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É suficiente a disposição natural de amar a Deus?


Todos sabem que para nós, cristãos, o grande mandamento é amar a Deus; o segundo, que é semelhante ao primeiro, é amar ao próximo.

Ora, dizemos que, a respeito deste duplo dever, o naturalismo lança as almas em ilusões muito funestas.

Deus que nos criou pôs no fundo da nossa natureza uma inclinação invencível para amar o bem em geral. E como Deus é o soberano Bem, o único Bem das almas, as almas, naturalmente, devem se voltar para Deus. Todo homem que pensa e medita no Autor de seu ser, sente-se naturalmente voltado para ele. É um dever ao mesmo tempo de justiça e gratidão. E as noções de justiça e gratidão têm sobre nós um poder tão grande que não podemos nos furtar desse dever e é sempre honroso cumprir deveres fundados em tão autênticos títulos. 

Sem o pecado original, a natureza se voltaria diretamente para seu Criador. Mas a ignorância e a concupiscência, frutos infelizes da queda original, fazem com que, muitas vezes, a alma pare diante de bens passageiros, se distraia e se acostume a amar ninharias em lugar de elevar seu amor até a fonte de seu ser.

Mesmo nesse estado de queda a lei de Deus permanece: Amarás o Senhor teu Deus. E a graça de Nosso Senhor Jesus Cristo nos torna possível, fácil e doce a observação do grande mandamento.

O mal é que, com frequência, depois de ter perdido a graça, depois de ter decaído da caridade, como continua a encontrar em si o amor do bem em geral, a inclinação natural para amar a Deus, as pessoas se contentam com estas disposições, e crêem estar quites com Deus. Estão em pecado mortal, mas, como as inclinações naturais de amar a Deus, de amar o bem em geral, permanecem no fundo da alma, tomam estas disposições naturais, comuns a todos os homens, por disposições pessoais, como se fosse seu estado particular diante de Deus. Este estado, diante de Deus, é de pecado mortal, mas não percebem: as inclinações naturais ficam, são percebidas, contentam-se com elas e se induzem a crer que Deus se contentará também. Dizem para si mesmas: Não quero mal a Deus, sei que Ele é bom; sou inclinado a amá-Lo; como Deus poderia me querer mal se eu lho quero? Seria pior do que eu?

Aqui está, vista no fato, a grande ilusão cuja raiz é o naturalismo. Quantas pobres almas negligenciam os deveres mais essenciais do cristianismo, vivem sem a graça santificante, sem Nosso Senhor Jesus Cristo e, no entanto, afirmam que amam muito a Deus!

Lembram-nos um infeliz que pôs fim a seus dias, e antes de cometer seu irremediável crime, escreveu um adeus à sua família e nesse escrito, afirmava seu amor por Deus!

É evidente que ele tomava a inclinação natural de amar a Deus, que todos nós temos, por sua disposição pessoal, que não podia ser mais contrária ao amor de Deus!

Pe. Emmanuel-André. O naturalismo. Ed. Permanência, 2014. p. 17-18.

O Primeiro Grau de Oração - Parte 1


Sta Teresa D'Avila

Em terreno onde brotam muitas ervas más, o principiante imagine que vai plantar um jardim, onde o Senhor possa deleitar-se. Sua Majestade arranca as ervas más e vai plantando as boas. Suponhamos que isto já esteja feito quando a alma se resolve a ter oração. e nela começa a se exercitar. Com o auxílio de Deus, e como bons jardineiros, devemos procurar que cresçam as plantas, cuidando de as regar para que dêem flores de perfume suavíssimo, a fim de deliciar a esse Senhor nosso. Assim, ele virá muitas vezes deleitar-se em nosso jardim e espairecer entre as virtudes.

Vejamos de quantas maneiras se pode regar para sabermos o que fazer, o trabalho que nos há de custar, calcular se o esforço é maior do que o lucro, e o tempo que levará. Parece-me haver quatro modos de regar: o primeiro é apanhar água a baldes num poço, com grande trabalho. O segundo é tirá-la mediante nora e alcatruzes movidos por um torno (assim o fiz algumas vezes), o que cansa menos e dá mais água. O terceiro é trazê-la de algum rio ou arroio, e por este meio se rega muito melhor, o jardineiro tem menos trabalho, a terra fica bem molhada e não é necessário regar tantas vezes. O quarto é por chuvas frequentes e copiosas, modo incomparavelmente melhor que tudo que ficou dito. É então o Senhor quem rega, sem nenhum trabalho nosso.

Conforme o meu intento, apliquemos agora à oração essas quatro formas de regar com as quais se há de conservar o jardim, pois sem ser irrigado, perecerá. Por esta comparação creio poder explicar quatro graus de oração em que o Senhor, por sua bondade, tem posto algumas vezes minha alma. Praza a Sua Clemência, consiga eu dizê-lo de modo a aproveitar a uma das pessoas que me mandaram escrever (...).

Dos que começam a ter oração, podemos dizer que são os que tiram água do poço com baldes. É muito penoso, porque se cansam em recolher os sentidos e, como estão acostumados a andar distraídos, têm não pequeno trabalho. Cumpre irem-se habituando a não se importar com o que vêem ou ouvem. É preciso que assim façam efetivamente nas horas de oração, buscando soledade, e pensando, apartados de tudo, em sua vida passada. Isto, aliás, todos o devem fazer com frequência, tanto os que começam como os que já estão no fim do caminho, insistindo mais ou menos, como depois direi. Os principiantes ainda sofrem no início, porque julgam não se arrepender suficientemente de seus pecados. Contudo seu arrependimento é sincero, visto estarem realmente determinados a servir a Deus. Procurem ocupar-se da vida de Cristo, e nesta meditação a mente se cansa.

Até aqui podemos chegar por nós mesmos. Bem entendido com o favor de Deus, pois sem este, já se sabe, não conseguimos sequer ter um bom pensamento. Isto é começar a tirar água do poço a baldes,  e praza a Deus, não esteja seco! Ao menos fazemos o que é de nossa parte, indo apanhar água e empregando os meios ao nosso alcance para regar as flores. Deus pode permitir que o poço esteja seco por motivos que só ele conhece, e sempre é para nosso maior proveito espiritual. Se fizermos, porém, como bons jardineiros o que está em nossas mãos, ele, sendo tão bom, sustentará as flores e fará crescer as virtudes, mesmo sem água. Chamo água às lágrimas, e na falta delas, refiro-me à ternura e ao sentimento interior de devoção.

Neste ponto, o que fará quem, após muitos dias de trabalho, só acha secura, desgosto, dissabor, tédio de ir tirar água? Deixaria tudo se não fosse, por um lado, a lembrança de que presta serviço e dá prazer ao Senhor do jardim, e, por outro, o receio de perder todo o serviço passado, além da recompensa que espera ganhar pelo grande trabalho de lançar muitas vezes o caldeiro ao poço e tirá-lo sem água.

Acontecerá frequentemente que nem poderá levantar os braços, isto é, nem conseguirá formular um bom pensamento, porque este trabalhar com o intelecto - fique entendido - é tirar a água do poço. Digo pois: que deverá fazer aqui o jardineiro? Alegrar-se, consolar-se e ter por enorme favor trabalhar em jardim de tão grande Imperador. Sabe que com isto dá prazer ao Senhor, e não é seu intento contentar-se a si, senão a ele. Louve-o muito e entenda que Sua Majestade lhe mostra confiança vendo que, sem paga nem jornal, tem tão grande cuidado do que lhe encomendou. Ajude-o a levar a cruz e pense que durante toda a vida o Senhor viveu nela.

Não procure seu reino aqui na terra, e jamais abandone a oração. Determine-se a permanecer toda a vida nessa aridez, e não deixe Cristo cair sozinho sob o peso da cruz. Tempo virá em que tudo lhe será pago de uma só vez. Não tenha medo de que se perca seu trabalho; serve a bom patrão, que o está olhando. Não faça caso de maus pensamentos. Lembre-se de que também o demônio os representava a são Jerônimo no deserto.

Tais trabalhos têm seu valor, bem o seu, como quem os passou durante muitos anos. Quando me acontecia tirar uma gota de água desse bendito poço, pensava que Deus me fazia favor. Sei quão penosos são esses trabalhos, e, a meu ver, para superá-los é preciso mais coragem do que para enfrentar muitas outras dificuldades do mundo. Mas também tenho visto claramente que Deus não os deixa sem grande prêmio ainda nesta vida. É certo, em uma só das horas nas quais o Senhor me permitiu alegrar-me nele, considero recompensadas todas as angústias que por muito tempo passei, a fim de perseverar na oração.

Tenho para mim que o Senhor envia esses tormentos e várias outras tentações que se apresentam - muitas vezes no início e outras no fim - para pôr a prova os que o amam, e verificar se poderão beber o cálice e ajudá-lo a carregar a cruz, antes de confiar-lhes grandes tesouros. E acredito que, para nosso bem, Sua Majestade quer conduzir-nos deste modo a fim de compreendermos o pouco que somos. Com efeito, tem reservadas para nós graças de tão alta dignidade, que, antes de as dar, deseja que vejamos por experiência nossa miséria, para não nos acontecer o mesmo que a Lúcifer.

Que fazeis vós, Senhor meu, que não seja para maior bem da alma que sabeis já ser vossa, pois entrega-se a vosso poder, resolvida a seguir-vos por onde fordes, até à morte de Cruz, com a determinação de vos ajudar a levá-la e de não vos deixar sozinho com ela? Quem vir em si tal determinação, nada, nada tem a temer! Gente espiritual não tem de que se afligir. Quem já está elevado a tão alto grau, de querer tratar a sós com Deus e deixar os passatempos do mundo, creia que a maior parte está feita.Louve a Sua Majestade. Confie em sua bondade, porque jamais faltou a seus amigos.

Feche os olhos da imaginação, e não fique pensando: por que dá devoção àquele em tão poucos dias, e a mim a nega em tantos anos? Creiamos que tudo é para nosso maior bem. Leve-nos Sua Majestade por onde e como quiser. Não somos nossos, mas seus. Bastante favor nos mostra em dar-nos disposição para cavarmos um jardim onde é Senhor, e trabalharmos junto dele, pois certamente está conosco.

Se permite que vicejem essas plantas e cresçam essas flores, dando a umas água tirada do poço, e a outras nenhuma, - o que tenho eu a ver? Fazei vós, Senhor, o que quiserdes, contanto que eu não vos ofenda, nem se percam as virtudes que já me destes, só por vossa bondade. Quero padecer, Senhor, pois vós padecestes. Cumpra-se em mim de todas as maneiras vossa vontade e praza a Vossa Majestade que algo de tanto preço como vosso amor não seja dado a gente que vos sirva só para ter consolações.

É muito de se notar, e assim digo porque o sei por experiência: a alma que nesta via da oração começa decididamente e consegue resolver-se a não fazer caso de aridez, quando lhe faltam delícias e ternuras, ou de consolação quando lha dá o Senhor, já tem andado grande parte do caminho. Não tenha medo de voltar atrás por mais que tropece, poque o edifício está assentado em firmes alicerces. Sim, o amor de Deus não consiste em ter lágrimas, nem tão pouco nesses gostos e ternuras que geralmente desejamos e com os quais nos consolamos, mas em servir a Deus com justiça, fortaleza de ânimo e humildade. O ter gostos mais me parece receber do que dar.

Para mulherzinhas como eu, fracas e inconstantes, acho conveniente que Deus as conduza com suavidades, como agora faz comigo para que possa sofrer alguns trabalhos conforme Sua Majestade dispôs que me sobreviessem. Mas servos de Deus, homens de valor, de estudos, de inteligência, dá-me desgosto vê-los preocupados e queixosos de que Deus não lhes concede devoção - como tenho ouvido. Não digo que não a aceitem e tenham em muita conta quando Deus a der, porque então Sua Majestade terá visto ser conveniente para eles. Quando, porém, não a tiverem, não se aflijam. Entendam que não lhes é necessária. Quando Sua Majestade a nega, andem senhores de si. Tenho visto e experimentado. Creio que é imperfeição não andar com liberdade de espírito e é enfraquecer-se com ânimo irresoluto para qualquer acometimento.

Nisto não me refiro tanto aos principiantes, ainda que muito insista com eles neste ponto. Importa muito começarem com essa liberdade e determinação. Falo principalmente para outros, pois haverá muitos que começaram de longa data e não conseguem sair do princípio, devido em grande parte - creio - a não abraçarem a cruz desde o início. Por esta razão andam aflitos, julgando que nada fazem. Não podem suportar se o intelecto deixa de trabalhar, mas a vontade se robustece e cobra forças, embora não o percebam.

Convençamo-nos de que o Senhor não apura estas coisas, que nos parecem faltas e não o são. Melhor do que nós, conhece nossa miséria e baixeza naturais, e sabe que estas almas já desejam amá-lo e pensar sempre nele. Esta resolução, eis o que o Senhor quer. No mais, a aflição que nos acabrunha só serve para inquietar a alma. Se está incapaz de tirar fruto durante uma hora, ficará na mesma quatro horas.

Muitas vezes tudo provém de indisposição corporal. Tendo disto grande experiência e sei que é verdade, pois o tenho considerado atentamente e consultado em seguida pessoas espirituais. Somos tão miseráveis que esta encarceradinha, que é nossa alma, participa das misérias do corpo. As mudanças de tempo e as variações dos humores fazem muitas vezes que, sem culpa sua, ela não possa realizar o que quer e padeça de todos os modos. Em tais condições, quanto mais lhe fazem violência, tanto mais dura o mal. É preciso discrição para ver quando é o caso, en ão atormentar a pobrezinha. Entendam que estão doentes; mudem a hora da oração, e às vezes será necessário que assim façam durante alguns dias. Passem este desterro como puderem. É bastante desventura, para a alma, que ama a Deus, ver-se tão miserável nesta vida. Não faz o que quer, pois tem tão mau hóspede como é o corpo.

Repito: é necessário ir com discrição, porque em algumas ocasiões será obra do demônio. É bom nem sempre deixar a oração quando o intelecto está muito distraído e perturbado, e nem sempre atormentar a alma obrigando-a ao que está acima de suas forças. Há outras ocupações de obras de caridade e leitura de bons livros, ainda que por vezes nem isto seja possível. Sujeite-se então a servir o corpo, por amor de Deus, para que ele muitas outras vezes sirva à alma. Tome alguns passatempos santos de conversações virtuosas, ou vá ao campo, conforme o conselho do confessor. Em tudo é grande coisa a experiência, que dá a entender o que nos convém. Em tudo se serve a Deus. Suave é o seu jugo. É grande sabedoria não trazer a alma arrastada, como se diz, senão levá-la com suavidade, para seu maior aproveitamento.

Torno a avisar, e não importa se eu o repetir muitas vezes, porque é muito importante: por securas, inquietações ou distrações nos pensamentos, ninguém fique atormentado ou aflito. Quem quiser adquirir liberdade de espírito e não andar sempre atribulado, comece por não se espantar com a cruz. Verá como o Senhor ajuda a levá-la. Deste modo viverá contente e tirará proveito de tudo. É claro: se o poço está seco, não podemos nós enchê-lo de água. O importante é que não nos descuidemos de tirá-la assim que a água começar a brotar, porque então Deus já quer por meio dela multiplicar as virtudes.

Sta Teresa D'Avila, Livro da vida. 11ª Ed. São Paulo: Paulus, 2010. p. 81-87.

O objeto natural da vontade - o Sumo Bem


"Não é a vontade humana, como apetite, cega em si, que está sabendo para que ela tende, impulsionada pela fome e sede de felicidade, apetecendo o bem correspondente que a sacie plenamente, mas é a razão metafísica que descobre a realidade necessária deste bem. Ela analisa, antes de tudo, o objeto formal da vontade como tendência natural. Este objeto não é tal ou tal bem, mas o bem como tal, bem como bem, sem nenhuma limitação. Daí resulta que a vontade humana, como apetite natural, tende para o bem ilimitado, a fim de saciar a sua sede de felicidade, o amor. A felicidade pode realizar-se só possuindo o bem correspondente à amplidão da aspiração natural. Esta amplidão é ilimitada. Portanto, o bem correspondente não pode ser encontrado em nenhum ente finito, mas só no Bem que concentre em si a totalidade do bem, ou seja, no Sumo Bem. Por isso o Sumo Bem é real. É impossível que o amor natural volitivo, reto, que proclama perante a razão metafísica a realidade do Bem sem limites, seja frustrado. O amor natural é sempre reto, não mente. Sem a realidade do Sumo Bem, a vontade no seu apetite natural seria contraditória, pois ela existiria assim lançada, porque existe e, ao mesmo tempo não existiria, porque o Sumo Bem, para o Qual tende inevitavelmente, que a atrai, não poderia existir. O Sumo Bem é Deus, como a metafísica evidencia competentemente. Deus, possuído como Sumo Bem, gera o amor e manifesta-se como Amor, Raiz profunda e última, a Fonte da felicidade."

LADUSÃNS, Prof. Dr. Pe. Stanislavs. Gnosiologia Pluridimensional. São Paulo: Loyola, 1992. p.26-27.

Dia de Corpus Christi - Mistério insondável


Dia desses, fui à Missa e, olhando a Eucaristia, me pus a meditar..

A Eucaristia é Deus. Às vezes, a gente acha que entende o que é isso, mas não entende. Qualquer conceito que possamos ter de Deus, por mais elevado que seja, é sempre analógico e nunca literal. O que Ele é nos escapa. Por isso dizemos apenas que Ele é.

Neste sentido, escreveu S. Gregório de Nissa, na sua Vida de Moisés:

"Todo conceito formado pelo entendimento para tentar atingir e abranger a natureza divina não consegue mais do que forjar um ídolo de Deus, em vez de fazer conhecê-Lo."

Qualquer teologia que suponha poder dizer estritamente quem é Deus torna-se herética no ato mesmo de pretendê-lo. Quem é Deus? Não sabemos. As nossas afirmações d'Ele são sempre comparativas.

Se não sabemos isto, como pretendemos entender o fenômeno da Eucaristia? Simplesmente, não dá.. Podemos ter uma Fé profunda de que Deus está ali, mas a Fé é justamente a "visão obscura", o "ver confusamente" de que fala S. Paulo. Por isso, a Sta Edith Stein costumava dizer que a Eucaristia é "o pão seco dos fortes", pois é preciso ser forte, no sentido de vencer a nossa tendência natural de exigir comprovações e gostos sensíveis, como fazem as crianças com os alimentos, para encontrar ali o Cristo. Sta Faustina Kowalska dizia o mesmo: "A fé firme rasga este véu". E é assim mesmo que Deus o quer, pois diz São Paulo: "O justo vive pela fé" e "sem fé é impossível agradar a Deus." Jesus o exprime de modo claro: "Felizes os que crêem sem ter visto", e Tomás de Aquino, o doutor angélico, por sua vez, escreve em que consiste esta força: "Se não vês nem compreendes, gosto e vista tu transcendes, elevado pela Fé." (Lauda Sion)

A Fé, portanto, não indica um bloqueio no sentido de nos deixar aquém daquilo que é percebido pelos sentidos. Pelo contrário, a Fé nos leva além deles, a um tipo de conhecimento que é tão intenso e se aproxima tanto da luz que, antes, nos ofusca. Mas, ao nos ofuscar, nos ilumina e nos prepara, gradativamente, para a visão. Os olhos incandescidos tendem a adaptar-se aos poucos à luz. A Eucaristia, exigindo-nos a Fé, nos prepara para a visão beatífica.

A Eucaristia é Deus. Ao dizê-lo, abre-se diante de nós um abismo de horizontes infinitos. Como esgotá-lo com o entendimento? Não dá. Os sentidos não o apreendem. A razão apenas assente. E, no entanto, Deus verdadeiramente Se dá, e nós O recebemos, e O comemos.

Deus é a raiz mesma da realidade. É a realidade por si mesma subsistente. É a realidade real por excelência. Duvidar da Eucaristia, portanto, é um contrassenso, pois é duvidar daquilo que é mais verdadeiro que qualquer verdade que conhecemos. Sob as espécies do Pão e do Vinho está aquele que disse: "Eu sou a Verdade" (Ego Sum Veritas).

Nós, que vivemos num mundo efêmero e frágil, que passa como um piscar de olhos, que é um momento entre duas eternidades, como bem o disse Sta Teresinha de Lisieux, ao receber a Eucaristia, recebemos Aquele que É, que não é suscetível de mudanças, que criou e sustenta todas as criaturas; Aquele ao qual tudo o que existe deve sua existência. Comemo-Lo e, ao fazê-Lo, sofremos uma espécie de adensamento da realidade. Nos tornamos mais nós mesmos, pois estamos comendo a própria Verdade. A Eucaristia, portanto, reforça o nosso ser, e tenderá necessariamente a iluminar a inteligência, permitindo-nos conhecê-Lo e conhecer-nos. Conhecer-nos é a raiz da humildade, que é início de qualquer virtude. A Eucaristia, assim, é causa eficiente de uma profunda dinâmica interior que culminará na santidade ou perfeita identificação com o Cristo, se o permitirmos. Não é outra coisa o que Ele mesmo diz a Sto. Agostinho:

"Ao comer-Me, não és tu que Me transformas em ti, mas Eu que te transformo em Mim."

Que mistério.. Uma criatura, abismo de nada, recebe em si mesma Aquele que é o tudo. Como pode um buraco na areia receber o oceano? Deus não pode, depois de recebido, não abrir a amplitude interior da alma, não torná-la grande, não estendê-la ao infinito, não dispô-la a Si. Se o recipiente torna o recebido semelhante a si, aqui se dá o inverso: é o recebido que adapta o recipiente. 

Neste dia de Corpus Christi, nós possamos contemplar o mistério absolutamente inefável da Eucaristia, o amor e a humildade vertiginosos que se comprimem ali, naquelas aparências tão vizinhas do nada, como dizia Sta Teresa D'Avila, e aceitar o fato de que não O vemos nem O entendemos. Não desejemos vê-Lo nem compreender tal mistério. Desejemos apenas amá-Lo e acreditar na Fé que nos diz que, naquele pequeno objeto frágil, magra hóstia branca, há um sobre-excesso de ser, uma raiz de eternidade, ou, como diziam os antigos, o remédio de imortalidade, pois, "quem come a Minha carne e bebe o Meu sangue tem a vida eterna." (Jo 6,54)

Fábio

O Panteísmo e a Gnose, fundadores da Modernidade, contra a Igreja


Prof. Orlando Fedeli

"Com a morte de Cristo no Calvário, o homem foi redimido e o Reino de Deus começou de novo a existir, por meio da Igreja. Com a morte de Jesus na Cruz, o demônio foi vencido e começava a ser construída solidamente a Civitas Dei. 

Ela teve como fundamento a verdade revelada por Cristo e o sangue vertido por Cristo no Calvário. A Cidade de Deus foi combatida incessantemente na História, ora pela violência - pelo leão panteísta -, ora pela astúcia da heresia suscitada pela serpente. Violência e heresia se sucedem na História, atacando a Igreja Católica. 

Logo depois do Calvário, supremo ato de violência deicida cometida pelo fermento fariseu, começaram as perseguições na arena romana. O sangue dos mártires foi semente de cristãos. Em 313, o edito de Constantino livrou a Igreja da violência romana. Imediatamente nasceram as grandes heresias cristológicas: o arianismo (317), o nestorianismo, o eutiquismo, a iconoclastia, para citar algumas heresias orientais.

Vencida estas pelos grandes Padres da Igreja e pelos grandes Concílios, recomeçou a perseguição violenta à Igreja Católica, através do maometismo, nascido da pregação de um rabino, em Meca. As cruzadas puseram um dique à expansão islâmica. Surgiu então a gnose cátara que quase destruiu a Cristandade. Simão de Montfort e a Santa Inquisição salvaram a Igreja, a civilização, e a própria humanidade, como reconheceu o historiador protestante Lea.

A Gnose se refugiou no Trovadorismo e no Humanismo.

A Cidade de Deus alcança seu apogeu na Idade Média, no século XIII. Foi nessa época histórica que o homem alcançou o equilíbrio tetraédrico, alcançou a mais alta sabedoria com base na Metafísica escolástica de São Tomás de Aquino.

Desgraçadamente, num mesmo ano, em 1274, a Igreja perdeu São Tomás e São Boaventura.

Com Duns Scoto - declarou-o Bento XVI em sua aula magistral de Regensburg - com Duns Scoto a Catedral do Saber medieval, a Escolástica, começou a ser destruída. Esse filósofo franciscano defendeu a univocidade do ser, e destruiu a analogia escolástica. Ele fez triunfar o voluntarismo independente do intelecto.

De Duns Scoto nasceram a Gnose do dominicano Mestre Eckhart, e o Panteísmo do franciscano Frei Guilherme de Ockham, dos quais vai nascer a Modernidade.

Esses dois naturalistas perverteram a Verdade católica.

Perverteram... Isto é, colocaram a verdade em seu versum, em seu avesso.

Desde então, como confessou Hegel, nasceu a Filosofia como a "ciência que coloca o mundo às avessas".

Colocar o Mundo às avessas. Fazer da Verdade, mentira. Do bem, mal. Fazer a criatura ser Deus. Identificar Deus, o Eu e o Mundo. Inverter o tetraedro. Negar o intelecto e o conhecimento racional. Instaurar a dialética gnóstica, que afirma a identidade dos contrários. A mentira como verdade. O diabo como Deus.

Repetiu-se o pecado de Adão.

Repetiu-se o pecado antimetafísico.

E foi desse pecado antimetafísico que nasceu a Modernidade.

O Pecado de Adão.

A salvação pelas obras ou pelagianismo


Quando Lutero e os primeiros reformadores protestantes assinaram a Confissão de Augbsburgo, um dos pontos levantados contra os católicos era a suposta fé destes na salvação pelas obras, o que parecia significar a crença numa espécie de "compra" do céu, ou de barganha com Deus, ou, pelo menos, sugeria que o céu estava ao alcance natural do esforço humano.

Mas e qual é a fé da Igreja? É esta?

Não, nunca foi. Mas, ainda que assim não seja, é fato que muitos dos católicos hodiernos, sobretudo alguns dos que assumiram o grave cargo de pastores de alma, crêem nessa tese, o que se reflete, seja nas suas pregações, seja nas suas ações. Analisemos os pressupostos e as consequências de uma tal posição.

Primeiramente, esta idéia já foi condenada pela Igreja, no Conc. de Éfeso, em 431 d.C. Havia, então, um bispo chamado Pelágio - daí o nome pelagianismo - e que negava algumas verdades fundamentais da Fé. Segundo ele, primeiramente não existia nenhuma repercussão do pecado original nos homens. O nosso livre arbítrio permanecia intacto. Logo, não havia nenhuma necessidade da graça de Deus para que uma pessoa pudesse alcançar uma vida em conformidade com o Evangelho. Então, é falso que Jesus morreu para redimir os homens. Como se vê, esta heresia tocava no centro mesmo da teologia católica. Pelágio foi combatido por Sto Agostinho, que não à toa foi chamado de o "Doutor da Graça". 



Nota-se que o pelagianismo possui um acento naturalista: o homem possui a capacidade natural de salvar-se. A vinda de Cristo teria nos servido apenas de exemplo. Dispensa-se qualquer trabalho efetivo d'Ele em nós. Isto poderia levar, também, a uma espécie de ateísmo prático. Seja como for, o pelagianismo não pode ser cultivado senão por alguém com uma ignorância monumental das próprias bases da Fé Cristã, que são:

- O Pecado Original é real: Adão e Eva pecaram, e a consequência do pecado deles foi comunicada a todos os homens. Por causa disso, o mal e a morte entraram no mundo. E é por isso que Nosso Senhor fala que é preciso nascer de novo. Um novo nascimento é necessário porque o primeiro nascimento foi estragado. Bento XVI escreveu, certa vez, que negar o pecado original é perigoso, pois, então, suporemos uma neutralidade no ser humano onde ela não há. Isto pode levar a exposições indevidas que trarão consequências não previstas.

- Cristo morreu para nos redimir. Sem Ele, não há qualquer esperança de Salvação. Ao contrário do que comumente se pensa, o céu não nos é devido. E é por isso que a Escritura fala que nenhum outro nome nos foi dado do alto pelo qual possamos ser salvos. Ou seja: não há redenção sem Cristo. Pensar no céu como uma mera recompensa dos próprios esforços é imbecil e megalomaníaco.

- Cristo age em nós pela Graça Santificante. Esta é uma das realidades mais ignoradas pelos católicos atuais. Se não há Graça, não há vida da alma. Se não há vida da alma, uma pessoa não pode salvar-se. Isso significa, também, que, ainda que uma pessoa faça mil e uma ações grandiosas em prol dos pobres, ou outros atos de devoção, se ele não está em graça, estas coisas são incapazes de torná-lo amigo de Deus e restituir-lhe o dom da Graça. Logo, é absolutamente falso que uma pessoa pode chegar a ser salva por si mesma. Se isso fosse possível, a morte de Cristo seria desnecessária, o que é uma blasfêmia.

O Pelagianismo, portanto, consiste numa espécie de auto-suficiência humana, verdadeiramente demoníaca - pois foi o demônio quem nos prometeu que seríamos como deuses - e, portanto, é totalmente oposta à verdade do Cristianismo. É uma heresia perniciosa, e, não obstante, tem sido pregada como se fosse o próprio catolicismo. 

Isso não quer dizer, obviamente, que as obras não sejam importantes. Não aderimos ao princípio autocontraditório da Sola Fide, por ser, inclusive, antibíblico. Mas, se as ações têm sua importância, esta reside dentro de um contexto que pressupõe necessariamente a Graça Santificante, pois é esta que nos incorpora ao corpo de Cristo, e é só então que, à semelhança da água misturada ao vinho antes da consagração, na Missa, nós podemos vincular os nossos pequenos sacrifícios e ações aos méritos infinitos da Cruz do Senhor. Ocorre conosco aquilo que Paulo já dizia: "completo em mim o que faltou à Paixão de Cristo". Os méritos existem porque, uma vez que estamos unidos a Jesus, Ele eleva as nossas ações à sua dimensão divina; nos sobrenaturaliza, nos faz transcender a pouca medida dos nossos esforços naturais. Nos torna deuses por participação.

Reneguemos, pois, com força, o pelagianismo e qualquer sombra de heresia, pois, por causa dele, não poucas são as pessoas que, enganadas, caminham sem sair do lugar.

A Bíblia era desconhecida pelos Católicos?


Com frequência, a Igreja Católica é acusada, pelos seus detratores, de, no correr da história, impedir que a Sagrada Escritura fosse disponibilizada aos fiéis a fim de lhes manter na ignorância da verdadeira Fé. Isto, porém, é em absoluto falso. A Sagrada Escritura não apenas foi preservada, como também foi compendiada, no que se refere ao cânon do Novo Testamento, pela Igreja Católica, que não somente a traduziu do grego para o latim, com várias traduções vernáculas, como ainda, para facilitar-lhe a leitura, a dividiu em capítulos e versículos. Para a grande maioria analfabeta, a bíblia era então lida nas Liturgias. 

A fim de que sejam retirados vários destes mitos, recomendo a leitura deste artigo do Site Veritatis: "Queima de Bíblias e outras alegações".

Em certas histórias da Reforma, os hereges são retratados como grandes cavaleiros incorruptíveis a bramir corajosamente a espada das Escrituras contra as corruptas autoridades romanas que, não sabendo defender-se, apelam para ofensas e ruídos, ao mesmo tempo em que espumam pela boca. Contudo, essas descrições até risíveis, não bastasse o seu óbvio aspecto caricaturado, são de todo falsas.

A Igreja sempre foi profunda conhecedora das Escrituras. Dentre os seus santos, vários deles tinham a Sagrada Escritura totalmente memorizada, e sempre lhe atribuíram valor de inerrância. Pesquise-se, por exemplo, sobre a escola dos vitorinos, e em particular pelo cardeal Hugo de S. Vítor e pelo teólogo Ricardo de São Vítor, alguns dos seus representantes mais eminentes, e o leitor terá apenas uma vaga idéia da profundidade e fluência bíblica que eles possuíam. 

E para dar apenas um exemplo da alta estima que os medievais tinham pela Escritura, recorro ao caso de São João da Cruz, contemporâneo de Lutero, que, na escassez do tempo que me é disponível, é o que tenho aqui no alcance da mão. O leitor fique livre para fazer outras pesquisas nesta área, e haverá de encontrar material vastíssimo, capaz de refutar infinitas vezes os erros crassos dos críticos da Igreja neste aspecto.

Diz o santo, no prólogo ao livro I do Subida ao Monte Carmelo, n.2:

"Para dizer, portanto, alguma coisa desta noite escura, não me fiarei de experiência nem de ciência porque uma e outra podem falhar e enganar; todavia, ajudar-me-ei de ambas no que me puderem valer. Para tudo quanto, com o favor divino, hei de dizer, ao menos para as coisas de mais difícil compreensão, apoiar-me-ei na Sagrada Escritura: tomando-a por guia, não há perigo de engano, pois nela fala o Espírito Santo."

Leia-se, além disso, a Catena Áurea de Sto Tomás de Aquino, onde os Evangelhos não somente são disponibilizados, mas comentados versículo por versículo. 

Enfim, as discordâncias dos assim ditos reformadores protestantes não se dão por causa do desconhecimento da Escritura por parte da Igreja, mas por questões doutrinais e de interpretação da mesma. Como se sabe, o princípio da Sola Scriptura, que já provamos diversas vezes aqui no blog não ter base nem na Bíblia nem na própria lógica elementar, foi a responsável por introduzir uma verdadeira anarquia religiosa e a divinização das mais tresloucadas imaginações que pudessem vir a ocorrer nas mentes férteis dos tais reformadores. Disto se seguiu uma verdadeira Babel, onde cada um dizia algo diferente, e todos atribuíam o imenso retalho de nonsenses e contradições ao mesmo Espírito Santo, o que, por si só, é uma blasfêmia evidente.

Recomendo, por fim, o livro "Todos os Caminhos Levam a Roma", do teólogo e doutor em Bíblia, Scott Hahn, e sua esposa, Kimberly Hahn, que, embora fossem de orientação presbiteriana - o Scott era pastor -, através de intensos estudos da Escritura chegaram a se convencer de que aquela que antes era crida como a Prostituta do Apocalipse e a Sinagoga de Satanás era, na verdade, a imaculada Esposa do Cordeiro. 

Que o leitor sincero estude e se informe, antes de correr o risco de levantar falso testemunho, um dos pecados contra os Mandamentos, contra a esposa do Cordeiro, que faz um só corpo com Ele e com a qual Ele mesmo se identifica, conforme disse a São Paulo quando ainda perseguidor: "É a mim que persegues."

Fábio.

Antes de Lutero, a Igreja já havia traduzido a Bíblia para várias línguas


"A Bíblia foi disponibilizada em alemão em 14 diferentes edições antes que Lutero a tivesse traduzido; ela foi disponibilizada em mais de uma dúzia de outras linguagens antes que Lutero tivesse sequer nascido. É um mito que eu ajudei a perpetrar, tirando da Igreja Católica a minha namorada e muitos jovens no ministério da juventude, dizendo que a Bíblia sempre havia sido suprimida pela Igreja Católica, quando na verdade eu descobri que, muito pelo contrário, eles fizeram muito mais traduções que eu sequer soubera. A razão pela qual eles recusaram autorizar certas traduções de Wycliffe e Lutero foi por causa das faltas que eles encontraram nas traduções. Especialmente quando Lutero adicionou palavras tais como "somente" na discussão sobre a Justificação." 

Scott Hahn. Apologia: The Fullness of Christian Truth, Tradução minha.

O Sacramento da Confissão: Sempre existiu? É invenção dos padres?


A Confissão sempre existiu

Em todos os tempos foi preciso, para conseguir o perdão, confessar os pecados. Adão, o primeiro pecador, só foi perdoado depois de ter confessado oralmente, com humildade e arrependimento, aos pés do Filho de Deus - que lhe aparecia revestido de forma humana no paraíso terrestre - a grande falta que acabava de cometer. "Comi do fruto proibido", disse ele; eis a confissão. Eva também se confessa, antes de ser absolvida: "Eu também comi".

Caim não quis se confessar: "Que fizeste de teu irmão?; pergunta-lhe o Senhor, de novo revestido daquela aparência humana, que um dia deveria assumir em realidade. "Meu pecado é grande demais para que Deus me perdoe", responde o miserável. Por isso foi amaldiçoado: escondeu-se da face do Senhor, errante sobre a terra, como um réprobo.

Entre os judeus, na lei antiga, era preciso confessar aos sacerdotes, como nós o fazemos hoje: confessar-se oralmente e com detalhes, antes de oferecer o sacrifício e obter a remissão dos pecados. Há vários registros dessa obrigação nos livros sagrados de Moisés (por exemplo em Nm 5,7 e Lv 4). A confissão foi sempre um sinal distintivo da verdadeira religião.

Nosso Senhor Jesus Cristo deu à confissão a dignidade de um sacramento, e a estabeleceu na Igreja como inesgotável fonte de salvação e consolação, refúgio dos pobres pecadores e auxílio da fraqueza humana. Ele mesmo confessou e absolveu muitos pecadores, entre os quais a mulher adúltera, que esteve a sós com ele no templo: eis aí a doente com o médico, a grande miséria com a grande misericórdia; arrependida, ela declarou sua falta; por isso, disse-lhe Jesus: Vai em paz, teus pecados te são perdoados.

Seus apóstolos, os primeiros padres, foram também os primeiros confessores. Vemos São Paulo e seus companheiros, em uma de suas missões em Éfeso, tocarem tão vivamente o coração dos fiéis, que "muitos vinham confessar e declarar as suas obras." (Cfr. At 19,18)

Nas catacumbas de Roma e nos monumentos dos primeiros séculos cristãos encontram-se vestígios tão numerosos e tão claros da confissão, que até mesmo o historiador protestante Edward Gibbon, malgrado o ódio contra a religião, reconhece que "o homem instruído não pode resistir ao peso da evidência histórica que confirma a confissão como um dos principais pontos da doutrina papista (isto é, católica) em todo o período dos quatro primeiros séculos. Ele só menciona os quatro primeiros séculos porque, a partir do século V, já ninguém tem dúvidas quanto a isso.

Esse reconhecimento tão claro, vindo de um inimigo ferrenho da Igreja, dispensa mais provas. Contudo, trazemos para consolação do leitor quatro ou cinco testemunhos, escolhidos ao acaso entre muitos outros, que demonstram que os primeiros cristãos se confessavam como nós.

No século I, o Papa São Clemente, batizado e sagrado por São Pedro em pessoa, ensinava a seguinte regra: "Quem cuida da própria alma não se envergonha de confessar ao padre os sentimentos de inveja e outras faltas que penetraram secretamente no coração, a fim de que receba do sacerdote a cura pela palavra de Deus (é assim que ele chama a absolvição) e pelos conselhos salutares. (Epístola a São Tiago) Também no século I, enquanto São Paulo ainda era vivo, São Dionísio... discípulo do grande Apóstolo, que o ordenou primeiro Bispo de Atenas -, repreendia com veemência um cristão chamado Demófilo, que havia maltratado um pobre pecador, o qual se jogara aos pés de um padre para confessar os pecados: "O pobre homem, diz ele, implorava e dizia que viera procurar um remédio para seus males; e tu não só o repeliste, mas menosprezaste o bom padre que tivera compaixão daquele penitente." (Epístola VIII a Demófilo)

Entre os autores cristãos dos séculos II e III, o célebre Orígenes, cuja ciência era estimada em todo o mundo, fala com clareza e insistência sobre a confissão: "Se nos arrependermos de nossos pecados e os confessarmos não só a Deus, mas a quem pode remediá-los, os pecados nos serão perdoados." Diz ele também: "Quando o pecador acusa a si mesmo e se confessa, ele vomita o pecado e extirpa a causa do problema. No entanto, quando quereis confessar-vos, fazei de maneira que o médico a quem vós declarais o motivo de vossa enfermidade possa compadecer-se de vossas dores e compreender o estado de vossa alma, para que seja para vós um médico hábil e compassivo, e que vos dê conselhos sábios." (Hom. sobre o Salmo 37)

Tertuliano, que viveu na mesma época, é tão claro quanto Orígenes; diz ele: "Há pessoas que evitam o penoso trabalho da confissão, ou adiam-na dia após dia, porque fazem mais caso da honra que da salvação. Elas se assemelham aos que, tendo contraído uma vergonhosa doença, escondem o mal do médico e morrem vítimas desse trágico pudor. É melhor condenar-se escondendo o pecado do que se purificar declarando-o?" (Da Penitência) Acrescenta ainda: "Devemos nos humilhar e ajoelhar aos pés dos padres." (Ibid.)

São Cipriano, Bispo de Cartago martirizado no século III, escreve sobre os fiéis "que vêm se confessar aos padres de Deus, com arrependimento e humildade, abrindo o segredo de suas consciências, livrando as almas do peso dos pecados e buscando o remédio da salvação." (Tratado sobre os apóstatas) Por meio do relato de dois célebres historiadores da Igreja do Oriente, sabemos que foi também no século III que se instituíram os padres penitenciários em toda a Igreja, "com o intuito de que todos os pecadores se confessem a eles minuciosamente." (Socrate e Sozomène, Histoire ecclésiastique, liv. V e VIII) "Para obter o perdão, diz um deles, é indispensável confessar os pecados."

No século IV, São Basílio Magno, Bispo de Cesaréia, na Ásia Menor, declarava que "é preciso confessar-se a quem pode distribuir os mistérios de Deus, isto é, aos padres." (Abrégé des régles, quest. 288) São Gregório, Bispo de Nissa: "Precisamos revelar sem medo aos confessores, nossos médicos espirituais, os segredos mais ocultos da nossa consciência." (Epístola canônica a Létoius) Santo Ambrósio, Bispo de Milão, na Itália: "A penitência que fazemos pelos pecados, mesmo os secretários, é infrutífera se não vier acompanhada da reconciliação e da absolvição, que dependem do ministério dos padres. (Tratado da Penitência, liv. I) E o diácono Paulino, que escreveu a vida de Ambrósio, relata que "quando um penitente se apresentava a Ambrósio para confessar-se, o santo bispo chorava tanto que levava o pecador a chorar com ele."

Santo Agostinho, discípulo de Santo Ambrósio e Bispo de Hipona, na África, fala amiúde da confissão em seus numerosos escritos. Ele responde, entre outras, a uma vil objeção, revivida mais tarde pelos protestantes e incrédulos: "Que ninguém diga a si mesmo: faço penitência por minha conta, faço penitência diante de Deus; Deus, que sabe disso, me perdoa... O quê! Porventura foi em vão que Ele declarou aos padres: Tudo o que desligares na terra será desligado nos céus? Porventura foi em vão que Ele deu as chaves à Igreja? Não tendes estima pelo Evangelho, desprezais as palavras de Cristo e prometeis a vós mesmos o que Ele vos recusa." (Sermão 392)

Enfim, poderíamos citar indefinidamente frases como essa, mas, para terminar, lembremo-nos do belo testemunho do grande Arcebispo de Constantinopla, São João Crisóstomo: "Os homens receberam de Deus um poder que não se concedeu aos anjos nem aos arcanjos. Jamais afirmou Ele aos espíritos celestes: Tudo o que ligares e desligares na terra será ligado e desligado nos céus... Os príncipes deste mundo só podem ligar e desligar os corpos; o poder dos padres vai muitíssimo além: esse poder alcança a alma, e os padres o exercem não somente ao batizar, mas também ao perdoar os pecados. Não nos envergonhemos portanto de lhes confessar nossas faltas. Quem se envergonha de contar os pecados a um homem e não quer confessar, será coberto de humilhação no dia do Juízo, na presença do universo inteiro." (Tratado do sacerdício, liv. III)

Pergunto aos senhores: não é isso o que os padres pregam e ensinam até os dias de hoje? O ensinamento da Igreja nunca mudou neste ponto, assim como não mudou nos demais. Para o homem de boa fé é evidente que os homens sempre se confessaram, e que a confissão sempre foi considerada uma instituição divina e uma necessidade absoluta.

A confissão é uma invenção dos padres?

É óbvio que não, pois é uma invenção de Deus. Se você é o inventor de uma máquina, fica evidente que quem a inventou não fui eu. Ora, a patente de invenção da confissão está registrada com todas as letras no Evangelho. (cfr. Jo 20,23)

Se a confissão fosse invenção de um padre, em primeiro lugar não encontraríamos traços dela no tempo dos apóstolos e dos mártires, de cuja honestidade ninguém duvida; ademais, encontrar-se-iam os vestígios de uma tal inovação ao longo da história. Uma invenção que afetasse todos os cristãos do mundo não chamaria de maneira notável a atenção pública? Não surgiriam reclamações de todas as partes? Conhecemos a época exata da invenção de todos os progressos industriais, de todas as instituições civis e políticas, entre outras; conhecemos os nomes dos autores e dos inventores do jogo de cartas, do bingo, da polca, do isqueiro e das descobertas mais insignificantes: por que só a origem da confissão escaparia a essa lei universal!? Isso é impossível, é absurdo! Os protestantes tentaram algumas vezes indicar a origem dela, mas se cobriram de ridículo perante a ciência; ainda há pouco ouvimos um correligionário deles, o célebre historiador Edward Gibbon, confessar sem rodeios que a confissão remonta até o berço do cristianismo.

Você acredita que o padre se diverte com a confissão? É realmente uma bela invenção esse ministério, penoso e laborioso, que lhe desgasta a saúde, fatiga o espírito, cria mil desgostos e temores, encarrega-o de imensa responsabilidade e atrai até ele os coléricos, os rancorosos e todos os patifes! Quantas pessoas amariam os padres, se eles não as confessassem!

Além disso, se os padres tivessem inventado a confissão, não é evidente que teriam começado por se excluírem da obrigação de confessar-se? Saiba que a confissão é tão penosa para eles quanto para você, pois eles são homens iguais a você e conservam sob a sublime dignidade sacerdotal não só as falhas humanas, mas também o amor-próprio, que recusa sempre humilhar-se. Quem inventou a confissão inventou os padres, transmite-lhes os poderes divinos e, pelo ministério sacerdotal, salva os homens, ao perdoar os pecados. Olhe o crucifixo: aí está o único inventor da confissão!

Monsenhor de Ségur. A Confissão. Rio de Janeiro: Castela, 2013. p.18-27.

Dois pastores protestantes debatem sobre a Igreja Católica


O relato abaixo trata-se de uma conversa verídica entre o Prof. Scott Hahn, então teólogo presbiteriano e doutor em Bíblia, que estava em vias de se tornar católico por causa dos seus estudos sobre a Escritura, e o Prof. Doutor Gerstner, teólogo calvinista formado em Harvard e de postura anticatólica, última esperança de Scott, de seu amigo Gerry e de sua esposa Kimberly no intuito de dissuadi-lo da sua iminente conversão àquilo que, então, eles chamavam, nas palavras do Prof. Gerstner, "a sinagoga de Satanás". Hoje, dia da instituição do Sacerdócio ordenado e da Santíssima Eucaristia, o blog traz mais esta postagem especial. Boa leitura.

***

A certa altura, perguntou-me [o prof. Gerstner]:

- Scott, que suporte bíblico encontra você para o Papa?

- Doutor Gerstner, o senhor recorda como o Evangelho de Mateus enfatiza o papel de Jesus como filho de David e Rei de Israel, enviado pelo Pai para inaugurar o Reino dos céus? Creio que Mateus 16, 17-19 nos mostra como Jesus estabeleceu esse Reino. Deu a Simão três coisas: primeiro, um novo nome, Pedro (ou Pedra); segundo, o seu compromisso de edificar a sua Igreja sobre Pedro; e, terceiro, as chaves do Reino dos Céus. É este terceiro aspecto que me parece mais interessante.

Quando Jesus fala das "chaves do Reino" está se referindo a um importante texto do Antigo Testamento, Isaías 22, 20-22, onde Ezequias, o herdeiro do trono real de David e rei de Israel nos tempos de Isaías, substitui o seu velho primeiro ministro, Chebna, por um novo, chamado Eliacim. Qualquer pessoa podia dizer qual dos membros do gabinete real era o novo primeiro ministro, pois tinham-lhe sido entregues as chaves do Reino. Ao confiar a Pedro "as chaves do Reino", Jesus estabelece o cargo de primeiro-ministro para administrar a Igreja como o seu Reino na terra. Portanto, as "chaves" são um símbolo da missão e do primado de Pedro, para ser transmitido ao seu sucessor; assim foi sendo transmitido ao longo das épocas.

- É um argumento muito engenhoso, Scott - replicou.

- E como o refutamos nós, os protestantes?

- Bom, não creio tê-lo ouvido antes. Teria que pensar sobre isso um pouco mais. Continua com os outros argumentos.

prossegui então descrevendo como a família da Aliança era o princípio central ou a idéia-chave da fé católica. Explica Maria como nossa Mãe, o Papa como nosso pai, os santos como nossos irmãos e irmãs, e as celebrações e dias de festa como festas de aniversário.

- Doutor Gerstner, tudo isso adquire significado quando se considera a Aliança como o ponto central da Escritura.

Ele escutava atentamente.

- Scott, acho que você está levando longe demais este assunto da Aliança.

- Talvez tenha razão, doutor Gestner, mas estou totalmente convencido de que a Aliança é central em toda a Escritura, tal como ensinaram os grandes protestantes João Calvino e Jonathan Edwards; só que também estou convencido de que a Aliança não é um contrato, como eles pensaram, mas antes um vínculo familiar sagrado entre Deus e o Seu povo. Se estou enganado em alguma destas questões, mostre-me onde, por favor. Poderia salvar a minha carreira.

Ele respondeu:

- Espera até nos encontrarmos com Gerry.

Uma vez chegados ao lugar da reunião, estivemos durante horas e horas a esmiuçar uma grande quantidade de temas, mas sobretudo a questão da justificação. Apresentei a perspectiva católica, segundo a qual a justificação não é apenas uma mera absolvição mas, à luz do Concílio de Trento, uma divina filiação. Durante seis horas, Gerry e eu apresentamos vários pontos de vista católicos; nenhum foi refutado.Colocamos também muitas perguntas que não tiveram uma resposta satisfatória.


Ao terminar, Gerry e eu olhamos um para o outro: ambos estávamos pálidos. Para nós, havia sido um choque. Tínhamos desejado e rezado para que alguém nos livrasse da humilhação de termos de nos converter.

Num momento em que ficamos sozinhos, disse-lhe:

- Gerry, sinto-me atraiçoado pela nossa tradição Reformada. Vim aqui pensando que íamos ser salvos das águas; mas a Igreja Católica não perdeu um único ponto. Os textos do Concílio de Trento foram tomados fora do contexto. Sem se dar conta, o Concílio tem sido mal interpretado em seus cânones, ao desligá-los das definições formuladas nos decretos.

Na volta para casa, falei muito mais com o doutor Gerstner. Pedi-lhe que me mostrasse onde é que a Bíblia ensina a doutrina da sola Scriptura. Mas não me deu um único argumento novo. Em vez disso, colocou-me uma pergunta:

- Scott, se você concorda que agora nós possuímos a Palavra de Deus inspirada e sem erros na Escritura, o que mais pode nos faltar?

Respondi:

- Douor Gerstner, não creio que a questão principal seja saber o que é que precisamos. Mas uma vez que o pergunta, exponho-lhe o meu ponto de vista. Desde a época da Reforma, foram surgindo mais de vinte e cinco mil diferentes confissões protestantes, e os especialistas dizem que na atualidade surgem cinco novas por semana. Cada uma delas afirma seguir o Espírito Santo e o sentido autêntico da Escritura. Deus sabe que devemos precisar de algo mais.

O que eu quero dizer, doutor Gerstner, é que quando os fundadores da nossa Nação nos deram a Constituição, não se contentaram apenas com isso. Imagine o que teríamos hoje se a única coisa que nos tivessem dado fosse um documento, por muito bom que fosse, junto com a recomendação "que o espírito de George Washington guie cada cidadão"? Teríamos a anarquia, que é precisamente o que temos nós, protestantes, no que se refere à unidade da Igreja. Em vez disso, os nossos pais fundadores deram-nos algo mais do que a Constituição; deram-nos um Governo - formado por um Presidente, um Congresso e um Senado - todos eles necessários para aplicar e interpretar a Constituição. E se isso é necessário para governar um país como o nosso, o que é que será necessário para governar uma Igreja que abarca o mundo inteiro?

É por isso, doutor Gerstner, que começo a acreditar que Cristo não nos deixou apenas com um livro e o seu Espírito. Aliás, o Evangelho não diz uma única palavra aos apóstolos a respeito de que deviam escrever; além disso, só menos da metade dele escreveram livros que foram incluídos no Novo Testamento. O que Cristo disse realmente - a Pedro - foi: "Sobre esta pedra edificarei a Minha Igreja... e as portas do inferno não prevalecerão contra ela". Por isso, vejo mais lógico que Jesus nos tenha deixado juntamente com a sua Igreja - composta por um Papa, Bispos e Concílios - tudo o que é necessário para administrar e interpretar a Escritura.

O doutor Gerstner fez uma pausa para pensar.

- Tudo isso é muito interessante, Scott, mas você disse que não acha que esse seja o tema principal. Qual é então para você o tema principal?

- Doutor Gerstner, creio que a questão principal é o que a Bíblia ensina sobre a Palavra de Deus, já que em nenhum lugar reduz a Palavra de Deus apenas à Escritura. Pelo contrário, a Bíblia diz-nos em muitos lugares que a autorizada Palavra de Deus deve buscar-se na Igreja: na sua tradição (2 Tes 2,15; 3,6), assim como na sua pregação e ensino (1Ped 1,25; 2Ped 1,20-21; Mt 18,17). Por isso, penso que a Bíblia apoia o princípio católico de solum verbum Dei, "só a Palavra de Deus", em vez do princípio protestante sola Scriptura, "só a Bíblia".

O doutor Gerstner respondeu insistindo, uma e outra vez, que tanto a Tradição católica, como os Papas e os concílios ecumênicos, todos eles ensinaram coisas contrárias à Escritura.

- Contrárias a que interpretação da Escritura? - perguntei. - Além disso, todos os historiadores da Igreja estão de acordo em que recebemos o Novo Testamento do Concílio de Hipona, no ano 393, e do Concílio de Cartago, no ano 397, e ambos enviaram as suas decisões a Roma, para serem aprovadas pelo Papa. O senhor não acha que do ano 30 ao 393 é demasiado tempo para estarmos sem Novo Testamento? Além disso, havia muitos outros livros que as pessoas de então pensavam que poderiam ser inspirados, como a Epístola de Barnabé, o Pastor de Hermas e os Atos de Paulo. Havia também múltiplos livros do Novo Testamento, como a Segunda Carta de Pedro, a Carta de Judas e o Apocalipse, que alguns consideravam que deviam ser excluídos. Afinal, que decisão seria digna de crédito e definitiva se a Igreja não ensinasse com autoridade infalível?

O doutor Gerstner replicou em tom calmo:

- Os Papas, os bispos e os concílios podem enganar-se e de fato se enganaram. Scott, como é que você pode pensar que Deus tornou Pedro infalível?

Refleti durante um momento.

- Bem doutor Gerstner, tanto protestantes como católicos estão de acordo em que Deus deve ter tornado infalível Pedro pelo menos em duas ocasiões: quando escreveu a Primeira e a Segunda Epístola de Pedro, por exemplo. Ora, se Deus o pode tornar infalível para ensinar com autoridade por escrito, proque é que não podia preservá-lo do erro ao ensinar com autoridade em pessoa? Do mesmo modo, se Deus pode fazer isso com Pedro e com os outros apóstolos que escreveram a Escritura, por que não podia fazer o mesmo com os seus sucessores, especialmente ao prever a anarquia a que se chegaria se não o fizesse? Por outro lado, como podemos estar seguros de que os vinte e sete livros do Novo Testamento são em si mesmos a infalível Palavra de Deus se foram Papas falíveis e concílios falíveis que nos deram essa lista?

Nunca esquecerei a sua resposta:

- Scott, isso significa simplesmente que o que podemos ter é uma coleção falível de documentos infalíveis.

- Isso é realmente o melhor que o cristianismo protestante histórico consegue proporcionar?

- Sim, Scott, tudo o que podemos fazer são juízos prováveis baseados na evidência histórica. Não temos nenhuma outra autoridade infalível além da Escritura.

- Mas, doutor Gerstner, como eu posso saber que é realmente a Palavra de Deus infalível o que estou lendo quando abro Mateus ou Romanos ou Gálatas?

- Como te disse, Scott, tudo o que temos é uma coleção falível de documentos infalíveis.

Senti-me muito insatisfeito com as suas respostas, embora soubesse que apresentava com toda a honestidade as teses protestantes. Fiquei ali sentado, meditando no que ele dissera sobre a última fonte da autoridade, e sobre a inconsistência lógica da posição protestante.

A minha única resposta foi:

- Bom, se as coisas são assim, doutor Gerstner, acho que devemos ter a Bíblia e a Igreja. Ou as duas ou nenhuma!

HAHN, Scott. Todos os caminhos levam a Roma. São Paulo: Cléofas, 2013. p.97-103.

6 anos do Blog GRAA - Deo Gratias - Postagem especial: Existência e Possibilidade


Agradecemos a Deus pelos 6 anos completados desde o início deste blog. De lá para cá, aprendemos muito e pudemos, também, dar frutos, graças a Deus. Que este apostolado persista até quando Deus quiser. E, para comemorar, colocamos um artigo do Olavo de Carvalho que nos pareceu, como de costume, genial. Desfrutem da leitura e rezem por nós.

***

Existência e Possibilidade

Para ler as partes principais do Livro I da Suma contra os Gentios, é preciso colocar-nos, mentalmente, no nível de abstração e universalidade requerido pelo assunto. Sto. Tomás aí trata da origem primeira de tudo o que existe. Não se trata, portanto, de imaginar uma "força" que aja de algum modo sobre as "coisas", pois isso não só pressupõe a existência de coisas, mas define o agente, de modo errôneo, por uma noção transitiva, a de "força", quando é claro que a idéia mesma de um movimento transitivo exige a de algo em direção ao qual ele transita. Trata-se, isto sim, de compreender que, se "existência" é o estado daquilo que existe, ela própria não pode existir nesse sentido, pois então se reduziria a um existente entre outros. Também não se pode compreender a existência como a soma ou conjunto daquilo que existe, pois nesse caso ela não teria nenhum atributo próprio senão aqueles que estão nos existentes ou aqueles que resultam das relações entre eles e, portanto, nada seria por si mesma. 

Para apreender a noção de existência você tem de fazer um esforço de imaginação para conceber a total inexistência do que quer que seja. Suprima o cosmos, suprima a História, suprima todos os entes reais ou irreais, suprima até mesmo a consciência humana (a começar pela sua própria), e tente conceber o que sobra. É o nada? Sim, certamente o nada. Mas não o nada absoluto, porque sabemos que existe alguma coisa e, se algo existe, é porque é possível. Excluídos todos os existentes, sobra um nada, mas um nada cheio de possibilidades. Se você excluir mesmo essas possibilidades, terá declarado que tudo é impossível, mas você sabe que algo é possível, já que algo aconteceu. O nada que sobre quando suprimidos todos os existentes não é pois propriamente um nada, mas um feixe de possibilidades. Quais possibilidades? Todas as que se realizaram e todas as que ainda podem se realizar. Isso é o que chamamos "existência": a possibilidade de que os existentes existam.

A possibilidade dos existentes não existe como eles existem: existe independentemente deles - eles é que dependem dela. Mais ainda: a possibilidade transcende infinitamente os existentes, pois abrange também todas as relações possíveis entre eles. O conjunto das relações possíveis entre os existentes não pode ser deduzido da soma dos atributos de todos eles, pois há possibilidades acidentais que não derivam desses atributos. Para cada conjunto de atributos de um ente, há em volta um conjunto imensamente maior de acidentes possíveis, e estes, se são possíveis, fazem parte da possibilidade, estão contidos naquele "nada" que você encontrou ao suprimir mentalmente a totalidade do que existe.

A palavra "possibilidade" é usada, no dia a dia, apenas como medida de uma conjetura que fazemos sobre este ou aquele ente, sobre este ou aquele conjunto de entes. Mas uma coisa é a possibilidade considerada ao nível dos entes, outra é a possibilidade considerada em si mesma, acima e antes da existência de qualquer ente. No primeiro sentido, a possibilidade é uma relação entre entes. No segundo, é a própria constituição desses entes como "essências". A palavra "essência" designa o que um ente é, independentemente de ele existir ou não. Como cada ente existente é alguma coisa, tem alguma essência, e como tudo aquilo que existe é necessariamente possível, é forçoso concluir que, no plano da possibilidade pré-existente, todas as essências já eram o que viriam a tornar-se na existência real. 

Ora, entre as essências existem relações lógicas incontornáveis, independentes e prévias à existência dos entes que as manifestam. Os entes matemáticos ilustram isso de uma maneira esplêndida: antes de que existisse qualquer objeto esférico, os pontos da superfície da esfera já eram eqüidistantes do seu centro; antes de existir um quadrado, já era forçoso que, cortado pela diagonal, o futuro quadrado resultasse em dois triângulos isósceles. Portanto, se todas as essências estavam presentes na possibilidade total antes que qualquer ente a elas correspondente viesse à existência, temos de admitir também que todas as relações lógicas entre todas as essências possíveis já estavam contidas na possibilidade total. 

Mas entre os entes há relações que, sem ser ilógicas, são alheias à lógica, no sentido de que não podem ser deduzidas das essências: são as relações acidentais. Se essas relações não estivessem contidas na possibilidade total, seriam impossíveis e portanto jamais apareceriam na existência; como aparecem, é necessário concluir que estavam.

Pergunte agora como todas essas essências e todas essas possibilidades estavam na possibilidade total. Estariam lá de maneira confusa e mesclada, só vindo a tornar-se distintas ao longo do processo da existência? Seria o mesmo que dizer que, no curso da sua vinda a existência, essas essências realizaram uma possibilidade que não estava na possibilidade total, ou seja, uma possibilidade impossível. As essências e suas relações, inclusive acidentais, estão todas presentes na possibilidade total, e estão lá em modo perfeitamente ordenado e límpido. 

O nada que você encontrou ao suprimir todos os existentes começa a se parecer cada vez menos com um nada: ele é antes a ordem prévia de todas as possibilidades manifestadas no curso da existência.

Pergunte agora a si mesmo se a possibilidade universal pode ser concebida apenas como um sistema teórico, hipotético, passivo e inerme, de equações ou relações lógicas quaisquer, sem nenhuma existência efetiva. A resposta é clara: se a possibilidade total não existe, não existe possibilidade nenhuma. A possibilidade universal não existe, portanto, como possibilidade no sentido fraco da palavra, como quando dizemos que um jogo de xadrez tem a possibilidade de terminar com a vitória das negras ou das brancas. Ao contrário: contendo em si todas as possibilidades da existência, ela abrange e contém a existência - toda a existência.

A existência deriva da possibilidade, e não esta daquela. Contendo em si a existência, ela nem pode ser inexistente, nem pode "existir" como existem os entes: ela tem uma modalidade especial de existência. Como diriam os filósofos escolásticos, ela existe de modo eminente (eminenter). Contendo em si a existência na sua totalidade, bem como a inexistência que limita a existência, ela é a existência da existência.

Agora que entenderam isso, comecem a ler a Suma Contra os Gentios.

Olavo de Carvalho. A filosofia e seu inverso. São Paulo: Vide Editorial, 2012. p.105-112.

Semana Santa - Reviver mais que relembrar


Hoje damos início à grande Semana Santa, época em que revivemos os sagrados e profundos mistérios da Redenção. Utilizamos o termo "reviver" ao invés de "relembrar" porque o contato com as realidades em questão não se darão apenas a nível mental, mas, antes, a nível existencial. Lembrar, mais do que receber a influência de algo, é reconstruir psicologicamente um fato ocorrido, motivo pelo qual a fidelidade entre a lembrança e o fato em si pode não ser - e geralmente não é - total. A nossa relação com Deus, portanto, não pode ser baseada numa construção nossa, sob pena de seguirmos uma invenção da nossa cabeça. Expressamos melhor o que ocorre quando falamos de "intuição", isto é, do contato passivo do nosso ser diante de uma presença externa e real.

Isto com que teremos contato, porém, é aquilo que aconteceu no passado, há quase dois séculos. Sabemos que as realidades passadas só podem ser abordadas de modo indireto, uma vez que o passado, em si mesmo, é inacessível. Não se muda o passado pelo fato de contá-lo diferentemente. O que ocorreu já ocorreu, e se tornou, depois disso, inacessível a não ser memorativa, simbólica ou discursivamente. De que modo, então, poderíamos ter um contato real com as realidades da Redenção, já que elas se deram há tanto tempo?

Vejamos...

Primeiramente, tomemos a pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo. Na leitura de hoje, Paulo nos diz que Ele se esvaziou de Si, e é por isto que Ele se encarnou no seio da Santíssima Virgem. Ao fazê-lo, Jesus, que é de natureza divina, assume também a natureza humana. Enquanto Deus, Jesus não vive no tempo, mas fora dele. O tempo, isto é, o suceder gradativo dos fatos, isto que dividimos em passado, presente e futuro, é só mais uma criatura de Deus. Deus não depende dele. O Seu modo de vida é atemporal, isto é, fora do tempo. No entanto, a partir da Encarnação, Jesus passa a viver também no tempo histórico, como um verdadeiro homem que foi. Temos então o seguinte: Jesus é homem e Deus; enquanto homem, vive temporalmente; enquanto Deus, vive atemporalmente. Quando duas naturezas andam unidas, a natureza superior tende a elevar os atos da natureza inferior à sua dignidade. Tomemos por exemplo o próprio ser humano: somos a união de corpo material e alma espiritual numa só pessoa. Em virtude disso, os nossos atos físicos tendem a ser elevados à dimensão espiritual por causa da nossa alma. Também em Jesus, os atos humanos eram elevados à dimensão divina. E, assim, aquilo que ocorria historicamente assumia um alcance eterno.

É exatamente por isso que a Santa Missa é possível: embora ela tenha ocorrido historicamente, por ser ato de um Deus, ela não cabe no tempo, e como que o transborda. Deste modo, por ser atemporal, ela se torna disponível a qualquer tempo. É por isso que a Missa é celebrada por Jesus ainda antes de Ele sofrer historicamente a Sua Paixão. É também por isso que a Virgem Maria é preservada do pecado, pois tal preservação foi também um efeito da Redenção, embora tenha ocorrido vários anos antes do fato histórico da Cruz. É nisto que reside ainda o fundamento da afirmação de João Paulo II, segundo a qual, na Missa, somos transportados ao Calvário.

Pois bem. Ocorre que não apenas a Santa Missa está disponível para nós, mas toda a vida do Cristo. Isto é dito pelo monge trapista Thomas Merton que aproveitava desta verdade para ensinar que podemos consolar realmente a Jesus durante a Sua agonia no Getsêmani. Se vigiarmos com Ele, de fato estaremos com Ele. Sta Teresa D'Avila, por sua vez, afirmava que nisto consistia a sua meditação favorita: em fazer companhia ao Cristo na noite da Sua agonia. Ela dizia que costumava ficar sentada, ao lado, em silêncio, diante do Deus que sofria e suava sangue, carregado que estava pelo pecado de toda a humanidade. Lemos, ainda, no livro "Ele e eu", da mística moderna Gabrielle Bossis, uma passagem em que o Cristo lhe diz enquanto ela tomava um suco: "que alegria me darias se, durante o momento em que tomas este suco, pensasses em mim, na minha sede durante o Calvário, e o oferecesses por mim".

Ao nos depararmos com esta possibilidade imensa, que é a de fazer companhia a Jesus, de fato, durante toda a Sua vida e, em especial, na Sua Paixão, onde Ele humildemente nos pede para vigiar com Ele, pois Sua alma está triste até a morte, que mais devemos fazer senão ouvir-Lhe a voz e Lhe obedecer, não tanto como uma obrigação, mas, antes, como um privilégio único?

Nestes dias que se avizinham, nós podemos não somente relembrar, mas reviver os fatos centrais da nossa Fé. Contemplaremos realidades que, não obstante serem invisíveis e estarem veladas sob os símbolos litúrgicos, estão concretamente presentes e podem ser, por baixo dos símbolos, intuídas. É um tempo em que o Mistério se adensa. Mesmo que não tenhamos vivido a quaresma do modo que deveríamos, relembremos dos trabalhadores da undécima hora, e aproveitemos este restinho de quaresma e o tríduo pascal para que, fazendo companhia a Jesus e participando da Sua morte, como membros Seus que somos, possamos também participar da Sua ressurreição.

Que a Virgem Maria, mãe do Verbo de Deus, nos fortaleça e nos ensine a amar Jesus.

Fábio.

A confissão existe desde o início do cristianismo


Nas catacumbas de Roma e nos monumentos dos primeiros séculos cristãos encontram-se vestígios tão numerosos e tão claros da confissão, que até mesmo o historiador protestante Edward Gibbon, malgrado o ódio contra a religião, reconhece que "o homem instruído não pode resistir ao peso da evidência histórica que confirma a confissão como um dos principais pontos da doutrina papista (isto é, católica) em todo o período dos quatro primeiros séculos." Ele menciona os quatro primeiros séculos porque, a partir do século V, já ninguém tem dúvidas quanto a isso.

Monsenhor de Ségur. A confissão. Rio de Janeiro: Castela, 2013. p.19-20.
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