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Uma defesa das Imagens - São Thomas More


Imagens são livros necessários aos sem instrução e são bons livros também aos instruídos. Pois todas as palavras são apenas imagens que representam coisas que o escritor ou o orador concebe em sua mente, tanto quanto a figura de uma coisa emoldurada pela imaginação, e deste modo concebida na mente, é tão-somente a imagem representativa da coisa mesma sobre a qual o homem pensou.

Por exemplo, se eu lhe conto um episódio da vida de um amigo meu, a imaginação que dele tenho em minha mente não é ele mesmo, mas uma imagem que o representa. E quando eu o nomeio, seu nome não é nem ele mesmo nem a figura que dele tenho em minha imaginação, mas apenas uma imagem que apresenta a você a imaginação da minha mente. Se eu estiver muito longe de você para lhe contar tal episódio, então será a escrita, e não o nome mesmo, uma imagem representativa do nome. E, no entanto, todos esses nomes falados e todas essas palavras escritas não são signos ou imagens naturais, mas signos construídos por consentimento e convenção entre os homens para significar as coisas, enquanto as imagens pintadas, esculpidas ou entalhadas podem ser tão bem trabalhadas, tão fiéis à verdade e ao objeto vivo, que, naturalmente, acabam representando-o muito mais eficazmente do que o nome falado ou escrito. Pois aquele que nunca tenha ouvido o nome do meu amigo, mas que tenha visto um seu retrato, se um dia o vir em pessoa, o reconhecerá através da imagem trazida à memória.

São Thomas More, A Refutação das Respostas de Tyndale

Ir. Miriam Joseph, O Trivium.

Combate com Arquidemônios


Estava lendo o impressionante livro: Escritos Autobiográficos y espirituales, Biblioteca de Autores Cristianos, Madri, 1959. Consta nesse livro algumas profecias feitas por Santo Antonio Maria Claret.

Assim como no céu há uma hierarquia angélica, há no inferno também uma hierarquia diabólica. O diabos menos importantes cumprem missão de pouca importancia, mas para grandes missões são designados demônios de "alta estirpe".

Para castigo dos homens, Deus permitirá que saiam do inferno quatro arquidemônios. Esses arquidemônios trabalharão para destruir as famílias e espalhar um espantoso amor aos prazeres.

Prestem atenção: são apenas quatro, mas quatro arquidemônios.

Ouçamos as profecias de Santo Antonio Maria Claret:

"No dia 23 de setembro [de 1859], às sete e meia da manhã, disse-me o Senhor: Voarás pela Terra, ou andarás com grande velocidade e pregarás os grandes castigos que se aproximam. O Senhor me deu a conhecer grandes coisas sobre aquelas palavras do Apocalipse, 8,13: Et vidi et audivi vocem unius aquilae [E olhei, e ouvi a voz duma águia], que voava pelo céu e dizia com grande e alta voz: Ai! ai! ai! dos habitantes da Terra por causa dos três grandes castigos que virão. Estes castigos são:

"1º O protestantismo, comunismo...

"2º Os quatro arquidemônios que promoverão de modo espantoso o amor aos prazeres -- o amor ao dinheiro -- a independência da razão -- a independência da vontade.

"3º As grandes guerras e suas conseqüências".....

Fonte: O Combate

Alguns versículos que os protestantes esqueceram de ler em suas bíblias


Segue abaixo alguns dos versículos bíblicos que os protestantes esqueceram de ler em suas bíblias ou que fazem a questão de distorcê-los deliberadamente para manter seus erros doutrinários:

Sola Scriptura (Somente a Bíblia)

A idéia fundamental da reforma protestante é a de que apenas a Bíblia é a única regra de fé. Entretanto, a própria Bíblia não suporta essa crença...

Jesus fala ou revela verdades que não se encontram na Escritura: Mt 2,23; At 20,35; Tg 4,5.
Nem tudo está na Bíblia: Jo 21,25.
O grande mandamento de Cristo é pregar e não escrever: Mt 28,19-20.
Os cristãos primitivos seguiam a tradição apostólica: At 2,42.
São Paulo reconhece autoridade à tradição oral: 1Ts 2,13; 2Ts 2,15; 2Tm 2,2; 1Cor 11,2.

Sola Fide (Somente a Fé)

Martinho Lutero, querendo evitar a importância de se fazer boas obras, promoveu a idéia de que apenas a fé é responsável pela salvação. A Igreja, porém, sempre ensinou que a fé, a esperança e o amor (caridade) são necessários para a salvação. O único lugar em que a expressão "apenas a fé" aparece na Bíblia está em Tg 2,24, onde o autor declara que Abraão não foi salvo apenas por sua fé.

As obras têm méritos: Fl 2,12; 2Cor 5,10; Rm 2,6; Mt 25,32-46; Gl 6,6-10.
Devemos evitar o pecado: Hb 10,26.
Devemos fazer o desejo de Deus: Lc 6,46; Mt 7,21; 19,16-21; 1Tm 5,8.
Devemos guardar os mandamentos: 1Jo 2,3-4; 3,24; 5,3.
Obtém o perdão dos pecados: Tg 5,20.
Que proveito tem a fé sem as obras?: Tg 2,14-26.
São Paulo se auto-disciplina para evitar perder a salvação: 1Cor 9,27.

Livros Deuterocanônicos (chamados de "Apócrifos" pelos protestantes)

Os deuterocanônicos foram usados no Novo Testamento: 2Mc 6,18-7,42 : Hb 11,35; Sb 3,5-6 : 1Pd 1,6-7; Sb 13,1-9 : Rm 1,18-32.
A versão da Septuaginta (Antigo Testamento grego com os deuterocanônicos) é citada em partes onde difere da versão hebraica: Is 7,14 : Mt 1,23; Is 40,3 : Mt 3,3; Jl 2,30-31 : At 2,19-29; Sl 95,7-9 : Hb 3,7-9.

Batismo de Crianças

A Bíblia sugere o batismo de toda uma casa, o que inclui as crianças: At 2,38-39; 16,15.33; 1Cor 1,16.
A circuncisão (normalmente feita em crianças) foi substituída pelo batismo: Cl 2,11-12.
O batismo é necessário para a salvação: Jo 3,5.

Papado/Infalibilidade

A cátedra de Moisés como autoridade de ensino: Mt 23,2.
A Igreja edificada sobre os apóstolos e profetas: Ef 2,20.
As chaves são símbolo de autoridade: Is 22,22; Ap 1,18.
Pedro é sempre mencionado em primeiro, antes dos dos demais apóstolos: Mt 10,1-4; Mc 3,16-19; Lc 6,14-16; At 1,13; Lc 9,32.
Pedro fala pelos apóstolos: Mt 18,21; Mc 8,29; Lc 12,41; Jo 6,69.
Pedro foi o primeiro a pregar durante o Pentecostes: At 2,14-40.
Pedro realizou a primeira cura: At 3,6-7.
Pedro recebeu a revelação de que os gentios deveriam ser batizados: At 10,46-48.
Simão é chamado de Cefas (aramaico: Kepha = Pedra): Jo 1,42.
Vicário de Cristo: Lc 10,1-2.16; Jo 13,20; 2Cor 5,20; Gl 4,14; At 5,1-5.
"Apascenta as minhas ovelhas": Jo 21,17.
"Simão, confirma os teus irmãos": Lc 22,31-32.
"Sobre esta Pedra edificarei a minha Igreja; [...] Te darei as chaves do céu; [...] Tudo que ligares e desligares: Mt 16,18-19.

Irmãos de Jesus?

O Cristianismo tradicional afirma que Jesus é o único filho de Maria. As citações aos "irmãos do Senhor" se referem a outros membros da família e, em alguns casos, aos seus próprios discípulos.

Maria, esposa de Cléofas e irmã da Virgem Maria (Jo 19,25) é a mãe de Tiago e José (Mc 15,47; Mt 27,56), que são chamados de "irmãos do Senhor" (Mc 6,3).
Em At 1,12-15, vemos que os Apóstolos, Maria, algumas mulheres e os irmãos de Jesus totalizam aproximadamente 120 pessoas, o que é um número muito alto de irmãos.
Gn 14,14: Lot, sobrinho de Abraão (cf. Gn 11,26-28), é chamado de irmão de Abraão.
Gn 29,15: Labão, tio de Jacó, chama Jacó de seu irmão.
Jo 19-26-27: Jesus entrega Maria aos cuidados de seu discípulo João e não a um de seus supostos irmãos.

Os Santos

A transfiguração - onde está descrita a morte de Moisés e Elias?: Mt 17; Mc 9.
Corpo de Cristo: 1Cor 12,25-27; Rm 12,4-5.
Deus não é o Deus dos mortos, mas dos vivos: Mc 12,26-27.
Intercessão de Moisés e Samuel: Jr 15,1.
O aviso é para não evocar os mortos, mas os santos podem ser invocados pois estão vivos para Deus: Dt 18,10.
Oração intercessória: Ef 6,18; Rm 15,30; Cl 4,3; 1Ts 1,11.
Os falecidos Onias e Jeremias intercedem pelos judeus: 2Mc 15,11-16.
Os santos estão unidos com Deus: 1Cor 13,12; 1Jo 3,2.
Os santos são reerguidos na ressurreição e circulam por Jerusalém: Mt 27,52; Ef 2,19.
Veneração de anjos unidos com Deus: Js 5,14; Dn 8,17; Tb 12,16; Mt 18,10.

As Imagens

Deus ordena a confecção de imagens: Ex 25,18-22; Nm 21,8-9.
Salomão constrói o Templo com estátuas e imagens: 1Rs 6,23-29.35; 7,29.

Você já está salvo?

1Cor 10,12 - "Assim, pois, aquele que julga estar de pé, tome cuidado para não cair".
Mt 19,16-17 - "Aí alguém se aproximou dele e disse: 'Mestre, que farei de bom para ter a vida eterna?' Respondeu [Jesus]: 'Por que me perguntas sobre o que é bom? O Bom é um só. Mas se queres entrar para a Vida, guarda os mandamentos'".
Lc 10,25-28 - "E eis que um doutor da lei se levantou e disse para experimentá-lo: 'Mestre, que farei para herdar a vida eterna?' Ele disse: 'Que está escrito na Lei? Como lês?'. Ele então respondeu: 'Amarás o Senhor teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma, com toda a tua força e de todo o teu entendimento; e a teu próximo como a ti mesmo'. Jesus disse: 'Respondeste corretamente; faze isso e viverás'".
Jo 5,24 - "Em verdade, em verdade vos digo: quem escuta a minha palavra e crê naquele que me enviou tem a vida eterna e não vem a julgamento, mas passou da morte à vida".
Jo 6,54 - "Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia".
Mt 10,22 - "E sereis odiados por todos por causa do meu nome. Aquele, porém, que perseverar até o fim, esse será salvo".
Mc 16,16 - "Aquele que crer e for batizado será salvo; o que não crer será condenado".
Jo 3,5 - "Respondeu-lhe Jesus: 'Em verdade, em verdade te digo: quem não nascer da água e do Espírito não pode entrar no Reino de Deus".

Traduzido por Carlos Martins Nabeto

Não se pode comungar estando em pecado mortal

Jesus e Judas. Filme "Jesus de Nazaré" de Franco Zeffirelii

Nesta postagem, quero tratar de um dos assuntos mais sérios do catolicismo atual. Hoje raramente se ouve por parte dos padres um discurso claro sobre o que seja a Graça, sobre o que sejam os pecados mortais, sobre os nefastos efeitos destes na alma e sobre como os que perderam a Graça, isto é, os que contraíram pecado mortal, estão impedidos de Comungar.

Como os fiéis não possuem o hábito de estudar por si mesmos, ficam então totalmente dependentes das fraquíssimas e muitas vezes equivocadas catequeses que recebem nas homilias e, diante disto, não adquirem o mínimo conhecimento para discernirem se estão ou não em Graça. O resultado disto é que raramente se confessam e que, em toda a Missa, consideram a coisa mais natural do mundo o ato de levantar do lugar e de adentrar na fila da Eucaristia. Porém, aquele que se aproxima deste Sacramento sem se examinar e estando em Pecado Mortal comete um sacrilégio, que é um pecado gravíssimo como nenhum outro! Mais grave que o de Judas, que o de Herodes e que o dos que crucificaram Nosso Senhor. Estas são comparações que não são feitas por mim, mas pelos santos, como Sto Agostinho, S. João Crisóstomo, etc. Mas já que não há qualquer esclarecimento por parte dos padres a este respeito, este terrível pecado é cometido muito frequentemente. É óbvio que os sacerdotes não têm como dar conta de todos os católicos e sondar-lhes o estado d'alma. Porém, uma boa catequese em que se abordasse este tema serviria para orientar os fiéis e diminuir substancialmente a quantidade de ultrajes feitos a Jesus.

Quem está em pecado mortal não pode comungar. E por quê? Porque não possui a virtude teologal da caridade. É esta virtude a garantia de ter a alma em amizade com Deus. Quem não a possui, não possui o vínculo espiritual necessário para receber o Corpo do Senhor e faz muito bem em abster-se. O ato de não se aproximar da Eucaristia devido à consciência da própria condição é, já, um ato de Fé. Portanto, a fim de não contrair este pecado gravíssimo e de não ofender a Nosso Senhor, mais do que Ele já está ofendido, fiquemos sempre atentos a este respeito e, à medida do possível, esclareçamos os demais. É importante que o católico faça frequentemente o exame de consciência - se possível diariamente, pouco antes de dormir - e que tenha também o hábito de confessar-se em um prazo preestabelecido, ainda que, chegado o dia da confissão, não esteja consciente de ter pecado gravemente. - Sobre isso, o ideal mesmo é que a confissão seja semanal - É deste modo que seremos bons católicos e permitiremos à Graça de Deus dilatar-nos a alma, destruir-nos os vícios, aumentar-nos as virtudes e nos mover segundo a santíssima vontade divina.

Portanto, aquele que pecou gravemente, não comungue antes de confessar-se. Se ousar fazê-lo, estará cometendo sacrilégio. Que Deus nos livre de tão pesado e grave pecado. Que a Virgem Maria imprima sempre em nossas almas o amor à pureza e as disposições de que ela mesma estava animada quando recebeu Jesus em seu ventre. 

Fábio.

Nós queremos o que Ele quer



Nós queremos realmente o que Ele quer, queremos verdadeiramente, sem o saber, as dores, os sofrimentos, a solidão, embora imaginemos querer só os prazeres. Imaginamos temer a morte e fugir dela, quando na realidade queremos esta morte como Ele quis a Sua. Assim como Ele Se sacrifica em cada altar onde se celebra a Missa, Ele recomeça a morrer em cada homem em agonia. Queremos tudo o que Ele quer, mas não sabemos que o queremos, nós não nos conhecemos, o pecado faz-nos viver à superfície de nós mesmos, só voltaremos a nós para morrer, e é ali que Ele nos aguarda.

Georges Bernanos, Tunísia, 1948

Perigo que nasce das evasões e subterfúgios usados pelo amor próprio


Por exemplo, a oração mental se vicia pelo excessivo desejo de consolações sensíveis, pela gula espiritual, pelo sentimentalismo. O sentimentalismo é, na sensibilidade, uma afetação de amor de Deus e do próximo que não existe suficientemente na vontade espiritual. Então, a alma procura a si mesma mais que a Deus. Donde, para tirar a alma desta imperfeição, Deus purifica a alma pela aridez da sensibilidade.

Se, verdadeiramente, a alma nesta aridez não é suficientemente generosa, cai na preguiça espiritual, na tepidez e não mais tende suficientemente à perfeição.

Igualmente, pelo amor desordenado de si mesmo se vicia o labor intelectual ou apostólico, pois nele buscamos satisfação pessoal, buscamos o louvor, mais do que Deus ou a salvação das almas. Assim, o pregador pode tornar-se estéril «como um bronze que soa ou um címbalo que tine». A alma se retarda, não é mais iniciante, não avança ao estado dos aproveitados, permanece uma alma retardada, como um menino que, por não crescer, não permanece menino, nem se faz adolescente ou um adulto normal, mas um homúnculo deforme. Ocorre algo similar na ordem espiritual e isto provém do amor próprio desordenado, do qual nasce a esterilidade da vida.

Pe. Garrigou Lagrange

Fonte: Permanência

Reforma do Código Penal brasileiro: Pe. Paulo Ricardo



Respondendo: O que é a Comunhão dos Santos?


Toda vez que rezamos o Credo dizemos que acreditamos numa tal de Comunhão dos Santos. Mas e o que seria isso? Muitos de nós dizemos que cremos nisso ainda que não saibamos do que se trata. Se não sabemos o que é, como cremos? Não cremos. Aliás, a coisa anda tão ruim que pronunciamos o Credo sem nem mesmo atentar no que estamos a pronunciar, como se fôssemos robôs. Sobre isto, os que entendem o inglês, assistam a este vídeo.

Deveríamos compreender que este conjunto de dogmas que sempre rezamos e que o fazemos geralmente de modo tão distraído foi a causa da morte de muitos cristãos. Eles morriam justamente para não transgredir nenhum dos artigos de Fé que ali estão, de modo que recitar o Credo sem atenção chega a ser uma ofensa. Boa parte dos cristãos modernos, porém, o pronuncia de boca pra fora sem que ele adquira qualquer valor interno, como se fosse composto de meras afirmações gratuitas sem correspondência exata com a realidade. É pena... Porém, ninguém os ignorará para sempre. Haverá algum dia, nesta vida ou na outra, em que acordaremos para a terrível realidade dessas verdades.

Pois bem. E o que seria essa tal de Comunhão dos Santos? Será uma espécie de Eucaristia distribuída no Céu? Nada disso. Primeiramente, o que é que entendemos por comunhão? Não há segredo: é um vínculo entre pessoas. A questão toda é: que pessoas? Ora, a resposta a isto está claramente manifesta na própria expressão: os santos. Aqui é que reside o equívoco: quando pensamos ou ouvimos falar de santos, geralmente concebemos aqueles que já morreram e, canonizados ou não, estão no céu. Aqui, contudo, devemos estender um pouco o significado desta santidade.

Sabemos que a Igreja não é uma criação humana, mas divina. Isto significa que ela é muito mais do que aquilo que nós vemos. Por alta que seja a nossa concepção da Igreja, ela ainda permanece envolta em mistério e somente saberemos de fato o que ela é no fim dos tempos ou quando morrermos. De fato, dizemos com acerto que ela é o Corpo de Cristo. Mas este é um conceito cuja realidade correspondente nos ultrapassa. Pois bem. Dentre essas coisas que existem sem que nós tenhamos qualquer possibilidade de constatação sensível, está o vínculo que une os que pertencem à Igreja. Dizíamos que ela é o Corpo de Cristo e comumente afirmamos que somos membros deste corpo. Esta é uma comparação muito interessante, frequentemente usada por S. Paulo, e que pode nos esclarecer bastante. Se eu olhar para o meu pé e para a minha mão, é óbvio que são membros diferentes, seja no aspecto, seja na função. Nisso, todos concordamos. Porém, para além desta diferença ou distância, existe algo que os une: ambos fazem parte do mesmo corpo e, junto a ele, recebem vida e são animados. Há uma alma que está subjacente aí a todos os membros e a partir da qual eles adquirem vida e movimento. Assim também ocorre com os membros do Corpo de Cristo. Todos eles, por mais diferentes e distantes que sejam, recebem uma seiva em comum que lhes comunica a vida. Esta é o Espírito Santo que nos dá a graça da filiação divina e nos faz irmãos. Isto significa que, bem além do que percebemos, todos os que estamos na Igreja temos uma ligação, não apenas sugestiva, mas objetiva, real, ontológica. É esta ligação que faz da nossa multiplicidade uma unidade. E daí, podemos dizer com S. Paulo: somos um só corpo, pois temos uma só Fé, um só batismo e um só Senhor: o Cristo, cabeça da Igreja.

A Igreja, sendo divina, é transcendente, isto é, ela ultrapassa esta nossa realidade imediata, indo além da matéria, do tempo e do espaço. Assim sendo, não é pelo fato de morrermos que deixamos de pertencer à Igreja. Às vezes - e é o que se espera - a morte simplesmente perpetua a pertença a ela, assim como também pode perpetuar a separação dela. A comunhão dos santos é, portanto, este vínculo que nos liga enquanto membros da Igreja. Dizemos que a comunhão é dos santos porque tal Espírito que nos permeia a todos é fonte e condição de santidade, de modo que todos os católicos somos santos latentemente ou em potência, sobretudo os que estão em estado de Graça. Esta comunhão faz mais referência a estes últimos, embora também inclua de algum modo os que andam em pecado mortal, visto que estes podem, ainda, se arrepender e voltar.

Neste sentido, diz o Manual de Instrução Religiosa de Boulenger, o que segue:

"Não entram na comunhão dos Santos: os infiéis, os hereges, os cismáticos, os apóstatas e os excomungados, porque nunca foram, ou já deixaram de ser, membros da Igreja. E os pecadores? Estes, não possuindo a graça santificante, nenhuma contribuição trazem para o tesouro da Igreja, desde que suas obras são desprovidas de merecimento. Muito justo seria que não participassem dos seus favores. Entretanto, porque ainda pertencem ao corpo da Igreja, como membros paralisados que um dia, talvez, revivam, e se movam e trabalhem, não estão completamente privados das vantagens da comunhão dos Santos." (1927, p. 238)

Penso, porém, que ainda haja algo a considerar sobre os "infiéis" e "hereges". Por infiel, entendemos aquele que não tem a Fé Teologal. E por "herege", aquele que, separando-se da Fé Católica, escolhe acreditar, a partir de um critério pessoal, numa doutrina que mais lhe apraza. Tecnicamente, os protestantes são hereges. Porém, assim como o trecho de Boulenger mantém inclusos na Comunhão dos Santos os que estão em pecado mortal, por ainda fazerem parte do Corpo, consideramos que também devam ser incluídos neste sagrado vínculo aqueles que, embora não façam parte do Corpo, estejam, contudo, inseridos na Alma da Igreja. E quem são estes? São aqueles que não são católicos somente por estarem num estado de ignorância invencível, isto é, num estado cuja saída não lhes é, dadas as condições em que estão, pessoalmente acessível. Estas pessoas, se viessem a conhecer o que é a Igreja de fato, se tornariam católicas. Obviamente, somente Deus pode saber quais são as pessoas que se encontram em tal estado. Mas sabemos que elas existem. Estes tais, por participarem da alma da Igreja, são de algum modo católicos e, se forem salvos, é pela Igreja Católica que o serão. Neste sentido, é lógico inseri-los de algum modo, também, no conjunto dos que recebem os influxos desta Comunhão.

Fazem parte, portanto, da comunhão dos santos todos os católicos, isto é, tanto os que fazem parte do Corpo e Alma da Igreja - e estes gozam desta comunhão de modo mais completo -, quanto os que fazem parte somente do corpo ou somente da alma. Fazem parte do Corpo e Alma da Igreja, aqueles que estão inseridos na Igreja visível e se conservam em Graça. Fazem parte somente do Corpo, aqueles que, estando na Igreja visível, estão sem a Graça. E fazem parte da Alma da Igreja os que não são católicos por estarem em ignorância invencível, mas que se esforçam por serem pessoas justas dentro daquilo que eles conhecem da lei moral.

Até agora, tratamos bastante da comunhão dos santos com relação aos que ainda estão vivendo na terra. Porém, sendo vínculo entre os cristãos, esta comunhão ultrapassa esta vida mortal e inclui também os membros da Igreja Triunfante - os santos propriamente ditos, que já gozam da visão beatífica no céu - e a Igreja Padecente - as benditas almas do Purgatório. As almas dos condenados estão, obviamente, para sempre excluídas desta dinâmica.

"Ok, deu pra entender que a Comunhão dos Santos é esse vínculo aí. Mas, afinal, o que é que isso muda efetivamente?" Ora, muda tudo! Ela possibilita uma maravilhosa interação entre os cristãos. Esta Comunhão é, inclusive, a razão da possibilidade da intercessão dos santos. Quando pedimos a um amigo, ao padre ou a um santo em particular para que interceda por nós, estamos nos inserindo nesta dinâmica. Portanto, isto possibilita que mutuamente nos ajudemos e contribuamos para a santidade uns dos outros. Nós, na terra, podemos e devemos rezar pelas almas do Purgatório para que seu processo de purgação seja acelerado. Do mesmo modo, elas podem e rezam por nós. Os católicos de um lugar podem interceder pelos de outro. Podemos rezar, fazer mortificações e obter merecimentos para outras pessoas. E podemos fazê-lo consciente ou inconscientemente. Quando nós levamos uma vida santa, segundo a vontade de Deus, a nossa fidelidade pode ajudar quem nós sequer conhecemos. Nossas mortificações e sacrifícios podem ajudar na conversão de alguém do outro lado do mundo. Se adquirirmos Indulgências Plenárias e as aplicarmos às almas do Purgatório, teremos conseguido algo grandioso: tiraremos uma alma de lá e a introduziremos no Céu. Nós não temos a dimensão da imensidão disso! Se o tivéssemos, talvez não faríamos outra coisa.

Do mesmo modo, quando não correspondemos à vontade de Deus, estamos a dificultar ou negar o auxílio a tantas almas. É por isto que um pecado nunca é somente uma ofensa a Deus e a si mesmo, mas também uma ofensa a toda a Igreja. As nossas influências estão muito além daquilo que nós podemos fazer diretamente, através de pregações ou assistências sociais. S. Josemaria Escrivá, agudamente consciente disso, dizia: "Em primeiro lugar oração. Em segundo lugar, expiação. Em terceiro lugar, muito em terceiro lugar, ação". E é por isso, também, que a Igreja sempre submeteu a ação direta à contemplação, sendo o ato do amor a Deus e do sacrifício silencioso os maiores geradores de bens espirituais, dotados de uma eficácia que pode chegar às raias do infinito.

Eis, pois, o que se deve entender por Comunhão dos Santos. Saber que fazemos parte desta imensa amizade e que de modo algum estamos sozinhos é reconfortante e profundamente entusiasmante. Saber que quando rezamos e nos mortificamos, estamos nos unindo a um batalhão de outras pessoas e santos, é algo imensamente grandioso. Se o compreendermos, notaremos que há uma alegria descomunal subjacente a toda a vida espiritual. É a maior aventura que existe. Dizia o francês Léon Bloy que a única tragédia da vida é não ser santo. Depois de compreendermos tudo isso, haveremos de concordar. O pecado nos isola.. A santidade, no entanto, nos dá, desde esta vida, cem vezes mais amigos e irmãos.

Peçamos à Virgem Maria que nos dê a graça de apreciar dignamente esta imensa riqueza da qual fazemos parte. Que ela nos ensine a amar a Deus e a fazer o bem aos nossos irmãos, sejam aqueles que ainda labutam conosco neste exílio, sejam os que padecem no Purgatório. E que, enfim, ela nos dê a graça de vivermos e morrermos em estado de Graça para que, chegando a nossa hora, sejamos preservados da segunda morte e consumados neste feliz consórcio dos santos. Amém!

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Envie-nos também a sua pergunta: http://www.formspring.me/anjosdeadoracao

Recomendação de Blog: Não Acredite no Salvai Almas


Pessoal, venho divulgar o blog "Não acredite no Salvai Almas" e o seu grupo no Facebook, de autoria da Fiamma Falcone, ex membro do movimento e que, graças a Deus, despertou da ilusão. Hoje ela busca desmascarar o "Salvai Almas" e esclarecer outras pessoas que ainda dêem crédito aos disparates do Cláudio Heckert. Que Deus a recompense pela disposição e sinceridade.

Dia de Finados - Uma Reflexão Sobre a Morte e os Novíssimos

"Em todas as tuas obras, lembra-te dos teus novíssimos, e jamais pecarás". (Eclo 7,40) 

Hoje é dia dos finados e queremos falar de um tema que não é tão apreciado: a morte. Houve tempo em que se acusava os cristãos de um desejo quase mórbido pela morte, já que estes demonstravam uma alegria aparentemente irracional quando tratavam do assunto. Hoje em dia é totalmente o contrário: a maioria de nós evita falar ou até mesmo pensar nisso. Não à toa os santos nos parecem figuras estranhas. S. Bento, por exemplo, pedia para os monges lembrarem-se constantemente da morte. Isto é um aspecto importante no cristianismo e mais abaixo tentarei explicar o porquê.

Mas, primeiramente, pensemos: o que é a morte? O que acontece durante e depois? A vida cessa em absoluto? A pessoa entra num estado de inconsciência? Ou a alma mantém-se consciente? Será que ela fica a passear? 

É muito comum que mesmo os católicos de hoje estejam totalmente desinformados sobre o que ocorre e adiram, até sem má intenção, a pedaços de doutrinas diferentes, como a espírita ou a protestante.

Expliquemos, então. A morte é simplesmente a separação entre a alma e o corpo. Este último, quando não mais em condições de manter-se, chega a um estado de falência, a que denominamos morte. Porém, a alma, que existe e não é material, sobrevive e mantém a sua consciência. A alma é de natureza espiritual e, portanto, é naturalmente imortal.

Estritamente, então, não podemos dizer que alguém morre, mas que a morte se dá ou acontece em alguém, já que é apenas uma parte deste alguém que passa pelo processo de morte: o corpo. A alma humana é a sede da inteligência e da vontade, de modo que estas duas permanecem depois da morte. Isto significa que a pessoa permanece entendendo e conhecendo tudo quanto entendia e conhecia e, além disto, continua a amar e a detestar o que antes amava e detestava.

O que acontece, então, à alma? Ela passa por um julgamento particular onde toma consciência de toda a sua vida e de cada ato, cada sentimento, pensamento e intenção, porém sem os coloridos de sua vaidade. Ela os vê tais como foram, sem ludibriações. Se foi falsa e hipócrita, ela contempla sem disfarce sua falsidade e hipocrisia. Se foi boa e caridosa, do mesmo modo, ela o vê. Depois de ter passado por isso, ela mesma desejará o destino que lhe cabe. Há, aqui, três possibilidades. Essas possibilidades recebem o nome de novíssimos e são: a) O Inferno; b) O Purgatório; c) O Céu.

Difundiu-se, infelizmente, nos meios católicos a ilusão de que todos as pessoas, ao morrerem, iriam para o céu.  Há vários padres que sugerem isso. Contudo, isto não procede. É falso. Não temos nenhuma condição de afirmar que alguém em específico não se salvou, mas tampouco podemos dizer que todos se salvam. Nosso Senhor falou disso várias vezes.

Dos três novíssimos, dois são definitivos, isto é, são para sempre: o Inferno e o Céu. Se alguém cai num desses lugares ou estados - se são lugares de fato ou somente estados é um assunto controverso, embora eu defenda que sejam lugares reais -, nunca mais haverá a possibilidade de mudança. O Purgatório, ao contrário, é provisório, mas não deve ser entendido como um meio termo entre ambos. O Purgatório é, já, certeza do Céu. É um estado de preparação para que a alma, purificada de suas mínimas manchas, possa expor-se, depois, à contemplação da face de Deus, a que chamamos de "visão beatífica" e que é no que consiste o Céu. O grau de alegria disto é absolutamente inimaginável. S. Paulo o afirma ao dizer que os olhos não viram, os ouvidos não ouviram nem a mente humana jamais concebeu o que Deus tem preparado para os que O amam.

O Purgatório é, já, um estado imensamente feliz, pela garantia do céu. Mas não se deve supor que seja isento de sofrimentos. Bem ao contrário, costuma-se dizer que o menor sofrimento lá supera o maior daqui. É por isso que a Igreja nos pede rezar pelas almas que lá padecem, para que possam, o quanto antes, adentrar no felicíssimo gozo da visão beatífica. E nós, pelas nossas orações, podemos, sim, ajudá-las.

A comunhão que nós, da Igreja peregrina ou militante - que é esta que está ainda neste exílio da terra -, temos com a Igreja padecente - a das almas do Purgatório - e com a Igreja Triunfante - a do Céu - chama-se Comunhão dos Santos e é a isto que fazemos referência quando rezamos o Credo.

Os que vão ao inferno, porém, de lá nunca mais sairão e estão condenados a um sofrimento atroz, também inimaginável, e a um estado perpétuo de ódio a Deus. É a plena frustração do ser humano.

Portanto, quando alguém morre, não fica dormindo inconsciente. Nada disso! Passa por aquele juízo particular e, em seguida, adentra num dos novíssimos. Isto significa que tampouco fica a passear pelo mundo, feito desocupado. Tal não acontece.

O grande determinante para que não nos condenemos é morrermos na Graça de Deus, isto é, morremos sem estar em Pecado Mortal, pois assim, como dizia S. Francisco de Assis, a segunda morte não nos fará mal. Lembremos que o pecado mortal é destruído pela Confissão ou, em último caso, pela contrição perfeita que pode se dar na hora da morte. Isto, porém, não deve ser um objeto de nossa esperança, ou seja, não devemos esperar por esse momento para só então nos arrependermos.

Podemos afirmar também que os mortos não se comunicam com os vivos, a não ser por alguma determinação do próprio Deus. Tampouco vivem a aparecer-lhes ou assombrar-lhes. Nos casos em que essas manifestações de espíritos se comprovam, o que há é o incurso de seres angélicos, bons ou maus. Os anjos maus são chamados demônios.

A morte, é, pois, isto. Acima eu antecipava que é importante para um católico o ato de lembrar-se com uma certa frequência - mas sem nenhuma obsessão - da morte. Isto se dá porque a nossa religião, enquanto permanecemos aqui, é uma religião de exilados, de pessoas que estão caminhando para a Pátria que, por ora, está ainda num porvir. Este porvir deve ser objeto da nossa consideração e devemos buscar estar preparados para isto. Se alguém fosse morar em outro país, obviamente providenciaria para que tudo estivesse de acordo quando chegasse o momento de partir. No nosso caso, não sabemos quando será. Portanto, devemos estar constantemente preparados, com os rins cingidos, vivendo já desta espera. A lembrança do futuro pode tanto nos animar a seguir a doutrina de Cristo - quando pensamos no Céu e na alegria sem fim dos que aí residem - quanto nos atemorizar e nos impedir de cometer pecados graves - quando pensamos no imenso padecimento dos condenados. Isto também não deve nos fazer pensar que o caminho da virtude é uma via de mera barganha. Porém, isto já é assunto para uma outra postagem.

Neste dia em que lembramos os que já partiram desta vida, tomemos consciência da nossa condição mortal, de que a nossa vida aqui é passageira e de que, não obstante, somos almas imortais cujo destino será determinado pela nossa conduta aqui e pelo amor que tivermos a Nosso Senhor. "Aquele que me ama, cumpre os meus preceitos", diz Ele. Que Ele nos dê forças para cumpri-los. Não tenhamos medo de pensar na morte... 

Que a Virgem Maria nos auxilie, nos conduza, nos impeça de morrer - e viver - em pecado mortal, para que, quando o nosso dia chegar, estejamos preparados para entrar naquele bendito convívio, razão da nossa existência. Que pelos méritos infinitos da Cruz de Nosso Senhor, adquiramos a firme resolução de nos convertermos realmente. Amém.

"Minha vida é fugaz, brevíssimo segundo. Instante que me foge, Vós o sabeis.
Para amar-Vos, oh meu Deus, só tenho hoje."

Sta Teresinha de Lisieux

Fábio.

Dia de Todos os Santos.


Hoje é dia de todos os santos e, como costumamos falar, a santidade é a vocação de todos nós. Todos somos, sem exceção, chamados a este caminho, uma vez que Deus deseja que todos se salvem. Certa vez, num retiro final de uma turma de crisma, um dos presentes, sendo interrogado sobre se ele tinha um chamado à santidade, respondeu que só o fato de pensar isso já era pecado, rs.. E isso numa turma de crisma... Tal episódio fala bastante de como anda a formação de um imenso contingente católico e de como grande parte de nós possui uma noção totalmente equivocada do que seja a santidade. Parece-nos, às vezes, que ela consiste em algo semelhante à posse de super-poderes dados arbitrariamente por Deus a alguém que, desde o nascimento, se distinguia dos demais por meio de mil estranhices. Porém, a única coisa bizarra aqui é este tipo de idéia. Não.. a santidade não é nada disso.

O que significa ser santo, então? Também não significa passar pelo processo de canonização. Isso é outra coisa. Nem todos os santos passam por tal processo. Há uma imensidão de santos desconhecidos e que, nem por isso, deixam de sê-los. Meditemos, então, em qual seja o significado da santidade.

Primeiramente, há uma vocação ou chamado universal à santidade. Porém, estão em possibilidades de alcançar a santidade somente os católicos. Sabemos que este tipo de discurso, claro e inequívoco, fere as susceptibilidades modernas. É muito mais politicamente correto afirmar que qualquer um, em qualquer religião do mundo, pode alcançar a santidade. Mas, ao fazê-lo, cairíamos num tipo de pelagianismo ou naturalismo e provaríamos desconhecer de todo a dinâmica da graça. O chamado universal à santidade, portanto, não implica que qualquer um pode ser santo onde quer que esteja, isto é, em qualquer movimento religioso do qual faça parte. Ao contrário: o chamado universal à santidade identifica-se com o chamado universal ao catolicismo.

"E por que só os católicos? Que tipo de exclusão é essa? Nossa! Em pleno século XXI me aparece um sujeito falando uma asneira dessas de que só a religião dele é a certa, quando Jesus não instituiu nenhuma igreja, mas apenas veio pregar a prática do amor?", é o que dirão esses católicos modernos formados pelo romantismo e sincretismo propagado pela mídia e promovido por certos padres cantores e outros militantes da fraternidade universal maçônica. Mais uma vez, repetimos: quem defende tal tipo de coisa está mostrando claramente desconhecer os rudimentos da Fé Católica. Não se trata de um discurso gratuitamente intolerante; há razões lógicas profundas que fundamentam esta posição. E é muito difícil alguém chegar à santidade desconhecendo essas coisas.

Meditemos primeiramente no que seja a santidade e, depois, veremos o que seria necessário para alcançá-la. 

Todos nós fomos criados por Deus e fomos feitos segundo uma certa idéia que Deus teve de nós. Esta idéia precede a nossa existência. Uma vez que nós vimos ao mundo, vimos com uma certa correspondência fundamental àquela idéia divina: somos seres humanos, dotados de uma alma imortal. Porém, havia também naquela idéia ou arquétipo algo de absolutamente único para cada ser humano; uma vocação ou chamada específica e que correspondia a uma verdade íntima e profunda daquela alma em particular. Acontece que somos seres livres e que, portanto, podemos nos tornar o que, de fato, nós somos - isto é, o que Deus pensou quando nos fez -, ou podemos também nos tornar o que não somos, assumindo qualquer ideal diferente e que careça de outro fundamento a não ser o da nossa vaidade.

Quando nos tornamos o que, de fato, nós somos, então nos realizamos, pois todo o nosso ser adquire unidade e harmonia. Daí surge uma felicidade muito espontânea, de dentro para fora e que não apenas toca superficialmente a nossa vontade, mas a anima desde dentro. Esta correspondência com a vontade divina é a santidade. Poderíamos, então, dizer que a santidade nada mais é do que ser o que se é; optar pela verdade de si mesmo.

Quando, pelo contrário, escolhemos algum caminho que não corresponda ao que nós somos, então passamos a viver de ilusão; optamos por algo que não existe e, na verdade, nem pode existir. Decidimos sustentar algo insustentável e, então, o nosso ser se insere numa contradição. Neste sentido, não pode haver alegria em sentido estrito. O que geralmente há é a busca sucessiva de sensações que nos distraiam da falsidade do que nos tornamos, e uma angústia fundamental de fundo, motivo pelo qual as pessoas que aderem a isto estão buscando constantemente por distrações. Não gostam de se auto-observarem, pois então testemunhariam a fatuidade do que vivem.

Bem.. se assim é, por que diabos esta correspondência à verdade de si mesmo estaria vedada aos não católicos? "Isto não parece muto razoável", poderia pensar alguém. Acontece que, se estivéssemos, antes de optar por um caminho ou outro, totalmente neutros e tivéssemos uma mínima clareza sobre essas coisas, então todos estaríamos em condições de fazer boas escolhas. Contudo, uma vez que estamos na existência, trazemos em nós uma certa desordem interna - a concupiscência - que nos inclina à mentira, ao que nós não somos, ao oposto da santidade, ao oposto do chamado que recebemos - uma revolta fundamental - e que nos obscurece a visão, nos impedindo ou pelo menos dificultando uma reta consideração sobre o que somos de verdade.

Porém, há ainda outra dificuldade: mesmo que víssemos com clareza o que nós nos deveríamos tornar, ainda assim nos faltaria a força de empreender o caminho, visto que essas inclinações que trazemos na alma são como pesos que nos forçam para baixo, isto é, para o que não somos. Sozinhos não conseguimos, e este é o erro de todo naturalismo: ele ignora a nossa fraqueza, isto é, parte de um equívoco de avaliação. Este equívoco é, já, produto da concupiscência, o que equivale a dizer que o naturalismo ou pelagianismo é tão somente mais um mantenedor do atual estado de coisas, pois nos inebria com a suposição de uma força ilusória - nos fadando a um contínuo fracasso -, e nos impede de buscar a força lá onde ela de fato existe. E sem esta força ou ajuda não nos é possível sair deste buraco onde despendemos esforços vãos.

Esta força se chama Graça Santificante, e foi para nos conceder isto que Nosso Senhor veio a este exílio e padeceu por nós na Cruz. Dizer que qualquer um, em qualquer religião, pode acessar, pelas próprias forças e pelo bom mocismo, a salvação, é o mesmo que dizer que o que Jesus fez foi desnecessário. É ainda chamar o apóstolo de mentiroso, pois que ele afirma claramente: "nenhum outro nome nos foi dado pelo qual possamos ser salvos". Se deixarmos o romantismo um pouco de lado, compreenderemos. A Graça nos vem por meio de Jesus Cristo. E aqui reside outro problema: se formos fazer uma pesquisa dentre os católicos, interrogando sobre o que seja a graça, veremos as coisas mais estapafúrdias. A imensa maioria parte de idéias subjetivas confusas e faz da graça algo indefinido, sentimental, como se ela fosse infundida numa espécie de auto-projeção ou de disposição emocional a Deus. Mas nada disso é a Graça. 

A Graça é uma realidade objetiva que Deus mesmo infunde na alma e que sobrenaturaliza as nossas ações, concedendo-nos a força de praticar efetivamente o que Nosso Senhor nos pede, sem hipocrisias, e de irmos nos tornando aquilo que somos. A Graça nos é dada no batismo. É ela que nos insere numa vida verdadeiramente espiritual. Sem ela, as nossas ações, por melhores que sejam, ficam restritas às paredes do nosso egoísmo. É a Graça que nos eleva sobre nós mesmos e nos coloca sob os influxos da Paixão de Cristo. Ela - a Graça - é perdida no pecado mortal e é retomada na confissão. É por isso que, para alguém que leve a sério a vida evangélica, a prática da confissão deve ser algo a que se recorre muito frequentemente. Ora, em que lugar tais sacramentos se dão? Na Igreja Católica Apostólica Romana. Se alguém não está aí inserido, está confiado às suas próprias forças e, portanto, seus esforços, por maiores que sejam, estarão sempre limitados, pois ninguém, por si mesmo, consegue alcançar a altura da Graça. A Graça é, na verdade, uma vida de uma ordem absolutamente outra, de modo que uma alma receber este dom em si constitui uma maravilha ainda maior que a criação do universo. E é somente pela Graça que podemos ter a esperança da santidade.

Portanto, que fique claro: todos somos chamados à santidade, e esta não é mais que a nossa correspondência ao que de fato nós somos. Para alcançarmos isto, é mister saber o que nós somos e, para sabê-lo, é preciso ter os olhos claros para considerar as coisas retamente. Uma vez que as consideramos de modo correto, cumpre empreender o esforço para alcançar tal termo. Tal, porém, está muito acima das nossas possibilidades naturais, pelo que nos tornamos absolutamente necessitados de um auxílio. Este auxílio é dado por Deus e consiste na Graça Santificante que obtemos por meio do batismo, perdemos no pecado mortal, e recuperamos pela Confissão. Uma vez que mantemos a Graça na alma e empreendemos com firmeza o combate interior, rejeitando o pecado - sobretudo, o mortal - a Graça vai estabelecendo-se na alma e dilatando-se nela. Neste processo, ela dilata também outros dons da própria alma e vai fazendo arrefecer a força dos vícios, fazendo avançar nos estágios que existem na via da perfeição. Esta correspondência ao que se é vai identificando-se com a semelhança com o próprio Cristo, nosso modelo de vida, Aquele que nos ensina a verdade sobre nós mesmos.

Quando, no dia de hoje, celebramos a memória de todos os santos, celebramos na verdade a vida de uma infinidade de pessoas que foram dóceis à Graça de Deus e fiéis à verdade de si mesmos, configurando-se ao próprio Cristo. Todos eles, provenientes de todos os lugares e de todas as épocas, nos aparecem como provas evidentes de que este caminho é verdadeiro, e possível. Aquilo que eles manifestam em suas vidas é uma demonstração clara do que Deus está disposto a fazer para nos ajudar, se formos generosos. A santidade, enfim, se identificará com a felicidade e a alegria mais íntima. Deus nos quer felizes e, por isso, nos quer santos. Neste dia, pensando naqueles que já nos precedem no Reino dos Céus e que gozam da inimaginável alegria da contemplação da Sua face, ardamos, também nós, no desejo de chegar um dia ao Céu e, animados pelos seus exemplos e pela heroicidade da vida dos santos, nos dediquemos inteiramente a este ideal. Que S. Domingos Sávio nos inspire para que, com ele, possamos também dizer: "Se eu não for santo, serei um fracasso".

Que Virgem Maria, Rainha de todos os santos, nos conduza nesta jornada. Amém.

Abaixo, uns poucos deles, rs...

Diligência III - As Prioridades


"Faz o que deves", para um cristão, não é o simples imperativo do dever, da obrigação. É a Vontade do seu Senhor. O que é que Deus quer que eu faça em primeiro lugar? Quais são as tarefas prioritárias no dia de hoje, aos olhos de Deus? Isto é o que interessa, o verdadeiramente "necessário".

Pensando friamente no dever, poderíamos chegar todos os dias à noite e acalmar a consciência, dizendo-nos: "Não fiz outra coisa senão trabalhar seja na fábrica ou no escritório, no lar, na escola ou onde quer que se cumpra a obrigação cotidiana.

Em face de Deus, porém, as coisas são diferentes. O Senhor nunca vai sugerir-nos que abandonemos ou descuidemos as nossas obrigações. Mas frequentemente, se soubermos escutá-lo, dirá: hoje, o que é prioritário para ti é dar o passo decisivo para te reconciliares com o teu marido, e acabar de vez com esse mutismo causado pelo teu orgulho ferido; hoje, não deixes de procurar, lá no escritório, um momento propício para conversar com esse colega que anda cada vez mais desorientado e precisa de uma palavra amiga que o encaminhe; hoje, aproveita o intervalo do almoço, e vai consultar com um sacerdote esse problema de consciência que te atormenta, e cuja resolução já adiaste demais; hoje, começa a pôr em prática o propósito de te levantares antes, de rezar a oração da manhã com pausa e ler umas palavras do Evangelho, que sejam luz para o coração ao longo do dia...

Mas essa voz, essas "palavras" do Senhor, só podem ser ouvidas - é preciso insistir neste ponto - se soubermos recolher-nos em silêncio na presença de Deus, pensar sinceramente na nossa vida e fazer oração.

Todos os cristãos deveríamos estabelecer e manter - e defender como algo de sagrado - pelo menos dez ou quinze minutos diários dedicados à meditação e ao exame da vida na presença de Deus: de manhã, antes de iniciar as atividades; ou pouco antes de recolher-nos para descansar; ou aproveitando a possibilidade de visitar uma igreja numa hora tranquila, quando o silêncio do templo convida ao diálogo íntimo com Deus... Porque é nesses momentos que a alma, com a graça divina, se torna transparente, se liberta da terrível força centrífuga do ativismo, e consegue voltar para o seu centro, esse "centro da alma" de que falam os místicos, onde se encontra com Deus. Para quem quer escutá-lo, aí Deus sempre fala.

E a voz de Deus - como antes lembrávamos - é a que nos esclarece as prioridades e ajuda a hierarquizar pela ordem de importância, os deveres a cumprir. Assim, estamos em condições de "escolher" com "atenção esmerada e cuidadosa". Passamos a ser diligentes.

É importante, neste ponto, perceber que o fato de um dever ser prioritário não significa, via de regra, que se lhe tenha que dedicar maior quantidade de tempo. Há duas maneiras de dar prioridade a alguma obrigação, sem necessidade de prejudicar o tempo exigido pelas ocupações habituais.

Em primeiro lugar, vive-se uma tarefa como prioritária quando se dá importância primária à qualidade com que se realiza. Assim, a um homem que deve trabalhar por longas horas para sustentar a família, Deus muitas vezes lhe sugerirá: no dia de hoje, é prioritário dar ouvidos às preocupações da tua esposa, dedicar uma palavra de estímulo àquele filho. Isto não significa que Ele nos peça um tempo de que não dispomos. Pede-nos, sim, que, dentro do pouco tempo disponível, demos maior qualidade - qualidade de carinho, de intensidade de interesse, de afabilidade - ao relacionamento com os da nossa casa.

Há ainda uma segunda maneira de dar prioridade a um dever, cuja importância percebemos meditando na presença de Deus: a prioridade cronológica. Não a que consiste - repitamos de novo - em lhe dedicar longo tempo. Mas a que consiste em fazê-lo quanto antes.

Pensemos, a esse respeito, na facilidade com que empurramos para depois deveres que certamente julgamos primordiais. Temos consciência de que alguma coisa é importante e não pode ser largada; mas iludimo-nos, dizendo: "Mais tarde"; ou então: "Logo que me sobrar um pouco de tempo". Infelizmente, esse tipo de reações é frequente quando se trata de deveres ara com Deus: missa dominical, oração, etc., ou de deveres relacionados com o serviço do próximo.

Seria lamentável que reservássemos para esses deveres, que consideramos importantes - e que são ressonâncias de apelos divinos -, somente as sobras do tempo. No entanto, é isto o que fazemos com frequência: deixar o refugo do nosso tempo para as exigências do amor de Deus e do amor ao próximo. E aí não há diligência, porque não há amor. A diligência acha sempre o modo de preservar as precedências. A diligência ama o antes e detesta o depois.

Francisco Faus, A Preguiça. São Paulo: Quadrante, 1993. pp. 30-33

Divulgando - Site de Contos

Quero divulgar o excelente site de contos de um rapaz que conheci hoje, o Ariovaldo. 
É, de fato, excelente!


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