 3, 1), e mais tarde alcançou a Índia ocidental (cf. Atos de Tomás 1-2 e 17 ss.), e daí também chegou à Índia meridional. Com esta perspectiva missionária terminamos a nossa reflexão, expressando o desejo de que o exemplo de Tomé confirme mais, a cada dia, a nossa fé em jesus Cristo, nosso Senhor e nosso Deus.

Bento XVI, Os Apóstolos e os Primeiros Discípulos de Cristo.

Catolicismo: Caminho comum e absolutamente pessoal

Sto Tomás de Aquino certa vez afirmou ter aprendido mais na escola íntima da cruz do que nos livros.

Enquanto vivemos aqui na terra, é necessário que acordemos para certas questões totalmente irrenunciáveis: o que somos, de onde viemos, para onde vamos, o que é o mundo, se há ou não Deus, etc. No entanto, há muitos que, não obstante os apelos da sua natureza humana, vivem a distrair-se de tais pensamentos, pois eles exigem, à medida que se lhes dê resposta, consequências práticas, isto é, trazem a tomada de consciência de uma efetiva responsabilidade pessoal.

Chesterton dizia que a coisa mais importante num homem é a sua visão do todo, o que inclui obviamente a sua visão de si mesmo. Sta Teresa D'Avila, por sua vez, afirmava que é muito triste que alguém não saiba quem é. 

Acontece, porém, que os cristãos somos privilegiados, pois não apenas a nossa santa religião traz continuamente diante de nós estas questões, nos forçando a dar-lhes respostas e a vivermos segundo elas, mas também nos traz Aquele que é, Ele mesmo, a garantia de não haver erro, pois é o Autor não só do mundo e da realidade tal qual a conhecemos, mas também da nossa identidade; diria Sto Agostinho que Ele é mais íntimo de nós do que nós mesmos o somos. N'Ele está, portanto, todas as respostas.

O cristianismo é, sem dúvida, um modo de vida, procedente de uma compreensão do mundo e que acreditamos ser perfeita. Ele nos ensina a verdade sobre a realidade. E esta verdade, contemplada e vivida, dá unidade à nossa vida e nos estreita a Deus. Porém, embora inseridos neste feliz grêmio de Cristo, nós continuamos com a nossa natureza ferida pelo pecado e os nossos olhos não raro cegados pelo egoísmo que trazemos no nosso íntimo. É a razão por sermos, ainda, tão míopes e de facilmente nos revoltarmos contra Deus. Mesmo quando queremos ser fiéis, há uma tensão interna à revolta. S. Paulo expressava isso quando escrevia: "faço o mal que não quero." Quando esta incoerência é consentida, temos uma atitude de pertinácia. E quando esta é disfarçada, damos com a hipocrisia. Sobre esta, diz Deus: "Este povo me louva com os lábios, mas seu coração está distante de mim".

A hipocrisia fere aquela unidade de vida necessária, pois insere na alma humana a dubiedade, da duplicidade de intenções e a dualidade entre o que se é e o que se parece.

Considerando, porém, um homem que seja sincero e intente levar vida reta e sobrenatural, obedecendo a Deus e lutando contra si mesmo para fazer-se dócil aos apelos de Nosso Senhor, ainda assim, nós o veremos exposto a uma série de erros e tentações. A soberba que trazemos segue sua luta contra Deus e vai buscando, mais ou menos conscientemente, que sejamos objeto das glórias e honras, dos prazeres e atenções. Numa disputa doutrinal, por exemplo, é muito comum que vez ou outra percamos de vista aquilo que originalmente defendíamos, e  nos vejamos tentados a vencer a luta por apreço à nossa própria imagem. Os homens, se são qualquer coisa além de robôs, haverão de notar algo destes movimentos no seu interior e, se forem sujeitos sérios, não os satisfarão, mas, antes, os combaterão na esperança de se tornarem humildes. É também neste sentido que a Escritura diz: "A vida do homem é uma luta sobre a terra", pois a velha serpente nos acompanha, na grande maior parte das vezes, até o túmulo. E queira Deus que não nos faça companhia pela eternidade!

Chega, porém, um momento em que o cristão se vê diante de duas vias: a do caminho comum e a da originalidade. Por onde deverá seguir? O que fará para não se perder? Também aqui o erro está nos extremos. Houve um tempo em que as pessoas queriam ser absolutamente originais: "o meu caminho é o Meu caminho; a minha verdade é a Minha verdade", dando a entender que a cada um caberia ser responsável por si e encontrar, individualmente, a trilha por onde seguir. Nesta ânsia por ser único, desprezavam toda proposta coletiva, toda alternativa comum. Ainda que fossem cristãos, não conviria seguirem todos umas mesmas regras. As doutrinas, deste ponto de vista, serviriam de alienadoras, sendo impostas de fora, transgredindo a suma lei da originalidade e aviltando a dignidade humana que consistia, precisamente, nesta absoluta especificidade e liberdade. Esta via será bastante enfatizada pelo protestantismo. Ocioso é dizer que nada agrada tanto ao ego humano quanto a pretensão e a crença de respirar um ar de majestade particular. O cristianismo reduzido a uma luta de egos é, realmente, uma coisa deprimente. Nada tão perigoso quanto uma via de perfeição deteriorada.

Mas há, também, o outro excesso: que é quando o indivíduo se perde numa coletividade. Aqui já não há qualquer reflexão sobre o caráter individual e realmente íntimo de cada alma humana, mas, na prática, se opta pela adesão irrefletida a um caminho por onde todos seguem. Se nota um certo automatismo na vida de Fé e o ego humano encontra aqui um dos modos de tentar ser aceito e de se auto-afirmar. Há como que uma pequena e sutil traição em que o sujeito "vende" as riquezas pessoais para dar ênfase àquilo que é aceito pela maioria. E, como preço da infidelidade a si mesmo, ele deverá restringir-se ao nível da mediocridade e da miopia espiritual. Poderá, talvez, ser aplaudido, mas estará muito aquém do que deveria, carecendo de realidade.

O  real caminho a seguir deve ser, antes, um caminho comum trilhado de modo intimamente pessoal. Esta verdade é tão somente uma consequência daquela dupla via, afirmada por todos os santos: a verdadeira santidade é acompanhada de um profundo conhecimento de Deus e de um profundo conhecimento de si mesmo. O primeiro gera amor a Deus; o segundo, desprezo de si mesmo. Se não há estas duas coisas, não há santidade; haverá, talvez, brincadeiras de adulto e jogos irrefletidos. A santidade, porém, não admite tais "irreverências". Já dizia Nosso Senhor a uma mística franciscana: "não foi para rir que eu te amei". Nós temos uma capacidade imensa de perder o rumo e frequentemente nos distraímos de estarmos num exílio. Conformar-se com o exílio é perder a forma da Pátria.

Este segundo erro pode, também, ser adotado por ingenuidade, como quando alguém, encantado pela vida de algum santo em particular, busca ser uma "reencarnação" do tal santo, ou, também, quando admirando um modo de apostolado em particular, uma pessoa procura adotar trejeitos e expressões daquele que admira. Isto acontece muito com os neófitos universitários com relação a seus professores. É, também, um dos fatores causadores de certas crises vocacionais.

Eu passei por isso. Na pré-adolescência, tomando contato com os escritos sobre S. Francisco de Assis e imediatamente fascinado por tudo aquilo, não deixei de conceber, n vezes, estratégias de sair de casa e dar-me à vida pobre dos mendigos. Mais tarde, conhecendo S. João da Cruz, agravando ainda mais a minha crise vocacional, não deixei de imprimir em tudo quanto escrevia aquele característico tom monástico e místico, tão peculiar do santo doutor. Em seguida, adentrando nestes combates tradicionais da internet, fascinado por todo este cristianismo ousado e inteligente no qual tomei por professor o saudoso Orlando Fedeli, passei a despejar certa agressividade afetada nas minhas defesas da Fé. Todas estas coisas eram feitas, não duvido, com boa intenção, mas a ingenuidade era espaço confortável para a vaidade mostrar sua cabeça nefanda. Não digo que atingi a maturidade, mas hoje julgo ver estas coisas com certa clareza. Estas meditações não me são novas e eu penso que elas sejam, sinceramente, fundamentais para um reto cristianismo.

É preciso seguir por esta dupla via: conhecimento de Deus, da doutrina, da santa Igreja, vida em comum com todos os católicos como membros de um mesmo corpo, seguindo Aquele que é o único caminho de nós todos. Mas também, seguir com esta peculiaridade de membro único, individual, de alma imortal absolutamente única e irrepetível, que deverá seguir este caminho comum de um modo muito único. O desprezo da primeira via, leva ao individualismo auto-suficiente; o desprezo da segunda, leva ao coletivismo irrefletido e a uma certa estagnação espiritual. Sobre este segundo erro, o do coletivismo, há uma música do Pe. Fábio que pode expressar bem esta verdade. Todo mundo sabe que não aprecio muito o Pe. Fábio, com exceção de algumas músicas. Mas este trecho aqui ilustra bem o que eu quis dizer:

Se te escondes em tuas ilusões
E te ocultas naquilo que não és
Perderás a vida e não verás
A beleza de ser o que tu és"

Rima infeliz, mas verdade profunda. Enquanto a terra espera, como mulher em dores de parto, pelo despertar dos Filhos de Deus, é tristemente tão comum que estejamos dormindo sob a árvore confortável de um destes erros! Graças a Deus, muita gente tem despertado para a necessidade imensa de conhecer a doutrina católica, os dogmas, a Liturgia, etc. Porém, a segunda via parece não acompanhar o mesmo progresso. Deus Pai diz a Sta Catarina de Sena: "jamais abandones a cela do auto-conhecimento". Sto Antônio, escreve: "a humildade é o início de toda virtude, assim como o botão é o início da flor". É do conhecimento de si mesmo que surge a humildade sem a qual simplesmente e rigorosamente não há vida espiritual.

Não há humildade sem conhecimento interior. Este é um caminho do qual não se pode esquivar-se sem, ao mesmo tempo, esquivar-se da proposta autenticamente cristã. E para que, seguindo por aí, não caiamos em erros outros, a Igreja nos mantém firmes dentro de muros doutrinários seguros que, como dizia Chesterton, permitem às crianças brincar sem medo de se acidentar.

Que Nosso Senhor, cioso da Sua doutrina e cuidadoso da nossa alma, nos dê o trato sutil de saber ver estas coisas e levá-las à prática. De nada adianta ganhar o mundo, se perdermos a nossa alma. Entremos, pois, como Sta Teresa D'Avila, neste castelo interior e o defendamos, pois n'Ele habita o grande Rei.

S. Josemaria Escrivá e a necessidade de uma conversão real


Hoje a Santa Igreja celebra a memória de S. Josemaria Escrivá, a quem bem poderíamos chamar de "o santo do cotidiano". Nesta ocasião, eu poderia simplesmente fazer uma transcrição de algum dos seus escritos e, na verdade, nada me impede de levar a termo esta idéia. Porém, neste post em particular, quero falar, por mim mesmo, de um aspecto fundamental da vida cristã e no qual S. Josemaria poderá apoiar-me.

Como se sabe, todos nós somos chamados à santidade, pois é vontade de Deus que todos se salvem. Para que a salvação possa se dar, são necessárias absolutamente duas coisas: uma vida que se disponha ao caminho proposto por Nosso Senhor e, em seguida, o auxílio objetivo da Graça. Uma reta compreensão deste duplo aspecto falta a muita gente, e eu gostaria aqui de tentar elucidar um pouco a questão.

De um lado, há os que lutam contra uma visão que chamam de "sacramentalista" e que sugere um tipo de cristianismo mecânico, sem envolvimento interior e no qual se supõe dever o católico somente cumprir suas obrigações cultuais, quais sejam a frequência aos Sacramentos, o pagamento do Dízimo, etc., sem que, porém, os demais aspectos da sua vida sejam envolvidos pela religião. Deste modo, um sujeito poderia justificar a sua consciência entendendo que, por ter ido à igreja ou ter feito certas orações, já não há o que se lhe deva exigir. De fato, é um erro pois, a despeito da aparência, um tal sujeito torna-se impermeável à ação divina.

Há, porém, um outro problema, talvez mais atrativo, mas também mais sutil porque, embora seja no fundo uma das tantas máscaras do orgulho humano, costuma se transvestir de humildade e de cristianismo verdadeiro. Consiste na equivocada conclusão de que o cristianismo, para se isentar das meras exterioridades, deverá ser tão somente um processo de auto-persuasão, de auto-conversão, de cultivo de bons sentimentos, de disposição para a ação humanista, social; de tentativa de modificação efetiva do mundo por meio do envolvimento político, reduzindo toda a religião a um instrumento ideológico, a um grande sindicato onde deveriam ser expostas e ensinadas as idéias mestras para a libertação dos homens, entendidos aqui na sua materialidade, o que dá certa aparência de realismo a este tipo de discurso.

No entanto, uma religião onde o homem possua, por si mesmo, as idéias e a força para a mudança necessária, não é religião, mas caminho de auto-afirmação, de auto-suficiência. Uma religião, além disto, que reduza o ser humano à sua vida terrestre, amputa-lhe o que de mais essencial ele possui e, sob a máscara de uma solicitude devotada, distrai-o de sua verdadeira felicidade e objetivo. Se Deus não é necessário para a conversão humana, não há por que se aderir a uma religião. Se a importância de Deus na vida humana se restringe ao campo motivacional, poderemos trocá-lo por Buda, Gandhi, e tantos outros personagens que, inclusive, parecem incorporar melhor do que Jesus os ideais modernos.

Não. Nada disso é catolicismo. No primeiro problema, temos uma fé caricaturada em que os sujeitos apenas encenam e anestesiam a consciência, enganando-se até o fim do mundo, onde haverão de contemplar, aturdidos, a fatuidade da própria vida. No segundo erro, temos uma fé reduzida à materialidade, e a auto-suficiência humana se disfarçando de devoção e amor ao próximo. Temos a exclusão prática de Deus e a negação da necessidade da vida da Graça, com a consequente naturalização e relativização dos preceitos religiosos e da doutrina católica. Cai-se no subjetivismo e no relativismo e o homem erige-se como norma última do bem. É o antropoteísmo.

S. Josemaria Escrivá, porém, tem outra proposta: a de uma conversão total e de unidade de vida. Primeiro, é preciso reconhecer a doença do egoísmo da qual todos sofremos enquanto labutamos nesta terra, com exceção de alguns raros santos que, ainda nesta vida, alcançam alturas vertiginosas de santidade. Quanto a nós, é preciso convencer-nos desta ruindade que todos carregamos no íntimo da alma e que tende a fazer das nossas melhores intenções e atitudes apenas uma extensão de si mesma. A consequência do pecado original foi a entronização da soberba em nós, que falseia o nosso julgamento, corrompe as nossas vontades e instrumentaliza as nossas ações. Uma vez que contemplamos tal verdade, deveremos reconhecer que, sozinhos, não temos como dar conta disso. Se fazemos mortificação por nosso próprio esforço, confiados no nosso próprio engenho, daqui a pouco estaremos, ou esmagados pela constatação absoluta da nossa fraqueza, ou perdidos na contemplação da nossa suposta e falsa grandeza. Se queremos fazer boas ações, a soberba tornará tudo quanto fizermos somente uma tentativa de adquirir aplausos e admirações. Se queremos divulgar o Evangelho, o nosso orgulho utilizará a ocasião para se auto-afirmar. E desse modo, tudo quanto fizermos será igual a nada. Já dizia S. Paulo que, sem a caridade, tudo é só barulho. A caridade é o auxílio de Deus na nossa alma para que as nossas intenções possam ser puras e para que as nossas ações sejam sobrenaturalizadas e verdadeiras.

Uma vez que reconhecemos a necessidade absoluta que temos do auxílio divino, devemos, então, entender de que modo ele nos poderá ser dado. Ora, é pelos Sacramentos da Igreja. Daí que a religião não é, de modo nenhum, dispensável. De modo nenhum! É nela que obteremos a vida da Graça e aprenderemos a verdade não somente sobre Deus, mas sobre nós mesmos, sobre os outros e sobre o mundo. Sem saber de tudo isto, não poderemos efetivamente ajudar ninguém, pois partiremos de pressupostos errados.

Uma religião, ao invés, que pretendesse a mera observância exterior dos compromissos religiosos e se restringisse geograficamente ao interior dos templos, também em nada se distinguiria da dos fariseus, e sobre isto Jesus nos diz: "se a vossa justiça não for maior do que a deles, não entrareis no Reino". Em verdade, o cristianismo deve de tal modo envolver a vida humana, que toda ela se transubstancie, isto é, se transforme, desde o seu mais íntimo, em vida cristã, em vida de Cristo, ao ponto de podermos, um dia, dizer como São Paulo que é Ele Quem vive em nós. Já dizia um santo que um verdadeiro cristão é cristão não apenas quando reza, mas quando trabalha, estuda, brinca, come e até quando dorme. A cura a que devemos ser submetidos tem de ser completa, diria C.S. Lewis, pois o que Nosso Senhor espera de nós é, nada menos, que a perfeição. Ora, tal altura está muito acima das nossas capacidades naturais. No entanto, é preciso querê-la e buscá-la, uma vez que temos o auxílio divino.

S. Josemaria propõe justamente isto: tornar a vida inteira um contínuo suspiro de amor a Deus. Mesmo no evento mais corriqueiro, mais cotidiano, mais ordinário, é possível fazer transbordar o amor divino. E isto é tão somente a aplicação prática do que S. Paulo já havia dito: "n'Ele existimos, nos movemos e somos". Se tal é assim, ter momentos totalmente seculares na vida significa distrair-se da realidade. O cristianismo, ao invés, sendo a religião da verdade, quer, não alienar, mas efetivamente despertar os homens para a verdade. Daí a necessidade de se encarnar visceralmente um cristianismo total, contínuo, que englobe a vida em todos os seus aspectos, momentos e minúcias. Esta unidade, porém, somente pode ser dada quando os homens descobrirem que, de fato, sem Ele nada podem fazer, conclusão absolutamente necessária para que se motivem a reservar-Lhe um lugar central em torno do qual gravitarão. A religião, portanto, de nenhum modo será dispensável; antes, deverá ser a garantia da visão objetiva do mundo e a fornecedora da seiva que permitirá aos homens viverem de fato, e não, apenas, encenarem.

Que S. Josemaria Escrivá interceda por nós neste caminho, difícil, pedregoso, mas amoroso e feliz.

CHIARA CORBELA PETRILLO: UMA NOVA GIANNA BERETTA MOLLA


Salvatore Cernuzio

ROMA, segunda-feira, 18 de junho de 2012 (ZENIT.org) - 

Neste sábado, na igreja de Santa Francisca Romana, da capital italiana, foi celebrado o funeral da jovem Chiara Petrillo, falecida depois de dois anos de sofrimento provocado por um tumor.

A cerimônia não teve nada de fúnebre: foi uma grande festa em que participaram cerca de mil pessoas, lotando a igreja, cantando e aplaudindo desde a entrada do caixão até a saída.
A extraordinária história de Chiara se difundiu pela internet com um vídeo no YouTube, que registrou mais de 500 visualizações em apenas um dia.

A luminosa jovem romana de 28 anos, com o sorriso sempre nos lábios, morreu porque escolher adiar o tratamento que podia salvá-la. Ela preferiu priorizar a gravidez de Francisco, um menino desejado desde o começo de seu casamento com Enrico.

Não era a primeira gravidez de Chiara. As duas anteriores acabaram com a morte dos bebês logo após cada parto, devido a graves malformações.

Sofrimentos, traumas, desânimo. Chiara e Enrico, porém, nunca se fecharam para a vida. Depois de algum tempo, chegou Francisco.

As ecografias agora confirmavam a boa saúde do menino, mas, no quinto mês, Chiara teve diagnosticada pelos médicos uma lesão na língua. Depois de uma primeira intervenção, confirmou-se a pior das hipóteses: era um carcinoma.

Começou uma nova série de lutas. Chiara e o marido não perderam a fé. Aliando-se a Deus, decidiram mais uma vez dizer sim à vida.

Chiara defendeu Francisco sem pensar duas vezes e, correndo um grave risco, adiou seu tratamento para levar a maternidade adiante. Só depois do parto é que a jovem pôde passar por uma nova intervenção cirúrgica, desta vez mais radical. Vieram os sucessivos ciclos de químio e radioterapia.

Francisco nasceu sadio no dia 30 de maio de 2011. Mas Chiara, consumida até perder a vista do olho direito, não conseguiu resistir por mais do que um ano. Na quarta-feira passada, por volta do meio dia, rodeada de parentes e de amigos, a sua batalha contra o dragão que a perseguia, como ela definia o tumor em referência à leitura do apocalipse, terminou.

Mas na mesma leitura, que não foi escolhida por acaso para a cerimônia fúnebre, ficamos sabendo também que uma mulher derrota o dragão. Chiara perdeu um combate na terra, mas ganhou a vida eterna e deixou para todos um testemunho verdadeiro de santidade.

“Uma nova Gianna Beretta Molla”, definiu-a o cardeal vigário de Roma, Agostino Vallini, que prestou homenagem pessoalmente a Chiara, a quem conhecera havia poucos meses, juntamente com Enrico.

“A vida é um bordado que olhamos ao contrário, pela parte cheia de fios soltos”, disse o purpurado. “Mas, de vez em quando, a fé nos faz ver a outra parte”. É o caso de Chiara, segundo o cardeal: “Uma grande lição de vida, uma luz, fruto de um maravilhoso desígnio divino que escapa ao nosso entendimento, mas que existe”.

“Eu não sei o que Deus preparou para nós através desta mulher”, acrescentou, “mas certamente é algo que não podemos perder. Vamos acolher esta herança que nos lembra o justo valor de cada pequeno gesto do cotidiano”.

“Nesta manhã, estamos vendo o que o centurião viveu há dois mil anos, ao ver Jesus morrer na cruz e proclamar: Este era verdadeiramente o filho de Deus”, afirmou em sua homilia o jovem franciscano frei Vito, que assistiu espiritualmente Chiara e a família no último período.

“A morte de Chiara foi o cumprimento de uma prece. Depois do diagnóstico de 4 de abril, que a declarou doente terminal, ela pediu um milagre: não a própria cura, mas o milagre de viver a doença e o sofrimento na paz, junto com as pessoas mais próximas”.

“E nós”, prosseguiu frei Vito, visivelmente emocionado, “vimos morrer uma mulher não apenas serena, mas feliz”. Uma mulher que viveu desgastando a vida por amor aos outros, chegando a confiar a Enrico: “Talvez, no fundo, eu não queira a cura. Um marido feliz e um filho sereno, mesmo sem ter a mãe por perto, são um testemunho maior do que uma mulher que venceu a doença. Um testemunho que poderia salvar muitas pessoas...”.

A esta fé, Chiara chegou pouco a pouco, “seguindo a regra assumida em Assis pelos franciscanos que ela tanto amava: pequenos passos possíveis”. Um modo, explicou o frade, “de enfrentar o medo do passado e do futuro perante os grandes eventos, e que ensina a começar pelas coisas pequenas. Nós não podemos transformar a água em vinho, mas podemos começar a encher os odres. Chiara acreditava nisto e isto a ajudou a viver uma vida santa e, portanto, uma morte santa, passo a passo”.

Todas as pessoas presentes levaram da igreja uma plantinha, por vontade de Chiara, que não queria flores em seu funeral. Ela preferia que cada um recebesse um presente. E no coração, todos levaram um “pedacinho” desse testemunho, orando e pedindo graças a esta jovem mulher que, um dia, quem sabe, será chamada de beata Chiara Corbela.

(Tradução:ZENIT)

16 de Junho - Dia do Imaculado Coração da Virgem Maria


Maria não tinha pecado que expiar, nem original nem atual; não recebera de Deus, como Jesus, o fardo de nossas iniquidades, e por que foi então que sofreu tanto em sua vida, durante a qual teve incessantemente, diante dos olhos, o quadro da morte de seu Filho? E por que, principalmente, teve de suportar o martírio do Calvário?

É que o sofrimento é a lei do amor, e foi o amor de Maria que teceu o seu martírio, e porque amava mais do que todas as criaturas sofreu um martírio incomparável.

Outra razão de ser do sofrimento é que ele é a glorificação atual de Jesus Cristo em nós; padecendo, continuamos e completamos o seu sacrifício (cf. Cl 1,24). No caso de Maria, existe ainda o motivo de que a glória da maternidade deve ser conquistada pelo sofrimento. Ao dar à luz o seu Filho Imaculado, foi isenta desta lei, mas quando se tratou de tornar-se nossa Mãe e nos fazer nascer à vida da graça, teve de experimentar-lhe todo o rigor.

Quanto sofreu Jesus Cristo para nos regenerar! Maria sofrerá com Ele, imóvel ao pé da Cruz, partilhando em seu coração todos os tormentos da Paixão a fim de se tornar nossa Mãe adotiva.

***

Oh! quanto haveis de ser amados por Maria se servirdes bem ao seu Jesus! Quanto vos protegerá, se trabalhardes somente para a glória de Jesus! Quanto haverá de vos enobrecer, vendo que viveis unicamente do amor de Jesus! Torná-lA-eis assim duplamente Mãe, porque A colocais de um modo mais perfeito na sua graça e missão de Mãe dos adoradores de Jesus.

Sede porém modestos como a Santíssima Virgem; lembrai-vos de sua modéstia diante do Anjo e imaginai quão modestamente Ela servia seu Filho no Santíssimo Sacramento.

Sede puros como a vossa boa Mãe, que teria mesmo renunciado à glória da maternidade divina para conservar a flor de sua virgindade.

Sede humilde, a seu exemplo, pois se abismava no seu nada inteiramente entregue à graça de Deus. Sede amáveis e mansos visto que Maria era a suave expressão do coração de Jesus. Revesti-vos das virtudes e méritos da Santíssima Virgem quando fordes à Sagrada Mesa, e assim comungareis com a sua fé e o seu coração.

Oh! quão feliz sentir-se-á Jesus encontrando em vós a imagem e a reprodução de sua Mãe amabilíssima!

S. Pedro Julião Eymard, Flores da Eucaristia.

Eis o Coração que tanto amou o mundo


S. Pedro Julião Eymard

Ao Coração de Jesus, vivo no Santíssimo Sacramento, honra, louvor, adoração e realeza por todos os séculos dos séculos! (cf. Ap 5,12-13)

A finalidade da festa do Sagrado Coração é honrar, mais fervorosa e ardentemente, o amor de Jesus Cristo sofrendo e instituindo o Sacramento de seu Corpo e Sangue.

A fim de penetrar no espírito da devoção para com o Coração de Jesus, é mister, portanto, honrar os sofrimentos do Salvador e reparar as ingratidões de que é diariamente saturado na Eucaristia.

Quão profundas foram as dores do Coração de Jesus! Todas as provocações convergiram para Ele. Foi cumulado de humilhações, ferido pelas mais revoltantes calúnias, que procuravam roubar-Lhe a honra; foi saciado de opróbrios e coberto de desprezos. Apesar de tudo isto, porém, ofereceu-se voluntariamente, sem a mais leve queixa. Seu amor foi mais forte que a morte, e as torrentes da desolação não conseguiram arrefecer-lhe o ardor (cf. Ct 86-7).

Essas dores já terminaram, sem dúvida, mas, desde que Jesus as suportou por nós, o nosso reconhecimento deve persistir, e compete ao nosso amor honrá-las como se estivessem presentes aos nossos olhos.

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As razões que determinaram a instituição da Festa do Sagrado Coração, e o modo pelo qual Jesus manifestou seu Coração, ensinam-nos que é na Eucaristia que O devemos honrar, pois é aí que O encontramos na plenitude de seu amor.

Foi diante do Santíssimo Sacramento exposto que Santa Margarida recebeu as revelações do Sagrado Coração; foi na Santa Hóstia que Jesus se lhe apresentou com o Coração entre as mãos, dizendo estas adoráveis palavras, o mais eloquente comentário de sua presença eucarística: "Eis o Coração que tanto amou os homens".

E Nosso Senhor, aparecendo à venerável Madre Mectilde, fundadora de um Instituto de Adoradoras, recomendou-lhe que honrasse e amasse com o ardor possível o seu Sagrado Coração no Santíssimo Sacramento, e LhO deu como penhor de seu amor para lhe servir de refúgio durante a vida e consolação na hora da morte.

Ó Jesus, sede a minha luz, minha nuvem luminosa no deserto (cf. Ex 13,21-22; Sl 104,39) desse mundo, meu único Senhor, pois não quero outro! Sede minha única ciência. Fora de Vós, tudo é nada para mim.

S. Pedro Julião Eymard, Flores da Eucaristia

A natureza régia do homem


Deus presenteou o homem com todo o gênero de beleza e exornou Sua imagem com um espírito apto a conhecer e a amar; e, o que é mais, concedeu-lhe uma vontade livre, isto é, um poder de autodeterminação, isento de toda coação e de toda sujeição a qualquer poder estranho. À semelhança da Divindade todo-poderosa, o homem exerce um verdadeiro domínio sobre si mesmo e sobre o mundo. Numa palavra, o homem é uma natureza régia: seu porte é real e seu andar, ereto; seu olhar dirige-se ao alto, como convém à dignidade real de um senhor. A fraqueza do seu corpo indefeso incita-o a conquistar o domínio do mundo pelo espírito. Pois a sua realeza reside principalmente no espírito. Por isso Deus não o revestiu de púrpura, mas de virtude: a mais real de todas as roupagens; em lugar do cetro, conferiu-lhe a ventura da imortalidade: em lugar da coroa real, ornou-o da coroa da justiça.

S. Gregório de Nissa sobre o estado primitivo do homem.

Sta Teresa D'Avila sobre o extremo amor com que Jesus se dá na Eucaristia


Vendo o bom Jesus que seu auxílio nos era muitíssimo necessário, buscou um meio admirável por onde nos mostrasse o seu excessivo amor por nós. Em seu próprio nome e no de seus irmãos, fez esta petição: O pão nosso de cada dia nos dai hoje, Senhor."1

Por amor de Deus, irmãs, compreendamos bem o que nosso bom Mestre pede. Para nós é questão vital não passarmos por alto sobre este ponto. Convencei-vos de que destes pouquíssimo e haveis de receber imenso tesouro.

Tenho para mim, salvo melhor parecer, que o bom Jesus, considerando o que havia prometido por nós, viu o quanto nos importava cumprir esta sua palavra.

Por outro lado, percebeu as grandes dificuldades que nisto teríamos de superar, por sermos tão vis e inclinados a coisas da terra e termos tão pouco amor e coragem.

Para despertar-nos ele quis então que víssemos quanto nos amava. Isto não uma vez, mas, todos os dias.Resolveu então ficar para sempre conosco. Sendo coisa de tal gravidade e de tanta importância, quis o bom Jesus que essa graça nos fosse concedida pela mão do eterno Pai. Ele sabia muito bem que seu Pai não deixaria de confirmar e aprovar no céu o que ele fizesse na terra.

O Pai e o Filho entre si são ambos uma só e mesma coisa. A vontade de um é a vontade do outro. Contudo era tão profunda a humildade do Filho que, por assim dizer, quis primeiro pedir licença a seu Pai, embora soubesse que era o objeto do seu amor e de sua complacência.

Entendeu perfeitamente que nesta súplica pedia mais do que em todas as outras, porque antevia a morte que o esperava e as desonras e afrontas que havia de padecer.

Que pai haveria, Senhor, que, tendo-nos dado seu filho - e que Filho! - e vendo o estado em que o pusemos, consentiria em deixá-lo entre nós a padecer de novo cada dia? Por certo nenhum, Senhor, senão o vosso Pai, e bem sabeis a quem pedis! Valha-me Deus! que grande amor o do Filho, e que grande amor o do Pai!"

Todavia, já não me admiro tanto do bom Jesus. Tendo dito: faça-se a vossa vontade, e não sendo como nós, havia de cumprir a palavra de modo digno de quem é, com a perfeição de um Deus. Sabia que devia amar-nos como a si mesmo para cumprir a vontade de seu Pai. Assim andava buscando um meio para cumprir este mandamento com a maior perfeição, embora muito à sua custa.

Porém vós, Pai Eterno, como consentistes? Por que motivo quereis ver vosso Filho cada dia em mãos tão indignas quanto as nossas? Por uma vez que assim quisestes e consentistes a seu pedido, bem vistes o estado em que o deixaram.

Como pode vossa piedade presenciar diariamente - sim, diariamente - as injúrias que lhe fazem? E quantas não se devem hoje assacar a este santíssimo Sacramento! Em quantas mãos inimigas não o vê o Pai! Quantos desacatos por parte desses hereges!

Ó eterno Senhor! como admitis tal petição? Por que dais vosso consentimento? Não vos guieis pelo amor de vosso Filho! A troco de realizar plenamente vossa vontade e de nos fazer benefícios, ele se deixará despedaçar cada dia.

Toca a vós, Senhor meu, providenciar o que é justo. A vosso Filho nada parece demasiado. Por que razão todo o nosso bem há de ser à sua custa? A tudo cala, não sabe falar por si, senão só por nós - não haverá quem fale em defesa desse amantíssimo Cordeiro?

Tenho reparado que só nesta petição, ele duplica as palavras. Primeiro diz e pede que nos seja dado este pão cada dia, e depois torna a dizer: Nos dais hoje, Senhor. Apenas para seu Pai, como a dizer-lhe que é nosso, já nos pertence porque o deu uma vez para morrer por nós. Não o torne a levar até o fim do mundo. Deixe-o para nos servir cada dia.

Não há escravo que de boa vontade confesse que o é: e eis que o bom Jesus parece gloriar-se de o ser. Isto vos enterneça o coração, minhas filhas, e vos mova a amar sempre mais o vosso Esposo.

Ó eterno Pai! por certo, bem meritória é esta humildade! Com que tesouro compraremos vosso Filho! Já sabemos que foi vendido por trinta dinheiros, mas, para comprá-lo não há preço que baste! 

Nesta oração faz-se uma só coisa conosco pela participação da nossa natureza. Como Senhor e árbitro de sua vontade, faz ver a seu Pai que sendo ele dono da sua própria vontade, quer dar-se a nós. Assim diz: o pão nosso.

Não faz diferença alguma entre ele mesmo e nós. Entretanto diariamente nós o fazemos em demasia para não nos darmos cada dia por Sua Majestade.

1- A Santa comenta o Pai-nosso como se rezava em seu tempo em língua vulgar, acrescentando: Senhor.

Sta Teresa D'Avila, Caminho de Perfeição.

Eucaristia e a Novidade Divina


Quando o Senhor instituiu a Sagrada Eucaristia na Última Ceia, era de noite, o que manifestava - comenta São João Crisóstomo - que os tempos se tinham cumprido. Caía a noite sobre o mundo, porque os velhos ritos, os antigos sinais da misericórdia infinita de Deus para com a humanidade se iam realizar plenamente, abrindo caminho a um verdadeiro amanhecer: a nova Páscoa. A Eucaristia foi instituída durante a noite, preparando de antemão a manhã da Ressurreição.

Também em nossas vidas temos de preparar essa alvorada. Tudo o que é caduco e nocivo, tudo o que não presta  - o desânimo, a desconfiança, a tristeza, a covardia -, tudo isso tem de ser lançado fora. A Sagrada Eucaristia introduz a novidade divina nos filhos de Deus, e devemos corresponder in novitate sensus, com uma renovação de todos os nossos sentimentos e de toda a nossa conduta. Foi-nos dado um princípio novo de energia, uma raiz poderosa, enxertada no Senhor. Não podemos voltar ao antigo fermento, nós que temos o Pão de hoje e de sempre"

S. Josemaria Escrivá, É Cristo que Passa.
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