Ideologia de Gênero, uma teoria fracassada - O caso David Reimer
"A natureza, no que diz respeito à identidade de gênero, não pode ser anulada pela educação.
Acima de tudo, esta é uma história de advertência, pois isto é o que pode acontecer quando a ciência persegue uma bela teoria com pouca consideração para o valor da vida humana."
Sacrifícios no Antigo Testamento
Quem os fazia: Os sacerdotes;
O que são: a oferta voluntária de uma coisa sensível, que é destruída, se for inanimada, ou imolada, se for animada;
Qual o objetivo: Reconhecer o domínio absoluto de Deus, agradecer-Lhe os dons recebidos, aplacar sua Justiça e obter a reconciliação com Ele;
Os entes sacrificados se substituem aos indivíduos, representando-os;
Os sacrifícios podem ser cruentos ou incruentos:
a) Cruentos: sacrifícios de animais (bezerros, carneiros, ovelhas, cabras, rolas);
b) Incruentos: ofertas do reino vegetal:
b1- sólidos: trigo, farinha, pão, frutos da terra, etc. Eram queimados;
b2- líquidos: vinho, azeite. Eram derramados aos pés do altar.
Os judeus tinham três tipos de sacrifícios:
a) Os holocaustos (hólos - inteiro; caústos - queimado), também chamado "sacrifício perfeito", era quando a vítima era consumida pelo fogo no altar; significavam o domínio absoluto de Deus sobre suas criaturas;
b) Os sacrifícios expiatórios, que visavam aplacar a cólera divina, expiar os pecados e purificar os homens de suas iniquidades. Uma arte da vítima era queimada, e outra era reservada ao sustento dos sacerdotes;
c) Os sacrifícios pacíficos, que visavam dar graças a Deus pelos bens recebidos, pedir-Lhe uma graça ou cumprir uma promessa. Uma parte era queimada no altar, outra reservada aos sacerdotes e uma terceira era consumida pela pessoa que o havia oferecido e pela sua família, o que já prefigurava a Comunhão Eucarística.
Todos estes Sacrifícios eram símbolos do Sacrifício único agradável a Deus: o de Nosso Senhor Jesus Cristo, que é a Santa Missa.
Maria, a nova Arca da Aliança
"[Quando Maria visita sua prima Isabel], é claro que os protagonistas do encontro se tornam explicitamente os meninos que as duas mulheres trazem no ventre. João exulta de alegria na presença do seu Senhor, realizando a profecia transmitida por Gabriel a Zacarias, isto é, que o menino haveria de ser purificado no seio materno. E Jesus começa a sua grande obra de santificação. Logo que foi concebido - não é um aglomerado de sangue, como pretendem os assassinos modernos que fizeram aprovar leis assassinas -, já é o Filho de Deus! Trata-se de um ensinamento que todas as mulheres que concebem um filho devem ter bem claro.
Depois, há um outro particular a realçar neste encontro de grande valor profético e salvífico que remete para um episódio bíblico e parece ser uma sua antecipação. Quando a Arca da Aliança, de que Deus tinha tomado posse cobrindo-a com a sua sombra para indicar a sua presença nela foi levada para Jerusalém pelo rei Davi, fez uma primeira paragem. O rei teve um momento de hesitação e de terror, por causa da santidade da arca, quando Uzá morreu inesperadamente só por ter ousado tocar nela. Então, Davi mandou que ela ficasse na casa de Obed Edom durante três meses, o mesmo período que Maria passou junto de sua prima. Depois, quando se decidiu que ela fosse transportada definitivamente para Jerusalém, sentiu toda a sua indignidade e exclamou: 'Como entrará a Arca do Senhor em minha casa?' (2Sm 6,9)
Todo esse episódio foi um sinal profético. A verdadeira Arca da Aliança é Maria, a quem o anjo disse: 'O Espírito Santo virá sobre ti e a força do Altíssimo estenderá sobre ti a sua sombra', Isabel, também ela repleta da presença divina, repete quase as palavras humildes de David: 'E donde me é dado que venha ter comigo a mãe do meu Senhor?'. É realmente estupenda essa realização no plano de Deus que, a partir das antecipações veladas do Antigo Testamento, encontra as suas concretizações no Novo.
A Visitação relata-nos um dos episódios mais jubilosos da vida de Maria. Que não são muitos! A exultação de Isabel e a exultação de João Batista dizem-nos claramente a alegria gerada pela presença de Maria, onde quer que vá, onde quer que obtenha acolhimento. Porque com ela está sempre não só a presença de Jesus, que dá a graça da salvação, mas também a presença do Espírito Santo, que ilumina, que faz compreender os grandes mistérios de Deus.
Pe. Gabriele Amorth, O evangelho de Maria. Parede: Lucerna, 2014. p.31-32.
Só quem ama compreende.
Os seres humanos se sentem sós, abandonados em sua auto-afirmação, enquanto não encontrarem um eco, aceitação e confirmação de fora. A tendência de união encontrada em todo o universo, na vida humana apresenta-se em escala e graduação ascendentes, conforme os níveis de vida. No nível biológico, no "sexo", há apenas abraços, contato epidérmico, tentativa de penetração que, de maneira nenhuma, por mais repetidos que sejam, podem saciar o desejo de plena união. No nível emocional, na "paixão", no "Eros" atinge-se certo paralelismo, sintonização de vibrações psíquicas, projeção recíproca de emoções pessoais no parceiro. Um jogo a dois, mas que não é nem de longe verdadeira união. É no nível da vida consciente e livre, no nível pessoal, que se realiza verdadeira união.
O verdadeiro amor é amor-amizade. É união entre duas personalidades. É conhecimento, reconhecimento de um Eu para com outro Eu diferente, que se deve aceitar na realidade própria e inconfundível; mas não como lâmpada excitadora de sonhos e excitações; nem como manequim a vestir a esplêndida roupagem de nossa imaginação.
É significativo como a Escritura designa a união amorosa conjugal: "Adão conheceu sua mulher e ela o concebeu" (Gen 4,1). Não podemos conhecer uma pessoa como os demais objetos que nos rodeiam. A nossa inteligência é um receptáculo de capacidade elástica quase ilimitada: nele podemos receber o mundo todo, dando-lhe assim nova existência. Conhecer alguma coisa é dar-lhe existência reflexa dentro de nós. É uma espécie de nova criação. Quanto mais coisas conhecemos, mais se alargam os nossos horizontes, nosso mundo interior. A todos objetos podemos dar assim nova existência "subjetiva" dentro de nós. Menos a outras pessoas. Nenhuma pessoa é simples"objeto"; é sempre "sujeito", indivíduo: um mundo inteiro, fechado e inacessível a estudo "objetivo". Por mais que observemos e analisemos uma pessoa, não a "compreendemos", não a apreendemos completamente, transferindo-a para nosso mundo interior. A chave única que dá acesso ao "jardim fechado" do Eu diferente é o amor. Só quem ama, compreende.
Mas amar significa antes de tudo: sair do "jardim fechado" do próprio Eu. É abrir-se para encontrar porta aberta. Aí está a razão porque se ama tão pouco nesse mundo. Há uma dolorosa dissonância no homem. De um lado, aspira ardentemente à união que rompa o isolamento. Do outro, receia essa mesma união como ameaça à sua personalidade. Efeito ainda do pecado original. Tendo rompido o homem a união e harmonia com Deus, perdeu também a capacidade de estabelecer, com naturalidade e espontaneidade, relações mútuas, união harmoniosa. Sente-se por demais exposto, vulnerável, inseguro, ameaçado no seu valor pessoal. Mas amar é sempre abrir-se. E abrir-se é arriscar-se. O medo inibe. O egoísmo procura antes de tudo segurança. Mas, quando prevalece o instinto de segurança, nunca se chegará a amar. E sem amor não se encontra a plenitude da vida. A eterna desconfiança, o eterno medo tranca o homem dentro de si mesmo e fá-lo murchar, estiolar, atrofiar-se. Querendo salvar-se, tudo perde. Quem amar a sua vida (a sua segurança pessoal) acima de tudo, perdê-la-á; mas quem a perder (quem se ariscar, se abrir para o Tu), ganhá-la-á. Isso vale tanto para o amor humano, como para o divino. É preciso abrir a porta, senão a vida estancará no isolamento. A união é transfusão de novo sangue. Só nela se encontra sentido e felicidade. Nisso há evidentemente risco. Quem se abre, expõe-se ao perigo de ser invadido e explorado. Mas, antes a possibilidade de uma exploração, que a certeza de estiolamento.
Frei Valfredo Tepe OFM. O sentido da vida. Ascese cristã e psicologia dinâmica. 3ª ed. Bahia: Mensageiro da Fé, 1960. p. 230-232.
Instinto sexual e castidade III - Impulsos coercitivos e distinção entre intemperança e incontinência
Não se trata de chamar bom o que é objetivamente mau. Trata-se de desligar um sentimento culposo neurótico de atos que, na situação individual, estão fora do alcance da livre vontade. Só assim pode restituir-se o equilíbrio emocional e estender novamente o domínio da vontade a todos os territórios da alma que antes estavam bloqueados. "Frequentemente, a reação patológica desaparecerá na medida em que o aspecto moral da conduta não obsedar mais o paciente, constituindo a preocupação moral precisamente um aspecto do sintoma psicopatológico." (1)
Brenninkmeier defende a opinião de que é dever do confessor esclarecer os penitentes neuróticos sobre a falta de liberdade, respectivamente redução considerável dela, que modificam a responsabilidade em determinados atos. A maioria se debate em pensamentos autopunitivos dolorosos: eu "sabia" o que estava fazendo; se fiz, sou culpado... Não avaliam o poder de impulsos coercitivos que bloqueiam a vontade, deixando à razão sua plena lucidez. Quando o confessor "consegue convencer o neurótico de que seu estado não implica culpa, antes enfermidade; quando alcança dele que aceite os fatos amiúde humilhantes com espírito sereno, apoiando-se na bondade, misericórdia e compreensão de Deus, o enfermo encontrará em tais conhecimentos profunda paz; a graça sacramental fortalecerá sua alma; voltará a sentir gosto pela vida interior e perderá o sentimento aterrador causado pelo temor de ser inútil todo o trabalho pela santificação, já que nem conseguia manter-se na amizade de Deus, por grandes que fossem os esforços. Esclarecido o seu entendimento, logo o doente se livra de parte considerável de sua angústia e consegue enveredar por um caminho que contribuirá poderosamente para a cura." (2)
Não só em casos patológicos, mas também de um ponto de vista geral, sabe Sto. Tomás levar em consideração o impulso elementar dos desejos carnais. São para ele atenuantes e não agravantes do pecado. Quem peca pressionado por estímulo mais forte de concupiscência, cai por causa de uma tentação mais grave. daí é que lhe é imputada menos culpa." (3) Mais graves que os pecados carnais, são para ele os pecados espirituais, justamente porque neles falta a pressão e a solicitação dos impulsos psíquicos e biológicos. Tal classificação é apenas o reverso da ordem hierárquica como ele vê as virtudes. A castidade não é, para ele, de forma alguma, a maior virtude. Ela faz parte da temperança; e esta é a última das virtudes cardeais. Acima dela estão a fortaleza, a justiça e a prudência. E acima de todas, se encontram as virtudes teológicas: esperança, fé e, rainha de todas, a caridade.
Não é só a clássica ordem hierárquica que torna admirável a doutrina de Sto Tomás; sua moral, longe de ser casuística, é essencialmente dinâmica. Não julga sobre valor ou desvalor do homem por um processo de adição: somando atos isolados, sejam pecados, sejam atos meritórios. A direção geral impressa à vida é decisiva.
Isso aparece sobretudo na distinção entre "intemperança" e "incontinência." Incontinência é imperfeição de governo. Na essência há o predomínio da boa vontade que apenas não consegue impor-se plena e constantemente. Há quedas por fraqueza, paixão, curiosidade, etc. Sem inocentar tais quedas, cumpre reconhecer que são muito menos graves que os pecados cometidos por libertinagem e cinismo.
À libertinagem cínica, essa desistência de um ideal pessoal superior, dá-se o nome de intemperança. A direção total da vida é pervertida, encaminhando-se toda a energia do psiquismo em direção da satisfação carnal. Não é a intensidade do prazer, mas a direção geral impressão à vida, o que mais modifica a culpabilidade de um ato que, no mais, se apresenta rodeado das mesmas circunstâncias. Pela intemperança peca-se muito mais que pela incontinência; pois, de um lado, peca-se muito por hábito, de outro por paixão (4). Paixão, já o vimos, é fator atenuante. "Quem falta por ausência momentânea de domínio de si, arrepende-se depressa", diz Sto Tomás. Todavia a vontade de quem peca pela tendência habitual enraizada e não revogada da impureza visa diretamente ao pecado e dificilmente se arrepende; antes "alegra-se por ter pecado, pois o pecar tornou-se-lhe natural" (5). Sucumbir aos assaltos da paixão é fraqueza; pecar pela tendência pervertida da vontade é malícia.
Na intemperança completa, na direção total da vida para o prazer carnal, na luxúria é que vê Sto. Tomás o grande mal. A luxúria açambarca, monopoliza toda a energia da alma, tornando impossível a evolução superior da personalidade. É a principal acusação que Sto Tomás formula contra este pecado capital, pois esta principalmente, perverte e destrói a prudência. Torna a alma impermeável para as realidades restantes da vida. Cega a alma; já não a deixa ver os bens do espírito; e os bens terrenos, pessoas e objetos, apresenta-os sob o ângulo reduzido e exclusivo do prazer. (5)
Um inquérito entre universitários demonstrou que a promiscuidade sexual precoce paralisa, de certa maneira, a evolução ulterior, particularmente o amadurecimento afetivo. Tais criaturas serão, muitas vezes, incapazes de apreciar e compreender o valor de um verdadeiro e profundo amor único. O homem não pode desenvolver-se para todos os lados. O seu dinamismo não dá para tudo. Tem que escolher a direção e, com isso, fatalmente renunciar a outros rumos. Quem faz seu "ideal" consistir no desdobramento biológico, sobretudo sexual, priva-se do acesso à realização superior de si mesmo. Sto Tomás compara o libertino com o leão que ao ver o veado logo pensa em pasto de sua insaciável voracidade. Assim o escravo da impureza não vê mais as criaturas com simplicidade, no seu valor e beleza intrínsecos, mas apenas como objetos potenciais de sua satisfação.
Justamente aí aparece a desordem essencial da impureza, o seu caráter de pecado, pois pecado é desordem moral. Luxúria é, na sua essência, egoísmo brutal. A tendência sexual devia ser, conforma a idéia do Criador, porta aberta pra o ambiente. A desordem das relações sexuais fora do casamento consiste em que aqueles que a praticam estão tentando isolar uma só união (a sexual) de outras que devem acompanhá-la para, segundo os planos do Criador, formarem a união completa, rompimento do isolamento individual: "Serão dois numa só carne." (Gn 2,24)
Aí está a desordem: não em um "demais", mas em um "de menos". Não realizam a finalidade da tendência sexual: a união; fogem dela, de suas responsabilidades e encargos. Mais claramente: a desordem está no egoísmo que não quer dar-se, não quer unir-se, mas apenas procura unilateralmente a sensação subjetiva do prazer. Em vez de se abrir realmente para um Tu, fecha-se dentro de si mesmo; pois, quem reduz o parceiro a um objeto ou meio de prazeres, não entra em contato real com ele. A moral cristã não condena o prazer sexual; condena a tentativa de separá-lo de seu bem próprio ou de seu escopo natural: o bem comum da continuação do gênero humano e, secundariamente, o auxílio mútuo dos cônjuges. Procurando tais bens, tais fins, rompe o indivíduo o casulo do seu egoísmo e realiza-se pelo contato com o mundo ambiente. Mas procurando o prazer subjetivo, separado dessas finalidades objetivas, tranca-se outra vez, desastradamente, dentro de si mesmo. Aí está a grave desordem da luxúria.
(1) Nuttin, J. Psicanálise e personalidade, 1995, p.170.
(2) Brenninkmeyer, A. Tratamiento pastoral de los neuróticos, 1950, p.40-44.
(3) S. th. I. II. 73, 4.
(4) S. th. II. II. 156, 3.
(5) Ibidem.
Frei Valfredo Tepe OFM. O sentido da vida. Ascese cristã e psicologia dinâmica. 3ª ed. Bahia: Mensageiro da Fé, 1960. p. 115-119.
Instinto Sexual e Castidade II: Moralidade das poluções noturnas e prazeres sexuais involuntários
Tanto o castelo de fada, como a casa da bruxa exercem misteriosa atração. Não só o desejo, também o medo aprisiona a vida emocional num círculo mágico. A sexualidade não é fada nem bruxa. O conhecimento sóbrio de sua realidade, como tendência psico-biológica de caráter universal e dinamismo considerável, "desencanta" sua atuação sobre fantasia e vida emocional.
Deixar uma criatura na ignorância (na "bela" inocência"), sob pretexto de preservá-la dos perigos da sexualidade, é lamentável desserviço. Justamente tal ignorância afetada de uma realidade dinâmica existente em todos os seres é que produz inquietações e angústias desnecessárias. A tensão nervosa favorece aquilo que se quer evitar. O medo de um perigo desconhecido pode tiranizar o psiquismo a ponto de lhe impor idéias fixas ou atos coercitivos que intimamente se detestam. Devemos aceitar com realismo e humildade a natureza humana como Deus a fez. Então teremos a disposição exata para resolver as dificuldades.
Temos corpo, temos sexo - e não temos mais o dom da integridade. Essas reflexões conservar-nos-ão serenos diante de movimentos e sensações carnais involuntários. O corpo pode ser excitado por fatores independentes da nossa vontade. Nesse ponto, a medicina esclarece a ascese: "Em qualquer idade, homens e mulheres podem experimentar, sob influências diversas, sensações mais ou menos claras, localizadas nos órgãos da geração. É preciso sabê-lo e não se amedrontar. Não se deve prestar a isso atenção maior do que se presta aos demais fenômenos fisiológicos. O sentimento de pureza não deve degenerar em obsessão; e não há motivo para perturbar-se, se uma sensação genital é percebida agradavelmente: nada pode impedir que uma sensação da retina seja luminosa; de igual modo, modificação circulatória da zona sexual é necessariamente acompanhada de prazer. Neste caso, a culpabilidade consistiria na entrega ao prazer, em fazer tudo para melhor experimentar e gozar, e mais ainda na provocação." (1)
Pode ser enfadonho e humilhante constatar e sofrer passivamente tais excitações involuntárias dos órgãos sexuais. É preciso olhar para o movimento da alma e não do corpo. Os fenômenos fisiológicos, considerados em si, são indiferentes. A malícia depende só e sempre da vontade, da parte que essa teve em provocar a sensação ou em comprazer-se nela. Não se confunda complacência da vontade com a sensação fisiológica de prazer. (Sentir na esfera psico-biológica não é o mesmo que consentir na esfera espiritual).
De maneira particular não sejam motivo de perturbações os sonhos e poluções noturnas. Os movimentos semiconscientes que precedem o sono e, mais ainda, os que antecedem e seguem imediatamente o despertar, nunca são plenamente responsáveis. Por isso não há aí pecado mortal. "É preciso não confundir estas manifestações involuntárias da atividade sexual com os atos imorais propriamente ditos, ainda que as poluções noturnas se efetuem tão próximas ao acordar que a sensação que as acompanha se torne plenamente consciente. Mesmo que, ao despertar, o indivíduo tenha consciência de certa participação de gestos, subsiste ainda a diferença entre estes fenômenos e ato voluntário, executado com a intenção de provocar a sensação, que constitui a masturbação." (2)
É preciso não esquecer que a atividade sexual é uma das mais fortes da natureza humana. Ela pode ser refreada, canalizada, mas nunca extirpada. Muitas de suas manifestações fogem ao governo e freio da vontade, sobretudo no sono, cessando a vida espiritual consciente. Os 'sonhos maus' são mesmo a válvula natural para atividade sexual refreada. "É próprio da natureza humana que as poluções noturnas (nós damos à palavra o sentido estrito de ejaculação espermática durante o sono) sejam frequentemente acompanhadas de sonhos voluptuosos, ou que tais sonhos se dêem na mulher enquanto dorme e que tomem como elementos pessoas que se conhecem, se amam, aos quais se está unido espiritualmente. Não há nisso matéria de remorso, mas só de humildade em verificar que se está sujeito à condição humana. Nem há motivo para cessar de ver com toda a simplicidade aqueles ou aquelas que o subconsciente uniu nas suas divagações." (3)
Para quem a autoridade do médico católico, acima citado, que desde longos anos tem sido assistente de seminários e conventos, não é suficiente neste terreno, referimos a palavra de Sto Tomás que dedica um artigo inteiro ao assunto e chega à conclusão: "A polução noturna não é pecado; pode, às vezes, ser consequência de um pecado anterior." (4) Que atitude serena em face de um fato fisiológico que em si nada tem a ver com a moral! Pois sem o uso da razão - suspenso no sono - não se pode falar em atos morais. Pode de alguma maneira ser efeito de uma atitude precedente leviana, como leituras ou conversas excitantes. Mas a culpabilidade desses atos conscientes deve ser julgada por si mesma, não pelo efeito eventual de uma polução noturna, já que é impossível estabelecer o nexo causal exato, podendo influir outras causas inculpáveis.
Fora do sono, admite Sto Tomás ainda duas outras situações em que alguém, sem querer, portanto sem culpa moral, pode experimentar satisfação carnal completa: enfermidade orgânica e "violência em que a alma não consente, embora a carne experimente o prazer".(5)
Provavelmente pensa Sto Tomás em violência física externa, mas nada impede de aplicar a tese também à violência interna de impulsos psíquicos irresistíveis. Indivíduos que procuram libertar-se de vícios contraídos, ou pessoas neuróticas que sofrem de impulsos sexuais coercitivos (não raro contraídos pelo recalque desastroso de toda a esfera sexual), beiram frequentemente o abismo do desespero. Julgam-se, em todos os atos, plenamente culpados. É preciso esclarecê-los que hábitos contraídos e impulsos coercitivos diminuem a liberdade e com isso a culpa; podem mesmo chegar a constituir autêntica violência, e essa, segundo Sto Tomás, exime de culpabilidade.
(1) Blot-Galimard. Guide médical des vocations sacerdotales et religieuses, 19523 p. 269.
(2) Blot - Galimard, op. c. p. 271.
(3) Blot - Galimard, op. c. p. 270.
(4) S. th. II. II. 154, 5.
(5) S. th. II. II. 152, 1 ad 4.
Frei Valfredo Tepe OFM. O sentido da vida. Ascese cristã e psicologia dinâmica. 3ª ed. Bahia: Mensageiro da Fé, 1960. p. 110-112.
Jovem católico é agredido na PUC por defender a posição católica!
Num seminário promovido pela PUC para promover a Reforma Política do PT, o palestrante, Daniel Seidel, que conseguiu a façanha de ser ao mesmo tempo representante do PT e secretário da CNBB, em partes do seu discurso defendia claramente a Revolução e afirmava que o que se espera não será conseguido a partir de reformas. Neste momento, um rapaz católico, depois de pedir a palavra, questionou como é que uma bancada de excomungados pode discursar numa instituição católica e, ao mesmo tempo, pretender representar esta mesma Igreja. Para respaldar sua crítica, ele mostrou o Decreto contra o Comunismo, de autoria de Pio XII, de 1949, que excomunga os católicos que promovam de alguma forma o ideal comunista. Depois disso, vieram reprimi-lo e a coisa desandou, como se pode ver no vídeo.
Para fazer uma rápida apreciação, nos sentimos maximamente representados pelo jovem que teve a coragem de enfrentar, praticamente só, aquele povo. É verdade que depois alguns simpatizantes - provavelmente seus amigos - se manifestaram, no meio da confusão.
Mas em segundo lugar, é de uma vergonha imensurável que a CNBB coloque um petista pregador da revolução como sua representante numa instituição católica. É deplorável. A CNBB já passou dos limites há muito. Chego até certo asco dessa conferência. Ela não é católica.
Instinto Sexual e Castidade I
As duas necessidades do ser vivo: manter-se e abrir-se, vemo-las expressa marcadamente nas duas paixões mais fortes que incessantemente ocupam o esforço ascético: a tendência sexual que corresponde à necessidade de comunicação, e a tendência agressiva que corresponde à necessidade de auto-conservação. A tendência sexual é dirigida pela castidade; a tendência agressiva, a ira, pela mansidão.
A castidade não tem por objeto a eliminação ou metamorfose dos instintos. Bem diz Pio XII na encíclica sobre a virgindade: 'A virtude da castidade não exige de nós que nos tornemos insensíveis ao estímulo da concupiscência, mas que o subordinemos à razão e à lei da graça.'(1) Aviso importante para almas angustiadas que se atormentam a si mesmas com impressões e sensações de caráter sexual, embora tais sensações não estejam debaixo de seu poder. O que no máximo podia ser classificado como tentação, logo consideram como pecado. Nasce o sentimento de culpabilidade que fixa a atenção sobre o assunto. A fixação da atenção sobre o assunto sexual exacerba a tentação: a alma debate-se num círculo vicioso e chega, pressionada por idéias fixas ou impulsos coercitivos, a fazer o que mais receia e detesta.
Quanta angústia e quanto desgaste nervoso não resulta do desconhecimento da natureza humana! A vida sensitiva funciona, em grande parte, automaticamente. Chegando alguma impressão a um sentido, logo este toma posição e , se lhe convém, acha nele prazer e procura a continuidade da impressão; não lhe convindo, porém, acha-lhe desprazer e procura afastar-se. A procura do bem correspondente é necessidade intrínseca da natureza, tanto na esfera biológica, como psíquica e espiritual. Nenhum homem pode impedir que um prato saboroso lhe agrade e o atraia. Nenhum homem pode evitar que aquilo que convém à sexualidade lhe provoque as sensações e tendências correspondentes. Sob tal aspecto ninguém pode mudar ou eliminar a vida sensitiva. O que é da natureza não se pode expulsar.
Mas essas reações automáticas precisam de regulativo. Nos animais, é o instinto que mantém as tendências sensitivas dentro de um justo limite que não prejudique a vida total. No homem, esse regulador instintivo se encontra mal desenvolvido, especialmente em referência à vida sexual. Para ele, o regulativo é o próprio espírito que, conhecendo as necessidades diversas e os perigos possíveis, deve dirigir e condicionar os movimentos automáticos dos sentidos. Essa direção e vigilância custam esforços contínuos, porque a vida sensitiva está constantemente em atividade; custam, não raro, esforços heróicos, pois, às vezes, as paixões resistem com força, querendo seguir independentes o próprio caminho. Dessa atividade reguladora do espírito depende em grande parte a perfeição do homem, a elaboração espiritual de sua vida, a realização de si mesmo.
A lei estratégica básica dessa atividade é chamada fuga. Por causa da função automática da vida sensitiva, acontecerá muitas vezes que surjam impressões, sensações e tendências que o homem, em vista da finalidade espiritual superior, não pode admitir - em outras palavras, tornam-se para ele tentação, solicitação para canalizar a energia em direção não-construtiva. Que pode e deve o homem fazer em tal caso? A resposta resulta logicamente da natureza automática de tais movimentos. É impossível mudar agrado em desagrado, o prazer em desprazer. O prazer será o estado natural, enquanto durar a impressão exterior. Portanto só resta ao homem uma saída: colocar-se fora do alcance de tal impressão ou do objeto que a provoca. Então se amortece, gradativamente, a sensação e o perigo será debelado.
É antiquíssima a lei ascética de evitar e fugir nas lutas pela castidade. Sendo a única atitude lógica e natural, não demonstra fraqueza ou covardia, mas prudência, isto é, conhecimento exato da realidade e conformação com ela. Enfrentar o perigo, fazer-se de forte, aparentar insensibilidade estóica, é ignorância da natureza humana e desconhecimento das estratégias diferentes na luta pela perfeição: "Os assaltos do pecado devem ser vencidos às vezes pela fuga, e outras pela resistência. Pela fuga, quando uma ocupação demorada dos pensamentos forneceria novo incentivo ao pecado, como acontece na impureza. Por isso, foi dito: 'Fugi da fornicação.' (1Cor 6,18) (2)
(1) Pio XII, Encíclica sobre a Sagrada Virgindade. In: Revista Eclesiástica Brasileira, vol. 14 fasc. 2, julho 1954, p. 451.
(2) S. th. II. II. 35, 1 ad 4.
Frei Valfredo Tepe OFM. O sentido da vida. Ascese cristã e psicologia dinâmica. 3ª ed. Bahia: Mensageiro da Fé, 1960. p. 110-112.
O perigo de amar a Deus egoisticamente
Amemos a Deus, diz Sto Tomás, não egoística, mas desinteressadamente; não excluindo, de certo, nossa própria felicidade, mas também não rebaixando Deus a um 'meio' de nossa felicidade. 'Deus é em si mesmo um bem muito maior do que o bem da felicidade que gozaremos na posse d'Ele."
A felicidade, o prazer, são bens secundários que se conseguem funcionalmente, com o 'repouso na posse do bem'. Procure-se o bem como tal, não o bem funcional e subjetivo da 'felicidade'. O princípio hedonista é perigoso entrave na procura da perfeição cristã. Quem visa direta e principalmente 'salvar sua alma' ou ganhar 'a felicidade eterna', faz de Deus um meio para um fim egocêntrico. O egoísmo é planta viçosa que também vinga nos ambientes onde se procura a perfeição religiosa. É trepadeira que tudo cobre: o próprio Deus pode ficar irreconhecível sob a folhagem do egocentrismo espiritual. O Deus de infinita majestade torna-se então o 'meu' Deus, um Deus segundo as 'minhas' idéias e 'minhas' necessidades; um Deus funcional: 'meu' empregado para tudo, 'meu' auxílio em todas as aflições e afinal 'minha' recompensa, 'minha' felicidade eterna. Só poda impiedosa na floresta tropical dos adjetivos possessivos, libertará o homem de si mesmo, da profunda introversão e do egoísmo arraigado. 'Quem quiser guardar a sua alma, perdê-la-á', diz Jesus; 'mas quem a perder, (quem perder a si mesmo de vista) por meu amor, salvá-la-á.' (Lc 9,24)"
Frei Valfredo Tepe, O sentido da vida. Ascese cristã e psicologia dinâmica. 3ª ed. Bahia: Mensageiro da Fé, 1960. p. 94-95.
Santidade e Liberdade
Verdadeira liberdade, digamo-lo de novo, não significa permanecer na indecisão, na ambivalência, mas realizar-se plenamente. A plena realização, a santidade, consiste em aderir o homem a Deus de tal maneira que se torne "um espírito com Ele." (1Co 6,17) e se deixe levar pelo Espírito para onde Ele quiser. "Todos os que são movidos pelo Espírito de Deus são filhos de Deus." (Rm 8,14)
Livre é o homem que é "ele mesmo", sem coação nenhuma. E quanto mais o homem aderir a Deus, Àquele que o conhece como é e como devia ser, tanto mais ele se realizará. Assim será o santo, o verdadeiro homem livre; o pecador, porém, será sempre mais escravo. A verdade teológica tem suas manifestações psicológicas. Quanto mais santo for alguém, mais imprevisível se torna o seu procedimento. Quando os mundanos o tacham de absurdo ou irrazoável, mostram apenas sua raiva por não o compreenderem. 'Razoável' é o que fica dentro das motivações terrenas e é assim, mais ou menos, previsível. O santo - e todo o cristão que vive da fé - ultrapassou estas categorias.
Por outro lado, quanto mais pecador for o homem, mais previsível o seu procedimento. Conhecendo-se, em linhas gerais, as tendências psíquicas do homem, as paixões e os instintos, conhecendo-se, ademais, as características psicossomáticas de um indivíduo, será relativamente fácil prever o seu procedimento em determinadas circunstâncias, sempre supondo ser ele um "pecador", isto é, um homem escravizado aos automatismos instintivos. Os homens especulam com essas "fraquezas" previsíveis. O suborno, por exemplo, é questão algébrica quando o homem não é "de bem", isto é, unido por uma consciência reta de Deus. A propaganda comercial, a propaganda dirigida dos sistemas ditatoriais baseia-se na previsão da reação das massas. Ameaças e promessas conseguem tornar dóceis os homens. Menos os santos! POrque são "dóceis a Deus" (Jo 6,45). "O vento sopra onde quer; ouves a sua voz, mas não sabes donde vem nem para onde vai. O mesmo se dá com aquele que é nascido do espírito." (Jo 3,8)
O comportamento dos santos não é previsível. Daí a ira impotente dos homens que não conseguem dobrá-los nem com promessas nem com castigos, tendo de fazer deles mártires. Nunca se sabe o que o santo fará em determinada circunstância. Pois fará o que Deus quiser - e não conhecemos os planos de Deus. O santo vive o momento sem se preocupar com o futuro. Confia na palavra de Jesus: "Ser-vos-á inspirado naquela hora o que haveis de dizer". (Mt 10,19) Quem é dócil às inspirações do Divino Espírito Santo, é verdadeiramente livre. Tal liberdade dos filhos de Deus escapa às previsões e aos julgamentos humanos: "O homem espiritual não é julgado por ninguém, mas ele julga (bem) todas as coisas." (1Co 2,15)
Frei Valfredo Tepe, OFM. O sentido da vida. Ascese cristã e psicologia dinâmica. 3ª ed. Bahia: Mensageiro da fé, 1960. p.66-67.
As filhas da acídia
Hoje em dia, a raça dos Gerasenos [dos que preferem os porcos a Jesus] está proliferando. (Cf. Mt 8,28ss). Grassa, mesmo nos países cristãos, o "materialismo prático" (aliás tradução moderna adequada da palavra acídia) e no séquito dele encontramos crescente desassossego e desajustamento. Não se recalcam impunemente realidades dinâmicas, nem instintivas nem muito meno espirituais e sobrenaturais. A acídia é considerada vício capital, quer dizer, fonte de muitos outros pecados. Sto Tomás apresenta uma lista dos "filhos da acídia" que parece pintar um quadro exato da vida moderna.
O primeiro filho é o desespero. Kierkegaard chamou o desespero a "doença até a morte". Que alguém desesperadamente não queira ser o que é, é realmente "doença mortal." Mas não é essa a atitude do mundo moderno diante das realidades sobrenaturais? A humanidade não pode libertar-se de Jesus. Não pode ignorá-lo. Jesus é a decisão. Depois de Cristo, o homem só se pode realizar como cristão. Querer negar isso é negar a si mesmo, é não querer a própria realidade. Tal luta e rutura interior produz o desespero da vida. A vida depois de Cristo só tem sentido em Cristo, na orientação para o sobrenatural. Fora disso, fica apenas o tédio.
Então toma conta da alma outra filha da acídia: a inquietação dissipada do espírito. Hoje diríamos "sensacionalismo". Não aceitando a própria realidade, o homem procura abafar tudo com sensações sempre novas, atividade febril e divertimentos em sequência. Sempre mais invade o coração a insensibilidade para com tudo o que é necessário para a salvação. Igrejas vazias, frequência diminuta dos sacramentos, aversão à palavra de Deus, perda do "sentido do pecado", torpor espiritual. Daí vem pusilanimidade em face das grandezas oferecidas por Deus, e rancor contra todos aqueles cuja missão é defender e propagar o reino de Deus nas almas. E, afinal, endurece a alma na malícia completa, no ódio contra tudo o que é divino. - Realmente, um quadro impressionante! Ilustrando e explicando, ao menos em parte, o desajustamento e o desespero que reinam no mundo moderno.
Frei Valfredo Tepe, OFM. O sentido da vida. Ascese cristã e psicologia dinâmica. 3ª ed. Bahia: Mensageiro da fé, 1960. p.64-65.
Ressuscitou como disse! Aleluia! Bendita seja Sua ressurreição!
Ó Filho, descido do céu para visitar servos que vinham arrastando suas doenças! Muitos médicos vieram, trabalharam, cansaram-se, curaram pouco, deixaram muito.
Aquele que é o Criador fez-se criança; aquele que é o santo veio ao batismo; aquele que é o Filho vivo experimentou a morte e ressuscitou glorioso do sepulcro. Bendita seja sua ressurreição!
O Verbo saiu do Pai e revestiu corpo em outras entranhas; passou de um seio a outro; encheram-se com ele castas entranhas. Bendito seja o que habitou entre nós!
Desceu do alto como Senhor e das entranhas saiu como escravo; no inferno, a morte curvou-se perante ele, e, na ressurreição, a vida o adorou. Bendito o seu triunfo!
Entrou pelo ouvido (Anunciação) e habitou nas entranhas. Revestiu corpo, baixou e salvou-nos; abriu o inferno, baixou e nos congregou; abriu o céu, subiu e nos elevou para lá. Bendito aquele que o enviou!
Maria carregou-o como criança; o sacerdote carregou-o como oblação; a cruz carregou-o como vítima; os céus carregaram-no como Deus. Glória a seu Pai!
De Deus lhe veio a divindade; dos mortais, a humanidade; de Melquisedeque, o sacerdócio; e de Davi, a realiza. Bendita seja esta união!
Estava entre os convidados no banquete; nas tentações, está entre os jejuadores; na agonia, estava entre os que velam; no templo, entre os que ensinam. Bendita sua doutrina!
Seu nascimento é para nós purificação; seu batismo, propiciação; sua morte, vida; e sua ascensão nos vem a ser exaltação. Quão digno de nossos louvores!
Os lobos arrebatadores o temeram transformado em homem; rasgaram-lhe as vestes; mas, sem querer, revelaram-lhe a glória; o esplendor raiou-lhe da vestimenta. Bendito seja o Filho vivo que, neste dia, ressurgiu do sepulcro por seu grande poder e chamou novamente à vida os mortos, despertou os que dormiam e alegrou a Igreja! Bendita seja sua ressurreição! Glória a Ele!
Neste dia, o filhote do leão rugiu no inferno; tremeu a morte; acordaram os mortos; ergueram-se os que dormiam, deram louvores com vozes novas. Bendita seja sua ressurreição!
Neste dia, os anjos proclamaram aos mortais a nova mensagem do Filho primogênito sobre a ressurreição. Anunciaram à Igreja que ele havia ressuscitado do sepulcro. Bendito seja seu louvor!
Sto Efrém
Também os membros, para participarem da Glória, devem participar da Paixão - São Leão Magno
A fé verdadeira tem esta virtude de não faltar espiritualmente nas coisas em que a presença corporal não é possível; e, quer o coração crente regresse ao passado, quer se volte para o futuro, o conhecimento da verdade não sofre demoras de tempo. Portanto, temos presente aos nossos sentidos a imagem das coisas realizadas para nossa salvação; e tudo quanto comoveu então os ânimos dos discípulos também afeta nossos sentimentos. Devemos esforçar-nos, diletíssimos, com grande empenho da alma e do corpo, por manter-nos inseparavelmente concordes neste mistério; pois, se é falta gravíssima desprezar a festa pascal, mais perigoso seria realmente unir-se às assembléias religiosas, mas não participar da Paixão do Senhor, Com efeito, se o Senhor disse: Quem não toma sua cruz e não me segue não é digno de mim (Mt 10,38), e o Apóstolo: Se com ele sofrermos, com ele havemos de reinar (Rm 8,17; II Tim 2,12), quem é que honra verdadeiramente a Cristo padecente, morto e ressuscitado, senão quem com ele sofre, morre e ressurge?
Sem dúvida, isto já começou, em todos os fiéis da Igreja, no mistério do batismo, em que a destruição do pecado é a vida do regenerado, e a tríplice imersão figura o estado de morte do Senhor durante três dias, de modo que, removido o aterro da sepultura, a água batismal devolve novos os mesmos corpos que a fonte recebeu velhos. Mas é necessário cumprir na prática, apesar de tudo, o que foi celebrado no sacramento e, para os nascidos do Espírito Santo, enquanto sobrar algo do corpo mortal, não há modo de vida sem carregar a cruz. Portanto, estabeleça-se o cristão onde o Cristo o levou consigo e dirija todos seus passos para o lugar onde sabe que foi salvo o gênero humano.
Com efeito, a Paixão do Senhor se estende até o fim do mundo; e assim como é a ele que, na pessoa dos santos, honramos e amamos, e, nos pobres, alimentamos e vestimos; assim, em todos quantos suportam contrariedades pela justiça, é ele que sofre; ou acaso se deve estimar que, difundida a fé pelo mundo e escasseando o número dos ímpios, acabaram todas as perseguições e todas as campanhas que se assanharam contra os santos mártires? Mas diversa é a experiência dos fiéis servidores de Deus e diversa, também, a doutrina do Apóstolo, que diz: Todos quantos querem viver piamente no Cristo Jesus serão perseguidos. (II Tim 3,12) Não podem ter paz com este mundo, se não forem amigos do mundo; e nunca há comunhão entre a iniquidade e a justiça; nenhuma concórdia da mentira com a verdade; nenhum acordo das trevas com a luz.
Portanto, diletíssimos, a Páscoa santa é celebrada condignamente nos membros santos do corpo de Cristo e nada falta aos triunfos que a Paixão do Salvador alcançou; pois, para os que, a exemplo do Apóstolo, castigam o próprio corpo e o reduzem à servidão (ICor 9,27), os mesmos adversários são esmagados pela mesma força, e agora o mundo é vencido por Cristo.
Sermão LXX de S. Leão Magno
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