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A Eucaristia - símbolo ou realidade?


Desde a época de Jesus, aquilo que Ele chama de "Minha carne e Meu sangue" tem sido causa de divisão. Naquela ocasião, no discurso sobre o Pão da vida, no qual Jesus se contrapõe ao maná do Antigo Testamento e anuncia que o verdadeiro pão é a Sua carne para a salvação do mundo, a maior parte dos ouvintes considerou muito duras e esquisitas aquelas expressões, pelo que se afastaram. Naquele desertar de pessoas, Jesus olhou para os apóstolos e perguntou se também eles queriam ir embora, ao que Pedro respondeu: "a quem iremos, Senhor, se só Tu tens palavras de vida eterna?"

Daqui se depreende que seguir a Jesus implica necessariamente comer a Sua carne e beber o Seu sangue, seja lá o que isso for. De fato, o significado de tais expressões tem dividido alguns dentre os cristãos no decorrer dos séculos. Docetas, albigenses, e, futuramente, os protestantes negaram que aí houvesse um sentido literal; seria, antes, uma expressão simbólica de outra coisa. Geralmente, crê-se que Jesus está se referindo à Sua palavra, ao Seu seguimento, etc.

Resolver este ponto seria fundamental para que se realizasse aquele desejo manifestado por Nosso Senhor na Sua oração sacerdotal: "Que todos sejam um" (Jo 17,21). Se é a compreensão do que seja a carne e o sangue de Jesus o que tem distanciado os cristãos, é preciso, então, tentar sanar esta dúvida. Contudo, pouco se aproveita que se entenda com a razão se o coração não manifesta um desejo de aderir à verdade, seja qual for.

Tentaremos neste texto lançar um olhar, com toda a sinceridade, sobre este problema. Queira Deus que possamos lançar alguma luz na mente dos leitores.

A principal objeção que se coloca é: "não seria isto uma expressão simbólica, similar àquela em que Jesus se diz 'a porta'?"

A isto responderíamos o seguinte:

O trecho bíblico em que Jesus fala mais claramente sobre o Seu corpo e o Seu sangue se encontra no Evangelho de São João, no famoso capítulo 6. Numa discussão com os judeus, Jesus diz que o verdadeiro Maná não é o do Antigo Testamento (que era alimento literal), mas "aquele que desceu do céu" (v.32-33), que é Ele mesmo. Jesus Se coloca como o pão (v.35), o que sugere que Ele será um alimento. O próprio fato de Ele ter nascido em Belém já diz muito, pois o nome Belém (Bethlehem) significa exatamente "casa do pão". Contudo, falta esclarecer a natureza deste alimento: era o alimento da verdade? Era o alimento do amor? Era o alimento da vivência cristã? Jesus mesmo dizia que o Seu alimento era fazer a vontade do Pai: esta vontade era o Seu "pão". Então notemos o seguinte: a palavra pão aparece aqui como um "símbolo" de outra coisa. Com efeito, é o símbolo comum usado para representar qualquer tipo de alimento. Na oração que nos ensinou, Jesus nos diz para pedir ao Pai pelo "pão nosso de cada dia", o que se refere aos alimentos necessários para a nossa subsistência. Contudo, se Ele é o "pão" que se substitui ao maná da travessia do Egito - que era comida mesmo -, então convém que a coisa simbolizada, ainda que não seja pão literal, seja um alimento literal. A discussão segue e os judeus estranham o fato de Ele se dizer ter vindo do céu - já que conheciam os Seus pais. Jesus então esclarece o que seria esse pão: "o pão que eu hei de dar é a minha carne para a salvação do mundo." (v.51)

Notemos o seguinte: esta assertiva final pretende explicar qual seria, na realidade, aquele alimento. Jesus não poderia esclarecer a natureza do pão usando outro símbolo. O que ocorre aqui é antes o desvelamento do símbolo: o pão é a carne d'Ele.

Ao ouvirem isso, os judeus ficam escandalizados: "como pode este homem dar-nos de comer a sua carne?" (v.52), e Jesus, ao invés de tirar-lhes a má impressão, ou de chamá-los de "lentos para crer", ou de "homens sem inteligência", como costumava fazer quando os seus ouvintes não O compreendiam, somente reforça a idéia: "Em verdade em verdade vos digo: se não comerdes a carne do Filho do homem e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós mesmos. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia." (v.53-54)

Segundo Jesus, o meio pelo qual teremos a vida em nós mesmos é comendo a "carne do Filho do homem e bebendo o seu sangue". Esta vida é a vida d'Ele, que nos é comunicada através deste alimento. Não há símbolos aí.

E a coisa fica ainda mais complicada para a objeção levantada quando, no versículo 55, Jesus declara: "a minha carne é verdadeiramente uma comida e o meu sangue, verdadeiramente uma bebida." Ora, o termo "verdadeiramente" (ἀληθής - alethes - verdadeiro, real) tem o significado de "literal".

Além deste trecho, os outros no Novo Testamento que trazem o mesmo termo "verdadeiramente" são os seguintes: 

- "Então, aproximaram-se os que estavam no barco, e adoraram-no, dizendo: és verdadeiramente o filho de Deus." (Mt 14,33)
- "O centurião e seus homens que montavam guarda a Jesus, diante do estremecimento da terra e de tudo o que se passava, disseram entre si, possuídos de grande temor: Verdadeiramente, este homem era Filho de Deus!" (Mt 27,54)
- "Todos diziam: O Senhor ressuscitou verdadeiramente e apareceu a Simão." (Lc 24,34)
- "E diziam à mulher: Já não é por causa da tua declaração que cremos, mas nós mesmos ouvimos e sabemos ser este verdadeiramente o Salvador do mundo." (Jo 4,42)
- "À vista desse milagre de Jesus, aquela gente dizia: Este é verdadeiramente o profeta que há de vir ao mundo." (Jo 6,14)
-"Se, portanto, o Filho vos libertar, sereis verdadeiramente livres." (Jo 8,36)
- Porque eu lhes transmiti as palavras que tu me confiaste e eles as receberam e reconheceram verdadeiramente que saí de ti, e creram que tu me enviaste. (Jo 17,8)
- "Então Pedro tornou a si e disse: Agora vejo que o Senhor mandou verdadeiramente o seu anjo e me livrou da mão de Herodes e de tudo o que esperava o povo dos judeus." (At 12,11)
- "Por este motivo, julguei necessário rogar aos irmãos que nos precedessem junto de vós e preparassem em tempo a generosidade prometida. Assim, será verdadeiramente uma liberalidade, e não uma mesquinhez." (2Cor 9,5)
- "Ora, se sois de Cristo, então sois verdadeiramente a descendência de Abraão, herdeiros segundo a promessa." (Gal 3,29)
- É o que acontece entre vós, desde o dia em que ouvistes anunciar a graça de Deus e verdadeiramente a conhecestes" (Col 1,6)
- "Honra as viúvas que verdadeiramente são viúvas. (...) Mas a que verdadeiramente é viúva e desamparada põe a sua esperança em Deus e persevera noite e dia em orações e súplicas." (1Tim 5,3-5)
- "Aquele, porém, que guarda a sua palavra, nele o amor de Deus é verdadeiramente perfeito. É assim que conhecemos se estamos nele." (1Jo 2,5)
- "Todavia, eu vos escrevo agora um mandamento novo - verdadeiramente novo, nele como em vós, porque as trevas passam e já resplandece a verdadeira luz." (1Jo 2,8)

Como se nota, o termo "verdadeiramente" é usado para enfatizar a realidade factual do que é dito. Seria muito estranho se somente com relação à eucaristia ele adquirisse uma conotação simbólica.

E Jesus conclui:

"Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele. Assim como o Pai que me enviou vive, e eu vivo pelo Pai, assim também aquele que comer a minha carne viverá por mim. Este é o pão que desceu do céu. Não como o maná que vossos pais comeram e morreram. Quem come deste pão viverá eternamente." (v.56-58)

Três coisas dignas de nota aqui: 

1- Jesus está sempre se contrapondo contra um alimento literal (o maná). Seria esquisito enfatizar esta comparação enquanto o primeiro pão fosse literal e o segundo só simbólico.

2- Depois, mais uma vez Jesus demonstra que o que ele quer sugerir pelo símbolo "pão" é, de fato, a sua carne. Podemos resumir a passagem acima no seguinte: "A minha carne: este é o pão que desceu do céu. Quem a come viverá para sempre."

3- Jesus vincula estreitamente a vida eterna ou salvação ao fato de se comer a sua carne e se beber o seu sangue. Um símbolo não teria tanta força.

Quanto às outras referências à Eucaristia, encontramo-las nos Evangelhos sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas) e nas descrições de Paulo, que soube dessas coisas por revelação. Vemos sempre uma ênfase estranha na centralidade do Pão Eucarístico. Mas analisemos o fenômeno da Santa Ceia:

A Páscoa dos Judeus (Pessach) era como uma revivência (zikarón) dos fatos ocorridos na libertação de Israel. Era parte inerente da celebração da páscoa que os judeus comessem um cordeiro juntamente com pães ázimos, isto é, sem fermento, tal como o fizeram no Egito. Este cordeiro, como se sabe, prefigurava o Cristo - bem como os pães. Por que não era apenas suficiente fazer o sacrifício do cordeiro - simbolizando a morte na Cruz -, mas era preciso, também, comê-lo? É algo a se considerar. A razão disso era o seguinte: ao ser oferecido a Deus, o cordeiro ficava como que "preenchido" da presença divina, que o recebia. Então, quando os judeus comiam este cordeiro cheio da presença divina, isto era já um modo primitivo de comunhão eucarística ou de comida ritual.

Jesus já tinha celebrado outras páscoas com os seus apóstolos, e provavelmente em todas as outras havia um cordeiro para ser comido. Contudo, agora, na véspera da Sua Paixão, ei-lo celebrar a páscoa sem um cordeiro visível - pois o símbolo tinha cumprido o seu papel apontando para Ele, o vero Cordeiro de Deus que ia imolar-se logo em seguida - e, ao mesmo tempo, oferecendo as misteriosas ofertas de Melquisedec, a figura paradigmática do sacerdócio: pão e vinho. (Gn 14,18) Aqui, estas duas realidades estão como que fundidas: o pão ázimo e o vinho são, ao mesmo tempo, o Cordeiro pascal, que é Jesus mesmo. Os apóstolos, muito mais afeitos do que nós à sensibilidade judaica e ao imaginário próprio daquele povo, compreenderam, ainda que obscuramente, na ausência do cordeiro e na presença do pão e do vinho, o significado daquele momento. E, se alguma coisa havia ainda de misteriosa, ela foi devidamente iluminada com as palavras do Cristo: "Isto é o meu corpo, que será entregue por vós. Isto é o meu sangue, que será derramado por vós."

Aqui notamos duas coisas:

Primeiro, o verbo de ligação que indica identidade: "isto é". Toda a pretensão de simbologia, portanto, só pode se manter enquanto algo acrescido ou somado ao texto, pois o que o relato em si diz é que o pão é a carne, e o vinho é o sangue.

Segundo, como dito acima, costuma-se sugerir que o significado do suposto símbolo da carne e do sangue do Cristo seriam a sua doutrina, a sua verdade, etc. Contudo, aqui Jesus refuta estas idéias ao dizer que o pão, que é carne, é justamente aquilo que vai ser entregue, ou seja, o seu corpo literal, e o vinho é precisamente aquilo que vai ser derramado, isto é, o seu sangue literal.

Há ainda um trecho, no Evangelho de João, no qual, mesmo que não se esteja tratando deste tema especificamente, se nos esclarece como era o clima de comunicação entre Jesus e os Apóstolos naquela véspera. No versículo 29 do capítulo 16, João escreve que os discípulos falaram a Jesus o seguinte: "Eis que agora falas claramente e a tua linguagem já não é figurada e obscura." Quando um homem está para morrer, ele tem de ser claro, mesmo. E, não obstante, Jesus não revelou qualquer outro significado oculto e simbólico da Eucaristia. Pelo contrário, Ele manteve as mesmas afirmações, do que se conclui que elas, de fato, não são figuras.

O Apóstolo Paulo, já bem depois de todos estes fatos, afirma ter recebido de Deus, por revelação, a notícia destes acontecimentos. Conta ele: "Eu recebi do Senhor o que vos transmiti: que o Senhor Jesus, na noite em que foi traído, tomou o pão e, depois de ter dado graças, partiu-o e disse: "Isto é o meu corpo, que é entregue por vós; fazei isto em memória de mim." Do mesmo modo, depois de haver ceado, tomou também o cálice, dizendo: "Este cálice é a Nova Aliança no meu sangue; todas as vezes que o beberdes, fazei-o em memória de mim." (1Cor 11,23-25)

Primeiramente, notemos que, se Paulo conheceu estes fatos por revelação direta de Deus, isto significa que estes fatos são centrais para a salvação. Depois, Paulo mantém a afirmação simples e clara de que "isto é" o corpo e o sangue de Jesus, e não que os simboliza. Ao mesmo tempo, ele relaciona o cálice - com o sangue - à Nova Aliança, donde ser falso, de novo, que o sangue representa a verdade ou a doutrina. Com efeito, todos sabemos que a Nova Aliança foi estabelecida no Sacrifício de Cristo. Este cálice é, portanto, o sangue derramado em pagamento pela nossa redenção.

E a prova de que Paulo o entendia literalmente se encontra logo em seguida:

"Portanto, todo aquele que comer o pão ou beber o cálice do Senhor indignamente será culpável do corpo e do sangue do Senhor. Que cada um se examine a si mesmo, e assim coma desse pão e beba desse cálice. Aquele que o come e o bebe sem distinguir o corpo do Senhor, come e bebe a sua própria condenação. Esta é a razão por que entre vós há muitos adoentados e fracos, e muitos mortos." (v.27-30)

Mais uma vez, Paulo identifica o pão e o cálice ao corpo do Senhor de tal modo que pecar contra um é pecar contra o outro. Se o comungante, no ato de receber este pão, não "distinguir" (διακρίνων - diakrinó - distinguir, reconhecer, julgar) o corpo do Senhor, come e bebe a sua própria condenação. A gravidade da punição só tem sentido em função da dignidade da natureza deste pão e deste cálice. Assim como, conforme vimos acima, a comunhão da carne e do sangue de Jesus estão indissociavelmente vinculados à salvação, o seu recebimento negligente está vinculado à condenação. Desse modo, a celebração eucarística, longe de ser um símbolo, ao qual não faria sentido tanto rigor, é, de fato, verdadeiramente o corpo e o sangue de Nosso Senhor. Tanto é assim que Paulo identifica as doenças e mortes na comunidade de Corinto como um efeito direito do descuido para com o Corpo do Senhor.

A mesma idéia se encontra no capítulo 10, onde Paulo diz: "o cálice de bênção, que benzemos, não é a comunhão do sangue de Cristo? E o pão, que partimos, não é a comunhão do corpo de Cristo? Uma vez que há um único pão, nós, embora sendo muitos, formamos um só corpo, porque todos nós comungamos do mesmo pão." (v. 16-17)

Aqui mais uma vez Paulo afirma que comer este pão é comunhão (comungar) do corpo de Cristo, e beber este vinho é comunhão (comungar) do sangue de Cristo. O termo "comunhão", que Paulo usa, o grego κοινωνία (koinonia), indica participação. Por meio deste alimento, nós participamos de Cristo, participamos da Sua natureza divina, como dizia S. Pedro (cf. 2Pe 1,4). Participar é ter parte. Por este pão, nós temos parte com o Cristo, como Ele mesmo nos disse. (Jo 6,56-57) Além disto, a Eucaristia surge aqui como garantidora da unidade dos cristãos: nós formamos um só corpo porque todos comungamos do mesmo pão. Aquele desejo de Jesus de que falávamos no início - que todos sejam um - somente pode ser realizado através da carne e do sangue do Senhor.

Haveria muito ainda que dizer. Na verdade, isto não é senão um começo no trato deste assunto, que é tão profundo e tão vasto. Mas para que o texto não fique muito grande - o que tende a assustar leitores menos dispostos -, ficamos na análise destes trechos. Uma outra conveniência seria a de observar os comentários dos primeiros cristãos que se seguiram aos apóstolos a respeito deste assunto. Se os visitarmos - muitos deles herdeiros diretos dos apóstolos - veremos que o consenso a respeito do Santíssimo Corpo do Senhor foi um traço cristão - com as exceções de algumas heresias, como acima referido - até o século XVI, quando surgiu a reforma protestante. Queremos, então, terminar com a citação de apenas um deles, São Cirilo de Jerusalém, do séc. IV:

"Se ele em pessoa declarou e disse do pão: Isto é o meu corpo, quem se atreveria a duvidar doravante? E quando ele afirma categoricamente e diz: Isto é o meu sangue, quem duvidaria dizendo não ser seu sangue? Outrora, em Caná da Galiléia, por própria autoridade, transformou a água em vinho. Não será digno de fé quando transforma o vinho em sangue? Convidado às bodas corporais, realizou este milagre maravilhoso. Aos companheiros do esposo não se concederá, com muito mais razão, a alegria de desfrutar do seu corpo e sangue?

Portanto, com toda certeza recebemo-los como corpo e sangue de Cristo. Em forma de pão te é dado o corpo, e em forma de vinho o sangue, para que te tornes, tomando o corpo e o sangue de Cristo, concorpóreo e consangüíneo com Cristo. Assim nos tornamos portadores de Cristo (cristóforos), sendo nossos membros penetrados por seu corpo e sangue. Desse modo, como diz o bem-aventurado Pedro, «tornamo-nos participes da natureza divina».

Não consideres, portanto, o pão e o vinho como simples elementos. São, conforme a afirmação do Mestre, corpo e sangue. Se os sentidos isto te sugerem, a fé te confirma. Não julgues o que se propõe segundo o gosto, mas pela fé tem firme certeza de que foste julgado digno do corpo e sangue de Cristo.

Tendo aprendido e estando seguro de que o que parece pão não é pão, ainda que pareça pelo gosto, mas o corpo de Cristo, e o que parece vinho não é vinho, mesmo que o gosto o queira, mas o sangue de Cristo e porque sobre isto dizia vibrando Davi: O pão fortalece o coração do homem, para que no óleo se regozije o semblante (Sl 104,15) fortalece o teu coração, tomando este pão como espiritual e regozije-se o semblante de tua alma. Oxalá, tendo a face descoberta, em consciência pura, contempleis a glória do Senhor, para ir de glória em glória, em Cristo Jesus Senhor Nosso, a quem a glória pelos séculos dos séculos. Amém."

Catequeses Mistagógicas sobre a Presença Real de Cristo na Eucaristia.

Fábio.

Novo Doutor da Igreja - São Gregório de Narek



Francisco confirmou o título ao santo durante audiência com o prefeito da Congregação das Causas dos Santos
Da Redação, com Agência Ecclesia
O Papa Francisco vai proclamar como Doutor da Igreja São Gregório de Narek, místico armênio do fim do primeiro milênio conhecido por sua escrita e doutrina. A informação foi dada nesta, segunda-feira, 23, pelo Vaticano, após o encontro entre o Papa e o prefeito da Congregação das Causas dos Santos, Cardeal Angelo Amato, no sábado, 21.
Nascido em uma família de escritores, São Gregório de Narek (950-1005) é considerado o primeiro grande poeta armênio e um grande marco na literatura e reflexão cristã. Ele é autor, entre outras obras, do “Livro das Lamentações”, hoje traduzido em diversas línguas.
Por meio deste livro, o monge quis deixar às pessoas uma autêntica enciclopédia de oração, composta por 95 trechos, que deixam transparecer todo o potencial do autor em transformar emoções como o sofrimento ou a humildade em ofertas a Deus.
Para São Gregório de Narek, o principal objetivo da vida era a proximidade com Deus, pois só assim a humanidade poderia viver uma vida verdadeiramente plena. Uma aproximação que era possível não pelo conhecimento, mas sim através das emoções, defendia o místico.
Doutor da Igreja é um título concedido a um cristão – homem ou mulher – que se distinguiu por notório saber teológico em qualquer época da história. Os doutores da Igreja recebem tal título tendo em vista sua santidade, ortodoxia à fé e saber teológico, atestado por vários escritos.
Fonte: CN

Pe. Pio e a Confissão





Autor: Dom Dimond, OSB
Tradução: Carlos Wolkartt

“Tens cantado um hino a Satanás, enquanto
Jesus, em Seu amor ardente, deslocou a cabeça por ti”

João XX, 21-23: “Assim como o Pai me enviou, também eu vos envio a vós. Tendo dito estas palavras, soprou sobre eles, e disse-lhes: Recebei o Espírito Santo. Àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados; e àqueles a quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos”.

No Evangelho de João, vemos o poder de perdoar os pecados sendo conferido por Jesus Cristo sobre os Apóstolos. O poder de perdoar os pecados conferido sobre os sacerdotes validamente ordenados por um bispo seria um papel proeminente na vida e nos milagres de Padre Pio. De 1918 a 1923, Padre Pio ouvia confissões de quinze a dezenove horas, todos os dias. Nos anos 1940 e 1950, geralmente ouvia confissões por menos tempo diário, entre cinco a oito horas.

Cada confissão que Padre Pio ouvia durava, em média, somente três minutos – exceto em casos extraordinários. Segundo um cálculo, Padre Pio ouviu um total de aproximadamente cinco milhões de confissões (ou seja, mais de quinze milhões de minutos, ou mais de duzentas e cinquenta mil horas de confissão).

Tantas pessoas queriam que Padre Pio ouvisse suas confissões que geralmente tinham que esperar duas ou três semanas até terem oportunidade. O número de pessoas chegou a ser tão grande que foi necessário abrir um gabinete para distribuir bilhetes. Os bilhetes eram numerados; indicavam o lugar na fila do confessionário de Padre Pio. Este sistema de numeração foi implementado em janeiro de 1950, quando Padre Pio tinha 62 anos. Também foi instituída uma regra que limitava o tempo (em dias) entre uma confissão e outra, para cada penitente. Não era permitido confessar-se com Padre Pio mais de uma vez a cada oito dias.

Um homem de Pádua, que tinha ido se confessar ao Padre Pio, tentou fazer outra confissão entre os oito dias de espera. Para burlar o período de espera, mentiu acerca do número de dias que havia passado desde sua última confissão. Quando entrou no confessionário, Padre Pio lhe expulsou e lhe acusou brutalmente de mentiroso. Depois de ser expulso, o homem disse, em lágrimas: “Tenho dito muitas mentiras ao longo de minha vida, e pensava que poderia enganar a Padre Pio também”. Porém, Padre Pio tinha um conhecimento sobrenatural de seu ato.

Padre Pio exigia que toda a confissão fosse uma verdadeira conversão. Não tolerava a falta de franqueza na explicação dos pecados. Era muito duro com os que se desculpavam, falavam sem sinceridade, ou não tinham uma firme determinação em mudar. Exigia integral franqueza e honestidade do penitente. Também exigia uma verdadeira e sincera dor no coração, e uma firmeza absoluta nas decisões para o futuro.

Muitos dos penitentes de Padre Pio fizeram a declaração assombrosa de que, quando estiveram em seu confessionário, experimentaram a imponente impressão de estarem ante a cátedra do juízo de Deus.

Se o penitente não fosse verdadeiro, ou simplesmente lesse a lista de seus pecados sem o firme propósito de mudança, Padre Pio quase sempre gritava “fora!”. Muitas pessoas diziam que Padre Pio era bruto e severo, e que às vezes batia o painel do confessionário no rosto do penitente. Frequentemente, Padre Pio denunciava um penitente com uma frase dolorosa.

Um homem que
foi expulso do confessionário por Padre Pio disse: “Que tipo de monge canalha é este? Não me deu tempo para dizer uma só palavra, e imediatamente me chamou de porco velho e me ordenou sair!”. Outra pessoa disse a este homem que Padre Pio provavelmente teve boas razões para chamar-lhe de porco velho e tratar-lhe desta maneira. “Não me ocorre por que”, disse o homem que havia sido expulso do confessionário; e então, depois de uma pausa, o homem disse: “talvez seja porque tenho uma relação íntima com uma mulher que não é minha esposa”.

Padre Pio também expulsava certos sacerdotes e bispos de seu confessionário. Certa vez Padre Pio disse a um sacerdote: “Se você soubesse que coisa tremenda é sentar-se no tribunal do confessionário! Estamos administrando o Sangue de Cristo. Devemos ter cuidado para não lançarmos este tesouro por todas as partes por sermos demasiados indulgentes ou negligentes”.

Outro homem foi confessar-se ao Padre Pio para lhe provar. Queria ver se Padre Pio podia dar-se conta de que estava mentindo. O homem disse ao frade que não estava ali para confessar os pecados, mas para pedir orações por um familiar. Isto não era verdade, e Padre Pio soube imediatamente. Padre Pio lhe golpeou no rosto e lhe mandou para fora do confessionário.

Uma mulher que chegava de uma longa viagem para ver Padre Pio lhe disse em confissão: “Padre Pio, faz quatro anos que perdi meu esposo, e não tenho ido à igreja desde então”. Padre Pio respondeu: “Porque perdeste teu esposo, também perdeste Deus? Fora! Fora!”, enquanto fechava rapidamente a janela do confessionário.

Pouco depois deste acontecimento, a mesma mulher recuperou sua fé, atribuindo isto à maneira em que Padre Pio lhe tratou – provavelmente reconhecendo como ela havia posto seu apego a seu esposo acima de Deus.

Andre Mandato falou sobre o momento em que foi se confessar ao Padre Pio: “Eu ia à igreja todos os domingos, porém não tinha nenhuma crença forte na confissão. Confessava-me pouquíssimas vezes, e nunca era totalmente sincero. Comecei a crer na confissão somente depois que fui a Padre Pio. A primeira vez que me confessei a ele, ouvi de sua boca os pecados que eu havia cometido”.

Katharina Tangari descreveu como era se confessar ao Padre Pio:

“… Padre Pio primeiramente questiona quanto tempo se passou desde nossa última confissão. Esta primeira pergunta estabelece um contato entre Padre Pio e o penitente; de repente parece que Padre Pio sabe tudo sobre nós. Se nossas forem pouco claras e inexatas, ele as corrige; temos a sensação de que… seu olho pode ver nossa alma como verdadeiramente ela é ante Deus”.

Padre Pio comentou sobre a quantidade de confissões que ouvia, e como era capaz de fazê-lo: “Houve períodos que ouvi confissões sem interrupção por dezoito horas seguidas. Não tenho nenhum momento para mim mesmo. Mas Deus me oferece suporte com eficácia em meu ministério. Sinto a força para renunciar a tudo, contanto que as almas regressem a Jesus e amem a Jesus”.

Juan McCaffery foi se confessar ao Padre Pio, e escreveu sua experiência extraordinária. McCaffery queria que Padre Pio rezasse por alguns de seus amigos. Ele recorda: “Bem, durante uma pausa, comecei a dizer ‘E então, Padre…’; mas ele me interrompeu com um sorriso e disse: ‘Sim, recorda-te de teus amigos também!’”.

Uma mulher chamada Nerina Noe foi a Padre Pio confessar-se. Ela lhe disse que estava pensando em deixar de fumar; não previa a brusca repreensão que Padre Pio lhe daria: “Mulheres que fumam cigarros são repugnantes”.

Frederick Abresch foi um desses penitentes que haviam sido convertidos depois de irem a Padre Pio para se confessarem. Aqui estão algumas coisas que ele descreveu sobre a incrível história de sua conversão:

“Em novembro de 1928, quando fui ver Padre Pio pela primeira vez, havia passado poucos anos desde minha mudança de protestante a católico, que se deu por conveniência social. Eu não tinha fé, ou ao menos entendo agora que simplesmente me iludia de tê-la. Tendo sido criado em uma família muito anticatólica e imbuída de preconceitos contra dogmas a tal grau que uma instrução rápida não poderia eliminar, eu estava sempre ávido de coisas secretas e misteriosas.

“Encontrei um amigo que me apresentou os mistérios do espiritismo. Logo, porém, cansei dessas mensagens inconclusivas de ultratumba; eu estava com fervor no campo do ocultismo, da magia de todos os tipos, etc. Então me encontrei com um homem que declarou, com um ar de mistério, que estava em posse da única verdade: ‘teosofia’. Em seguida me tornei seu discípulo, e comecei a acumular livros com títulos tentadores e atraentes na minha mesa de cabeceira. Com segurança em mim mesmo e cheio de vaidade, usava palavras como Reencarnação, Logos, Brahma, Maia, ansiosamente esperando alguma realidade grande e nova que aconteceria.

“Não sei por que (creio que era antes de tudo para agradar minha esposa), mas de vez em quando continuava recebendo os santos Sacramentos. Este era o estado de minha alma quando, pela primeira vez, ouvi falar de um Padre Capuchino, do qual me descreveram como um crucifixo vivo, realizando milagres contínuos.

“Crescendo em curiosidade, decidi ir e ver com meus próprios olhos. Pus-me de joelhos no confessionário da sacristia [e disse a Padre Pio que] considerava a confissão uma boa instituição social e instrutiva, mas que não cria na divindade do Sacramento em absoluto. O Padre, contudo, disse com expressão de grande dor: ‘Heresia! Então todas as tuas Comunhões foram sacrílegas… tens que fazer uma confissão geral. Examina tua consciência e recorda a última vez que fizeste uma boa confissão. Jesus tem sido mais misericordioso contigo que com Judas’.

“Então, olhando por cima de minha cabeça com olhos severos, ele disse: ‘Louvados sejam Jesus e Maria!’, e se foi à igreja para ouvir as confissões das mulheres, enquanto eu fiquei na sacristia, comovido e afetado profundamente. Minha cabeça estava girando e não conseguia me concentrar. Todavia, ouvia em minhas orelhas: ‘Recorda a última vez que fizeste uma boa confissão!’. Com dificuldade, tomei a seguinte decisão: Diria a Padre Pio que havia sido um protestante, e que mesmo após a abjuração, fui rebatizado (condicionalmente), e todos os pecados da minha vida passada foram apagados em virtude do santo Batismo, no entanto, para minha tranquilidade queria começar a confissão desde a minha infância.

“Quando o Padre voltou ao confessionário da sacristia, repetiu a pergunta: ‘Pois, quando foi a última vez que fizeste uma boa confissão?’. Respondi: ‘Padre, quando estava…’. Porém, nesse ponto o Padre me interrompeu, dizendo: ‘Fizeste uma boa confissão pela última vez quando estavas regressando de tua lua de mel; deixemos todos os demais, e comecemos a partir daí!’.

“Permaneci boquiaberto, abalado com uma letargia, e entendi que havia tocado o sobrenatural. O Padre, entretanto, não me deu tempo para refletir. Demonstrando seu conhecimento do meu passado inteiro, e na forma de perguntas, enumerou todas as minhas faltas com precisão e claridade… Depois que o Padre havia trazido à luz todos os meus pecados mortais, com palavras impressionantes me fez compreender a gravidade destas faltas, acrescentando em um tom de voz inesquecível: ‘Tens cantado um hino a Satanás, enquanto Jesus em Seu amor ardente deslocou a cabeça por ti’. Então ele deu minha penitência e me absolveu… Creio não somente nos dogmas da Igreja Católica, mas também na menor de suas cerimônias… para quitar esta fé, deve-se quitar também minha vida”.

José Greco, agora um grande devoto de Padre Pio, teve um sonho no qual se encontrou com o frade em uma estrada e lhe pediu para salvar seu pai enfermo. O pai de José de repente se recuperou depois do sonho. Para agradecer a Padre Pio, José decidiu viajar e vê-lo cara a cara. Depois de esperar quatro dias, José conseguiu ir a Padre Pio para a confissão. Ele descreveu o encontro:

“Em verdade, quando Padre Pio me viu, disse: ‘Pois então, teu pai está bem’. Fiquei atormentado, em razão de nunca haver visitado São Giovanni Rotondo antes. Nunca havia ido a essa parte do mundo, nem conhecia nada ali. E, no entanto, suscitou em minha mente uma pergunta, e questionei-lhe: ‘Foi você, foi você?’. E ele respondeu: ‘No sonho, no sonho…’. Daí comecei a tremer, porque em verdade estava morrendo de medo. Disse: ‘Sim Padre, no sonho, Padre’. Disse-lhe meus pecados, e antes de me dar a absolvição, ele me disse: ‘No entanto, sabes de algo a mais [que não mencionaste na confissão]?’. Disse: ‘Bem Padre, não consigo recordar nada mais’. Padre Pio então começou a descrever um evento com uma moça, quando eu estava no exército. Então me lembrei de tudo. Queria que a terra se abrisse e me engolisse, de tanta vergonha que me consumia. Então disse a Padre Pio: ‘Sim Padre, estou recordando tudo e tenho medo de ter esquecido de dizer em confissão, estou muito envergonhado’. ‘Pois, disse ele, tens carregado este pecado contigo desde 1941, e o lugar foi Blackburn, para dizer a verdade’. Então me levantei para sair, ao que Padre Pio disse: ‘Há algo mais que esqueceste?’, sorrindo levemente. Disse-lhe: ‘Não Padre, de verdade não há mais nada que posso recordar’. Pensei que era sobre algum outro pecado. E ele disse: ‘Veja em teu bolso’. Então saquei minhas contas do rosário [do meu bolso], as dei a ele, que as abençoou e as me deu de volta. E isso foi tudo”.

Um homem disse a Padre Pio em confissão: “Tenho muito apego aos meus pecados; eles são como que necessários para minha vida. Ajude-me a encontrar um remédio”. Padre Pio lhe deu uma oração a São Miguel Arcanjo, e lhe ordenou dizê-la todos os dias por quatro meses.

Padre Nello Castello, um sacerdote de Pádua, Itália, que havia ido confessar-se a Padre Pio centenas de vezes, recordou suas incríveis experiências:

“Fui confessar-me com Padre Pio pelo menos cem vezes. Recordo-me da primeira vez, em que suas palavras, ao mesmo tempo, me assustaram e me iluminaram. Os conselhos que ele me deu refletiam um conhecimento exato de toda a minha vida passada e futura. Às vezes, ele me surpreendia com sugestões não relacionadas com os pecados confessados, e os acontecimentos que se sucederam deixaram claro que seus conselhos haviam sido proféticos. Em uma confissão, em 1957, Padre Pio falou cinco vezes com insistência sobre o mesmo assunto, usando palavras diferentes, e me recordando de um defeito horrível de impaciência. Além disso, me esclareceu sobre as causas fundamentais que provocavam a impaciência. Descreveu-me o comportamento que deveria seguir para evitar a impaciência no futuro. Isto ocorreu sem que eu houvesse dito uma só palavra sobre o problema. No entanto, ele conhecia meus problemas melhor que eu e me aconselhava em como concertá-los”.

Entre os que iam ver Padre Pio, existiam incrédulos declarados. Alguns foram vê-lo por curiosidade, outros para insultarem a Padre Pio e a Deus.

Dois franco-mações, que eram implacavelmente opostos a Deus e à Igreja Católica, decidiram fazer confissões fingidas a Padre Pio de pecados que simplesmente inventaram. O propósito era profanar o Sacramento da Penitência. Estes homens foram a Padre Pio em dias diferentes. Quando eles começaram a confessar seus pecados inventados, Padre Pio lhes interrompeu, dizendo que sabia o que estavam fazendo, e começou a contar cada um de seus pecados reais, informando-lhes o dia, o lugar e como os cometeram. Os dois homens eram tão abrumados que poucos dias depois, se arrependeram de suas vidas pecaminosas e se converteram.

Um comunista incrédulo também foi a Padre Pio para se confessar. Naquele tempo, não havia abandonado suas crenças malvadas. Padre Pio lhe perseguiu fora do confessionário, dizendo: “Que fazes ante o tribunal de Deus se não credes? Fora! Vai-te! És comunista!”.

No confessionário, Padre Pio dizia coisas como:

“Por que vendeste tua alma ao Diabo?… Que irresponsável!… Estás no caminho do Inferno!… Homem negligente, ide primeiro arrepender-se, e então voltes aqui”.

Uma pessoa durante a confissão pôs em dúvida a existência do Inferno. Padre Pio respondeu: “Você acreditará quando chegar lá”.

Padre Pio considerava a ida frequente à confissão algo necessário para o crescimento na vida espiritual. Ele se confessava ao menos uma vez por semana, e não deixava que seus filhos espirituais ficassem sem confissão por mais de dez dias.

Uma vez foi perguntado a Padre Pio: “Confessamos tudo que pudemos recordar ou conhecer, porém é possível que Deus veja outras coisas que não pudemos lembrar?”. Ele respondeu: “Se pusemos [em nossa confissão] toda a nossa boa vontade e se tivemos a intenção de confessar [todos os pecados mortais]… tudo que pudemos recordar ou conhecer – a misericórdia de Deus é tão grande que Ele incluirá e apagará também o que não pudemos recordar ou conhecer”.

Por esta razão, deve ser dito ao final de uma confissão: “… e confesso todos os pecados que tenho esquecidos e não mencionei nesta confissão”.
Artigo Original: Christi Fidei

A promessa dos bebês - Fantástico testemunho!


Eu lembro disso claramente. Eu lembro do dia em que a minha futura esposa e eu tínhamos conversado sobre os filhos. Ela me perguntou: Quantos filhos você quer ter?" Eu, sendo eu, respondi: "Quem se importa? Quem se importa com quantos filhos eu quero ter?"

Minha esposa, já a caminho da santidade por escolher essa cruz que sou eu, disse: "Eu quero dizer, quanto você acha que é um bom tamanho pra uma família?

"Um bom tamanho? Dezesseis. Esse é um bom tamanho."

"Por que você está se doendo assim? Você sabe o que eu quero dizer."

"Sim, eu sei o que você quer dizer. Eu estou apenas tentando chamar atenção. Eu não sei qual o tamanho ideal para a nossa família, mas eu tenho certeza que Deus sabe. Deixe-me dizer assim. Quando os filhos vierem, eu farei a você a seguinte promessa. Eu nunca direi não a você e eu nunca direi não a Deus."

Minha esposa me fez a mesma promessa. Nós não fomos católicos ingênuos desesperados a mostrar a nossa resolução. Minha esposa tinha todas as preocupações que a maioria das mulheres têm. Quantos eu posso suportar? Quantos meu corpo pode suportar? E com relação ao dinheiro? Eu terei que sair do emprego? E assim por adiante. E nós discutimos todas essas coisas nos dias em que eu não estava sendo um imbecil. Nós discutimos isso. Nós pensamos sobre isso. E nós rezamos a respeito. No fim, nós simplesmente apenas pusemos o número nas mãos de Deus.

Nós não casamos até que estivemos nos nossos trinta, e depois do nosso primeiro, algumas vezes nós estivemos um pouco sobrecarregados. Mas nós mantivemos nossa promessa um ao outro e pusemos nossa confiança em Deus.

Depois do nosso segundo, é verdade, algumas vezes nós estivemos um pouco sobrecarregados. Mas nós mantivemos nossa promessa um ao outro e pusemos a nossa confiança em Deus.

Depois do nosso terceiro, nós estivemos quase sempre sobrecarregados. Minha esposa abandonou o trabalho. Ter três crianças ainda pequenas foi difícil para minha esposa. O dinheiro estava apertado. Nós não estávamos seguros de como podíamos lidar com um outro filho. Mas nós mantivemos a nossa promessa um ao outro e pusemos a nossa confiança em Deus.

Ora, nós estávamos em desvantagens e quebramos de algum modo. Então nós mantivemos nossa promessa um ao outro e pusemos a nossa confiança em Deus. As pessoas, a sociedade, todos nos disseram para parar. Com certeza, nós ouvimos todas as piadas. Mas nós prometemos e nós confiamos.

Mas nós também enfrentamos escolhas difíceis. Nós encaramos questões de saúde que nos fizeram avaliar tudo. Mas nós mantivemos a nossa promessa um ao outro e pusemos a nossa confiança em Deus.

Ao todo nós tivemos 5 filhos em 7 anos. Minha esposa brinca que se eu tivesse dito 5 filhos em 7 anos durante a conversa inicial, ela teria tido um ataque do coração. Mas o que nós sabíamos sobre com o quanto nós conseguíamos lidar? Por isso nós decidimos não calcular.

Então agora que os anos dos bebês se passaram sabe qual é o lamento da minha esposa? Eu desejaria que nós tivéssemos nos conhecido mais cedo, assim nós poderíamos ter mais bebês.

Eu tenho muitos arrependimentos na minha vida como todos nós temos. Mas a melhor decisão que eu tomei na vida foi fazer e manter aquela promessa para minha esposa.

Tradução minha do original inglês em: National Catholic Register

O Papa e os coelhos


Todos soubemos das declarações do Papa Francisco durante o vôo de volta da sua peregrinação às Filipinas a respeito das famílias numerosas, do espaçamento dos filhos, e dos "coelhos". Na verdade, a entrevista fala de muitas outras coisas, mas a polêmica se deveu sobretudo a estes assuntos que, no parecer da mídia, aparentavam inovar quanto à moral católica. Muitos sites divulgaram a notícia, e a maioria endossava a mesma interpretação: "Papa Francisco diz que católico não precisa procriar igual coelho e que ter três filhos está bom."

A notícia foi também divulgada no blog do Fratres, com artigo nomeado como "a íntegra do que o Papa disse", e foi esta a tradução a que me dei à leitura com maior atenção. Contudo, o recorte feito e os negritos às vezes sugerem certas interpretações. O número de três filhos, por exemplo, só pode ser bem compreendido ao considerar a pergunta que Francisco então respondia - o que falta no texto do Fratres. Aproveitaremos a ocasião para revistar as expressões ditas mais abaixo.

Isso tudo me rendeu certa indignação, que foi em certa medida manifestada nas redes sociais a título de comentário dos comentários. Escrevi então um texto que trazia o mesmo nome que encima esta postagem. Contudo, creio que o teor de ambos será bem distinto.

Hoje, enfim, decidi ler toda a entrevista, tal como está disponível no próprio site do vaticano. Deveria tê-lo feito antes, e faria caso soubesse que estas entrevistas também ficam lá arquivadas e disponíveis. Passo, então, a fazer os comentários.

Papa critica mulher que está na oitava gravidez e a chama de irresponsável.

A mulher já era mãe de 7 filhos e estava na oitava cesárea. O número de cesáreas suportáveis por uma mulher varia de pessoa a pessoa, mas pode-se dizer que oito não é lá um número tão comum. Quando o Papa a chama de irresponsável, não o diz pela quantidade de filhos, mas pelo risco, real, de morrer e deixar 7 órfãos. Ele fala isso claramente: "Mas a senhora quer deixar sete órfãos?" Então, nada de espantoso nem de equivocado. Ponto do Papa. Alguns reclamaram a dizer que o papa não sabe da vida particular da mulher, se ela é uma das exceções que não correriam risco com tantas cesáreas. De fato, talvez ele não tenha procurado saber, mas o mais comum é supor que as pessoas geralmente se enquadram num padrão e, mesmo que se afastem dele um pouco, não é tanto. É bastante razoável considerar uma oitava cesárea como algo de risco em qualquer pessoa. Então não há erro aqui.

Antes de passar à próxima é preciso considerar a seguinte expressão:

"Isso não significa que o cristão deve ter filhos em série."

Duas coisas aqui. A expressão "isso não significa" tem um sentido claramente adversativo e, portanto, precisa ser contextualizada a partir daquilo que a precedeu. Na idéia anterior, o Papa falava do perigo do neomalthusianismo, teoria que atribui a miséria humana ao número de pessoas e que, sob o pretexto de melhoria da qualidade geral de vida, impõe o controle de natalidade. Ora, criticar esta idéia talvez abra margem ao seu outro extremo: "então é preciso não se colocar nenhum limite na procriação". E é então que tem lugar a expressão acima. A segunda coisa é que a frase subentende um "necessariamente", ficando assim: "Isso não significa que o cristão deve necessariamente ter filhos em série", pois tê-los ou não estará condicionado a outros fatores, que a Igreja chama de "razões graves". A expressão "coelhos" foi usada apenas como comparação espirituosa. Todos nós, ao tratarmos do assunto, falamos disso. Não há que se doer por tal coisa. Porém, até alguns criadores de coelhos desgostaram da comparação.

Os três filhos

Esse foi um dos pontos em que era mais fácil equivocar-se. Mas, antes de ler novamente a resposta de Francisco, vamos à pergunta que lhe fizeram:

O Santo Padre falou da multidão de crianças nas Filipinas, da sua alegria por haver assim tantas crianças. Mas, segundo as sondagens, a maioria dos filipinos pensa que o enorme crescimento da população filipina é uma das razões mais importantes para a pobreza imensa do país, já que, em média, uma mulher, nas Filipinas, dá à luz mais de três filhos na sua vida, e a posição católica relativamente à contracepção parece ser uma das poucas questões em que um grande número de pessoas nas Filipinas não está de acordo com a Igreja. Que pensa disto?

Ao que Francisco respondeu:

"Creio que o número de três por família, mencionado pelo senhor, seja importante – de acordo com o que dizem os peritos – para manter a população. Três por casal. Quando se desce abaixo deste nível, acontece o outro extremo, como, por exemplo, na Itália onde ouvi dizer (não sei se é verdade) que, em 2024, não haverá dinheiro para pagar aos reformados. A diminuição da população."

Portanto, o número três aí faz referência ao número citado pelo jornalista, e a expressão "três por casal" não visa servir de projeto para os casais católicos, mas somente precisar aquilo que seria o mínimo para "manter a população". A interpretação equivocada da mídia - e também minha, até mais cedo - é fácil também de refutar quando consideramos outras falas de Francisco a respeito da família. Veremos como ele é um defensor das famílias numerosas e, mais recentemente, criticou a teoria de que a pobreza decorreria do número dos filhos - chamando-a simplista -, atribuindo a miséria antes ao sistema econômico,.

Por último, tratemos algo da "Paternidade responsável", que é um termo usado por Paulo VI e que aparece na Humanae Vitae. Sabemos que o responsável contrasta com o irresponsável. O que seria a irresponsabilidade no âmbito da procriação? Seria ter os filhos nas situações em que não fosse possível ou prudente tê-los. Quais são estas situações? Aquelas já acima referidas como "razões graves" e que basicamente se resumem a duas: ou quando a mãe já não tem condições de suportar uma nova gestação sem que isso lhe coloque em perigo de morte ou pelo menos lhe signifique uma privação de saúde acentuada, ou ainda quando as condições materiais não dão conta de manter a subsistência dos filhos. E para que a coisa não degenere em subjetivismo, o Santo Padre orienta os casais a procurarem os seus párocos. A suposição aqui é que estes padres estarão interessados em obedecer a moral da Igreja, já que são os pastores destas almas. Infelizmente, porém, sabemos que o contingente de padres fiéis à moral católica em todos os pontos é ínfimo. Já mais ninguém prega sobre esses assuntos. Paternidade responsável quer dizer, portanto, não o limitar do número de filhos, mas o garantir prévio das condições de tê-los.

O erro do Papa talvez esteve em não esclarecer que apenas as razões graves permitem o espaçamento dos filhos. 

Por fim, uma avaliação geral:

Francisco tem dado trabalho. Algumas falas suas descuidadas têm feito com que os inimigos da Igreja suponham tê-lo do seu lado e ostentem as suas frases na defesa do profano. Há ambiguidades nos seus modos de expressão. Recentemente esteve a condenar a pena de morte como algo cuja defesa é inadmissível a um cristão, o que está inteiramente equivocado. Nesta mesma entrevista que agora comentamos também condena como má qualquer reação que um cristão possa ter a uma ofensa à sua religião, com o que ele desfaz das Cruzadas, dos Cristeros, etc. Até hoje ouvimos os militantes e simpatizantes de movimentos sexuais usarem aquela sua frase: "quem sou eu para julgar?". Não, não estamos dizendo que Francisco defendeu essa interpretação distorcida, mas é fato que ele não se deu ao trabalho de desfazer os equívocos.

Enfim, de certas acusações que lhe fiz, ontem e hoje, a respeito desta entrevista, eu me retrato publicamente. Contudo, segue sendo verdade que Francisco tem de ser mais cuidadoso e não pode confundir suas opiniões pessoais com o cargo que ocupa como chefe de toda a cristandade e como aquele que deve confirmar seus irmãos na Fé.
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