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Dois pastores protestantes debatem sobre a Igreja Católica


O relato abaixo trata-se de uma conversa verídica entre o Prof. Scott Hahn, então teólogo presbiteriano e doutor em Bíblia, que estava em vias de se tornar católico por causa dos seus estudos sobre a Escritura, e o Prof. Doutor Gerstner, teólogo calvinista formado em Harvard e de postura anticatólica, última esperança de Scott, de seu amigo Gerry e de sua esposa Kimberly no intuito de dissuadi-lo da sua iminente conversão àquilo que, então, eles chamavam, nas palavras do Prof. Gerstner, "a sinagoga de Satanás". Hoje, dia da instituição do Sacerdócio ordenado e da Santíssima Eucaristia, o blog traz mais esta postagem especial. Boa leitura.

***

A certa altura, perguntou-me [o prof. Gerstner]:

- Scott, que suporte bíblico encontra você para o Papa?

- Doutor Gerstner, o senhor recorda como o Evangelho de Mateus enfatiza o papel de Jesus como filho de David e Rei de Israel, enviado pelo Pai para inaugurar o Reino dos céus? Creio que Mateus 16, 17-19 nos mostra como Jesus estabeleceu esse Reino. Deu a Simão três coisas: primeiro, um novo nome, Pedro (ou Pedra); segundo, o seu compromisso de edificar a sua Igreja sobre Pedro; e, terceiro, as chaves do Reino dos Céus. É este terceiro aspecto que me parece mais interessante.

Quando Jesus fala das "chaves do Reino" está se referindo a um importante texto do Antigo Testamento, Isaías 22, 20-22, onde Ezequias, o herdeiro do trono real de David e rei de Israel nos tempos de Isaías, substitui o seu velho primeiro ministro, Chebna, por um novo, chamado Eliacim. Qualquer pessoa podia dizer qual dos membros do gabinete real era o novo primeiro ministro, pois tinham-lhe sido entregues as chaves do Reino. Ao confiar a Pedro "as chaves do Reino", Jesus estabelece o cargo de primeiro-ministro para administrar a Igreja como o seu Reino na terra. Portanto, as "chaves" são um símbolo da missão e do primado de Pedro, para ser transmitido ao seu sucessor; assim foi sendo transmitido ao longo das épocas.

- É um argumento muito engenhoso, Scott - replicou.

- E como o refutamos nós, os protestantes?

- Bom, não creio tê-lo ouvido antes. Teria que pensar sobre isso um pouco mais. Continua com os outros argumentos.

prossegui então descrevendo como a família da Aliança era o princípio central ou a idéia-chave da fé católica. Explica Maria como nossa Mãe, o Papa como nosso pai, os santos como nossos irmãos e irmãs, e as celebrações e dias de festa como festas de aniversário.

- Doutor Gerstner, tudo isso adquire significado quando se considera a Aliança como o ponto central da Escritura.

Ele escutava atentamente.

- Scott, acho que você está levando longe demais este assunto da Aliança.

- Talvez tenha razão, doutor Gestner, mas estou totalmente convencido de que a Aliança é central em toda a Escritura, tal como ensinaram os grandes protestantes João Calvino e Jonathan Edwards; só que também estou convencido de que a Aliança não é um contrato, como eles pensaram, mas antes um vínculo familiar sagrado entre Deus e o Seu povo. Se estou enganado em alguma destas questões, mostre-me onde, por favor. Poderia salvar a minha carreira.

Ele respondeu:

- Espera até nos encontrarmos com Gerry.

Uma vez chegados ao lugar da reunião, estivemos durante horas e horas a esmiuçar uma grande quantidade de temas, mas sobretudo a questão da justificação. Apresentei a perspectiva católica, segundo a qual a justificação não é apenas uma mera absolvição mas, à luz do Concílio de Trento, uma divina filiação. Durante seis horas, Gerry e eu apresentamos vários pontos de vista católicos; nenhum foi refutado.Colocamos também muitas perguntas que não tiveram uma resposta satisfatória.


Ao terminar, Gerry e eu olhamos um para o outro: ambos estávamos pálidos. Para nós, havia sido um choque. Tínhamos desejado e rezado para que alguém nos livrasse da humilhação de termos de nos converter.

Num momento em que ficamos sozinhos, disse-lhe:

- Gerry, sinto-me atraiçoado pela nossa tradição Reformada. Vim aqui pensando que íamos ser salvos das águas; mas a Igreja Católica não perdeu um único ponto. Os textos do Concílio de Trento foram tomados fora do contexto. Sem se dar conta, o Concílio tem sido mal interpretado em seus cânones, ao desligá-los das definições formuladas nos decretos.

Na volta para casa, falei muito mais com o doutor Gerstner. Pedi-lhe que me mostrasse onde é que a Bíblia ensina a doutrina da sola Scriptura. Mas não me deu um único argumento novo. Em vez disso, colocou-me uma pergunta:

- Scott, se você concorda que agora nós possuímos a Palavra de Deus inspirada e sem erros na Escritura, o que mais pode nos faltar?

Respondi:

- Douor Gerstner, não creio que a questão principal seja saber o que é que precisamos. Mas uma vez que o pergunta, exponho-lhe o meu ponto de vista. Desde a época da Reforma, foram surgindo mais de vinte e cinco mil diferentes confissões protestantes, e os especialistas dizem que na atualidade surgem cinco novas por semana. Cada uma delas afirma seguir o Espírito Santo e o sentido autêntico da Escritura. Deus sabe que devemos precisar de algo mais.

O que eu quero dizer, doutor Gerstner, é que quando os fundadores da nossa Nação nos deram a Constituição, não se contentaram apenas com isso. Imagine o que teríamos hoje se a única coisa que nos tivessem dado fosse um documento, por muito bom que fosse, junto com a recomendação "que o espírito de George Washington guie cada cidadão"? Teríamos a anarquia, que é precisamente o que temos nós, protestantes, no que se refere à unidade da Igreja. Em vez disso, os nossos pais fundadores deram-nos algo mais do que a Constituição; deram-nos um Governo - formado por um Presidente, um Congresso e um Senado - todos eles necessários para aplicar e interpretar a Constituição. E se isso é necessário para governar um país como o nosso, o que é que será necessário para governar uma Igreja que abarca o mundo inteiro?

É por isso, doutor Gerstner, que começo a acreditar que Cristo não nos deixou apenas com um livro e o seu Espírito. Aliás, o Evangelho não diz uma única palavra aos apóstolos a respeito de que deviam escrever; além disso, só menos da metade dele escreveram livros que foram incluídos no Novo Testamento. O que Cristo disse realmente - a Pedro - foi: "Sobre esta pedra edificarei a Minha Igreja... e as portas do inferno não prevalecerão contra ela". Por isso, vejo mais lógico que Jesus nos tenha deixado juntamente com a sua Igreja - composta por um Papa, Bispos e Concílios - tudo o que é necessário para administrar e interpretar a Escritura.

O doutor Gerstner fez uma pausa para pensar.

- Tudo isso é muito interessante, Scott, mas você disse que não acha que esse seja o tema principal. Qual é então para você o tema principal?

- Doutor Gerstner, creio que a questão principal é o que a Bíblia ensina sobre a Palavra de Deus, já que em nenhum lugar reduz a Palavra de Deus apenas à Escritura. Pelo contrário, a Bíblia diz-nos em muitos lugares que a autorizada Palavra de Deus deve buscar-se na Igreja: na sua tradição (2 Tes 2,15; 3,6), assim como na sua pregação e ensino (1Ped 1,25; 2Ped 1,20-21; Mt 18,17). Por isso, penso que a Bíblia apoia o princípio católico de solum verbum Dei, "só a Palavra de Deus", em vez do princípio protestante sola Scriptura, "só a Bíblia".

O doutor Gerstner respondeu insistindo, uma e outra vez, que tanto a Tradição católica, como os Papas e os concílios ecumênicos, todos eles ensinaram coisas contrárias à Escritura.

- Contrárias a que interpretação da Escritura? - perguntei. - Além disso, todos os historiadores da Igreja estão de acordo em que recebemos o Novo Testamento do Concílio de Hipona, no ano 393, e do Concílio de Cartago, no ano 397, e ambos enviaram as suas decisões a Roma, para serem aprovadas pelo Papa. O senhor não acha que do ano 30 ao 393 é demasiado tempo para estarmos sem Novo Testamento? Além disso, havia muitos outros livros que as pessoas de então pensavam que poderiam ser inspirados, como a Epístola de Barnabé, o Pastor de Hermas e os Atos de Paulo. Havia também múltiplos livros do Novo Testamento, como a Segunda Carta de Pedro, a Carta de Judas e o Apocalipse, que alguns consideravam que deviam ser excluídos. Afinal, que decisão seria digna de crédito e definitiva se a Igreja não ensinasse com autoridade infalível?

O doutor Gerstner replicou em tom calmo:

- Os Papas, os bispos e os concílios podem enganar-se e de fato se enganaram. Scott, como é que você pode pensar que Deus tornou Pedro infalível?

Refleti durante um momento.

- Bem doutor Gerstner, tanto protestantes como católicos estão de acordo em que Deus deve ter tornado infalível Pedro pelo menos em duas ocasiões: quando escreveu a Primeira e a Segunda Epístola de Pedro, por exemplo. Ora, se Deus o pode tornar infalível para ensinar com autoridade por escrito, proque é que não podia preservá-lo do erro ao ensinar com autoridade em pessoa? Do mesmo modo, se Deus pode fazer isso com Pedro e com os outros apóstolos que escreveram a Escritura, por que não podia fazer o mesmo com os seus sucessores, especialmente ao prever a anarquia a que se chegaria se não o fizesse? Por outro lado, como podemos estar seguros de que os vinte e sete livros do Novo Testamento são em si mesmos a infalível Palavra de Deus se foram Papas falíveis e concílios falíveis que nos deram essa lista?

Nunca esquecerei a sua resposta:

- Scott, isso significa simplesmente que o que podemos ter é uma coleção falível de documentos infalíveis.

- Isso é realmente o melhor que o cristianismo protestante histórico consegue proporcionar?

- Sim, Scott, tudo o que podemos fazer são juízos prováveis baseados na evidência histórica. Não temos nenhuma outra autoridade infalível além da Escritura.

- Mas, doutor Gerstner, como eu posso saber que é realmente a Palavra de Deus infalível o que estou lendo quando abro Mateus ou Romanos ou Gálatas?

- Como te disse, Scott, tudo o que temos é uma coleção falível de documentos infalíveis.

Senti-me muito insatisfeito com as suas respostas, embora soubesse que apresentava com toda a honestidade as teses protestantes. Fiquei ali sentado, meditando no que ele dissera sobre a última fonte da autoridade, e sobre a inconsistência lógica da posição protestante.

A minha única resposta foi:

- Bom, se as coisas são assim, doutor Gerstner, acho que devemos ter a Bíblia e a Igreja. Ou as duas ou nenhuma!

HAHN, Scott. Todos os caminhos levam a Roma. São Paulo: Cléofas, 2013. p.97-103.

6 anos do Blog GRAA - Deo Gratias - Postagem especial: Existência e Possibilidade


Agradecemos a Deus pelos 6 anos completados desde o início deste blog. De lá para cá, aprendemos muito e pudemos, também, dar frutos, graças a Deus. Que este apostolado persista até quando Deus quiser. E, para comemorar, colocamos um artigo do Olavo de Carvalho que nos pareceu, como de costume, genial. Desfrutem da leitura e rezem por nós.

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Existência e Possibilidade

Para ler as partes principais do Livro I da Suma contra os Gentios, é preciso colocar-nos, mentalmente, no nível de abstração e universalidade requerido pelo assunto. Sto. Tomás aí trata da origem primeira de tudo o que existe. Não se trata, portanto, de imaginar uma "força" que aja de algum modo sobre as "coisas", pois isso não só pressupõe a existência de coisas, mas define o agente, de modo errôneo, por uma noção transitiva, a de "força", quando é claro que a idéia mesma de um movimento transitivo exige a de algo em direção ao qual ele transita. Trata-se, isto sim, de compreender que, se "existência" é o estado daquilo que existe, ela própria não pode existir nesse sentido, pois então se reduziria a um existente entre outros. Também não se pode compreender a existência como a soma ou conjunto daquilo que existe, pois nesse caso ela não teria nenhum atributo próprio senão aqueles que estão nos existentes ou aqueles que resultam das relações entre eles e, portanto, nada seria por si mesma. 

Para apreender a noção de existência você tem de fazer um esforço de imaginação para conceber a total inexistência do que quer que seja. Suprima o cosmos, suprima a História, suprima todos os entes reais ou irreais, suprima até mesmo a consciência humana (a começar pela sua própria), e tente conceber o que sobra. É o nada? Sim, certamente o nada. Mas não o nada absoluto, porque sabemos que existe alguma coisa e, se algo existe, é porque é possível. Excluídos todos os existentes, sobra um nada, mas um nada cheio de possibilidades. Se você excluir mesmo essas possibilidades, terá declarado que tudo é impossível, mas você sabe que algo é possível, já que algo aconteceu. O nada que sobre quando suprimidos todos os existentes não é pois propriamente um nada, mas um feixe de possibilidades. Quais possibilidades? Todas as que se realizaram e todas as que ainda podem se realizar. Isso é o que chamamos "existência": a possibilidade de que os existentes existam.

A possibilidade dos existentes não existe como eles existem: existe independentemente deles - eles é que dependem dela. Mais ainda: a possibilidade transcende infinitamente os existentes, pois abrange também todas as relações possíveis entre eles. O conjunto das relações possíveis entre os existentes não pode ser deduzido da soma dos atributos de todos eles, pois há possibilidades acidentais que não derivam desses atributos. Para cada conjunto de atributos de um ente, há em volta um conjunto imensamente maior de acidentes possíveis, e estes, se são possíveis, fazem parte da possibilidade, estão contidos naquele "nada" que você encontrou ao suprimir mentalmente a totalidade do que existe.

A palavra "possibilidade" é usada, no dia a dia, apenas como medida de uma conjetura que fazemos sobre este ou aquele ente, sobre este ou aquele conjunto de entes. Mas uma coisa é a possibilidade considerada ao nível dos entes, outra é a possibilidade considerada em si mesma, acima e antes da existência de qualquer ente. No primeiro sentido, a possibilidade é uma relação entre entes. No segundo, é a própria constituição desses entes como "essências". A palavra "essência" designa o que um ente é, independentemente de ele existir ou não. Como cada ente existente é alguma coisa, tem alguma essência, e como tudo aquilo que existe é necessariamente possível, é forçoso concluir que, no plano da possibilidade pré-existente, todas as essências já eram o que viriam a tornar-se na existência real. 

Ora, entre as essências existem relações lógicas incontornáveis, independentes e prévias à existência dos entes que as manifestam. Os entes matemáticos ilustram isso de uma maneira esplêndida: antes de que existisse qualquer objeto esférico, os pontos da superfície da esfera já eram eqüidistantes do seu centro; antes de existir um quadrado, já era forçoso que, cortado pela diagonal, o futuro quadrado resultasse em dois triângulos isósceles. Portanto, se todas as essências estavam presentes na possibilidade total antes que qualquer ente a elas correspondente viesse à existência, temos de admitir também que todas as relações lógicas entre todas as essências possíveis já estavam contidas na possibilidade total. 

Mas entre os entes há relações que, sem ser ilógicas, são alheias à lógica, no sentido de que não podem ser deduzidas das essências: são as relações acidentais. Se essas relações não estivessem contidas na possibilidade total, seriam impossíveis e portanto jamais apareceriam na existência; como aparecem, é necessário concluir que estavam.

Pergunte agora como todas essas essências e todas essas possibilidades estavam na possibilidade total. Estariam lá de maneira confusa e mesclada, só vindo a tornar-se distintas ao longo do processo da existência? Seria o mesmo que dizer que, no curso da sua vinda a existência, essas essências realizaram uma possibilidade que não estava na possibilidade total, ou seja, uma possibilidade impossível. As essências e suas relações, inclusive acidentais, estão todas presentes na possibilidade total, e estão lá em modo perfeitamente ordenado e límpido. 

O nada que você encontrou ao suprimir todos os existentes começa a se parecer cada vez menos com um nada: ele é antes a ordem prévia de todas as possibilidades manifestadas no curso da existência.

Pergunte agora a si mesmo se a possibilidade universal pode ser concebida apenas como um sistema teórico, hipotético, passivo e inerme, de equações ou relações lógicas quaisquer, sem nenhuma existência efetiva. A resposta é clara: se a possibilidade total não existe, não existe possibilidade nenhuma. A possibilidade universal não existe, portanto, como possibilidade no sentido fraco da palavra, como quando dizemos que um jogo de xadrez tem a possibilidade de terminar com a vitória das negras ou das brancas. Ao contrário: contendo em si todas as possibilidades da existência, ela abrange e contém a existência - toda a existência.

A existência deriva da possibilidade, e não esta daquela. Contendo em si a existência, ela nem pode ser inexistente, nem pode "existir" como existem os entes: ela tem uma modalidade especial de existência. Como diriam os filósofos escolásticos, ela existe de modo eminente (eminenter). Contendo em si a existência na sua totalidade, bem como a inexistência que limita a existência, ela é a existência da existência.

Agora que entenderam isso, comecem a ler a Suma Contra os Gentios.

Olavo de Carvalho. A filosofia e seu inverso. São Paulo: Vide Editorial, 2012. p.105-112.

Semana Santa - Reviver mais que relembrar


Hoje damos início à grande Semana Santa, época em que revivemos os sagrados e profundos mistérios da Redenção. Utilizamos o termo "reviver" ao invés de "relembrar" porque o contato com as realidades em questão não se darão apenas a nível mental, mas, antes, a nível existencial. Lembrar, mais do que receber a influência de algo, é reconstruir psicologicamente um fato ocorrido, motivo pelo qual a fidelidade entre a lembrança e o fato em si pode não ser - e geralmente não é - total. A nossa relação com Deus, portanto, não pode ser baseada numa construção nossa, sob pena de seguirmos uma invenção da nossa cabeça. Expressamos melhor o que ocorre quando falamos de "intuição", isto é, do contato passivo do nosso ser diante de uma presença externa e real.

Isto com que teremos contato, porém, é aquilo que aconteceu no passado, há quase dois séculos. Sabemos que as realidades passadas só podem ser abordadas de modo indireto, uma vez que o passado, em si mesmo, é inacessível. Não se muda o passado pelo fato de contá-lo diferentemente. O que ocorreu já ocorreu, e se tornou, depois disso, inacessível a não ser memorativa, simbólica ou discursivamente. De que modo, então, poderíamos ter um contato real com as realidades da Redenção, já que elas se deram há tanto tempo?

Vejamos...

Primeiramente, tomemos a pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo. Na leitura de hoje, Paulo nos diz que Ele se esvaziou de Si, e é por isto que Ele se encarnou no seio da Santíssima Virgem. Ao fazê-lo, Jesus, que é de natureza divina, assume também a natureza humana. Enquanto Deus, Jesus não vive no tempo, mas fora dele. O tempo, isto é, o suceder gradativo dos fatos, isto que dividimos em passado, presente e futuro, é só mais uma criatura de Deus. Deus não depende dele. O Seu modo de vida é atemporal, isto é, fora do tempo. No entanto, a partir da Encarnação, Jesus passa a viver também no tempo histórico, como um verdadeiro homem que foi. Temos então o seguinte: Jesus é homem e Deus; enquanto homem, vive temporalmente; enquanto Deus, vive atemporalmente. Quando duas naturezas andam unidas, a natureza superior tende a elevar os atos da natureza inferior à sua dignidade. Tomemos por exemplo o próprio ser humano: somos a união de corpo material e alma espiritual numa só pessoa. Em virtude disso, os nossos atos físicos tendem a ser elevados à dimensão espiritual por causa da nossa alma. Também em Jesus, os atos humanos eram elevados à dimensão divina. E, assim, aquilo que ocorria historicamente assumia um alcance eterno.

É exatamente por isso que a Santa Missa é possível: embora ela tenha ocorrido historicamente, por ser ato de um Deus, ela não cabe no tempo, e como que o transborda. Deste modo, por ser atemporal, ela se torna disponível a qualquer tempo. É por isso que a Missa é celebrada por Jesus ainda antes de Ele sofrer historicamente a Sua Paixão. É também por isso que a Virgem Maria é preservada do pecado, pois tal preservação foi também um efeito da Redenção, embora tenha ocorrido vários anos antes do fato histórico da Cruz. É nisto que reside ainda o fundamento da afirmação de João Paulo II, segundo a qual, na Missa, somos transportados ao Calvário.

Pois bem. Ocorre que não apenas a Santa Missa está disponível para nós, mas toda a vida do Cristo. Isto é dito pelo monge trapista Thomas Merton que aproveitava desta verdade para ensinar que podemos consolar realmente a Jesus durante a Sua agonia no Getsêmani. Se vigiarmos com Ele, de fato estaremos com Ele. Sta Teresa D'Avila, por sua vez, afirmava que nisto consistia a sua meditação favorita: em fazer companhia ao Cristo na noite da Sua agonia. Ela dizia que costumava ficar sentada, ao lado, em silêncio, diante do Deus que sofria e suava sangue, carregado que estava pelo pecado de toda a humanidade. Lemos, ainda, no livro "Ele e eu", da mística moderna Gabrielle Bossis, uma passagem em que o Cristo lhe diz enquanto ela tomava um suco: "que alegria me darias se, durante o momento em que tomas este suco, pensasses em mim, na minha sede durante o Calvário, e o oferecesses por mim".

Ao nos depararmos com esta possibilidade imensa, que é a de fazer companhia a Jesus, de fato, durante toda a Sua vida e, em especial, na Sua Paixão, onde Ele humildemente nos pede para vigiar com Ele, pois Sua alma está triste até a morte, que mais devemos fazer senão ouvir-Lhe a voz e Lhe obedecer, não tanto como uma obrigação, mas, antes, como um privilégio único?

Nestes dias que se avizinham, nós podemos não somente relembrar, mas reviver os fatos centrais da nossa Fé. Contemplaremos realidades que, não obstante serem invisíveis e estarem veladas sob os símbolos litúrgicos, estão concretamente presentes e podem ser, por baixo dos símbolos, intuídas. É um tempo em que o Mistério se adensa. Mesmo que não tenhamos vivido a quaresma do modo que deveríamos, relembremos dos trabalhadores da undécima hora, e aproveitemos este restinho de quaresma e o tríduo pascal para que, fazendo companhia a Jesus e participando da Sua morte, como membros Seus que somos, possamos também participar da Sua ressurreição.

Que a Virgem Maria, mãe do Verbo de Deus, nos fortaleça e nos ensine a amar Jesus.

Fábio.

A confissão existe desde o início do cristianismo


Nas catacumbas de Roma e nos monumentos dos primeiros séculos cristãos encontram-se vestígios tão numerosos e tão claros da confissão, que até mesmo o historiador protestante Edward Gibbon, malgrado o ódio contra a religião, reconhece que "o homem instruído não pode resistir ao peso da evidência histórica que confirma a confissão como um dos principais pontos da doutrina papista (isto é, católica) em todo o período dos quatro primeiros séculos." Ele menciona os quatro primeiros séculos porque, a partir do século V, já ninguém tem dúvidas quanto a isso.

Monsenhor de Ségur. A confissão. Rio de Janeiro: Castela, 2013. p.19-20.

A imortalidade como premissa do método filosófico


Olavo de Carvalho

Se somos imortais, temos de sê-lo em essência e não por acidente. A imortalidade é então a nossa verdadeira condição e o plano de realidade no qual efetivamente existimos. Nesse caso, a presente vida corporal não é senão uma fração diminuta da nossa realidade, uma aparência momentânea que encobre a nossa verdadeira substância. Em consequência, todo o conhecimento que podemos adquirir dentro dos limites da existência corporal é apenas uma aparência dentro de uma aparência. Ainda que apreenda porções genuínas da realidade, não pode ter em si seu próprio fundamento, mas tem de buscá-lo na esfera da imortalidade.

Tudo isso é bem claro. O que confunde as coisas é que o termo "imortalidade", na presente cultura, adquiriu a conotação de algo que só se manifesta - se existe - depois da morte física. Esconde-se aí uma sugestão inteiramente absurda: somos mortais em vida, mas "tornamo-nos" imortais após a morte, como se a morte fosse a passagem a um estado de existência radicalmente separado, heterogêneo e incomunicável com a vida presente. É nesse pressuposto que repousa toda a esperança de um conhecimento puramente imanente, sem referências ao "além". Se a imortalidade existe, essa esperança é tão absurda quanto o pressuposto que a sustenta. Se temos uma vida que transcende toda duração, essa vida transcende, e portanto abrange, em vez de excluir, a sua fatia imersa em duração. Se somos imortais, temos de sê-lo agora, desde a vida presente, em vez de sermos, por assim dizer, imortalizados pela morte. A morte não pode imortalizar o mortal: só pode tornar manifesta a imortalidade preexistente e impugnar, no mesmo ato, a ilusão da mortalidade.

Mas, se já somos imortais nesta vida, é claro que não podemos conhecer adequadamente esta última senão à luz da imortalidade: o conhecimento mortal da vida mortal é o conhecimento ilusório de uma ilusão.

O esclarecimento da imortalidade torna-se assim uma exigência primeira do método filosófico: ou demonstramos que a imortalidade não existe ou, caso a aceitemos ao menos como hipótese, temos de fundar nela toda a possibilidade de um conhecimento efetivo da realidade.

Demonstrar que a imortalidade existe pode ser difícil, mas provar que ela não existe é impossível: todas as provas estariam limitadas ao acessível na vida presente, em nada debilitando a possibilidade de que haja algo para além dela. Já as provas da imortalidade nada perdem com essa limitação, de vez que a vida presente está dentro da vida imortal e o que se sabe de uma pode revelar algo da outra.

As provas, no entanto, de nada servem se, uma vez obtidas, não modificam em nada o hábito reflexo de raciocinar a partir da vida presente como se esta fosse um todo fechado e auto-suficiente - hábito que tanto pode fundar-se na negação quanto na afirmação da imortalidade.

A própria busca de provas cientificamente válidas, obrigantes, portanto, para toda a comunidade dos estudiosos, já tende a fazer da existência presente a medida da vida imortal, já que, na escala desta última, a autoridade humana da comunidade científica não conta para absolutamente nada.

De um lado, a prova científica da imortalidade não dá a ninguém, por si, uma consciência de imortalidade pessoal e muito menos a força para operar a passagem de nível desde uma cognição baseada na experiência temporal a outra fundada no senso de imortalidade.

De outro lado, quem quer que tenha operado esta passagem não precisa de provas científicas daquilo que lhe foi dado em experiência pessoal direta. Pode usar essas provas como meios pedagógicos para estimular os outros a buscar experiência idêntica, ou para tapar a boca de adversários da imortalidade, mas esses dois objetivos são menores e secundários em comparação com a experiência em si.

A expressão "experiência da imortalidade" é, decerto, metonímica. Designa o objeto da experiência por uma de suas partes, subentendendo que esta requer incontornavelmente a existência do todo. Deve-se falar de experiências de cognição extracorpórea, ou mais propriamente supracorpórea, estando aí implícito que, se a consciência opera fora e acima do corpo, não tem por que morrer quando ele morre.

Essas experiências não são necessariamente "paranormais". Qualquer um pode ter acesso a elas, contanto que se prepare para isso mediante uma série adequada de meditações. Em geral não se trata de perceber objetos à distância, ou futuros, mas de tomar consciência daquilo que, na percepção comum e corrente, já é supracorpóreo embora não seja percebido habitualmente como tal. Tão logo você assuma consciência dos elementos supracorpóreos que perpassam e fundamentam a percepção corporal, sua noção de "eu" vai modificar-se automaticamente. Quando digo "assumir consciência"quero dizer que há aí algo mais que um simples ato de percepção isolado ou mesmo repetido. "Assumir consciência" é algo mais que "tomar consciência": implica um ato de responsabilidade intelectual e moral pelo qual você se compromete intimamente a não permitir que a porta aberta para a consciência de extracorporeidade se feche e o conteúdo aí assimilado se dilua no fluxo de impressões corporais até ser esquecido ou ao menos perder toda força estruturante sobre a sua vivência de "eu".

Olavo de Carvalho, A Filosofia e o seu inverso.  São Paulo: Vide Editorial, 2012. p.105-108.

Quaresma - Eis o tempo de Conversão


Iniciamos o tempo da Quaresma onde, mais do que relembrar, vivenciamos a experiência que o Cristo fez antes de iniciar a Sua vida pública. No nosso caso, o fazemos como preparação para a Páscoa. Costumamos dizer que ressuscitaremos com o Cristo. Mas, para tal, temos de, desde já, sofrer com Ele. Um dos pontos essenciais da Quaresma é, então, unir-mo-nos a Cristo, fazer-Lhe companhia e, a partir da Sua proximidade, nos tornarmos Ele mesmo. No oriente, se fala de processo de deificação, isto é, de transformar-se em Deus. Esta idéia, além de não ter nada de herética, é acompanhada de perto pelos místicos ocidentais, como São João da Cruz, por exemplo, para o qual o cristão deve tornar-se deus por participação. 

Para que isto possa ser alcançado, o homem precisa primeiramente conscientizar-se de que há, no seu ser atual, uma série de inclinações que o rebelam contra Deus, isto é, que fazem guerra a este ideal da deificação. Decorre disso a necessidade de que ele trave uma luta consigo mesmo. Esta luta é simbolizada pelo ambiente árido do deserto, onde as inclinações sensíveis do homem não encontram fácil satisfação. O deserto, assim, é visto como um lugar essencialmente penitencial.

Além disso, o deserto também é visto, na tradição cristã, como a morada dos demônios. Quando adentramos na sobriedade do deserto interior, os nossos demônios surgem com mais força. E é nesta ocasião que teremos a oportunidade de vencê-los. A partir do que já foi dito, o deserto se converte em ambiente de comunhão com Deus, de Sua imitação, e também de luta contra os demônios e nossas inclinações ruins. Poderíamos, talvez, concluir disto que Deus está na luta contra nós mesmos.

Toda esta realidade é sobretudo interior, e é necessário que seja assim, pois como o próprio Senhor nos diz, é do coração do homem que surge o bem ou o mal. Cumpre, portanto, cuidar da fonte para que os seus veios, que são as ações, estejam de fato limpos da vaidade e saciem os que deles beberem. Sabendo, contudo, que ninguém é bom senão Deus, a bondade humana não tem alternativa a não ser ser participada. A quaresma, então, não teria qualquer sentido se não fosse um tempo em que o homem se aproxima de Deus. Não obstante isso possa parecer óbvio, é muito comum que passemos este tempo distraídos do essencial.

Uma pessoa em pecado mortal, por exemplo, o que pode fazer de mais importante senão preparar-se para a confissão e pedir a Deus a graça de uma contrição perfeita? De que adianta mortificar-se se tudo isto apenas serve de ocasião para provarmos aos outros a nossa devoção ou, mais comum, provar para nós mesmos o quanto somos bons? Do que adianta realizar trabalhos sociais se não optamos por uma conversão sincera e profunda da nossa vida? Do que adianta não comer carne nas sextas, ou até fazer jejuns, se não nos decidimos por uma mudança real de vida?

Uma vez que o nosso íntimo adquire as devidas disposições, que são um conhecimento correto sobre nós mesmos e a nossa pequenez, a consciência nossa estrita necessidade de Deus para qualquer bem, a pureza de intenção, o estado de graça, o desapego de nós mesmos e do apreço dos demais, e o desejo de agradar a Deus sobre todas as coisas, então se difundirão de nós, como algo natural, as obras de caridade, assim como do fogo procede naturalmente o calor. Do Cristo é dito que passou pela terra a fazer o bem. Isto ocorre porque o bem é naturalmente difusivo, isto é, espalhar-se e comunicar-se é-lhe uma operação intrínseca. Como não temos, no entanto, a perfeição do Cristo, as obras de caridade convertem-se não somente em expressão da bondade que nos vai n'alma, mas tornam-se, também e principalmente, meios para a obtenção desta bondade. São exercícios para a perfeição, mais do que produtos dela.

Estas obras, porém, pressupõem a fonte da qual procedem: a alma. A fim de que aquelas sejam puras e possam produzir efeitos benéficos na própria pessoa que as faz, é preciso que esta esteja em graça, isto é, esteja num estado de amizade com Deus. Esta amizade deverá ser cultivada na própria alma. Daí a necessidade de uma atividade de convívio entre a alma e Deus, que é a oração. Esta se divide, como se sabe, em oração litúrgica - que é a que fazemos com os outros cristãos reunidos na igreja - e oração pessoal - que é recomendada por Jesus a fim de que só o Pai a conheça. A primeira nos faz lembrar que somos todos irmãos e membros do corpo de Cristo, e tende a nos livrar do egoísmo, individualismo e auto-suficiência; a segunda, impede-nos de cair no erro do coletivismo e faz-nos atentar que, embora o individualismo seja um erro, somos seres absolutamente únicos e individuais, e tal é também o nosso chamado e a nossa vocação. Deus nos chama pelo nome, e o nome é uma indicação da nossa individualidade.

Outros erros que devem ser evitados são o rubricismo, que é o ato de fazer exercícios religiosos como se fossem um fim em si mesmos; e o pelagianismo, que é o esvaziamento da religião de todo o seu caráter sobrenatural e a sua redução ao fator puramente social e moral. Estes erros são muitíssimo comuns.

A quaresma deverá ser sobretudo espiritual. E para isso, é essencial a vivência dos Sacramentos da Eucaristia e a da Confissão. Muito útil são, também, as leituras devotas. Depois, as mortificações, os jejuns, a meditação da Paixão, a prática da Presença de Deus, a intimidade com a Virgem Maria, etc. Aproveitemos que este tempo é de particular proximidade de Deus. É o tempo em que, nos conduzindo ao deserto, Ele nos falará ao coração e nos desposará consigo.

Peçamos, então, a Deus que nos permita viver uma Quaresma em verdadeira intimidade com Ele. Que tenhamos a coragem de lutar contra nós mesmos e os nossos demônios. Que procuremos vencer o nosso orgulho e nosso egoísmo e lembrar dos nossos irmãos que de algum modo precisam de nós. Que Ele nos conceda sempre um maior conhecimento de nós mesmos e a guarda da Graça em nossa alma. Dê-nos Ele um coração contrito e com retas intenções. E nos livre dos erros que se disfarçam de virtude. Que, enfim, vivendo uma santa e sóbria quaresma, possamos, no final, participar da Sua páscoa e felicidade.

Que a Virgem nos conduza.

Breve comunicado

Pessoal, nunca mais escrevi por aqui porque estou bastante ocupado com o meu TCC. Daqui uns dias, espero terminá-lo. Até lá, este blog ficará sem atualização, salvo algum motivo de ordem excepcional. Aproveito para ratificar o pedido de oração pelo amigo Jorge Ferraz. Abração. Pax et Bonum

Fábio.

Dia de Sto Tomás de Aquino: "Que queres como recompensa, Tomás?"


Quando Tomás se encontrava na tranquilidade da igreja de São Domingos, em Nápoles, ouviu-se uma voz que saía de uma imagem de Jesus Cristo crucificado; esta voz disse ao frade ajoelhado que ele tinha escrito bem, e propôs-lhe a escolha de uma recompensa dentre todas as coisas do mundo.

Creio que nem todos têm apreciado o significado desta história particular aplicada a este santo particular. É fato muito conhecido e frequente, se o consideramos simplesmente um oferecimento feito a um devoto da solidão ou da simplicidade, para escolher entre todas as coisas boas da vida. O eremita, verdadeiro ou fingido, o faquir, o fanático ou o cínico, o estilista em cima da sua coluna ou Diógenes na sua cuba podem representar-se tentados pelos poderes da terra, do ar ou dos céus, com a oferta do que há de melhor dentre todas as coisas, e a responder que de nada precisam. No cínico ou estóico grego realmente significava uma simples negação positiva, ou seja, que queriam o nada, que o nada era de fato o que queriam. Por vezes, expressava uma nobre independência e as virtudes gêmeas da Antiguidade: o amor da liberdade e o ódio do luxo. Outras vezes expressava só uma auto-suficiência, que é o verdadeiro oposto da santidade.

Mas as histórias e os santos desta espécie não abarcam o caso de Santo Tomás. Ele não era pessoa que não precisasse de nada, pois se interessava enormemente por tudo. A sua resposta não é tão inevitável ou simples como alguns possam supor. Comparado com muitos outros filósofos, tinha grande avidez na aceitação das coisas, fome e sede das coisas. Tinha como norma filosófica que há realmente coisas e não somente uma coisa, que a pluralidade existe tão realmente quanto a unidade. Não quero dizer coisas de comer, de beber ou de vestir, conquanto ele nunca negasse a estas o seu lugar na nobre hierarquia do ser, mas sim coisas para pensar, e especialmente coisas para provar, experimentar e conhecer.

Ninguém supõe que Tomás de Aquino, quando Deus lhe deu a escolher dentre todos os seus dons, fosse pedir um milhar de libras, a coroa da Sicília ou um vinho raro da Grécia. Mas podia pedir coisas que efetivamente desejava, pois que era homem que podia ter aspirações como, por exemplo, a do manuscrito perdido de São João Crisóstomo. Podia pedir a solução de qualquer dificuldade antiga, ou o segredo de uma ciência nova, ou uma chispa do inconcebível espírito intuitivo dos anjos, ou uma das mil coisas que teria satisfeito realmente o seu vasto apetite viril, tão vasto como a própria vastidão e variedade do universo.

A questão é que, para ele, quando a voz falou entre os braços abertos de Jesus Crucificado, estas braços estavam em verdade amplamente abertos e abrindo gloriosissimamente as portas de todos os mundos. Eram braços que apontavam para o oriente e o ocidente, para os extremos da terra, e para os próprios extremos da existência. Estavam em verdade abertos num gesto de onipotente generosidade: o próprio Criador a oferecer a própria criação, com todo o infinito mistério dos seres diversos e do coro triunfal das criaturas. É este o fundo esplendoroso da multiplicidade do ser, que dá força particular, e até uma espécie de surpresa, à resposta de Santo Tomás, quando levantou a cabeça finalmente e disse, com esta audácia quase blasfema que forma uma só coisa com a humildade da sua religião:

- Quero-Te a Ti.

G.K. Chesterton. Santo Tomás de Aquino. São Paulo: LTr, 2003. p. 117-118.

"O que é uma heresia" ou "Para ser católico é preciso aderir a TODAS as verdades da Fé

São Paulo ordena guardar as tradições


A Bíblia indica que em adição à palavra escrita, nós temos de aceitar a tradição oral

São Paulo louva e ordena manter a tradição oral. Em 1 Cor 11,2, por exemplo, nós lemos: 'Agora vos louvo, irmãos, que em todas as coisas vos lembrais de mim: e mantendes minhas ordens como eu as tenho entregue a vós." São Paulo está obviamente louvando a guarda da tradição oral aqui, e deveria ser notado em particular que ele exalta os crentes por haver feito isto ("eu vos louvo..."). Explícito nesta passagem é também o fato de que a integridade desta tradição oral apostólica tem claramente sido mantida, exatamente como Nosso Senhor prometeu que seria, através da salvaguarda do Espírito Santo. (cf. Jo 16,3).

"Portanto, irmãos, ficai firmes; e guardai as tradições que vocês têm aprendido, quer oralmente, ou por nossa carta." 
São Paulo aos Tessalonicenses

Talvez o mais claro apoio bíblico para a tradição oral seja encontrado em 2 Tes 2:15, onde os cristãos são realmente ordenados: "Portanto, irmãos, ficai firmes; e guardai as tradições que tendes aprendido, quer oralmente, ou por nossa carta." Esta passagem é significante nisso: 1) ela mostra a existência de tradições vivas dentro do ensino apostólico; b) ela nos diz inequivocamente que os crentes estão firmemente fundamentados na Fé por aderir a estas tradições, e c) ela claramente estabelece que estas tradições foram dadas por escrito e oralmente. Desde que a Bíblia distintivamente estabelece aqui que as tradições orais - autênticas e apostólicas na origem - são para ser "guardadas" como um válido componente do Depósito da Fé, por qual razão ou desculpa os protestantes recusam-nas? Por qual autoridade eles rejeitam uma claríssima ordem de São Paulo?

Além disso, nós devemos considerar o texto nesta passagem. A palavra grega krateite, aqui traduzida "guardar", significa "ser forte, poderoso, prevalecer". Esta linguagem é bastante enfática, e demonstra a importância de manter estas tradições. É claro que é necessário diferenciar entre Tradição (com "T" maiúsculo) que é parte da Revelação divina, em uma mão, e, em outra, tradições da Igreja (com "t" minúsculo) que, embora boas, foram desenvolvidas na Igreja mais tarde e não são parte do Depósito da Fé. Um exemplo de algo que é parte da Tradição seria o Batismo de crianças; um exemplo de uma tradição da Igreja seria o calendário de festas de santos. Qualquer coisa que seja parte da Tradição é de origem divina e, logo, imutável, enquanto que as tradições da Igreja são mutáveis pela Igreja. A Sagrada Tradição serve como regra de fé por mostrar o que a Igreja tem crido consistentemente através dos séculos e como é sempre entendida qualquer dada parte da Bíblia. Um dos principais meios pelos quais a Tradição tem sido transmitida para nós está na doutrina contida nos velhos textos da liturgia, a adoração pública da Igreja.

Deveria ser notado que os protestantes acusam os católicos de promover doutrinas "antibíblicas" ou "novas" baseadas na Tradição, afirmando que tal Tradição contém doutrinas que são estranhas à Bíblia. Todavia, esta asserção é totalmente falsa. A Igreja Católica ensina que a Sagrada tradição não contém absolutamente nada que seja contrário à Bíblia. Alguns pensadores católicos até diriam que não há nada na Sagrada Tradição que não esteja também fundado na Escritura, ao menos implicitamente ou de uma forma seminal. Certamente, os dois estão ao menos em perfeita harmonia e sempre suportam um ao outro. Para algumas doutrinas, a Igreja pega mais da Tradição que da Escritura para a sua compreensão, mas mesmo essas doutrinas estão muitas vezes implícitas ou insinuadas na Sagrada Escritura. Por exemplo, as seguintes crenças são largamente baseadas na Sagrada Tradição: batismo de crianças, o cânon da Escritura, a virgindade perpétua da bem-aventurada Virgem Maria, Domingo (ao invés do Sábado) como o Dia do Senhor, e a Assunção de Nossa Senhora.

A Sagrada Tradição complementa nosso entendimento da Bíblia e não é, portanto, uma fonte extra de Revelação que contém doutrinas que sejam estranhas a ela*. Muito pelo contrário: a Sagrada Tradição serve como a memória viva da Igreja, lembrando-a do que os fiéis têm constante e consistentemente crido e para corretamente entender e interpretar o significado das passagens bíblicas. De certo modo, é a Sagrada Tradição que diz ao leitor da Bíblia: "Você tem lido um livro muito importante que contém a revelação de Deus ao homem. Agora, deixe-me explicar a você como isto tem sido entendido e praticado pelos crentes desde o início."

Tradução minha. Fonte: Operation Survival

*Nota minha: embora a Tradição não contenha nenhuma doutrina que seja contrária à Bíblia, ela pode, sim, ser entendida como uma das fontes de Revelação.

Sola Scriptura não tem sentido


Há pelo menos mais dois artigos aqui no blog com esse tema:


Recomendo aos amigos que dêem uma lida. Mas quero escrever este artigo seguindo uma linha mais breve e demonstrando logicamente, silogisticamente, que não há sentido nesta prática instaurada por Lutero que, além de herege, era maluco e suicida.

Primeiramente, esclareçamos em que consiste a Sola Scriptura. A expressão vem do latim e significa "Só a Escritura". A escritura de que aí se fala é, obviamente, a Bíblia. Portanto, a doutrina da Sola Scriptura afirma que só a Bíblia deve ser a regra de Fé e prática do cristão. Segundo os que seguem essa idéia, tudo quanto não esteja na Bíblia carece de fundamento. A extrema maioria dos protestantes concordará com isso aí. Para alguns católicos, inclusive, isto parecerá correto. Contudo, mostremos porque é algo sem sentido.

A Bíblia é um conjunto de livros. Cada um desses livros foi inspirado por Deus. Nesta inspiração, Deus escolheu pessoas humanas como instrumentos. No entanto, muitas outras pessoas, desde o início, afirmavam ser inspiradas por Deus sem que o fossem de fato: são os falsos profetas, que sempre houveram e que foram inúmeras vezes preditos. Não é possível, pelo próprio engenho humano, saber de certeza quais o que dizem a verdade e quais os que não dizem. Porém, Deus não poderia nos deixar nessa confusão. Logo, é preciso que sejam estabelecidas autoridades escolhidas por Deus; estas autoridades cuidarão de distinguir a verdade do erro. Elas poderão ser as próprias pessoas inspiradas, ou, ainda, outras pessoas que saibam distinguir o que é divino e o que não é. Elas também devem ser reconhecidas coletivamente. Assim o foram os profetas, os apóstolos, etc. Estas pessoas recebem tal autoridade em função de sua proximidade com Deus. No caso dos apóstolos, isso está mais do que claro, uma vez que eles conviviam com Jesus, que é Deus.

A inspiração produz a intuição e compreensão de verdades divinas. Estas verdades, se bem que estejam acima das realidades humanas, deverão ser escritas em linguagem compreensível e, portanto, humana. A linguagem humana se utiliza de símbolos. Ora, um símbolo pode, por sua própria natureza, simbolizar mais de uma coisa. Esta multiplicidade de possibilidades do símbolo pode fazer referência ao significado exato que se quis dar ao símbolo, mas pode ser entendido de modo diferente e errado. Por exemplo, havia toda uma escola bíblica que via nos gafanhotos do apocalipse retratos fiéis dos helicópteros soviéticos. 

Portanto, o fato de tais coisas serem escritas só tem lógica se, paralela aos escritos, existe uma autoridade que resguarda o modo correto de entendê-las. São Paulo dizia isto: "se há quem professe, haja quem explique."

A inspiração que surge de uma intuição de realidades sobrenaturais, ao expressar-se em linguagem humana, não consegue esgotar todo o seu conteúdo. Assim, o modo como se diz é sempre inferior à própria natureza do dito, ou, se preferirem, o significante é mais pobre que o significado. Logo, existe sempre mais realidade do que a que foi registrada, o que é o mesmo que dizer que nem tudo está na Escritura. A própria Escritura o demonstra de diversos modos. Só para citar um: João diz que, se tudo quando Jesus disse e fez fosse registrado, nem todos os livros do mundo seriam suficientes para tal.

Além disso, se há verdadeiras profecias e há também falsas, antes de haver um compêndio das verdadeiras, é preciso uma autoridade que tenha a capacidade de distinguir as verdadeiras das falsas e que, então, faça a referida escolha. Ora, essa autoridade não precisa estar explicitamente descrita na escritura. A escritura, pela sua própria natureza, exige e pressupõe esta autoridade.

Portanto, não se faria um compêndio de livros sagrados sem uma autoridade anterior que lhes identificasse e lhes reunisse. Esta autoridade histórica na formação do cânon bíblico é a Igreja Católica Apostólica Romana. Portanto, acreditar que o conjunto dos livros bíblicos é, de fato, sagrado, pressupõe a Fé na autoridade da Igreja Católica.

A própria natureza discursiva da bíblia lhe dá a possibilidade de ser entendida de diversas formas, como já dito. Se é verdade que Deus nos quis comunicar verdades específicas ao invés de nos dar um brinquedo à nossa imaginação e criatividade, então é também lógico que Ele nos daria algo ou alguém que nos garantisse o modo correto de entender o que está escrito. Uma vez que Jesus quer que as verdades sobre Ele cheguem ao conhecimento de todos os homens, de todos os lugares e de todos os tempos, esta autoridade deve, também, estar espalhada em todos os pontos do planeta e deve estar presente em todas as épocas da história. Quem cumpre este papel, mais uma vez, é a Igreja Católica. O protestantismo não poderia satisfazer este requisito, uma vez que só veio surgir no século XVI. Além disto, as denominações não possuem sequer unidade entre si. Portanto, não há consenso nem entre eles sobre as verdades da Bíblia. Isto significa que eles não sabem do que a Bíblia exatamente está falando. Além de todas estas dificuldades, há outra: para entender as verdades de Deus é preciso receber do Seu Espírito, pois a Bíblia nos diz que o próprio Cristo teve de soprar sobre os apóstolos o Paráclito para que lhes fosse aberta a inteligência. Portanto, não é suficiente pegar a Bíblia e fazer uma leitura individual. Lembremos ainda da oração de Jesus: "dou-Te graças, Pai, porque escondeste essas coisas dos soberbos e as revelaste aos pequeninos". Ou seja: as verdades sobre Deus são reveladas por Ele mesmo e, para isso, é preciso manter as devidas disposições, tanto externas quanto internas. Internamente, é preciso humildade de coração, e uma pessoa que julgue que apenas pelo ato de ler curiosamente a bíblia vai conseguir entender tudo não pode ser dita humilde. Externamente, é preciso fazer parte da Igreja e receber o espírito de filiação, que é o Espírito Santo, que lhe permitirá entender a lógica interna da Escritura. Este Espírito fará com que nos submetamos à autoridade legitimamente constituída por Nosso Senhor para aprender corretamente as verdades da Fé. Tal autoridade, mais uma vez, é, historicamente, a Igreja Católica Apostólica Romana. Isto é facilmente constatável.

Para terminar, se tudo que deve ser crido deve necessariamente estar na Bíblia, só poderíamos crer na Sola Scriptura se ela estivesse na Bíblia, e ela não está. Portanto, professar essa crença é cair em contradição pura e simples. No mero ato de declarar que só a Bíblia é regra de salvação, o sujeito está professando uma regra que não está na Bíblia.

Concluindo:

A Bíblia, pela sua própria natureza, exige uma autoridade que lhe seja anterior (para escrita e escolha dos livros) e que lhe seja simultânea (para a correta interpretação). Pela sua própria natureza, também, ela não esgota as verdades sobre Deus e, portanto, deve fazer parte de um contexto maior. Este contexto maior é a Tradição cristã. Tanto é assim que a Bíblia só vai surgir como um compêndio - o repetimos - no século IV, ou seja: os cristãos estavam a viver plenamente a fé sem que fosse necessário haver uma Bíblia. A Fé transmitiu-se sobretudo por via oral e pela tradição dos Apóstolos. Se a Bíblia vai ser formada é para somar-se a esta tradição, e não para substituir-se a ela.

A Sola Scriptura, portanto, não tem sentido nenhum.

Fábio.

Constantino fundou a Igreja Católica?




Seria uma grande ingenuidade pensar que a Igreja se perverteria e que os cristãos deixariam o império romano "adotar" a Igreja, contrariando as promessas de Cristo de que o inferno não prevaleceria contra ela e de que Ele estaria com a Igreja até o fim dos tempos. Na época de Constantino, que mais não fez que fazer cessar a perseguição à Igreja, o catolicismo já estava espalhado pelo mundo, processo que só se intensificou depois que Constantino parou a perseguição. Portanto, não era possível mais que a Igreja fosse mudada em sua substância. Para quem conhece essa época, sabe que os cristãos eram muito sérios, e mesmo os filhos do Imperador chegaram vez ou outra a ser escorraçados da Igreja porque, por algum motivo, supunham poder estar junto do padre no altar.

Mas, a fim de tornar ainda mais claro, vejamos o artigo abaixo:

***

Este artigo poderia ser classificado como mais um da série "falácias 'evangélicas'"... Sim, esta é mais uma das "invencionices" nos nossos pobres irmãozinhos afastados. Respondemos à pergunta logo de cara: claro que não, a Igreja Católica não foi fundada por Constantino. Isso é um disparate sem tamanho, uma tolice tão grande e evidente por si mesma que dispensa explicações... No entanto, como vivemos num país de ingênuos e de maioria inculta, damo-nos ao trabalho de publicar este artigo.

O imperador Constantino, também conhecido como Constantino Magno, o Grande, ou Constantino I, nasceu em 274 e faleceu em 337; foi imperador durante 31 anos (de 306 a 337). Era filho de Constâncio Cloro e Helena, uma cristã que se tornou Santa Helena. Casou-se com Faustina, filha de Maximiliano Hércules.

Tudo isso é história. Certo. Bem, então não precisamos dizer mais nada, pois é fato incontestável que no início do século terceiro o cristianismo já estava espalhado por quase todo o mundo, penetrando inclusive nas classes nobres, mas ainda perseguido pelos imperadores romanos, que tentavam, pelo poder das armas, destruir a Fé.

Após a morte do imperador Galério, o poder ficou dividido entre Maxêncio (que se autoproclamou imperador) e Constantino (aclamado imperador por seus soldados). Os dois ambicionavam o poder, e a luta entre eles encerrou-se no dia 28 de outubro de 312, com a histórica vitória de Constantino junto à Ponte Mílvia.

À ocasião, Constantino testemunhou ter visto no céu uma cruz com a inscrição "In Hoc Signo Vinces" ('Com este Sinal vencerás'). - Este foi um marco para a sua conversão, que não se deu de uma hora para outra: ele foi batizado somente em 337, no fim de sua vida. Alguns historiadores contestam a conversão de Contantino. De fato, objetivamente não há como se afirmar se a sua conversão foi sincera ou se ele, antes de tudo, adotou uma inteligente estratégia política e militar, pois, ao se declarar cristão, obteve o apoio de uma parcela importante da população e inclusive da nobreza. Essa questão, porém, não tem a menor importância para o fato que estamos demonstrando aqui, pois é fato que Constantino concedeu total liberdade de culto aos cristãos, a partir do ano 313, com o chamado Édito de Milão, documento no qual constava: "Havemos por bem anular por completo todas as retrições contidas em decretos anteriores acerca dos cristãos; - restrições odiosas e indignas de nossa clemência, - e dar total liberdade aos que quiserem praticar a religião cristã".

Nesse tempo, o Papa era Melcíades, 32º Sumo Pontífice da Igreja depois de São Pedro. Assim, não há como se afirmar que Constantino seja o fundador da Igreja de Cristo, já que ele apenas deu liberdade aos cristãos, - que obviamente já existiam desde o século I, - acabando com mais de dois séculos e meio de perseguição e martírios.

Como dissemos no começo, trata-se de uma questão extremamente simples, fácil de compreender e impossível de negar. É preciso um altíssimo grau de alienação da realidade para aceitar a ideia de que tenha sido um imperador romano que tenha fundado a Igreja, a partir do século IV. Nenhuma igreja protestante histórica (as mais antigas) adota esse tipo de teoria da conspiração absurda para renegar a autoridade da Igreja Católica, pois tanto seus pastores quanto seus adeptos são pessoas esclarecidas e bem formadas. E agora que já demonstramos que sem dúvida não foi Constantino quem fundou a Igreja Católica, a pergunta que fica é: então quem fundou a Igreja Católica?

Foi o próprio Senhor Jesus Cristo.

Fonte: Voz da Igreja

Lembremos ainda que o termo "católica", do grego "katholikós" foi usado primeiramente por Sto Inácio de Antioquia, no iniciozinho do séc. II, lá pelo ano 106 d.C. Sto Inácio é um padre apostólico, isto é, conheceu pessoalmente os apóstolos, sendo discípulo de São João e ordenado por S. Pedro. Quem se der ao trabalho de ler os seus escritos, reconhecerá a mesma estrutura e a mesma fé da Igreja Católica hoje.

Fábio.

Pe. Fábio de Melo se retratou! Deo gratias!!!


Queridos amigos,

Em virtude da polêmica que envolveu minha fidelidade à Ortodoxia Católica, venho esclarecer alguns pontos.

Em nenhum momento da minha vida atentei contra a sacralidade da Igreja Católica Apostólica Romana. Sou Mestre em Teologia Dogmática e zelo muito para que minha pregação esteja de acordo com os ensinamentos da Igreja. Este é o credo que professo: “Creio na Santa Igreja Católica Una, Santa, Católica e Apostólica.” Nunca inventei uma crença particular, ou um modo diferente de compreender esta profissão de fé.

A expressão que usei no programa de “De frente com Gabi”, “Jesus queria o Reino de Deus, mas nós demos a Ele a Igreja” é uma expressão muito usada nos bastidores acadêmicos que frequentei em minha vida, e está distante da proposta herética que ela já representou em outros tempos. O significado evoluiu.

Nossa Fundação é Santa, pois fomos instituídos pelo Cristo. “A Igreja é um corpo, em que nós somos os membros e Jesus Cristo é a cabeça (Col 1,18; I Cor 12,27). Na cabeça o Reino já está estabelecido. Em Cristo, o Reino já está plenamente manifestado. Mas os membros do corpo ainda estão no contexto da busca, pois continuamos arrastando as consequências adâmicas do nosso pecado. E por isto, mesmo que em Cristo o Reino já esteja plenamente manifestado, em nós, Igreja, povo de Deus, ele continua sendo a meta que nunca deixamos de buscar.

O Concílio Vaticano II, através de sua Constituição Dogmática Lumen Gentium, enfatizou que a Igreja é povo de Deus. O povo é errante, pois apesar de estar mergulhado nas graças do batismo, ainda sofre as consequências da fragilidade que o pecado lhe deixou. O mesmo Concílio declarou "O Reino de Cristo já presente em mistério, cresce visivelmente no mundo pelo poder de Deus..." (LG 3).

Presente em mistério. Isto é, cabe a nós, membros deste corpo, apressar a sua chegada. A Igreja é triunfante, mas também é peregrina, penitente, pois que carrega em sua carne a fragilidade de seus membros.

Sim, a Igreja é santa, mas comporta em seu seio os pecadores que somos nós. E por isso dizemos, também com o perigo da imprecisão teológica: “A Igreja é Santa e pecadora”. Bento XVI sugeriu modificar a expressão. “A Igreja é Santa, mas há pecado na Igreja”. Notem que ele salvaguarda a santidade na essência.

Mas o pecado existe na Igreja. Por isto rezamos nas liturgias diárias pelo Santo Padre, pelos bispos, pelo clero, pelo povo de Deus. Clamamos por purificação, luzes em nossas decisões, pois sabemos que é missão do Espírito encaminhar na terra a Igreja que ainda não é Reino de Deus (porque maculada pelos nossos pecados), e que ao Cristo damos diariamente. Mas nós caminhamos na esperança. Sabemos que um dia todas as partes do corpo estarão agindo em perfeita harmonia com a cabeça. Seremos a “Jerusalém Celeste”.

Eu assumo que errei ao usar a expressão. Eu não estava numa sala de aula, lugar onde a Ortodoxia convive bem com a dialética. Não considerei que muitos telespectadores poderiam não entender o contexto da comparação. E por isso peço desculpas. E junto às desculpas, faço minha retratação. Nunca tive problema em assumir meus equívocos. Usei uma expressão que carece ser contextualizada com outras explicações, para que não pareça irresponsável, nem tampouco herética.

Repito. Eu não nego nem neguei a definição dogmática expressa na Lumem Gentium, Número 5.

“O mistério da santa Igreja manifesta-se na sua fundação. O Senhor Jesus deu início à Sua Igreja pregando a boa nova do advento do Reino de Deus prometido desde há séculos nas Escrituras: «cumpriu-se o tempo, o Reino de Deus está próximo» (Mc. 1,15; cfr. Mt. 4,17). Este Reino manifesta-se na palavra, nas obras e na presença de Cristo. A palavra do Senhor compara-se à semente lançada ao campo (Mc. 4,14): aqueles que a ouvem com fé e entram a fazer parte do pequeno rebanho de Cristo (Luc. 12,32), já receberam o Reino; depois, por força própria, a semente germina e cresce até ao tempo da messe (cfr. Mc. 4, 26-29). Também os milagres de Jesus comprovam que já chegou à terra o Reino: «Se lanço fora os demónios com o poder de Deus, é que chegou a vós o Reino de Deus» (Luc. 11,20; cfr. Mt. 12,28). Mas este Reino manifesta-se sobretudo na própria pessoa de Cristo, Filho de Deus e Filho do homem, que veio «para servir e dar a sua vida em redenção por muitos» (Mt. 10,45).”

E quando Jesus, tendo sofrido pelos homens a morte da cruz, ressuscitou, apareceu como Senhor e Cristo e sacerdote eterno (cfr. Act. 2,36; Hebr. 5,6; 7, 17-21) e derramou sobre os discípulos o Espírito prometido pelo Pai (cfr. Act. 2,33). Pelo que a Igreja, enriquecida com os dons do seu fundador e guardando fielmente os seus preceitos de caridade, de humildade e de abnegação, recebe a missão de anunciar e instaurar o Reino de Cristo e de Deus em todos os povos, e constitui o germe e o princípio deste mesmo Reino na terra. Enquanto vai crescendo, suspira pela consumação do Reino e espera e deseja juntar-se ao seu Rei na glória.”

Agradeço pela prece dos que me acompanharam neste momento tão sofrido.

Com minha benção,

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