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Instinto sexual e castidade III - Impulsos coercitivos e distinção entre intemperança e incontinência
Não se trata de chamar bom o que é objetivamente mau. Trata-se de desligar um sentimento culposo neurótico de atos que, na situação individual, estão fora do alcance da livre vontade. Só assim pode restituir-se o equilíbrio emocional e estender novamente o domínio da vontade a todos os territórios da alma que antes estavam bloqueados. "Frequentemente, a reação patológica desaparecerá na medida em que o aspecto moral da conduta não obsedar mais o paciente, constituindo a preocupação moral precisamente um aspecto do sintoma psicopatológico." (1)
Brenninkmeier defende a opinião de que é dever do confessor esclarecer os penitentes neuróticos sobre a falta de liberdade, respectivamente redução considerável dela, que modificam a responsabilidade em determinados atos. A maioria se debate em pensamentos autopunitivos dolorosos: eu "sabia" o que estava fazendo; se fiz, sou culpado... Não avaliam o poder de impulsos coercitivos que bloqueiam a vontade, deixando à razão sua plena lucidez. Quando o confessor "consegue convencer o neurótico de que seu estado não implica culpa, antes enfermidade; quando alcança dele que aceite os fatos amiúde humilhantes com espírito sereno, apoiando-se na bondade, misericórdia e compreensão de Deus, o enfermo encontrará em tais conhecimentos profunda paz; a graça sacramental fortalecerá sua alma; voltará a sentir gosto pela vida interior e perderá o sentimento aterrador causado pelo temor de ser inútil todo o trabalho pela santificação, já que nem conseguia manter-se na amizade de Deus, por grandes que fossem os esforços. Esclarecido o seu entendimento, logo o doente se livra de parte considerável de sua angústia e consegue enveredar por um caminho que contribuirá poderosamente para a cura." (2)
Não só em casos patológicos, mas também de um ponto de vista geral, sabe Sto. Tomás levar em consideração o impulso elementar dos desejos carnais. São para ele atenuantes e não agravantes do pecado. Quem peca pressionado por estímulo mais forte de concupiscência, cai por causa de uma tentação mais grave. daí é que lhe é imputada menos culpa." (3) Mais graves que os pecados carnais, são para ele os pecados espirituais, justamente porque neles falta a pressão e a solicitação dos impulsos psíquicos e biológicos. Tal classificação é apenas o reverso da ordem hierárquica como ele vê as virtudes. A castidade não é, para ele, de forma alguma, a maior virtude. Ela faz parte da temperança; e esta é a última das virtudes cardeais. Acima dela estão a fortaleza, a justiça e a prudência. E acima de todas, se encontram as virtudes teológicas: esperança, fé e, rainha de todas, a caridade.
Não é só a clássica ordem hierárquica que torna admirável a doutrina de Sto Tomás; sua moral, longe de ser casuística, é essencialmente dinâmica. Não julga sobre valor ou desvalor do homem por um processo de adição: somando atos isolados, sejam pecados, sejam atos meritórios. A direção geral impressa à vida é decisiva.
Isso aparece sobretudo na distinção entre "intemperança" e "incontinência." Incontinência é imperfeição de governo. Na essência há o predomínio da boa vontade que apenas não consegue impor-se plena e constantemente. Há quedas por fraqueza, paixão, curiosidade, etc. Sem inocentar tais quedas, cumpre reconhecer que são muito menos graves que os pecados cometidos por libertinagem e cinismo.
À libertinagem cínica, essa desistência de um ideal pessoal superior, dá-se o nome de intemperança. A direção total da vida é pervertida, encaminhando-se toda a energia do psiquismo em direção da satisfação carnal. Não é a intensidade do prazer, mas a direção geral impressão à vida, o que mais modifica a culpabilidade de um ato que, no mais, se apresenta rodeado das mesmas circunstâncias. Pela intemperança peca-se muito mais que pela incontinência; pois, de um lado, peca-se muito por hábito, de outro por paixão (4). Paixão, já o vimos, é fator atenuante. "Quem falta por ausência momentânea de domínio de si, arrepende-se depressa", diz Sto Tomás. Todavia a vontade de quem peca pela tendência habitual enraizada e não revogada da impureza visa diretamente ao pecado e dificilmente se arrepende; antes "alegra-se por ter pecado, pois o pecar tornou-se-lhe natural" (5). Sucumbir aos assaltos da paixão é fraqueza; pecar pela tendência pervertida da vontade é malícia.
Na intemperança completa, na direção total da vida para o prazer carnal, na luxúria é que vê Sto. Tomás o grande mal. A luxúria açambarca, monopoliza toda a energia da alma, tornando impossível a evolução superior da personalidade. É a principal acusação que Sto Tomás formula contra este pecado capital, pois esta principalmente, perverte e destrói a prudência. Torna a alma impermeável para as realidades restantes da vida. Cega a alma; já não a deixa ver os bens do espírito; e os bens terrenos, pessoas e objetos, apresenta-os sob o ângulo reduzido e exclusivo do prazer. (5)
Um inquérito entre universitários demonstrou que a promiscuidade sexual precoce paralisa, de certa maneira, a evolução ulterior, particularmente o amadurecimento afetivo. Tais criaturas serão, muitas vezes, incapazes de apreciar e compreender o valor de um verdadeiro e profundo amor único. O homem não pode desenvolver-se para todos os lados. O seu dinamismo não dá para tudo. Tem que escolher a direção e, com isso, fatalmente renunciar a outros rumos. Quem faz seu "ideal" consistir no desdobramento biológico, sobretudo sexual, priva-se do acesso à realização superior de si mesmo. Sto Tomás compara o libertino com o leão que ao ver o veado logo pensa em pasto de sua insaciável voracidade. Assim o escravo da impureza não vê mais as criaturas com simplicidade, no seu valor e beleza intrínsecos, mas apenas como objetos potenciais de sua satisfação.
Justamente aí aparece a desordem essencial da impureza, o seu caráter de pecado, pois pecado é desordem moral. Luxúria é, na sua essência, egoísmo brutal. A tendência sexual devia ser, conforma a idéia do Criador, porta aberta pra o ambiente. A desordem das relações sexuais fora do casamento consiste em que aqueles que a praticam estão tentando isolar uma só união (a sexual) de outras que devem acompanhá-la para, segundo os planos do Criador, formarem a união completa, rompimento do isolamento individual: "Serão dois numa só carne." (Gn 2,24)
Aí está a desordem: não em um "demais", mas em um "de menos". Não realizam a finalidade da tendência sexual: a união; fogem dela, de suas responsabilidades e encargos. Mais claramente: a desordem está no egoísmo que não quer dar-se, não quer unir-se, mas apenas procura unilateralmente a sensação subjetiva do prazer. Em vez de se abrir realmente para um Tu, fecha-se dentro de si mesmo; pois, quem reduz o parceiro a um objeto ou meio de prazeres, não entra em contato real com ele. A moral cristã não condena o prazer sexual; condena a tentativa de separá-lo de seu bem próprio ou de seu escopo natural: o bem comum da continuação do gênero humano e, secundariamente, o auxílio mútuo dos cônjuges. Procurando tais bens, tais fins, rompe o indivíduo o casulo do seu egoísmo e realiza-se pelo contato com o mundo ambiente. Mas procurando o prazer subjetivo, separado dessas finalidades objetivas, tranca-se outra vez, desastradamente, dentro de si mesmo. Aí está a grave desordem da luxúria.
(1) Nuttin, J. Psicanálise e personalidade, 1995, p.170.
(2) Brenninkmeyer, A. Tratamiento pastoral de los neuróticos, 1950, p.40-44.
(3) S. th. I. II. 73, 4.
(4) S. th. II. II. 156, 3.
(5) Ibidem.
Frei Valfredo Tepe OFM. O sentido da vida. Ascese cristã e psicologia dinâmica. 3ª ed. Bahia: Mensageiro da Fé, 1960. p. 115-119.
As filhas da acídia
Hoje em dia, a raça dos Gerasenos [dos que preferem os porcos a Jesus] está proliferando. (Cf. Mt 8,28ss). Grassa, mesmo nos países cristãos, o "materialismo prático" (aliás tradução moderna adequada da palavra acídia) e no séquito dele encontramos crescente desassossego e desajustamento. Não se recalcam impunemente realidades dinâmicas, nem instintivas nem muito meno espirituais e sobrenaturais. A acídia é considerada vício capital, quer dizer, fonte de muitos outros pecados. Sto Tomás apresenta uma lista dos "filhos da acídia" que parece pintar um quadro exato da vida moderna.
O primeiro filho é o desespero. Kierkegaard chamou o desespero a "doença até a morte". Que alguém desesperadamente não queira ser o que é, é realmente "doença mortal." Mas não é essa a atitude do mundo moderno diante das realidades sobrenaturais? A humanidade não pode libertar-se de Jesus. Não pode ignorá-lo. Jesus é a decisão. Depois de Cristo, o homem só se pode realizar como cristão. Querer negar isso é negar a si mesmo, é não querer a própria realidade. Tal luta e rutura interior produz o desespero da vida. A vida depois de Cristo só tem sentido em Cristo, na orientação para o sobrenatural. Fora disso, fica apenas o tédio.
Então toma conta da alma outra filha da acídia: a inquietação dissipada do espírito. Hoje diríamos "sensacionalismo". Não aceitando a própria realidade, o homem procura abafar tudo com sensações sempre novas, atividade febril e divertimentos em sequência. Sempre mais invade o coração a insensibilidade para com tudo o que é necessário para a salvação. Igrejas vazias, frequência diminuta dos sacramentos, aversão à palavra de Deus, perda do "sentido do pecado", torpor espiritual. Daí vem pusilanimidade em face das grandezas oferecidas por Deus, e rancor contra todos aqueles cuja missão é defender e propagar o reino de Deus nas almas. E, afinal, endurece a alma na malícia completa, no ódio contra tudo o que é divino. - Realmente, um quadro impressionante! Ilustrando e explicando, ao menos em parte, o desajustamento e o desespero que reinam no mundo moderno.
Frei Valfredo Tepe, OFM. O sentido da vida. Ascese cristã e psicologia dinâmica. 3ª ed. Bahia: Mensageiro da fé, 1960. p.64-65.
O respeito humano - Uma mentira fundamental
O respeito é, obviamente, um valor. Respeitamos alguém quando reconhecemos que ele tem dignidade em si mesmo. A dignidade é algo que não se confunde de nenhum modo com a aparência. Assim, independente do modo que uma pessoa esteja mal vestida, da cor da sua pele, dos seus dotes intelectuais, etc, a pessoa humana tem uma dignidade que lhe é própria e que deve ser reconhecida. Tal reconhecimento é, precisamente, o ato do respeito e este determinará o nosso comportamento a respeito da pessoa.
No entanto, os vícios em geral se disfarçam de bem a fim de serem desejados e praticados. Assim, pessoas amasiadas tentam se convencer de que o amor lhes redime a falta. Homossexuais buscam, pela força da repetição, tornar verdadeira a tese de que o desejo muda a natureza.. Pais de família pensam que o domínio irrestrito sobre seus filhos é prova de amor, etc. Nesses e em outros casos, temos atos errados sendo praticados como se fossem traduções autênticas do amor, da autenticidade e da sinceridade, nos casos particulares.
Algo similar ocorre quando falamos de "respeito humano". Quem estiver familiarizado com a literatura dos santos, haverá de reconhecer que esta expressão é muitíssimo usada por eles e foi sempre alvo de duríssimas críticas. De fato, o respeito humano é um vício terrível e deve ser evitado de todo. É tanto mais terrível quanto mais se reveste de virtude. Ele é, na verdade, um arremedo do respeito autêntico, assim como o puro erotismo é um arremedo vulgar do amor.
Enquanto o respeito tem por objeto a dignidade intrínseca da pessoa, o respeito humano visa o conforto do seu ego. Enquanto o respeito visa preservar o próprio cerne da pessoa, evitando que este seja lesado, o respeito humano apenas quer preservar o bem-estar psicológico, mesmo quando este procede de atos objetivamente levianos. E a coisa é um tanto mais perversa: o ego do outro não é deixado intacto porque lhe querem bem, mas apenas porque não querem manchar a sua própria imagem nesse ego. O que temos aqui é a clássica hipocrisia que consiste basicamente numa divisão interior da alma enquanto insiste em manter uma distância entre aquilo que ela é e o que ela aparenta. Esta distância tende a ser amada em função da própria imagem da pessoa. É como quando alguém põe uma foto toda "photoshopiada" numa rede social de modo que quem lhe conhece só virtualmente não seria capaz de lhe identificar na vida real. A pessoa que tem respeito humano comete, na verdade, um ato de profundo desrespeito e desvalorização do outro já que o considera menos valioso do que a sua própria imagem. Num ato de auto-preservação egoísta, a pessoa contribui para o erro da outra, e não é raro que, ao mesmo tempo, cometa o pecado da lisonja.
Este erro se assenta num equívoco que é muitíssimo comum nos dias de hoje, dias de extrema confusão em que pouca gente enxerga alguma coisa além do próprio nariz: as pessoas tendem a confundir o domínio do objetivo com o do subjetivo, preferindo na maior parte das vezes este àquele. É assim quando defendemos, num nível vertiginoso de bobice, que cada pessoa siga a religião que lhe parecer correta ou confortável. É assim quando nos negamos a pregar a inequivocidade da fé com medo de ferir susceptibilidades. O sacrilégio moderno tornou-se o desconforto pessoal. Assim, os padres, por exemplo, quase nunca falam dos erros da vida matrimonial, como a contracepção, o controle de natalidade, etc. É assim quando quase ninguém prega sobre a pureza, talvez por medo de se acusarem a si mesmos. É mais fácil achar que a verdade só deve ir até onde ela for confortável. E é assim que ficam famosos os padres cantores, os pregadores alucinados que extasiam a assembléia com a promessa de mil e uma facilidades, ao mesmo tempo em que ninguém toca no assunto dos cristãos martirizados no oriente, pois isso seria.. hum... desconfortável.
Esse tipo de pecado era enfrentado, desde o início da Igreja até pouco tempo atrás, com uma consciência muito aguda. S. Paulo chega a escrever: "se eu quisesse agradar aos homens, não seria servo de Cristo." É incrível como ele consegue ser tão claro e, mesmo assim, grande parte dos padres e bispos modernos fingem não entender algo tão básico. E dá-lhe hermenêutica, releitura, etc., que nada mais são do que eufemismos para a covardia e a capitulação.
Pois bem, chegamos a isso: o respeito humano é um tipo de egoísmo que se disfarça de virtude e, nessa fuga do que é, torna-se covardia, mentira e ofensa direta ao outro enquanto lhe confirma no erro ou, pelo menos, não o esclarece sobre o correto. No entanto, nos dias de hoje, o respeito humano é louvado como a máxima virtude. Vamos nos abraçar porque isso é o que importa.. Vamos dizer "verdades" confortáveis porque as desconfortáveis - o remédio amargo e que cura - estão fora de moda. Afinal, ninguém quer voltar àqueles tempos medievais e obscuros onde o sim era sim e o não era não, sendo todo o resto considerado como da parte do demônio.
E nesse costume, nesse simulacro de santidade, nessa lógica de sepulcros caiados, vamos gastando toda a vida, crentes que Deus participa de algum modo da nossa hipocrisia e de que, naquele dia, haverá de nos recompensar por termos sido covardemente respeitosos demais. Porém, o que acontece é o seguinte: se insistirmos nisso, teremos de tal modo acentuado essa divisão interior, privilegiando a parte externa ao invés da interna, que iremos de fato nos identificando somente àquela carecente de realidade. Aos poucos, ficaremos menos substanciosos, algo semelhante à roupa inexistente do rei nu e que ele jura que existe. Essa deformação monumental do nosso próprio caráter, levada a termo sob as bênçãos de pastores modernos, haverá de criar uma ilusão que anda e se move. Nos tornaremos o que não somos e forçosamente teremos de ouvir o derradeiro "não vos conheço".
Só então, talvez, nos daremos conta de que de nada vale ganhar o mundo e vir a perder-se a si mesmo. De que nada vale agradar ao mundo e faltar com a verdade. De que nada vale o respeito humano se todo o bem que nos venha daí será sempre um bem inexistente porque fundado numa mentira. Talvez então percebamos que toda a falsaria da nossa vida nos tornou totalmente impermeáveis àquele que é a própria Verdade. Só então, talvez, entenderemos que, no fundo, nós passamos a vida sem entender nada.
Autoconhecimento, defeito dominante e seus disfarces
O Defeito Dominante
O ser humano é complexo e as suas falhas de comportamento são, por consequência, complexas e diversas. Para não perder-se, é necessário que oriente o conhecimento próprio de modo a achar a falha estrutural da sua maneira de ser.
Porque, se é verdade que todos nós temos vários defeitos, também é verdade que, ao menos em cada fase da nossa vida, há sempre um que predomina. Esse defeito é como que o nosso calcanhar de Aquiles, aquele ponto fraco que causa e explica, ao fim e ao cabo, todo o leque das nossas deficiências.
Os teólogos falam de sete defeitos principais e que dão o nome de "pecados capitais": a soberba, a ira, a inveja, a luxúria, a gula, a avareza, a preguiça. Chamam-se capitais porque são a raiz e a fonte de todas as falhas de comportamento: são o que as causa e as faz proliferar em mil erros aparentemente sem relação entre si. Pôr a descoberto o defeito dominante é encontra a chave para decifrar a causa das incoerências do nosso comportamento e superar de um só golpe muitas situações de mal-estar íntimo ou de estagnação.
Efeito Multiplicador
Um primeiro critério de avaliação para identificarmos o defeito dominante é justamente procurarmos saber se há uma causa única ou preponderante para os nossos erros práticos.
Suponhamos que uma pessoa note que é habitualmente inconstante, que com frequência fala demais, que é excessivamente condescendente no trato com os filhos; que os colegas o acham cumpridor, mas um perfeito burocrata; que os vizinhos o louvam e de passagem se aproveitam do seu espírito pacífico; que se desgosta com facilidade e é um triste. Que têm a ver entre si essas atitudes tão diferentes umas das outras? Se aprofundar no conhecimento próprio, talvez essa pessoa chegue à conclusão de que é simplesmente um enorme preguiçoso.
O mesmo se poderia dizer de qualquer dos outros erros de base que pode haver na natureza humana. Diz São Tomás que um vício tão bem disfarçado como a avareza leva nada menos do que à inquietação permanente, à dureza, à injustiça, à traição, à fraude e à violência.
Ora, tudo isto indica que, enquanto o defeito de fundo não for desmascarado e combatido, continuarão a manifestar-se em nós outros defeitos mais ou menos exuberantes ou até humilhantes, porque essa raiz amarga irromperá violentamente ou nos acompanhará como uma sombra. Esta onipresença de efeitos é o que nos permite identificar o defeito dominante.
Aparência de Virtude
Outra característica do defeito dominante é que, além de estar escondido, muitas vezes se mascara sob a aparência de virtude.
Assim acontece, por exemplo, quando alguém, sob o argumento de que não é ambicioso, acomoda-se no cumprimento do seu dever profissional, ou por falsa humildade abre mão, na família ou no trabalho, de direitos que são deveres, ou por mal entendida compreensão para com as idéias dos outros transige nos princípios básicos da conduta pessoal.
Os exemplos são inúmeros. Não é que o pai de família seja um liberal; é um fraco, o que é muito diferente. Não é que aquele seja um homem empreendedor, consciente do valor social das riquezas; é um avarento. Este não é bondoso, é apenas bonzinho, um sentimentalóide desfibrado. Aquele não é um homem sereno e isento, mas um apático; e aquele outro não é um homem superior, um homem de critério, mas um linguarudo e um invejoso. E este aqui, será um intuitivo ou um preguiçoso? Etc.
Por isso, é muito importante examinar a contraluz o motivo real das nossas ações e comportamentos, de modo a apurar se aquilo que em nós parece definir a nossa maneira de ser, na verdade não passa do nosso temperamento em estado bruto. Enquanto não o polirmos, é justamente onde vemos a nossa principal virtude que pode estar embutido o nosso principal defeito.
Justificativas e Críticas
A auto-defesa e o seu reverso - a crítica aos outros - são mais um elemento válido para descobrirmos o nosso defeito dominante. O que é que mais nos obriga a justificar-nos, aos nossos próprios olhos e perante os outros? E paralelamente, o que é que nos irrita nos outros?
Podemos achar que temos motivos de sobra para ser agressivos, rudes e desconfiados. Justificamos essa nossa maneira de ser falando, por exemplo, da deslealdade que impera no mundo dos negócios: que não podemos ser ingênuos, que o mundo está cheio de trapaceiros.
Pode ser que até o presente essa nossa maneira de ser nos tenha proporcionado sucessos, por exemplo, no campo profissional; mas quantas pessoas há, bem sucedidas profissionalmente, que, por não olharem a meios para atingirem os seus fins, são duras e desumanas, mais suportadas que respeitadas ou amadas! E esses homens vivem tendo que justificar-se pelos sentimentos de rivalidade, pelos atritos e ressentimentos que semeiam à sua volta. O tufão supera os obstáculos, mas arrasa tudo por onde passa.
Por outro lado, aquele que agride habitualmente tende a considerar-se agredido. Tudo o desgosta nos outros. Vê os outros à sua semelhança. Disse Cristo: Por que vês a palha no olho do teu irmão e não vês a trave que tens no teu?(Mt 7,3). Quantas vezes, se tirássemos a cortina de sujeira que obnubila a nossa visão, simplesmente desapareceria qualquer cisco no comportamento dos outros.
Esta linha contínua e desgastante de auto-defesas e críticas pode estar apontando precisamente um defeito de raiz que, ao contrário, exigiria de nós uma auto-acusação lúcida e fecunda.
Críticas Certeiras
Há aspectos do nosso comportamento que nos escapam porque temos dificuldade em ver-nos a nós próprios. O olho que enxerga a quilômetros de distância não enxerga o outro olho que tem ao lado. Os outros nos vêem melhor, sobretudo as pessoas que convivem conosco. Detectam coisas que nós passam por alto por subjetivismo ou imediatismo.
É preciso pensar, por exemplo, por que razão coisas bem intencionadas e objetivamente boas que fazemos, às vezes produzem efeitos contrários aos que esperávamos. Matamo-nos de trabalhar pela família, chegamos a casa tarde e cansados, e a família não só não nos agradece, mas nos critica. Somos pessoas extremamente ordenadas, mas os amigos e os familiares nos dizem que somos egoístas e indisponíveis. Ou não temos o sentido da verdadeira hierarquia e proporção no cumprimento de todo o arco-íris dos nossos deveres.
É o caso da mãe de família com filhos pequenos, a quem a limpeza e a ordem da casa absorvem totalmente, porque da manhã até à noite vive repondo no seu lugar e limpando as coisas que os filhos sujam ou desarrumam. Está fazendo uma coisa boa e, no entanto, o marido ou as amigas lhe dizem que é perfeccionista, que o que faz é prejudicar a atenção e o carinho de que os filhos necessitam.
É preciso abrir-se a essas críticas, descer do pedestal em que às vezes nos colocamos e pensar que, quando mais parece que temos razão, mais devemos desconfiar de que podemos não ter nenhuma. Essas críticas, por muito que nos humilhem ou transtornem, devem representar, num segundo momento, um convite à reflexão, pois serão uma pista valiosa para descobrirmos o que há de errado ou incompleto na nossa maneira de ser.
J. Malvar Fonseca. Conhecer-se. São Paulo: Quadrante, 1998. p.11-16
Diligência III - As Prioridades
"Faz o que deves", para um cristão, não é o simples imperativo do dever, da obrigação. É a Vontade do seu Senhor. O que é que Deus quer que eu faça em primeiro lugar? Quais são as tarefas prioritárias no dia de hoje, aos olhos de Deus? Isto é o que interessa, o verdadeiramente "necessário".
Pensando friamente no dever, poderíamos chegar todos os dias à noite e acalmar a consciência, dizendo-nos: "Não fiz outra coisa senão trabalhar seja na fábrica ou no escritório, no lar, na escola ou onde quer que se cumpra a obrigação cotidiana.
Em face de Deus, porém, as coisas são diferentes. O Senhor nunca vai sugerir-nos que abandonemos ou descuidemos as nossas obrigações. Mas frequentemente, se soubermos escutá-lo, dirá: hoje, o que é prioritário para ti é dar o passo decisivo para te reconciliares com o teu marido, e acabar de vez com esse mutismo causado pelo teu orgulho ferido; hoje, não deixes de procurar, lá no escritório, um momento propício para conversar com esse colega que anda cada vez mais desorientado e precisa de uma palavra amiga que o encaminhe; hoje, aproveita o intervalo do almoço, e vai consultar com um sacerdote esse problema de consciência que te atormenta, e cuja resolução já adiaste demais; hoje, começa a pôr em prática o propósito de te levantares antes, de rezar a oração da manhã com pausa e ler umas palavras do Evangelho, que sejam luz para o coração ao longo do dia...
Mas essa voz, essas "palavras" do Senhor, só podem ser ouvidas - é preciso insistir neste ponto - se soubermos recolher-nos em silêncio na presença de Deus, pensar sinceramente na nossa vida e fazer oração.
Todos os cristãos deveríamos estabelecer e manter - e defender como algo de sagrado - pelo menos dez ou quinze minutos diários dedicados à meditação e ao exame da vida na presença de Deus: de manhã, antes de iniciar as atividades; ou pouco antes de recolher-nos para descansar; ou aproveitando a possibilidade de visitar uma igreja numa hora tranquila, quando o silêncio do templo convida ao diálogo íntimo com Deus... Porque é nesses momentos que a alma, com a graça divina, se torna transparente, se liberta da terrível força centrífuga do ativismo, e consegue voltar para o seu centro, esse "centro da alma" de que falam os místicos, onde se encontra com Deus. Para quem quer escutá-lo, aí Deus sempre fala.
E a voz de Deus - como antes lembrávamos - é a que nos esclarece as prioridades e ajuda a hierarquizar pela ordem de importância, os deveres a cumprir. Assim, estamos em condições de "escolher" com "atenção esmerada e cuidadosa". Passamos a ser diligentes.
É importante, neste ponto, perceber que o fato de um dever ser prioritário não significa, via de regra, que se lhe tenha que dedicar maior quantidade de tempo. Há duas maneiras de dar prioridade a alguma obrigação, sem necessidade de prejudicar o tempo exigido pelas ocupações habituais.
Em primeiro lugar, vive-se uma tarefa como prioritária quando se dá importância primária à qualidade com que se realiza. Assim, a um homem que deve trabalhar por longas horas para sustentar a família, Deus muitas vezes lhe sugerirá: no dia de hoje, é prioritário dar ouvidos às preocupações da tua esposa, dedicar uma palavra de estímulo àquele filho. Isto não significa que Ele nos peça um tempo de que não dispomos. Pede-nos, sim, que, dentro do pouco tempo disponível, demos maior qualidade - qualidade de carinho, de intensidade de interesse, de afabilidade - ao relacionamento com os da nossa casa.
Há ainda uma segunda maneira de dar prioridade a um dever, cuja importância percebemos meditando na presença de Deus: a prioridade cronológica. Não a que consiste - repitamos de novo - em lhe dedicar longo tempo. Mas a que consiste em fazê-lo quanto antes.
Pensemos, a esse respeito, na facilidade com que empurramos para depois deveres que certamente julgamos primordiais. Temos consciência de que alguma coisa é importante e não pode ser largada; mas iludimo-nos, dizendo: "Mais tarde"; ou então: "Logo que me sobrar um pouco de tempo". Infelizmente, esse tipo de reações é frequente quando se trata de deveres ara com Deus: missa dominical, oração, etc., ou de deveres relacionados com o serviço do próximo.
Seria lamentável que reservássemos para esses deveres, que consideramos importantes - e que são ressonâncias de apelos divinos -, somente as sobras do tempo. No entanto, é isto o que fazemos com frequência: deixar o refugo do nosso tempo para as exigências do amor de Deus e do amor ao próximo. E aí não há diligência, porque não há amor. A diligência acha sempre o modo de preservar as precedências. A diligência ama o antes e detesta o depois.
Francisco Faus, A Preguiça. São Paulo: Quadrante, 1993. pp. 30-33
Francisco Faus, A Preguiça. São Paulo: Quadrante, 1993. pp. 30-33
Diligência II - A necessidade da calma e reflexão
A mão que segura e governa as rédeas da atividade é a reflexão. Só quem pensa serenamente nos seus deveres, na maneira de conjugá-los, nas prioridades que entre eles deve estabelecer, nos passos necessários para executá-los, é que possui o governo da ação e do tempo. Esse saberá aproveitar diligentemente cada um dos seus dias, e não será uma marionete puxada aos solavancos pelas cordas do nervosismo e da imprevidência.
Uma atividade madura e eficaz exige - como a planta necessita da terra em que se enraíza - o solo fecundo da serenidade e da meditação. É preciso que aprendamos a parar e a perguntar-nos: Por que estou fazendo as coisas? Como é que as estou fazendo? Atiro-me cegamente numa correnteza de ocupações desordenadas? Estou fazendo realmente o que devo e do melhor modo?
Quando alguém se questiona assim, o impulso instintivo da preguiça será voltar à carga e repetir: "Não tenho tempo, não posso parar, não consigo um mínimo de tranquilidade, o tumulto das ocupações não me 'deixa' meditar..."
Na verdade, quem não nos deixa meditar é a preguiça. É mais fácil escorregar pelo tobogã da rotina, mesmo que seja uma rotina febril, do que ter a coragem de se enfrentar consigo próprio, agarrar com firmeza o leme da vida e controlar energicamente o rumo da navegação.
É por isso que a diligência pressupõe uma "atenção esmerada e cuidadosa" para "apreciar" o valor dos deveres a cumprir, e para os "escolher" conscientemente, "como fruto de uma reflexão atenta e ponderada".
O homem moderno é pobre em interioridade. A ação não lhe nasce de dentro. Medita pouco e quer abranger muito. Então é quase inevitável que num dado momento, talvez quando já chegou longe demais, se lhe tornem claras, como um soco na consciência, as palavras de Santo Agostinho: "Corres bem, mas fora do caminho".
Contaram-me certa vez a história de um homem de idade avançada, que dedicara a vida a uma brilhante atividade empresarial. Chegou a aposentadoria, e um dia - para matar o tempo - pegou no catecismo elementar de um de seus netinhos. Abriu a primeira página e começou a ler: "Quem é Deus?"... E depois: "Para que foi criado o homem? O homem foi criado para conhecer, amar e servir a Deus neste mundo...". Duas grossas lágrimas rolaram-lhe pela face: "- A minha vida foi vazia. Fiz muitas coisas, mas esqueci-me da única que valia a pena".
Talvez para que essa lição não fosse tardiamente aprendida é que Jesus dirigiu a Marta, em Betânia, aquela afetuosa censura: Marta, Marta, andas muito inquieta e te preocupas com muitas coisas; no entanto, uma só coisa é necessária; Maria escolheu a melhor parte, que não lhe será tirada (Lc 10,39 ss).
E, qual era a melhor parte, que Jesus contrapunha ao ativismo inquieto de Marta e aos seus queixumes? Era a atitude de sua irmã Maria, tal como a descreve essa passagem do Evangelho de São Lucas: Maria, sentada aos pés do Senhor, ouvia a sua palavra.
É evidente que Jesus não censura o trabalho de Marta - Ele que amou tanto o trabalho no lar de Nazaré -, nem sugere substituí-lo por uma pura passividade contemplativa. O que faz é marcar claramente a diferença que existe entre "muitas coisas" e "uma só coisa necessária".
A todos, Deus nos pede que façamos muitas coisas. Mas a única verdadeiramente necessária é que nos coloquemos sinceramente junto dEle - muitas vezes - e escutemos o que tem a dizer-nos. Assim, as "muitas coisas" unificam-se em " uma só coisa": trabalhar cumprindo a Vontade de Deus.
Todos deveríamos ter, fossem quais fossem as nossas ocupações, uns minutos diários de calma e recolhimento para parar, pensar, orar e procurar enxergar o melhor modo - o que esteja mais de acordo com Deus - de organizarmos e realizarmos as nossas tarefas.
Francisco Faus, A Preguiça. São Paulo: Quadrante, 1993. pp. 28-30.
Cerimônia de União Homoafetiva
Hoje, aqui na cidade de União dos Palmares, efetivou-se a primeira cerimônia de união civil homoafetiva. O povo todo já vinha comentando sobre o referido há dias e nesta manhã, mal eu tinha acordado, já escutava no rádio, num programa que tratava do assunto, as falas de vários palmarinos que telefonavam a fim de defender a decisão, ou criticá-la.
Como já seria de se esperar, as opiniões se dividiam. Os que eram a favor da união geralmente argumentavam apelando para os sentimentos dos dois rapazes: "eles não se gostam? Isso é o que vale"; ajuntando, depois, a frase de que "o que importa é ser feliz". Outros ainda falavam em Deus ou, mais especificamente, em Jesus Cristo, com frases do tipo: "Jesus não ensinou o amor?", etc.
Dentre os que eram contrários à cerimônia, via-se que a imensa maioria era composta de protestantes. Como argumento mais comum, usavam termos do tipo "Deus abomina isso" ou citações da Escritura. Um outro chegou a dizer que se Deus aprovasse tal coisa, teria criado, ao invés de Adão e Eva, Adão e Ivo.
Gracejos à parte, veremos que este tipo de argumentação ajuda muito pouco porque pressupõe verdades que não são aceitas por outros, e terminam abrindo a vala de incompreensão entre crentes e não crentes. Citar as Escrituras só tem valor para cristãos que têm Fé na inerrância bíblica. Mas nem todo mundo é cristão... E nem todo cristão aceita, sem reservas, a Escritura...
O argumento do "Adão e Ivo", embora mais voltado à comicidade, pode sim funcionar como um argumento, mas somente enquanto se aceita ser a humanidade criada por Deus e, como determinante, o fato de Ele ter criado homem e mulher. Tal gracejo, então, esconde um profundo bom senso e é ancorado na evidência empírica, mas, para o nosso tempo subjetivista e míope, isso não é suficiente. Se as coisas bem explicadas são, ainda assim, renegadas, o que se dirá de algo que exija uma certa reflexão?
Em todo caso, como vimos, os argumentos usados contra a união homossexual repousam sobre premissas que são, elas mesmas, postas em cheque pela maioria das pessoas de hoje. Portanto, o cristão que pretenda não apenas polemizar ou simplesmente expôr-se na defesa da sua Fé, deve utilizar-se também de argumentos que possam ser aceitos pelos não cristãos e/ou os "cristãos" relativistas.
Pois bem. Tendo criticado o teor das idéias em defesa da moralidade cristã na referida ocasião, passo à crítica do argumentos usados pelos paladinos da libertinagem sexual.
Quero, primeiramente, afirmar que nada tenho contra as pessoas dos que foram sujeitos da tal cerimônia. Minha exposição aqui faz referência somente ao evento em si e à própria idéia da pretensa legitimidade da união civil homoafetiva.
Quais, foram, então os argumentos usados em favor? Foram dois: o dos sentimentos dos indivíduos e o de que Jesus tinha pregado o amor. Sobre este último - o do amor pregado por Jesus -, qualquer sujeito que tenha uma certa boa vontade haverá de reconhecer que isto não chega a ser um argumento; é, antes, uma apelação. A Sagrada Escritura está cheia de passagens que condenam as relações homossexuais. Sodoma e Gomorra até hoje são cidades conhecidas sobretudo pelas depravações de que eram palco, motivo pelo qual foram sumariamente destruídas. Jesus nunca se opôs às Escrituras; ao contrário, sempre afirmou que nem sequer um jota seria revogado. S. Paulo, um dos maiores divulgadores do Evangelho, também condena com termos severos o que ele chama de "paixões contra a natureza". Disto tudo se conclui que o amor de que Cristo veio falar não se coaduna, de nenhum modo, com os afetos homossexuais. E, dizendo de um modo claro, defender tal hipótese chega a constituir uma ofensa a quem quer que tome o cristianismo a sério, ofensa que, no entanto, costuma ser levada a termo sem hesitação ou maiores considerações. Tal argumento, portanto, não vale e é de se espantar que ele seja, ao menos, usado.
Vamos, então, à alegação de que os sentimentos podem legitimar a união homoafetiva, pois este é o coração de toda essa discussão. Como se sabe, há a esfera do subjetivo, isto é, dos afetos, sentimentos, intenções, etc, e a esfera do objetivo, daquilo que faz parte do mundo real e que independe das determinações interiores dos sujeitos ou a elas não se submete. Pois bem: por mais importantes que sejam os sentimentos ou vontades pessoais de um indivíduo, elas não podem exigir realização sem que sejam consideradas as possibilidades reais que têm de se efetivar, e isto dentro de uma certa legitimidade objetiva. O que isto quer dizer? É simples: o objetivo deve ter a primazia sobre o subjetivo. Não se trata de aderir somente a um e reputar o segundo ao campo do não-valor, mas de estabelecer uma correta hierarquia. É preciso entender que por mais forte que seja num homem o desejo de voar, nem por isso é legítimo deixar que salte de um precipício motivado por tola esperança; neste caso, tem-se uma impossibilidade objetiva. De outro lado, ainda que um sujeito intente matar um seu conhecido para roubar-lhe um órgão necessário à sua subsistência, nem por isto está liberado para fazê-lo, pois, então, temos não mais uma impossibilidade objetiva, mas uma ilegitimidade moral.
Alguém me objetará: "mas quando houver consenso entre as partes, então haverá legitimidade". Não, pois o que faz a legitimidade não é o mero consenso, como por vezes pensa a nossa querida sociedade. Ainda tomando o último exemplo que usamos, digamos que a vítima permita ser morta para ceder o tal órgão; nem neste caso a situação ganharia licitude. O consenso, portanto, não é suficiente; é preciso que a situação seja objetivamente válida.
Daí que, se o ato homossexual é objetivamente imoral, ele não será tornado moral somente com base nos sentimentos das partes envolvidas.
Mas, continuemos. Peguemos ainda este argumento que afirma serem os tais sentimentos suficientes para garantir a moralidade do ato. O que diríamos, por exemplo, de um adulto que se apaixonasse por uma criança, e vice versa? Neste caso, haveria consenso. Mas seria legítima a consumação da união? Se os sentimentos forem mesmo o determinante, teremos de admitir que sim, que será legitima. Mas todos nós somos capazes, acredito e espero, de dizer que tal conclusão não procede. Logo, os fatores subjetivos não são, assim, tão absolutos.
Continuemos seguindo a "lógica da permissividade" - tão em moda - e critiquemos o tabu segundo o qual um relacionamento deve dar-se somente entre "duas" pessoas, afinal, quem falou que é impossível apaixonar-se em três, ou em quatro, ou em cinco? Alguém dirá que isto vai contra a lei; pois bem, se o argumento dos sentimentos é válido, então diremos que a lei jurídica é, por natureza, anti-humana ou anti-natural, já que contraria um tipo de inclinação natural e legítima no ser humano.
Se dissermos, então, que deveria também ser permitida a consumação de união inter-espécie, isto é, entre seres humanos e animais, quem ousará duvidar da sinceridade do amor entre homens e cães ou gatos? Se o critério maior for, de fato, o subjetivo, deixemos, então, estes seres serem felizes; não lhes barremos, por causa das nossas tolas crendices, o caminho da realização amorosa.
Esta lista de bizarrices poderia ser estendida ao infinito, mas fiquemos por aqui, por amor aos nossos estômagos.
Esta lista de bizarrices poderia ser estendida ao infinito, mas fiquemos por aqui, por amor aos nossos estômagos.
Não se trata de fazer quaisquer ligações - como o pretenderão alguns - entre a união homoafetiva e estas outras práticas. De modo algum. O que estou a fazer é tão somente pegando o argumento usado numa situação específica e mostrando que, com este mesmo argumento, é possível legitimar-se muitas outras coisas estranhas e evidentemente imorais.
No caso das uniões entre adultos e crianças, ainda que ambos defendam estarem apaixonados mutuamente, alguns arguirão que o que impossibilita tal relação é o fato de que, segundo a lei, seja necessário ter atingido a maioridade. Pois bem, vejamos o que é a maioridade. Ela é tão somente a consideração pela madureza psico-física de um sujeito, isto é, um argumento que utiliza critérios totalmente objetivos e que respeitam a natureza das coisas. Se assim é, por quais motivos assombrosos quer-se, agora, abrir mão destes mesmos critérios para legitimar as tais uniões homoafetivas? "Mas como - me perguntarão - argumentas que se está a abrir mão dos aspectos físicos objetivos neste caso, já que ambos são adultos?"
Respondo: os tais aspectos físicos objetivos de que se trata incluem, claro, a idade, mas não só! A fisiologia sexual também deve ser levada em consideração. Se assim não é, qual seria o critério para a divisão, dentre os caracteres físicos, daqueles que determinam a licitude do comportamento sexual e daqueles que não? Por que a idade deve ser levada em conta, mas a genitalidade, não?
O argumento dos sentimentos pode soar bonitinho, à primeira vista, mas não se sustenta. Os afetos só têm valor quando estão em consonância com a objetividade da vida. O sonho de ganhar a São Silvestre num paraplégico pode até ser nobre e enlevá-lo, mas não permite que ele levante de sua cadeira e vença a prova. E mais: se alguém ousa motivá-lo ao disparatado ato, merece antes reprimenda que elogio.
No caso da união homossexual, é evidente que se está diante de algo que vai contra a natureza. E isto é de uma evidência infinita: o corpo masculino se ordena ao feminino e vice versa. O ânus, como já outras vezes tratei aqui, não é um órgão sexual. A própria natureza testemunha a naturalidade da relação heterossexual com a geração de uma vida. A relação homossexual, por sua vez, não gera nada - é estéril. A insistência numa moralidade do ato homossexual, fundando-se numa supervalorização do aspecto subjetivo dos sujeitos e na abstração da objetividade do real, não se pode caracterizar como maturidade pessoal, mas, antes, como incapacidade de aceitar e, portanto, tentativa de burlar aquilo que a natureza determinou. Alguns românticos, então, me perguntarão com o dedo em riste: "então, queres dizer que é preciso submeter-se à natureza? E a liberdade humana, onde que fica?". Por "liberdade humana", já se entende uma liberdade que está limitada ao campo do humano. Nunca vi nenhum homem ou mulher reclamar da suposta falta de liberdade porque não gosta de comer capim ou porque não possui chifres como os do boi. Seriam, então, tais impossibilidades sinais da nossa inaceitável escravidão? Claro que não. Há uma liberdade real, mas ela se dá dentro da nossa humanidade. Assim também, dentro das possibilidades sexuais legítimas de um homem está o de envolver-se com uma mulher ou o de não envolver-se.
Porém, se ainda assim, alguém deseja contrariar à própria natureza, no fim das contas, ele é dono do seu livre-arbítrio. Todos nós aviltamos a nossa natureza a cada vez que pecamos, e isto não é mero discurso religioso. Porém, que a sociedade esteja de acordo e aprove e celebre tais coisas, é, sem dúvida, estranho. Tudo isto indica que, aos poucos, os homens vão perdendo contato com o mundo real, do qual faz parte também a esfera dos valores, e vão adentrando no campo da invenção pessoal, da soberba que reduz tudo ao estreito tamanho de sua subjetividade onde têm máximo valor os desejos, fantasias e caprichos, e termina-se por se construir algo como um "fantástico mundo de Bob", para o qual tais pessoas pretendem - vãmente - dar total concretude, não obstante as contradições em que tenham de incorrer para tal.
Enfim, reitero que não tenho nada contra os que positivaram juridicamente a sua união. A estes, só desejo que Deus os conduza.
Fábio.
Porém, se ainda assim, alguém deseja contrariar à própria natureza, no fim das contas, ele é dono do seu livre-arbítrio. Todos nós aviltamos a nossa natureza a cada vez que pecamos, e isto não é mero discurso religioso. Porém, que a sociedade esteja de acordo e aprove e celebre tais coisas, é, sem dúvida, estranho. Tudo isto indica que, aos poucos, os homens vão perdendo contato com o mundo real, do qual faz parte também a esfera dos valores, e vão adentrando no campo da invenção pessoal, da soberba que reduz tudo ao estreito tamanho de sua subjetividade onde têm máximo valor os desejos, fantasias e caprichos, e termina-se por se construir algo como um "fantástico mundo de Bob", para o qual tais pessoas pretendem - vãmente - dar total concretude, não obstante as contradições em que tenham de incorrer para tal.
Enfim, reitero que não tenho nada contra os que positivaram juridicamente a sua união. A estes, só desejo que Deus os conduza.
Fábio.
A Virtude Oposta à Preguiça - A Diligência I
Se abrirmos o pequeno catecismo da nossa Primeira Comunhão, é quase certo que encontraremos uma pergunta acerca dos pecados capitais, seguida da lista dos seus sete nomes. E, a seguir, uma outra pergunta esclarecerá quais são as virtudes opostas aos vícios capitais. Nessa segunda pergunta, estarão impressas certamente estas três palavras: contra preguiça, diligência.
A diligência é o antídoto específico da preguiça. Onde a preguiça cava um abismo, a diligência ergue uma montanha. E o que é a diligência?
Georges Chevrot, no seu livro sobre "As pequenas virtudes do lar", reproduz, com muito bom humor, o seguinte diálogo. Um garoto, ouvindo falar em diligência, mostra logo com um brilho nos olhos a sua sabedoria histórico-cinematográfica:
- "A diligência - diz - era uma carruagem puxada por cavalos, que se usava no faroeste antes de haver automóveis...
- "Muito bem, meu rapaz, você sabe muito - retruca o pai -; também deve saber que lhes foi dado esse nome porque iam muto depressa. Para a época, evidentemente"11.
Os pais quase sempre têm razão. Mas, neste caso, o pai da história, ao aprofundar na explicação, deu uma pequena escorregadela. Pode ser que, àqueles trambolhos rolantes, acostumados a fugir dos índios nos desertos do Arizona, tivessem dado o nome de diligência à sua rapidez. Mas o que é certo é que a palavra diligência, na sua origem, nada tem a ver com pressa ou velocidade.
Na realidade, diligência é uma palavra que vem diretamente do verbo latino diligere, que significa amar. De modo que, na língua-mãe do Lácio, diligens (diligente) significa aquele que ama.
Isto é da maior importância para o tema que nos ocupa. Dizíamos que a acédia - a preguiça - é o contrário do amor, pelo fato de sentir aversão e tristeza por aquilo mesmo que atrai e alegra o amor: o bem, mesmo que seja árduo e difícil. Em confronto com a preguiça, a virtude da diligência consiste no carinho, alegria e prontidão (coisa diferente da pressa) com que pensamos no bem e nos prontificamos a realizá-lo da melhor maneira possível.
Poucas descrições da diligência existem, mais ricas de conteúdo, do que a contida numa das homilias de Mons. Escrivá, que transcrevemos a seguir:
"Quem é laborioso aproveita o tempo (...). Faz o que deve e está no que faz, não por rotina nem para ocupar as horas, mas como fruto de uma reflexão atenta e ponderada. Por isso é diligente. O uso normal dessa palavra - diligente - já nos evoca a sua origem latina. Diligente vem do verbo diligo, que significa amar, apreciar, escolher alguma coisa depois de uma atenção esmerada e cuidadosa. Não é diligente quem se precipita, mas quem trabalha com amor, primorosamente"12.
Se quiséssemos retratar o anti-preguiçoso típico, é bem provável que imaginássemos a figura de um personagem acelerado e febril, um incansável trabalhador impelido por uma sorte de movimento contínuo. E, no entanto, não é assim. É mais fácil encontrar agitados entre os preguiçosos que entre os diligentes. Paradoxalmente, a diligência está - num certo sentido - mais perto do "devagar", e a preguiça mais perto do "depressa". Mas esse "certo sentido" precisa de uma explicação.
Reparemos que as palavras de Mons. Escrivá, acima citadas, esclarecem que uma pessoa é diligente quando aproveita o tempo "como fruto de uma reflexão atenta e ponderada"; recordam, ao mesmo tempo, que só há amor - diligência - quando se sabe "apreciar, escolher alguma coisa depois de uma atenção esmerada e cuidadosa", e concluem alertando: "Não é diligente quem se precipita".
Muitas pessoas oferecem a imagem de um ativismo desenfreado. Não param um instante. Vão de cá para lá, assoberbados de tarefas, numa incessante corrida atrás do tempo, que sempre se lhes torna escasso. As ocupações os envolvem como que num redemoinho. Já não são donos de si mesmos. A sua atividade - ativismo, deveria chamar-se - domina-os como um cavalo sem freio, do qual perderam completamente as rédeas.
Lembram a história daquele oficial de artilharia, inexperiente nas lidas da equitação, que certa vez quis fazer uma experiência: pediu um cavalo, acomodou-se como pôde na sela e olhou na direção noroeste, para a localidade aonde desejava dirigir-se. Meia hora depois, no mais perfeito rumo sudeste, um grupo de oficiais observa o trotezinho desajeitado do cavalo e o olhar espavorido do colega que se lhe agarra ao pescoço, e indagam com ar brincalhão: - "Para onde é que você está indo?" - "Eu - responde o atribulado cavaleiro - ia para tal lugar, mas não sei para onde é que este cavalo me está levando...".
Muitos cavaleiros da agitação poderiam dizer a mesma coisa. Donas de casa que parecem uma Maria-fumaça sem breque, descendo descontroladas a ladeira do dia, sacolejadas por tarefas, saídas, telefonemas, problemas de escola, pagamentos, etc., arrastadas para o abismo de um permanente nervosismo e uma canseira atordoada. Ou profissionais tensos, em constante disparada, sem tempo para pensar, cuja alma de robô faz deles, mais do que trabalhadores, devoradores de tempo, autênticos "cronófagos".
Homens e mulheres desse estilo não são diligentes. São apenas agitados. Não percebem que, por trás do seu vaivém descontrolado e fatigante, estão sendo atacados por uma forma perniciosa de preguiça: a preguiça espiritual, a preguiça mental.
"O nosso século - escreve Jacques Leclercq - orgulha-se de ser o da vida intensa, e essa vida intensa não é senão uma vida agitada, porque o sinal do nosso século é a corrida, e as mais belas descobertas de que se orgulha não são as descobertas da sabedoria, mas da velocidade. E a nossa vida só é propriamente humana se nela há calma, vagar, sem que isso signifique que deva ser ociosa (...) Acumular corridas e mais corridas, não é acumular montanhas, mas ventos"13.
11- Georges Chevrot, As Pequenas Virtudes do Lar, Quadrante, São Paulo, 1984, pág. 74;
12- Josemaría Escrivá, Amigos de Deus, 2ª ed., Quadrante, São Paulo, 1979, pág. 64;
13- Jacques Leclercq, in: De La Vida Serena, págs. 19 e 20;
Francisco Fauss, A Preguiça, Quadrante, São Paulo, 1993, págs. 24-28.
Máscaras da Preguiça II
A máscara dos bons desejos
Na Bíblia, no livro dos Provérbios, encontra-se uma frase breve, que tem muita substância: Os desejos matam o preguiçoso (Prov 21,25).
Existem preguiças que se manifestam por uma recusa sumária: não quero, não posso. Mas há outras que se enfeitam com as vestes dos bons desejos, desejos ineficazes, que nunca chegam a traduzir-se em realidades.
Não é que a pessoa "não queira". Mas também não "quer". Somente deseja. Quer e não quer o preguiçoso, diz ainda o livro dos Provérbios (Prov 13,4).
O desejo-máscara é mais um truque da preguiça para enganar a consciência. Aos imperativos da consciência - deves fazer, deves dar mais, deves enfrentar isto ou aquilo -, a preguiça responde, com aparente sinceridade: "Sim, é mesmo, eu desejaria tanto fazer isso tudo...".
Se prestarmos atenção, perceberemos que o tempo verbal que a preguiça prefere é o condicional - quereria, desejaria -, nunca o presente - quero! Já há muitos séculos, um dos mais antigos teólogos da Idade Média, Rabano Mauro, formulava a seguinte definição da preguiça: "torpor da mente, que negligencia começar a prática do bem"8.
Desejos condicionais. As "condições" que impedem o tempo presente, e portanto a ação, costumam ser de dois tipos. Em primeiro lugar, o bom desejo esbarra com a chamada "falta de jeito". Nós, que somos habitualmente tão vaidosos, e prezamos as nossas qualidades acima do seu valor, subitamente nos sentimos invadidos por uma estranha humildade: "Gostaria tanto de fazer meditação bem feita, de realizar apostolado, de difundir a doutrina cristã, mas infelizmente não tenho jeito, não nasci para isso".
Alguém um tanto rude sentir-se-ia tentado a comentar: não é falta de jeito, é falta de vergonha. Mas como isso é menos delicado, será melhor dizê-lo de outra forma: é falta de vontade, de sinceridade.
Todos temos "jeito" - ou podemos ganhar "jeito" - para as virtudes, para o bem, para as coisas que pessoalmente Deus nos pede. Nesta matéria, pode-se dizer também que a função cria o órgão. Basta começar, basta iniciar sinceramente o esforço, e a capacidade aparece. Será maior ou menor, mas sempre será útil e eficaz. Principalmente porque Deus não deixa nunca de auxiliar a quem se esforça com boa vontade. Também os antigos mestres da teologia cunharam um adágio a esse respeito: "Deus não nega a graça a quem faz o que dele depende".
Em segundo lugar, tão perigosa como a "falta de jeito" é a desculpa de quem sempre espera pela situação, a época ou as circunstâncias ideais para levar à prática ou seus bons desejos.
Esse afirma com convicta persuasão que quer, que quer mesmo. Agora, porém, não é o momento propício para levar à prática o desejo. Quando mudarem as circunstâncias e houver condições favoráveis, então sim.
"Agora - diz o preguiçoso - estou com tantos problemas na cabeça, que se pegasse num livro de formação cristã, com o propósito de dedicar todas as noites quinze minutos à sua leitura, não aproveitaria nada. Quando esta azáfama acalmar, então..."
"Agora - afirma outro -, ainda não me sinto em condições de fazer uma boa confissão. Deixe que eu amadureça, fortaleça as minhas resoluções, que ganhe mais certeza de não reincidir, e então..." Então? Esquece-se de que não há nada tão forte e eficaz quanto a graça do Sacramento da Penitência, para robustecer a vontade com o vigor da graça divina, e permitir a superação dos problemas.
"Agora? - perguntará um terceiro -. Será que não percebe que estou sob a pressão do cursinho e os apertos do vestibular? Vamos deixar para o ano que vem, porque agora não conseguiria levar a sério a tarefa que me propõe...".
Agora! Acontece, porém, que o tempo real se chama agora. Quem adia, recusa. O tempo ideal, o momento realmente bom, não chega jamais para o preguiçoso.
São transparentes, neste sentido, os seguintes pensamentos do livro Caminho: "Amanhã! Algumas vezes, é prudência; muitas vezes, é o advérbio dos vencidos". "Porta-te bem 'agora', sem te lembrares de 'ontem', que já passou, e sem te preocupares com o 'amanhã', que não sabes se chegará para ti". "... 'Agora' não é demasiado cedo... nem demasiado tarde"9.
Uma grande parte da nossa vida se evapora em desejos irrealizados, porque a preguiça faz confundir o tempo propício com o tempo cômodo. Tempo propício, tempo oportuno, é o que Deus vai marcando. Quando Ele nos inspira um bom desejo, quando acende uma nova luz na alma, esse é o momento propício para começar - quanto antes -, porque é a hora da graça divina. Protelar o começo, à espera do momento mais cômodo, é matar oportunidades e garantir esterilidades.
Só quando nos convencermos de que o "bom momento" é quase sempre o "mau momento" - aquele que a nossa preguiça julga mau - é que cumpriremos a Vontade de Deus e produziremos frutos. Com muita sensatez, São Gregório Magno sentenciava: "Quando não queremos fazer oportunamente as coisas que podemos, pouco depois, quando queremos, já não podemos mais"10.
Um relance em perspectiva para a parcela de vida que já gastamos, talvez possa ajudar-nos a compreender a importância da prontidão na realização dos bons desejos. Um balanço do passado pode fazer-nos entender o perigo de que a vida vá ficando como um grande quarto de despejo, em cujas prateleiras se amontoam, como frascos quebrados, inúmeros bons desejos que a preguiça utilizou.
E com estas considerações, pomos um ponto final ao exame das máscaras da preguiça. Resta-nos agora mudar o ângulo das nossas reflexões, e perguntarmo-nos pelos remédios da preguiça. Naturalmente, o remédio de todo o vício é sempre uma virtude. Qual é, então, a virtude específica que se opõe à preguiça?*"
8- Rabano Mauro, De ecclesiastica disciplina, livro III; cfr. S. Th., II-II, q. 35, a.1;
9- Josemaría Escrivá, Caminho, 6ª ed., Quadrante, São Paulo, ns. 251, 253 e 254;
10- São Gregório Magno, Regula pastoralis, parte III, cap. XV; in: Obras, BAC, Madrid, 1958, pág. 174.
* Veremos qual seja na próxima postagem a respeito.
* Veremos qual seja na próxima postagem a respeito.
FAUS, Francisco, A Preguiça, 2ª ed. São Paulo: Quadrante, 1993, pp. 20-23
Máscaras da Preguiça - I
Estamos, nestas páginas, deixando de lado as modalidades mais grosseiras da preguiça - sombra e água fresca -, para concentrar a atenção na preguiça sutil, de fundo, que - como já sabemos - pode estar unida a uma grande boa vontade, a muitas ocupações e até à agitação.
Pois bem, uma das características dessa sutil preguiça é a sua rara habilidade - verdadeiro "engenho e arte" - para se desculpar ou se justificar. A preguiça mostra-se uma artista consumada no uso de diversas máscaras, com as quais se disfarça, apresentando por fora o rosto do dever cumprido, da laboriosidade ou da responsabilidade.
Vale a pena, por isso, passar a examinar algumas das máscaras mais comuns de que a preguiça costuma valer-se.
A máscara da atividade
Antes nos referíamos ao espanto com que pessoas de grande atividade questionam a acusação de preguiça: "Eu, preguiçoso?". E esquecem-se de que o ativismo, o fato de ter o dia atulhado de ocupações e tarefas e agitado pela "correria", pode ser um grande álibi da preguiça.
"Não tenho um minuto livre", repete-se constantemente. A vida parece um quebra-cabeças, cujas peças jamais se poderão encaixar, porque o tempo é limitado. "Eu bem que quereria fazer tudo, arranjar tempo para toda a gama dos deveres, mais infelizmente não posso".
Não posso. Estas palavras não são novas. Lembram-nos alguma coisa muito antiga, uma parábola saída dos lábios de Cristo.
Um homem deu uma grande ceia e convidou a muitos. A parábola começa com uma clara luz: Deus é esse "homem", que prepara um grande convite de Amor - uma vida de Amor na terra e depois na eternidade -, e chama à porta dos corações dos homens: Vinde, tudo já está preparado. Está pronto o plano que preparei para ti, a missão que te proponho realizar no mundo.
Mas o convite do Amor não obtém resposta: Todos um a um começaram a escusar-se. Todos. E deram as suas razões, razões objetivas e cheias de sensatez: Comprei um campo e preciso ir vê-lo; rogo-te que me dês por escusado. Disse outro: Comprei cinco juntas de bois e vou experimentá-las; rogo-te me dês por escusado. Disse também um outro: Casei-me e por isso não posso ir. (Lc 14, 16-20).
É o retrato falado dos nossos não-posso: não podemos assumir determinadas responsabilidades e deveres cristãos... porque andamos muito ocupados.
O Senhor não aceita as desculpas. Para Ele não passam de enganos, máscaras da preguiça, que foge de maiores compromissos de amor porque não quer complicações. O pai de família - acrescenta o Evangelho - ficou irado (Lc 14,21). Uma expressão forte, que convida à reflexão. Deus não aceita as nossas desculpas, e isto porque o não-posso, a maior parte das vezes, significa simplesmente um não-quero.
A preguiça começa por não querer pensar. Há deveres sobre os quais - por medo do sacrifício - "nem se cogita". Arremedando a frase "viver é muito perigoso" do protagonista de Grande Sertão: Veredas7, poderíamos dizer que, para alguns, "pensar é muito perigoso". Resistem a enfrentar seriamente alguns deveres, porque podem vir a impor-se-lhes como uma obrigação de consciência. Por isso, preferem tapar a vista com um pano - a afirmação de que "não dá" -, antes de terem sequer começado a refletir.
Deus, pelo contrário, diz que dá. Tudo aquilo que é expressão da vontade divina, do ideal do cristão, é possível. Depende da nossa boa vontade, ou melhor, da nossa vontade boa, disposta a abraçar e a amar, sem regatear sacrifícios, a vontade de Deus. Todos temos a experiência de que o nosso querer torna-se poderoso quando há um verdadeiro interesse, ou quando há um verdadeiro amor.
É surpreendente verificar o que acontece, por exemplo, com certas pessoas agoniadas pela "absoluta falta de tempo". Um belo dia, o amigo, aflito pelo excesso de trabalho, comunica-nos com expressão radiante: - "Sabe que estou fazendo um curso de alemão? É ótimo. São só quatro dias por semana, das sete às dez da noite. E, depois, é quase certo que vou arranjar um emprego numa multinacional..." O ouvinte sente uma vontade de dizer: "Mas, se há um mês você me disse que não tinha nem meia hora por semana para ensinar o catecismo a seus filhos, e que lhe seria quase impossível conseguir cinco minutos diários para ler o Evangelho..."
Produziu-se um milagre, por obra e graça do interesse. Quem não "podia" fazer o que, na realidade, não interessava ao seu coração egoísta, agora pode dedicar sem problemas 12 horas semanais à gramática alemã.
Será preciso lembrar os "milagres" que, neste âmbito do tempo, é capaz de realizar o amor? Uma pessoa apaixonada cria tempo, inventa-o, multiplica-o... e acaba "encontrando" tempo para estar com quem ama.
Seria muito bom que cada um de nós revisasse, sinceramente, o que há por trás dos nossos não-posso. Não demoraríamos a descobrir, com evidência, que se trata de uma falta de interesse ou de uma falta de amor. Não vai ficando, assim, mais clara a estreita relação da preguiça com o "amor do bem" de que tanto falam os clássicos cristãos?
A máscara da ordem
Para começar, não nos esqueçamos de que a ordem é uma virtude, e de que essa virtude é arma específica de combate contra a preguiça. Sobre a virtude da ordem, falaremos mais na segunda parte. Agora, detenhamo-nos na ordem viciada, que se transforma em máscara da preguiça. Para isso, pode ajudar-nos reparar em que há dois possíveis tipos de ordem, a que poderíamos chamar, respectivamente, ordem defensiva e ordem oblativa.
Ordem defensiva. Há pessoas que fazem da ordem uma armadura de defesa pessoal. São muito organizadas, até nos mínimos detalhes. Aproveitam bem o tempo. Mas o seu esquema é intocável. Fabricaram para si uma espécie de trilho de aço, por onde deslizam mecanicamente, e não toleram que nada interfira com os planos que traçaram, tão egoístas e tão cômodos.
Pobre da irmãzinha caçula que se atreva a pedir esclarecimentos sobre um teorema ao irmão mais velho, modelo de seriedade escolar, durante o sacrossanto "horário de estudo". Que se cuide também a esposa ousada, que timidamente peça ao marido que se desvie um instante e pare na quitanda, afastando-o do trilho da sua intocável rotina. Ou o filho, que sente necessidade de comentar com o pai um acontecimento importante de que acaba de ser protagonista, enquanto o pai está realizando a sagrada tarefa de colar-se ao televisor, porque, após um dia estafante, "tem o direito de descansar um pouquinho" (um pouquinho, que podem ser horas e horas inúteis diante do aparelho).
A ordem não pode ser uma barricada defensiva, para ter a vida mais tranquila. A ordem que é virtude, é um meio para assegurar uma entrega mais perfeita ao cumprimento dos deveres de cada dia, deveres que, sem ordem, sem previdência, sem uma sequência prudente e organizada, ficariam esquecidos ou prejudicados.
Essa é a ordem oblativa (de oblação: oferenda, doação). Uma ordem que é reflexo da disposição generosa do coração: quer fazer e dar-se mais e melhor. Por isso, quando fora da ordem prevista se apresenta a oportunidade de fazer coisas de mais valor - e que há de mais valioso do que dar-se, com amor, ao próximo? -, a alma generosa não hesita: sai do seu trilho, e atende a esse apelo do amor com alegria. Segue a ordem de Deus - a que Deus vai sugerindo -, consciente de que é melhor do que a sua, sem ver interferências, sobrecargas ou perturbações nesses chamados divinos que lhe modificam os planos.
A máscara do cansaço
Além da máscara da falsa ordem, a preguiça utiliza-se habilmente da máscara do cansaço, para proclamar com a consciência tranqüila: "- Não posso mais, não agüento mais."
A fim de percebermos os contornos dessa máscara, penetremos por uns instantes - a título de exemplo - na intimidade de um apartamento imaginário, após o expediente de trabalho. O chefe de família chegou, curvado sob o fardo do dia, com uma palidez que inspira compaixão e uma carranca que sugere distâncias. Desaba na poltrona, pega no jornal e sussurra com um fio de voz: "Estou exausto, podia trazer-me os óculos?". Nessa mesma hora toca o telefone, e a custo o protagonista se arrasta até o aparelho: - "Alô!... Como é? Mas vocês arranjaram mesmo o campo do Clube Tal? E eles vão ligar a iluminação!... Não, não! É para já, vou voando!".
Num instante, a família descobre, espantada, que o chefe do lar tem as faculdades do Superman: um novo homem dinâmico surge na sala, apanha chuteiras e outros apetrechos, e se atira ao elevador, enquanto comenta brincalhão: - "Neste time de amigos, há um senhor de 65 anos que corre o tempo todo pelo campo. Idade não é documento...".
A câmera é uma coisa muito especializada. Sempre que se pensa nele, é muito conveniente perguntar: "Cansaço, para que coisas?". Porque todos somos especialistas em determinados cansaços - cansaço "para" rezar, estudar, atender os desejos dos outros, responder cartas, etc. -, que não passam de máscaras da preguiça.
E é que, ao lado da fadiga real, produzida pela sobrecarga de verdadeiros esforços, há uma outra fadiga, um outro cansaço, produzido pelo afrouxamento da fibra moral. Este último - a fadiga da alma - é o cansaço que invade os que cumprem os deveres de má vontade, sem amor; é o cansaço dos que vivem reclamando por tudo e por nada, sonhando sempre com situações ideais que jamais irão dar-se; dos que não querem sacrificar-se; dos preguiçosos, em suma, daqueles a quem o bem, o amor e o dever enfastiam, porque exigem sacrifício.
Francisco Faus. A Preguiça, 2ª ed., São Paulo: Quadrante, 1993, pp. 13-20.
Uma segunda pista para desmascarar a Preguiça
Se a palavra "bitolado" da nossa linguagem familiar, tem algum sentido, este sentido adquire feições, olhos e mãos nos personagens - habitantes de minúsculos asteróides - que o Pequeno Príncipe5 visita na sua viagem sideral.
O acendedor-de-lampiões vive num mundo reduzido a um lampião esguio, que deve acender e apagar sem descanso, a cada volta do seu asteróide. O bêbado povoa solitariamente um pequenino mundo concentrado na obsessão por garrafas cheias e garrafas vazias. Para o rei, viver é poder dizer de boca cheia (quanto pode): "Ordeno-te"...
Acontece que o planeta Terra está povoado por inúmeros "homens de asteróide". Pessoas muito atarefadas, mas inteiramente polarizadas em uma ou duas ocupações, a que reduzem, na prática, todo o seu "mundo".
Começávamos estas páginas referindo-nos aos que sorriem, ao ouvirem falar de preguiça. Mas esses mesmos - que talvez sejamos nós - sentir-se-ão muito aborrecidos se a referência à preguiça lhes for espetada com endereço pessoal: - "Você é um preguiçoso!". Uma onda quente de revolta subirá à cabeça e à garganta: - "Eu, preguiçoso? Mas se não tenho nem um minuto livre, se trabalho sem folga nem férias... Precisaria, em todo o caso, é de um pouco mais de descanso...".
Uma pessoa pode ser ocupadíssima... e ter uma profunda preguiça, a preguiça do homem "bitolado", isto é, daquele que reduziu o ideal, a vida e o dever a apenas um ou dois asteróides. Estes podem ser, para um homem, o trabalho profissional e o cuidado das condições materiais da família; ou, se se trata de uma mãe de família, a atenção do lar e dos filhos, e um emprego de meio-período que permita reforçar o orçamento familiar; ou ainda, no caso do modesto estudante, a frequência às aulas, acrescida do serviço num banco.
Todas essas pessoas, trabalhadoras e responsáveis, podem estar padecendo, sem saberem disso, da doença da preguiça setorial. Há setores da vida em que realmente se empenham, produzindo muito; mas há outros, muitas vezes mais importantes, que deixam abandonados como o campo do preguiçoso de que fala a Bíblia: Passei perto da terra do preguiçoso, junto à vinha de um homem insensato: eis que por toda a parte cresciam abrolhos, urtigas cobriam o solo e o muro de pedra estava por terra (Prov. 24,30).
Não há dúvida de que o quadro completo da missão de um homem ou de uma mulher não se esgota na profissão e na família, por mais que estes sejam setores importantíssimos, primordiais, de sua vida. Deve haver algo mais. Por acaso pode considerar-se realizado alguém que deixou completamente estéril, ou quase, o campo das suas relações com Deus e da sua formação cristã? Pode pensar que cumpre a sua missão aquele que vive de costas para as necessidades espirituais e materiais do próximo?
Seria muito cômodo anestesiar a consciência pensando: "Não perco tempo, trabalho muito, vivo para o lar...", e fazer desses deveres mais ou menos bem cumpridos um sedativo para a alma, esquecida dos outros deveres que não cumpre: deveres para com Deus, deveres sociais, responsabilidades em face dos problemas da comunidade humana. Sempre paira sobre os cristãos mornos o que alguém denominou "o perigo das coisas boas"6: coisas boas que fazemos, para acobertar o vazio de outras tantas coisas boas que não fazemos, e deveríamos fazer.
Não é infrequente, neste ponto, ouvir comentários como o do homem casado que se gaba da luta extenuante que se impõe para sustentar a família, mas não se apercebe de que, desculpando-se com a fadiga do trabalho, nem sequer toma conhecimento do dever de educar os filhos, de conversar com eles, de formá-los. Não raro, é o mesmo tipo de pai que estufa o peito ao contar com quanto sacrifício conseguiu dar aos filhos estudos em colégios de nível; e, ao mesmo tempo, nada vez para lhes proporcionar uma boa formação religiosa e moral, muito mais importante que um brilhante aprendizado de álgebra, biologia ou história.
Essas deficiências são reais e frequentes. É possível que, ao reconhecê-las, sintamos desejos de retrucar: "Tudo isso é certo, mas onde encontrar tempo para tantas coisas?" O meu tempo não dá para mais..." Como um comentário desse tipo parece objetivo, será oportuno abordar um outro aspecto da preguiça, que pode esclarecer essas aparentes contradições.*
5- Antoine de Saint-Éxupery, O Pequeno Príncipe, 25ª ed., Ed. Agir, Rio de Janeiro, 1983, pág. 37 e segs.;
6- Salvatore Canals, Reflexões Espirituais, Quadrante, São Paulo, 1985
Francisco Faus, A Preguiça, 2ª ed. São Paulo: Quadrante, 1993. pp. 10-13
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*Este outro aspecto da preguiça será transcrito posteriormente num post entitulado "As Máscaras da Preguiça"
Uma pista para desmascarar a Preguiça
Ouvi contar há tempo, a um homem de Deus, a história verídica de um pastorzinho que todos os dias acompanhava o pai, ajudando-o a conduzir o gado para o pasto. Queimava-o o sol e cansavam-no as longas caminhadas, um dia após outro. Aconteceu que chegaram à fazenda uns estudantes para passar as férias. Acordavam tarde, passeavam longamente, prolongavam conversas à sombra das árvores.
Um dia, um desses estudantes, no meio de um passeio vespertino, aproximou-se do garoto, que voltava cansado do pastoreio.
- "Você" - perguntou -, que gostaria de ser quando crescer?"
A resposta, após um relance ao moço e outro à boiada, não se fez esperar:
- "Eu gostaria de ser um estudante ou boi".
Não andava pelas alturas, aquele menino. Queria uma vida cômoda: o dolce far niente do estudante em férias ou a paz do boi ruminando no pasto. Mas será que nós andamos por maiores elevações?
Uma das formas mais comuns da preguiça, sem diminutivo, é justamente a repugnância pelas alturas espirituais e morais. É o que poderíamos chamar a ambição da mediocridade. Quer-se é viver bem, mas sem exageros de esforço nem loucuras de idealismo. Ser bom, ser um "cristão médio", com a sua dose medida de religião, vá lá. Mas levar o cristianismo a sério e em plena coerência com a fé, isso considera-se fanatismo.
É muito interessante verificar que a sabedoria dos antigos, já desde os primeiros séculos do cristianismo, ao enfocar a preguiça, contemplava quase que exclusivamente o seguinte conteúdo: a resistência a atingir a altura espiritual e moral própria de um filho de Deus, de um cristão.
Na linguagem clássica cristã (de Cassiano a São Tomás de Aquino, passando por São Gregório Magno), o vício capital da preguiça era designado com o nome de acédia. A acédia é fundamentalmente uma tristeza, uma tristeza ácida e fria - daí o nome -, que invade a alma ao pensar nos bens espirituais - na virtude, na bondade, no amor a Deus e ao próximo -, precisamente porque não são fáceis de alcançar nem de conservar. Exigem esforço, renúncia, sacrifício. E o egoísmo se defende. A repugnância que sente por tudo quanto é abnegação e doação generosa vai criando depósitos azedos no coração, e acaba transferindo para Deus e para os próprios bens árduos que Deus pede uma fria antipatia, que pode terminar em aversão: "um tédio que acabrunha", diz São Tomás3.
É natural que estes mesmos autores insistam no fato de que a acédia se opõe frontalmente àquilo que é a essência da perfeição cristã: o amor. A preguiça detesta o que o amor abraça, entristece-se com o que alegra o amor.
É possível que já tenhamos tido, alguma vez, a experiência desse tipo de tristeza, ao pensar em Deus e nos ideais cristãos, e nos tenhamos perguntado: por que Cristo exige de todos os seus seguidores que se neguem a si mesmos e tomem a cruz (cfr. Mt 16,24)? Por que insiste na necessidade de perder a vida - de entregá-la - para achá-la (cfr. Jo 12,25)? Por que assinala como lei áurea do cristianismo um amor ao próximo tão exigente, que deve ser um constante "servir e dar a vida" pelos outros (cfr. Mc 10,5)? Não seria mais agradável um programa suave, sem cruzes nem renúncias, feito de bondades descomprometidas?
É bem possível que, sem reparar, tenhamos fixado como ideal de vida a honestidade hipócrita do fariseu - não mato, não roubo, pago o dízimo -, aliada à frase que se esgrime como uma fórmula de auto-canonização: "Não faço mal a ninguém".
Basta uma leitura superficial dos Evangelhos para concluir que isso não basta. Sede perfeitos, assim como vosso Pai celestial é perfeito (Mt 5,48). O primeiro de todos os mandamentos é este: amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todo o teu entendimento e com todas as tuas forças. O segundo é este: amarás o teu próximo como a ti mesmo (Mc 12, 29-31).
Quem quiser seguir a Cristo tem que renunciar à vida fácil. Não se pode entrar no Reino de Deus sem um empenho esforçado: O reino dos Céus - diz Cristo - é arrebatado à força e são os violentos (os que lutam energicamente) que o conquistam (Mt 11,12).
Iludem-se os homens quando pensam que levar Deus a sério vai perturbar-lhes a vida, metendo-os num calvário de compromissos, exigências e complicações. Quando, na realidade, o que complica e estraga a vida com a maior perturbação que existe - o vazio - é exatamente o contrário: o medo de levar Deus a sério, a apreensão que faz fugir dos compromissos do ideal cristão.
Nunca é por ter-se dado ou sacrificado que um homem se esvazia, mas por ter-se poupado. É dolorosa como uma queimadura a constatação de que os anos vão passando e o vazio vai aumentando. São duras certas horas de solidão, em que parece que o coração reclama: - "Não sei o que está acontecendo comigo, falta-me alguma coisa e não sei dizer o que é".
A única coisa que acontece é que não vivemos a "nossa" vida - o que ela deveria ser -, mas um substitutivo rebaixado ou uma falsificação. Somente seremos felizes quando realizarmos a Vontade de Deus a nosso respeito, porque só então é que nos encontraremos a nós mesmos.
Aqui temos, pois, uma primeira pista para descobrir a preguiça de fundo: a renúncia à altura. Assim resume Pieper, com traços vigorosos, essa atitude: "A preguiça, como pecado capital, é a renúncia mal-humorada e triste, estupidamente egoísta, do homem à "nobreza que obriga" de ser filhos de Deus4.
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3- São Tomás de Aquino, Suma Teológica, II-II, q. 31, a. 1;
4- Josef Pieper, Las virtudes fundamentales, Rialp, Madrid, 1976, pág. 395.
Francisco Faus. A Preguiça, Quadrante, 2ª ed., São Paulo, 1993, pp. 7-10.
Preguiça - O que é?
Existe uma definição muito simples de preguiça, com a qual é fácil concordar: "a resistência ao esforço e ao sacrifício". Com efeito, o preguiçoso não tem um ideal de perfeição esforçada, mas de facilidade. Mais do que o bem, move-o a vantagem. Podendo seguir uma linha cômoda, não se esforçará por subir a encosta íngreme do aprimoramento, da perfeição.
O preguiçoso contentar-se-á com "despachar" as tarefas e responsabilidades, sem se importar em deixá-las acabadas. E, à força de se poupar egoisticamente ao esforço, chegará a tornar-se um virtuose na arte lamentável de contornar deveres, de "dar um jeito" - como se diz popularmente - de outras tantas manhas da moleza.
Será que percebemos o vírus oculto, que anda emboscado por trás dessas atitudes e comportamentos? É, nem mais nem menos, a fuga do ideal - da perfeição -, a deserção do amor. E essa constatação é importante para penetrarmos no âmago da preguiça como pecado capital.
Há duas formas possíveis de situar-se perante a vida e as suas responsabilidades:
- pode-se encará-la como uma missão - grande, bela, árdua -, que Deus propõe a cada um de seus filhos, e pela qual vale a pena gastar as melhores energias;
- ou pode-se encará-la com a mentalidade do aproveitador. Para este, o que importa é passar bem, usufruir os prazeres da vida, fazer o imprescindível e não complicar-se. Assemelha-se a um mata-borrão que, quanto mais absorve - quanto mais a sua alma se embebe de egoísmo -, mas se estraga. É característica desses tais "o comodismo, a falta de vibração, que impelem a procurar o mais fácil, o mais agradável, o caminho aparentemente mais curto, mesmo à custa de concessões no caminho da fidelidade a Deus"1.
Com muito acerto escreveu um filósofo cristão dos nossos dias que "a preguiça significa, antes de mais nada, que o homem renuncia à altura da sua dignidade: não quer ser aquilo que Deus quer que seja"2. E, nesta dolorosa renúncia, se destrói.
Desistir dos ideais é desistir de sermos "nós mesmos". Porque cada um de nós só pode realizar-se de verdade na medida em que luta com ajustar-se àquilo que Deus lhe propõe com meta na vida. Ou porventura pensamos que Deus, Pai e Amor, Sabedoria infinita, nos lançou no mundo às cegas, sem ter em sua mente um plano para nós?
Furtar-se a este plano de Deus, que é a sua Vontade e o nosso Ideal, é a mais radical das frustrações. Na vida, o que nos desencanta não são as pequenas ambições insatisfeitas, - no plano do sucesso e do dinheiro, por exemplo -, mas os ideais abandonados ou atraiçoados. Deus ofereceu-nos uma oportunidade, e nós a recusamos. Quantas vezes Eu quis - dizia Cristo com lágrimas, contemplando Jerusalém - e tu não quiseste! (Mt 23, 37)
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1- Josemaria Escrivá. É Cristo que passa, Quadrante, São Paulo, 1975, pág. 6;
2- Josef Pieper, in: Leclercq-Pieper, De la vida serena, 3ª ed., Rialp, Madrid, 1965, pág. 75.
Francisco Faus. A Preguiça, Quadrante, 2ª ed., São Paulo, 1993, pp. 5-7.
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