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21 razões para rejeitar a Sola Scriptura

Autor: Joel Peters
Tradução: Rondinelly Ribeiro







"Eu não creria no Evangelho, se a isto não me levasse a autoridade da Igreja Católica"
(St. Agostinho - Contr. Epist. Manichaei. v, 6)


Nós cremos somente na Bíblia, e a Bíblia inteira é a única regra de fé para o cristão.


Talvez você já tenha ouvido esta frase ou algo parecido de um protestante evangélico. Ela é, em essência, o significado da doutrina da Sola Scriptura, ou Somente a Escritura, que alega que a Bíblia - interpretada individualmente pelo crente - é a única fonte de autoridade religiosa e é a única regra ou o único critério em quê o crente deve acreditar. Por esta doutrina, que é uma das fundamentais doutrinas do protestantismo, o protestante nega que exista qualquer outra fonte de autoridade religiosa ou revelação divina à humanidade.


A Igreja Católica, por outro lado, afirma que a regra imediata ou direta de fé é o ensino da Igreja. Este, por sua vez, tem suasFontes da Revelação Divina - A Palavra Escrita, a Sagrada Escritura, e a Palavra não-Escrita, conhecida como Tradição. A autoridade do Magistério da Igreja Católica (chefiado pelo Papa), apesar de não ser ela própria uma fonte de revelação divina, possui a missão de interpretar e ensinar tanto a Escritura como a Tradição. Estas duas formas são as fontes da doutrina cristã, a regra de fé cristã remota ou indireta.


Obviamente, estas duas visões apresentadas são opostas, e aquele que busca seguir Cristo deve ter a certeza de que está seguindo a verdadeira.


A doutrina da Sola Scriptura se originou com Martinho Lutero, um monge alemão do século 16 que quebrou sua união com a Igreja Católica Romana e iniciou a Reforma Protestante [1]. Em resposta a alguns abusos que ocorriam na Igreja, Lutero tornou-se um grande oponente de certas práticas. Como tais abusos de fato ocorriam, Lutero estava correto em se revoltar. Contudo, houve uma série de confrontos entre ele e a hierarquia católica. E à medida que foram evoluindo, as disputas foram se centrando na questão da autoridade da Igreja e - pelo ponto de vista de Lutero - se o ensino da Igreja deveria ser considerado regra de fé legitima para os cristãos.


Crescendo as disputas entre Lutero e a hierarquia da Igreja, ele a acusava de haver corrompido a doutrina cristã e distorcido as verdades bíblicas, e cada vez, mais e mais, ele acreditava que a Bíblia, interpretada por cada indivíduo, era a única regra de fé religiosa para o cristão. Rejeitou a Tradição assim como a autoridade do ensino da Igreja Católica (com o Papa como sua cabeça) como tendo legítima autoridade religiosa.


Um observador honesto poderia perguntar, portanto, se a doutrina de Lutero sobre a Sola Scriptura seria uma restauração genuína das verdades bíblicas ou a promulgação de uma visão pessoal acerca da autoridade da Igreja. Lutero era um apaixonado pelas suas crenças, e foi bem-sucedido em divulgá-las, mas estes fatos por si só não são garantia alguma de que o que ensinou esteja correto. Pelo fato de o bem-estar, e mesmo o destino eterno das pessoas, ser uma aposta de confiança, o fiel cristão precisa estar precisamente seguro neste assunto.


Nos parágrafos seguintes declaramos vinte e uma considerações que ajudarão você, leitor católico ou protestante, a analisar cuidadosamente a doutrina luterana da Sola Scriptura de um ponto de vista bíblico, histórico e lógico, e que mostrará que de fato esta não é uma doutrina bíblica genuína, mas somente uma doutrina de homens.




Talvez a razão que mais chame a atenção para rejeitar esta doutrina é que não existe nem mesmo um só versículo onde esta seja ensinada, e isto, portanto, torna esta doutrina auto-refutada.


Os protestantes comumente citam versículos tais como 2 Tm 3,16-17 ou Ap 22,18-19 em defesa da Sola Scriptura, mas um exame minucioso destas duas passagens facilmente irá demonstrar que na verdade estas não suportam tal doutrina.


Em 2 Tm 3,16-17 lemos: Toda Escritura é inspirada por Deus e útil para ensinar, refutar, corrigir, educar na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito, qualificado para qualquer boa obra. Existem aqui cinco considerações que enfraquecem a interpretação protestante desta passagem:


  1. A palavra grega ophelimus utilizado no v.16 significa útil e não suficiente. Um exemplo desta diferença seria dizer que a água é útil para nossa existência - mesmo necessária - mas não é suficiente; isto é, ela não é o único componente que nos manteria vivos. Também precisamos de alimentos, medicamentos, etc. Da mesma forma, a Escritura é útil na vida do cristão, mas isto nunca quis dizer que ela é a única fonte de ensino cristão e a única coisa que cada o necessita.

  2. A palavra grega pasa, que geralmente é traduzida como toda, na realidade significa qualquer, e seu sentido se refere a cada uma ou qualquer uma das classes denotadas pelo substantivo a que está conectado [2]. Em outras palavras, a forma grega indica que toda e qualquer Escritura é útil. Se a doutrina da Sola Scriptura fosse verdadeira, baseada no verso grego 16, todo e qualquer livro da Bíblia poderia, isoladamente, ser considerado a única regra de fé, uma posição que é obviamente absurda.

  3. Escritura a que Paulo se refere é o Antigo Testamento, um fato que é claramente referido pelo fato de as Escrituras serem conhecidas desde a tenra infância (v.15) por Timóteo. O Novo Testamento como conhecemos ainda nem mesmo existia, ou na melhor das hipóteses estava incompleto, então não poderia estar incluído no que Paulo quis dizer com o termo Escritura. Se aceitarmos as palavras de Paulo sem analisarmos o que realmente significam, a Sola Scriptura, então, significaria que a única regra de fé do cristão é o Antigo Testamento. Esta é uma conclusão que todos os cristãos rejeitariam. Os protestantes responderiam a este argumento dizendo que Paulo não está tratando do cânon da Bíblia (os livros inspirados que constituem a Bíblia), mas sim da natureza da Escritura. Ainda que haja alguma validade nesta afirmação, a questão do cânon também é relevante aqui, pelas seguintes razões: antes que falemos da natureza das Escrituras como sendo theopneustos, ou seja, inspirados (literalmente "soprados por Deus"), é imperativo que identifiquemos com segurança os livros que queremos listar como Escritura; de outra forma, livros errados poderia ser chamados de inspirados. Obviamente, as palavras de São Paulo aqui tomaram uma nova dimensão quando o Novo Testamento foi completado, e os cristãos eventualmente as consideravam, também, como sendo Escritura. Deve ser dito, então, que o cânon bíblico também entra na questão, pois Paulo - escrevendo sob a inspiração do Espírito Santo - enfatiza o fato de que toda (e não somente alguma) Escritura é inspirada. A questão que deve ser discutida, entretanto, é esta:como podemos ter a certeza de que temos todos os livros corretos? Obviamente, somente poderemos conhecer a resposta se soubermos qual é o cânon da Bíblia. Tal questão guarda um problema para os protestantes, mas não para os católicos, pois estes possuem uma autoridade infalível que pode responder.

  4. A palavra grega artios, aqui traduzida como perfeito, à primeira vista pode fazer crer que a Escritura é de fato tudo o que é necessário. "Logo", alguém poderia perguntar, "se as Escrituras tornam o homem de Deus perfeito, que mais seria preciso? Por acaso a palavra 'perfeito' não significa que nada mais é necessário?". Bem, a dificuldade com esta interpretação é que o texto não diz que somente pelos meios da Escritura o homem de Deus é tornado perfeito. O texto indica precisamente o oposto, pois é verdadeiro que a Escritura opera em conjunção com outras coisas. Note que não é qualquer um que se torna perfeito, mas o homem de Deus - que significa um ministro de Deus (cf. 1 Tm 6,11), um sacerdote. O fato deste indivíduo ser um ministro de Cristo pressupõe que ele já estava acompanhando um estudo que o prepararia para exercer tal ofício. Sendo assim, a Escritura poderia ser mais um instrumento dentro de uma série de outros que tornam o homem de Deus perfeito. As Escrituras poderiam complementar sua lista de itens necessários ou poderiam ser o item mais proeminente da lista, mas seguramente não eram a única ferramenta de sua lista nem pretendia ser tudo o que necessitaria. Por analogia, considere um médico. Neste contexto, poderíamos dizer algo como "O Tratado de Medicina Interna do Harrison (livro texto de referência na prática médica mundial) torna nossa prática médica perfeita, logo estamos aptos a qualquer procedimento médico". Obviamente tal afirmativa não pode significar que tudo o que o médico precisa seja o TMIH. Este é um item entre vários outros, ou o mais proeminente. O médico também necessita de um estetoscópio, um tensiômetro, um otoscópio, um oftalmoscópio, técnicas cirúrgicas, etc. Estes outros itens são pressupostos pelo fato de estarmos falando de um médico, e não de um leigo. Logo, seria incorreto presumir que somente o TMIH torna o médico perfeito, a única ferramenta necessária.

    Além disso, considerar que a palavra perfeito significa o único item necessário resulta em contradição bíblica, pois em Tg 1,4 lemos que a paciência - sem citar as Escrituras - torna os homens perfeitos e íntegros, livres de todo defeito. É verdade que aqui uma palavra grega diferente - teleios - é usada para perfeitos, mas permanece o fato de que o entendimento básico é o mesmo. Então, se alguém certamente entende que a paciência não é a única ferramenta que o cristão precisa para ser perfeito, um método interpretativo consistente levaria-nos a reconhecer da mesma forma que as Escrituras não são a única coisa que o homem de Deus necessita para ser perfeito.

  5. A palavra grega exartio no v.17, traduzida por qualificado (outras Bíblias trazem algo como equipado ou plenamente qualificado) é tida como uma prova pelos protestantes da Sola Scriptura pois esta palavra - novamente - implica em dizer que nada mais é necessário ao homem de Deus. Contudo, ainda que o homem de Deus seja qualificado ou plenamente equipado, este fato por si mesmo não garante que este homem saiba interpretar e aplicar corretamente uma passagem bíblica. O sacerdote deve também aprender como usar corretamente as Escrituras, mesmo que ele já esteja equipado com elas. Considere de novo a analogia do médico. Pense num estudante de medicina no início de seu internato. Ele deve dispor de todo seu arsenal necessário para os procedimentos cirúrgicos, ou seja, ele deve estar qualificadoplenamente equipado para qualquer procedimento de emergência, mas a menos que ele passe boa parte do tempo junto a médicos mais experientes, observe suas técnicas, aprenda suas habilidades, e pratique algum procedimento ele próprio, os instrumentos cirúrgicos que possui são completamente inúteis. Sem dúvida, se não aprender a usar tais instrumentosapropriadamente, estes mesmos podem se tornar armas perigosas em suas mãos. Quem se habilitaria a submeter-se a um cirurgião que aprendeu cirurgias por cursos de correspondência?

Da mesma forma ocorre entre o homem de Deus e a Escritura. Estas, como os instrumentos cirúrgicos, são preciosos apenas quando bem manipulados. Do contrário, os resultados são o oposto do esperado. Mal usados, um pode trazer a dor e a morte física, a outra, a dor e a morte espiritual. Devido a Escritura nos advertir a mantermos a retidão da palavra da verdade ( cf. 2 Tm 2,15), é óbvio, portanto, que a palavra da verdade pode ser desviada de seu correto caminho - da mesma forma que um estudante de medicina destreinado que usa incorretamente seu instrumental.


Com relação ao Ap 22,18-19, há duas considerações que desqualificam a Sola Scriptura. A passagem - quase a última da Bíblia - diz: Eu atesto a todo o que ouvir as palavras proféticas deste livro: Se alguém lhes fizer qualquer acréscimo, Deus lhes acrescentará as pragas escritas nesse livro. E se alguém tirar qualquer coisa das palavras deste livro profético, Deus lhe retirará a sua parte da árvore da vida e da cidade santa, que estão descritas neste livro.


  1. Quando os versos desta passagem afirmam que nada deve ser acrescentado ou retirado das palavras deste livro profético, não estão se referindo à Sagrada Tradição sendo acrescentada à Sagrada Escritura. É óbvio pelo contexto que o livro aqui referido é o do Apocalipse, e não a Bíblia inteira. Sabemos disso porque São João diz que o que for culpado por acrescentar a este livro será penalizado com as pragas escritas neste livro, as pragas que ele mesmo descreveu em seu próprio livro, o Apocalipse. Afirmar algo diverso disso é atentar contra o texto e distorcer seu claro significado, especialmente devido a Bíblia que conhecemos ainda não existir quando esta passagem foi escrita, sendo assim não poderia significar o compêndio cristão [3].

    Na defensiva de sua interpretação, os protestantes trarão o argumento de que Deus vê adiante, vê qual seria o cânon da Bíblia, sendo o Apocalipse o último livro da Bíblia, e portanto Ele definiu o cânon com as palavras dos vv.18-19. Mas esta interpretação necessita que busquemos o significado do texto. Além do mais, se tal afirmação for correta, como o cristão pode saber inquestionavelmente que Ap 22,18-19 está selando o cânon a menos que um intérprete infalível lhe confirme que este é, inquestionavelmente, o único sentido deste verso? Porém, se tal autoridade existe, então a doutrina da Sola Scriptura - ipso facto - torna-se nula e a ser evitada.

  2. A mesma advertência de não acrescentar ou subtrair palavras é vista em Dt 4,2, que diz: Nada acrescentareis às palavras dos mandamentos que vos dou, e nada tirareis; assim guardareis os mandamentos do SENHOR, vosso Deus, que eu vos dou. Se aplicarmos uma interpretação paralela com este verso, logo tudo o que está na Bíblia além dos decretos das leis do Antigo Testamento deveria ser considerado apócrifo ou não-canônico - incluindo o Novo Testamento! Mais uma vez, todos os cristãos rejeitam, imediatamente, esta conclusão. A proibição de Ap 22,18-19 contra a adição, portanto, não pode significar que os cristãos estão proibidos de buscar algum guia fora da Bíblia.




São Paulo recomenda e ordena a manutenção da Tradição Oral. Em 1 Cor 11,2, por exemplo, lemos: Eu vos felicito por vos lembrardes de mim em toda ocasião e conservardes as tradições tais como eu vo-las transmiti [4]. São Paulo está claramente recomendando que mantenham a tradição oral, e deve ser notado em particular que ele congratula os fiéis por fazê-lo (Eu vos felicito...). Também é explícito no texto o fato de que a integridade desta Tradição oral apostólica era claramente mantida, da mesma forma como Nosso Senhor havia prometido, sob o auxílio do Espírito Santo (cf. Jo 16,13).


Talvez o mais claro apoio bíblico para a Tradição oral seja 2 Ts 2,15, onde os cristãos são enfaticamente advertidos: Assim, pois, irmãos, ficai inabaláveis e guardai firmemente as tradições que vos ensinamos, de viva voz ou por carta. Esta passagem é significante porque: a) mostra uma tradição oral apostólica vivente, b) diz que os cristãos estarão firmemente fundamentados na fé se aderirem a estas tradições e c) claramente afirma que estas tradições eram tanto escritas como orais. A Bíblia distintamente mostra aqui que as tradições orais - autênticas e apostólicas em sua origem - deveriam ser seguidas como componente válido do Depósito da Fé, então por quais razões ou desculpas os protestantes a rejeitam? Com qual autoridade podem rejeitar uma exortação clara de Paulo?

Além do mais, devemos considerar o texto desta passagem. A palavra grega krateite, traduzida aqui como guardar, significaestar firmeforteprevalecer [5]. Esta linguagem é enfática, e demonstra a importância da manutenção destas tradições. Obviamente, devemos diferenciar o que seja Tradição (com T maiúsculo), que é parte da revelação divina, das tradições da Igreja (com t minúsculo) que, mesmo que sejam boas, desenvolveram-se tardiamente na Igreja e não fazem parte do Depósito da Fé. Um exemplo de algo que seja parte da Tradição seria o batismo infantil; um exemplo de tradições da Igreja seria o calendário das festas dos santos. Tudo que venha da Sagrada Tradição é de origem divina e são imutáveis, enquanto que astradições da Igreja são cambiáveis pela Igreja. A Sagrada Tradição serve-nos como regra de fé por mostrar no quê a Igreja tem consistentemente crido através dos séculos e como ela sempre entendeu uma determinada parte Bíblica. Uma das principais formas pelo qual a Sagrada Tradição foi transmitida a nós está nas doutrinas dos textos litúrgicos antigos, o serviço divino da Igreja.


Todos já notaram que os protestantes acusam os católicos de promoverem doutrinas novas e anti-bíblicas baseadas naTradição, por afirmarem que tal Tradição contém doutrinas que são estranhas à Bíblia. Entretanto, esta acusação é profundamente falsa. A Igreja Católica ensina que a Tradição Oral não contém nada que seja contrário à Tradição Escrita. Alguns pensadores católicos afirmam, inclusive, que não há nada na Tradição Oral que não seja encontrado na Bíblia, mesmo que implicitamente ou em formas seminais. Certamente as duas estão em perfeita harmonia e complementam uma à outra. Para algumas doutrinas, a Igreja faz uso da Tradição mais que pelas Escrituras para seu entendimento, mas mesmo estas doutrinas estão incluídas nas Sagradas Escrituras. Por exemplo, as doutrinas seguintes são preferencialmente baseadas na Sagrada Tradição: batismo infantil, o cânon das Escrituras, o domingo como Dia do Senhor, a virgindade perpétua de Maria e a assunção de Maria.


A Sagrada Tradição complementa nossa compreensão da Bíblia ao mesmo tempo que não constitui uma fonte extra-bíblica de revelação, com doutrinas novas ou estranhas a ela. Muito pelo contrário: a Sagrada Tradição age como a memória viva da Igreja, relembrando-a constantemente o que criam os cristãos antigos, como entendiam e interpretavam as passagens bíblicas [6]. De certa forma, é a Sagrada Tradição que diz ao leitor da Bíblia: Você está lendo um livro muito importante, que contém a revelação de Deus aos homens. Agora deixe-me explicá-lo como ela sempre foi entendida e praticada pelos cristãos desde o início dos tempos.





É muito interessante que em 1 Tm 3,15 vemos não a Bíblia, mas a Igreja - isto é, a comunidade viva de crentes fundada sob Pedro e os apóstolos e mantida pelos seus sucessores - sendo chamada de coluna e fundamento da verdade. Claramente esta passagem de modo algum significa diminuir a importância da Bíblia, mas sua intenção é de mostrar que Jesus Cristo de fato estabeleceu um magistério autorizado que foi enviado a ensinar todas as nações (cf. Mt 28,19) Em outro lugar esta mesma Igreja recebeu de Cristo a promessa de que os portões do inferno não prevaleceriam contra ela (cf. Mt 16,18), pois Ele sempre estaria presente (cf. Mt 28,20) e enviaria o Espírito Santo para ensiná-la todas as verdades (cf. Jo 16,13). Ao chefe visível de sua Igreja, São Pedro, Nosso Senhor disse: Te darei as chaves do Reino dos Céus. Tudo que ligares na terra será ligado no céu; e tudo que desligares na terra será desligado no céu (Mt 16,19). É evidente a partir destas passagens que Nosso Senhor enfatiza a autoridade de Sua Igreja e a norma que deveria seguir para salvaguardar e definir o Depósito da Fé.


Também é evidente destas passagens que esta mesma Igreja seria infalível, pois se em algum lugar de sua história a Igreja ensinou o erro em matéria de fé e moral - ainda que temporariamente - cessaria de ser esta coluna e fundamento da verdade. Pelo fato de todo fundamento existir para ser firme e permanente, e de que as passagens acima não permitem a possibilidade da Igreja ensinar algo contrário à reta fé e moral, a única conclusão plausível é que Nosso Senhor foi muito preciso em estabelecer a sua infalibilidade quando chamou-a de coluna e fundamento da verdade.


O protestante, entretanto, vê aqui um dilema quando afirma que a Bíblia é a única regra de fé para seus crentes. Qual a capacidade, então, da Igreja - coluna e fundamento da verdade - se não deve servir para estabelecer autoridade alguma? Como a Igreja pode ser coluna e fundamento da verdade se não é palpável, habitualmente prática para servir como autoridade na vida do cristão? O protestante efetivamente nega que a Igreja seja o fundamento da verdade por negar que ela possua qualquer autoridade para ensinar.


Além disso, os protestantes entendem o termo Igreja como sendo algo diferente do que entende a Igreja Católica. Os protestantes vêem a igreja como uma entidade invisível, e para eles ela é a coletividade de todos os cristãos ao redor do mundo unidos na fé em Cristo, apesar das grandes variações nas doutrinas e alianças denominacionais. Os católicos, por outro lado, entendem que não somente os cristãos unidos na fé em Cristo formam seu corpo místico, mas entendemos simultaneamente que esta seja - e somente uma - a única organização que possa traçar uma linha ininterrupta até os próprios apóstolos: a Igreja Católica. É esta Igreja e somente esta Igreja que foi estabelecida por Cristo e que tem mantido uma consistência absoluta em doutrina através de sua existência, e, portanto, é somente esta Igreja que pode requerer ser a coluna e fundamento da verdade.

O protestantismo, por comparação, tem conhecido história de fortes vacilos e mudanças doutrinárias, e nem mesmo duas denominações concordam entre si completamente - mesmo quanto a doutrinas importantes. Tais mudanças e alterações não permitem que sejam consideradas fundamento da verdade. Quando os fundamentos de uma estrutura alteram-se ou são dispostos inapropriadamente, este mesmo fundamento é fraco e sem suporte firme (Mt 7,26-27). Pelo fato de o protestantismo ter experimentado mudanças tanto intradenominacional quanto entre as diversas denominações que surgem continuamente, estas crenças são como uma fundação que muda constantemente. Tais credos então cessam de prover o suporte necessário para manter a estrutura que sustentam, e a integridade dessa estrutura fica comprometida. Nosso Senhor claramente não pretendeu que seus discípulos e seguidores construíssem suas casas espirituais em tal fundamento instável.





Em Mt 18,15-18 vemos Cristo orientar seus discípulos em como corrigir um companheiro. É dito neste exemplo que Nosso Senhor identifica melhor a Igreja que as Escrituras como sendo a autoridade final a se apelar. Ele mesmo diz que se o irmão pecador não ouvir a própria Igreja, seja para ti como o pagão e o coletor de impostos (v.17) - isto é, como um excluído. Além do mais, Nosso Senhor re-enfatiza solenemente a autoridade infalível da Igreja no v.18 repetindo Seu pronunciamento anterior sobre o poder de ligar e desligar (Mt 16,18-19), dirigido desta vez aos apóstolos como um colégio, um grupo, e não somente a Pedro: Em verdade eu vos declaro: tudo o que ligares na terra será ligado no céu, e tudo o que desligares na terra será desligado no céu (Mt 18,18).

Claro que existem exemplos na Bíblia onde Nosso Senhor apela às Escrituras, mas nestes casos Ele, como aquele que possui a autoridade, estava ensinando as Escrituras; Ele não estava permitindo que as Escrituras ensinassem a si mesmas. Por exemplo, Ele preferiu responder aos escribas e fariseus usando as Escrituras precisamente porque estes tentavam apanhá-lo usando as mesmas Escrituras. Nestes exemplos, Jesus geralmente demonstra como os escribas e fariseus tinham más interpretações, então corrigia-os mediante uma melhor interpretação escriturística.

Suas ações não servem de argumento para que a Escritura seja Sola, ou uma autoridade por si mesma e, de fato, a única autoridade do cristão. Muito pelo contrário: em todo lugar que Jesus leva seus ouvintes às Escrituras, Ele também fornece o Seu entendimento infalível, uma interpretação com autoridade, demonstrando que as Escrituras não podem interpretar a si mesmas.


A Igreja Católica prontamente reconhece a inerrância e autoridade da Escritura. Porém a doutrina católica diz que a regra imediata de fé dos cristãos é a autoridade do ensino da Igreja - uma autoridade para ensinar e interpretar a Escritura e a Tradição, como mostra Mt 18,17-18.

Também deve-se notar que está implícita (ou talvez até explícita) nesta passagem de Mateus o fato de que a Igreja deve ser visível, uma entidade palpável estabelecida sob uma linha hierárquica. De outro modo, como alguém saberia a quem encaminhar o pecador? Se a definição protestante de igreja fosse correta, então o pecador deveria escutar todos os cristãos que existem, desejando que haja uma unanimidade entre eles acerca do objeto da discussão. Transborda aos olhos o absurdo que esta interpretação causaria. O único modo de tornar a afirmação de Nosso Senhor plausível é reconhecendo que lá havia uma organização definida, com ofícios hierárquicos definidos, a quem um apelo poderia ser feito e de onde um julgamento decisivo poderia ser dado.





A Bíblia mostra em 2 Tm 3,17 que o homem de Deus é perfeitoqualificado para qualquer boa obra. Como percebemos acima, este versículo prova somente que o homem de Deus é plenamente suprido com as Escrituras; isto não é garantia de que ele automaticamente saiba como interpretá-la da maneira correta. Este versículo chama a atenção à suficiência material das Escrituras, uma opinião que alguns pensadores católicos sustentam atualmente.

Suficiência material significaria que a Bíblia de certo modo contém todas as verdades que o cristão precisa saber; em outras palavras, os materiais estão todos presentes ou no mínimo implícitos. Suficiência formal, por outro lado, significaria que a Bíblia não somente contém todas as verdades que são necessárias, mas que ela também apresenta estas mesmas verdades e um sentido perfeitamente claro e de pronto entendimento. Em outras palavras, estas verdades estariam em uma forma prática tamanha que não haveria necessidade de uma Sagrada Tradição para clarificar e complementar o entendimento da Palavra de Deus com uma interpretação infalível.

Devido a Igreja Católica afirmar que a Bíblia não é suficiente por si mesma, naturalmente ensina que esta necessita de um intérprete. São duas as razões pelas quais a Igreja ensina tal coisa: primeiro, porque Cristo estabeleceu uma Igreja viva para ensinar com Sua autoridade. Ele simplesmente não deu uma Bíblia aos seus discípulos, completa e encadernada, e lhes disse para ir e fazer cópias para a multidão, para distribuir, e deixar que cada um interprete-a do seu jeito. Segundo, a própria Bíblia afirma que precisa de um intérprete.

Sobre a segunda assertiva, lemos em 2 Pd 3,16 que São Paulo escreveu passagens difíceis, cujo sentido pessoas ignorantes e sem formação deturpam, como também fazem para as demais Escrituras, para a própria condenação. 


Neste único versículo podemos ver três pontos muito importantes sobre a Bíblia e sua interpretação: a) A Bíblia contém passagens que não são facilmente compreendidas ou suficientemente claras, um fato que demonstra a necessidade de um orientador infalível e com autoridade suficiente para tornar as passagens claras e compreensíveis [8], b) não é somente possível que algumas pessoas deturpem o significado da Escritura, mas isto, de fato, já estava sendo feito desde o começo da era da Igreja, c) distorcer o significado da Escritura pode resultar na condenação de um indivíduo, realmente um destino desastroso. É óbvio destas considerações que Pedro não acredita que a Bíblia deva ser a única regra de fé. Mas há mais.


Em At 8,26-40 lemos o encontro do diácono Felipe com o eunuco etíope. Neste cenário, o Espírito Santo leva Felipe a se aproximar do etíope. Quando Felipe percebe que o etíope está lendo o profeta Isaías, faz uma importante pergunta: será que compreendes verdadeiramente o que está lendo? Mais importante é a resposta dada pelo eunuco: e como poderia eu compreender, respondeu ele, se não tenho guia?

Mesmo que este Felipe (conhecido como o Evangelista) não seja um dos apóstolos, ele fora comissionado pelos apóstolos (cf. At 6,6) e pregou o Evangelho com autoridade (cf. At 8,4-8). Conseqüentemente, sua pregação refletiria o legítimo ensino dos apóstolos. A questão aqui é que as declarações do etíope verificam o fato de que a Bíblia não é suficiente por si mesma como orientadora de doutrina cristã, e as pessoas que ouvem a Palavra precisam de uma autoridade que as oriente corretamente para que possam entender o que a Bíblia quer dizer. Se a Bíblia fosse de fato suficiente por si mesma, então o eunuco compreenderia claramente a passagem de Isaías.

Também há 2 Pd 1,20, que afirma: nenhuma profecia da Escritura é objeto de interpretação pessoal. Aqui vemos a própria Bíblia afirmar de forma inequívoca que suas profecias não são objeto pelos quais o indivíduo deva compreender pelos seus próprios meios. Também é de grande importância que este verso seja precedido por uma seção sobre o testemunho apostólico (vv.12-18) e seguido por uma seção sobre falsos mestres (2,1-10). Pedro está contrastando o ensino apostólico genuíno com os falsos profetas e falsos mestres, e faz a referência à interpretação pessoal como o pivô entre os dois. A implicação imediata e clara é que a interpretação pessoal é um caminho por onde o indivíduo perde-se do autêntico ensino dos apóstolos e passa a seguir falsos mestres.





Estudiosos bíblicos nos revelam que o último livro da Bíblia não havia sido escrito até o final do primeiro século, isto é, até meados do ano 100 d.C. [9]. Este fato demonstra um intervalo inexato de cerca de 65 anos entre a ascensão de Cristo aos céus e o término da redação da Bíblia como a conhecemos. A pergunta que deve ser feita é a seguinte: Quem ou o quê serviu como autoridade final e infalível durante este tempo?


Se a doutrina protestante da Sola Scriptura fosse verdade, então houveram disputas e discussões dentro das comunidades que não tiveram a oportunidade de ser resolvidas definitivamente, até que os livros do Novo Testamento fossem escritos, mesmo já existindo uma Igreja antes que a Bíblia estivesse completa. O barco ficou sem comandante, por assim dizer, pelo menos por um determinado tempo. Porém isto vai de encontro às afirmações e promessas que Jesus fez à sua Igreja: Eis que estarei convosco todos os dias, até a consumação dos tempos (Mt 28,20), sem mencionar que Ele garantiu a seus discípulos:não vos deixarei órfãos (Jo 14,18)

Este é um assunto de particular importância, pois as primeiras décadas da existência da Igreja foram repletos de tumultos. As perseguições já haviam começado, cristãos estavam sendo martirizados, a nova fé estava lutando para crescer, e alguns falsos mestres já haviam aparecido (cf. Gl 1,6-9). Se a Bíblia fosse a única regra de fé dos cristãos, sendo que ela ainda não havia tomado forma - muito menos definido seu cânon - durante pelo menos 65 anos depois da ascenção de Jesus, como a Igreja primitiva poderia resolver questões doutrinárias sem uma autoridade que a conduzisse?


Neste momento os protestantes buscam oferecer duas possíveis respostas: 1) Os apóstolos eram temporariamente a última autoridade enquanto o Novo Testamento estava sendo escrito, e 2) que o Espírito Santo foi dado à Igreja e que a sua direta orientação foi o que preencheu o lacuna entre a ascenção e a definição do Novo Testamento.

Sobre a primeira resposta, é verdadeiro que Jesus revestiu aos apóstolos da Sua autoridade; contudo, a Bíblia em local algum indica que esta autoridade dentro da Igreja iria cessar com a morte dos apóstolos. Pelo contrário, a Bíblia é bastante clara quando: 1) em lugar algum diz que uma vez morto o último apóstolo, a Palavra de Deus escrita tornaria-se a autoridade final e; 2) os apóstolos claramente escolheram sucessores que, por sua vez, possuíram a mesma autoridade de ligar e desligar. A substituição de Judas Iscariotes por Matias (cf. At 1,15-26) e a transmissão da autoridade apostólica de Paulo a Timóteo e Tito (cf. 2 Tm 1,6Tt 1,5) são exemplos de sucessão apostólica. 


Sobre a segunda resposta - que o auxílio direto do Espírito Santo preencheu a lacuna - o problema com este entendimento é que o auxílio direto do próprio Espírito Santo é uma conclusão extra-bíblica. Naturalmente, a Bíblia nos fala da clara presença do Espírito Santo entre os cristãos e sua missão de ensinar aos apóstolos toda a verdade, porém se a direção direta do Espírito Santo foi, de fato, a autoridade final durante estes 65 anos, então a história da Igreja conheceu duas autoridades finais sucessivas: primeiro, o Espírito Santo, sendo que esta autoridade foi substituída pela Escritura, que então tornaria-se sola, ou a única autoridade final. E se esta situação de uma autoridade final extra-bíblica é permissiva pelos protestantes, não o é pelos católicos, que afirma que a autoridade do ensino da Igreja é a autoridade final direta - derivando sua autoridade de Cristo e seu ensino da Escritura e da Tradição, guiada pelo Espírito Santo.

O Espírito Santo foi dado à Igreja por Jesus Cristo, e é exatamente este mesmo Espírito que protege o chefe visível da Igreja, o Papa, e a autoridade do ensino da Igreja jamais permitindo que ele ou ela caiam em erro. O católico acredita que Cristo de fato enviou seu Espírito Santo à Igreja e que este Espírito esteve sempre presente na Igreja, ensinando toda a verdade (Jo 16,13) e continuamente protegendo sua integridade doutrinal, particularmente pelo ofício do Papa. Com isso o Evangelho pode continuar sendo pregado - com autoridade e infalivelmente - mesmo sem um só versículo do Novo Testamento.





A doutrina da Sola Scriptura não dá importância - ou pelo menos grosseiramente desmerece - ao fato de que a Igreja surgiu antes da Bíblia, e não o contrário. Foi a Igreja, com efeito, que escreveu a Bíblia sob a inspiração do Deus todo-poderoso: os israelitas como a Igreja do Antigo Testamento (ou pré-católicos) e os católicos da Igreja do Novo Testamento.

Nas passagens do Novo Testamento notamos que Nosso Senhor dá certa primazia à autoridade do ensino de Sua Igreja e sua proclamação em Seu nome. Por exemplo, em Mateus 28,20 vemos Jesus ordenando os apóstolos a ir e ensinar em Seu nome, fazendo discípulos em todas as nações. Em Marcos 16,15 vemos que os apóstolos são enviados a pregar a todo o mundo. E em Lucas 10,16 vemos que aquele que escuta os setenta e dois escuta o Senhor. Estes fatos são muito importantes, pois em lugar algum vemos Nosso Senhor ordenando que seus apóstolos evangelizem o mundo escrevendo em Seu nome. A ênfase está sempre na pregação do Evangelho, não na sua impressão e distribuição escrita.

Então segue que o comando e a autoridade do ensino da Igreja são elementos indispensáveis como meios pelos quais a mensagem do Evangelho deve alcançar os confins do mundo. Pelo fato de a Igreja ter escrito a Bíblia, é lógico e racional dizer que somente a Igreja detém a autoridade para interpretá-la e aplicá-la. E sendo assim, por causa de sua natureza e origem, a Bíblia não pode servir como única regra de fé para os fiéis cristãos. Em outras palavras, por ter produzido a Escritura, a Igreja não elimina a necessidade de ela mesma servir como mestre e intérprete destas Escrituras.

Além do mais, não é errado dizer que somente por colocar a autoridade apostólica no papel, a Igreja de alguma forma faz com que esta mesma autoridade seja superior ao ensino oral? Semelhantemente à organização que Nosso Senhor estabeleceu, Sua palavra é autoridade, mas porque esta palavra está posta em uma forma diferente da outra não significa que uma forma seja superior à outra. Pelo fato de a única Palavra de Deus ser dimórfica em sua organização, negar a autoridade de uma é negar a autoridade da outra. As formas da Palavra de Deus são complementares, não excludentes. Portanto, se há necessidade das Escrituras, também há necessidade da autoridade que a produziu.




A idéia da autoridade da Escritura existindo separada da autoridade do ensino da Igreja é completamente estranha à Igreja Primitiva


Se buscarmos os escritos dos Pais da Igreja Primitiva, encontraremos referências à Sucessão Apostólica [10], aos bispos como guardiões do Depósito da Fé [11], e ao primado e autoridade de Roma [12]. O precioso valor destas referências torna claro o fato de que a igreja primitiva entendeu a si própria como uma hierarquia necessária para proteger a integridade da fé. Em lugar algum encontramos alguma indicação de que os primeiros fiéis cristãos discordavam da autoridade da Igreja e a consideravam inválida como regra de fé. Do contrário, vemos nestes escritos que a Igreja, desde a sua mais longínqua origem, entendeu sua autoridade para ensinar como uma combinação inseparável entre Escritura e Tradição Apostólica - sendo ambas ensinados e interpretados com autoridade pelo Magistério da Igreja, cuja cabeça é o bispo de Roma.

Dizer que a Igreja primitiva acreditava na noção de somente a Bíblia, seria o mesmo que dizer que homens e mulheres poderiam alegar que as leis civis não necessitam de um Congresso que as legisle, ou de uma corte que as interprete e de polícia alguma que as execute. Tudo que seria necessário seria o livro de Direito Civil em todas as casas para que cada cidadão possa determinar por si mesmo como entender e aplicar as leis. Tal afirmação, claro, é absurda, pois ninguém esperaria que as leis civis funcionassem bem deste modo. A conseqüência de tal escândalo inadvertidamente levaria à anarquia total.


Quão mais absurdo, então, é pretender que a Bíblia pode funcionar por si mesma sem a Igreja que a organizou? É somente esta Igreja - e não somente qualquer cristão - que possui a autoridade divinamente transmitida para a interpretar corretamente, assim como legislar sobre os problemas decorrentes da conduta de seus membros. Se este não fosse o caso, qualquer nível de situação - local, regional ou global - rapidamente desenvolver-se-ia em anarquia espiritual, onde cada cristão pode formular um sistema teológico e desenvolver uma moral simplesmente baseadas em sua própria interpretação da Bíblia. 


E desde a tão chamada Reforma não é isto que estamos vendo? De fato, um exame do escândalo na Europa que imediatamente seguiu a gênese da reforma - particularmente na Alemanha - irá demonstrar que o resultado das doutrinas da reforma são uma desordem tanto espiritual quanto social [13]. Mesmo Lutero se mostrou desapontado pelo fato de queinfelizmente, é de nossa costumeira observação que agora sob o Evangelho o povo está mais amargo, invejoso e avarento que antes sob o papado [14].





Os heresiarcas e os movimentos heréticos baseiam suas doutrinas na interpretação da Bíblia separada do Magistério e da Tradição.

Ao longo da história da Igreja primitiva, vemos que ela lutou continuamente contra as heresias e contra quem as promovia. Vários foram os concílios que responderam aos desafios dos detratores [15] e recorreram à Roma para dar um fim às disputas doutrinárias e disciplinares. Por exemplo, o Papa Clemente interveio em uma discussão na comunidade de Corinto no fim do primeiro século e acabou com um cisma por lá. No segundo século, o Papa Vitor excomungou uma grande parte da Igreja no Oriente por motivos de divisões sobre quando a páscoa deveria ser celebrada. No início do século três, o Papa Calixto condenou a heresia sabeliana.


Nestes casos, quando estas heresias ou conflitos disciplinares ocorrem, as pessoas envolvidas defendem seus erros através de sua própria interpretação das Escrituras, excluindo a participação da Tradição e do Magistério da Igreja. Um bom exemplo disto é o caso de Ário, sacerdote do quarto século que declarou que o Filho de Deus era uma criatura e não co-substancial ao Pai.


Ário e todos os seus seguidores citavam versículos da Bíblia para provar seus argumentos [15]. Os debates que chegaram por causa desta doutrina tornaram-se tão volumosos que foi convocado o primeiro Concílio Ecumênico, em Nicéia, em 325 d.C. O Concílio, sob a autoridade do Papa, declarou serem as doutrinas arianas heréticas e elaborou declarações definitivas quanto à pessoa de Jesus, e fez isso baseada no que a Sagrada Tradição tinha a dizer sobre os versículos bíblicos em questão.

Aqui vemos a autoridade da Igreja sendo utilizada como última e extremamente importante palavra em matéria doutrinária. Caso não existisse autoridade alguma a quem apelar, a heresia de Ário poderia ter se apossado da Igreja. A maioria dos bispos daquela época foi seduzida pela heresia ariana [17]. Apesar de Ário ter fundamentado sua doutrina nas Escrituras - e provavelmente comparou a Escritura pela Escritura - o fato é que chegou a uma conclusão herética. Foi somente a autoridade do ensino da Igreja - hierarquicamente constituída - que o freou e declarou que estava errado.


A implicação é óbvia. Se você perguntar a algum protestante se Ário estava ou não correto em sua doutrina de que o Filho fora criado, ele irá, claro, responder que não. Enfatize, então, que mesmo que ele tenha utilizado as Escrituras pelas Escrituras, mesmo assim ele chegou a uma conclusão errada. Se isto foi verdadeiro para Ário, o que garante ao protestante que este não é o caso acerca de sua interpretação de uma dada passagem bíblica? O fato de os protestantes reconhecerem que a interpretação de Ário estava errada implica dizer que de fato houve uma base bíblica para seus argumentos. Este fato, portanto, transforma-se em um questionamento acerca do que seja uma verdadeira interpretação bíblica. A única explicação possível é que deve haver, por necessidade, uma autoridade infalível que no-la diga. Esta autoridade infalível, a Igreja Católica, declarou Ário um herege. Se a Igreja Católica jamais foi infalível ou possuiu alguma autoridade em suas declarações, então os cristãos não teriam razão alguma em rejeitar Ário e aceitar a autoridade da Igreja, e a maioria do cristianismo atual seria baseado nos ensinamentos de Ário. 


É evidente, portanto, que usar somente a Bíblia não é garantia de se chegar a uma doutrina verdadeira. O resultado acima descrito é o que acontece quando a falsa doutrina da Sola Scriptura é utilizada como princípio guia, e a história da Igreja e das inúmeras heresias que teve de combater são testemunhas inegáveis deste fato.




Um dos fatos históricos que é um extremo inconveniente aos protestantes é o fato de que o cânon da Bíblia - a lista sagrada dos livros que fazem parte das Escrituras inspiradas - não fora definido até o final do século 4. Até esta data, havia larga discórdia sobre quais seriam os livros considerados inspirados e de origem apostólica. O cânon bíblico antigo variava de local a local: algumas listas continham livros que mais tarde foram reconhecidos como apócrifos, enquanto outras listas não traziam livros que hoje constam entre os livros canônicos. Por exemplo, existiam livros cristãos que eram considerados por alguns inspirados e apostólicos e que eram lidos nos cultos públicos, mas que foram mais tarde omitidos do Novo Testamento, entre eles, O Pastor de Hermas, Epístola de Barnabé, Didaché [18].

Somente nos Concílio de Roma (382), Hipona (393) e Cartago (397) podemos encontrar uma lista definitiva dos livros canônicos sendo descrita, e cada um destes concílios reconheceu a mesma lista do anterior [19]. A partir de então, não houveram mais disputas sobre o cânon bíblico, a única exceção ficando a cargo dos reformadores protestantes, que entraram em cena em 1517, inacreditáveis 11 séculos depois.

Mais uma vez, mais duas questões fundamentais porque alguém não deve buscar respostas que sejam consoantes com a Sola Scriptura: a) Quem ou o quê serviu como autoridade cristão final durante o tempo em que o Novo Testamento não tomou forma? b) E se havia alguma autoridade final que os protestantes reconhecem antes da definição do cânon, com que bases esta autoridade desapareceu uma vez que o cânon bíblico tenha sido fechado?





Devido a Bíblia não vir com um índice inspirado, a doutrina da Sola Scriptura criou um outro dilema: como alguém pode saber quais são os livros que pertencem à Bíblia - principalmente, ao Novo Testamento? Um fato inquestionável é que ninguém pode saber disso, a menos que alguma coisa fora da Bíblia mostre a resposta. E sem dúvida, este detalhe a mais deve ser, por necessidade, infalível, pois a possibilidade haver erro na definição dos livros inspirados [20] significa que todos os cristãos estariam correndo o risco de estar lendo livros não-inspirados, uma situação que tornaria a Sola Scriptura defeituosa. Porém, se houve tal autoridade "extra-bíblica", a doutrina da Sola Scriptura desaba da mesma forma.


Outro fato histórico que dificulta ainda mais a aceitação desta doutrina é que não houve qualquer outra instituição que tenha identificado e ratificado o cânon da Bíblia. Os três Concílios mencionados anteriormente, todos, eram concílios católicos. A Igreja Católica deu a sua definição final do cânon da Bíblia no Concílio de Trento em 1546 - nomeando os mesmos 73 livros que já haviam sido incluídos desde o século 4. Se a Igreja Católica é capaz, então, de conceder uma definição autoritária e infalível de tão importante assunto sobre quais livros deve conter a Bíblia, logo com que bases alguém pode questionar sua autoridade em outros assuntos acerca de fé e moral?


Os protestantes, no mínimo, devem, assim como o seu fundador, Martinho Lutero, reconhecer que a Igreja Católica protegeu e organizou a Bíblia: Somos obrigados a reconhecer muitas coisas aos católicos - (como por exemplo), que eles possuem a Palavra de Deus, que nós recebemos deles; de outro modo, não saberíamos nada sobre ela [21].





Procurando uma resposta satisfatória ao problema de como fora determinado o cânon bíblico, os protestantes costumeiramente apelam para o fato de que a Bíblia é auto-autenticável, ou seja, os próprios livros da Bíblia testemunham que eles são inspirados. O grande problema com esta afirmação é que uma boa excursão pela história da Igreja demonstra que esta teoria é falha.


Por exemplo, vários livros do Novo Testamento - Tiago, Judas, 2 Pedro, 3 João e Apocalipse - receberam questionamentos acerca de seu status canônico por algum tempo. Em alguns lugares eram aceitos, enquanto simultaneamente em outros eram rejeitados. Mesmo grandes pensadores, como Santo Atanásio (297-373), São Jerônimo (342-420) e Santo Agostinho (354-430) apresentaram listas de livros do Novo Testamento que refletiam o que era reconhecido como inspirado em seus tempos e lugares, porém nenhuma destas listas correspondia ao Novo Testamento que fora identificado pela Igreja Católica no fim do século 4 e que até hoje corresponde à Bíblia que os católicos possuem [22].


Se a Bíblia é auto-autenticável, porque, então, havia tamanha discórdia e incerteza sobre tantos livros? Porque a disputa? Porque o cânon não foi identificado logo do início, já que os livros são prontamente discerníveis? A única resposta a estes questionamentos é que o cristão deve aceitar que a Bíblia não seja auto-autenticável.


Mais interessante também é o fato de que alguns livros da Bíblia não identificam seu próprio autor. A idéia de auto-autenticação - se fosse verdade - seria mais plausível se cada um dos autores bíblicos identificassem a si mesmos, pois examinaríamos mais facilmente suas credenciais, ou, no mínimo, quem era que alegava falar em nome de Deus. Mas quanto a isso a Bíblia nos deixa ignorantes, com poucos exemplos.


Tome o Evangelho de Mateus como exemplo: não há indicação de que fora Mateus, o cobrador de impostos, quem o escreveu. Há duas possibilidades, então, para conhecermos o autor deste livros: 1) através da Tradição; 2) por estudiosos bíblicos. Em ambos os casos, a fonte da conclusão é "extra-bíblica", e, portanto, condena a doutrina da Sola Scriptura à completa incompetência e fracasso.


Mas os protestantes respondem a este argumento dizendo que não é necessário conhecer se Mateus escreveu ou não este Evangelho, pois a salvação não depende de conhecer se foi ele ou outro quem o escreveu. Porém, tal ponto de vista guarda uma dificuldade. O que os protestantes estão dizendo é que, enquanto um Evangelho autêntico é a Palavra de Deus e é o meio pelo qual o cristão adquire um conhecimento salvífico de Jesus Cristo, o mesmo cristão não tem como saber com certeza, no caso do Evangelho de Mateus, se este é de origem apostólica e, conseqüentemente, não possui meios para saber se este Evangelho é autêntico (ou seja, a Palavra de Deus) ou não. E se a autenticidade deste Evangelho é questionável, então porque está incluído na Bíblia? Se sua autenticidade é certa, como se pôde saber com a ausência do autógrafo de Mateus? A única saída coerente é admitir que a Bíblia não é auto-autenticável.


O protestante então recorrerá à asserção bíblica de auto-inspiração, citando a passagem de 2 Tm 3,16 - Toda Escritura é inspirada por Deus, e útil... - Contudo, a alegação de inspiração não é por si só garantia de inspiração. Considere o fato de que os escritos de Mary Baker Eddy, a fundadora da seita Ciência Cristã, aleguem ser inspirados. Os escritos de Joseph Smith, o fundador da seita Mórmon, afirmem ser inspirados. São apenas dois exemplos, entre muitos, que demonstram que qualquer escrito particular pode reclamar a autoridade sobre qualquer coisa. Obviamente, para reconhecermos se um escrito é inspirado de verdade ou não necessitamos mais do que tal afirmação escrita no papel. A garantia de inspiração de algum escrito deve vir de fora deste escrito, senão será um eterno argumento circular. No caso da Bíblia, a garantia deve vir de uma fonte fora da Bíblia. Porém a autenticação extra-bíblica é uma possibilidade excluída pela Sola Scriptura





Uma importante consideração - talvez uma das mais fatais à doutrina da Sola Scriptura - é a de que não possuímos ao menos um manuscrito original de nenhum livro da Bíblia. Claro que existem milhares de manuscritos que são cópias dos originais - e mais provável é que sejam cópias das cópias -, e este fato em nada auxilia a Sola Scriptura pela simples razão de que sem os originais, ninguém pode garantir que possuímos atualmente a Bíblia real, completa e sem corrupções [23]. Os autógrafos originais são inspirados, as cópias não...


Os protestantes argumentam que não há problema em não ter os escritos originais, pois Deus protegeu a Bíblia protegendo sua duplicação ao longo dos séculos [24]. Entretanto, existem dois problemas com esta linha de pensamento. Primeiro, que afirmar que a providência de Deus manteve a integridade das cópias é afirmar algo que não encontra nem de longe suporte nas Escrituras, logo não pode ser tomada como regra de fé, pela própria definição de Sola Scriptura. Em outras palavras, não se encontra versículo algum que demonstre que Deus protegeria a transmissão dos manuscritos, logo esta conclusão está excluída. A Bíblia nada diz a respeito.


Segundo, se você afirmar que Deus protegeu a transmissão da Sua Palavra escrita, então podemos concluir que também protegeu a transmissão de Sua Palavra oralmente (releia 2 Ts 2,15 e a dimórfica estrutura da Palavra de Deus). Até porque a pregação do Evangelho começou pela Tradição Oral (cf. Lc 1,1-4 e Rm 10,17). Somente muito tempo depois uma parte da Tradição oral fora posta na forma Escrita - tornando-se a Sagrada Escritura - e somente muito tempo após este mesmo evento os escritos foram reconhecidos e definidos com canônicos. Uma vez que você possa reconhecer que Deus protegeu a transmissão oral de Sua mensagem, você automaticamente admite as bases da Sagrada Tradição e já começou a compreender a posição católica.





Percebeu-se que, existindo milhares de manuscritos da Bíblia, estes manuscritos continham milhares de variações textuais; um autor estima que devam existir mais de 200.000 variações [25]. Apesar de muitas destas variações referirem-se a temas menores - tais como escrita, ordem das palavras e etc. - também existem variações das mais importantes naturezas: a) os manuscritos demonstram que algumas vezes os escribas modificavam o texto para harmonizar passagens, acomodá-las a fatos históricos, e para estabelecer uma correta conduta doutrinária [26]; b) existem partes de versículos (isto é, mais que simples palavras) que possuem leitura diferente em diferentes manuscritos, como Jo 7,39, At 6,8, Cl 2,2 e 1 Ts 3,2 [27]. Estes fatos levam o protestante a não saber se a Bíblia que possui é a mesma Bíblia que foi escrita pelo autor inspirado. E se este é o caso, então como o protestante pode professar a base de sua crença somente na Bíblia quando ele não consegue determinar com certeza a autenticidade textual desta mesma Bíblia? [28].


Mais importante, existem muito mais variações entre os manuscritos do Novo Testamento. Os dois exemplos seguintes ilustrarão este ponto:

Primeiro, de acordo com os manuscritos que possuímos, existem quatro possíveis finais para o Evangelho de Marcos: o menor, que inclui os vv.1-8 do capítulo 16, o longo, que inclui os vv.1-8 mais os vv.9-20; o intermediário, que inclui duas ou três linhas entre o v.8 e o final longo, e o final longo expandido, que inclui vários versículos após o v.14 do final longo [29]. O melhor que podemos concluir sobre estas diferenças é que não podemos saber, apenas pela Bíblia, onde termina o Evangelho de Marcos, e, dependendo de qual final está (ou estão) incluído(s) na Bíblia protestante, o publicador corre o risco de estar distribuindo Bíblias acrescentando ou omitindo versículos do texto original - portanto violando a doutrina da Sola Scriptura, que requer que somente a Bíblia, e a Bíblia inteira seja a única regra de fé. Mesmo se uma Bíblia protestante incluir todos os quatro finais com notas de rodapé e comentários, mesmo assim não terão a certeza de qual final é o genuíno.


Segundo, há algumas evidências para leituras alternadas de alguns textos centrais da Bíblia, tal como Jo 1,18, onde ocorrem dois possíveis significados [30]. Algumas Bíblias (como a King James Version) trazem este versículo como está na Douay-RheimsNenhum homem viu a Deus em qualquer tempo, o filho único que está no seio do Pai o revelou. Outras acompanham a New Internacional VersionNinguém jamais viu Deus. O Filho único, que está à direita do Pai, foi quem o revelou. Ambas as formas estão sustentadas por manuscritos, e você encontrará exegetas bíblicos debruçarem seus mais preciosos julgamentos à que crêem seja a "correta". Uma situação similar ocorre em At 20,28, onde os manuscritos mostram que Paulo poderia estar se referindo tanto à Igreja do Senhor (gr. Kurion) ou à Igreja de Deus (gr. Theou) [31].


Este assunto pode parecer simplório à primeira vista, mas suponha que você esteja tentando evangelizar um membro de uma seita que nega a divindade de Jesus Cristo. Ainda que Jo 1,18 e At 20,28 não sejam as únicas passagens que possam defender a divindade de Nosso Senhor, você ficará incapacitado de utilizá-los com esta pessoa, dependendo de qual manuscrito sua Bíblia foi reproduzida. Isto levaria-o a uma possibilidade reduzida de defender uma doutrina bíblica fundamental, e este fato tornaria problemática a perspectiva da doutrina da Sola Scriptura.




Como mencionado no tópico anterior, existem milhares e milhares de variações nos manuscritos bíblicos. Acrescentado a isto o fato de histórico de que existiram centenas de versões bíblicas, variando cada uma tanto em tradução quanto em fontes textuais. A questão é: qual é a versão correta? ou qual é a versão mais fidedigna ao original? A possível resposta dependerá de qual lado você estiver, ou de católicos ou de protestantes. Outra saída dependerá de qual especialista bíblico você depositará sua confiança e credibilidade.


É fato que algumas versões são inferiores a outras. Os avanços nos campos arqueológicos possibilitaram descobertas (como os manuscritos do Mar Morto) que alteraram nosso conhecimento sobre locais e linguagens bíblicas antigas. Sabemos mais hoje pelos avanços dos estudos bíblicos que nossos antepassados de 100, 200, 1000 anos atrás. Deste ponto de vista, versões bíblicas contemporâneas provavelmente possuem certa superioridade em relação às suas versões mais antigas. Por outro lado, Bíblias transcritas a partir da Vulgata latina de São Jerônimo (quarto século) - em língua inglesa, a Douay-Rheims - são baseadas em textos originais que não existem mais, portanto estas versões passaram por dezesseis séculos de possíveis corrupções.


Isto causa um problema considerável aos protestantes, pois significa que os protestantes modernos possuem, por assim dizer, uma versão bíblica melhor ou mais acurada que a Bíblia de seus antecessores, que, portanto, possuíram Bíblias de menor qualidade - que por sua vez leva a concluir que os protestantes modernos possuem uma bíblia "mais completa" como autoridade final que a bíblia "menos completa" que dos antigos protestantes. Só que esta discrepância entre autoridadescomeça a diminuir a doutrina da Sola Scriptura, pois esta significa que uma bíblia não é mais ou menos autoritária que outra, e se uma não é autêntica e completa, a probabilidade de produzir doutrinas erradas é imensa, logo a função particular da bíblia como autoridade final falha, pois não pode mais ser uma autoridade final.


Outro ponto a considerar é que traduções bíblicas, como produtos humanos, não são completamente objetivas e imparciais. Um pode se sentir mais à vontade de incluir notas a uma passagem de uma maneira que corresponda melhor à doutrina que deseja transmitir. Um exemplo disto é a ocorrência da palavra grega paradoseis nas bíblias protestantes. Como negam a existência da Sagrada Tradição, algumas traduções trazem esta palavra como ensinamentos ou costumes e não tradições, sendo que esta última é a que mais se encaixa na tradução correta e à posição católica.


Ainda outra consideração é que algumas versões são corrupções bíblicas notáveis, como é o caso da Bíblia dos Testemunhas de Jeová, a New World Translation. Nela os "tradutores" manusearam passagens bíblicas para propagar doutrinas erradas [32]. Agora, a menos que haja uma autoridade fora da Bíblia para declarar tais traduções como falsas e perigosas, com qual autoridade e revelação divina os protestantes podem considerar esta ou aquela tradução como falsa? Com qual autoridade os protestantes podem impedir os Testemunhas de usar esta tradução para difundir suas doutrinas? Os protestantes responderiam que este caso pode ser encontrado na Bíblia, através dos estudos de pesquisadores bíblicos. Contudo isto ignora o fato dos Testemunhas também basearem sua tradução em estudos "especialistas". Forma-se um jogo de vai-e-volta, colocando as conclusões de um especialista contra outro, uma autoridade humana contra outra.


Este problema somente pode ser resolvido pela intervenção de um magistério infalível e com autoridade de falar por Cristo. O católica sabe que esta autoridade é a Igreja Católica e a autoridade de seu magistério. No exercício desta autoridade, os bispos católicos conferem o imprimatur ("Imprima-se") que deve constar nas primeiras páginas de certas versões bíblicas e outros tipos de literatura religiosa para alertar os leitores que aquele livro não contém nada contrário ao ensinamento de Cristo ou dos apóstolos [33].





Essencial à doutrina da Sola Scriptura é a idéia de que o Espírito Santo guia cada crente na interpretação infalível de qualquer passagem bíblica. Esta idéia, no mínimo, requer que todos possuam Bíblias ou acesso a ela. A dificuldade de tal pensamento está no fato de que a Bíblia não era um produto de massas disponível para todo mundo até o advento da imprensa no século 15 [34]. Mesmo depois disso, custava certo tempo até que um número ideal de Bíblias fosse impressa para suprir a população.

A difícil situação que esta idéia coloca é que milhões e milhões de cristãos ficaram sem uma autoridade final até o século 15, na total confusão espiritual, a menos que eles pudessem possuir uma Bíblia manuscrita. Qualquer um consideraria Deus um tanto cruel por causa disto, pois teria revelado sua mensagem de salvação para a humanidade por Cristo, mesmo sabendo que esta mensagem não estaria disponível a esta mesma humanidade por quinze séculos.


Porém sabemos que Deus não é cruel, mas tem um amor infinito por nós. Por esta razão não nos deixaria na escuridão. Nos enviou Seu único Filho para nos mostrar o Reino de Deus, como deveríamos agir e crer, e este Filho estabeleceu uma Igreja para promover esses ensinos através da pregação aos letrados e iletrados: assim a fé vem da pregação, e a pregação é o anuncio da Palavra de Cristo (Rm 10,17). Cristo também deu à Sua Igreja a garantia de que Ele sempre estaria com ela, nunca permitindo que ensine o erro. Deus, por essa razão, não abandonou Seu povo e fez com que antes da invenção da imprensa estes chegassem ao conhecimento de Seu Filho. De fato, deu-nos um mestre infalível, obra divina, a Igreja Católica, para nos dar toda a informação necessária sobre a Boa Nova - e da forma certa.





É uma realidade dura, mas deve ser encarada pelos protestantes, o fato de que esta doutrina não surgiu antes do século 14 e não se difundiu antes do século 16 - um tempo longo, muito longo, desde a era dos apóstolos e da fundação da Igreja de Cristo. Este fato, claro, é simplesmente ignorado pelos protestantes, mas sozinho é razão para refutar a Sola Scriptura. Esta doutrina não existia antes de John Huss (precursor do protestantismo) no século 14 e somente ganhou difusão quandoMartinho Lutero, no século 16, veio trazer suas "tradições de homens" para por no lugar da autêntica doutrina cristã. Esta doutrina, portanto, não somente surgiu do nada, mas também representa uma mudança abrupta e radical no ensino dos apóstolos.


Claro, os protestantes afirmam que a própria Bíblia ensina a Sola Scriptura e por isso esta doutrina é tão antiga quanto a Igreja. Contudo, como mostramos nos primeiros tópicos, a Bíblia não ensina esta doutrina em lugar algum. A insistência nesta afirmação é uma tentativa de forçar um contexto bíblico que mais se adeque ao que se pretende. Um exame acurado da história revela se uma crença foi ou não originada por Jesus e pelos apóstolos ou se apareceu em algum outro lugar no tempo. O fato é que, apesar dos esforços protestantes, os registros históricos são silenciosos quanto à doutrina da Sola Scripturaantes do 14º século.




Se esta doutrina fosse correta e santa, então todos os protestantes deveriam concordar em todos os pontos doutrinários, pois a Bíblia não pode ensinar doutrinas contraditórias simultaneamente. Mas a realidade é que existem milhares [35] de seitas protestantes, cada uma proclamando ser a Bíblia sua única regra de fé, cada uma garantindo que está pregando a verdade do Evangelho, embora muitas preguem assuntos totalmente diferentes umas das outras. Os protestantes, mestres da fuga, dizem que tais doutrinas discordantes não são essenciais, são secundárias, porém é realidade também que em assuntos, então, centrais, mesmo estes, os protestantes discordam. A salvação do homem, os sacramentos e a justificação são somente alguns exemplos.


Exemplificando: algumas seitas pregam que Jesus está simbolicamente presente na Eucaristia. Outros, como os luteranos, crêem o contrário, que Jesus está realmente presente na Eucaristia. Algumas denominações pregam que uma vez salvo, o crente não poderá jamais perder a sua salvação, não importa se faça o bem ou o mal. Outros pregam que o pecado pode causar a condenação do homem, mesmo após justificado. Algumas seitas afirmam que o ser justificado é apenas declaradojusto, enquanto outras afirmam que o ser justificado é tornado justo.


Jesus jamais quis que seus discípulos estivessem divididos, desunidos, mergulhados num caos doutrinário como está o protestantismo desde a sua origem [36]. Jesus, pelo contrário, pediu a união de seus seguidores: para que todos sejam um, assim como tu, Pai, estás em mim e eu em ti, que também eles estejam em nós (Jo 17,21). E São Paulo exorta aos cristãos a unidade doutrinária com estas palavras: um só corpo e um só Espírito...um só Senhor, uma só fé, um só batismo (Ef 4,4-5). Como, então, as milhares de seitas protestantes podem ser denominadas de "Igrejas verdadeiras" quando as suas simples existências já refutam tal presunção? Como doutrinas tão heterodoxas e contraditórias podem servir de instrumento divino de união, desejada por Jesus? Sobre isto, o leitor deve lembrar das palavras de Jesus: pela árvore se conhece os frutos (Mt 12,33). Por este versículo, vemos que a árvore da história do protestantismo e da Sola Scriptura está recheada de maus frutos.




A doutrina da Sola Scriptura não permite a interpretação definitiva de nenhuma passagem bíblica


Como temos visto, a Sola Scriptura supõe que basta uma Bíblia como regra de fé para se obter a verdadeira interpretação de qualquer passagem bíblica simplesmente comparando este verso com o restante da Bíblia. Na prática, contudo, o remendo saiu pior que a fratura, pois acaba por impedir que o crente possa chegar a uma certa e definitiva interpretação de qualquer passagem bíblica.


O protestante, na verdade, interpreta a Bíblia mais a partir de uma opinião subjetiva que de uma verdade objetiva. Por exemplo, digamos que o protestante A estudou a determinada passagem bíblica e chegou à conclusão X. O protestante Bestudou a mesma passagem, mas concluiu Y. Então, o protestante C estudou a mesma passagem dos outros dois, mas chegou a uma interpretação Z [37]. As interpretações XY e Z são contraditórias, entretanto cada um acha que chegou à verdadeira interpretação bíblica porque cada um estudou e comparou a Bíblia pela Bíblia.

Existem, agora, somente duas saídas para estes três protestantes: 1) todos estão errados; 2) somente um está correto. Três interpretações contraditórias jamais podem estar simultaneamente corretas [38]. O problema aqui é que, sem haver uma autoridade infalível que diga qual das três interpretações é a verdadeira (objetivamente verdadeira), não há meios para se saber qual das três é a correta seguramente. Cada protestante está, portanto, em meio a uma interpretação pessoal baseada meramente em opinião pessoal. Estudos e mais estudos são vãos. Cada protestante torna-se, com isso, sua própria autoridade final, ou seja, seu próprio Papa.

Na prática o próprio protestantismo nos mostra que este raciocínio é verdadeiro. Pelo fato de somente a Bíblia não ser suficiente como regra de fé (se fosse, todos os protestantes concordariam em interpretação), cada denominação têm que se render e aderir fixamente às suas próprias interpretações bíblicas. Logo, se existem várias possíveis interpretações da Bíblia, nenhuma é de fato definitiva. E se não há interpretação definitiva da Bíblia o protestante não têm como saber se sua interpretação é verdadeira ou falsa. 


Uma boa comparação seria com a lei moral. Se cada um pudesse determinar por sua própria opinião o que é certo e errado, não restaria nada mais que um relativismo moral, e cada uma fixaria seus próprio padrões morais. Entretanto, Deus definiu leis morais absolutas para nós (em adição às que conhecemos pelas leis naturais), e por isso podemos analisar cada ato e reconhecer se é moralmente bom ou mal. O mundo seria impraticável sem moral absoluta.

Cada denominação protestante afirma, lógico, que possui a verdadeira interpretação bíblica. Todas fazem isso. Se não fizessem, perderiam membros. Entretanto, se afirmam que possuem a verdadeira interpretação bíblica, em detrimento às demais, então está se auto-proclamando autoridade final. O problema aqui, se os leitores ainda não notaram, é que este detalhe viola o princípio da Sola Scriptura, que rejeita qualquer autoridade final que não seja a própria Bíblia. Cheque-mate.


Por outro lado, se uma denominação reconhece que sua interpretação bíblica não é mais correta que a de outra, então voltamos ao eterno dilema: qual interpretação está correta? existe alguma, então, que está correta? e se todas são falsas?. Nosso Senhor disse: Eu sou o caminho, a verdade e a vida (Jo 14,6). O problema aqui é que cada denominação, na prática, afirma possuir a única interpretação correta. Conclusão, milhares de interpretações corretas diferentes, que resultam em uma total impossibilidade de se conhecer a real e definitiva interpretação a uma passagem bíblica qualquer. Em outras palavras, nenhum seita protestante pode dizer a autoridade está aqui em relação a uma interpretação bíblica.





Para sua decepção, os protestantes são culpados de violar sua própria doutrina. A Sola Scriptura proíbe que algo seja acrescentado ou subtraído das Escrituras, porém os protestantes retiraram sete livros das Escrituras do Antigo Testamento, assim como porões de outros dois. Estes são erroneamente chamados de Apócrifos (não-autênticos) pelos protestantes, e dedeuterocanônicos (segundo cânon) pelos católicos: Tobias, Judite, 1 e 2 Macabeus, Sabedoria, Eclesiástico, Baruc, partes deDaniel e Ester.

Defendendo seu cânon incompleto, os protestantes apresentam alguns argumentos, tais como: 1) O cânon menor, chamadocânon farisaico ou palestinense do Antigo Testamento, foi aceito por Jesus e seus apóstolos, pois eles nunca citaram nenhuma fonte dos livros deuterocanônicos; 2) O Antigo Testamento foi fechado no tempo de Jesus, e este era composto pelo cânon menor; 3) Os próprios judeus aceitaram o cânon menor no sínodo de Jâmnia (ou Javneh) em 90 d.C.; 4) Os livros deuterocanônicos contém doutrinas anti-bíblicas.


Vejamos cada um destes argumentos:


1) Sobre este, que Jesus e seus apóstolos aceitaram o cânon menor, um exame das citações neotestamentárias do Antigo Testamento demonstrará a falácia. O Novo Testamento cita o Antigo cerca de 350 vezes, e em aproximadamente 300 destas (86%!) foram retiradas da septuaginta, a tradução grega do Antigo Testamento, largamente usada no tempo de Cristo. Esta versão, a septuaginta, continha os deuterocanônicos. Não há razão para dizer que Jesus e os seus discípulos aceitaram o cânon menor, quando na maioria das vezes utilizaram fontes do Antigo Testamento que continham os deuterocanônicos.

Tomemos o exemplo de Paulo, cujas cartas missionárias eram dirigidas a regiões fora da palestina. Deve-se notar, por exemplo, que seu sermão em Antioquia na Pisídia presumiu um conhecimento, entre seus ouvintes, da Septuaginta e uma vez que a comunidade fora formada, o conteúdo de suas cartas a estas era baseado na Septuaginta [40] Obviamente, Paulo assim não rejeitava, mas se utilizava do cânon maior, com os livros deuterocanônicos.

Além do mais, é errado dizer que estes livros não foram citados no Novo Testamento [41] e que tal citação deve ser pré-requisito para a canonicidade de um livro bíblico. Algumas fontes dizem que os deuterocanônicos são citados no Novo Testamento, no mínimo, 150 vezes [42]. Acrescido a isto, livros do cânon menor, como Eclesiastes, Abdias e Ester não são citados por Jesus ou seus apóstolos, e nem por isso os protestantes retiraram-nos do seu cânon. Obviamente este argumento não serve para determinar a canonicidade de um livro.

2) A evidência histórica mostrará que o argumento protestante de que o cânon do Antigo Testamento foi fechado no tempo de Jesus é falso. Primeiro que não havia nenhum cânon palestino oficial, pois existia neste tempo três cânons em circulação [43], além da Septuaginta. Segundo, as evidências mostram que o judaísmo durante os últimos dois séculos antes de Cristo e o primeiro século depois de Cristo não era uniforme em seu entendimento sobre quais livros deveriam ser considerados sagrados. Existiam muitas opiniões dentro e fora de Israel sobre esta questão [44].

3) Usar o sínodo de Jâmnia para justificar o cânon menor é problemático por algumas razões: a) tal decisão, tomada cerca de 50 anos após a morte de Cristo, não tem relação alguma com o cânon dos livros cristãos, pois os rituais veterotestamentários (como não comer carne de porco) não têm relação com o cristianismo; b) é questionável se de fato este sínodo possuiu uma visão definitiva e autoritária sobre o cânon do Antigo Testamento das Escrituras, pois a lista continuou a variar dentro judaísmo até o século 4 d.C. [45]; c) o sínodo foi, de certo modo, formado devido a polêmica contra a seita dos cristãos, portanto em total oposição ao cristianismo. Estes judeus aceitaram o cânon menor porque os cristãos aceitavam o cânon maior da Septuaginta; d) as decisões deste sínodo representaram a decisão de apenas um ramo do judaísmo farisaico, o da palestina, e não do judaísmo como um todo.


4) Por fim, para os protestantes afirmarem que os deuterocanônicos possuem doutrinas anti-bíblicas é decididamente um caso de insegurança dogmática. Esta conclusão foi tomada porque os reformadores, claramente em antagonismo com a Igreja Católica, tomavam a Bíblia a priori como um livro de doutrinas protestantes. Descartaram os deuterocanônicos porque continham doutrinas católicas, como 2 Mac 12,42-46, que claramente baseia a oração pelas almas do purgatório: santo foi e piedoso o seu pensamento, e foi essa a razão por que mandou que se celebrasse pelos mortos um sacrifício expiatório, para que fossem absolvidos de seus pecados. Lutero, claramente, quis retirar também do Novo Testamento livros como Apocalipse, Hebreus e Tiago, este merecendo o nome de epístola de palha, onde nada de evangélico é encontrado [46], isso devido, sem dúvidas, o fato de que Tiago afirmava que somos salvos pela fé e pelas boas obras (Tg 2,14-26), refutando a doutrina recém-criada por Lutero de que somos salvos somente pela fé, sem participação das obras. Lutero foi convencido por seus correligionários a não retirar mais este livro da Bíblia.

Além deste fato acima, existe o testemunho histórico da continuidade do cânon bíblico. enquanto vimos que existiam disputas em relação ao cânon bíblico, duas considerações são evidentemente verdadeiras: a) com certeza os deuterocanônicos eram usados pelos cristãos do primeiro século, a começar por Jesus e seus apóstolos; b) desde que foi definido o cânon no século 4, não vemos mudança alguma em relação ao conteúdo da Bíblia. Na prática, a única disputa que surgiu após este evento veio com a reforma protestante, somente no século 16, que decidiram que poderiam simplesmente lançar no lixo a continuidade de 11 séculos do cânon bíblico em sua existência formal, e 15 séculos de existência prática.


O fato de que qualquer pessoa possa vir e simplesmente alterar a continuidade de um tema tão central como o conteúdo dos livros da Escritura deveria levar o cristão a pensar seriamente sobre um detalhe. Este cristão deveria se perguntar: com que autoridade esta pessoa pôde fazer esta alteração? Tanto a história como os próprios escritos de Lutero mostram que suas ações foram baseadas em nada mais que sua opinião pessoal. Certamente, tal "autoridade final" falha grosseiramente no que se requer para que alguma alteração canônica seja feita, especialmente quando se considera que o processo de identificar o cânon bíblico envolveu um processo guiado pelo Espírito Santo, levou séculos, e envolveu algumas das maiores mentes do cristianismo assim como alguns Concílios da Igreja. Mais interessante é o fato de que outros chamados reformadores - e desde então todos os protestantes - aceitaram a alteração do cânon de Lutero, mesmo que todos dissessem que eram fiéis à Bíblia e insistiam que nada deveria ser acrescentado ou retirado de suas páginas





Se algo deve ser dito com relação a Martinho Lutero é o fato de que ele era cronicamente assolado por uma combinação de dúvidas e inseguranças quanto a sua própria salvação e uma sensação de extrema impotência em face as tentações do pecado. Ele próprio escreveu: meu espírito está completamente partido e estou em eterno estado de melancolia; pois, faça o que fizer, minha retidão e minhas boas obras não me trazem ajuda ou consolação alguma [47].


À luz desta realidade, pode-se acessar o perfil emocional e psicológico do pensamento de Lutero e seu impacto na origem de sua Sola Scriptura. Uma pequena análise pode mostrar que esta doutrina nasceu da necessidade que Lutero tinha de se ver livre de seus sentimentos de culpa, insegurança e tentação que o "torturavam".


Considerando que o próprio Lutero admite uma tendência obsessiva ao pecado, assim como uma inabilidade de resistir a ele, fica claro que ele sofreu de "escrupulosidade", e todos os estudiosos luteranos admitem isso [48]. Escrupulosidade significa que uma pessoa fica extremamente ansiosa quanto a ter cometido um pecado quando na verdade não há razão para tal, e uma pessoa escrupulosa é aquela que geralmente supervaloriza seu pecado, com uma correspondente confiança em Deus. Também é relevante notar que a escrupulosidade parece ser baseada em alguma disfunção psicológica [49].


Em outras palavras, Lutero provavelmente nunca desfrutou de paz espiritual e psicológica, pois a voz de sua "consciência" sempre o alcançava sobre qualquer assunto, real ou imaginário. É natural que alguém tão atordoado busque refúgio nesta voz, e para Lutero este refúgio foi encontrado na doutrina da Sola Fide, ou a salvação somente pela fé.

Mas desde que resistir ao pecado e praticar boas obras são componentes essenciais para nossa salvação, e desde que estes fatos são satisfatoriamente componentes e defendidos pela Igreja Católica, Lutero se encontrou diametricamente oposto à doutrina da Igreja. Pelo fato de a Igreja ensinar a necessidade de algo que ele exatamente não podia fazer, tomou uma decisão drástica - uma que "resolveria" sua escrupulosidade: rejeitou a autoridade da Igreja, contida no seu Magistério cujo Papa é o chefe, e afirmou que era algo contrário à Bíblia. Em outras palavras, por dizer que a Sola Scriptura deveria ser a verdadeira doutrina cristã, Lutero repugnou a autoridade que o fazia reconhecer que sua própria espiritualidade era disfuncional.




Por todas estas razões, então, é evidente que a doutrina protestante da Sola Scriptura é uma extremamente anti-bíblica, humana e errônea crença que deve ser desacreditada e rejeitada completamente. Todos os que são genuinamente cristãos e seguem as verdades que Jesus ensinou - mesmo que contradiga o seu sistema religioso atual - devem reconhecer a falha desta doutrina, falha esta óbvia pelas Escrituras, pela história e pela lógica.


A plenitude da verdade cristã, sem erro, é encontrada somente na Igreja Católica, a mesma Igreja que o próprio Cristo estabeleceu sobre a terra. De acordo com esta Igreja, a Sola Scriptura é uma distorção da autoridade cristã. Na realidade, a verdadeira e direta regra de fé do cristão é a Igreja, que por sua vez absorve o que ensina da Revelação Divina - a Tradição Escrita e a Tradição Oral, que juntas formam a regra indireta de fé.

A Escritura e a Tradição são as fontes inspiradas da doutrina cristã, enquanto que a Igreja - entidade histórica e visível em sucessão ininterrupta desde Pedro e os demais apóstolos - é a intérprete infalível da doutrina cristã. Somente aceitando completamente esta regra de fé que os seguidores de Cristo podem aderir a todas as coisas que Ele ordenou aos seus apóstolos ensinar (Mt 28,20). Somente aceitando completamente esta regra de fé o cristão pode conhecer a verdadeira doutrina pregada por Cristo, e nada além da verdade.




Nota: entre as referências estão citados alguns autores protestantes. Seus trabalhos não são obras recomendadas, porém mostram que os pontos apresentados neste trabalho são verdadeiros e válidos mesmo entre os protestantes.

  1. A reforma protestante não foi uma reforma no sentido verdadeiro da palavra, mas sim uma revolução - uma alteração violenta da legítima religiosidade e ordem civil.
  2. W.E. Vine [protestante], Vine's Expository Dictionary of New Testament Words (McLean, VA: McDonald Publishing House, n.d.), p. 387. Cf. St. Afonso de Liguóri, Exposição e defesa de todos os assuntos de fé discutidos e definidos pelo Santo Concílio de Trento; com a refutação dos erros dos pretensos reformadores, etc. (Dublin: James Duffy, 1846), p. 50.
  3. Apesar de todos os livros do Novo Testamento já terem sido escritos enquanto João finalizava o Apocalipse, ainda não estavam organizados como Sagrada Escritura.
  4. A palavra traduzida como ordenança é também traduzida como ensinamento ou tradição, por exemplo, a NIV traz ensinamento com uma nota dizendo: "ou tradição".
  5. Vine, op. cit., p. 564
  6. Um exemplo desta forma interpretativa envolve Ap 12. Os Padres da Igreja entenderam a mulher vestida de sol como referência à Assunção da Virgem Maria. Alguém afirmar que esta doutrina não existia até 1950 (o ano em que o Papa Pio XII definiu-o como dogma de fé) corresponde a uma grande ignorância de história eclesial. Essencialmente, a crença surgiu desde o início, mas não fora formalmente definida até o século 20. Deve-se saber que a Igreja geralmente não costuma definir uma doutrina formalmente a não ser que esta seja questionada por correntes heréticas perigosas. Tais ocasiões requerem uma necessidade oficial de definir parâmetros sobre a doutrina em questão.
  7. A Igreja Católica afirma que "o corpo dos bispos", os sucessores dos apóstolos, também goza de infalibilidade, quando, em união com o Papa, "exerce seu magistério supremo, sobretudo em um Concílio Ecumênico" (cf. CCE #891). "Ligar e desligar" é uma terminologia rabínica, e se refere à autoridade de seus ensinamentos e interpretações. Cristo claramente pretendeu, portanto, que seus apóstolos, sob a liderança de Simão Pedro (contudo somente Pedro recebeu o poder das chaves), possuíssem a autoridade para ensinar a correta interpretação.
  8. A afirmação protestante de que a Bíblia interpreta a si mesma nada mais é do que uma futilidade. Afirmam que cada pessoa pode chegar a uma correta interpretação bíblica comparando seus versículos com outros da Bíblia. O problema com este argumento pode ser assim demonstrado: peça a dez pessoas para darem sua interpretação sobre um certo versículo bíblico, e é provável que encontre dez interpretações diferentes. Se a Bíblia pudesse interpretar a si mesma, sempre se chegaria à mesma conclusão, independente da época em que se estuda, mesmo pelas mais diferentes pessoas. E se tal diferença de interpretações pode ser verdadeira para apenas dez pessoas, imagine então o resultado quando se multiplica este número por milhares ou milhões? A história já demonstrou tal resultado, e seu nome é Protestantismo.
  9. Existem alguns estudiosos que afirmam que 2 Pd foi o último livro escrito do Novo Testamento, datando do início do século dois. Pelo fato de não haver consenso entre os especialistas sobre a data acurada, é suficiente para nosso propósito aceitar a visão geral de que ao fim do século um todos os livros do Novo Testamento já haviam sido escritos.
  10. Veja, por exemplo, Santo Irineu, Contra as Heresias 3,3; Tertuliano, Prescrição contra os hereges 32, Orígenes, Primeiros princípios, 1, prefácio.
  11. Veja, por exemplo, Santo Inácio, Carta aos Esmirnenses 8-9; Carta aos Filadélfos, introdução e cap.1-4; Carta aos Magnésios, 7.
  12. Veja, por exemplo, 1 Clemente 1,56,58,59; Santo Inácio, Carta aos Romanos, introdução e cap.3; Santo Irineu, Contra as Heresias 3,3; Tertuliano, Prescrição contra os hereges 22; Eusébio, História Eclesiástica 5,24,9.
  13. Msr. Patrick F. O'Hare, LL.D, The Facts about Luther (Cincinnati: Pustet, 1916; Rockford, IL; TAN, 1987), pp. 215-255.
  14. Walch, XIII, 2195, citado em The Facts about Luther, p. 15.
  15. É relevante que os decretos de um Concílio Ecumênico não porta autoridade a menos que seja ratificados pelo Papa.
  16. Dois versículos favoritos dos arianos para respaldar sua crença são Pv 8,22 e Jo 14,28.
  17. John Henry Newman, Os arianos do quarto século.
  18. Henry G. Graham, Where we got the Bible: our debt to the Catholic Church (St Louis: B. Herder, 1911; Rockford, IL: TAN, 1977, 17th edição), pp. 34-35.
  19. É a mesma lista dada pela declaração final, explícita e infalível da Igreja sobre quais os livros a serem incluídos na Bíblia, feita pelo Concílio de Trento, na sessão IV, em 1546. Listas iniciais dos livros canônicos eram as listas do "Decreto Gelasiano", dado pela autoridade do Papa Dâmaso em 382, e o cânon do Papa Inocêncio I, enviada a um bispo franco em 405. Nenhum dos dois documentos pretendia compor uma afirmação infalível a toda a Igreja, mas ambos incluíam os mesmos 73 livros da lista de Trento 11 séculos antes. (The Catholic Encyclopedia [New York: The Encyclopedia Press, 1913], vol. 3, p. 272).
  20. O leitor deve notar que a Igreja Católica não afirma que a identificação dos livros da Bíblia não os tornaram canônicos. Deus é quem é o autor da canonicidade. A Igreja Católica afirma, isto sim, que somente ela detém a autoridade e responsabilidade por identificar infalivelmente quais são os livros canonizados por Deus que devem compor a Bíblia cristã.
  21. Commentary on John, cap. 16, como citado em Paul Stenhouse, Catholic Ansewrs to "Bible" Christians (Kensington: Chevalier Press, 1993), p. 31.
  22. Graham, op. cit, p. 31.
  23. Nem as primeiras cópias da Bíblia, o Codex Vaticanus e o Codex Sinaiticus, ambos datados do quarto século d.C., nem qualquer outra cópia contém a Bíblia inteira, pois partes dos manuscritos foram perdidos ou destruídos. A grande maioria dos manuscritos que existem atualmente são apenas fragmentos da Bíblia.
  24. A ironia é que foi pelos esforços incansáveis e laboriosos dos monges católicos em suas clausuras que a Palavra de Deus escrita sobreviveu através dos séculos. A acusação de que os católicos fizeram de tudo para suprimir a Bíblia é uma das mais perniciosas falsidades, e é facilmente refutada pelo atento exame nas pesquisas da história da Igreja. Muito pelo contrário, a Igreja Católica, cuja única função é ser a guardiã do Depósito da Fé, protegeu a Bíblia das traduções falsas e espúrias, e foram estas versões que foram destruídas ou queimadas para evitar que falsos evangelhos circulasse.
  25. Raymond F. Collins, Introduction to the New Testament (Garden City, NY: Doubleday & Company, Inc., 1983), p. 77.
  26. Ibid., pp. 100-102.
  27. Bruce M. Matzger [protestante], The Text of the New Testament: its transmission, corruption and restoration (Oxford University Press, 1992), pp. 221-225, 234-242.
  28. Os protestantes argumentam que mesmo com as variações nos manuscritos bíblicos, nenhum aborda as doutrinas principais. Mesmo que fosse verdadeira esta afirmação, não altera o fato de que os protestantes estão verdadeiramente admitindo, ao menos indiretamente, que aceitam algumas doutrinas que são diferentes da Bíblia "real". E se isto é verdadeiro, então o próprio protestante começa a desmerecer a Sola Scriptura.
  29. Metzger, op. cit., pp. 226-228.
  30. Collins, op. cit., p. 102.
  31. Metzger, op. cit., p. 234.
  32. Entre os vários exemplos que poderiam ser citados, por motivos de espaço, vamos considerar somente algumas ilustrações sobre este assunto. Em Jo 1,1, a NWT traz, "...e a Palavra era um deus" e não "e a Palavra era Deus", isto porque os Testemunhas rejeitam a divindade de Cristo. Em Cl 1,15-20, a NWT acrescenta a palavra outro no texto quatro vezes porque crêem que Jesus era uma criatura. Em Mt 26,26 a NWT traz, "...isto significa meu corpo..." e não "...isto é o meu corpo", porque os Testemunhas negam a Real Presença de Jesus na Eucaristia.
  33. Além do mais, a versão latina Vulgata recebeu uma aprovação particular pelo Concílio de Trento entre todas as demais versões latinas existentes na época. O Concílio declarou: ...esse mesmo sacrossanto Concílio determina e declara: que nas preleções públicas, nas discussões, pregações e exposições seja tida por legítima a antiga edição da Vulgata, que pelo longo uso de tantos séculos se comprovou na Igreja; e que ninguém, sob qualquer pretexto, se atreva ou presuma rejeitá-la. (Sessão IV [8-4-1546], A edição da Vulgata da Bíblia e o modo de interpretação, 785). Desde então, como afirmou o Papa Pio XII na Carta Encíclica Divino Afflante Spiritu ("Sobre a promoção dos estudos bíblicos"), a Vulgata, "quando interpretada no sentido que a Igreja sempre entendeu" é " livre de erro em matéria de fé e moral". Em 1970 o Papa Pio IX (1903-1914) iniciou a revisão da Vulgata para uma maior acurácia textual. Após sua morte, este enorme projeto está sendo continuado por outros. Em 1979 João Paulo II promulgou a "Nova Vulgata" como Editio typica ou "edição normativa".
  34. Notemos que o inventor da imprensa - Johannes Gutenberg - era católico, e que o primeiro livro impresso foi a Bíblia (circa 1455). Também deve ser notado que esta primeira Bíblia continha os 73 livros que até hoje compõem a Bíblia católica. Portanto, os protestantes retiraram os 7 livros da Bíblia quando esta já existia em formato impresso.
  35. Alguns estimam que existam cerca de 25 mil denominações protestantes diferentes. Contando-se a partir de 500 anos de história protestante, desde Lutero (1517), este número significa uma média de uma nova denominação protestante nova por dia! Sabemos, contudo, que estes dados são desatualizados, e existem muito mais de 25 mil denominações/seitas protestantes diferentes.
  36. Mesmo os primeiros reformadores - Martinho Lutero, João Calvino e Ulrich Zwingli - não concordavam em assuntos doutrinários e classificaram as doutrinas uns dos outros como heréticas.
  37. Três aqui é usado apenas como ilustração. A quantidade histórica (isto é, o número das variações nas interpretações de várias passagens) é imensamente maior.
  38. Não é negado que uma passagem da Escritura possa ter diferentes níveis de interpretação ou que possa ter diferentes níveis de significado em termos de sua aplicação na vida do cristão. O que é negado aqui, contudo, é o fato de uma passagem possuir mais de um significado doutrinário ou teológico oposto a outro. Por exemplo, se duas pessoas afirmam, respectivamente, "X" e "não-X" para uma determinada interpretação, ambos não podem estar corretos. Tome a doutrina da Real Presença na Eucaristia. Se o primeiro afirma que Jesus está presente no pão e no vinho, mas a segunda pessoa afirma que Cristo não está presente no pão e no vinho, é impossível que ambas as doutrinas estejam corretas ao mesmo tempo.
  39. O cânon farisaico, usado pelos judeus da Palestina, não continha os livros deuterocanônicos. O cânon alexandrino ou Septuaginta, usado largamente pelos judeus da diáspora (regiões helenísticas fora da Palestina), continha os livros deuterocanônicos.
  40. W.H.C. Frend [protestante], The Rise of the Christianity (Philadelphia, PA: Fortress Press, 1984), pp. 99-100.
  41. Para alguns exemplos, compare as seguintes passagens: Mt 6,14-15 e Eclo 28,2; Mt 6,7 e Eclo 7,15; Mt 7,12 e Tb 4,15-16; Lc 12,18-20 e Eclo 11,19; At 10,34 e Eclo 35,15; At 10,26 e Sb 7,1; Mt 8,11 e Br 4,37.
  42. Lee Martin McDonald [protestante], The Formation of the Biblical Canon, Apêndice A (Nashville, TN: The Parthenon Press, 1988) (Lista entitulada "New Testament citations and allusions to apocryphal and pseudoeptgraphal writtings", adaptado de The Text of the New Testament, de Kurt Aland e Barbara Aland, dois famosos biblistas).
  43. Incluem a) o cânon de Qumram, conhecido pelos Manuscritos do Mar Morto; b) o cânon farisaico e c) o cânon saduceu/samaritano, que inclui somente o Torah (os primeiros livros do Antigo Testamento).
  44. McDonald, op. cit., p. 53.
  45. Ibid, p. 60.
  46. Hartmann Grisar, SJ, Marthin Luther: His life and work (B. Herder, 1930: Westminster, MD: The Newman Press, 1961), p. 426.
  47. Jansen, Vol III, p. 84, como citado em O'Hare, op. cit., p. 51.
  48. Cf. Fr William Most, "Somos salvos somente pela fé?" fita cassete da Catholic Answers, PO Box 174900, San Diego, CA 92177.
  49. Fr. Peter Stravinskas, ed., Catholic Encyclopedia (Huntington, Indiana: Our Sunday Visitor, Inc. 1991), p. 873.)

A Virgem Maria deve ser considerada nossa mãe?


A resposta é: Sim!. Algumas das razões vão abaixo:

1- Entendemos que o Cristo a deu a nós na Cruz: "Eis aí tua mãe". Se isso é relatado, tem um significado teológico;

2- Cristo é a cabeça da Igreja da qual nós somos os membros. A Mãe da Cabeça é necessariamente Mãe também dos membros.

3- A Virgem Maria tem um papel singularíssimo que é descrito tanto no Gênesis quanto no Apocalipse. A mulher de que se fala não é somente a Igreja, pois ela tem uma característica que a Igreja não tem: a Mulher bíblica é mãe do Cristo. A Igreja nunca é dita mãe d'Ele, mas esposa, corpo, etc. E é por isso que Nosso Senhor refere-se a Maria como Mulher. Longe de indicar uma indiferença, que pareceria estranha a Jesus, este termo indica uma vocação;

4- O livro do Gênesis põe uma inimizade intrínseca entre a Serpente, o diabo, e a Mulher, que é a Virgem. Logo, ela surge aqui com uma colaboradora particularíssima de Deus, cuja missão perpassa toda a história da Salvação. O livro do Apocalipse fala ainda do "restante da sua descendência", mostrando como o Cristo não é o único filho da Virgem.

4- A Virgem Maria cumpre uma função análoga e contrária à de Eva:

a) Enquanto Eva foi tentada por Lúcifer, a Virgem Maria foi anunciada por Gabriel;

b) Enquanto Eva tomou o fruto proibido, a Virgem Maria recebeu o fruto da salvação;

c) Enquanto Eva foi rebelde diante da árvore do Éden, a Virgem Maria foi plenamente fiel diante da árvore da Cruz;

d) Enquanto Eva participa da causa de condenação da humanidade, a Virgem Maria participa da causa de salvação;

e) Ambas, Eva e Maria, devem sua existência e natureza, respectivamente, a Adão e ao Cristo, o novo Adão;

f) Enquanto Eva colabora com Adão para a geração física dos filhos de Deus, e é chamada por isso de nossa primeira mãe, a Virgem Maria colabora com o Cristo para a geração dos filhos na ordem da Graça; Logo, ela dita é mãe dos Cristãos.

Finados e Indulgência Plenária para as almas


“A indulgência retira as penas das almas do purgatório”

Prof. Felipe Aquino

No Dia de Finados, “aos que visitarem o cemitério e rezarem, mesmo só mentalmente, pelos defuntos, concede-se uma Indulgência Plenária, só aplicável aos defuntos. Diariamente, do dia 1º ao dia 8 de novembro, nas condições costumeiras, isto é, confissão sacramental, comunhão eucarística e oração nas intenções do Sumo Pontífice; nos restantes dias do ano, Indulgência Parcial (Encher. Indulgentiarum, n.13)”.

“Ainda neste dia, em todas as igrejas, oratórios públicos ou semi-públicos, igualmente lucra-se uma Indulgência Plenária, só aplicável aos defuntos; a obra que se prescreve é a piedosa visitação à igreja, durante a qual se deve rezar o Pai-nosso e Creio, confissão sacramental, comunhão eucarística e oração na intenção do Sumo Pontífice (que pode ser um Pai Nosso e Ave-Maria, ou qualquer outra oração conforme inspirar a piedade e devoção).” (pg. 462 do Diretório Litúrgico da CNBB).

Mas, afinal, o que é indulgência? Para falar deste assunto tão comentado pelos fiéis da Igreja Católica, durante o Dia de Finados, o cancaonova.com conversou com o professor Felipe Aquino.

cancaonova.com: O que é indulgência?

Felipe Aquino: A indulgência é o cancelamento das penas devidas pelos pecados que nós cometemos e que já foram perdoados na confissão. Mas é preciso explicar uma coisa: quando se comete um pecado grave, há duas consequências: a culpa e a pena. A culpa é aquela ofensa que se faz a Deus e a confissão perdoa. No entanto, ainda fica a chamada ‘pena temporal’, que é o estrago causado pelo pecado na sua própria alma, porque você deixou de ser mais santo. Então, há de querer recuperar isso. Essa pena nós cumprimos aqui na terra com orações e penitências ou no purgatório, se a pessoa morrer com elas.

A indulgência retira essas penas das almas do purgatório; elas fazem aquilo que nós chamamos de sufrágio da alma.

cancaonova.com: A indulgência é do tempo de Jesus ou uma criação do Papa?

Felipe Aquino: A indulgência é uma descoberta da Igreja, mas que, evidentemente, está no coração de Jesus. Ele não ensinou todas as coisas para Igreja, mas deixou que o Espírito Santo fosse as ensinando. Tanto é que, na Santa Ceia, Ele disse para os apóstolos: “Eu ainda tenho muitas coisas para ensinar, mas vocês não estão preparados para ouvir agora. Quando vier o Espírito Santo ensinar-vos-á todas as coisas ” (Jo 16,12). O Espírito de Deus, então, foi ensinando para a Igreja, nesses 2 mil anos, e as indulgências começaram logo nos primeiros séculos. Ela foi aprovada pela Igreja e pelos papas até hoje, mas, evidentemente, está tudo no coração de Jesus.

cancaonova.com: Há diferentes tipos de indulgências?

Felipe Aquino: Há dois tipos de indulgências: a plenária e a parcial. A indulgência parcial é aquela que nós conseguimos para uma alma do purgatório, e ela fica aliviada de parte de suas penas. Na indulgência plenária, a alma fica aliviada de todas as suas penas, ou seja, dali, ela vai para o céu.

‘Cumprindo-se 4 exigências, pode-se ganhar uma indulgência plenária a cada dia’

cancaonova.com: Podemos fazer as indulgências em qualquer época do ano?

Felipe Aquino: Sim. Podemos ganhá-las todos os dias para a nossa alma ou para uma alma do purgatório. Basta fazer uma boa confissão, participar da Eucaristia, rezar pelo o Papa pelo menos um Pai Nosso e uma Ave-Maria. Depois, fazer uma das quatro coisas que eu vou dizer agora: fazer meia hora de adoração ao Santíssimo Sacramento, meia hora de leitura bíblica meditada, a via-sacra na Igreja, ou rezar um terço em família ou na comunidade diante de um oratório com a imagem de Nossa Senhora. Cumprindo essas 4 exigências, a pessoa pode ganhar uma indulgência plenária a cada dia, uma vez por dia e para cada alma.

cancaonova.com: Podemos oferecê-la para alguém? Qualquer alma pode recebê-las?

Felipe Aquino: Podemos oferecer para qualquer alma do purgatório ou para nossa própria alma. A condição é essa, que a alma esteja no purgatório.

cancaonova.com: Se eu ofereço a indulgência para alguma alma, preciso continuar rezando por ela?

Felipe Aquino: Se você quiser, continua rezando, mas se cumpriu as quatro exigências para a alma conseguir a indulgência, pronto. Agora, se você quiser continuar rezando mais, pode.

cancaonova.com: Se eu rezo por alguma alma, mas ela já está no céu ou no inferno, minhas orações são em vão?

Felipe Aquino: Não são. Todas as orações pertencem à comunhão dos santos, que é a união da Igreja que está na Terra, no Céu e no Purgatório. Qualquer oração, se não beneficia a Igreja padecente no purgatório, pode beneficiar a Igreja militante na Terra.

cancaonova.com: E quanto às crianças que faleceram, também necessitam de nossas orações?

Felipe Aquino: Recentemente, o Papa Bento XVI colocou essa questão bem clara; ele pediu, inclusive, para a Comissão Teológica Internacional do Vaticano estudar a questão. Eles foram bem claros: a criança que morre sem o batismo está salva, vai para o céu. Mas a Igreja recomenda que se reze por essa criança.

10º aniversário GRAA

Dia de todos os santos - Idolatria ou Cristianismo autêntico?


Hoje, dia 01 de Novembro, a Igreja celebra o dia de todos os santos, e isso é suficiente para confirmar, aos olhos dos protestantes incautos, a idéia de que a Igreja católica é idólatra. O pior é que, nessa época profundamente protestantizada, esses receios terminam contaminando até mesmo um grande contingente de católicos. Não importa o quanto escrevamos ou formemos, em todo lugar onde se vai, há católicos sempre com as mesmas dúvidas: e as imagens?; e os santos?; e Jesus único mediador?, etc.

Pretendemos então nesse texto demonstrar - mais uma vez - que a idéia de existirem santos é algo intrínseco ao Cristianismo. 

Primeiramente, notemos que os primeiros cristãos se chamavam a si mesmos de santos: At 9,32; 26,10; Rm 16,2; Ef 4,12; 5,3; etc.

Tornar-se santo também é visto como um objetivo a ser alcançado: Ex 22,31; Lev 20,7; 1Cor 1,2. O próprio Cristo nos ordena ser santos como Deus é santo. (Mt 5,48; 1Pe 1,16).

Ora, se os primeiros cristãos se chamavam de santos e, ao mesmo tempo, ser santo é algo que o próprio Deus nos pede, a conclusão irrefutável é que é possível ser santo. Do contrário, todas essas coisas não fariam nenhum sentido. Pedro também nos diz que o propósito divino é fazer-nos participar da Sua natureza. (2Pe 1,4). A natureza divina é santa. Logo, devemos, para tomar parte nessa natureza, ser santos. O santo, então, seria aquele que conseguiu harmonizar a sua vida com o Evangelho.

Temos então, aqui, dois conceitos de santidade: o primeiro é o de que é algo que já possuímos; o segundo é o de que é uma meta, um fim a ser alcançado. No decorrer da história, o termo "santo" (hagios) começou a ficar mais reservado para indicar esta segunda acepção: santos são os que encerraram já a sua carreira nesta vida e conquistaram a beatitude (Apo 19,8).

Haveria, portanto, como o diz o livro de Hebreus, "uma grande nuvem de testemunhas no céu" (12,1), e o que o Apocalipse por sua vez descreve como "uma multidão" (19,1). Estes são os santos.

Então, primeiramente vejamos isso: a existência dos santos não contradiz a verdade de Deus como o único santo (Apo 15,4). Perceba que não há uma terceira via: ou entendemos isto ou temos de dizer que a Bíblia é contraditória. Como sabemos que ela não é, tertia non datur.

Isto entende-se assim: vimos acima que Pedro diz que devemos participar da natureza divina. Logo, devemos ter parte na santidade de Deus. Do mesmo modo, Jesus é a luz do mundo e, ao mesmo tempo, nos chama "luzes do mundo" porque participamos da Sua luz. A ninguém devemos chamar de Pai, diz Ele, mas, ao mesmo tempo, isso não proíbe que ninguém chame ao seu genitor de pai, pois este participa da paternidade única de Deus. A ninguém chameis mestres pois um só é Vosso mestre, ordenou Ele, mas o próprio Paulo diz que podemos ter vários mestres em Cristo, isto é, que participem do único mestrado de Cristo, etc. (1Cor 4,15). Portanto, não faz sentido cismar com a idéia de a Igreja chamar alguns homens de "santos".

Esta mesma lógica da participação resolve outra aparente contradição: Jesus é o único mediador (1Tim 2,5). Mas qualquer protestante, mesmo que inconsciente, trata o seu pastor mais próximo como mediador quando o pede para orar por si. A própria Bíblia torna-se mediadora na medida em que se coloca como liame entre nós e Deus, etc. Mediar é colocar-se no meio entre as partes, estabelecendo um contato entre elas. A negação dessas mediações secundárias é algo rejeitado pela Escritura e pela lógica mais básica. O que Paulo queria dizer aí é que não há mediação alternativa a Cristo. Ele é o único mediador absoluto. Mas, a partir do momento em que estamos n'Ele, tem início uma grande dinâmica espiritual em que todos nós nos tornamos partes do mesmo corpo e, como tal, podemos mediar-nos uns aos outros n'Ele. Esta mediação secundária não contradiz a d'Ele; pelo contrário, só se torna possível graças à d'Ele. A mediação secundária confirma a mediação única. Esta é a mediação dos santos.

Um santo não tem poderes nem autoridade alternativos e próprios. Tudo o que ele é se deve a Deus. Nada há nele que seja independente. O santo é uma pessoa que viveu visceralmente o Evangelho. Ele encarnou o Verbo nele mesmo, na própria alma, no próprio corpo, e consumiu a sua vida nisso. Ele foi aquela pessoa que fez pouco caso da própria vida para dedicar-se inteiramente ao seguimento do Cristo. Ele foi aquela pessoa que desprezou tudo quanto não é Deus, e gritou, não somente com a voz, mas com todo o seu ser: "Só Deus basta!". Não apenas o santo não é um estímulo à idolatria como ele mesmo é um impedimento à idolatria. Contemplar um santo é lembrar que as verdades do Evangelho são reais e que o Deus zeloso deve ser central na vida do homem. Contemplar um santo é reavivar em nós o sentido do Céu, da transcendência; é lembrar que não vivemos para esta "má noite", como dizia Sta Teresa D'Avila, nem para este "instante entre duas eternidades", como dizia Sta Teresinha. Contemplar um santo é entender que "o homem é o que é diante de Deus, e nada mais", como falava S. Francisco de Assis.

Os santos são irmãos que já conquistaram a coroa da vida. Estão no céu, com Deus. Desse modo, purificados inteiramente de quaisquer falhas e abrasados no amor divino, podem pedir por nós de modo mais perfeito e eficaz. Não hesitemos, então, pedir-lhes que rezem por nós e peçam a Deus que nos dê forças de vencer também. Neste dia de todos os santos, ergamos os olhos da alma a esta multidão que nos precede na glória e permitamos que algo daquela alegria inefável reforce a nossa esperança e nos dê ânimo, nesta época de trevas. Santos de Deus, nossos amigos e irmãos, nossos mestres em Cristo, roguem por nós! Que a Virgem Maria, Rainha de todos os santos, esteja sempre conosco conduzindo os nossos passos para que um dia também nós possamos gozar da contemplação da divina presença. Amém.

Ainda sobre as excomunhões


Vi aqui e ali alguns sugerirem que eu estaria "julgando" ou "excomungando" as pessoas, quando mais não faço do que repetir o ensino da Igreja. Tratemos das duas idéias, começando pela última.

A Excomunhão de que se trata é automática e está vinculada à defesa e promoção do aborto e do socialismo. Outro modo de excomunhão automática é a filiação à maçonaria, por exemplo. 

A Excomunhão automática dispensa que alguém o declare, pois é, exatamente como o nome diz, "automática". Ocorre junto com o ato proibido. Se, depois disso, alguém comunica à pessoa que ela excluiu-se da comunhão da Igreja, não é esta pessoa quem a está excomungando; ela está apenas lhe esclarecendo sobre o efeito dos atos cometidos. Não há nisso aí qualquer erro ou falta de compaixão. Muito pelo contrário. Está-se apenas a dizer o que se deu na ordem dos fatos! O mesmo se fez com o ocorrido em Alagoinha, Pernambuco, onde o arcebispo Cardoso Sobrinho apenas comunicou a excomunhão efetuada sobre os que provocaram o aborto na menina que estava grávida. Não foi o bispo quem os excomungou; ele apenas os deixou consciente do que já havia ocorrido.

Quanto ao segundo ponto, o de que estamos julgando as pessoas, aqui convém dizer o seguinte: o julgamento que há aqui é o julgamento dos fatos que consiste em dizer o que ocorreu ou o que deixou de ocorrer e sobre a moralidade do ocorrido - e não sobre as intenções. Ninguém está clamando fogo do céu - como alguém sugeriu que estivéssemos fazendo -, mas, muito pelo contrário, tivemos o interesse de escrever um texto esclarecendo quais os passos que deveriam ser dados para o restabelecimento da comunhão com a Igreja. Talvez fomos o únicos a fazê-lo porque estávamos de fato movidos por compaixão. Queremos ver os que erraram reconciliados com Deus. E, por querê-lo, somos julgados por alguns sujeitos como aqueles que querem excomungar os outros. Não deixa de ser irônico: sermos julgados por quem nos acusa de estar julgando. Não nos pronunciamos sobre as intenções de ninguém, e, no entanto, os críticos apreciam supor as mais diversas intenções nas nossas entranhas. A falta de compreensão do ocorrido, o não entendimento do objetivo dos nossos textos e ainda a suposição nada generosa sobre quais sejam as nossas intenções apenas demonstra o estado lamentável dessas almas. E isso é apenas outro fato constatado, pois o agir segue o ser.

Mais uma vez recomendamos aos que foram excomungados automaticamente que se conscientizem da sua condição e cumpram os passos necessários para a plena volta à Igreja. Lembramos também que a excomunhão só ocorre se os sujeitos conheciam as causas do desaprovo da Igreja e a punição que lhe seria imputada no caso do voto.

"Aos novos excomungados" ou "aos ex-católicos que votaram no PT"


Senhores e senhoras, concluídas as eleições, tivemos de assistir com não pouco pesar a vitória do assim chamado "Partido dos Trabalhadores", embora as coisas ainda estejam a correr. 

Se os senhores, até ontem, eram católicos e mesmo assim optaram por este partido, quero comunicar-lhes que, se estavam conscientes das razões pelas quais a Igreja execra certos objetos de defesa desse grupo, e, mesmo assim, obstinaram-se em votar nele, fazendo pouco caso das advertências, os senhores foram devidamente excomungados. Os motivos para isso, eu os descrevo neste artigo: (Por que um católico não pode votar no PT).

E aqui nós temos duas possibilidades. 

A primeira, que é relativamente a mais provável, é que os senhores ignorem essas verdades e sigam a sua vida como "católicos". Contudo, a vida católica é exatamente isto: uma vida. É preciso ter um princípio vital interno e espiritual animando o católico e do qual ele não é a causa direta. Do contrário, ele será um cadáver que se move. O fato de frequentar as missas e demais reuniões religiosas, ou de até exercer algum cargo ou função, não é suficiente para fazer de alguém católico. E cada vez que comungarem, estarão cometendo Sacrilégio. O Catecismo explica o que é isso:

"O Sacrilégio consiste em profanar ou tratar indignamente os sacramentos e as outras ações litúrgicas, bem como as pessoas, as coisas e os lugares consagrados a Deus. O sacrilégio é um pecado grave, sobretudo quando cometido contra a Eucaristia, pois neste sacramento o próprio Corpo de Cristo se nos torna substancialmente presente." (2120)

Não é por estar junto ao corpo que um ente se faz membro do corpo. Um relógio, por mais que esteja estreitado ao braço, nem por isso torna-se parte do corpo. Não possui vida. Uma pessoa excomungada foi excluída da comunhão dos santos. Ela não é católica, pois renegou a sua Fé. Os efeitos disso não se notam sensível ou psicologicamente. Os senhores podem ter toda a convicção do mundo de que estão em boas relações com Deus. No entanto, se a Igreja católica está correta, na verdade os senhores cortaram radicalmente essas relações. E, se a Igreja não está correta, por que então os senhores insistem em dela se dizerem parte? A vossa incoerência é flagrante.

O tipo de excomunhão de que aqui se fala é o que a Igreja chama de "Latae Sententiae", e que traduz-se comumente por "automática". É um tipo de excomunhão que é concomitante ao ato proibido. Em praticá-lo, portanto, o católico decide livremente excluir-se da comunhão acima referida. Ele não é mais católico, não importa o quanto insista em dizer que é. Ele não pode dar a si mesmo o que não tem. A vida católica não é adquirida ou conquistada pelo grau de convicção da pessoa. Ou ela é recebida ou não existe. No caso dos excomungados, ela lhes foi retirada, mesmo que ninguém mais o saiba. Portanto, o mais correto é que os senhores se adéquem à segunda possibilidade que descrevo abaixo.

Esta segunda possibilidade é a de que os senhores, devidamente arrependidos, procurem a Igreja e busquem a reconciliação com ela. No entanto, aqui residem outras dificuldades.

Primeiro que o arrependimento não pode ser meramente forçado. Ele deve vir de uma convicção real e sincera de que se errou. Para isto, é preciso informar-se. Endereço novamente os senhores ao artigo que escrevi anteriormente e a este outro, que informa a estratégia do Foro de São Paulo de dominar ditatorialmente a América Latina. Confiram também o twitter do Ditador Venezuelano Nicolas Maduro e vejam como ele comemora a vitória de quem ele considera uma companheira no processo de instauração da "Grande Pátria".

É preciso informar-se. O arrependimento virá da consciência clara de que se errou. Se os senhores ainda pensam ser o socialismo algo defensável, tal ingenuidade os equipara aos débeis. Informem-se melhor a respeito de todos os regimes ditatoriais socialistas que aconteceram na história.

O arrependimento sincero também inclui duas coisas: detestar o erro que se cometeu e se propor a não mais cometê-lo. Isto significa que não há sentido confessar-se e prosseguir sendo simpático à idéia socialista. Isso dificulta algumas coisas, pois, como se vê, ou o arrependimento é sincero e nasce no íntimo, numa atitude profundamente livre, ou ele não é real. Por isso, os senhores, se se encontram nesta dificuldade, devem estudar os motivos pelos quais a Igreja condena esta teoria e devem também pedir a Deus a graça da contrição.

Considerando a possibilidade de que se arrependam devidamente, nos deparamos com um outro problema. Para voltar a ter comunhão com a Igreja, isto é, para voltar a ser católico, é preciso confessar-se com um bispo ou com um padre especialmente autorizado por ele. É o que diz o Catecismo da Igreja Católica:

"Neste caso, a absolvição não pode ser dada, segundo o direito da Igreja, a não ser pelo Papa, pelo Bispo local ou por presbíteros autorizados por eles." Em caso de perigo de morte, qualquer sacerdote, mesmo privado da faculdade de ouvir confissões, pode absolver de qualquer pecado e de qualquer excomunhão." (1463)

Além da relativa dificuldade de acesso aos senhores bispos, um certo contingente deles provavelmente desconsiderará o caso, julgando-o desnecessário e alarmante sem motivo, isso quando o bispo não for abertamente favorável ao socialismo. Por isso, é preciso que o que pretende retomar comunhão com a Igreja procure bispos tradicionais, e não qualquer um. Somente assim poderá restituir o que perdeu.

Tudo isto é muito sério, mas, se ainda assim, os senhores quiserem fazer troça, fiquem com a sua risadagem e recebam, desde agora, a recompensa por sua pretensão: esse senso equívoco de segurança e superioridade. No entanto, depois desta vida, que passa voando, a surpresa que terão não será muito agradável. De algum modo, julgarão ter sido jogados, de súbito, em algum desses regimes socialistas de cujas notícias a história nos faz conhecedores. E então verão, maximamente concretizado, o seu anseio. O inferno talvez pudesse ser definido como o lugar onde o comunismo reina sem impedimentos. Se é o que vocês querem, começaram muito bem. Se não, sigam o nosso conselho, que é dado como um ato de compaixão pela sua sandice, e restaurem a sua comunhão com a Santa Igreja.

Saborear a cruz - S. Rafael Arnaiz Baron, monge trapista

A cruz de Cristo! Que mais posso dizer? Não sei orar, não sei o que é ser bom, não tenho espírito religioso, pois estou cheio do mundo. Só sei uma coisa, uma coisa que enche a minha alma de alegria, apesar de me ver tão pobre de virtudes e tão rico em misérias; sei apenas que tenho um tesouro que não trocaria por nada nem por ninguém: a minha cruz, a cruz de Jesus, essa cruz que é o meu único repouso. Como explicar isto? Quem não experimentou, não pode sequer suspeitar do que se trata.

Ah, se todos os homens amassem a cruz de Cristo! Se o mundo soubesse o que é abraçar plenamente, verdadeiramente, sem reservas, em loucura de amor, a cruz de Cristo! Tanto tempo perdido em conversas, devoções e exercícios que são santos e bons, mas que não são a cruz de Jesus, não são o que há de melhor.

Pobre homem que não prestas para nada, que não serves para nada, que arrastas a tua vida, seguindo como podes as austeridades da regra, contentando-te em esconder no silêncio os teus ardores: ama até à loucura o que o mundo despreza por não conhecer, adora em silêncio essa cruz, que é o teu tesouro, sem que ninguém se aperceba. Medita em silêncio diante dela nas grandezas de Deus, nas maravilhas de Maria, nas misérias do homem. Prossegue a tua vida sempre em silêncio, amando, adorando e unindo-te à cruz. Que queres mais? Saboreia a cruz, como disse hoje de manhã o senhor bispo. Saborear a cruz!

in Escritos espirituais, 03/IV/1938

Fonte: Senza Pagare

A Sola Scriptura é suicida.

Procurando onde tem a Sola Scriptura na Bíblia

O argumento da Sola Scriptura é: só o que está na Bíblia deve ser aderido.

Logo, quaisquer doutrinas ou costumes que não sejam explicitamente bíblicos devem ser rejeitados.

O problema é: a idéia da Sola Scriptura é extrabíblica. Assim, para sermos coerentes, a Sola Scriptura não deve ser aderida.

O princípio da Sola Scriptura é suicida, pois, alguém que o professe deve, ao mesmo tempo, rejeitá-lo. A Sola Scriptura exige que a Sola Scriptura seja renegada, pois não há fundamento para ela na Bíblia.

Sendo retirada de fora da Bíblia, a única possibilidade de ela ser mantida é aceitando que há verdades aderíveis fora da Bíblia. Assim, enquanto se crê que idéias extrabíblicas podem servir de fundamento, crê-se ao mesmo tempo que idéias extrabíblicas não podem servir de fundamento. É um exemplo radical de duplipensar, ato de pensamento que consiste em adotar idéias contraditórias ao mesmo tempo. Portanto, ou a Sola Scriptura é renegada de todo, ou cai-se em uma contradição evidente.

Inferno - Destruição ou Tormento Eterno?


A Escritura fala claramente sobre o Inferno. Mas, não obstante esta clareza, as posições divergem sobre o que seja ele seja. Há, de fato, muitas posições: se o inferno existe ou não existe, se é lugar ou estado, ou ambos, se é eterno ou provisório. Não iremos abordar todos estes problemas, pois isso levaria muito tempo. Queremos aqui apenas resolver essa última díade de questões: o inferno seria uma realidade em que sofrem eternamente os condenados, ou seria, antes, um lugar onde eles são destruídos e cessam de existir?
Notemos que esse problema está intimamente relacionado à querela sobre a imortalidade da alma, que é um assunto de que trataremos futuramente.

Vamos primeiramente a alguns argumentos contrários à perenidade do inferno:

1- Seria contrário à bondade de Deus, pois alguém ficar queimando eternamente é uma realidade imensamente cruel. Deus é amor. Logo, não permitiria isso.

2- Em Isa 33,11, se fala, numa passagem meio enigmática, de restolho, e Deus diz que um fogo o consumirá.

3- A palavra "inferno" vem de "inferii", que dá a idéia de um lugar inferior tão somente, e não de um lugar espiritual de tormento eterno. O sinônimo grego seria "hades", que pode indicar simplesmente a sepultura. O equivalente hebraico é "geena" que, antigamente relacionado aos sacrifícios aos ídolos, era, já na época de Jesus, um lugar onde eram colocados os lixos e os cadáveres de animais e, de tempo em tempo, esses restos eram queimados; talvez daí também a associação do inferno com o fogo. Outro termo usado era "sheol", também hebraico, mas mais relacionado à sepultura.

Bem estes são os principais argumentos, pelo que eu sei. Tentemos resolvê-los.

Quanto ao 1, é preciso saber primeiramente o que é o homem. No domínio da criação, há a dimensão espiritual e a dimensão material. O ser humano é um ser de transição: dotado de um corpo físico, possui uma alma espiritual. Esta alma é a sede da inteligência e da vontade, faculdades que APENAS seres espirituais possuem (Deus, os anjos e os homens). É próprio do espírito não ser corruptível, isto é, não destruir-se. Logo, a despeito da finitude dos corpos, a alma humana é imortal. Deus poderia destruir-nos, se quisesse. Mas Ele não renega as Suas criaturas. Se assim fosse, seria muito mais sábio e prático ter destruído o demônio tão logo ele tivesse se rebelado, já que Deus previa tudo o que viria em resultado daquela revolta. Talvez devêssemos ainda dizer que Deus deveria até ter se abstido de criá-lo, pois sabia o que ele viria a tornar-se. A criação e a permissão da vida do demônio apenas ganham sentido quando se percebe esta verdade: Deus não renega as suas criaturas.

Se somos imortais - e o somos -, isto não nos isenta de tomarmos uma decisão em favor ou contra Deus. No caso de vivermos em amizade com Ele, nos salvamos. Do contrário, Deus respeita a nossa escolha e nos permite passar a eternidade ausentes d'Ele. Veja aqui o ponto: não é Deus Quem condena, mas é a própria pessoa que decide ficar longe d'Ele. Ora, se Deus é a fonte de todo o bem, isto significa que não há bem fora d'Ele. Portanto, uma existência longe de Deus seria uma existência ausente de todo o bem. E isso, precisamente, é o inferno. O fogo, então, pode apenas simbolizar esse estado de sofrimento interno profundo em que vivem os réprobos.

Quanto ao 2, a passagem, como dito, é enigmática e o "fogo" é um símbolo de Deus, como se depreende do versículo 14: "Quem de nós poderá permanecer perto deste fogo devorador? Quem de nós poderá permanecer perto das chamas eternas?". O escritor fala de não conseguir permanecer perto. Ora, estas chamas são o próprio Deus. Quem não consegue ficar perto, afasta-se. À mesma pergunta, Isaías responde: "Aquele que procede bem e diz a verdade, que não quer um benefício extorquido, que não quer tocar um presente corruptor, que fecha os ouvidos aos propósitos sanguinários e cerra os olhos para não ver o mal. Semelhante homem habitará nas alturas." (33,15-16) Logo, este homem, o Justo, suportará aquelas "chamas eternas", pois o amor de Deus é como um fogo. (Dt 3,24; Hb 12,29)

Sobre o "restolho", ele não simboliza as pessoas, mas as ações das pessoas, o que faz lembrar de perto a passagem de 1Cor 3,11-15, e que os católicos associam ao Purgatório. Portanto, não dá pra provar muita coisa por aí.

Quanto ao 3, os termos usados para referir-se à realidade celeste são sempre emprestados do comum dos ouvintes. O céu é como um fermento, é como um tesouro escondido, é como uma mulher que encontra uma moeda perdida, é como uma água que sacia para sempre, é como uma festa, etc. Portanto, é óbvio que, para referir-se ao inferno, Nosso Senhor teria de usar termos conhecidos. Quando, por exemplo, queremos nos referir ao céu, para que lado olhamos? Para baixo? Para o lado? Não. Para cima, não é? E, no entanto, o Céu não está geograficamente lá em cima. Falar das "coisas do alto", ou Jesus dizer que Ele é "de cima", indicam que estas coisas ou a procedência de Jesus são elevados. Mas errará quem imaginar isso no sentido literal. Portanto, em chamar o estado de condenação de inferno, quer-se dizer que este estado é inferior. Cada nome é um símbolo: geena porque eles são atormentados como que pelo fogo, e sheol porque, comparados ao estado dos bem aventurados, os réprobos vivem uma contínua morte. Lembremos ainda que o grego Hades não tinha a conotação de inconsciência. Basta ler os gregos clássicos para notar que eles criam em consciência póstuma. Essa era, inclusive, uma das esperanças de Sócrates.

Vamos agora às evidências de que os condenados estão bem acordados.

Primeiro, lembremos: não há nenhuma necessidade de restringir o campo da discussão a querelas escriturísticas, pois não professamos a Sola Scriptura que, segundo já escrevemos vez e outra (aqui), não tem sentido. Mas, como a idéia é convencer os que a professam, fiquemos neste âmbito.

Primeiramente, lembremos da parábola do Rico Epulão e do pobre Lázaro, em Lc 16. 19-31. Seguindo a idéia que expusemos acima, Jesus não iria criar uma estória sem qualquer relação com a realidade. Ele falava de idéias já comuns aos judeus, e é óbvio que Ele não se ia dar ao luxo de inventar um contexto para a história que fosse de todo falso. É óbvio. Em todas as parábolas, o contexto é real. Também nessa ele o é. E, como vemos, o rico, depois da morte, está sendo atormentado de modo que pede para que Lázaro venha refrescar-lhe a boca com o dedo molhado. Ora, há atividade consciente nele. Há pedidos, há percepção, há dor.

Isso se coaduna infinitamente melhor com a descrição que o próprio Jesus faz das "trevas exteriores": "ali haverá choro e ranger de dentes" (Mt 8,12; Mt 22,13, Mt 25,30, Lc 13,28). Primeiro, pensemos no que significa a expressão "trevas exteriores". Como se sabe, as trevas não possuem uma natureza objetiva. Pelo contrário, elas são a ausência da luz. E o termo exterior é um termo puramente relacional que só faz sentido enquanto contrastado com a expressão interior. Exterior é o que está fora ou não participa de algo. Note que o modo de referir-se ao inferno é sempre como realidade negativa, isto é, como dimensão à qual faltam as características do céu. Ele é ausência de Deus e é exclusão da vida beatífica.

As trevas não significam, portanto, inexistência, mas inimizade com Deus, ausência de Deus. Cf. Col 1,13; 1Pe 2,9; 1Jo 1,6.

Lembremos das virgens imprudentes que, por não terem óleo, não são destruídas, mas somente excluídas do convívio com o Noivo. (Mt 25,1-13)

Judas é ainda mais claro. Depois de falar dos que seguiram o caminho de Caim, e dizer que estes estão duas vezes mortos, ele escreve: "estrelas errantes, para as quais está reservada a escuridão das trevas para toda a eternidade!" Analisemos. O que é uma estrela errante? É um astro que transita pela imensidade do universo, longe da luz do sol. É uma analogia belíssima. Ora, ainda que longe, o astro segue existindo. E quanto tempo dura essa existência nas trevas? Judas responde sem rodeios: "para toda a eternidade!". (13) Interessante ainda notar que ninguém pode ser destruído pelas trevas, rs..

Observemos também Judas falar dos "duas vezes mortos". Em geral, os aniquilacionistas pensam que a segunda morte será a destruição depois da Ressurreição. No entanto, Judas fala de pessoas que já são duas vezes mortas e, não obstante, seguem como "estrelas errantes".

Em segundo lugar, se há "choro e ranger de dentes" é porque há consciência e existência. Quem chora, chora por algo. O choro implica a consciência do motivo. E assim como o choro implica o "chorante", o ranger de dentes implica o rangedor e, também, o motivo. Note que o sofrimento é simultâneo à consciência.

Um outro argumento comumente usado contra os mortalistas se baseia na idéia de que é justo dar a diferentes crimes diferentes punições. Ora, os que defendem a segunda morte como uma destruição defendem que a mesma pena deverá ser dada a todos, o que, obviamente, é injusto. Depois de mortos, eles seriam ressuscitados e, então, depois de tomarem consciência dos motivos pelos quais iam ser mortos de novo, viria a destruição. Façamos um teste mental:

Imagine uma pessoa que tem o péssimo hábito de furtar pequenos pertences dos seus amigos. Ele vai na casa de um, e pega um carregador de celular; vai na casa de outro, e rouba uma estatueta; vai num terceiro, e lhe some 10 reais. Vai ainda num quarto, e lhe diminui um livro, etc. Essa pessoa, se não se ajeitar, não poderá salvar-se, correto?

Agora pensemos num daqueles soldados do ISIS, o Estado Islâmico, que matam de forma cruel - metralhando e decapitando com requintes de crueldade - todos os que encontram pela frente que não sejam muçulmanos.

Agora pense que, no fim do mundo, essas duas pessoas irão ressuscitar e, depois de uma breve conscientização do motivo pelo qual morrerão uma segunda vez, eles sejam destruídos igualmente. Isso, de fato, tem algum sentido? Isso é justo? Se encontrar dificuldades em resolver o problema ou em encontrar algum problema, faça a mesma pergunta a uma pessoa não religiosa.

É óbvio que existem diferentes graus de crimes, e, portanto, diferentes penas. É nessa intuição básica que se fundamenta inclusive o direito humano.

E para não nos alongarmos demasiado - pois estas e outras referências constarão no artigo sobre a imortalidade da alma que sairá em breve -, vamos a um argumento que eu penso ser definitivo.

Em Apocalipse 20,10, lemos: "o Demônio, sedutor delas (das nações dos quatro cantos da terra), foi lançado num lago de fogo e de enxofre, onde já estavam a Fera e o falso profeta, e onde serão atormentados, dia e noite, pelo século dos séculos."

Trechos assim não deveriam deixar dúvidas. Mas vamos lá. Os aniquilacionistas afirmam que este lago é um lago de destruição, espécie de matadouro. No entanto, há, só neste trechinho, pelo menos duas evidências para que não se pense dessa forma. Primeiro, que o próprio João especifica que eles serão atormentados - e não destruídos - dia e noite, pelo século dos séculos. Ora, a expressão "dia e noite, pelo século dos séculos" quer dizer, absolutamente, que isso não terá fim. Não existem possibilidades de interpretação alternativa a não ser descambando para um argumento desonesto. A coisa foi especificada assim porque ela é assim mesmo! Outro trecho fala de "desprezo eterno" (Dn 12,2), onde fica claro que há sofrimento e vergonha, e não destruição. O outro ponto é que, quando o Demônio é lançado no lago de fogo, a Fera e o falso profeta lá já estavam, ou seja, não haviam sido destruídos, mas estavam padecendo. E quando foi que a Fera e o falso profeta foram lançados lá?

Em Ap 19, 20: "Mas a Fera foi presa, e com ela o falso profeta, que realizara prodígios sob o seu controle, com os quais seduzira aqueles que tinham recebido o sinal da Fera e se tinham prostrado diante de sua imagem. Ambos foram lançados vivos no lago de fogo sulfuroso."

Depois disso, o Demônio é preso por mil anos (Ap 20,2). No versículo 7, depois de mil anos, Satanás é solto. E aí, depois de mil anos é que ele é lançado no lago onde já estão a Fera e o falso profeta. Mil anos e eles não haviam sido destruídos? Ora, é óbvio então que o lago de fogo não pretende destruí-los mas simplesmente atormentá-los, exatamente como é dito.

Fábio.

De novo: Batismo por imersão, por efusão e infantil. Evidências.

Imagem supostamente milagrosa onde a água do batismo toma a forma de um terço

Já escrevemos sobre o assunto aqui, mostrando a diferença fundamental entre o batismo de João Batista e o batismo inaugurado pelos Apóstolos, que é o batismo cristão. Logo, não há porque regrar um pelo outro. Mas, pressupondo aquele texto, que sugerimos que o leitor veja antes deste, eu gostaria de trazer essas evidências de batismo cristão sem ser por imersão já nos primeiros séculos, bem antes de Constantino.

A primeira evidência, já descrita no outro texto, se refere ao episódio imediatamente posterior a Pentecostes. Pedro toma a palavra e converte cerca de três mil pessoas. Eles estavam em Jerusalém. Logo depois da pregação, os que os ouviam perguntaram: "Que devemos fazer, irmãos?" (At 2,37), ao que Pedro responde: "Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo para remissão dos vossos pecados, e recebereis o dom do Espírito Santo. Pois a promessa é para vós, para os vossos filhos e para todos os que ouvirem de longe o apelo do Senhor, nosso Deus." (At 2,38-39) O episódio é concluído assim: "Os que receberam a sua palavra foram batizados. E naquele dia elevou-se a mais ou menos três mil o número de adeptos."

Antes de falar propriamente do batismo por efusão, notemos algumas coisas neste texto:

- É Pedro quem fala em nome da Igreja - Pedro é o Papa;

- O batismo dá o dom do Espírito Santo; portanto, não é meramente simbólico. Nele, ocorre algo real, concreto, ontológico: a doação do Espírito Santo. É a realização do que disse Jesus a Nicodemos: quem não renascer da água e do Espírito não pode herdar o Reino dos Céus; portanto, diferente do que dizem os protestantes, que afirmam ser o batismo uma simples ordenança, ele tem ligação necessária com a salvação (Cf. 1Pe 3,21);

- O batismo causa a remissão dos pecados. Existem dois tipos de pecado: os que cometemos e os que herdamos de Adão. Logo, embora a criança não tenha os primeiros, possui o segundo, que é suficiente para vedá-la o acesso a Deus, e que foi a razão da Redenção. Logo, também as crianças devem batizadas para que lhe seja perdoado o pecado original e possa, recebendo o Espírito Santo, que é o Espírito de filiação, salvar-se;

- A idéia do batismo infantil é reforçada em Pedro dizer que a promessa não é apenas para os pais, mas também para os filhos; portanto, o batismo não faz acepção de idade;

- A mesma idéia é sugerida ainda por vários outros textos em que os apóstolos aparecem batizando "toda a casa"; logo, também as crianças;

- Os adeptos são ditos tais depois do batismo. Portanto, o batismo deve estar no início da vida cristã, e não no meio.


Repetimos agora o que dissemos no outro artigo: em Jerusalém não havia rios. Portanto, não é possível que aquelas três mil pessoas tenham andado 43 quilômetros até o Jordão para serem batizadas. Eles o foram ali mesmos. Não havendo rios, o batismo não foi, obviamente, por imersão.

A Didaché, escrito do século I, traz igualmente a possibilidade de o batismo ser por efusão:

"Na falta de uma (água corrente) ou outra (água parada) [para imersão], derrame três vezes água sobre a cabeça, em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo" (Did. VII, 3)."

Lembramos que a Didaché é um escrito cristão cuja autenticidade é reconhecida por quaisquer estudiosos, católicos ou não. É fora de dúvida que é autêntico. Portanto, isso prova irrefutavelmente que os cristãos, já no século I, admitiam outras formas de batismo.

Uma outra evidência para isto vem de uma imagem da Catacumba de Domitila, do final do Séc. III, isto é, entre 250 e 300 d.C. Reforçamos que isto é anterior a Constantino, que é o Imperador que os protestantes gostam de dizer, sem nenhum fundamento, que foi o responsável pela suposta corrupção da cristandade - que obviamente nunca ocorreu. Lembremos: as catacumbas eram os lugares onde os cristãos se escondiam das perseguições. Elas hoje nos dão variadíssimas informações sobre a vida e a Fé dos primeiros; sobre as imagens que eles produziam e sobre costumes que eram comuns entre eles. Abaixo, ponho a imagem de uma Pia Batismal encontrada na referida Catacumba:

A imagem ao fundo é um poço, e a da direita embaixo é uma pia batismal.

Se percebe claramente que ninguém pode mergulhar nisso aí, a menos que seja bem infante. E, se fosse o caso, estaria provado o batismo infantil.

Ah, e por falar nisso, ainda no século III, encontramos também a gravura de um batismo infantil na Catacumba de São Calisto. Confira:


De onde tirei a imagem e a datação: Fonte 1, Fonte 2, Fonte 3, Fonte 4, Fonte 5

Note que a imagem acima serve pra provar duas coisas: que o batismo infantil ocorria e que não precisava ser por imersão. Não deixa de ser engraçado, então, que sites protestantes, ironicamente ostentando o título de "compromisso com a verdade", mintam descaradamente, dentre outras coisas, datando, de modo totalmente arbitrário, o início do batismo infantil no ano 416, século V, quando todas as evidências, históricas e teológicas, mostram que o batismo infantil data do início da Igreja.

Veja o que diz Sto Irineu de Lião, já no Séc. II:

"Jesus veio salvar todos por meio d'Ele mesmo, quer dizer, os que através d'Ele nasceram de novo de Deus: os recém-nascidos, os meninos, os jovens e os velhos" (Adversus Haereses, 2,22.4)

Em inglês

"For He came to save all through means of Himself-all, I say, who through Him are born again to God -infants, and children, and boys, and youths, and old men." Fonte: Early christian writings

Já Orígenes, também no Séc. II e início do III, escreve:

"A Igreja recebeu dos Apóstolos a tradição de dar batismo também aos recém-nascidos. Pois eles a quem os segredos dos divinos mistérios foram comprometidos estavam conscientes de que em todo mundo estava a contaminação inata do pecado, que precisava ser lavada através da água e do Espírito." (Comentário sobre a Epístola aos Romanos, Livro 5, 9, 11)

Em inglês

"The Church has received the tradition from the apostles to give baptism even to little children. For they to whom the secrets of the divine mysteries were commited were aware that in everyone was sin's innate defilement, which needed to be washed away through water and the Spirit." (Commentary on the Epistle to the Romans, Book 5, 9, 11)

São Cipriano, no século III, diz:

"Não se o deve proibir (o batismo) à criança, que, ainda recém nascida, em nada pecou, a não ser na medida em que, nascida de Adão segundo a carne, contraiu o contágio da morte antiga pelo primeiro nascimento, e que por isso mesmo mais facilmente se aproxima da remissão dos pecados porque lhe são perdoados não os pecados próprios, mas os alheios" (Carta a Fido)

Interessante notar essa relação que Cipriano explicitamente faz do batismo e da graça conferida por meio dele. Isso prova que, desde o início, a compreensão do batismo é bem católica.

Observe agora esta outra imagem - que não dá pra discernir se é criança ou adulto pelo desgaste da figura ao lado. Mas, como o braço, e não só a mão, está na altura da cabeça, ao invés de vir de baixo pra cima, como ocorreria se fosse um adulto o batizado, pode-se supor com algum grau de probabilidade que o batizante é bem maior que o batizado, o que sugere a possibilidade de este ser uma criança - retirada das Catacumbas de São Marcelino e São Pedro, também do terceiro século:



Fonte da Imagem, Fonte 2, Fonte 3

Perceba que ele também não é feito por imersão.

O Dicionário da Bíblia Oxford diz o seguinte:
"Evidências arqueológicas dos primeiros séculos mostram que o batismo era às vezes administrado por submersão ou imersão... mas também por efusão de um vaso quando água era derramada na cabeça do candidato..."

A História do Cristianismo edições Cambridge afirma que esse costume de derramar água três vezes na cabeça do batizando era um costume comum:

"A Didache (...) assume que a imersão era normal, mas ela permite que se água suficiente para imersão não está à disposição, a água pode ser derramada três vezes sobre a cabeça." e ainda "Este último deve ter sido um arranjo frequente, pois corresponde à maioria das representações do batismo dos artistas dos primeiros séculos. As primeiras casas de encontros cristãos conhecidas por nós, em Dura Europos, no Eufrates, datando do início do século III, contêm uma bacia muito rasa para imersão." (p.160-161)
Mas não se pense que o batismo por imersão não é praticado pela Igreja. Abaixo, imagem de batismo por imersão na Igreja Católica:



Inclusive, a coisa é tanta o reverendo W. A. McKay, talvez pelas evidências históricas de batismos por efusão, escreveu um trabalho acusando a Igreja Católica Apostólica Romana de ter inventado o batismo por imersão! Cada um com suas maluquices, não é? Mas ele se baseia num argumento curioso. Escreve ele, nesse livro que traz o longo nome de "Imersão provada não ser um modo de batismo da Escritura mas uma invenção romana e imersionistas mostram desconsiderar a autoridade divina em recusarem o batismo aos filhos infantes dos crentes", referindo-se ao batismo do Eunuco realizado por Felipe em At 8,38-39, único testemunho bíblico mais explícito do batismo de cristãos:

"Onde está a evidência de que o eunuco foi mergulhado? 'Porque', grita o Batista, "ele desceu com Felipe à água e depois saíram de novo. Mas não é tal insignificância razoável com o senso comum? Milhares não descem à água e saem de novo sem mergulharem na água? Isto não está dizendo que Felipe desceu à água e saiu tanto quanto o eunuco? Eles 'ambos' foram. Se então eles provam que o eunuco foi imergido, eles provam que também Felipe foi imerso." (Immersion proved to be not a scriptural mode of baptism but a romish invention and immersionists shewn to be disregarding divine authority in refusing baptism to the infant children of believers, p. 47)

Interessante que enquanto uns acusam a Igreja de ter inventado o batismo por efusão, outros a acusam de ter inventado o batismo por imersão, rs. Mas, enfim, depois de tudo isso, a conclusão inelutável é a seguinte: o batismo pode ocorrer tanto por imersão quanto por efusão, e os primeiros cristãos batizavam sim crianças.
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