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Cristo e Barrabás


Bento XVI

O reino de Cristo é algo completamente diferente dos reinos da terra e do seu esplendor que Satanás apresenta. Este esplendor, como a palavra grega doxa diz, é aparência que se dissolve. Tal esplendor, Cristo não tem. O seu cresce através da humildade da pregação naqueles que se deixam fazer seus discípulos, que são batizados no nome da Santíssima Trindade e que guardam os seus mandamentos (Mt 28, 19s).

Mas voltemos à (terceira) tentação. O seu verdadeiro conteúdo torna-se visível se considerarmos as novas formas que assume constantemente ao longo da história. O império cristão tentou fazer da fé um fator político da unidade do Império. o reino de Cristo deve então receber a forma e o esplendor de um reino político. A impotência da fé, a impotência terrena de Jesus Cristo deve ser ajudada pelo poder político e militar. Em todos os séculos ressurgiu sempre, e em múltiplas formas, esta tentação de assegurar a fé através do poder, e ela correu sempre o risco de ser asfixiada nos abraços com o poder. A luta pela liberdade da Igreja e, portanto, a luta porque o reino de Jesus não pode ser identificado com nenhuma figura política, deve ser travada durante todos os séculos. Então, o preço pela mistura da fé e do poder político consiste, em última análise, no fato de que a fé entra a serviço do poder e deve vergar-se aos seus critérios.

Na história da Paixão do Senhor, esta alternativa de que aqui se trata aparece numa forma verdadeiramente provocante. No auge do processo, Pilatos apresenta ao povo Jesus e Barrabás para que seja escolhido um deles, pois um deles deve ser libertado. Mas quem era Barrabás? Temos conhecimento apenas do que se apresenta no Evangelho de S. João: "Barrabás era um salteador" (Jo 18,40). Só que o termo grego salteador havia recebido um significado específico na situação política de então na Palestina. Ele significava o mesmo que "lutador de resistência". Barrabás havia participado de uma rebelião (cf. Mc 15,7) e além disso era acusado - neste contexto - de homicídio (Lc 15,7). Quando S. Mateus diz que Barrabás tinha sido um "preso célebre", isso significa que tinha sido um dos destacados lutadores da resistência, talvez até o próprio cabeça da rebelião (Mt 27,62).

Em outras palavras: Barrabás era uma figura messiânica. A escolha entre Jesus e Barrabás não é casual: estão em confronto duas figuras messiânicas, duas formas de messianismo. Isto se torna ainda mais claro quando pensamos que Bar-Abbas quer dizer "filho do Pai". Trata-se de uma típica designação messiânica, de um nome cultual de um destacado cabeça de um movimento messiânico. A última grande guerra messiânica dos judeus fora conduzida no ano 132 por Bar-Kochba, "filho da estrela". É a mesma configuração do nome, a mesma intenção é representada.

Por Orígenes tomamos conhecimento de um outro pormenor muito interessante: em muitos manuscritos dos Evangelhos até o séc. III, o homem aqui em referência chamava-se Jesus Barrabbas, "Jesus filho do Pai". Ele se apresenta como uma espécie de sósia de Jesus; concebiam a mesma pretensão, mas de um modo totalmente diferente. A escolha consiste, portanto, entre um Messias que encabeça um combate que promete liberdade e o próprio reino e este misterioso Jesus que anuncia o perder-se como caminho para a vida. É então surpreendente que as massas tenham dado a prioridade a Barrabás?

Se hoje tivéssemos de escolher, teria Jesus de Nazaré, o filho de Maria, o filho do Pai, alguma possibilidade? Será que conhecemos mesmo Jesus? Será que O compreendemos? Não deveríamos hoje, tanto quanto ontem esforçar-nos para de novo O conhecer? O tentador não é tão rude a ponto de nos propor diretamente a adoração do diabo. Ele apenas nos propõe que nos decidamos por aquilo que é racional, pela primazia de um mundo planejado e organizado, no qual Deus pode ter o seu lugar como uma questão privada, mas que não pode imiscuir-se nas nossas intenções essenciais. Solowjew dedica ao Anticristo O caminho aberto para a paz e o bem-estar do mundo, que de certo modo se torna a nova Bíblia e que tem como próprio conteúdo a adoração da prosperidade e do planejamento racional.

A terceira tentação de Jesus é tida como a tentação fundamental: a questão sobre o que um redentor do mundo deve fazer. Ela perpassa toda a vida de Jesus. Evidencia-se, de novo e abertamente, numa virada decisiva do seu caminho. Pedro tinhas em nome dos discípulos dito a confissão em Jesus como o Messias-Cristo, o filho do Deus vivo, e assim formulado aquela fé sobre a qual a Igreja se edifica e inaugurado a comunidade dos crentes fundada em Cristo. Mas precisamente neste lugar em que se evidencia o conhecimento de Jesus, que marca a cisão e a decisão a respeito da "opinião da multidão" e assim começa a formar-se a sua nova família, precisamente aí está o tentador - o perigo de tudo inverter no seu contrário. O senhor explica imediatamente que o conceito de Messias deve ser compreendido tendo como base o conjunto da mensagem profética - que diz não ao poder mundano, mas sim à cruz e, portanto, a uma comunidade totalmente diferente que se origina precisamente a partir e através da cruz.

Mas isso Pedro não entendeu: "Tomando-O de parte, Pedro começou a repreendê-Lo dizendo: Deus te livre de tal, Senhor. Isso não há-de acontecer". Se lermos essas palavras sob o pano de fundo da história das tentações - como o seu retorno num instante decisivo - , então percebemos a incrivelmente dura resposta de Jesus: "Afasta-te de mim, Satanás! Tu és para mim um estorvo, porque os teus pensamentos não são de Deus, mas dos homens" (Mt 16,22s).

Bento XVI, Jesus de Nazaré.

Dúvida sanada, graças a Deus...


Exponho aqui, de uma forma rápida, uma dúvida que eu tinha e que consegui esclarecer.
Talvez muitos a considerem simplória... e eu peço que estes tenham paciência...
Talvez, porém, a dúvida sirva para esclarecer a outros.

Pensava eu, cá com meus botões, sobre o milagre da transubstanciação. Sem saber onde encontrar resposta, me perguntava o seguinte: no milagre da transubstanciação, o pão deixa de ser pão para ser o bendito corpo de Nosso Senhor, e o vinho deixa a sua substância passando a ser o Sangue de Cristo. Certo... Porém, sei também que, sofrendo corrupção, a Hóstia consagrada deixa de ser o Corpo de Cristo. Mas, se já não havia pão, e agora já não é Corpo de Cristo, ela torna-se o quê? Volta a ser pão? Se sim, seria então uma segunda transubstanciação? Perdoem-me mais uma vez a minha simplicidade. rs...

Lendo, então, um artigo no site Montfort, numa das notas havia a seguinte explicação de Inocêncio V: "os acidentes da Eucaristia nutrem ao revestir qualidade ou modo de substância; pois, ainda que sejam acidentes, têm, entretanto, vigor e natureza de substância; disso decorre que, embora no começo de sua absorção sejam acidentes, entretanto, ao fim da digestão se convertem nas mesmas substâncias que corresponderiam à conversão de sua própria substância. Não há nisto, portanto, novo milagre, porque tudo decorre do milagre precedente da transubstanciação”.

Pax

Fábio Luciano

Fase experimental

Estarei dando umas mexidas no blog, pelo que ele estará, temporariamente, em fase experimental.
Acredito que irei mexer em poucas coisas e, não ficando lá tão interessante, é possível que retorne ao visual antigo. Como também não sou especialista nestes assuntos, as mudanças serão modestas, dentro das possibilidades oferecidas pelos próprios recursos do blogspot.
Bem, seja como for, já sabem....rs.

Pax et bonum

Fábio Luciano

O pecado mortal e a alma - Sta Teresa D'Avila


Antes de passar adiante, quero dizer-vos que considereis o que será ver este castelo tão resplandecente e formoso, esta pérola oriental, esta árvore de vida que está plantada nas mesmas águas vivas da Vida, que é Deus, quando cai em pecado mortal. Não há trevas mais tenebrosas, nem coisa tão escura e negra que ela o não esteja muito mais. Basta saber que, estando até o mesmo Sol, que lhe dava tanto resplendor e formosura no centro da sua alma, todavia é como se ali não estivesse, para participar d'Ele, apesar de ser tão capaz de gozar de Sua Majestade, como o cristal o é para nele resplandecer o sol. Nenhuma coisa lhe aproveita; e daqui vem que todas as boas obras que fizer, estando assim em pecado mortal, são de nenhum fruto para alcançar glória; porque, não procedendo daquele princípio que é Deus, do qual vem que a nossa virtude é virtude, e apartando-nos d'Ele, não pode a obra ser agradável a Seus olhos; porque, enfim, o intento de quem faz um pecado mortal, não é contentar a Deus, senão dar prazer ao demônio o qual, como é as mesmas trevas, assim a pobre alma fica feita uma mesma treva.

Eu sei de uma pessoa a quem Nosso Senhor quis mostrar como ficava uma alma quando pecava mortalmente. Diz aquela pessoa que lhe parece que, se o entendessem, não seria possível que alguém pecasse, ainda que se pusesse nos maiores trabalhos que se possam pensar para fugir das ocasiões. E assim, deu-lhe um grande desejo de que todos o entendessem. Assim vo-lo dê a vós, filhas, de rogar a Deus pelos que estão neste estado, todos feitos uma escutidão, e tais são suas obras; porque, assim como duma fonte muito clara, claros são os arroiozitos que dela manam, assim é uma alma que está em graça, pois daqui lhe vem serem suas obras tão agradáveis aos olhos de Deus e dos homens, porque procedem desta fonte de vida, onde a alma está como uma árvore plantada; nem ela teria a frescura e fruto, se não lhe viesse dali; é isto que a sustenta e faz com que não seque e que dê bom fruto. Assim a alma que, por sua culpa se aparta desta fonte e se transplanta a outra de uma negríssima água e de muito mau odor, tudo o que dela sai é a mesma desventura e sujidade.

É de considerar aqui que a fonte e aquele Sol resplandecente que está no centro da alma, não perdem seu resplendor e formosura, que está sempre dentro dela, e não há coisa que lhe possa tirar a formosura. Mas, se sobre um cristal que está ao sol, se pusesse um pano muito negro, claro está que, embora o sol dê nele, a sua claridade não fará o seu efeito no cristal.

Ó almas remidas pelo Sangue de Jesus Cristo! Entendei-vos e tende dó de vós mesmas! Como é possível que, entendendo isto, não procureis tirar este pez deste cristal? Olhai que, se a vida se vos acaba, jamais tornareis a gozar desta luz. Ó Jesus! O que é ver uma alma apartada dela! Como ficam os pobres aposentos do castelo! Que perturbados andam os sentidos, que é a gente que vive neles! E as potências, que são os alcaides, mordomos e mestres-salas, com que cegueira, com que mau governo! Enfim, como onde está plantada a árvore é o demônio, que fruto pode dar?

Ouvi uma vez a um homem espiritual, que não se espantava do que fazia quem está em pecado mortal, mas sim do que não fazia. Deus, por Sua misericórdia, nos livre de tão grande mal, que não há coisa, enquanto vivemos, que mereça este nome de mal, senão esta; pois acarreta males eternos para sempre. É disto, filhas, que devemos andar temerosas e o que temos de pedir a Deus em nossas orações; porque, se Ele não guarda a cidade, em vão trabalharemos, pois somos a própria vaidade.

Dizia aquela pessoa que tinha aproveitado duas coisas da mercê que Deus lhe fez: uma, um temor grandíssimo de O ofender, e assim sempre Lhe andava suplicando não a deixasse cair, vendo tão terríveis danos; a segunda, um espelho para a humildade, vendo que, coisa boa que façamos, não tem seu princípio em nós mesmos, mas naquela fonte onde está plantada esta árvore das nossas almas, e neste Sol que dá calor às nossas obras. Disse que se lhe representou isto tão claro que, em fazendo alguma coisa boa ou vendo-a fazer, acudia ao seu princípo e entendia como, sem esta ajuda, não podíamos nada; e daqui lhe procedia ir logo a louvar a Deus, e, habitualmente, não se lembrava de si em coisa boa que fizesse.

Não seria tempo perdido, irmãs, o que gastásseis a ler isto, nem eu a escrevê-lo, se ficássemos com estas duas coisas...

Sta Teresa D'Avila, Castelo Interior.

Sobre a oração - Sta Teresa D'Ávila


Dizia-me há pouco um grande letrado, que as almas que não têm oração são como um corpo paralítico ou tolhido que, embora tenha pés e mãos, não os podem mexer; e são assim: há almas tão enfermas e tão habituadas às coisas exteriores, que não há remédio nem parece que possam entrar dentro de si mesmas; porque é tal o costume de tratarem sempre com as sevandijas e alimárias que estão à roda do castelo (que é a alma), que já quase se tornaram como elas e, sendo de natureza tão rica e podendo ter a sua conversação nada menos do que com Deus, não têm remédio. E se estas almas não procuram entender e remediar sua grande miséria, ficarão feitas em estátuas de sal por não voltarem a cabeça para si mesmas, assim como ficou a mulher de Lot por voltar a cabeça para trás.

Porque, tanto quanto eu posso entender, a porta para entrar neste castelo é a oração e reflexão, não digo mais mental que vocal; logo que seja oração, há de ser com consideração; porque naquela em que não se adverte com Quem fala e o que se pede e quem é que pede e a Quem, não lhe chamo eu oração, embora muito meneie os lábios. E, se algumas vezes o for, mesmo sem este cuidado, será porque se teve em outras; mas, quem tivesse por costume falar com a Majestade de Deus como falaria a um seu escravo, que nem repara se diz mal, mas o que lhe vem à boca ou decorou, porque já o fez outras vezes, não o tenho por oração e preza a Deus nenhum cristão a tenha desta sorte. Que entre vós, irmãs, espero em Sua Majestade, não haverá tal oração, pelo costume que há de tratardes de coisas interiores, e que é muito bom para não cairdes em semelhante bruteza.

Não falemos, pois, com estas almas tolhidas, que, se não vem o mesmo Senhor mandar-lhes que se levantem - como aquele que havia 30 anos que estava junto à piscina -, têm muito má ventura e correm grande perigo; mas sim com outras almas que, por fim, entram no castelo; porque, ainda que estejam muito metidas no mundo, têm bons desejos e algumas vezes, ainda que de longe em longe, encomendam-se a Nosso Senhor e consideram quem são, ainda que sem muita demora. Algumas vez ou outra, num mês, rezam cheias de mil negócios, o pensamento quase de ordinário nisso, porque, como estão tão apegadas a eles, o coração se lhes vai para onde está o seu tesouro. Propõem algumas vezes, para consigo mesmos, desocuparem-se, e já é grande coisa o próprio conhecimento e o ver que não vão bem encaminhadas para atinar com a porta. Enfim, entram nas primeiras dependências do rés-do-chão; mas entram com elas tantas sevandijas, que não lhes deixam ver a formosura do castelo nem sossegar: muito fazem já em ter entrado.

Sta Teresa D'Avila, Castelo Interior.

Voltando

Meus caros, eu estive adoentado, motivo pelo qual não atualizei o blog nestes últimos dias. Com a graça de Deus, estou voltando...

Pax.
Fábio Luciano

Que bela notícia! Papa Bento XVI gravará Cd.

Papa Bento 16 lançará disco, diz gravadora da BBC Brasil

Um disco com a voz do papa Bento 16 será lançado será lançado no final do ano, segundo anúncio feito pela gravadora Geffen UK/Universal.

No disco, chamado inicialmente de "Alma Mater" ("mãe que alimenta" em latim), o pontífice gravará mensagens e cantará músicas em latim, italiano, espanhol, francês, alemão e português.

Segundo a gravadora, esta será a primeira vez que Bento 16 grava um disco, que está sendo lançado com a benção do papa.

A gravação será lançada no dia 30 de novembro e a Geffen UK aposta que ele terá boas vendas na véspera do Natal.

Voz "incrível"

O disco trará a Ladainha Lauretana, cantos marianos e oito melodias clássicas. O papa recitará passagens da Bíblia e orações acompanhado do coral da Filarmônica de Roma, conduzida por Pablo Colino, maestro emérito da Basílica de São Pedro.

A britânica Royal Philharmonic Orchestra gravará as composições clássicas nos estúdios Abbey Road, em Londres.

A gravadora e o Vaticano não divulgaram os valores envolvidos no lançamento do disco, mas, foi anunciado que os lucros do álbum serão doados para projetos de educação musical para crianças carentes pelo mundo.

O presidente da gravadora Geffen UK, Colin Barlow, disse que a voz do papa é "incrível".

"Nós estamos felizes que o papa Bento 16 mostrou apreciação e deu sua benção especial a esse projeto", disse Barlow. Mais detalhes do disco serão anunciados em setembro, em um lançamento oficial do projeto no Vaticano.

Fonte: Folha Online

Articulação mundial contra o Papa


Tão logo o Papa Bento XVI anunciou a reintegração da Igreja tradicionalista na ordem pós-conciliar – o que de si já é uma ironia, pois a novidade não pode reintegrar em si a tradição, e sim ao contrário –, desencadeou-se contra ele uma das mais maliciosas campanhas de ódio já vistas na mídia mundial.

Três episódios marcaram os seus pontos altos.

Primeiro veio o bispo Williamson – um factóide na mais plena acepção do termo. Até a véspera, ninguém o conhecia. Quando o descobriram entre os milhares de sacerdotes e fiéis beneficiados pela suspensão de uma pena eclesiástica coletiva, saiu do anonimato e tornou-se repentinamente um perigo para a espécie humana, por ter emitido numa igreja de bairro, ante umas poucas dezenas de fiéis se tanto, uma opinião antijudaica. Por toda parte ergueram-se gritos de escândalo, significativamente voltados não contra o bispo, mas contra o Papa. Como se a revogação do castigo não viesse do simples reconhecimento de um erro judicial velho de quatro décadas, e sim do endosso papal às convicções pessoais do bispo – até então ignoradas não só do Vaticano, mas do mundo – sobre matéria alheia ao seu sacerdócio, à fé católica, às razões da penalidade e às da respectiva suspensão. Forçando a inculpação por osmose até o último limite do artificialismo, lançava-se sobre toda a Igreja tradicionalista e, de quebra, sobre o Papa que a acolhera de volta, a vaga mas por isso mesmo envolvente suspeita de anti-semitismo. Não por coincidência, entre os mais inflamados denunciantes encontravam-se aqueles que tanto mais se esforçam para proteger os judeus contra perigos inexistentes quanto mais se devotam a entregá-los, inermes, nas mãos de seus inimigos armados.

Depois, veio o episódio das camisinhas. Não há como medir os gritos de horror, as lágrimas de escândalo, as gesticulações frenéticas de abalo moral com que a grande mídia reagiu à declaração blasfema de que esses sacrossantos dispositivos não protegem eficazmente contra a Aids. Na verdade, não protegem nada. Edward C. Green, diretor do Projeto de Pesquisas sobre Prevenção da Aids no Harvard Center for Population and Development Studies, informa que a revisão mundial dos resultados obtidos nos últimos 25 não mostra o menor sinal de que as camisinhas impeçam a contaminação. O único método que funciona, diz Green, é a redução drástica do número de parceiros sexuais. Uganda, que por esse método e com forte base religiosa reduziu os casos de Aids em 70 por cento, é o único – repito: o único – caso de sucesso espetacular já obtido contra essa doença. Mas que importam esses dados? A camisinha não vale pela eficácia, ó materialistas prosaicos. Ela é um símbolo, a condensação elástica dos mais belos sonhos da utopia pansexualista, onde as criancinhas praticarão sexo grupal nas escolas, sob a orientação de professores carinhosos até demais (sem pedofilia, é claro), e nas praças os casais gays darão lições de sodomia teórica e prática, para encanto geral do público civil, militar e eclesiástico. De que vale a verdade, de que valem as estatísticas, de que valem as vidas dos ugandenses, diante de imagens tão radiosas da civilização pós-cristã que a ONU, o Lucis Trust, a mídia bilionária e todos os pseudo-intelectuais do mundo almejam para a humanidade? É em defesa desses altos valores que se ergueram gritos de revolta contra o Papa, esse estraga-prazeres, esse iconoclasta sacrílego.

Por fim, veio o documentário da BBC, onde o ex-cardeal Ratzinger é acusado de proteger padres pedófilos, determinando que fossem removidos de paróquia em vez de punidos. É claro que a coisa já estava pronta fazia tempo, aguardando a oportunidade política, que veio com os esforços de Bento XVI para restaurar a unidade da Igreja, algo que os apóstolos da nova civilização temem como à peste. A BBC, outrora uma estação respeitável, tornou-se uma central de propaganda esquerdista tão fanática e desavergonhada que o que quer que venha dela deve ser recebido a cusparadas, mas em todo caso vale lembrar que um padre formalmente condenado na justiça por pedofilia não tem como ser removido de paróquia, pois já está removido para a cadeia. Restam os padres meramente acusados, sem provas judiciais válidas. A mídia quer que a Igreja os castigue assim mesmo, a priori, à primeira palavra que se publique contra os desgraçados. O cardeal Ratzinger é acusado, no fim das contas, de não ter feito isso. É preciso toda a técnica cinematográfica da BBC para dar a impressão de que se trata de coisa imoral, até mesmo vagamente criminosa. Mas, nesses casos, a realidade não importa nada. A impressão é tudo.

Destaco esses três episódios só como amostras, no meio de um bombardeio multilateral, incessante e crescente, no qual só a estupidez voluntária pode enxergar uma simples confluência de casualidades, sem nenhuma coordenação ou planejamento.

Olavo de Carvalho

Fonte

Pe. Pio converte um materialista militante


O Padre Pio sabe falar aos intelectuais; os filósofos modernos não lhe metem medo! Num monge, tão humilde, eis um aspecto pouco banal. Muitas vezes no confessionário afronta objeções, tira obstáculos, liquida controvérsias. Os seus carismas não são contrários à inteligência. Longe de ser feudo de devotos, como queriam fazer-nos acreditar, São Giovanni Rotondo vê afluir de todos os lados, universitários, artistas, escritores, filósofos, intelectuais, ávidos de conhecerem as coisas da fé.

Um deles, Feruccio Caponetti, materialista militante, distintíssimo, escreveu: "No monte Gargano encontrei um Mestre. Acolheu-me com alegria, escutou com um sorriso as minhas dúvidas e dificuldades; depois, em palavras muito simples, mas orientadas por insondável profundidade de pensamento, demoliu uma a uma todas as objeções que me formigavam a cabeça , eliminou um a um todos os meus argumentos, pôs-me a alma bem nua, e, mostrando-me os ensinamentos do Senhor, abriu-me os olhos do espírito. Vi a luz. Tocou-me o coração, e pude dizer: EU CREIO".

Estas poucas linhas, cheias de emoção, mostram maravilhosamente a passagem para a luz no drama do descrente. O Padre Pio não evita as dificuldades com habilidades carismáticas. Se, por fim, faz entender ao intelectual revoltado que lê na sua consciência, é com admirável paciência e extrema cortesia que examina de frente os pobres obstáculos que lhe bloqueiam a inteligência. Se não fosse assim, seria ele recebido, como é, nos meios intelectuais? Foi a um universitário, contudo, que disse um dia: "Nos livros procuramos Deus. Na oração encontramo-lo".

Fonte

O modismo de um falso tradicionalismo

Tempos atrás, com a ascensão dos grupos pentecostais, várias pessoas passaram a utilizar crucifixos nos pescoços e a pendurar terços nos bolsos como que para identificar a que grupo pertenciam. Tornou-se moda ostentar os objetos sagrados, muitas vezes, sem nem saber o real significado do que se portava. Foi nesta época ainda que alguns passaram a banalizar certas orações tradicionais, como, por exemplo, a oração de exorcismo de S. Bento, que se viu, de uma hora pra outra, sendo usada com fins, por vezes, sensacionalistas.

Passado também certo tempo, corremos o risco de desbancar num outro modismo: o falso tradicionalismo.

É muito interessante notar que, no decorrer dos séculos, os combatentes de determinada heresia, por vezes, exageravam tanto na defesa de um aspecto contrário que terminavam por criar, eles também, uma outra heresia. Esta dinâmica do erro, porém, sempre tem algo em comum: a atitude de fiar-se demasiado na própria opinião e fazer-se o critério da verdade.

O autêntico tradicionalismo é uma posição de fidelidade a Deus e à Sua Igreja, motivada, antes de tudo, pelo amor... um amor, por vezes violento, semelhante ao de Elias que se dizia "devorado de zelo pelo Senhor" e um amor que se manifesta como fidelidade ao "Deus ciumento". Como forma de expressão, este amor se dá por uma série de atitudes exteriores que nada mais são do que consequências da chama que arde no interior. Mas, à semelhança dos fariseus, é bem possível que se tente imitar este aspecto puramente estético, ao mesmo tempo em que se cultive intenções diversas. Apressar-se sobre as intenções de alguém é algo complicado de se fazer e, mesmo, ilícito. Nisto consiste o julgamento que Nosso Senhor proíbe. Por este motivo, este artigo não visa acusar ninguém em particular, mas apenas despertar para o risco de, na atitude de dizer-se tradicional, permitir-se a mescla de intenções não tão tradicionais assim.

Algo que os santos e todos os verdadeiros católicos sempre prezaram, e pelo que devemos também cuidar, é a chamada "pureza de intenção". Todo trabalho de legítimo apostolado deve ser um fiel cumprimento do primeiro mandamento. Se não for pelo amor a Ele, todo tempo que investirmos em nossos projetos será agitação infértil e barulho inútil. Acontece que, algumas vezes, podemos querer nos apoiar em Deus apenas para construir determinada imagem a nosso respeito. Tantos há que ganharam respeito na defesa da Fé. Isso é ótimo, claro... mas não é este tipo de prêmio o que deve motivar um "amigo da cruz". O oposto também pode ocorrer: utilizarmos do sagrado somente para fazer inimigos e externar nossa agressividade, pensando ser isto, a garantia do incômodo causado, prova de legitimidade do espírito cristão. Há ainda o risco de sermos guiados pelo torpe motivo de querer corresponder às expectativas de algum outro tradicionalista ao qual respeitamos e de quem a opinião a nosso respeito muito nos interessa. Se assim agimos, estamos desfocando a motivação correta. Estamos buscando servir, não a Deus, que aparece apenas como ilustração, mas a este outro a quem nos preocupamos em agradar. Isto pode acontecer de forma muito mais frequente do que imaginamos...

Nesta época em que vemos o belo esforço de muitos filhos da Igreja em protegê-la contra os erros, há sim o risco de que alguém, mal interpretando as coisas, procure imitar somente o aspecto exterior, o fenômeno do combate, sem armar-se, contudo, da lente interior, do amor que deve ser como que o combustível da nossa alma. Estas pessoas má-orientadas geralmente tendem a dizer-se fiéis à Igreja e a afirmarem-se capazes das maiores heroicidades pela Fé, mas, diante de um pequeno ponto em que descobrem um desacordo entre o que realmente a Igreja ensina e o que, até então, defendiam, o orgulho entra em cena na forma de obstinação ao erro. Ora, mas não era amor à Igreja que se dizia? Por que não acatar, então, o que ela diz e renunciar a comodidade da própria opinião? Torna-se, dessa forma, manifesta a caricatura que se mantinha e a infantilidade que a sustentava.

Devemos, pois, meus irmãos, cuidar para que isto não se encontre na nossa alma, compreendendo que, por vezes, o nosso amor próprio disfarça-se de todo tipo de virtude. E não nos enganemos: é bem possível manter toda uma vida permeada de aparentes austeridades, quando o que nos move é somente o egoísmo e a soberba. Contemplemos a cruz de Nosso Senhor, e aprendamos o que é ser pobre, humilde e o que significa amar. Como dizia Sta Catarina de Sena, que ao contemplar a humildade e humilhação do Crucificado, nós nos envergonhemos da nossa vaidade.

Que Nosso Senhor nos ensine a caminhar direito e que a chama que arde em nós seja a da Caridade, que extirpa todo o vício. Que a Virgem Maria nos ensine a ser pobres. Somente assim, compreendendo o nosso nada, a infinita pequenez do nosso ser, poderemos, enfim, pretender ser úteis a Nosso Amado Deus.

Corde in Crux, Crux in Corde

Fábio Luciano

O respeito devido aos sacerdotes


Deus Pai a Santa Catarina de Sena

Filha querida, ao manifestar-te a grande virtude daqueles pastores, quero colocar em evidência a dignidade dos meus ministros. Pelo pecado de Adão, as portas da eternidade fecharam-se, mas o meu Filho abriu-as com a chave do seu sangue. Ao sofrer a paixão e morte, ele destruiu vossa morte e vos lavou no sangue. Sim, foram seu sangue e sua morte que, em virtude da união da natureza divina com a humana, deram acesso ao céu. E a quem deixou Cristo tal chave? Ao apóstolo Pedro e a seus sucessores, os que vieram e que virão depois dele até o dia do juízo final. Todos possuem a mesma autoridade de Pedro; nenhum pecado a diminui, do mesmo modo que não destrói a santidade do sangue de Cristo e dos sacramentos. Já disse que o sol eucarístico não tem manchas e que o mal cometido por alguém que o administra ou recebe não apaga sua luz. Não, o pecado não danifica os sacramentos da santa Igreja, não lhes diminui a força; prejudica a graça e aumenta a culpa somente em quem os ministra ou recebe indignamente.

Santa Catarina de Sena, O Diálogo

Muito estranho... Pe. Joãozinho e a Eucaristia


Este texto que segue abaixo foi vinculado a vários sites e blogs. Como podem ver, eu não o retirei, mas, por justiça, após a leitura dele, peço que leia este aqui, no qual me retrato pelo erro de ter me referido, na ocasião, à Santa Missa como celebração antropofágica. Boa leitura.

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Ontem à noite, 27 de julho, assisti a reapresentação da entrevista entre o Pe. Fábio e o Pe. Joãozinho, onde o primeiro tentava se esclarecer a respeito da recente polêmica por causa de declarações num de seus livros abordando a temática da Eucaristia e da Ressurreição. O padre comentou também sobre a sua resposta à carta de um blogueiro, o Gustavo, onde diz que o "dogma evolui".

Porém, agora quero me ater a uma questão levantada no programa, em que o próprio Pe. Joãozinho afirmou coisas estranhas a meu ver. Tratando da Eucaristia, e criticando uma posição "materialista" que consistia em focar-se no aspecto material do Corpo do Senhor, o padre falou que, mesmo depois da transubstanciação, continua existindo vinho. É como se o sangue ficasse presente no vinho. Ora, mas isto é doutrina luterana, a chamada empanação.

O sacerdote dehoniano argumentava que o que acontece na Santa Missa é a transubstanciação e não transmaterialização.

Esclareçamos algumas coisas. O que defendia a doutrina da empanação de Lutero? O protagonista da "revolução" protestante defendia que, na Eucaristia, Cristo estava presente juntamente com a substância do pão. Isto se assemelha muito à posição que o padre defendeu. Mas continuemos... Pouca gente sabe, mas o grande motivo da condenação de Galileu se deu por motivos teológicos. Este cientista, metido a metafísico e meio místico, andou elaborando uma teoria, segundo a qual, os acidentes de determinado ser, seriam eles mesmos, compostos de substância. Com isto, Galileu simplesmente negou a possibilidade de separação entre substância e acidente. Ok.. Mas e o que isto tem com a Eucaristia? Tudo.

Antes, porém, tratemos ainda de outra breve questão. O que faz com que uma coisa seja o que é, é a sua substância. Se mudamos somente os acidentes de algo, este não deixa de ser o que é. Quando Juliana corta o cabelo, faz as unhas, troca de roupa, bronzeia-se na praia, etc... não deixa de ser Juliana. A mudança de acidentes não implica que se deixe de ser quem é. No entanto, quando mudamos a substância de algo, mesmo que permaneçam os acidentes, aquele algo já não é o mesmo ser. O que se dá na Santa Missa é, justamente, a mudança da substância do pão para a substância da Carne de Nosso Senhor. Portanto, de forma alguma pode-se dizer que, após a consagração, ainda há pão. Daí ser errado dizer que "a carne do Senhor está presente no pão", pois já não há mais pão, nem vinho.

Voltemos à doutrina de Galileu e sua relação com a Eucaristia. Na transubstanciação, a substância é mudada, mas permanecem os acidentes. Dizemos que o Corpo do Senhor e o Sangue do Senhor estão "sob as espécies do pão e do vinho". Com "espécies" quer-se dizer "acidentes" ou "aparências". Estes acidentes, embora permaneçam para nos exercitar a Fé, NÃO são compostos da substância do pão. A afirmação de Galileu mexia, portanto, no "Mistério da Fé", que a Igreja guarda com máximo zelo, sendo mesmo o centro e ápice da vida cristã.

Agora, porém, Pe. Joãozinho, conhecido por sua erudição, aparenta defender que, mesmo após a consagração, permanece a matéria do pão e do vinho. Se, por matéria, ele quiser dizer "acidente", tudo bem. Mas que se explique. Depois, (se eu estiver errado, alguém me corrija), a celebração eucarística é sim antropofágica, pois o que comemos é, de fato, a carne de um homem, embora seja Deus. Não é simbolismo, é literalmente carne e literamente comida (Jo 6,55).

Por fim, uma questão interessante: Pe. Joãozinho afirmou, como prova de que o sangue consagrado permanecia, de alguma forma, vinho, que se alguém bebesse uma grande quantidade do Sangue do Senhor, viria a ficar alcoolizado. Reconheço que este terreno central da Fé é muito complexo e transcende infinitamente a nossa possibilidade de compreensão, sendo por sua própria natureza, inesgotável mistério. Porém, arrisco-me a fazer a seguinte observação: Dentro os acidentes que permanecem após a consagração do pão e do vinho, estão a cor, o tamanho, o cheiro, o gosto. Já o dizia Santo Tomás em um de seus belos poemas. Pois bem. A possibilidade do Sangue do Senhor provocar o efeito próprio da substância do vinho não seria, também, outro caráter acidental? Creio que sim, pois não há mais vinho.

Fábio Luciano

Caso Medjugorje - Frade "criador" das aparições é reduzido a estado laical por Bento XVI

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Comentários meus à resposta do Pe. Fábio de Melo - Final


“Deus conhece a vida que tenho, e conhece também minha dedicação aos seus projetos. Se você gosta de quantificar o que faz, este não é o meu caso. Eu sou filho do Novo Testamento. Jesus é o Senhor da minha vida. Com Ele eu aprendi que a salvação não está na obrigação dos ritos, mas na qualidade do coração que temos”

Pe. Fábio, no trecho acima, parece fazer uma radical oposição entre “quantidade” e “qualidade”. É bem verdade que, por vezes, as vemos dissociadas, de modo que uma não implica necessariamente a outra na mesma medida. Mas não é verdade que esta “independência” ocorra sempre nem que seja total. Entre qualidade e quantidade, é óbvio que a primeira é mais importante, mas, em determinados campos, a primeira exige a segunda.

No discurso falacioso de Pe. Fábio, há uma tentativa de evadir à questão levantada pelo Gustavo, autor da carta que lhe foi enviada. Sabemos da grande estima que a Igreja tem pelo costume da Missa diária, da Confissão freqüente. Há institutos religiosos que confessam-se todas as semanas; Sta Catarina de Sena confessava-se todos os dias. Ao sacerdote de Cristo, cabe o dever de celebrar o Sacrifício do Senhor diariamente. Este argumento do Pe. Fábio, segundo o qual uma atitude que “quantifique” certo costume perca, por isto, o seu caráter qualitativo é falso. É claro que, visto ser o aspecto qualitativo mais importante, o quantitativo deve lhe servir e a ele se ordenar. Uma inversão desta hierarquia comprometeria a vida da Fé. Isto se deu, particularmente, em certos ambientes judeus no tempo de Jesus, onde os costumes religiosos haviam se tornado como que mecânicos. Compreendendo isto de forma correta, vê-se como a qualidade não pode dispensar te todo a quantidade. De fato, se um padre viesse a celebrar a Santa Missa de forma irregular, uma vez por semana ou por mês, sustentando o discurso de que, pra ele, o que importa é a qualidade, veria esta mesma qualidade perder-se. Como bem o escreveu o Célebre Adolph Tanquerey, na vida da Graça, quando não se progride, se regride. Isto se explica porque ainda trazemos em nós a cicatriz do pecado original, a inclinação à satisfação de nossas paixões. Portanto, não pôr-se em combate cultivando intimidade freqüente com Nosso Senhor, mas, ao contrário, somente abeirar-se dos Sagrados Mistérios quando se sentir com o coração emocionalmente disposto (como fazem os românticos que não têm idéia do que seja vida espiritual), significa pedir para ser derrotado.

Como dizia S. João da Cruz (de quem já deu pra perceber que sou bastante devoto), quando uma brasa se afasta do fogo, ela acaba mais fria do que quente. Assim também acontece com quem adere a um discurso que despreza a assiduidade das obrigações religiosas em prol de uma suposta qualidade (confortável isso, não?).

Ser Filho do Novo testamento significa compreender que o aspecto quantitativo deve ordenar-se ao qualitativo. Os judeus celebravam a Páscoa uma vez por ano, e Jesus também observou este costume. O domingo, dia do Senhor, somente é reconhecido como tal dentro de um discurso que quantifica os dias da semana, reconhecendo-o como “primeiro dia”. Também a Igreja celebra seus tempos litúrgicos utilizando-se da “contagem” dos dias. Celebramos o Natal do Senhor no 25º dia do 12º mês do ano.

Pe. Fábio aparenta estar totalmente isento do critério quantitativo na sua vida. Mas será? É bem possível que nisto ele não ponha sua atenção, mas isto não significa que ele também não “quantifique”. Isto ele faz quando obedece a agenda de seus shows, quando aparece semanalmente, em determinado dia e em determinado horário, para apresentar seu programa na Tv CN. Portanto, o discurso acima parece ser mais uma evasiva diante da lembrança do seu dever que admitiu não cumprir às vezes.

Em seguida, o Gustavo pediu explicações ao Padre por ter dito que, para ser um Sacerdote, é preciso ter amado; esta expressão foi posta num contexto onde se falava de experiência sexual. Padre Fábio, com sua resposta, só piorou a situação. Ei-la:“Digo baseado no fato de ser padre, conviver com padres, morar em seminários desde os 16 anos de idade, ser diretor espiritual de inúmeros seminaristas, padres e freiras. Digo isso porque vivo os bastidores da Igreja. Sou amigo pessoal de muitos bispos, religiosos, diretores de seminários. Tenho 38 anos e sou profundamente interessado pela vida sacerdotal. A minha experiência, e a de tantos que passaram pela minha vida, mostraram-me que o celibato é ESCOLHA. Para haver escolha é preciso que haja possibilidades. Quanto à felicidade de seu pároco, sobre ela não posso dizer, pois não o conheço. Minha fala é fruto do que a vida me mostrou, e só.”

Nesta resposta, o padre pareceu ser particularmente irresponsável. Parece obstinado em distorcer o ensino da Igreja, preferindo a sua frágil experiência. Se nem um padre pode viver o celibato, então este é impossível! Eis a implicância prática do que ele afirma. Além disso, o padre não deveria se fundamentar no que “a vida lhe mostrou” somente, mas, antes, no que ensina a Igreja e no testemunho de muitos dos seus filhos que viveram perfeitamente a castidade e o celibato. O padre virou empirista, agora? Uma coisa é fazer a experiência da miséria humana, outra é duvidar de que é possível “fazer-se eunuco pelo Reino de Deus”(Mt 19,12) mesmo sem ter feito a experiência sexual. Muito estranho isso... estranhíssimo.

“Talvez eu não tenha conseguido revelar a você a sacralidade que move os meus objetivos.”

Justamente, padre... Foi isso mesmo.

“Talvez você esteja elevado demais em sua vida espiritual, e necessite de padres mais espiritualizados, menos humanos.”

Ser espiritualizado não significa ser menos humano. Uma coisa não é oposta à outra. Afinal, somos homens, o que significa que somos seres espirituais. Fundamento básico da Antropologia Teológica, padre.. lembra? E nesta visão de “humano” como oposto ao “espiritual”, parece que o senhor chama de humano o que é pecaminoso e rasteiro. Quanto mais distante da perfeição, mais humano para o senhor? Que não seja por isso, então, que o senhor se diz “humano demais”!

“Conheci a Deus através do amor ágape. Fiquei fascinado quando me ensinaram que Deus é um pai amoroso que não despreza os filhos que tem, mesmo quando não correspondem ao que Ele espera.”

Mas vamos explicar bem, padre. Que Deus é amor e misericórdia, sem dúvida. Que nos acolhe sem merecermos, sem dúvida. “se levardes em conta as nossas transgressões, quem haveria de subsistir?”(Sl 129,3). Agora, isto não significa permissividade. “De Deus não se zomba” (Gl 6,7)!

Passar a mão sempre é mais fácil do que ter que dizer a verdade que, por vezes, é dura. Interessante que, como frutos deste discurso excessivamente adocicado, vemos os fãs e admiradores do padre usar da mais pura grosseria contra os que não lhe são simpáticos no intuito de defendê-lo. Eles nem tocam nos argumentos, partindo logo para ofensas pessoais. Esses são os frutos reais de evangelização? Eu acredito que o padre tem ajudado várias pessoas, ou, como ele mesmo diz, “tem se ocupado das dores” de muita gente. Mas isto não o isenta de ser fiel à doutrina da Igreja. Ao contrário, o senhor ajudará muito mais servindo à verdade.

“O banquete em sua casa está sempre posto, pronto para receber o filho que tem fome.”

É, mas ao que não quis se vestir conforme a festa, isto é, ao que não vestiu a doutrina da verdade, o mesmo Senhor mandou pôr pra fora (Mt 22,11-13).

“Quanto à minha dignidade sacerdotal, esta eu costumo preservar através das minhas atitudes. Minha roupa de padre não me garante muita coisa. O sacerdócio que o povo espera de mim não está no hábito que ostento, mas na sinceridade que preciso ter diante do meu compromisso assumido. Zelo para que Deus não seja transformado numa caricatura qualquer.”

É o mesmo discurso da “qualidade e quantidade”. Não é porque a dignidade não está somente na roupa de padre, que o senhor pode dispensá-la. Se for assim, despense o sapato, não use escova de dentes, não penteie o cabelo... Sua dignidade sacerdotal não está também nessas coisas, mesmo assim, o senhor não as dispensa.

E a sinceridade que o senhor precisa ter diante do compromisso assumido inclui, sim, a veste sacerdotal e a obrigação de portar-se como padre, seja no que faz, seja no que veste. O senhor zela para que Deus não seja transformado numa caricatura. Reze também pra que Ele não seja visto com uma face que não tem, como o mostram os liberais e modernistas.

“Frei Beto é um homem fabuloso”. Como disse alguém, deve ser porque defende fábulas (2Tm 4,4; 1Tm 4,7).

Por fim, Pe. Fábio de Melo diz o seguinte: “Todos nós estamos desejosos de acertar”

Deveríamos, então, seguir as determinações e o ensino da Igreja, pois ela sabe distinguir o certo e o errado, pois este poder lhe foi dado pelo próprio Senhor. Não obedecer-lhe significa, forçosamente, errar.

No mais, embora a carta tenha uma série de questões estranhas, Pe. Fábio de Melo escreveu também coisas interessantes, como quando antepõe o amor ao combate e quando fala da possibilidade de discordar sem ofender.

É possível que, dentre as questões abordadas por mim, haja alguma em que eu não tenha percebido o que o padre realmente queria dizer. Enfim, escrevi estas linhas para que, os que lêem este humilde espaço, possam se inteirar melhor do que a Igreja ensina, e se há, não apenas nestes textos, mas em qualquer outro, qualquer ensinamento heterodoxo, que seja imediatamente desconsiderado.

Sei que o Pe. Fábio não chegará a ler estes pontos. Mas, mesmo assim, eu, como filho da Igreja, o peço a sua bênção.

Fábio Luciano.
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