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A Escuridão me Basta - Thomas Merton



"Senhor, é quase meia-noite e estou Te esperando na escuridão e no grande silêncio.
Lamento todos os meus pecados.
Não me deixe pedir mais do que ficar sentado na escuridão, 
sem acender alguma luz por conta própria, nem me abarrotar com os próprios pensamentos
 para preencher o vazio da noite na qual espero por Ti.
Deixa-me virar nada para a luz pálida e fraca dos sentidos, 
a fim de permanecer na doce escuridão da Fé pura.
Quanto ao mundo, deixa-me tornar-me para ele totalmente obscuro para sempre. 
Que eu possa, deste modo, por esta escuridão, chegar enfim à Tua claridade.
Que eu possa, depois de ter me tornado insignificante para o mundo, 
estender-me em direção aos sentidos infinitos, contidos em Tua paz e Tua glória.
Tua claridade é minha escuridão. 
Eu não conheço nada de Ti e por mim mesmo nem posso imaginar como fazer para Te conhecer.
Se eu te imaginar, estarei errado.Se Te compreender, estarei enganado.
Se ficar consciente e certo que Te conheço, serei louco.
A escuridão me basta".

Thomas Merton, OCSO

A Virgem Santíssima e o despertar divino na alma


Bom, termino com esta as citações deste grande livro que acabo de ler, entitulado Ascensão para a Verdade, de autoria do monge trapista Thomas Merton - um dos meus escritores favoritos, digam o que disserem - e que consiste num profundo estudo da mística sanjuanista (referente a S. João da Cruz). Neste último post que faço deste livro, o autor passa a falar da Virgem Santíssima como modelo dos contemplativos e termina fazendo uma transcrição de S. João da Cruz sobre o "despertar de Deus" na alma que caracteriza um dos estados mais altos da vida mística. Depois, farei mais alguns comentários sobre este e outros livros que tratam do Doutor da Noite, bem como do próprio santo, a quem tenho por pai. Boa leitura.

***

Thomas Merton

A Bem-aventurada Virgem Maria foi o mais sábio teólogo. Ela é a Mãe do Verbo que é ao mesmo tempo a teologia de Deus e dos homens. A verdade de Deus entrou tão profundamente em sua vida, que se tornou encarnada em seu seio virginal. Toda a Sabedoria se concentrou em seu Coração Imaculado, sedes Sapientias. Quando o Anjo a visitou na Anunciação, encontrou-a no mais profundo silêncio. Poucas são as palavras recordadas daquela que nos deu o Verbo. E quando ela O deu ao mundo, que poderia fazer ela mesma senão escutá-Lo? "Guardava todas essas palavras conservando-as em seu coração".

E assim Nossa Senhora é o modelo dos contemplativos e o espelho dos místicos. Os que amam a pura Verdade de Deus, instintivamente amam a simplicidade da Imaculada Mãe de Deus. Ela os atrai ao interior do seu silêncio e de sua humildade. Ela é a Virgem da Solidão, que Deus chamou sua eremita: una est columba mea in foraminibus petrae. Ela escondeu-se nas cavernas da pedra, de que nos falava S. João da Cruz, e viveu como um eremita nos sublimes mistérios do seu Filho. Ela viveu todo o tempo no céu, embora andasse sobre a terra, varrendo o assoalho, fazendo cama e cozinhando para os carpinteiros. Que é que acontecia em sua alma inimaginavelmente pura, no espelho sem mancha do seu ser, que Deus fizera para receber a sua perfeita semelhança?

Quando o Anjo falou, Deus acordou no coração dessa moça de Nazaré, e movimentou-se dentro dela como um gigante. Ele mexeu-se e abriu os olhos e viu que ela, ao contê-lo, continha todo o universo também. A anunciação foi tanto uma visão como um terremoto em que Deus moveu o universo e deslocou as esferas, e o princípio e o fim de todas as coisas apareceu aos olhos da Virgem, no mais profundo do coração. E muito abaixo do movimento deste silencioso cataclisma, ela adormeceu na infinita tranquilidade de Deus, e Deus foi uma criança encolhida que dormia em seu seio, enquanto nas suas veias circulava a Sabedoria dessa criança, que é noite, que é luz das estrelas, que é silêncio. E todo o seu ser foi abraçado por Aquele que ela abraçava, e os dois tornaram-se silêncio.

A missão de Nossa Senhora no mundo é formar este seu Cristo, este Gigante, nas almas dos homens, como Ele mesmo se formou na sua. Ela traz-lhes a graça do Cristo, que é a graça da sua presença vivificante. Ele nasce em cada homem pelo batismo, mas nós não o sabemos. Ele cobre a alma com a sua sombra, quando ela O prova na paz da contemplação. Mas isto não basta. No cume da vida mística, Deus deve mexer-se e revela-se, sacode o mundo dentro das almas e surge do seu sono como um gigante.

É isto que nos fala S. João da Cruz na Chama Viva do Amor. É a minha última citação.

"Este despertar é um movimento do próprio Verbo na substância da alma, de tanta grandeza e domínio e glória, e de tão íntima suavidade, que lhe parece que todos os bálsamos e espécies odoríficas e flores do mundo se misturam e agitam, revolvendo-se para dar suavidade, e que todos os reinos e dominação do mundo, e todas as potestades e virtudes do céu se movem. E não só isto, mas também as virtudes e substâncias e perfeições e graças de todas as coisas criadas reluzem e se põem, por sua vez, em movimento uníssono e simultâneo... Donde vem que, movendo-se na alma, este altíssimo Imperador, cujo Reino, como diz Isaías, Ele traz nos seus ombros... então tudo parece mover-se juntamente... Mesmo assim, quando um Palácio é aberto, pode-se ver a um só tempo a eminência da Pessoa que está dentro e o que ela está fazendo... Estando a alma substancialmente em Deus, como toda criatura, Ele tira diante dela alguns dos muitos véus e cortinas que ela tem anteposto, para poder vê-Lo como Ele é, e, assim, se lhe revela, e ela é capaz de ver (embora obscuramente, porque não se tiram todos os véus), esta Face cheia de graça. Como Ele move todas as coisas com a sua virtude, aparece juntamente com Ele aquilo que Ele está fazendo, e Ele parece mover-se nelas e elas n'Ele em movimento contínuo. E é por isto que a alma crê que Deus se moveu e acordou, sendo ela, na realidade, que foi movida e acordada."

Thomas Merton, Sementes de Contemplação

Os dois elementos da Fé: a Proposição Conceitual e a Luz Infusa


Thomas Merton

O homem foi feito para conhecer a verdade, e a sua salvação consiste em amar a mais elevada Verdade, que não pode ser amada sem ser primeiro conhecida. Mas só há uma espécie de conhecimento que efetivamente confere ao homem a luz necessário a este fim sobrenatural. É o que lhe vem na obscuridade da fé.

Disse o profeta, "a menos que creiais, não entendereis". Só a fé nos pode dar a inteligência nos mistérios de Deus. Mas a fé tem algo a mais. "Sem fé, diz S. Paulo, é impossível agradar a Deus".

Que significa agradar a Deus? Deus agrada-se da alma que encontra cheia da sua realidade, seu amor, sua verdade. Misteriosamente, é conhecendo-O, que agradamos a Deus, pois só podemos conhecer, recebendo no coração a sua luz. A fé, portanto, não só é capaz de penetrar na íntima substância da Verdade de Deus, mas significa um conhecimento redentor. Ela nos "salva". Sua luz é mais do que um raio de especulação: confere a vida, transformando, com a luz e a paz, o ser inteiro do homem, que se torna nova criatura, nasce de novo.

Que vida nova é essa? É a presença substancial de Deus. É antes, uma nova presença de Deus que por seu poder, presença e essência, conserva todas as coisas no ser. Esta nova presença é espiritual. Que significa isso? Já a descrevemos. Deus é presente em sua luz, em seu amor. Pela fé, esperança e caridade, Deus torna-se objeto de uma experiência potencial nas profundezas da alma, já que pela graça Ele confere às faculdades o poder e o desejo de possuí-Lo na íntima consciência de nossa união com Ele por amor. Revela-se o interior da alma como objeto de sua mais profunda espera, e promete, por uma presença obscura, a sua clara visão. Suas promessas nos fazem desejar esta visão. E pelo desejo, abraçamos desde já a visão, embora permaneça ela obscura.

Numa palavra, a fé nos dá mais do que luz, mais do que vida, porque a "luz" que ela nos dá é Deus mesmo e a Vida que nos confere é o próprio ser de Deus, que criou toda vida soprando sobre os abismos, e que se torna o princípio da nossa existência sobrenatural.

Ora, nada disto flui pura e simplesmente do conteúdo conceitual da fé. É coisa que vem diretamente de Deus.

Que conclusão tiramos? Em cada ato de fé, há dois elementos em ação. Primeiro, a fórmula, o complexo conceitual que contém a verdade a que assentimos e que se apresenta à nossa mente como qualquer outro conhecimento intencional: na forma de um juízo. Mas ele não ilumina a mente da mesma forma que o conhecimento ordinário. No plano natural, um juízo conceitual ilumina a mente pela clara evidência que ele contém. No ato de fé, o conteúdo conceitual das proposições não lança por si mesmo nenhuma luz sobre o entendimento. A diferença entre a crença e a descrença não é medida pelo nosso poder de apreender o sentido dos artigos de fé. Um homem pode adquirir grande conhecimento técnico da teologia da Trindade sem crer na Trindade. Um outro sem nenhuma visão dos problemas dogmáticos envolvidos no mistério, pode acreditar nele. Este é aquele a quem Deus "salvou", e que pode ser elevado à contemplação. Assim, pois, em cada ato de fé há um segundo elemento, que é o mais importante: uma luz objetiva e sobrenatural a penetrar nas profundezas da alma e a comunicar-lhe o conteúdo real da verdade que não pode ser plenamente apreendido nos termos da proposição a crer.

Cada um dos dois elementos é absolutamente necessário ao ato de fé viva, porque há uma íntima relação entre eles. Se os artigos de fé fossem meramente uma ocasião para a infusão da luz sobrenatural, então não importaria o que Deus nos propõe a crer. Qualquer conceito serviria por igual. Mas isto significaria que o conteúdo intencional do nosso credo seria sem valor nem sentido. Bastaria ser sincero, e Deus infundiria a luz que o faria conhecido sem nenhuma relação com um corpo de verdades reveladas, de nulo valor objetivo.

A relação entre o conteúdo conceitual da fé, e a luz infusa pela qual Deus nos dá a sua verdade, está no seguinte: a verdade acha-se realmente contida, sob uma forma oculta, nos próprios artigos da fé. E é pela luz da fé que achamos a verdade nesses artigos.

Isso vale para todas as proposições de S. João da Cruz sobre o poder da fé: que ela é o único caminho para a união com Deus, que ela é essencialmente obscura e "esconde" a Deus, mas é ao mesmo tempo pura verdade, perfeita em sua certeza, e nos traz Deus como sob um manto de nuvem.

S. Tomás também aceita a nossa distinção, quando diz que a fé consiste principalmente numa luz infusa, mas que recebe dos vários artigos propostos à nossa crença a determinação a uma verdade particular.

Thomas Merton, Ascensão para a Verdade.

A Fé - o que é?


Desde que o ato de fé é o primeiro passo para a contemplação e para a visão beatífica, é extremamente importante a exata noção do que é realmente a fé. A fé é uma virtude sobrenatural, cuja função é capacitar a inteligência a dar firme e completo assentimento a verdades reveladas por Deus, não à força da clara evidência intrínseca das suas proposições sobre Deus, mas pela autoridade do próprio Deus que nos revela o que efetivamente não vemos.

Esse assentimento intelectual é feito por um livre ato da vontade iluminada e guiada pela graça e precedida de um julgamento racional da credibilidade, que não é, porém, o motivo interno da fé. A Igreja tem constantemente defendido o caráter intelectual do ato de fé. Seria um grave erro de doutrina sustentar que a fé é um "cego movimento da vontade". A Igreja, todavia, defende também o caráter essencialmente obscuro da fé. Ela não é e não pode ser assentimento dado à intrínseca evidência. Ela é essencialmente o "argumento de coisas que não aparecem". Cremos o que não vemos e por isto o ato de fé deixa de ser puramente intelectual: é elicitado sob o impulso da vontade.

Assim a Igreja defende o caráter essencialmente sobrenatural da fé. É um dom de Deus. É produzida sob a inspiração da graça, que age diretamente sobre as potências da alma, movidas, por assim dizer, pelo "dedo de Deus". Em cada ato de fé, o Espírito Santo toma a nossa vontade, que se afastara de Deus pelo pecado e "corrige" o seu objeto, enquanto, ao mesmo tempo ilumina a inteligência, e assim nós cremos (1).

Finalmente, qual é o objeto da fé? Deus mesmo. A fé termina em Deus, nesse sentido que cada artigo da verdade revelada acaba em Deus ou a Ele se refere, e também enquanto é por submissão à autoridade de Deus que a nossa mente aceita o que cremos.

Com este breve esboço do essencial da fé, podemos compreender o peso teológico da afirmação que faz S. João da Cruz, que "a fé, e só ela, é o meio próximo e proporcional pelo qual a alma é unida a Deus"(2). E em outro lugar: "esse conhecimento obscuro e amoroso, que é a fé, serve como um meio à união divina nesta vida, assim como, na outra, a luz da glória serve de intermediário à clara visão de Deus"(3).

S. João apenas repete a famosa expressão em que S. Tomás chama a fé início da vida eterna, quaedam inchoatio vitae aeternae. É a doutrina da Igreja no Catecismo do Concílio de Trento, onde lemos:

"A fé aguça tanto o poder da inteligência humana, que esta pode penetrar nos céus sem esforço e, banhada com a luz de Deus, se torna capaz de atingir em primeiro lugar a Fonte da Luz e, depois, todas as coisas abaixo de Deus... de tal modo que experimentamos com grande exultação a verdade de que fomos chamados das trevas à sua admirável luz, e nos alegramos com imenso alvoroço".

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1- Cf.: Definições do Concílio de Orange, Denz, 178-180.
2- Subida, Livro II, n. 9.
3- Subida, Livro II, n. 24.

Thomas Merton, Ascensão Para a Verdade, Cap. XV, pp. 184-185

Thomas Merton sobre o fim dos tempos - sem datas nem sensacionalismos...


Deveis saber e deveis crer, por certo, que o dia de perseguição já começou a desabar sobre novas cabeças, e também o fim do mundo e o tempo do anticristo, de maneira que devemos, todos, nos manter prontos para o combate, e nenhum de nós deve pensar em outra coisa senão na glória da vida eterna e na coroa prometida aos que confessam o Nome do Senhor. Tampouco devemos pensar que o que vai suceder seja semelhante àquilo a que já estamos acostumados. Muito pior e mais selvagem é a luta que agora se apresenta a nós, e os soldados de Cristo devem preparar-se por meio da mais pura fé e de uma coragem indomável, recordando-se de que a razão por que bebem, diariamente, o cálice do Sangue de Cristo é a de poderem derramar o seu sangue por Cristo. 

É isso que significa ser encontrado em Cristo: imitar os ensinamentos e as ações de Cristo conforme as palavras do Apóstolo João: "Aquele que diz estar em Cristo deve caminhar como Cristo caminhou", e o Bem-aventurado Apóstolo Paulo nos exorta e ensina com estas palavras: "Somos filhos. Se filhos de Deus, somos também herdeiros de Deus, co-herdeiros com Cristo, contanto que soframos com ele de maneira a sermos, com ele, glorificados".

Thomas Merton, O Pão Vivo.

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Bom, falando ainda sobre a falsidade das profecias do sr. Cláudio Heckert, mais uma evidência: ele e todo o movimento Salvai Almas ficam recebendo, recorrentemente, avisos sobre o estado do Purgatório e, em geral, ele parece estar vazio. rsrs.. No entanto, Nossa Senhora, em Fátima, disse que a Amélia ficaria lá até o fim do mundo. Quem merece mais crédito? 

Pax et Bonum.

A mística independe da doutrina?

Êxtase de Sta Teresa D'Avila

Bem. Temos tratado recorrentemente sobre assuntos relacionados à doutrina da Igreja, sobretudo no que diz respeito a matérias teológicas e tal. E quando eu escrevo "temos", estou me referindo a toda esta leva de blogs católicos que têm se dedicado a fazer um trabalho alternativo de formação dos cristãos, já que, ao que parece, e sem querer generalizar, as catequeses por aí não deram conta nem de formar nos princípios básicos da doutrina católica nem de instigar um ulterior aprofundamento da mesma.

É, às vezes, com comoção que lemos os relatos de inúmeras pessoas que, ao entrar em contato com a infalível verdade católica, passam a respirar, depois de tanto tempo, ares frescos e convertem-se e agradecem veementemente a pessoa da qual Deus se utilizou para fazer resplandecer um raio da Sua luz puríssima.

No entanto, há pessoas até um tanto familiarizadas com certas questões teológicas, mas que persistem na prática de uma mística incorreta e adversa à verdadeira espiritualidade católica. Agem como se estes - doutrina e mística - fossem terrenos estanques, que não se comunicam, quando, na verdade, ocorre justamente o contrário.

Existe uma teoria que ganha cada vez mais adeptos mundo afora e que consiste em dizer que a mística ou a experiência direta com a divindade localiza-se num nível supra-denominacional. As diferentes religiões e doutrinas seriam modos imperfeitos, acomodados ao limite humano, de fazer compreender algo daquele "quê" transcendente. Uma vez, porém, que alguém alcançasse a experiência mística, já não seria preciso manter-se dentro dos limites doutrinários que seriam como que uma palavra penúltima antes da imersão no abismo místico. As religiões seriam, na verdade, tentativas sistemáticas de expressão da experiência do inefável. Como não se pode esperar que todos os homens sejam místicos, então os diferentes sistemas religiosos mantêm a sua vigência, pois, então, eles servem para fazer vislumbrar algo daquele mistério.

Esta doutrina do relativismo religioso em função de uma idêntica experiência mística, como eu falei, tem ganho cada vez mais espaço. S. João da Cruz, por exemplo, é muitas vezes instrumentalizado em discursos e palestras sobre o assunto e mostrado como exemplo desta teoria. Por ser chamado de "doutor do nada", é comum que se faça já uma precipitada identificação entre este nada e o nada budista, pretendendo mostrar como o termo - objetivo alcançado - dos diferentes sistemas é, na verdade, o mesmo. Mestre Eckhart, um sujeito místico e, no dizer de alguns, gnóstico - enfim, alguém suspeito mesmo -, embora de fundo cristão, é outro personagem constantemente evocado nessas discussões.

Um escritor católico, inclusive monge trapista, e de quem recorrentemente trago textos aqui, é também bastante criticado porque aparentou partilhar de uma teoria similar. É o Thomas Merton. Pelo que conheço dele, nunca vi nada explícito neste sentido, mas é certo que ele cultivava bastante interesse na mística oriental e passou os seus últimos anos em viagens pelo oriente, entrevistando mestres e autoridades em meditação, etc. Não consta, porém, que ele tenha jamais abandonado a sua fé.

Mas eu fiquei particularmente feliz quando, lendo um de seus livros, do qual tenho feito ultimamente várias transcrições para este espaço, e onde ele pretende fazer um minucioso estudo da teoria mística de S. João da Cruz - por quem o Thomas Merton torcia para que se tornasse o doutor comum em mística da Igreja -, vi que este monge retira qualquer suspeita de sincretismo e rebeldia à autoridade da Igreja e faz questão de demonstrar que aquela visão de S. João da Cruz como exemplo de uma mística alheia a qualquer doutrina é, na verdade, bastante equivocado e sem nenhum fundamento. Transcrevo abaixo, mais uma vez, alguns trechos:

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Não poderemos compreender bem a S. João da Cruz ou a S. Gregório de Nissa se não nos lembrarmos de que a sua mística é centralizada no Cristo. Mesmo sendo apofática a sua teologia mística, a experiência supra-conceitual que têm de Deus só pode consumar-se em Cristo. E, o que é mais, ela não pode em realidade dar-se sem o conceito do Cristo como Verbo Encarnado de Deus. Isso é essencial à mística evangélica.  "Ninguém vai ao Pai senão por Cristo"" (Jo 14,6)

Alguns escritores de fora da Igreja prestam aos grandes místicos cristãos a homenagem dum certo respeito. Os santos mesmos não se teriam sentido lisonjeados por isto. S. João da Cruz é tratado por alguns como um panteísta a viver atrás de uma fachada cristã. Isso concorda com a teoria que faz viverem juntos no cume do seu Olimpo os místicos de todas as religiões, longe das névoas da doutrina religiosa, do sacerdócio, liturgia, sacrifício, disciplina eclesiástica, e todas as outras aborrecidas coisas que separam a marcha comum dos homens em grupos religiosos. Pensam na prática que os místicos cristãos da "Noite" deixam o Cristo fora das portas de seu próprio Eden contemplativo. A idéia de um Verbo Encarnado é para a gente simples. Devoção a Cristo crucificado, meditação sobre a sua santa Humanidade, supõem-se tão relacionadas com a mística cristã apofática, como o Bakhti Ioga ao mais puro Raja Ioga da Índia. O Bakhti é uma forma respeitável mas reconhecidamente inferior da mística, em que os adeptos chegam à união com o Absoluto concebido sob uma forma pessoal.

Esta engraçada teoria pode cativar-se se deixamos de ler os mais importantes capítulos de S. João, passando sobre as suas doutrinas mais fundamentais como se elas não existissem. Na realidade, a mística dos Carmelitas espanhóis é centralizada em Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, Deum verum de Deo vero, consubstancial ao Pai e nascido da Virgem Maria no tempo, morto na Cruz em redenção da humanidade, e que ressuscitou em glória e subiu aos céus, onde entronizou ao menos potencialmente a nossa natureza humana que Ele assumiu.

Isto é o mínimo exigido para a constituição de uma doutrina mística cristã. Mas o ensino dos carmelitas espanhóis, ou dos cistercienses franceses ou dos franciscanos italianos, ou dos Padres gregos e dos místicos do Deserto egípcio, não é [só] cristão, mas também católico. Quer isto dizer que ele não é só centralizado em Cristo histórico, mas que a sua contemplação é alimentada por esta extensão da Encarnação que é o Corpo Místico de Cristo, a sua Igreja visível, em que ela vive.

(...) Quando, portanto, S. João reconhece na razão um dos fundamentos da vida mística, é porque para ele a razão só preenche o seu ofício quando submete o homem à direção da fé. E esta não é um valor puramente subjetivo, pessoal, incomunicável. Ela tem o seu centro em Deus, revelado ao Corpo inteiro dos fiéis. Chegamos, assim, a esta importante conclusão: a razão é a chave da vida mística enquanto ajuda o homem a conformar toda a sua vida ao ensino e autoridade do Cristo que vive e atua na sua Igreja visível. Esta Igreja é uma unidade orgânica, com credo definido, corpo de leis, culto, chefe visível. A mística de S. João da Cruz não é apenas reconciliável com uma Igreja autoritativa e um sistema dogmático. Ela é efetivamente impossível sem isso. ( \o/ )

Thomas Merton, Ascensão para a Verdade, grifos meus.

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Creio que estas linhas sejam suficientes para demonstrar que a mística católica de modo algum cede à teoria da sopa mística que é defendida por aí. Mesmo quando o contemplativo chega a esta experiência de fato inefável, ela dá-se, sem dúvida, num nível supraconceitual, mas, mesmo aí, ela mantém-se genuinamente católica.

Fábio.

Mais do humor mertoniano

Discorrendo sobre as faculdades humanas durante a oração, ele segue:

"Mas em outras ocasiões, a razão e a imaginação podem fazer muito barulho. Nossa alma exterior prega sermões, reforma os mosteiros, reprova heréticos, passa em revista as faltas de outros contemplativos, desenvolve complexas teorias da vida interior, assume a direção espiritual de todos os conventos de monjas, urge os bispos a levarem uma vida de maior oração, e finalmente se torna Papa e governa a Igreja Universal com o aplauso de todos..."

Thomas Merton, Ascensão para a Verdade

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Estas linhas são engraçadas, mas nos falam de como andamos, por vezes, ocupados com a nossa própria promoção e em considerar a nossa própria excelência. E o que temos aí é uma vaidade travestida de espiritualidade, e como tal, coisa que não pesa mais que fumaça.

A Intuição Metafísica do Ser - Thomas Merton


Ultimamente, tenho feito várias transcrições do livro "Ascensão para a Verdade" do Thomas Merton. Há vezes que fico meio desconfortável por colocar tanta coisa só de uma fonte, mas é que eu encontro tantos tesouros e fico querendo compartilhar com os leitores aqui do blog, que nem tenho certeza se chegam a ler os artigos todos. Mas, eu recomendo muito a leitura das transcrições deste livro e os do Thomas Merton em geral disponibilizados aqui no blog. O Thomas tem alguns escritos, realmente, suspeitos, mas, destes, eu não os porei aqui. Enfim, aí vai mais uma pequena transcrição. São coisas que, sinceramente, me deleitam. Quisera eu que vocês também se alegrassem. Ah, e o senso de humor dele é muito bom. rs... Vamos lá.

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A ação de Deus na oração passiva aprofundou e alargou o poder natural da vontade em experimentar o prazer espiritual. Nada há de miraculoso nas novas capacidades espirituais que a alma descobre em si mesma. Elas fazem parte da sua natureza, mas tinham o seu exercício frustrado e entorpecido pelo apego aos prazeres sensíveis. Agora, estão livres e começam a recobrar frescura e vigor.

Quais são essas capacidades? Só mencionarei uma como exemplo. É o senso metafísico do ser e de todos os transcendentais. Muitas pessoas podem sequer compreender as noções abstratas do ser, verdade, beleza, unidade, como são propostas pelos filósofos. Não têm nenhuma capacidade para apreciar essas realidades, que para eles não passam de simples palavras. Para excitar o interesse dos que vivem aprisionados ao nível da experiência dos sentidos, e não têm familiaridade com o pensamento e a intuição filosófica, é preciso apresentar-lhes exemplos concretos e particulares de ser, de verdade e outros. (...) "Verdade", "beleza", só são apreciados em suas manifestações mais fragmentárias. Centenas de milhões de gordos cidadãos estão em vias de beber copázios de cerveja gelada. Centenas de milhões de moças exibem sabão, meias, cigarros, automóveis e um milhão de outras coisas, convidando os que contemplam tais anúncios a apreciar os produtos com olhos de consumidor. É tudo que vale como "ser" num mundo decidido a estourar-se.

Quando, pela prática da oração e a disciplina interior, um homem se livra das preocupações inúteis com o que é fragmentário e particular, e pode fazer um uso moderado das coisas materiais sem se deixar levar demais por elas, e quando Deus lhe alargou a capacidade de alegria espiritual com as graças infusas da oração, ele começa a experimentar alguns dos prazeres que pertencem por direito à alma humana, mas que muitos esqueceram. Metafisicamente falando, os valores que podem ser provados na experiência sensível de coisas particulares, podem ser desfrutados em forma concentrada e muito mais alta, numa intuição espiritual das propriedades transcendentais do ser. Procurarei explicar isto de um modo que seja aceitável mesmo àqueles que secretamente lamentam não ter estômagos infinitos para devorar todos os frangos fritos do mundo. Não nos é possível entrar na posse de toda a bondade dos alimentos existentes, simplesmente nos assentando para comê-los com a vista. Apesar das ambinções de Gargantua, os nossos corpos não são equipados para esse feito.

Entretanto, toda a realidade existente e toda a bondade de cada coisa que é boa, pode ser espiritualmente provado e desfrutado numa simples intuição metafísica do ser e da bondade como tal. O puro e intelectual deleite desta experiência faz de toda a embriaguês causada pelo vinho parecer um simples remanescente. Não falo aqui de nada místico, mas da mera intuição natural do ser, da bondade. Aqui o ser, a bondade, participados por todas as coisas particulares, são compreendidos numa simples intuiçõa luminosa que banha o nosso espírito de luz e alegria. É uma sorte de êxtase natural em que o nosso ser reconhece em si um parentesco transcendente com tudo que existe, e como que sai de si mesmo em busca de cada ser, e volta a si mesmo para achar todo ser. Num momento de rica iluminação metafísica elevamo-nos acima dos acidentes e das diferenças específicas para descobrir todas as coisas numa realidade transcendental sem diferenciação, a qual é o ser em si mesmo.

O fundamental dessa experiência é, sem dúvida, uma súbita penetração intuitiva do valor de nosso próprio ser espiritual. É uma profunda consciência metafísica da nossa realidade, não do eu superficial comum, psicológico, comprometido na busca de muitos desejos temporais e na fuga de muitos temores, mas da profunda realidade substancial de nosso ser pessoal. Neste momento de luz, a alma pode experimentar da liberdade inata que lhe é devida como uma propriedade do espírito. Ela pode até passar a uma intuição do Ser Absoluto que transcende absolutamente o nosso mais elevado conceito de ser e de espírito. Nesta intuição metafísica de que falo, a inteligência não entra numa visão imediata do Ser infinito. Deus é percebido numa inferência que parte do ser criado. Ele é conhecido no reflexo que deixa nas profundezas vitais do nosso espírito, do qual Ele é o Criador e que é o espelho onde se projeta a sua imagem.

E, no entanto, a intuição metafísica do ser e de suas propriedades transcendentais é uma grande coisa. Ela não pode dar-se sem alguma pureza moral e seu efeito natural é fortalecer a alma e ajudá-la a livrar-se de perigosas ligações. Através desta intuição há uma outra, a intuitiva apreciação do Ser Absoluto de Deus, uma intuição qualitativa, colorida de afetividade, em virtude da luz analógica derramada sobre a idéia do Criador pela intensa vitalidade e alegria que o espírito, consciente de ser a sua criatura, concebe em si mesmo.

É uma coisa tão grande essa intuição, que os filósofos pagãos pensavam que era a maior bem-aventurança. É de fato a maior a que pode o homem chegar por seus poderes naturais. Esse prazer, essa plenitude intelectual que é uma resposta parcial à mais profunda necessidade do ser espiritual do homem, a necessidade de contemplação, é acessível à natureza. Mas é sob a direção da graça que ela é atingida logo e mais perfeitamente.

Thomas Merton, Ascensão para a Verdade, Cap. XII

A mística como show - para uma certa tendência contemporânea

  
O Thomas Merton é o melhor, rsrs...

"É, ainda, importante pensar que as inspirações do Espírito Santo pelos Sete Dons, não são, geralmente, dramáticas e espetaculares nem por seu objeto nem por seu modo de atividade. Depois de ler as vidas dos santos e as experiências dos místicos, algumas pessoas ficam convencidas de que a vida mística deve ser algo de uma ópera wagneriana. Coisas tremendas acontecem todo o tempo. Cada nova moção do Espírito é anunciada por trovões e faíscas. Os céus se abrem e a alma evola-se do corpo numa explosão de supra-terrena e resplandecente luz. Aí ela encontra Deus face a face, no meio de um grande Turnverein de santos e anjos de trombeta, a voar e a cantar. Há, então, uma eloquente troca de impressões entre Deus e a alma, num dueto que durará no mínimo sete horas, pois sete é um número místico. Tudo isso pontilhado por terremotos, eclipses do sol e da lua, e explosão de bombas supersubstanciais. Eventualmente, depois de um curto ensaio musical do Fim do Mundo e do Último Juízo, a alma numa graciosa pirueta retorna ao corpo, e o místico volta a si para descobir que está rodeado de irmãos cheios de admiração, inclusive um ou dois a tomarem suas notas na previsão de algum futuro processo de canonização".

Thomas Merton, Sementes de Contemplação, Cap. XII, pp. 134-135.

Fábio.

Se o teu olho for puro...


Thomas Merton

"A luz do teu corpo são teus olhos. Se teu olho é simples (isto é, se ele vê claramente, sem confusão nem duplicidade) todo o teu corpo será luminoso, mas se ele é mau, todo o teu corpo será tenebroso. Cuida, pois, que a luz que existe em ti não seja em trevas". (Lc 11,34-35)

A luz em nós é a razão, ou a inteligência. Ela não é apenas aquilo que nos faz ver e compreender o mundo criado em sua realidade, mas é, sobretudo, o "olho" que recebe a luz infusa da fé e da contemplação. A verdadeira contemplação é um "conhecimento amoroso de Deus" e de fato exige a ação coordenada do conhecimento e do amor sobrenatural. Ela é, porém, situada formalmente na inteligência, como pensam S. João da Cruz e Sto Tomás. Vimos em que sentido se toma esta imagem: guardar o "olho" da inteligência. O que obscurece o espírito são os seus muitos apegos. Há uma cegueira espiritual que é fruto da emoção, da paixão, do desejo desordenado. Esta passagem de S. João da Cruz no-lo recordará: "Por menos que se beba desse vinho (o gosto pelas coisas criadas) ele sobe logo ao coração e o embriaga, e acaba escurecendo a razão... de modo que se não se toma depressa um antídoto para expekir sem demora o veneno, a vida da lam fica ameaçada." (Subida, Livro III, c. 23)

O antídoto de S. João é a "crise", a separação discriminativa dos verdadeiros e falsos valores (...) É precisamente através do trabalho da razão que esta crise acontece.

Thomas Merton, Sementes de Contemplação, Cap. X, pp. 118-119.

As formas de falsa mística

Sem noção.. kkk

Thomas Merton

Em abstrato, a falsa mística pode apresentar duas formas características. Ambas colocam a experiência mística numa relação incorreta com a Verdade revelada. Uma dessas definições incorretas afirma que o místico dispensa qualquer conhecimento conceitual de Deus. Para entrar na "união contemplativa" com Deus, o "homem espiritual" deve cessar toda atividade espiritual, esvaziando a alma de qualquer pensamento e afeto. Feito o vácuo, a alma torna-se automaticamente impregnada de contemplação "adquirida", e assim "conhece" a Deus, sem qualquer experiência do fato do conhecimento. Como isso passa por ser a verdadeira contemplação, considera-se o conhecimento teológico de Deus como um obstáculo à contemplação. Um teólogo estaria mal equipado para tornar-se místico, ao passo que um ignorante seria naturalmente mais preparado para a contemplação. Esses são os erros do Quietismo, condenados pela Igreja no século XVII. (...) Mas esse erro nos interessa por ser o que mais se parece, em alguns aspectos superficiais, com a doutrina de S. João da Cruz.

O erro quietista consiste na rejeição expressa da teologia, na depreciação da Revelação, no desprezo completo da oração formal e da meditação, e na teoria que admite uma contemplação sobrenatural "adquirida" pela simples cessação da atividade mental. São erros erros que tornam impossível a verdadeira contemplação.

A segunda forma de falso misticismo é mais encontradiça. Sua ambição é chegar a um especial conhecimento sobrenatural através de meios diferentes dos normais. É uma pretensão muito lisongeira à natureza humana. O homem decaído gosta de elevar-se acima dos seus semelhantes. A mais comum ilusão de certas almas é imaginar que ouvem vozes celestes, têm visões, caem em êxtases e arrebatamentos, quando na verdade são elas mesmas que fabricam na imaginação tais experiências. Não se deve, é verdade, deixar de reconhecer que podem vir de Deus essas experiências extraordinárias. Mas o que é importante lembrar é que, mesmo quando sobrenaturais, elas não constituem a essência da mística

A contemplação mística em sentido estrito é uma experiência de Deus diretamente consumada na ordem da fé, sob a inspiração da graça, sem o intermediário de qualquer coisa sobrenaturalmente vista, ouvida, ou "entendida". Na contemplação mística, Deus é conhecido da alma sem a mediação de qualquer espécie de imagem, seja da mente seja dos sentidos. Todas as visões e locuções são, pois, em certo sentido, opostos à verdadeira contemplação, ao menos enquanto diminuem a sua pureza e perfeição.

Segundo a linguagem dos teólogos apofáticos, na tradição de S. Gregório de Nissa e do Pseudo-Dionísio, se alguém teve uma visão em que pensa ter visto Deus claramente, pode estar certo de que não viu Deus. S. João da Cruz dedica uma boa parte da Subida a provar a tese de que não se deve procurar nem aceitar experiências que nos pretendam comunicar um preciso conhecimento sobrenatural da divindade, pois nenhuma criatura pode trazer-nos a plena realidade de Deus como Ele é em si mesmo.

(...) Como no caso de visões, locuções e outras experiências "distintas" do sobrenatural, não é tão clara a divisão entre a verdade e o erro, S. João da Cruz aconselha ao contemplativo uma grande reserva diante delas. Devem ser indiferentemente recusadas.

É significativo que nesse assunto o maior dos teólogos místicos seja muito mais cauteloso do que outras autoridades. Concordam em geral os teólogos católicos em proibir à alma contemplativa a busca de visões, locuções e outras experiências do gênero. Estão também de acordo em encorajar as almas avançadas e bem dispostas a querer a verdadeira contemplação e união mística, compreendida como união com Deus na perfeita caridade. Muitos teólogos são, no entanto, mais tolerantes do que S. João da Cruz, permitindo a aceitação das visões ou locuções, que ocorrerem.

(...) A falsa mística prolifera onde existe um desordenado apetite por experiências desse gênero. Não é falsa mística ter visões. O que é falso é fazer a mística essencialmente consistir em visões. É também falsa mística atribuir a tais manifestações uma importância maior do que às verdades reveladas por Deus à Igreja, e que são objeto da fé teologal. É certamente falso misticismo seguir um caminho que leva a experiências espetaculares, em vez de tender à obscura união com Deus. A perfeição espiritual não consiste em tais experiências, como se não fosse possível ser santo sem elas.

Em suma, as considerações que fizemos sobre o falso misticismo nos mostram que ele não só desconhece o papel do conhecimento e do amor na contemplação, mas também ignora a própria essência desta. Ou rejeita todo conhecimento de Deus, ou aspira a um "maravilhoso" conhecimento que exorbita da fé e não constitui, em verdade, um conhecimento de Deus. A contemplação lhe parece ora um amor sem conhecimento, ora um conhecimento sem amor. O resultado desse falso misticismo é desviar-nos do verdadeiro fim, para procurar, em vez da dádiva do nosso ser a Deus, o gozo de experiências exaltantes.

(...) um dos [sinais] mais proeminentes [da falsa mística] será a rejeição contumaz da razão, da filosofia, da verdade teológica, e da autoridade dogmática da Igreja ensinante.

Thomas Merton, Ascensão para a Verdade.

Fé, Razão e o Problema da Incredulidade


Thomas Merton

Um dos paradoxos da nossa idade que timbra em não se distinguir como uma idade de Fé, é a cega submissão com que milhares de homens, inconformados com a crença em Deus, se entregam a cada charlatão aparecido na imprensa, no cinema ou no microfone. Não podem aceitar a palavra de Deus, mas engolem tudo o que lêem no jornal. Acham absurda a pretensão da Igreja, assistida pelo Espírito Santo, de pronunciar-se infalivelmente sobre o que é e o que não é revelado por Deus em matéria de doutrina e de moral, mas acreditam no mais fantástico cartaz de propaganda política, mesmo ao risco da desonestidade de propagandistas.

É-lhes impossível acreditar no Papa quando, com as extremas cautelas e reservas de Roma, faz um dos seus raros pronunciamentos ex cathedra dentro desse estrito campo da "fé e da moral", em que se podia admitir no Vigário de Cristo algum conhecimento. Se, porém, uma estrela de cinema, dessas que amargaram três anos no oitavo grau e acabaram renunciando à esperança de uma alta escola, faz alguma declaração dogmática sobre qualquer assunto, desde casamento até astrofísica, eles a olharão como uma "autoridade".

A ironia da situação é que a maioria dos homens não tem nenhum direito intelectual à sua descrença teologal. Estritamente falando, ninguém pode sentir-se com direitos à incredulidade, pois a fé é eminentemente razoável. A inteligência não pode querer ser ininteligente. Mas há poucos que chegaram com toda a sinceridade ao erro, professorando que a fé é inaceitável. Sem respeitar-lhes esse erro, devemos admitir que trabalharam duro para aí chegar. Sua ignorância é invencível. Estão de "boa fé", pensando ter evidência contra a validade da crença. O que supõe, ao menos em teoria, que se vissem as coisas no sentido da fé, mudariam logo.

Mas o paradoxo é que, enquanto um ou dois sustentam, em virtude de um falso raciocínio a inaceitabilidade da fé, milhões de outros rejeitam a noção de fé, não por um ato de razão, mas de cega fé. Aqui se evidencia a fraqueza intelectual da nossa civilização: baseia-se na fé para não crer.

Há outra enormidade em nossa descrença. Descremos de Deus por força do testemunho dum homem. Rejeitamos a palavra de Deus, à fé na palavra do homem. Os descrentes não aceitam a infalível autoridade de Deus. Se já se submeteram à autoridade falível dos homens!

Ora, a razão nos mostra que só Deus pode falar-nos algo de Deus. Que conhecem os homens da sua vida íntima? Os homens só podem exigir fé para as suas proposições sobre Deus quando houver razão para crer que elas não vêm deles, mas de Deus. "As coisas de Deus ninguém conhece, a não ser o Espírito de Deus" (I Cor 2,4).

Deus, puro Ato, pura Inteligência, não se limita a ver verdade. Ele é toda a Verdade. Só n'Ele são verdadeiras as verdades. A luz da razão é uma participação natural da sua verdade, e é d'Ele que a razão tira a sua autoridade. É assim que a razão nos ilumina o caminho e nos leva à fé.

Mas os homens sem fé teologal, raciocinando com premissas falsas, credulamente recebidas da autoridade falível de homens, usam a luz racional, dada por Deus para discutir contra Ele, contra a fé, contra a própria razão.

Resultado mal compreendido porque a fé é muitas vezes proposta como alheia e mesmo contrária à razão. De acordo com essa opinião, a fé é coisa subjetiva, incomunicável, inexplicável. É algo de emocional. Acontece ou não acontece. Se acontece, você "tem fé", e esse fato não influi necessariamente no raciocínio, pois fé é emoção inexplicável. Mas uma fé sem conteúdo intelectual que influência pode ter em nossa concepção da vida ou em nosso proceder? Não parece ser muito mais importante do que ter cabelos vermelhos e olhos azuis. É coisa que acontece a você e não acontece ao vizinho.

Essa idéia é o último refúgio do compromisso religioso com o racionalismo. Temendo ser impossível a paz doméstica, a fé se encastela no sótão da casa e deixa o resto à razão. E de fato a fé e a razão deviam caminhar em paz, não foram feitas para viver divorciadas.

(...) O "problema da  incredulidade" nos tempos modernos é mais um problema de irracionalismo do que de falta de fé. Muitos homens de hoje são desprovidos de suficiente cabeça ou experiência para cometer um pecado formal contra a fé teologal. A falta de fé, tão visível em países como a América, não é descrença formal mas crassa ignorância. É confusão de quem está perdido na cerração e não sabe distinguir a esquerda da direita. O agnosticismo e o ateísmo que grassam no mundo vêm menos da rejeição da verdade revelada, que duma incapacidade de pensar por si mesmo. São felizes os homens de entender claramente as proposições vindas do rádio. Não se pode esperar que julguem a verdade ou a falsidade do que lêem nos jornais que soletram.

O primeiro passo para levar os homens à fé é dado no plano da filosofia e não da teologia. É matéria de razão e não de fé. É impossível pedir a alguém que creia em verdades reveladas por Deus, se primeiro não compreende que há um Deus e que Ele pode revelar a Verdade. Na conversão de adultos, a Igreja não lhes pede que sacrifiquem a razão para a creditar em Deus. Ela tenta convencê-los, por argumentos filosóficos, de uma verdade praticamente inegável.

Não se pode negar que as provas tradicionais da existência de Deus, as cinco vias de S. Tomás, às vezes não chegam a convencer intelectuais, capazes de pensar. No seu caso, a incapacidade de aceitar essas provas geralmente vem da completa confusão filosófica que prevalece fora da Igreja. Sintoma desta confusão é a incapacidade de filósofos em admitir coisas como o princípio da contradição ou da causalidade, embora vivam no meio de experiências científicas que rendem testemunho a essas leis fundamentais do pensamento.

É, pois, sempre, mesmo com intelectuais de certo modo dignos desse nome, a incapacidade de pensar. Apesar de possuírem brilhante e bem armada mente, não podem aceder aos últimos problemas metafísicos, com o seu péssimo equipamento filosófico.

(...) O problema da descrença só pode levantar-se quando o homem encontrou o seu caminho para Deus. Qualquer negação da existência de Deus envolve ao menos materialmente um pecado contra a fé. Mas pode haver uma tal ignorância invencível dos preâmbulos da fé, que seria erro supor que o ateísmo de muitos apresente um problema real de incredulidade.

Thomas Merton, Ascensão para a Verdade.

Uma primeira meditação para a quaresma: a vacuidade dos desejos terrenos do Homem

Thomas Merton

Os desejos terrenos tão caros aos homens não passam de sombras. Não há felicidade verdadeira em realizá-los. Por que procurar alegria sem substância? É que para nós a própria busca se tornou um sucedâneo da alegria. Incapazes de repousar em qualquer das nossas obras, resolvemos consolar o descontentamento pelo recurso a sempre novas satisfações. Aqui é o próprio desejo que se torna satisfação. Os bens que tanto desapontam quando em nossas mãos, conseguem estimular-nos o interesse quando nos escapam.

Poucos homens descreveram como Blaise Pascal essa sutil psicologia da ilusão:

"Um homem pode passar a vida inteira sem tédio, simplesmente jogando cada dia uma modesta soma. Dai-lhe cada manhã a quantia que ele poderia ganhar num dia, com a condição de que não jogue: fá-lo-eis infeliz. Podeis dizer que o que ele procura não é o ganho, mas o prazer de jogar. Está bem, fazei-o jogar por nada. Faltará o interesse. Ele morrerá de tédio!

Assim, não é bem a distração que ele busca. Uma distração insípida, sem paixão, só o aborrece. Deseja excitar-se, enganar-se com a ilusão de ser feliz ganhando uma quantia que de fato recusaria se lhe fosse dada com a condição de não jogar. Precisa de criar um objeto a suas paixões e voltar para ele o seu desejo, a sua cólera e o seu medo, com crianças que se assustam com as suas próprias faces pintadas" (1)

Uma vida baseada em desejos é como uma teia de aranha, diz S. Gregório de Nissa. O pai da mentira, o demônio, trança em nossas vidas um frágil tecido de vaidades sem substância, que nos prende e entrega sem defesa. E no entanto, é uma ilusão que poderíamos facilmente romper com um gesto das mãos. Diz S. Gregório:

"Tudo que o homem busca nesta vida só tem existência em sua mente e não na realidade - opinião, dignidades, glórias, riquezas, tudo é obra das aranhas desta vida... Mas os que se alçam às alturas, escapam com um remígio de asas às aranhas do mundo. Somente os que, como moscas, são pesados e sem força, ficam presos ao visgo desta vida e capturados na rede das honrarias, prazeres, louvores e variados desejos, caem nas garras da fera que busca prendê-los." (2)

O tema fundamental do Eclesiastes é o paradoxo que, embora não haja "nada de novo sob o sol", cada nova geração é condenada pela natureza a gastar-se na busca de "novidades" inexistentes.  Esse conceito, trágico como a noção oriental de Karma que tanto se lhe assemelha, contém o grande enigma do paganismo. Só Cristo, só a Encarnação, pela qual Deus entra no tempo e o consagra, pode salvar o tempo de ser um círculo sem fim de frustrações. Só o Cristianismo pode, conforme S. Paulo, "remir o tempo".

S. Gregório de Nissa, prosseguindo suas meditações sobre a psicologia da ilusão e do apego, da visão e do desprendimento, que constituem o seu comentário ao Eclesiastes, observa como o tempo tece em roda de nós essa teia de ilusão. Não é só uma escolha má que o homem faz quando se prende a este mundo. Ele trança em volta do espírito uma rede de falsidades, consagrando todo o seu ser a valores inconsistentes. E esgota-se na perseguição de miragens depressa desfeitas e logo renovadas, que o atraem ao deserto onde morrerá de sede.

E assim, esta "vaidade das vaidades" do Eclesiastes não é só uma vida de aspirações falhadas, mas uma vida de atividade estéril e infindável, em que é a atividade que serve de medida à ilusão! Quanto menos se tem, mais se faz. A alucinação final é o movimento, a mudança, a vaidade, só por si mesmas. "Toda a preocupação dos homens com as coisas desta vida (escreve S. Gregório), é apenas brinquedo de crianças na areia, cheias de prazer enquanto dura o jogo. Logo que a obra se completa, a areia desmorona-se e nada sobra de tantos castelos". (3)

Thomas Merton, Ascensão para a Verdade

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(1) Blaise Pascal, Les Pensées.
(2) S. Gregório de Nissa, Comentário sobre os Salmos
(3) Homilia I sobre o Eclesiastes.

Tradição, Dogma e Contemplação - Ainda Thomas Merton


A verdade é que a Tradição viva do Catolicismo é como que a respiração de um corpo material. Renova a vida repelindo a estagnação. É uma constante, calma e pacífica revolução contra a morte.

A razão por que a Tradição Católica é uma tradição é haver uma só doutrina viva no Cristianismo: não há nada de novo para descobrir. A vida da Igreja é a Verdade do Próprio Deus espalhada na Igreja pelo Seu Espírito e não pode haver qualquer outra verdade para a anular ou substituir.

Só uma coisa poderia substituir uma tão intensa vida: uma vida diminuída, uma espécie de morte. A tendência constante da humanidade para se afastar de Deus e dessa tradição viva só pode ser contrabalançada por um regresso à tradição e pela renovação da única vida imutável que, no começo, foi comunicada à Igreja.

A única influência que pode realmente derrubar a injustiça e a iniquidade dos homens é o poder que respira na tradição Cristã, renovando a nossa participação na Vida que é a Luz dos homens.

Cada Cristão individualmente e cada nova idade da Igreja tem de fazer tal redescoberta, tal regresso às fontes da vida Cristã. Isso exige um fundamental ato de renúncia que aceite a necessidade de iniciar a marcha a caminho de Deus, sob a direção doutros homens. Tal aceitação só pode adquirir-se pelo sacrifício, e, em última análise, só um dom de Deus pode ensinar-nos a diferença entre a camada exterior de formalismo, que a Igreja por vezes tira dos elementos humanos que a compõem, e a corrente viva e interior da Vida Divina que é a única tradição Católica verdadeira.

A noção de dogma apavora aqueles que não compreendem a Igreja. Não podem conceber que uma doutrina religiosa consiga revestir uma expressão autoritária, clara e definida, sem imediatamente se tornar estátiga, rígida, inerte, perdendo toda a sua vitalidade. E, na sua frenética ansiedade de fugir a uma tal concepção, refugiam-se num sistema de crenças vago e fluido, um sistema em que as verdades passam como nevoeiro, ondulam e variam como sombras. Fazem a sua escolha pessoal de fantasmas no meio desse pálido, indefinido crepúsculo do espírito, e têm a cautela de nunca os apresentar à plena claridade do sol com receio de uma completa evidência da sua inanidade.

Concedem, como por favor, aos místicos Católicos uma espécie de simpática benevolência, porque julgam que esses homens excepcionais atingiram o cume da contemplação sem curar dos dogmas católicos. A sua profunda união com Deus é considerada como sendo uma evasão à doutrinal autoridade da Sua Igreja e, implicitamente, um protesto contra a mesma autoridade.

A verdade, porém, é que os santos chegaram ao mais profundo, ao mais vital, e também ao mais individual e pessoal conhecimento de Deus, precisamente por causa do ensino autoritário da Igreja, precisamente graças à tradição que tal autoridade salvaguarda e alimenta.

O primeiro degrau para a contemplação é a fé e a fé começa por uma adesão ao ensino de Cristo por intermédio da Sua Igreja: fides ex auditu, qui vos audit me audit. "Aquele que vos escuta, escuta-Me". E "é escutando que a fé se alcança".

Os dogmas da fé Católica não são simplesmente símbolos ou vagos raciocínios que aceitamos como arbitrários temas de estímulo, em torno dos quais pode formar-se e desenvolver-se uma salutar atividade moral; ainda menos verdadeiro é que qualquer idéia servisse, para o mesmo fim, tão bem como aquelas que foram definidas, ou que qualquer velho e piedoso pensamento fosse capaz de suscitar nas nossas almas essa vaga vida moral. Os dogmas definidos e ensinados pela Igreja têm uma significação muito preisa, positiva e determinada (...) A compreensão do dogma é o caminho direito e habitual para a contemplação.

Não é, no entanto, por um esforço do espírito que se chega à verdadeira contemplação. Pelo contrário, podemos facilmente extraviar-nos na floresta de pormenores técnicos que preocupam um teólogo profissional. Deus, porém, dá aos verdadeiros teólogos uma fome nascida da humildade, que não pode satisfazer-se com fórmulas e argumentos e que procura qualquer coisa mais próximo de Deus do que a analogia pode levar.

Thomas Merton, Sementes de Contemplação

O Pecado como ilusão de um bem


Thomas Merton

O pecado, ou o mal só como tal considerado, nenhum interesse oferecem.

Esse mal não é uma entidade positiva mas a ausência de uma perfeição que devia existir. O pecado só como pecado é essencialmente aborrecido, porque é a falta de qualquer coisa que poderia interessar à nossa vontade e ao nosso espírito.

O que atrai os homens para as ações más não é o mal que nelas se encontra, mas o bem visto sob um falso aspecto e com uma perspectiva deformada. E o bem, visto sob tal ângulo, não passa de uma isca numa armadilha. Quando conseguis tocar-lhe, a armadilha funciona e deixa-vos com a vossa repugnância, o vosso tédio e o vosso ódio. Os pecadores são pessoas que odeiam tudo, porque o seu mundo está forçosamente cheio de traição, cheio de ilusão, cheio de decepção.

E os maiores pecadores são as pessoas que neste mundo mais tédio causam, porque também são as mais entediadas e as que acham a vida mais fastidiosa. Quando tentam ocultar o tédio da vida sob o ruído, a excitação, a agitação e a violência - inevitáveis frutos de uma vida dedicada ao amor de valores inexistentes - tornam-se algo mais do que enfadonhas: são flagelos do mundo e da sociedde. E ser flagelado não é simplesmente qualquer coisa triste ou fastidiosa.

Thomas Merton, Sementes de Contemplação

Citação de Thomas Merton sobre a coragem de escrever


"Se um escritor é tão cauteloso que nunca escreve nada que possa ser criticado, nunca escreverá qualquer coisa que possa ser lido. Se quiserdes prestar algum auxílio aos outros, tendes de vos resolver a escrever coisas que certos homens condenarão"

Thomas Merton, Sementes de Contemplação

Tradição e Revolução

Thomas Merton

A razão por que a tradição Católica é uma tradiçao é haver uma só doutrina viva no Cristianismo: não há nada de novo para descobrir. A vida da Igreja é a Verdade do Próprio Deus espalhada na Igreja pelo Seu Espírito e não pode haver qualquer outra verdade para a anular ou substituir.

Só uma coisa poderia substituir uma tão intensa vida: uma vida diminuída, uma espécie de morte. A tendência constante da humanidade para se afastar de Deus e dessa tradição viva só pode ser contrabalançada por um regresso à tradição e pela renovação da única vida imutável que, no começo, foi comunicada à Igreja.

(...) Esta "revolução" é a mais completa que jamais foi pregada: é, efetivamente, a única verdadeira "revolução", porque todas as outras exigem o extermínio de alguém, mas esta só significa a morte do homem que, praticamente, chegastes a considerar como o vosso próprio eu.

Uma revolução é considerada como uma mudança que tudo transforma radicalmente. Mas a ideologia da revolução política, se exceptuarmos as aparências, nunca altera coisa alguma. É violência, e o poder passa de um partido a outro, mas, quando o fumo se dissipa e se enterram todos os corpos de todos os mortos, a situação é essencialmente a mesma que era dantes: há, no poder, certa minoria de homens enérgicos a explorar todos os outros com objetivos de ordem pessoal. Há a mesma avidez, a mesma crueldade, a mesma luxúria, a mesma ambição, a mesma avareza e a mesma hipocrisia que havia antes.

Porque as revoluções humanas nada mudam. A única influência que pode realmente derrubar a injustiça e a iniquidade dos homens é o poder que respira na tradição Cristã, renovando a nossa participação na Vida que é a Luz dos homens.

(...) Cada cristão individualmente e cada nova idade da Igreja tem de fazer tal redescoberta, tal regresso às fontes da vida Cristã. Isso exige um fundamental acto de renúncia que aceite a necessidade de iniciar a marcha a caminho de Deus, sob a direção doutros homens.

(...) A noção de dogma apavora aqueles que não compreendem a Igreja. Não podem conceber que uma doutrina religiosa consiga revestir uma expressão autoritária, clara e definida, sem imediatamente se tornar estática, rígida, inerte, perdendo toda a sua vitalidade. E, na sua frenética ansiedade de fugir a uma tal concepção, refugiam-se num sistema de crenças vago e fluido, um sistema em que as verdades passam como um nevoeiro, ondulam e variam como sombras. Fazem a sua escolha pessoal de fantasmas no meio desse pálido, indefinido crepúsculo do espírito, e têm a cautela de nunca os apresentar à plena claridade do sol com receio de uma completa evidência da sua inanidade.

Concedem, como por favor, aos místicos Católicos uma espécie de simpática benevolência, porque julgam que esses homens excepcionais atingiram o cume da contemplação sem curar dos dogmas católicos. A sua profunda união com Deus é considerada como sendo uma evasão à doutrinal autoridade da Sua Igreja e, implicitamente, um protesto contra a mesma autoridade.

A verdade, porém, é que os santos chegaram ao mais profundo, ao mais vital, e também ao mais individual e pessoal conhecimento de Deus, precisamente por causa do ensino autoritário da Igreja, precisamente graças à tradição que tal autoridade salvaguarda e alimenta.

O primeiro degrau para a contemplação é a fé e a fé começa por uma adesão ao ensino de Cristo por intermédio da Sua Igreja: "fides ex auditu, qui vos audit me audit". "Aquele que vos escuta, escuta-Me". E "é escutando que a fé se alcança".

Não é a seca fórmula duma definição dogmática que, por si só, espalha luz no espírito dum contemplativo Católico; a adesão ao que se contém nessa definição, intensifica-se e amplifica-se, porém, numa vital, pessoal e intransmissível penetração da verdade sobrenatural por ela expressa, - uma compreensão que é um dom do Espírito Santo e que mergulha na Sabedoria do Amor para possuir a Verdade na sua Substância infinita, o Próprio Deus.

Os dogmas da fé Católica não são simplesmente símbolos ou vagos raciocínios que aceitamos como arbitrários temas de estímulo, em torno dos quais pode formar-se e desenvolver-se uma salutar actividade moral; ainda menos verdadeiro é que qualquer idéia servisse, para o mesmo fim, tão bem como aquelas que foram definidas, ou que qualquer velho e piedoso pensamento fosse capaz de suscitar nas nossas almas essa vaga vida moral. Os dogmas definidos e ensinados pela Igreja têm uma significação muito precisa, positiva e determinada, que pode ser explorada e aprofundada pelos que para tal possuem dotes, se quiserem viver uma vida integralmente espiritual. Porque a compreensão do dogma é o caminho direto e habitual para a contemplação.

Todos aqueles que o podem fazer, deveriam adquirir algo da precisão e sutileza de um teólogo na apreciação do verdadeiro sentido do dogma. Todo o cristão deve ter, acerca daquilo em que crê, uma compreensão tão profunda quanto a sua condição o permite. Quer isto dizer que cada qual deve respeitar a pura atmosfera da tradição ortodoxa e ser capaz de explicar a sua crença por meio de uma terminologia correcta, - uma terminologia com um conteúdo de idéias autênticas.

Thomas Merton, Sementes de Contemplação

A Santidade é ser quem sou - Thomas Merton


Pode, na verdade dizer-se que, para mim, a santidade consiste em ser eu próprio, que, para vós, a santidade consiste em serdes vós próprios, e que, em última análise, a vossa santidade nunca será a minha e a minha nunca será a vossa, exceto no que respeita à partilha comum de caridade e graça.

Para mim, santificar-me seria ser eu próprio. O problema da santidade e da salvação consiste, portanto, e na realidade, no problema de encontrar o que sou e em descobrir o meu próprio eu.

As árvores e os animais não têm problema a resolver. Deus fá-los o que são sem os consultar e eles ficam perfeitamente satisfeitos. Conosco, é diferente. Deus deixa-nos a liberdade de ser o que quisermos. Podemos ser nós próprios ou não o ser, segundo a nossa vontade. Mas o problema é este: uma vez que só Deus possui o segredo da minha identidade, só Ele pode fazer-me o que eu sou, ou antes, só Ele pode fazer-me o que eu serei, quando, por fim, eu começar verdadeiramente a ser.

As sementes que, a todo o momento, são lançadas na minha liberdade pela vontade de Deus, são gérmens da minha identidade, da minha felicidade, da minha santidade.

Recusá-las é recusar tudo: é a recusa da minha existência e do meu ser, da minha identidade e do meu eu bem individual.

E se não me tornar nunca aquilo que estou destinado a ser e antes ficar sempre o que não sou, passarei a eternidade a contradizer-me, por ser, ao mesmo tempo, alguma coisa e nada, uma vida que quer viver e que está morta e uma morte que quer estar morta e não pode realizar completamente a sua própria morte, porque é, não obstante, obrigada a existir.

Dizer que nasci no pecado é dizer que vim ao mundo com um falso eu. Entrei na existência sob o signo da contradição, sendo alguém que nunca tive a intenção de ser, e, por essa razão, sendo a negação do que se pode admitir que eu seja. Assim, entrei, ao mesmo tempo, na existência e na não-existência, porque, desde o começo, fui qualquer coisa que não era.

Exprima-se a mesma coisa sob uma forma menos paradoxal: durante todo o tempo em que não sou nada mais do que aquilo que nasceu de minha mãe, estou tão longe de ser a pessoa que deveria ser, que poderia mesmo não existir por completo. Na realidade, valeria mesmo mais, para mim, não ter nascido.

Thomas Merton, Sementes de Contemplação

A Santidade da Virgem Maria - Thomas Merton


Tudo o que se tem escrito sobre a Virgem Mãe de Deus prova-me que a sua santidade é a mais oculta de todas. O que cada qual procura dizer a respeito dela informa-nos, geralmente, melhor, sobre o comentador do que sobre Nossa Senhora. Na verdade, visto que Deus tão pouco nos revelou a seu respeito, os homens, que nada sabem da Virgem nem do que ela foi, mais não fazem que revelar-se a si próprios, tentando acrescentar algo ao que disse.

E tudo o que dela sabemos só torna mais misterioso o verdadeiro caráter e a verdadeira qualidade da sua santidade. Cremos que, excluindo a santidade de Deus, a sua foi a mais perfeita. Mas a santidade de Deus é toda obscuridade para o nosso espírito. No entanto, a da Virgem Santa é, dalgum modo, mais impenetrável ainda do que a de Deus, porque Ele, ao menos, disse-nos de Si Próprio alguma coisa objetivamente válida quando traduzida em linguagem humana, ao passo que, de quanto a Nossa Senhora respeita, pouco de importante nos disse, e mesmo desse pouco não podemos alcançar a inteira significação. Porque tudo quanto nos disse acerca da alma de Sua Mãe resume-se ao seguinte: essa alma estava absolutamente cheia da mais perfeita santidade das criaturas. Mas não temos qualquer meio seguro de saber o que isso pormenorizadamente significa. Portanto, a outra coisa certa que acerca dela sabemos é que a sua santidade está extremamente oculta.

E, no entanto, se também eu estiver oculto em Deus, onde ela está oculta, posso descobrí-la. Partilhar a sua humildade, o seu mistério e a sua pobreza, a sua discrição e a sua solidão é o melhor meio de a conhecer, mas conhecê-la assim é conhecer a verdadeira sabedoria.

Na Pessoa real, viva, humana, que é a Virgem Mãe de Cristo, encontra-se toda a pobreza e toda a sabedoria de todos os santos. É através dela que a santidade os alcança e é nela que reside. A santidade de todos os santos é uma participação na santidade de Maria, porque Deus, segundo a ordem que estabeleceu, quer que todas as graças cheguem aos homens por intermédio de Maria.

É esta a razão por que amá-la e conhecê-la é descobrir o verdadeiro significado de todas as coisas e ter acesso a toda a sabedoria. Sem ela, o conhecimento de Cristo é meramente especulativo. Mas, nela, a especulação torna-se experiência, porque toda a humildade e pobreza, sem as quais Cristo não pode ser conhecido, são bens da Virgem Maria. A sua santidade é o silêncio em que só Cristo pode ser ouvido, e a voz de Deus torna-se experiência, para nós, graças à contemplação da Virgem.

A inanidade, a solidão interior e a paz, indispensáveis para que possamos estar cheios de Deus, só a ela pertencem. Se conseguimos alguma vez esvaziar-nos a nós próprios do reino do mundo e das nossas próprioas paixões, é porque ela chegou junto de nós e nos permitiu partilhar da sua santidade e da sua obscuridade.

Só ela, de todos os santos, é, em tudo, incomparável. Possui a santidade de todos eles, e no entanto, não se assemelha a nenhum. E, apesar de tudo, podemos exprimir o desejo de ser como ela. Tal semelhança não é só qualquer coisa para desejar: - é a única digna do nosso desejo; mas a razão disto é ser ela quem, de todas as criaturas, mais perfeitamente alcançou aquela semelhança com Deus que, em grau variável, Deus quis encontrar em todos nós.

É necessário, sem dúvida, falar dos seus privilégios como se fossem algo de compreensível através da linguagem humana, algo com possibilidade de se mediro por qualquer escala humana. É perfeitamente justo falar dela como de uma Rainha e de comportar-vos como se soubésseis o que significa ter ela um trono acima de todos os anjos. Mas isto não deveria fazer alguém olvidar que o seu mais alto privilégio é a sua pobreza e a sua maior glória, a modéstia suprema, e que a fonte de todo o seu poder provém de ela ser como que nada na presença de Cristo, de Deus.

É por ela ser, de todos os santos, o mais perfeitamente pobre e obscuro, o único a não ter nada a que se esforce por chamar seu, que pode mais completamente comunicar a quantos existem a graça de Deus, infinitamente misericordioso. E nós possuí-Lo-emos mais verdadeiramente quanto nos despojarmos de tudo e nos tornarmos tão pobres e obscuros como ela, assemelhando-nos a Ele por nos assemelharmos a ela. E toda a nossa santidade depende da sua vontade e do que lhe aprouver. Aqueles com quem deseja partilhar a alegria da sua própria pobreza e simplicidade, aqueles a quem quer tão obscuros quanto ela é obscura, esses é que se tornam os mais santos aos olhos de Deus.

Prodigiosa graça e grande privilégio é, portanto, uma pessoa, quando vive no mundo em que temos de viver, perder, de súbito, o interessa pelas coisas que absorvem o mundo e descobrir, na sua própria alma, um apetite de pobreza e solidão. E o mais precioso de todos os dons da natureza ou da graça é o desejo de nos ocultarmos e de desaparecermos da vista dos outros homens, de sermos contados como nada pelo mundo, de nos despojarmos da estima que nutrimos por nós próprios e de nos dissolvermos no nada, na imensa pobreza que é adoração de Deus.

Esta renúncia absoluta a qualquer bem humano, esta pobreza, esta obscuridade, contém, em si, oculto, o segredo de toda a alegria, porque está cheia de Deus. Procurar tal renúncia é a verdadeira devoção à Mãe de Deus. Encontrá-la é encontrar a Mãe de Deus. E permanecer oculto na sua profundidade é estar cheio de Deus, como ela está cheia d'Ele, e partilhar a sua missão de O trazer a todos os homens.

Todas as gerações devem, portanto, chamar-lhe santa, porque todas receberam, por seu intermédio, a parte de vida e de alegria sobrenaturais que lhes é concedida. E é necessáro que o mundo lhe seja reconhecido, que os poetas cantem a grande obra de Deus nela e que sejam edificadas catedrais sob a sua invocação. Na verdade, se não se reconhecer Nossa Senhora como a Mãe de Deus, a Rainha de todos os santos e anjos e a esperança do mundo, a fé em Deus não será completa.

Como poderíamos pedir-lhe tudo que nos manda esperar, se não conhecêssemos, pela contemplação da santidade da Imaculada Virgem, quão grandes coisas Ele tem o poder de realizar na alma dos homens?

E, assim, quanto mais estamos ocultos nas profundezas onde permanece o segredo da Virgem Maria, tanto mais queremos louvar o seu nome no mundo e, nelam glorificar o Deus que dela fez Seu radioso tabernáculo. Mas não confiaremos por completo no nosso próprio mérito ao querer encontrar palavras com que a louvemos: mesmo que pudéssemos cantá-la como o fizeram Dante ou São Bernardo, ainda teríamos pouco a dizer a seu respeito, em comparação com a IGreja, que, só ela, sabe como louvá-la condignamente e ousa aplicar-lhe as inspiradas palavras com que Deus manifesta a Sua própria sabedoria. Assim, encontramo-la vivendo no meio da Sagrada Escritura, e, se não a encontrarmos, a ela, oculta também em toda a parte e em todas as promessas que, na Escritura, dizem respeito a seu Filho, não compreenderemos integralmente a vida que está na Escritura.

É ela que, nestes derradeiros dias, está destinada, por delegação de Deus, a manifestar o poder que, graças à sua pobreza, Ele lhe concedeu, e a salvar os últimos homens que vivem nas ruínas do calcinado mundo. Mas se a última idade do mundo deve ser, pela maldade dos homens, provavelmente a mais terrível, será também, para o eleito e pela clemência da Virgem Santa, a mais triunfal e a mais cheia de alegria.

Thomas Merton
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