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Namoro

O namoro é o período em que o rapaz e a moça procuram conhecer-se em preparação para o matrimônio.

No matrimônio homem e mulher doam seus corpos, constituem uma só carne e tornam-se instrumentos de Deus na geração de novas vidas humanas.

Mas antes de doar os corpos é preciso doar as almas. No namoro os jovens procuram conhecer, não o corpo do outro, mas sua alma.

Os namorados não podem ter relações sexuais, pois o corpo do outro ainda não lhes pertence. Unir-se ao corpo alheio antes do casamento (fornicação) é um pecado contra a justiça, algo como um roubo.

E como nosso corpo é templo do Espírito Santo (1Cor 6,19) a profanação de nosso corpo é algo semelhante a um sacrilégio.

"Não sabeis que sois um templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós? Se alguém destrói o templo de Deus, Deus o destruirá . Pois o templo de Deus é santo e esse templo sois vós" (1Cor 3,16-17).

Porém não é apenas a fornicação que é pecado, mas também tudo o que provoca desejo da fornicação, como abraços e beijos que, muitíssimo mais que constituírem expressões de afeto, despertam, alimentam e exacerbam o desejo físico.

Aliás, é possível profanar o templo do nosso corpo até por um pensamento: "Todo aquele que olha para uma mulher com mau desejo já cometeu adultério com ela em seu coração" (Mt 5,28).

Durante o namoro deve-se evitar o contato físico desnecessário. O contato entre os corpos (beijos e abraços), além de causar o desejo de fornicação , obscurece a razão. O próprio beijo na boca ou de novela já constitui uma entrega física, que, se acidentalmente pode não se consumar, no entanto a prepara ou apressa. Vale aqui lembrar a advertência de Cristo: "Vigiai e orai para não cairdes em tentação. O espírito é pronto, mas a carne é fraca" (Mt 26,41).

O prazer da excitação dos sentidos, além disso, torna os jovens incapazes de perceber a beleza da alma do outro. O namoro assim deixa de ser uma ocasião de amar para ser uma ocasião de egoísmo a dois, cada um desejando sugar do outro o máximo de prazer.

Como Namorar

Sendo o namoro o encontro de dois templos sagrados que desejam conhecer-se e amar-se interiormente, os namorados deveriam agir à semelhança de um rito litúrgico:
rezar antes e depois do namoro;
namorar apenas em lugar visível, para evitar ocasião de pecar. Nada há para esconder;
durante o namoro evitar ir além de conversar e dar as mãos;
ter sempre em mente : "Eu estou diante de um templo sagrado. Ai de mim se eu profanar este templo até por um pensamento".

E se o outro não aceitar namorar cristãmente?
É preciso renunciar ao namorado (à namorada).

"Aquele que ama pai ou mãe mais do que a mim não é digno de mim. E aquele que ama filho ou filha mais do que a mim não é digno de mim" (Mt 10,37).

E Jesus poderia acrescentar :
"Aquele que ama o namorado ou a namorada mais do que a mim não é digno de mim".
Para conservar a graça que Cristo nos conquistou com o preço de seu sangue, devemos renunciar até à própria vida .

Mas há um consolo. Se outro não aceitar namorar senão através de beijos e abraços escandalosos, na verdade ele não ama você, mas deseja gozar do prazer que você pode oferecer. O verdadeiro amor sabe esperar.

É preciso ser diferente de todo o mundo?
Sim. O cristão deve ser sal da terra (Mt 5,13), luz do mundo (Mt 5,14), fermento na massa (Mt 13,33).
"Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos, renovando a vossa mente, a fim de poderdes discernir qual é a vontade de Deus, o que é bom, agradável e perfeito" (Rm 12,2)
A alegria da pureza

Aquele que procura o prazer, encontra o prazer. Mas depois vem o vazio, o remorso de consciência e a tristeza.

Aquele que se abstém do prazer por amor encontra a alegria . Os puros de coração são capazes desde já de conhecer as coisas de Deus muito melhor do que os outros. A pureza se expressa no olhar. Ao olharmos para os olhos de uma pessoa pura, vemos algo de Deus em sua alma.

Se os que buscam o prazer na impureza conhecessem a alegria da pureza, desejariam ser puros mesmo que fosse por egoísmo. A alegria da pureza está acima do prazer da impureza assim como o céu está acima da terra. Experimente e diga-me se não é assim.

Pe. Luiz Carlos Lodi da Cruz

Oração para antes do namoro

Senhor,Estou aqui diante de um templo santo onde vós habitais. Amo-vos presente neste templo e prefiro morrer a profanar este santuário mesmo por um pensamento.Fazei que com este namoro eu aprenda a amar a vós presente no outro e assim descubra se foi este (esta) quem escolhestes para estar ao meu lado por toda a minha vida.São Rafael Arcanjo, que conduzistes Tobias a Sara e lhes ensinastes a pureza do coração, fazei-nos namorar de tal modo que os anjos possam estar presentes e glorificar a Deus conosco .Virgem puríssima, dai-nos a pureza do vosso Imaculado Coração.

Depois do namoro
Convém fazer um exame de consciência:"Estou agora amando a Deus mais do que antes?"

(Com aprovação eclesiástica)

Disponível em
http://www.providaanapolis.org.br/namoro.htm

Que coisa, não?

Ai, Deus do Céu. A que estado chegamos, e para onde vamos? Muitos se erguem contra a Perfeita Doutrina Católica à força de falsas doutrinas sofísticas. Oh, funesta ocupação, a de doutrinar os homens ao ateísmo e seus equivalentes. Lembro-me das palavras de Jesus, como se estivesse a dizer hoje: “até quando terei que suportar-vos?”

Seria cômico se não fosse triste, ver a obstinação de universitários e professores da academia na tentativa, cega, de propor soluções para o mundo desvinculadas de Deus e, ainda, que neguem o princípio fundante da criação. Oh, que perda de tempo... Mas, hei-los! Seguem convencidos que são os novos “budas”, de que têm a missão salvífica de livrar o mundo do mito de Deus, assim como os gregos que, a partir da filosofia, do Logos, abandonaram os seus mitos. Mas, bem aventurado o Apóstolo João, que já chega destroçando estes sofismas ao escrever: “No princípio era o Logos... e o Logos se fez carne e habitou entre nós”. E é justamente isto! O Logos, assim como no episódio dos filósofos gregos, destrói a mentira, desfaz as ilusões e nos dá acesso à Verdade! Não, mas os nossos colegas “filósofos” não conseguem perceber estas prefigurações, estas simbologias... A metafísica, dizem, já não dá conta das questões atuais, é preciso evocar Marx, o novo messias dos jovens acadêmicos. “Não sigam a Jesus! O verdadeiro messias é Marx, e Che é seu profeta”. É hilário. Infeliz pretensão humana. Diante destas questões e ao ver a insistência de Deus pela Salvação da humanidade, somos impelidos a perguntar, como o salmista: “que é o homem, Senhor, para dele te lembrares?”

Mas não, não querem aceitar a Verdade revelada: “Ele veio para os seus, mas os seus não O reconheceram”. Já não aceitam que haja uma verdade, não conseguem conceber que uma forma de consideração do real que se afirme universal e absoluta. Por que será que há este medo? Por que tanta relativização? Ah, isto é resultado da evolução do conhecimento! Será? Ou será que é resultado de uma intensa doutrinação às avessas estendida de forma velada? Será mesmo que a proposta cristã já não satisfaz o homem contemporâneo? Ou, se satisfaz, será que realmente poderia ser falsa? Ah, mas o dogmatismo, afirmam como se soubessem o que é um dogma, é inimigo da verdade, pois esta é fruto da investigação! Haha.... talvez a frase ficasse melhor se dita assim: “o conhecimento da verdade é fruto da investigação”. A verdade existe mesmo se ninguém quiser conhecê-la. É que o subjetivismo chegou ao extremo... Ora, é lógico que por mais que eu ignore alguma coisa, ela pode existir. Nunca fui em Plutão e, certamente, nunca irei... mas daí afirmar que Plutão, em realidade, não existe não tem lógica. Pois bem. A Verdade existe por si só, é preexistente e absoluta. As coisas só podem ser descobertas se já existem, senão, só podem ser inventadas. E é justamente isto o que estes pseudo-filósofos querem: inventar verdadezinhas. Isto é mais cômodo, visto que assim cada um pode ser fiel a seus desejos mais baixos, à sua fraqueza moral. Mas a moral é cultural, insistem, na esperança de que ela “evolua”, abolindo os “tabus” e permitindo a civilização do hedonismo. Para este fim, inúmeros meios não faltam. A idéia de uma Verdade absoluta indica dever de conformidade, mortificação de tendências contrárias a ela e, o que é mais assustador pra eles, que as teorias opostas a tal Verdade sejam, forçosamente, erradas.

Acham que é uma pretensão sem medida que a Igreja afirme, hoje em dia, ser a detentora da Verdade. Isto fere-lhes a vaidade, ameaça-lhes os sonhos, faz parecerem ridículos com suas doutrinazinhas pessoais. É como se vislumbrassem, sofridamente, a própria insignificância diante da proposta benfazeja e rigorosa do Cristo. Não podem comparar-se. Para isto, negam a divindade. Interessante que, recentemente, muitos têm se dado ao trabalho (cômico) de provar que Jesus nunca existiu historicamente. Depois de um punhado de fantasias sobre supostos casamentos, filhos, túmulos, irmãos, etc... agora eles vêm com essa. Eita que medo do Cristo! Parecem aqueles personagens do apocalipse pedindo, no fim dos tempos, para que as pedras caiam sobre si a fim de esconderem-se embaixo delas.

Muitos dos inimigos da religião buscam pôr sobre os ombros a capa da sinceridade. E dá-lhe sofistas! Libertar o homem de sua escravidão da divindade, de sua invenção tão antiga, torna-se uma missão. E eles não podem criar essas historinhas se não pegam como modelo a própria visão messiânica de libertação. Mas ficam tão engraçados... viram caricaturas ridículas de profetas.... palhaçadas sistematizadas é o que escrevem. E aí vão seus seguidores, repetindo, a torto e a torto, seus slogans. Só falta dizerem no final: “oráculo do papagaio”. Enquanto isto, a Verdade segue com toda a sua força.

Pobres vítimas destas vítimas do próprio orgulho... Como será que um mentiroso pode se defender? Das duas uma: ou afirma que está falando a verdade (daí os inúmeros “profetas” criadores de religião) ou então nega que haja uma verdade, para se garantir o direito de ser mais um que proclama abobrinhas. Simples estratégia... Que coisa... parece que cada vez mais o crédito deles decresce. Aliás, nunca houve nenhum, não é? Somente aparentemente.

Tratemos, um pouco, sobre esta questão da investigação... vimos que a Verdade existe por si só. E, de tal modo ela é suprema, como dizia o salmista: “tal ciência é grandiosa, não alcanço de tão alta”, que foi preciso que houvesse a Revelação para que nós a conhecêssemos perfeitamente. Ela se revelou, se deu a conhecer. Esta verdade não é fruto de uma subjetivação, mas ela é em si, ou melhor, ela simplesmente é: “Eu sou”. Isto não quer dizer, no entanto, que não devamos fazer nada. É preciso sim estudá-la. De fato, toda a Revelação já foi dada, mas devemos nos debruçar sobre ela para que alcancemos sempre profundidades maiores, visto ela ser inesgotável. E, justamente tal Verdade é o que enriquece o ser humano e lhe tira o véu do engano dos olhos. É assim que a Igreja, incorporando a filosofia grega, a purifica e eleva. É assim que Santo Tomás, ao cristianizar Aristóteles, ensina na Suma Teológica que a Teologia cumpre perfeitamente as exigências para ser chamada de ciência. Daí, se nos aprofundarmos na Escolástica, nos escritos dos Santos Padres, perceberemos sempre uma possante vontade investigativa. Não como Descartes, que não acreditava em algo antes de analisá-lo. O cristão, por dispor de uma Verdade revelada pelo próprio Deus, a estuda porque crê, sua fé não depende dos alcances do seu entendimento com relação ao mistério, e é anterior à investigação. Ela é a priori, como escreveu o Apóstolo: “crede e compreenderás”. Mas, casos não faltam de pessoas alheias à Verdade que, dotadas de sinceridade, passaram a crer firmemente em Deus, mesmo por força das evidências. Acredito eu que, por exemplo, quem se debruçar nas cinco vias de Sto Tomás de Aquino, ainda que sem fé, chegará a crer na divindade, mesmo que, então, esta não se identifique totalmente com o Deus pregado pela Igreja Católica. Mas, prosseguindo seus estudos, chegará lá, será acolhido no seio da Igreja e, então, poderá mergulhar de forma mais efetiva na infinita riqueza da qual a Igreja é a única dispensadora. Aqueles que, porém, se lançam ao feliz estudo das verdades da Fé, devem compreender que elas lhe ultrapassam infinitamente. A Teologia é então benéfica enquanto não assume a pretensão de poder encerrar o conhecimento sobre Deus. Ela deve reconhecer seus limites. É a partir daí, desta incapacidade de avançar determinadas alturas, que surge a chamada Teologia Apofática, assunto que não devemos tratar aqui. Mas... com tudo isto, percebemos que os mais alheiozinhos à Verdade e que lhe temem terrivelmente são, justamente, os que a acusam a Religião sem se dar ao trabalho de conhecê-la e, ouso dizer sem medo, que a acusam por não conhecê-la. De outro modo, teríamos de atribuir uma grande má intenção a estes críticos, o que infelizmente existe muitas vezes. Estas coisas, ditas assim, escandalizam alguns, mas eu não estou nem aí...

Verdade sem Deus não há. Conhecer esta Verdade sem a Igreja é ilusão...

O relativismo me xingaria. O subjetivismo me julgaria. E, enquanto isto, eu assobio tranquilamente...

Fábio Luciano

São Tarcísio e a Eucaristia

Um jovenzinho de doze anos, daqueles que servem ao Altar, esteve disposto a dar a vida por Cristo. Fazendo-se voluntário para levar o Santíssimo aos encarcerados cristãos, que seriam martirizados no dia seguinte, Tarcísio preferiu morrer a deixar que profanassem o Corpo do Senhor. Levava os Santos Mistérios numa caixinha de prata, encostada ao peito, e seguia com passo firme e decidido. Interrompido em seu caminho, permaneceu resoluto e não entregou a Eucaristia aos profanadores sendo, por isto, agredido e apedrejado. Morreu, então, como mártir, por amor à Fé, por amor ao Cristo, para não deixar que desonrassem o Corpo de seu Amado.

Tarcísio cumpre perfeitamente o Evangelho de Nosso Senhor, pois está escrito: “quem ama cumpriu toda a lei” e “ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida por seus amigos”. Este jovenzinho, de doze anos, lembra aquele outro, Domingos Sávio, que morreu com quinze, mas que, mais ou menos com a mesma idade de Tarcísio, assumiu como regra de sua vida o severo voto de “antes morrer que pecar”. E foi isto o que Tarcísio fez. Observando estas atitudes de profunda maturidade destes jovens, somos impelidos a ver nestes episódios o cumprimento das palavras do Senhor: “Estas coisas são reveladas aos pequenos e escondidas aos sábios” e ainda “deixai vir a mim as criancinhas”.

São Tarcísio, hoje, vem fazer-nos um grande apelo: o de não profanarmos o Corpo e o Sangue de Cristo e de defendermos a Sua honra com a nossa vida. Pede-nos para que nós mesmos não sejamos a causa de tanto sofrimento e humilhação para o Senhor. Nos escritos de S. Pe. Pio, numa de suas visões, Jesus aparece desfigurado e, diante da indiferença, da falta de fé e do desprezo pelo Santíssimo Sacramento, principalmente por parte de alguns padres, Ele afirma que sua agonia no Ghetsêmani se estenderá até o fim do mundo. De fato, quantas profanações, quantos desrespeitos, falta de zelo, falta de amor, indiferenças, falta de fé... Quantos maus tratos ao Amado de nossas almas. Conversas na Santa Missa, chicletes, roupas escandalosas, desobediência, desatenção, desprezo, desamor.

É urgente que se erga novamente nos corações, em especial dos jovens, um ardente amor pelo Corpo e o Sangue de Cristo. Zelo semelhante àquele do qual estava animado Elias ao dizer: “estou devorado de amor pelo Senhor Deus dos Exércitos”. Amor que ao escutar a sofrida pergunta de Jesus: “também vós quereis me abandonar?”, responda, como Pedro: “a quem iremos, Senhor, só Tu tens palavras de vida eterna”. É preciso que tenhamos corações eucarísticos, que sejamos homens e mulheres de vida centrada na Eucaristia, de assiduidade no Santo Sacrifício da Missa, e de respeito no trato com o sagrado. Como Moisés que precisou retirar as Sandálias na montanha santa, precisamos também despojar nosso coração e o oferecer, tal qual é, a Nosso Senhor.

Que São Tarcísio, assim como S. Domingos Sávio, e tantos outros que deram a vida por amor do Cristo, possam interceder por nós, a fim de que também nestes tempos existam jovens que ardam de amor pelo Cordeiro, que se prostrem diante do Seu Sacrifício, que comam a Sua Carne e bebam o Seu Sangue. Que a graça de Deus, vinda pelas mãos da Mãe do Verbo, possa nos dar corações humildes e simples, que honrem a Deus, que se consumam diante do Altar, que consolem a Jesus, que desagravem o seu Sacratíssimo Coração e que vivam deste Mistério. Que a Santa Missa seja o centro da nossa vida, que a Carne e o Sangue do Senhor sejam nosso alimento por excelência. Eis o Pão dos Fortes! Quem não O comer, não terá a vida.

Fábio Luciano

Conhece-te a ti mesmo em Deus


A expressão conhece-te a ti mesmo do Oráculo de Delphos, comumente atribuída a Sócrates, recebe uma grande importância e significação dentro do campo cristão. Os mestres do espírito sempre recomendaram largamente a prática deste mandamento. É a maiêutica cristã, presente em Santa Catarina de Sena, onde o “conhece-te a ti mesmo” vem sempre acompanhado do “em Deus”, sem o qual, o projeto se tornaria, enfim, impossível. Vejamos...

O Papa Bento XVI, num de seus discursos, afirmou que o que norteia a verdadeira compreensão do mundo e de todas as coisas é Deus. Sem Ele, o mundo e a realidade seriam um enigma indecifrável, exposto a toda e qualquer interpretação subjetiva e tendenciosa. Mas, se cremos que há uma verdade sobre as coisas, cremos também que há um caminho para se chegar até ela. Não podemos supor que para chegar numa determinada cidade, podemos trilhar por qualquer via que se nos apresente. Para um dado fim, um meio correspondente. Para se matar a fome, não se espera que alguém faça jejum ou vá correr numa pista. O meio correspondente para este fim seria o de se alimentar. Para alcançarmos a verdade, importa retirarmos todo o erro, e reconhecermos o que é real. Como nos diz S. Gregório de Nissa, o conhecimento da Verdade exige de nós, não somente reconhecer o certo, mas também, identificar o erro, mesmo que este venha mesclado de verdade. Pois bem, para fugirmos do subjetivismo, temos que afirmar uma realidade objetiva, que existe independentemente se alguém a encontra ou não. Eu não posso negar que exista uma plantinha no fundo de um rio só porque eu nunca a encontrei ou vi. Crendo ou não crendo, a plantinha está lá. Deus é o que sustenta o mundo e nEle se encerra o segredo de todas as coisas. Isto nos diz o Apóstolo S. João ao escrever: “no princípio era o Verbo, e o Verbo estava em Deus, e o Verbo era Deus. Por Ele tudo foi feito, e sem Ele, nada do que foi feito se fez”. E, se tudo recebe sua real significação à luz da divindade, diferentes não somos nós, pois João também diz: “E o Verbo era a luz dos homens”, sem falar que o “tudo” logicamente nos inclui.

Pois bem. Em toda a história do espírito, homens e mulheres reconheceram a necessidade (e não capricho) do conhecimento de si mesmo, mas tal conhecimento se torna impossível e viciado sem Deus. Deus nos formou, nos modelou, nos chamou à existência e nos sustenta nela. Desprezar este aspecto do papel fundamental da divindade na existência humana é uma mutilação formidável, sem falar que, sem Deus, não nos resta nada. Triste e ridícula a pretensão de quem se lança a interpretar as coisas, a partir de uma negligência do aspecto espiritual do ser humano. Estes são os “idiotas” que, uma vez que consideram somente aquilo que experimentam sensivelmente aqui, e não buscam suas bases ou seu termo, isto é, estão sempre no mesmo (idios – daí o “idiota”) superficial e aparente, caem no engano de si próprios e se distanciam de qualquer possibilidade de reto julgamento das coisas.

Deus diz a Santa Catarina de Sena para que nunca abandone a “Cela do auto-conhecimento”. São Francisco de Assis, durante uma de suas experiência, foi espionado por um irmão que o via repetir: “quem és Tu? Quem sou eu?”. Ao ser interrogado sobre o significado de tais palavras, afirmou que, naquele momento, estava recebendo dois lumes de contemplação: uma relacionada a Deus e sua Bondade Infinita, outra sobre ele mesmo e sua grande miséria. Todos os demais místicos (não preciso nem falar de S. João da Cruz, acredito, pra que não me achem tendencioso) afirmam a importância do auto-conhecimento. Durante a escada de ascensão até a união com Deus, a alma deverá passar pela experiência de se reconhecer como de fato é e perceber a própria pecaminosidade. Diante desta consideração real das coisas, aprenderá a ser humilde e não confiar em si mesma. E é justamente isto que ensina Sta Teresa D’Ávila, dizendo que a humildade é a verdade, porque ela nos permite ver quem somos realmente. Do perfeito conhecimento de si mesmo, provém uma virtude admirável: o perfeito desprezo de si mesmo. O verdadeiro e profundo amor a Deus não se dá sem este componente. É importante ressaltar que, juntamente com o conhecimento de si mesmo, Deus vai dando também o conhecimento dEle. Do primeiro provém o desprezo de si, e do segundo, o perfeito amor a Deus. Ainda, pelo desprezo de si mesmo, a alma, fazendo-se guerra, domar-se-á, tornando-se senhora de si. Este é o modelo de uma alma madura, que não cede às inclinações sensíveis das paixões, fazendo delas pouco caso. E, enfim, dona de si mesmo, poderá dar-se totalmente a quem ama.

Para que o conhecimento de si possa acontecer, convém dedicar-se a este fim, a partir da proximidade com Aquele que conhece-nos mais do que nós mesmos. Isto quer dizer que, para saber quem realmente somos, devemos nos procurar em Deus. Se assim não fazemos, corremos o risco de nos tornarmos pessoas diferentes do que somos, pessoas que nunca foram criadas por Deus e que, tornando-se inexistentes e estranhas a Deus, terão de ouvir, no último dia, um doloroso “não vos conheço”. Neste sentido, não tenho medo de duvidar da eficácia de certas espiritualidades puramente exteriores, seja no caráter social, seja no das “experiências sensíveis”. Embora de campos opostos, seguem a mesma orientação, a saber, a falta total de orientação. A grande diferença de espiritualidades é válida e querida por Deus, mas exige, se for autêntica, a plena identificação nos traços essenciais, e o conhecimento de si mesmo, acompanhado do desprezo de si mesmo, está em todas elas. O amor próprio sempre foi inimigo dos santos e dos cristãos. De onde, pois, surge esta história contemporânea de que uma pessoa tem que se amar? Será que veio realmente de Deus? Quais os frutos disso? Teria Deus mudado? Mas S. Paulo nos diz que Deus nunca muda, verdade reafirmada por Sta Teresa. O Apóstolo também nos adverte: “se alguém, mesmo que seja um anjo, vos anunciar um Evangelho diferente do que vos temos anunciado, que seja anátema”. Prefiro ficar com os Apóstolos, com os doutores e místicos e com os ensinamentos reais da Santa Igreja, do que com uma “espiritualidade da moda”, tão comum hoje em dia. Que, enfim, Deus nos ensine a amá-lo com verdade, sem fingimentos... Mas, como saber se realmente amamos a Deus, sem interesses? Conhece-te a ti mesmo, e só então, poderás ser sincero. Esta é a via. Mas, se queres enveredar por aí, prepara-te para não te apreciares e, portanto, prepara-te para ser livre.
Fábio Luciano

NÃO PERSEGUIR OS SACERDOTES

“Deus Pai a Santa Catarina de Sena”

“Os ministros são ungidos meus. A respeito deles diz a Escritura: “Não toqueis nos meus Cristos” (Sl 105, 15). Quem os punir cairá na maior infelicidade. Se me perguntares por que a culpa dos perseguidores da Santa Igreja é a maior de todas e, ainda, por que não se deve ter menor respeito pelos meus ministros por causa de seus defeitos, respondo-te: porque, em virtude do sangue por eles ministrado, toda reverência feita a eles, na realidade não atinge a eles, mas a mim. Não fosse assim, poderíeis ter para com eles o mesmo comportamento de praxe para com os demais homens. Quem vos obriga a respeitá-los é o ministério do sangue. Quando desejais receber os sacramentos, procurais meus ministros; não por eles mesmo, mas pelo poder que lhes dei. Se recusais fazê-lo, em caso de possibilidade, estais em perigo de condenação. A reverência é dada a mim e a meu Filho encarnado, que somos uma só coisa pela união da natureza divina com a humana. Mas também o desrespeito. Afirmo-te que devem ser respeitados pela autoridade que lhes dei, e por isso mesmo não podem ser ofendidos. Quem os ofende, a mim ofende. Disto a proibição: “Não quero que mãos humanas toquem nos meus cristos”!

Nem poderá alguém escusar-se, dizendo: “Não ofendo a santa Igreja nem me revolto contra ela; apenas sou contra os defeitos dos maus pastores”! Tal pessoa mente sobre a própria cabeça. O egoísmo a cegou e não vê. Aliás, vê; mas finge não enxergar, para abafar a voz da consciência. Ela compreende muito bem que está perseguindo o sangue do meu Filho e não os pastores. Nestas coisas, injúria ou ato de reverência dirigem-se a mim. Qualquer injúria: caçoadas, traições, afrontas. Já disse e repito: não quero que meus cristos sejam ofendidos. Somente eu devo puni-los, não outros. No entanto, homens ímpios continuam a revelar a irreverência que têm pelo sangue de Cristo, o pouco apreço que possuem pelo amado tesouro que deixei para a vida e santificação de suas almas. Não poderíeis ter recebido maior presente que o todo-Deus e todo-Homem como alimento. Cada vez que o conceito relativo aos meus ministros não coloca em mim sua principal justificativa, torna-se inconsistente e a pessoa neles vê somente muitos defeitos e pecados. Mas quando o respeito se fundamenta em mim, jamais desaparece, mesmo diante de defeitos nos ministros; como disse, a grandeza da eucaristia não é diminuída por causa dos pecados. A veneração pelos sacerdotes não pode cessar; se tal coisa acontecer, sinto-me ofendido.

São muitas as razões que fazem desta ofensa a mais grave. Vou lembrar apenas três. A primeira, é porque os perseguidores agem contra mim em tudo o que fazem em oposição aos meus ministros. A segunda, é porque desobedecem àquela ordem pela qual proibi que meus sacerdotes fossem tocados. Ao persegui-los, os homens desprezam a riqueza do sangue de Cristo recebida no batismo. Desrespeitando o sangue de Jesus e perseguindo os ministros, rebelam-se e tornam-se membros apodrecidos, separados da hierarquia eclesiástica. Caso venham a morrer obstinados em tal revolta e desrespeito, irão para a condenação eterna. Se reconhecerem a própria culpa na última hora, humilhando-se e desejando a reconciliação, mesmo que não o consigam fazer exteriormente, serão perdoados. Mas não devem esperar pelo momento da morte, pois será incerto o próprio arrependimento. A terceira razão, pelo qual este pecado é o mais grave, está no seguinte: é falta maldosa e deliberada. Os perseguidores têm consciência de que o não devem cometer, sabem que vão pecar; cometem um ato de orgulho, em que não entram atrações sensíveis, muito pelo contrário. Tais pecadores arriscam a alma e o corpo: a alma, privando-se da graça, muitas vezes em meio a remorsos da consciência; o corpo, gastando seus bens a serviço do diabo e indo morrer como animais.”

Trecho do livro “O Diálogo” - Santa Catarina de Sena

Decretum Contra Communismum

Comunistas fuzilam a imagem do Sagrado Coração



Papa Pio XII Decreto do Santo Ofício de 1949


Q. 1 Utrum licitum sit, partibus communistarum nomen dare vel eisdem favorem praestare.
[Acaso é lícito dar o nome ou prestar favor aos partidos comunistas?]

R. Negative: Communismum enim est materialisticus et antichristianus; communistarum autem duces, etsi verbis quandoque profitentur se religionem non oppugnare, se tamen, sive doctrina sive actione, Deo veraeque religioni et Ecclesia Christi sere infensos esse ostendunt.


Q. 2 Utrum licitum sit edere, propagare vel legere libros, periodica, diaria vel folia, qual doctrine vel actioni communistarum patrocinantur, vel in eis scribere.
[Acaso é lícito publicar, propagar ou ler livros, diários ou folhas que defendam a ação ou a doutrina dos comunistas, ou escrever nelas?]

R. Negative: Prohibentur enim ipso iure


Q. 3 Utrum Christifideles, qui actus, de quibus in n.1 et 2, scienter et libere posuerint, ad sacramenta admitti possint.
[Se os cristãos que realizarem concientemente e livremente, as ações conforme os n°s 1 e 2 podem ser admitidos aos sacramentos?]

R. Negative, secundum ordinaria principia de sacramentis denegandis iis, Qui non sunt dispositi

Q. 4 Utrum Christifideles, Qui communistarum doctrinam materialisticam et anti Christianam profitentur, et in primis, Qui eam defendunt vel propagant, ipso facto, tamquan apostatae a fide catholica, incurrant in excommunicationem speciali modo Sedi Apostolicae reservatam.
[Se os fiéis de Cristo, que declaram abertamente a doutrina materialista e anticristã dos comunistas, e, principalmente, a defendam ou a propagam, "ipso facto" caem em excomunhão ("speciali modo") reservada à Sé Apostólica?]

R. Affirmative

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Comentários


Deste modo todos os católicos que votarem (é uma espécie de prestar favor) ou se filiarem em partidos comunistas, escreverem livros filo-comunistas, ou revistas estão excluídos dos sacramentos.
Os que defenderem, propagarem ou declararem o materialismo dos comunistas também estão excomungados automaticamente.

Esse decreto do Santo Ofício de Pio XII, que foi confirmado por João XXIII em 1959, continua válido. Aliás, Pio XII trabalhou pessoalmente contra o comunismo na Itália.

Tal condenação do comunismo se soma às condenações feitas por Pio IX, Leão XIII, São Pio X, Pio XI, Pio XII (ele também condenou em outras oportunidades), João XXIII, Paulo VI, Concílio Vaticano II (reiterou as condenações precedentes) e João Paulo II.

Faz mais de cem anos que a Igreja Católica condena o comunismo, socialismo e qualquer tipo de materialismo e igualdade material. A pena para os que desobedecem a proibição de ajudar o comunismo (ou suas variantes) sob qualquer aspecto (incluindo a votação nos partidos filo-comunistas) é a excomunhão automática.

"Socialismo religioso, socialismo cristão, são termos contraditórios: ninguém pode ao mesmo tempo ser bom católico e socialista verdadeiro" (Pio XI)

Papa Pio XII - "Decretum Contra Communismum" MONTFORT Associação Culturalhttp://www.montfort.org.br/index.php?secao=documentos&subsecao=decretos&artigo=anticomunismo&lang=bra Online, 25/07/2008 às 21:28h

A Teologia da Cruz em São Paulo


“Pois não foi para batizar que Cristo me enviou, mas para anunciar o evangelho, sem recorrer à sabedoria da linguagem, a fim de que não se torne inútil a cruz de Cristo. Com efeito, a linguagem da cruz é loucura para aquees que se perdem, mas para aqueles que se salvam, para nós, é poder de Deus (...). Os judeus pedem sinais, e os gregos andam em busca de sabedoria; nós, porém, anunciamos Cristo crucificado, que para os judeus é escândalo, para os gentios é loucura, mas para aqueles que são chamados – tanto judeus como gregos – é Cristo, poder de Deus e sabedoria de Deus. Pois o que é loucura de Deus é mais sábio do que os homens, e o que é fraqueza de Deus é mais forte do que os homens”.

A doutrina da cruz é o evangelho de Paulo, a mensagem que ele prega a judeus e pagãos. É um testemunho simples por natureza, destituído de qualquer retórica e que não procura convencer por razões intelectuais. Toda força provém da doutrina em si – a própria cruz de Cristo, ou seja, a morte de Cristo na cruz e o Cristo crucificado. Ele mesmo é o poder e a sabedoria de Deus; não somente o enviado de Deus, Filho de Deus e Deus, ele próprio, mas também o Crucificado. Porque a morte na cruz é meio de redenção, fruto da insondável sabedoria de Deus. Para mostrar que a força e a sabedoria humanas são incapazes de realizar a Redenção, Deus dá o poder redentor àquele que, segundo o critério humano, parece fraco e louco, que não deseja ser nada por si próprio, mas tudo pela força de Deus e que “aniquilou-se a si mesmo... tornando-se obediente até a morte, e morte de cruz”. Entende-se por força redentora o poder de ressuscitar aqueles que, pelo pecado, morreram para a vida em Deus. A força redentora foi conferida ao Verbo, na cruz, e estende-se a todos os que acolhem o Verbo de coração aberto, sem exigir milagres ou argumentos intelectuais de sabedoria humana. Em tais almas, o Verbo, na cruz, torna-se a força vitalizante e formadora que denominamos ciência da cruz, na qual são Paulo tornou-se mestre:

“De fato, pela Lei eu morri para a Lei, a fim de viver para Deus. Fui crucificado junto com Cristo. Já não sou eu quem vivo, mas é Cristo que vive em mim. Minha vida presente na carne, eu a vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e se entregou a si mesmo por mim”.

Nos dias em que tudo ao seu redor fez-se noite e só a alma continuava a viver na claridade da luz, são Paulo, o zeloso observante da Lei, compreendeu que a Lei somente serve de guia e indicador para Cristo. Esta, quando muito, poderia nos preparar para receber a vida; não, porém, comunica-la. Cristo assumiu o jugo da Lei, cumprindo-a fielmente e morrendo por ela e para ela. Assim isentou da Lei todos os que querem receber a vida. Mas essa vida há de ser alcançada em troca do sacrifício da própria vida, porque todos os batizados em Jesus Cristo foram batizados em sua morte. Os que mergulham na vida de Cristo hão de se tornar membros do seu corpo, a fim de com ele sofrer e morrer e, também com ele, ressurgir para a vida eterna em Deus. Esta vida nos será dada em plenitude somente no dia de sua Glória. Mas participamos desde já – “na carne” – desta vida, enquanto cremos: ou seja, crer que Cristo morreu por nós para dar-nos a vida. É esta a fé que nos une a ela como membros à cabeça, e que nos abre para receber sua vida. Assim é, portanto, a fé no Crucificado – a fé viva, com entrega de amor – para nós o acesso à vida e o início da Glória futura.

Desta forma, a cruz é o nosso único título de glória: “Quanto a mim, não aconteça gloriar-me senão na cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo, por quem o mundo está crucificado para mim e eu para o mundo”. Quem se decidiu por Cristo morreu para o mundo e este para ele, e traz no seu corpo os estigmas do Senhor Jesus, tornou-se fraco e desprezado pelos homens e, contudo, forte, porque o poder de Deus se manifesta na fraqueza. Assim o discípulo de Cristo não somente aceita a cruz, mas também se crucifica, “pois os que são de Jesus Cristo crucificaram a carne com suas paixões e seus desejos”. Travaram luta feroz contra as inclinações da natureza para que o pecado morresse neles e desse lugar à vida do Espírito. Esta última é o que importa: a cruz não é um fim em si mesma. Ela se ergue e aponta para o alto. Não é somente sinal, é a arma forte de Cristo. É a vara do pastor, com que o Davi divino vai de encontro ao Golias das trevas e com a qual o golpeia, abrindo a porta do céu. E a torrente da luz divina transbordará, envolvendo a todos os que formam o séqüito do Cristo crucificado.

Edith Stein (Santa Teresa Benedita da Cruz), A Ciência da Cruz.

A doutrina da Cruz por São João da Cruz


“Quão estreita é a porta e apertado o caminho que conduz à vida. Poucos são os que o encontram”. Devemos observar bem a ênfase dada à partícula “quão”, pois é como se dissesse “na verdade é muito estreita, mais do que podeis imaginar...” Essa via ao alto monte da perfeição exige viajantes que não levem fardos que os façam pender para baixo... Já que se tem o propósito de somente buscar e alcançar a Deus, somente a ele se há de buscar e alcançar e fato! Instruindo-nos e incitando-nos nesse caminho, Jesus Cristo proferiu essa doutrina tão admirável e, receio dizer, tanto menos praticada pelas almas (que se sentem atraídas à vida espiritual) quanto mais necessária!

“Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me. Pois aquele que quiser salvar a sua vida, irá perdê-la;mas o que perder a sua vida por causa de mim e do evangelho, irá salvá-la”.

Oh! Quem poderia aqui agora dar a entender, praticar e saborear este conselho!... aniquilação de toda suavidade em Deus... aridez... tédio... sofrimentos... eis a pura cruz espiritual e a nudez do espírito pobre, segundo Jesus. O verdadeiro espírito antes procura em Deus a amargura que as delícias, prefere o sofrimento ao consolo, a privação ao gozo, a aridez e as aflições às doces comunicações celestes, sabendo que isto é seguir a Cristo e renunciar-se. Agir de outro modo é buscar-se a si mesmo em Deus, o que é muito contrário ao amor. Buscar a Deus nele mesmo... é inclinar-se a escolher, por amor a Cristo, tudo quanto há de mais áspero, seja de Deus, seja do mundo”. A renúncia, segundo a vontade divina, consiste em “morrer para sua natureza... aniquilando-a... em tudo quanto a vontade julga ser valioso na ordem temporal, natural e espiritual... Quem assim tomar a cruz sobre si experimentará o jugo suave e o fardo leve, encontrando em todas as coisas grande alívio e suavidade. ... Quando a alma ficar desfeita em nada – isto é, a suprema humildade – estará realizada a união espiritual entre a alma e Deus... união que consiste numa viva morte de cruz, sensitiva e espiritual, interior e exterior”.

São João da Cruz por Edith Stein (Sta Teresa Benedita da Cruz) em A Ciência da Cruz.

Em favor dos que "rezam demais"

É comum que muitos "cristãos" condenem aqueles que eles julgam estar errados. E, além do fato de que julgar não é um ato conveniente para um cristão, torna-se ainda mais ridículo quando motivado por um achismo, uma suposição muitas vezes herética que inverte o real sentido da Verdade. Há pessoas que, sem saber, movidas por ideais marxistas e pela heresia da moda, a Teologia da Libertação, passam a somente conceber um cristianismo puramente social, desprovido de qualquer mística e puramente externo. Interessante... Alguns são acusados de que rezam demais, mas... ironicamente, Cristo repreende a Marta que queria a ajuda de sua irmã em seus afazeres domésticos. Maria, muito mais aprofundada no mistério, estava aos pés de Jesus, ouvindo-o silenciosamente. Cristo diz, então, a Marta: "Ela escolheu a melhor parte e esta não lhe será tirada". É uma pena ver que muitos invertem os valores e enxugam o catolicismo de sua espiritualidade, assumindo ideais socialistas. "Nem só de pão vive o homem". Interessante ainda que aquilo que mais é essencial (a oração) é tido como perda de tempo. Estes que fazem estas críticas infundadas, baseadas em pouca ou nenhuma orientação doutrinária, catequética, teológica, se assemelham a alguém que somente reconheça a utilidade dos pés, porque mais sensíveis à constatação aparente, e critique o coração, porque ninguém lhe vê, sendo este mais essencial à sobrevivência. Percebemos já, por este exemplo, o quão míopes são estes que colocam o social acima do espiritual; cegos por uma vaidade de pretender saber o que deve ser feito, mais do que o sabe a Santa Igreja, lançam-se em suas errôneas convicções, condenando os que não partilham de suas asneiras e disparates. Ora, façam-me o favor. O aspecto social é sim muito importante, mas não é o foco. Antes, como diz a Santa Igreja, a ação deve submeter-se à contemplação. É daí que ela tira sua eficácia. Alguém que queira mudar o mundo ou a realidade social sem oração, além de demonstrar imensíssima vaidade por querer tornar-se o centro da "revolução", age como alguém que passasse meses inteiros a fio querendo esvaziar o mar. Sua cegueira não lhe deixa ver a própria insignificância, o próprio nada. Esta famosa heresia de hoje age justamente assim, dando de novo ao ser humano uma suposição de onipotência, de querer ser igual a Deus (a estratégia é sempre a mesma; assim foi com Adão) e distrair-lhe de sua miséria.

Mas, estes hereges disfarçados de católicos existem desde o tempo de Jesus. Vemos, por exemplo, Judas censurando a mulher que derrama perfume caríssimo na cabeça de Cristo. Na visão do traidor, que encontra-se alheio ao verdadeiro amor, embora conviva com Jesus, ela poderia e deveria ter vendido o perfume caro e dado o dinheiro aos pobres. Mesmo que seu interesse pelos pobres fosse sincero, ainda seria prova de que ele não havia compreendido bem aquele ato. Não é correto trocar o Criador pelo criado, assim como constitui idolatria faltar à Santa Missa por outro serviço, considerado mais importante, seja de formação, de um ato de caridade, etc... Mas, acontece que a proposta de Judas era só fachada, como o é, muitas vezes, essas propostas de pseudo-revolução que se organizam por aí por pseudo-católicos desprovidos de espiritualidade. Cristo, diante daquele gesto profundo de amor, diz: "Em todo lugar em que for pregado este Evangelho, este ato lhe será conhecido em sua memória". O homem que não reza deixa-se enganar pela aparência. Considera que apenas o ato visível é verdadeiramente cristão. Não é de estranhar, então, que alguns sejam tão frios à Santa Missa, culto supremo de adoração...

Quero deixar escrito aqui a grande verdade testemunhada por S. José Maria Escrivá: "Em primeiro lugar, oração; em segundo lugar, expiação; em terceiro lugar, muito em terceiro lugar, ação". De Santa Teresa D'Ávila: "A oração é a vida da alma". De S. João da Cruz: "Deus espera de ti muito mais um ato de submissão e humildade do que todos estes atos que pensas prestar-lhe". De Santo Afonso: “quem não reza se condena”. Outro santo também já havia escrito: "Assistir devotamente a uma Santa Missa é mais valoroso para Deus do que fazer peregrinações por toda a terra". Um outro ainda diz: "Um ato de amor contemplativo é muito mais valioso do que uma ação, pra alma, pra Deus e para toda a Igreja". Interessante que, diante do nardo derramado, o Apóstolo afirma: "O perfume encheu toda a casa", ou seja, a casa, que é a Igreja, foi muito mais beneficiada dessa forma do que por uma atitude social, talvez hipócrita, mas aparentemente heróica. Estes que hoje pregam contra a oração e a colocam em segundo plano desmerecem a Tradição da Igreja, distanciam-se do próprio Cristo, manipulam alguns textos do Evangelho segundo seus interesses estranhos, desmerecem tantas ordens monásticas e homens de solidão que ajudam a sustentar a Igreja com suas orações e, ainda, revelam pouco interesse real de conversão.

Uma tal mudança social provocada por pessoas que não se mudam a si mesmas só pode provocar o riso. "Buscai o Reino de Deus e tudo o mais vos será acrescentado". A verdadeira mudança é consequência da verdadeira santidade, da verdadeira ação de Deus no homem que, sabendo-se miserável e impotente, confia somente em Deus que o conforta. Só aquele que se humilha será exaltado. Seguir a Cristo à força de achismos pessoais não é algo interessante de se fazer. Afinal, este é o motivo da existência de tantos hereges e fundadores de denominações religiosas, as mais estranhas...

A verdadeira Igreja Católica tem como ponto mais alto a Celebração Eucarística, o Mistério dos mistérios, onde o Cristo se dá, onde se revive o Sacríficio cruento da cruz de forma incruenta; onde Cristo se entrega como verdadeira comida e bebida, condição para a Salvação. Se o cristão despreza estes mistérios, como dizia Deus Pai a Santa Catarina de Sena, até os demônios sentem asco deste "cristão".

Interessante que em Fátima, para controlar a guerra, N. Senhora não pede que os pastores organizem revoluções ou atos sociais. O que ela pede? Que rezem o terço.
Um cristão que não conhece a supremacia da oração sobre a ação, de cristão só tem o nome.
Mais uma vez, quero afirmar que o caráter social é realmente necessário e muito útil, mas só é sadio e equilibrado, quando fundamentado na oração.

"Muitos daqueles que se dizem amigos de Jesus, de fato, muito pouco o conhecem, pois fogem de imitá-lo, de renunciar a si mesmos, de seguir o caminho da cruz e de renunciar os prazeres por amor a Cristo"... (S. João da Cruz)
O que diria então daqueles que nem rezam, inventando um Jesus socialista? kkkk... De Jesus, só conhecem o nome...

Enfim, quem dera que rezássemos demais! A nossa realidade seria outra! A nossa visão seria outra! A nossa ação seria muito mais eficaz, como a de S. Francisco que, somente ao andar pelas ruas, convertia corações... Não nos enganemos. Em primeiro lugar é preciso muita oração. A Igreja é, a princípio, contemplação, união e proximidade com Cristo, é estar sentado quieto e submisso aos Seus pés para Lhe ouvir e aprender a Verdade que é única e absoluta, e não dúbia e subjetiva... "O homem que confia em si mesmo é pior do que o demônio" (S. João da Cruz). É preciso submissão à Santa Igreja, obediência e reta formação! Que Cristo nos ajude a caminhar segundo a Sua Santa Vontade, ensinando-nos a derramar sempre este nardo, caríssimo e puro, somente nEle, este nardo que é o nosso amor; desperdicemos somente com Ele e, só então, o perfume encherá toda a casa.

Fábio Luciano Silvério da Silva

Sobre a Interpretação da Sagrada Escritura

Deus se comunica a todos os homens, desde tempos remotos, além de outras fontes, pela Sagrada Escritura. É certo que todos os seus autores, embora dotados de um estilo próprio e envolvidos dentro de um contexto cultural, escreviam, no entanto, sob a ação do Espírito Santo. E, embora haja na Bíblia algumas inexatidões históricas, há, porém, perfeição em seu sentido espiritual. Naquilo que a Bíblia se propõe expressar, ela é infalível. Nisto consiste o dogma da "Inerrância Bíblica". Portanto, qualquer que seja o texto, seu sentido espiritual é verdadeiro, profundo e, mesmo, atual.

É necessário, porém, não se lançar a fazer qualquer interpretação imediata da Bíblia. É claro que existem trechos mais simples, se bem que profundos; mas também há outros em que é preciso orientar-se. O erro de querer interpretar a Bíblia por si mesmo é, em si, a causa de tantas heresias e movimentos não católicos no decorrer da História. Ora, se Deus se propôs revelar-se, Ele o fez e confiou os sagrados ensinamentos e a reta interpretação à Sua Igreja. Alguns, afirmando que o estilo dos escritores é simples, lançam-se a qualquer conclusão precipitada da Sagrada Escritura; confundem simples com simplório. Em verdade Cristo deseja que haja ordem e submissão. Uma prova de que nem todos podem compreender, à primeira vista, o reto ensinamento cristão é que Jesus, antes de ressuscitar Lázaro, reza a Seu Pai nestes termos: "dou-te graças, Pai, porque escondes estas coisas aos soberbos e as revelas aos humildes". Desta forma, já sabemos que a simples presunção humana não alcança, não mergulha na substância das Escrituras. É aos simples que é revelado o Mistério. No entanto, não quer isto significar que não se deva ter o estudo devido, que não se deva preparar-se intelectualmente. Desta forma, cairíamos no "fideísmo", doutrina já condenada por João Paulo II, que consiste em propor uma Fé que despreze a razão. Não é disto que Cristo fala; aliás, há mesmo quem, por um pretexto de utilizar a virtude da pobreza, não se prepare intelectualmente, negligencie os estudos. Nada mais errado. A estes, lanço a ordem de S. José Maria Escrivá: "Se puder ser sábio, não te permito que não o seja". O que Cristo quer ensinar é que desde os ignaros aos mais intelectuais, todos devem revestir-se de santa humildade diante dos mistérios do Eterno, reconhecendo que estes os ultrapassa ao infinito. Só assim, o homem se porá à disposição de ser ensinado. Apenas que senta humildemente aos pés do Mestre e O escuta com quietude e humildade, poderá ser ensinado. Mas... Aqui ainda reside um risco: acreditar-se desprovido de orgulho e bem intencionado e partir para a interpretação pessoal da Bíblia. É preciso submeter-se; textos há em que pode haver dúvida. Nestes momentos, sinal de humildade é reconhecer que a Igreja é Mãe e Mestra em Fé e Moral, e saber dela o que o texto significa. Sobre a livre interpretação da Bíblia, S. Pedro já a condenada em uma de suas cartas: "A Sagrada Escritura não está aberta à livre interpretação". Em outro texto, Pedro adverte a alguns discípulos que não se apressem a interpretar erroneamente os textos de Paulo, pela sua complexidade. Pedro afirma que, embora os textos em si sejam úteis, podem constituir perigo para os que os interpretem a seu modo particular, sem recorrer a uma reta orientação. O próprio Cristo, interrogado por seus discípulos sobre o porque de se expressar por meio de palavras, responde: "Para que olhem e não vejam; ouçam e não compreendam". Ora, isto não quer dizer que seus ouvintes não tenham feito suas próprias conclusões, mas antes, que tais conclusões não se identificavam com a Verdade única e absoluta. Só aos amigos são revelados os segredos do Céu. Podemos provar mesmo pelos efeitos desta presunção de confiar na própria interpretação sem se submeter à experiência e infabilidade da Igreja o quanto é perigoso e o quanto isto pode distanciar de Deus e da reta verdade. Aliás, todos os mestres do passado estranhariam esta forma de religiosidade onde o discípulo forma-se a si mesmo sem submeter-se a um mestre; no máximo, ririam de certas denominações... Se o Espírito é um e unifica, se Deus é absoluto e não se contradiz, prova é de não ser de Deus as imensas contradições destas denominações outras. Nelas muitas formas há de interpretar um mesmo texto; aliás, a oferta é numerosa; no entanto, Cristo é apenas um e Sua Verdade não é dúbia. Se há, por isto, tantas versões de interpretações, isto quer significar que, com excessão da Verdadeira, todas as demais são falsas. De fato, como dizia o Apóstolo Paulo: "Não há comunhão entre a luz e as trevas". S. Francisco também já afirmava: "quando a bandeira da Verdade ergue-se, todas as demais têm que ceder". É preciso, por isto, para que se possa verdadeiramente compreender os mistérios do Cristo, submeter-se à Sua Amada Esposa, a Igreja. A ela, e somente a ela ao Amado quis revelar-se. De fato, que Esposo seria infiel à sua Esposa? Não caiamos neste erro de querer saber sem mestres. Isto não quer dizer que não possamos ler a Bíblia particularmente; podemos e devemos. Mas, devemos também conhecer a reta e perfeita doutrina da Igreja, para que não corramos o risco de cair em heresia, e ter a humildade de, diante de um texto difícil, perguntar a alguém mais experiente e confiável. Chega de RR. Soares, Edir Macedo, Silas Malafaia, Ellen White e seus disparates! Queiramos Cristo inteiro, na Igreja que Ele mesmo instituiu firmada sobre Pedro e os Apóstolos e sobre a qual as portas do inferno nunca prevalecerão. Que assim seja, Amém.
Fábio Luciano

A Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem


Os que quiserem se consagrar à Virgem Santíssima pelo Método de S. Luís Maria Grignion de Montfort devem primeiramente ler a obra deste santo entitulada O Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem. Nele, o leitor há de entender a seriedade da consagração, o papel fundamental e necessário que a devoção a Nossa Senhora tem na vida cristã autêntica e a sua particular importância nos últimos tempos. Neste livro, o leitor poderá ainda corrigir a sua devoção à Virgem e ter respondidas possíveis objeções feitas a esta prática, já que vivemos num mundo impregnado de protestantismo. Já no final do livro, o santo ensina o modo de se preparar para a consagração, que é de 33 dias, e as obrigações diárias dos que se consagraram, chamados agora de Escravos Perpétuos de Jesus por Maria.


Exemplos de alguns santos que foram escravos de Maria por este método: São João Maria Vianney (Cura D'ars), São João Bosco, São Domingos Sávio, Sta Teresinha de Lisieux, Santa Gema Galgani, S. Pio de Pietrelcina, S. Pio X, Sto Antônio de Santana Galvão e ainda o bem-aventurado Papa João Paulo II.

Importa, ainda, saber que esta devoção não foi inventada por S. Luís Maria Grignion de Montfort. Na verdade, ela remonta aos primeiros séculos do cristianismo, mas foi a partir deste santo que ela se tornou mais conhecida e ganhou uma exposição mais sistemática.

Lema dos Consagrados: 
Totus tuus, Mariae, et omnia mea tua sunt 
Sou todo teu, Maria, e tudo quanto tenho vos pertence.

Recomendamos comprar o livro. Mas ele também pode ser baixado clicando na figura acima. Salve Maria Santíssima!

Grupo de Resgate Anjos de Adoração - GRAA
"Gira o mundo, mas a cruz permanece firme" (Lema dos monges Cartuxos)
"Quem quiser seguir a Cristo, não o busque sem a cruz" (S. João da Cruz)



Na Santa Missa nós tocamos em Jesus, comemos a Sua Carne e bebemos o Seu Sangue...

Quem tudo perde, ganha a alegria

Nada mais tenho; por isso tenho alegria...
Nada mais que pese em meus bolsos e me prenda à terra,
Nada mais que, prendendo-me ao solo, me impeça de saltar até as estrelas.
Sou livre como água que corre e o vento que passa.
Quem perde tudo, ganha ainda; e quem perde a si mesmo, encontra a alegria.
Nada mais tenho; identifico-me, por isso, com a alegria...

Perdi todo o musgo que se agarrava à minha identidade, e minha própria identidade.
Já não sou eu mesmo, pois sou Cristo!
Mas sendo Cristo, sou a Alegria.
Minha alegria é para Deus e eu sou para Deus.
Minha alegria é ligada a Deus e eu estou unido a Deus.
Minha alegria e eu pertencemos a Deus.
Ninguém me tirará.
Se queres arrebatar minha alegria, vem tomá-la das mãos de Deus!

Pe. Joseph Folliet (1903-1972), fundador dos "Companheiros de Francisco"

A alma de Cristo na Eucaristia


A alma e a divindade de Jesus não estão simplesmente em segundo plano, de maneira latente, inerte e mais ou menos abstrata. Neste sacramento do seu amor, Cristo está presente com todas as suas potências e capacidades dispostas a agir e operar com todas as ações e ‘paixões’ (no sentido metafísico) que pertencem à sua vida glorificada, no céu. Há somente uma exceção a assinalar. Desde que o Corpo de Jesus não está em relação com a realidade material por contato de dimensões quantitativas, neste Sacramento Ele não exerce suas faculdades sensitivas, pelo menos de um modo natural. Não nos vê com os olhos corporais. Mas, afinal, não necessita faze-lo, pois que a visão divina que possui, ilumina-lhe a mente com um conhecimento de todos nós muito mais profundo e íntimo do que possamos imaginar.

No tabernáculo, Cristo nos vê e nos conhece de maneira muito mais nítida do que nos vemos a nós mesmos. O conhecimento que de nós existe no Cristo sacramentado, que recebemos na comunhão, é um conhecimento que Ele já possui das próprias profundezas do nosso ser. Portanto, Jesus no SS. Sacramento não nos perscruta examinando-nos friamente como se fôssemos objetos, seres dele muito remotos, conservando ainda alguns traços enigmáticos. Conhece-ns em Si mesmo, como seus ‘outro eu’. Conhece-nos subjetivamente como se fôssemos uma extensão – o que de fato somos – da sua própria Pessoa. Esse conhecimento por identidade é o que vem, não apenas da ciência, mas do amor. A psicologia moderna forjou a palavra ‘empatia’. É o conhecimento que se tem de outro ‘por dentro’, por uma simpatia que se projeta e vive as experiências desse outro tais quais se lhe apresentam. Mas essa empatia humana é, ainda, algo de incerto e remoto que não consegue vencer a distância que existe entre dois espíritos distintos. A ‘empatia’ de que somos alvo por parte de Cristo, com a qual Ele nos compreende, procede das profundezas do nosso próprio ser e é tão profunda que, se quisermos saber a verdade a nosso respeito, temos de procurá-la nEle no momento da santa comunhão. Pois Cristo é o nosso mais profundo e íntimo ‘ser’, nosso ser mais alto, nosso novo ser como filhos de Deus. É isso que significa para nós dizer com S. Paulo: “viver para mim é Cristo” (Filip 1, 21). A paz que desabrocha nas profundezas de nossa alma, o silêncio espiritual, o repouso, a segurança e a certeza que recebemos na comunhão com a consciência da presença dEle é um sinal de que abrimos a porta que dá acesso ao santuário íntimo do nosso ser, o lugar secreto onde nos unimos a Deus. É este o ‘aposento’ no qual devemos entrar quando oramos ao Pai em segredo (Mt 6, 6). Na verdade, só aquele que nos ensinou que esse é o lugar onde devemos nos retirar pra orar é quem no-lo pode abrir.

Aos olhos humanos, o Cristo no SS. Sacramento pode parecer inerte e passivo. Contudo, é Ele quem nos chama à comunhão pela ação das inspirações interiores e secretas, porque sabe que precisamos desse alimento místico. Quando recebemos a sagrada hóstia é não só porque temos o desejo de receber a Cristo, mas também, e sobretudo, porque Ele, neste Sacramento, deseja dar-se a nós. Nas palavras de Santo Ambrósio: “vieste ao altar? É o Senhor Jesus que te chama...dizendo-te ‘Deixai-o beijar com um beijo de sua boca’”... Ele te vê livre de pecados, pois foram apagados. Portanto, julga-te digno dos sacramentos celestes e por isso te convida ao banquete celestial.

A caridade de Cristo que lhe impulsiona a vontade, oculta na santa Eucaristia, é o mesmo infinito amor que tem por todos os homens e que os atrai pela graça do Espírito Santo, à união com o Pai no Filho. Esse amor, dizemo-lo mais uma vez, não é apenas caridade universal que abraça a todos, sem exceção, mas atinge igualmente a cada um no inescrutável ocultamento da sua própria e singular individualidade. Assim como Cristo me amou e se entregou por mim (Gál 2, 20), assim, também Ele me ama e vem a mim no SS. Sacramento. Quando se vê unido a mim na comunhão, de modo algum se admira de saber que sou um pecador. Já o sabia; e me amou tal qual sou. Vem a mim porque é sempre o amigo, o refúgio e o Salvador dos pecadores. De minha parte, devo fazer todo o possível para corresponder ao seu amor, mesmo se não sou digno desse amor. E o melhor modo de a Ele corresponder é crer na sua inexprimível realidade e agir de acordo com minha crença.

Neste Sacramento, o Amor de Cristo aumenta a nossa capacidade de receber a graça e nos move a produzir atos de uma caridade mais fervorosa e espiritual. É por uma moção da vontade de Cristo que recebemos o Espírito Santo que, como diz Scheeben, é o fogo espiritual que prorrompe, com ímpeto, do Cordeiro imolado, na Eucaristia. Temos aqui alguns textos em que esse grande teólogo do Séc XIX nos dá a própria medula da doutrina dos santos padres.

“No estado glorioso em que se acha, o Corpo de Cristo é, por assim dizer, o trigo que vive pelo poder do Espírito Santo; na Eucaristia é o pão cozido pelo fogo do Espírito Santo, por onde esse divino Espírito confere a vida a outros. A Carne de Cristo dá vida... pelo Espírito, energia divina que nela reside. “A carne do Senhor é espírito vivificante”, diz stº Atanásio...”porque foi concebido por Espírito Vivificador. Aquilo que nasce do Espírito é espírito...” Ora, o Cordeiro de Deus, imolado desde o princípio do mundo ante os olhos de Deus, se deve manter diante de Deus como eterno holocausto ardendo no fogo do Espírito.”

A vontade humana de Cristo, Salvador do mundo, perfeitamente unido para sempre à vontade de Deus Pai neste sacrifício, produz cada movimento pelo qual o Espírito Santo procede no íntimo de nossos corações atraindo-nos à união com o Logos. Por sua vez, o Espírito desperta em nosso coração uma profunda e mística correspondência à ação do Verbo Encarnado que recebemos na comunhão. O Espírito Santo nos revela a realidade da presença de Cristo e a imensidão do Seu amor por nós. O Espírito Santo abre o ouvido secreto, íntimo, do nosso espírito de maneira que possamos distinguir os puros acentos da voz de Cristo, o Homem Deus, que fala no interior de nossas almas, que uniu tão intimamente à Sua. E, por nossa correspondência a essa moção do Espírito de Deus enviado aos nossos corações pela ação do amor pessoal de Cristo por nós, unimos plenamente a nossa vontade à dEle, nosso coração ao Seu Sagrado Coração e nos tornamos ‘um espírito’ com Ele, conforme a palavra de S. Paulo: “Aquele que está unido ao Senhor é um espírito com Ele” (1 Cor 6, 17). O Pai, então, ao nos contemplar não vê senão a Cristo, Seu Filho muito amado no qual põe as Suas complacências.

Thomas Merton, O Pão Vivo.
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