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A Igreja Católica seria a Prostituta do Apocalipse? - Parte 1


O livro do Apocalipse, que comumente é entendido como referindo-se ao final dos tempos e que tem fecundado o imaginário das pessoas desde que foi escrito, fala, dentre outras coisas, de uma "Prostituta", a quem chama de "Babilônia, a Grande."

Desde então, muitas pessoas têm se questionado sobre a quem João estaria se referindo. Os primeiros cristãos tendiam a identificá-la com a Roma Pagã. Depois, muitos foram também os que a associaram a Jerusalém. Contudo, depois da Reforma Protestante, não faltaram os que viram nela a Igreja Católica. Este artigo tem o intuito de analisar esta última alternativa e ver se ela tem mesmo fundamento.

Antes de começarmos, demos uma olhada no que diz exatamente João a este respeito:

"Veio, então, um dos sete Anjos que tinham as sete taças e falou comigo: 'Vem, e eu te mostrarei a condenação da grande meretriz, que se assenta à beira das muitas águas, com a qual se contaminaram os reis da terra. Ela inebriou os habitantes da terra com o vinho da sua luxúria. Transportou-me, então, em espírito ao deserto. Eu vi uma mulher assentada em cima de uma fera escarlate, cheia de nomes blasfematórios, com sete cabeças e dez chifres. A mulher estava vestida de púrpura e escarlate, adornada de ouro, pedras preciosas e pérolas. Tinha na mão uma taça de ouro, cheia de abominação e de imundície de sua prostituição. Na sua fronte estava escrito um nome simbólico: 'Babilônia, a Grande, a mãe da prostituição e das abominações da terra.' Vi que a mulher estava ébria do sangue dos mártires de Jesus; e esta visão encheu-e de espanto.
Mas o anjo me disse: 'Por que te admiras? Eu mesmo te vou dizer o simbolismo da mulher e da Fera de sete cabeças e dez chifres que a carrega. (...) Aqui se requer uma inteligência penetrante. As sete cabeças são sete montanhas sobre as quais se assenta a mulher. São também sete reis: cinco já caíram, um subsiste, o outro ainda não veio; e quando vier, deve permanecer pouco tempo. Quanto à Fera que era e já não é, ela mesma é um oitavo (rei). Todavia, é um dos sete e caminha para a perdição. Os dez chifres que viste são dez reis que ainda não receberam o reino, mas que receberão por um momento poder real com a Fera. (...)
O anjo me disse: "As águas que viste, à beira das quais a Prostituta se assenta, são povos e multidões, nações e línguas. Os dez chifres que viste, assim como a Fera, odiarão a Prostituta. Hão de despojá-la e desnudá-la. Hão de comer-lhe as carnes e a queimarão ao fogo. (...) A mulher que viste é a grande cidade, aquela que reina sobre os reis da terra.

Depois disso, vi descer do céu outro anjo que tinha grande poder, e a terra foi iluminada por sua glória. Clamou em alta voz, dizendo: 'Caiu, caiu Babilônia, a Grande. Tornou-se morada dos demônios, prisão dos espíritos imundos e das aves impuras e abomináveis, porque todas as nações beberam do vinho da ira de sua luxúria, pecaram com ela os reis da terra e os mercadores da terra se enriqueceram com o excesso do seu luxo.

Ouvi outra voz do céu e que dizia: 'Meu povo, sai de seu meio para que não participes de seus pecados e não tenhas parte nas suas pragas, porque seus pecados se acumularam até o céu, e Deus se lembrou das suas injustiças. Faze com ela o que fez (contigo), e retribui-lhe o dobro de seus malefícios; na taça que ela deu de beber, dá-lhe o dobro. Na mesma proporção em que fez ostentação de luxo, dá-lhe em tormentos e prantos. Pois ela disse no seu coração: estou no trono como rainha, e não viúva, e nunca conhecerei o luto. Por isso, num só dia virão sobre ela as pragas: morte, pranto, fome. Ela será consumida pelo fogo, porque forte é o Senhor que a condenou.

Hão de chorar e lamentar-se por sua casa os reis da terra que com ela se contaminaram e pecaram, quando avistarem a fumaça do seu incêndio. Parados ao longe, de medo de seus tormentos, eles dirão: 'Ai, ai da grande cidade, Babilônia, cidade poderosa! Bastou um momento para tua execução!'

Também os negociantes da terra choram e se lamentam a seu respeito, porque já não há ninguém que lhes compre os carregamentos: carregamento de ouro e prata, pedras preciosas e pérolas, linho e púrpura, seda e escarlate, bem como de toda espécie de madeira odorífera, objetos de marfim e madeira preciosa; de bronze, ferro e mármore; de cinamomo e essência; de aromas, mirra e incenso; de vinho e óleo, de farinha e trigo, de animais de carga, ovelhas, cavalos e carros, escravos e outros homens. Eis que o bom tempo de tuas paixões animalescas se escoou. Toda a magnificência e todo o brilho se apagaram, e jamais serão reencontrados. Os mercadores destas coisas, que delas se enriqueceram, pararão ao longe, de medo de seus tormentos, e hão de chorar e lamentar-se, dizendo: 'Ai, ai da grande cidade, que se revestia de linho, púrpura e escarlate, toda ornada de ouro, pedras preciosas e pérolas. Num só momento toda essa riqueza foi devastada!'

Todos os pilotos e todos os navegantes, os marinheiros e todos os que trabalhavam no mar paravam ao longe e exclamavam, ao ver a fumaça do incêndio: 'Que havia de comparável a essa grande cidade?' E lançavam pó sobre as cabeças, chorando e lamentando-se com estas palavras: 'Ai, ai da grande cidade, de cuja opulência se enriqueceram todos os que tinham navios no mar. Bastou um momento para ser arrasada!' Exulta sobre ela, ó céu; e também vós, santos, apóstolos e profetas, porque Deus julgou contra ela a vossa causa.

Então um anjo poderoso tomou uma pedra do tamanho de uma grande mó de moinho e lançou-a no mar, dizendo: 'Com tal ímpeto será precipitada Babilônia, a grande cidade, e jamais será encontrada. Já não se ouvirá mais em ti o som dos citaristas, dos cantores, dos tocadores de flauta, de trombetas. Nem se encontrará em ti artífice algum de qualquer espécie. Não se ouvirá mais em ti o ruído do moinho, não brilhará mais em ti a luz de lâmpada, não se ouvirá mais em ti a voz do esposo e da esposa; porque teus mercadores eram senhores do mundo, e todas as nações foram seduzidas por teus malefícios. Foi em ti que se encontrou o sangue dos profetas e dos santos, como também de todos aqueles que foram imolados da terra;

Depois disso, ouvi no céu como que um imenso coro que cantava: 'Aleluia! A nosso Deus a salvação, a glória e o poder, porque os seus juízos são verdadeiros e justos. Ele executou a grande Prostituta que corrompia a terra com a sua prostituição, e pediu-lhe contas do sangue dos seus servos.." (Apo 17-19,4)
A citação é um tanto longa, mas é necessária para que peguemos todas as referências a esta entidade. Então resumamos as suas características básicas:

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- É chamada de Grande Meretriz ou Prostituta;
- É chamada de Grande Cidade;
- Se assenta à beira de muitas águas que contaminaram os reis da terra;
- Inebriou os habitantes da terra com o vinho de sua luxúria;
- Está sentada sobre uma fera escarlate, com sete cabeças e dez chifres;
- Está vestida de púrpura e escarlate;
- Está adornada de ouro, pedras preciosas e pérolas;
- Carrega uma taça de ouro, cheia de abominações e imundícias de sua prostituição;
- Tem escrito na testa o nome de Babilônia, a Grande, mãe das prostituições e abominações da terra;
- Estava ébria com o sangue dos mártires de Jesus;
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O anjo então adverte João de que para compreender o que foi dito, é necessário ter uma inteligência penetrante, o que significa: ninguém queira tratar esses assuntos com vulgaridade e grosseria. Ele passa então a explicar os símbolos:

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- Sete cabeças - Sete montanhas - sete reis
- Dos sete reis - Cinco já caíram, um subsiste, outro ainda não veio; quando vier, fica por pouco tempo;
- O oitavo rei é a Fera; mas é também um dos sete;
- Dez chifres - dez reis que ainda não receberam o reino, mas receberão por um momento poder real com a Fera, o oitavo rei;
- Águas sobre as quais se assenta a Prostituta - povos e multidões, nações e línguas;
- Os dez chifres e a fera odiarão a Prostituta;
- A mulher ou Prostituta - Grande Cidade, a que reina sobre os reis da terra.
- Todas as nações beberam do vinho da ira de sua luxúria;
- Os reis da terra pecaram com ela;
- Os marcadores se enriqueceram com o excesso do seu luxo;
- A prostituta se dizia rainha, e não viúva;
- Será consumida pelo fogo;
- Hão de chorar por sua causa os reis e negociantes da terra;
- Ela tinha paixões animalescas;
- Nela se encontrou o sangue dos profetas e dos santos;
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Eis aí as características básicas desse ser. Vejamos a quem isso tudo se aplica.

Dissemos das três possibilidades: Roma Pagã, Roma Papal e Jerusalém. Como o propósito deste texto é analisar primeiramente se isso tudo se enquadra na Igreja Católica, comecemos por aqui.

Antes, porém, digamos de uma estratagema comum usado pelos acusadores da Igreja: eles consideram-na uma continuação do Império Romano. Assim, todas as referências do texto que digam respeito inequivocamente à Roma Pagã, eles entenderão como uma confirmação de que se refere à Roma Papal. Veremos também se há, de fato, uma continuidade entre os dois.

A primeira dificuldade aqui é que, mesmo sabendo que o sentido todo é simbólico, conforme o próprio anjo diz, os acusadores da Igreja se valem de uma leitura literal de várias figuras, como, por exemplo, do cálice dourado, das cores púrpura e escarlate, da riqueza, e alguns outros ainda da Prostituição.


É A IGREJA CATÓLICA A PROSTITUTA?



Entendamos, pra começar, o que é esta prostituição de que se fala. Não se trata de impureza sexual, mas de contaminação com o paganismo ou com doutrinas estranhas à estabelecida por Deus. Deus, na Sua relação com Israel, se compara sempre com um esposo a quem Israel, em voltar-se para os ídolos, trata com infidelidade. Por causa disso, Ele sempre acusa Jerusalém de ser uma prostituta (Cf. Jer 13,27).

Isso não é ponto polêmico, pois todo o protestantismo que acusa a Igreja de ser esta entidade aceita esta interpretação. Em seguida, eles costumam atacar a Igreja dizendo que ela se corrompeu com o Império Romano, tornando-se idólatra e ensinando esta idolatria ao mundo. Nisto consistiria a sua prostituição. Mas será que tal se dá?

Quando foi que a Igreja deixou de ter uma relação conflituosa com o Império Romano? Isto ocorre no século IV, quando Constantino fez cessar a perseguição aos cristãos, em 313 d.C. O motivo foi o seguinte: indo para uma guerra contra o seu rival Maxêncio, ele teria visto um sinal no céu: uma Cruz e a inscrição latina "in hoc signo vinces", que significa: "com este sinal, vencerás". De fato, ele vence a batalha, e, por isso, dá aos cristãos, que eram perseguidos desde o primeiro século, liberdade de culto. Porém, somente com o imperador Teodósio I, o cristianismo se tornará a religião oficial do Império, com o Edito de Tessalônica, em 380 d.C.

É importante destacar o seguinte: no século IV, o cristianismo já estava distribuído no mundo todo. Uma grande novidade em termos doutrinais levantaria uma imensa resistência geral. É conveniente relatar também que, por causa de uma matança em Tessalônica a mando de Teodósio, o bispo de Milão - na época, chamada Mediolano -, Santo Ambrósio, o excomungou e escarneceu em público, proibindo-lhe entrada na igreja, ao que Teodósio necessitou fazer longa penitência a fim de poder reaver seu direito como cristão. Vejamos o que diz disso o historiador do Séc. V, Teodoreto de Cirro:


“Tessalônia é uma cidade grande e populosa na província da Macedônia. Por causa da revolta que aconteceu lá, o Imperador [Teodósio] irou-se sobremodo e satisfez seu desejo por vingança desembainhando a espada de maneira injusta e tirânica contra todos – inocentes e culpados. É dito que sete mil pereceram sem qualquer base legal ou sentença judicial, mas que foram todos cortados como espigas de trigo no tempo da colheita.
Quando Ambrósio ouviu falar desta deplorável catástrofe, saiu para se encontrar com o Imperador que, em seu retorno a Milão, desejou, como de costume, entrar na santa igreja. Mas Ambrósio proibiu sua entrada dizendo: ‘Parece que tu não percebes, ó Imperador, o tamanho da tua culpa por um tão grande massacre. Agora que tua fúria foi apaziguada, não vês o tamanho do teu crime? Não se deslumbre com o esplendor da púrpura que tu vestes para que não te esqueças da fraqueza do corpo que ela cobre. Teus súditos, ó Imperador, são da mesma natureza que tu és. E não somente isto. Também são servos como tu és, pois só há um único Senhor e Governador sobre todos, Aquele que é o Criador de todas as criaturas, tanto do príncipe quanto do povo. Como ousas tu olhar para o templo d’Aquele que é o Senhor de todos? Como podes tu erguer as mãos para orar estando mergulhado no sangue de um massacre tão injusto? Vá embora em vez de se tornar ainda mais culpado por um segundo crime’.
O Imperador, que havia sido criado no conhecimento das Sagradas Escrituras e conhecia bem a distinção entre o poder eclesiástico e o poder temporal, se submeteu à censura e, com muitas lágrimas e gemidos, voltou ao seu palácio. O Imperador se trancou em seu palácio e chorou muito. Depois de diversas tentativas sem sucesso de apaziguar Ambrósio, o próprio Teodósio finalmente se encontrou com Ambrósio em particular e implorou por misericórdia dizendo: ‘Eu imploro que, em consideração à misericórdia de Nosso Senhor em comum, me libertes destas cadeias e que não feches a porta que é aberta pelo Senhor para todos que verdadeiramente se arrependem’. Ambrósio estipulou que o Imperador provasse seu arrependimento revogando diversos decretos injustos e especialmente ‘que quando uma sentença de morte ou proscrição fosse assinada contra alguém, deveria haver um espaço de trinta dias antes da execução e, durante esse tempo, o caso deve ser trazido a ti. Isso lhe dará tempo para se acalmar, para que possas pensar sobre o caso com justiça’. O Imperador deu ouvidos ao seu conselho e achou excelente. Ele imediatamente ordenou que a lei fosse elaborada e ele mesmo assinou o documento. Ambrósio, então, o readmitiu a comunhão.

O Imperador, que estava cheio de fé, agora tomou coragem de entrar na santa igreja, na qual ele não orou de pé ou ajoelhado, mas lançou-se ao chão. Ele puxava os cabelos, batia na testa e chorava muito enquanto implorava pelo perdão de Deus. Ambrósio restaurou seu favor, mas o proibiu de entrar no gradil de comunhão, ordenando que seu diácono lhe dissesse: ‘somente os presbíteros, ó Imperador, tem permissão para ultrapassar o gradil de comunhão. Se retire, então, e fique com os outros leigos. A púrpura faz o Imperador, mas não os presbíteros…” Teodósio humildemente obedeceu e elogiou Ambrósio dizendo: “Ambrósio somente merece o título de ‘bispo’“. (História Eclesiástica, V.17-18, Disponível Aqui)

Não contrasta a alegada submissão da Igreja ao Império Romano com o fato aí descrito? Só por este acontecido, largamente reconhecido, pode-se objetar qualquer tipo de suposta subserviência que a Igreja teria tido ao Império. E não convém pensar, também, que Ambrósio fosse o único bispo honesto. Pelo contrário, basta um pouquinho de esforço para perceber que todo o clero cristão dessa época era de uma santidade eminente.

Depois, se de fato a Igreja se prostituiu com o Império Romano, e se isto só é possível de ter ocorrido no século IV, basta fazer-se um estudo sobre o que cria a Igreja durante os quatro primeiros séculos. Ver-se-á, então, que, longe de diferir, a Igreja já era basicamente a mesma que é hoje, com bispos, dioceses, padres, e suas crenças fundamentais.: divindade de Jesus, Ss Trindade, observância do Domingo, culto aos santos e mártires, culto especial à Virgem Maria, prática da confissão auricular, batismo de crianças, imagens, Santa Missa, etc. Nada falta! É absurdo, portanto, falar de prostituição da Igreja com o Império Romano. Veja ainda o que diz Jonathan Edwards:

“Deus agora se manifestou para executar juízos terríveis sobre seus inimigos. Os registros históricos fornecem relatos surpreendentes do quão terrível foi fim de imperadores, príncipes, generais e capitães pagãos, que se empenhavam na perseguição de cristãos; morrendo miseravelmente, um após o outro, sofrendo estranhos tormentos do corpo, horrores na consciência, com a mão de Deus visivelmente pesando contra eles. O paganismo foi, em grande medida, abolido por todo o Império Romano… A Igreja Cristã foi conduzida a um estado de grande paz e prosperidade…. Satanás, o príncipe das trevas, o rei e deus dos pagãos estava sendo derrubado. O leão que ruge foi conquistado pelo Cordeiro de Deus, no mais forte domínio que ele já teve… (...) O Evangelho prevalecendo da maneira que fez contra uma oposição tão forte demonstra claramente a mão de Deus. O governo romano que, com tanta violência, trabalhou para impedir o sucesso do Evangelho e para destruir a Igreja de Cristo, foi o Império mais potente que já havia aparecido no mundo; e não somente isso, mas também pareciam ter a Igreja nas mãos. Os cristãos que estavam sob seu domínio nunca pegaram nas armas para se defender, se armaram unicamente com a paciência e armas espirituais. Ainda assim, essa grande potencia não podia conquistá-los, mas o Cristianismo é que prevaleceu. O Império Romano havia dominado muitos reinos poderosos; eles dominaram a monarquia Grega, apesar desta ter resistido ao máximo. Mas não foram capazes de conquistar a Igreja em suas mãos. Pelo contrário, a Igreja triunfou e prevaleceu”. (A History of the Work of Redemption, “The Success of Redemption from the Destruction of Jerusalem, to the Time of Constantine”, Disponível aqui.)

Não há, portanto, NENHUMA evidência de "prostituição" doutrinal da Igreja com Roma. Como se vê, muito pelo contrário.


Usa-se também a referência "está vestida de púrpura e escarlate" para indicar a cor das vestes litúrgicas dos bispos e cardeais. 

Porém, as cores "púrpura" e "escarlate" não indicam cores literais, mas significados simbólicos. Elas contrastam com as "vestes brancas", que simbolizam pureza. Vejamos:

Apo 3,5 - "O vencedor será assim revestido de vestes brancas. Jamais apagarei o seu nome do livro da vida, e o proclamarei diante do meu Pai e dos seus anjos."

Apo 3,18 - "Aconselho-te que compres ouro provado ao fogo, para ficares rico; roupas alvas para te vestires, a fim de que não apareça a vergonha de tua nudez";

Apo 7,9 - "Depois disso, vi uma grande multidão que ninguém podia contar, de toda nação, tribo, povo e língua: conservavam-se em pé diante do trono e diante do Cordeiro, de vestes brancas e palmas na mão."

Apo 3,4 - "Todavia, não contaminaram suas vestes; andarão comigo vestidas de branco, porque o merecem."

Dn 7,9 - "Continuei a olhar, até o momento em que foram colocados os tronos e um ancião chegou e se sentou. Brancas como a neve eram suas vestes."

Agora contrastemos isso com este texto:

"Se vossos pecados forem escarlates, tornar-se-ão brancos como a neve! Se forem vermelhos como a púrpura, ficarão brancos como a lã! (Isa 1,18)

Aqui as cores claramente simbolizam o pecado e a pureza. O vermelho e o escarlate, cores gritantes, contrastam com a placidez do branco. É óbvio que literalmente Deus não tem vestes.

Assim, as cores vermelho e púrpura das vestes da Prostituta simbolizam a intensidade da sua prostituição e do seu pecado. Mas será que isto pode mesmo simbolizar a Igreja?  Obviamente, como é feita de homens, estes pecam. Assim como os 12 apóstolos pecavam. Mas não há possibilidade de falar que a Igreja enquanto tal, isto é, em virtude de sua essência, foi promovedora de pecados escarlates. De fato, houve papas bons e maus, assim como clérigos bons e maus. Alguns foram bastante pecadores, mas isso nunca foi uma regra na Igreja, de modo que não há homogeneidade no mal. Os pecados que se deram não se destacaram tanto quanto se quer fazer pensar, nem foram promovidos pela Igreja de modo proposital. E aqui há que se perguntar: a que se referem os acusadores? Provavelmente, citarão certas imoralidades perpetradas inclusive por Sumos Pontífices. No entanto, nunca poderão fazer disso uma regra, senão circunstâncias muito pontuais. Não é, porém, o que ocorre com a Prostituta do Apocalipse. E o que dizer dessa vista grossa suspeita para a imensa quantidade de santos, cujas vidas se elevaram a alturas tão vertiginosas que os líderes protestantes sequer conseguem acompanhar com os olhos?

Depois, há que se dizer que o "roxo" e o "vermelho" não são as cores principais do clero católico. Todos os padres vestem preto, se estão de batina, ou branco e outras cores, quando estão celebrando. Os bispos e cardeais, quando celebram, variam as cores a depender do tempo litúrgico. Elas podem ser o roxo (celebrações penitenciais, quaresma, finados, advento), o vermelho (memória dos mártires, Pentecostes), o branco (festas em geral), o azul (celebrações marianas) ou o verde (tempo comum). Sem celebrar, usam vestes pretas, e faixas roxas (bispos) e vermelhas (cardeais), ou murças roxas (bispos) ou vermelhas (cardeais). 

Cardeais com túnicas e murças vermelhas

Bispos e cardeais com batinas pretas e faixas e solidéus roxos (bispos) e vermelhos (cardeais)
Padre com batina, veste ordinária

Casulas usadas apenas para celebrações


O roxo sempre representa sobriedade, penitência, conversão. O vermelho, por sua vez, indica o sangue dos mártires, o de Cristo e também a disposição em dar o próprio sangue. Já a cor das vestes papais é toda branca. É óbvio que se João quisesse referir-se à Igreja, teria variado bastante nas cores, referindo-se principalmente ao branco e ao preto, ou teria principalmente mencionado a cor do Papa, o branco. Como vimos, porém, o branco é a cor dos remidos.

Por fim, em se tratando de vestes literais, é fato que Deus mesmo ordenou que, nas cerimônias litúrgicas de Israel, as vestes sacerdotais fossem roxo e escarlate (Ex 28,4-8, 15, 33; 39,1-8, 24, 29).

Próximo ponto.


"Nela se encontrou o sangue dos profetas e dos santos".

Geralmente, quando se trata disso, o imaginário protestante é imediatamente levado às cenas da Inquisição, o que não deixa de ser interessante, tendo em vista a total ignorância no assunto por parte da extrema maioria deles. Os que, ao invés, se detêm em estudar um pouco que seja este tema, rapidinho abandonam tais devaneios.



Dentre os hereges condenados pela Inquisição, se encontravam principalmente os cátaros, uma variante do maniqueísmo. Mas também havia outras correntes, como os huguenotes, na França, e os albigenses, bastante semelhantes aos primeiros, nos países baixos, Alemanha, Lombardia e sobretudo na França.

Vamos ver quem eram cada um desses? Depois, vocês mesmos me dirão se eles podem ser chamados de santos.

Cátaros e Albigenses são basicamente os mesmos. A denominação distinta dependia dos lugares. Foi basicamente por causa deles que o Tribunal da Inquisição começou a "trabalhar". No que criam? Dissemos que era uma variante do maniqueísmo. Comecemos então definindo o que é o maniqueísmo: tipo de gnosticismo que afirma existirem dois princípios substanciais: o bem e o mal. Esses dois princípios são duas divindades, uma boa e outra má. A divindade boa criou o mundo dos espíritos. A divindade má criou o mundo material e aprisionou o espírito humano dentro de um corpo físico. Conclusão: a matéria é má e é preciso redescobrir o meio de despertar a nossa verdadeira natureza, a centelha divina que está presa dentro do invólucro corporal. Para isto, é preciso conhecer um segredo oculto: a gnose. Este segredo nos foi dado por Jesus, que havia ensinado como fazer para adquirir a liberação.

Jesus, porém, não foi verdadeiro homem, pois ser homem é ser material. Logo, não é verdade que ele se encarnou. Tampouco morreu, nem ressuscitou, pois todas essas coisas promovem a matéria. Vão observando quem são os pretensos santos. Para eles, o Deus do Antigo Testamento é o Deus mau, Satanás. O Deus do Novo Testamento é que é bom.

Em termos práticos, isso fazia com que eles condenassem as relações sexuais, que identificavam com o Pecado Original, e sobretudo o casamento, que era como uma legitimação das torpezas e imoralidades. Consideravam que as mulheres grávidas eram tipos de possessas, pois carregavam o mal na barriga, e chegavam a assassiná-las. Pregavam o suicídio por inanição, numa prática chamada endura, e que impunham até às crianças. Há uma fonte que afirma que os cátaros morreram mais disso do que por qualquer iniciativa da Inquisição. Além disso, invadiam e incendiavam propriedades. Como eram geralmente identificados como religiosos, a Igreja era chamada para intervir e evitar a justiça com as próprias mãos por parte dos civis. Foi numa dessas ocasiões que o Papa Inocêncio III enviou o seu delegado, Pierre de Castelnau, para pregar no sul da França. Na volta, porém, ele foi assassinado por quem? Pelos cátaros. Este incidente motivou a chamada Cruzada dos Albigenses. As idéias cátaras estavam se espalhando de modo terrivelmente rápido, urgindo uma intervenção. Historiadores insuspeitos, como o protestante Henry C. Lea, afirmam que, se nada fosse feito, eles teriam levado a civilização ocidental a um colapso. Santos Cátaros? Só numa cabeça doente.

E os huguenotes? Seriam coisa boa? Seriam santos? Vejamos.

A seita começou em Paris, e foi exterminada na Noite de São Bartolomeu que, ao contrário do que se diz, não teve nenhum tipo de participação da Igreja, conforme você pode ver nesta série de artigos a respeito:


Mas, ainda assim, vejamos quem eram os tais.

Os huguenotes defendiam o Calvinismo e viviam do calor provocado pela revolta de Lutero. Sobre aqueles dias, escreve o historiador francês Jorge Gandy:


"O calvinismo envolvia a França numa rede de conspirações. Em 1562, seus partidários sublevaram-se, ao mandado de seus chefes, com uma simultaneidade assustadora. Em 1567, pôde-se verificar juntamente o alcance e a rapidez de suas manobras. Neste ano, as ruas de Nimes foram ensanguentadas por uma das mais odiosas São Bartolomeus protestantes, a qual se chamou a Miguelada, efetuada pelos huguenotes, de sangue frio, de caso pensado, sem provocação da parte dos católicos, a 30 de setembro, no dia seguinte à festa de São Miguel. Trezentos cadáveres foram precipitados num grande poço, no pátio do palácio episcopal. Contra este fato, os protestantes organizaram a conspiração do silêncio. Contudo, o nefando crime é confessado por alguns deles. Além disso, a Miguelada não foi um fato isolado, mas o efeito de uma conspiração tramada contra a França." (Revue des questions historiques, 1866, t. I. - J.-J. Fauriel, Essai sur les événements qui ont précédé la Saint-Barthélemy (thèse))


Carlos Buet, por sua vez, comenta:

"As catedrais, as igrejas, os conventos, as capelas e até as bibliotecas e os hospitais são destruídos, saqueados, roubados, profanados. Como os bárbaros, os protestantes apoderam-se de todas as riquezas do culto, quebram as estátuas, dilaceram as pinturas... Pelas mãos deles, os bispos, os sacerdotes, os frades de qualquer ordem são mortos, insultados ou expulsos. As populações, fiéis ao culto de seus pais, são submetidas aos mais cruéis tratamentos. Só na Beauce, os calvinistas triunfantes destruíram trezentas igrejas. Em toda a França, contam-se cento e cinquenta catedrais ou abadias completamente arruinadas" (François_de Guise)

Os hereges não queriam apenas um lugar ao sol, como se costuma dizer. Pelo contrário, eles atacavam de armas na mão. Pouco se fala das Inquisições Protestantes, essas sim, uma cena dramática de carnificina e ódio. Não à toa a Igreja, por vezes, tinha de intervir com o braço secular. Mas falaremos disso mais adiante.

E o que dizer dos famosos reformadores mortos pela Inquisição?

John Huss, Zwinglio, Lutero, Wycliffe?

Comecemos por este último? Bom, é breve: Wycliffe morreu de morte natural. Próximo.

Lutero? Suicida. Próximo.

Zwinglio? Convocou uma luta armada na Suiça e morreu em combate.

Vamos então a John Huss. Esse de fato morreu na Inquisição. Observemos em quais circunstâncias.




Jan Husinecký, ou o seu correspondente latino, Johannes de Hussinetz., foi o fundador dos hussitas, e defendia as idéias de Wycliffe. Dentre as bandeiras propagadas pelo sr. Huss, estavam:

a) Negação das indulgências;

b Negação do purgatório;

c) Negação do papado; 

d) Negação da realidade da transubstanciação, professando a novidade luterana da empanação;

e) Dizia que os fiéis não estavam submissos à autoridade civil a menos que estas estivessem em estado de graça. 

Além disso tudo, ele era visto como um líder boêmio contra os interesses do rei, de modo que as suas posições tinham fortes repercussões políticas. A época também é particularmente caótica, e conhecida como o Grande Cisma do Ocidente: havia três pretensos papas, todos falsos: João XXIII, Bento XIII e Gregório XII, cada um apoiado por sua própria região e grupos de poder. O Concílio de Constança teve seu início durante esse processo complicado, e, a partir de um sistema de votações, foi destituindo um a um os supostos pontífices, chegando, depois, a estabelecer um novo Papa: Martinho V, que restaurou a unidade da Igreja. No meio dessa briga político-religiosa, a negação da autoridade papal afirmada por Huss tinha fortes ecos políticos. João XXIII chegou a excomungá-lo, mas sem incluir nisso sanções civis, como que a adverti-lo para que ficasse quieto. Mas nada feito. Huss apareceu no concílio a fim de defender suas teses, sob um salvo conduto do Imperador, que, no entanto, não o evitou de ser considerado herege e de ser preso. Diz-se que o Impeador, sob a alegada afirmação de que não queria se opor à Igreja, achou nisso um conveniente para cessar a voz de um seu perseguidor político. Por dois meses e meio fizeram um exame geral dos escritos de Huss, durante os quais ele continuou a pregar e escrever sob prisão domiciliar no Castelo de Gottlieben.

A 6 de Julho de 1415, John Huss, depois de se ter negado a renunciar aos próprios erros, aceitou a pena civil da execução na fogueira.

Há que se dizer que o Papa Martinho V só foi eleito dois anos depois. Ou seja: John Huss morreu no cume da confusão. Portanto, não se deve dizer que este foi um evento típico na Igreja.

Mas reflitamos um pouco no significado da Heresia.

O termo, do grego Haeresis, faz referência ao ato de escolher, num corpo de doutrinas, aquelas às quais se vai aderir, estabelecendo a consciência individual como autoridade máxima em religião, atitude que é a raiz do subjetivismo e individualismo moderno.

Na Idade Média, a Heresia não era apenas um pecado moral individual, mas era considerado crime civil - algo que pode ser comparado, na indignação que despertava no povo, ao atual crime de pedofilia - e, além disso, era tido como crime de lesa majestade, isto é, contra o Rei, Deus. Toda a sociedade medieval era teocêntrica. Uma heresia implicava em turvar a revelação que Deus havia feito de si mesmo. Isto provocava de um lado uma ofensa a Ele, e de outro expunha as almas à condenação eterna. A heresia era dita matar a alma. Como o homem medieval tinha, sobretudo, o ideal da salvação, os hereges lhes apareciam como inimigos-mor do povo e de Deus. Frequentes eram as execuções levadas a termo pelos próprios civis, e, se a Igreja intervinha, frequentemente ela minorava o rigor com que os hereges eram tratados, inclusive poupando-os da morte na imensa maioria das vezes. O Rei Luís VII, da França, em 1162, ainda antes da Inquisição, mas já numa situação insuportável por conta dos hereges, escreve ao Papa Alexandre III: 

"Vossa sabedoria preste atenção toda particular a esta peste e a suprima antes que se possa agravar. Eu vos suplico pela honra da Fé cristã, dai nesta causa toda a liberdade ao Arcebispo (de Reims), êle destruirá aqueles que assim se levantam contra Deus, sua severidade justa será louvada por todos os que, nesse país, estão animados de genuína piedade. Se Vós agirdes de outro modo, os murmúrios não se aquietarão e desencadeareis contra a Igreja Romana as veementes censuras da opinião." (Dictionnaire de Théologie Catholique, Paris, 1923)

Somente quase cem anos depois é que a Inquisição entrará em cena. Ela era vista, pelos criminosos em geral, como um tribunal justo, ao ponto de vários deles, presos por crimes civis, inventarem logo em seguida um crime de heresia para que pudessem ser transferidos e julgados pela Inquisição. Isso ocorreu, por exemplo, com os Templários, na França, mas o seu pedido foi indeferido. Além disso, a Inquisição deixava à disposição dos acusados um advogado de defesa, era feita uma profunda investigação sobre os fundamentos da acusação; se o acusador fosse provado ser falso, ele era quem pagava a sanção. Se em qualquer fase do processo o réu se arrependia dos seus delitos, os confessava e renunciava as suas posições, ele era perdoado e escapava da pena capital. A Inquisição representou ainda um grande avanço nos sentido humanitário. Todos os tribunais civis do mundo faziam amplo uso da tortura. A Igreja quase a excluiu de vez. Permitia que fosse aplicada apenas uma vez, sem derramamento de sangue e na presença de um médico, e a confissão sob tortura só era válida se confirmada posteriormente, sem tortura. Em 200 anos, a tortura foi aplicada apenas 3 vezes. As prisões da Inquisição eram muito mais dignas do que as civis. As punições mais comuns eram penitências pessoais - como os "autos da fé" - peregrinações, expropriação de algum pertence, etc. Dentre as poucas execuções penais, várias delas eram apenas simbólicas, com bonecos sendo queimados.

O crime de heresia, como contaminava socialmente - a exemplo dos cátaros -, e expunha muitas almas ao perigo do erro e da apostasia, ameaçando-lhes do inferno - que, no imaginário medieval, era muito real, e certos estavam eles - exigia que a Igreja, ciosa dos seus filhos, agisse como mãe detendo o perigo. A morte física não é o maior perigo a não ser para uma sociedade materialista, como a nossa. Este materialismo instaura necessariamente a covardia, o interesse, o egoísmo, e a ditadura dos prazeres, que é o que vivemos. A consequência é uma redução drástica do alcance da consciência e a vedação, total ou parcial, do senso da transcendência. O bom senso, porém, não está no lado de cá, mas no de lá. Os protestantes que acusam a Igreja, como são supostamente dotados desse senso do sagrado, fariam bem de refletir um pouco sobre essas coisas.

E nos contentamos apenas a afirmá-las, sem entrar em maiores detalhes, porque o artigo não é sobre o assunto. Mas disponibilizamos os seguintes textos a respeito:


Os Arquivos da Inqusição, que contêm a maior quantidade de fontes primárias, foram abertos oficialmente em 1998, pelo Papa João Paulo II, o que inspirou um Simpósio Internacional de Historiadores sobre a Inquisição, presidido por Rino Cammilleri, escritor e jornalista italiano, que, depois, escreveu o livro "A verdadeira história da Inquisição".




Rino, nesta obra, escreve: "Em 50 000 processos inquisitoriais uma ínfima parte levaram à condenação à morte, e dessas só uma pequena minoria produziu efetivamente execuções".

Ele diz ainda que em Toulouse, onde a Inquisição ocorreu de modo mais forte, "houve apenas 1% de sentenças à morte".

Ou seja, longe de ser o que dizem os devaneios da Renascença, escritos por mentirosos confessos, como Diderot, Voltaire et caterva, e que são não obstante assumidos hoje como as mais confiáveis testemunhas por livros do MEC e protestantes incautos, a Inquisição foi um tribunal justo. Excessos existiram cá e lá, pois, na inexistência de telefones, internet e estradas, era complicado que Roma desse conta de inspecionar todos os lugares de uma vez. Às vezes uma determinação papal demorava um ou dois anos para chegar num dado vilarejo. Clérigos aqui e ali não raro se corrompiam por interesses políticos, e essas coisas de fato influenciavam no andamento de alguns processos. Contudo, isso nunca foi uma lei. O senso moral, tanto dos padres quanto dos fiéis, levado a alturas singulares pela educação cristã, não permitia que tal se desse. É de uma ingenuidade desonesta afirmar que os homens medievais eram todos tolos. Qualquer historiador especialista haverá de afastar de uma vez para sempre a cômica e ridícula pecha de "idade das trevas".

Diga-se, por fim, mais duas coisas. A Inquisição é mais conhecida, nos seus excessos violentos, pelo que se deu na Espanha, com Torquemada. Ocorre, porém, o seguinte: a Inquisição Espanhola não foi um tribunal da Inquisição Eclesiástica, mas do poder régio. Inclusive os inquisidores de lá, de novo movidos por interesses políticos, foram diversas vezes ameaçados de excomunhão pela Igreja. E, ainda assim, a violência ventilada pelos inimigos da Igreja está longe de ser verdadeira. Um estatístico afirmou que as bicicletas infantis são 14 vezes mais letais do que a Inquisição Espanhola, isto é, ocorrem 14 vezes mais acidentes letais com crianças por causa das bicicletas infantis do que réus que eram condenados à pena capital pela Inquisição Espanhola.

Rino, na obra supracitada, esclarece: "As fontes históricas demonstram muito claramente que a inquisição recorria à tortura muito raramente. O especialista Bartolomé Benassa, que se ocupou da Inquisição mais dura, a espanhola, fala de um uso da tortura 'relativamente pouco frequente e geralmente moderado.'"

A outra coisa é: a Revolução Francesa matou mais pessoas em uma só semana do que todos os mil anos de Inquisição, e isto também é facilmente comprovado. No entanto, quais são os valores que norteiam a vida contemporânea? Exatamente aqueles da Revolução Francesa, elencados por Roberpierre: "Liberdade, Igualdade, Fraternidade - ou a Morte." Idéias profundamente ideológicas que escondem, sob o verniz arco-íris, o vermelho vivo do sangue e o negro profundo do inferno.

Como se viu, os "santos" mortos pela Inquisição não eram tão santos assim, nem a Inquisição pode ser acusada de "derramar o sangue dos santos", como se vivesse a matar gente. Convido o amigo leitor, católico, protestante, agnóstico ou ateu, a nos trazer nomes específicos de supostos santos que teriam morrido pelas mãos da Inquisição. A Prostituta do Apocalipse está bêbada com o sangue deles, o que indica que têm de ser muitíssimos. Pois bem, tragam-nos dados e nomes. Fazer uma alegação dessas baseados em nada, ou melhor, em mentiras - que são menos que nada - da Renascença e do Iluminismo, inimigos que são da religião, é desonestidade, levantamento de falso testemunho e prestação de serviço à mentira. Não se pode pretender que a leitura correta do apocalipse deva se fundamentar nestas lorotas. Afinal, o anjo disse que, para entender os símbolos, é necessário uma inteligência penetrante, e não um caráter flatulante.

Fábio.

Virgem Maria - A Nova Arca da Aliança - Dr. Scott Hahn


CANTAM OS ANJOS ARAUTOS DA ARCA

Para os judeus do primeiro século, o choque do Apocalipse foi certamente o relato de João no final do capítulo 11. É aí então que, após ouvir os toques das sete trombetas, João vê o templo no céu aberto (Ap 11,19) e, dentro dele, um milagre!- A Arca da Aliança.

Essa teria sido a notícia do milênio! A Arca da Aliança, o objeto mais sagrado do antigo Israel, estava desaparecida havia seis séculos. Por volta de 587 a.C., o profeta Jeremias escondeu a arca, a fim de preservá-la da corrupção, quando os invasores babilônicos chegaram para destruir o Templo. Podemos ler essa história no segundo livro dos Macabeus:

No momento em que chegou, [Jeremias] descobriu uma vasta caverna, na qual mandou depositar a arca, o tabernáculo e o altar dos perfumes; em seguida, tapou a entrada. Alguns daqueles que o haviam acompanhado voltaram para marcar o caminho com sinais, mas não puderam achá-lo. Quando Jeremias soube, repreendeu-os e disse-lhes que esse lugar ficaria desconhecido até que Deus reunisse seu povo e usasse com ele de misericórdia. Então, revelará o Senhor o que ele encerra e aparecerá a glória do Senhor com uma densa nuvem. (2Mc 2,5-8)

Quando Jeremias fala da "nuvem", ele quer dizer a shekinah, ou seja, a nuvem de glória, que envolvia a Arca da Aliança, a qual significava a presença de Deus. Dentro do templo de Salomão, a arca ocupava o Santo dos Santos. Na verdade, era a arca que fazia daquele lugar do santuário o mais sagrado de todos os lugares. A Arca da Aliança trazia as tábuas da Lei, nas quais o dedo de Deus havia escrito os dez mandamentos e um pouco do maná, o pão caído do céu que Deus havia dado ao seu povo durante sua permanência no deserto. Trazia também em seu interior a vara de Aarão, o símbolo de seu ofício sacerdotal.

Feita de madeira de acácia, a arca tinha forma de uma caixa, coberta com ornamento de ouro e dois querubins esculpidos em suas extremidades. No topo da arca estava o propiciatório, sempre desobstruído. De pé diante da arca, dentro do Santo dos Santos*, ficava a menorah, um candelabro de sete braços.

Contudo, os primeiros leitores judeus do Apocalipse sabiam desses detalhes só da história e da Tradição. Desde a época de Jeremias, o esconderijo da arca nunca tinha sido encontrado e a reconstrução do templo não contava com a arca em seu Santo dos Santos, nem com a shekinah, nem maná, nem querubins no propiciatório.

Então, vem João dizendo ter visto a shekinah (a "glória de Deus", Ap 21,10-11.23) e o mais incrível de tudo, a Arca da Aliança.


MARIA TINHA UM PEQUENO CORDEIRO

Jesus prepara seus leitores de várias maneiras para o aparecimento da arca, a qual se revela, por exemplo, após o toque da sétima trombeta do sétimo anjo vingador, numa clara alusão ao Israel da Antiga Aliança. Na primeira e maior batalha que Israel lutou ao entrar na terra prometida, Deus ordenou ao povo eleito para carregar a arca à frente deles para o combate. Especificamente, a passagem de Apocalipse 15,11 ecoa Josué 6,13, que descreve como, durante seis dias, os quais antecederam a Batalha de Jericó, os sete sacerdotes guerreiros de Israel marcharam ao redor da cidade com a Arca da Aliança até que, no sétimo dia, eles tocassem as trombetas, fazendo ruir os muros da cidade. Para o antigo Israel, a arca foi, em certo sentido, a arma mais eficaz, pois representava a proteção e o poder de Deus Todo-Poderoso. Do mesmo modo, o Apocalipse mostra que o novo e celeste Israel também combate a batalha na presença da arca.

Como seria de se esperar, a arca aparece com espetaculares efeitos especiais: "Abriu-se o templo de Deus no céu e apareceu, no seu templo, a Arca da sua Aliança. Houve relâmpagos, vozes, trovões, terremotos e granizo." (Ap 11,19)

Imagine que você é um leitor do primeiro século, criado como um judeu. Você nunca viu a arca, mas a religião e toda a sua educação religiosa lhe ensinaram a todo instante sobre a restauração do templo. João a realiza antecipadamente, de modo que quase parece estar provocando seus leitores ao descrever o som e a fúria que acompanhavam a arca. A dramática tensão se torna quase insuportável. O leitor quer ver a arca como João a vê.

O que se segue, então, é chocante! Nas nossas bíblias atuais, depois de todo esse desenvolvimento, a passagem, de repente, dá uma parada brusca como o capítulo 11 a conclui. João nos promete a arca, mas parece pôr em cena um final abrupto. Devemos ter em mente, entretanto, que as divisões em capítulos no Apocalipse, bem como em todos os livros bíblicos, é artificial, feita por escritores na Idade Média. Logo, não há capítulos no livro original de João; tudo era uma narrativa contínua.

Assim, os efeitos especiais do final do capítulo 11 serviram como um prelúdio imediato para a imagem que, agora, aparece no capítulo 12. Podemos ler essas linhas juntos como que descrevendo um único evento: "Abriu-se o templo de Deus no céu e apareceu, no seu templo, a arca da sua aliança [...]. Apareceu em seguida um grande sinal no céu: uma Mulher revestida do sol, a lua debaixo dos seus pés e na cabeça uma coroa de doze estrelas. Estava grávida e gritava de dores, sentindo as angústias de dar à luz". (Ap 11,19-12,1-2).

João nos mostra a Arca da Aliança... e é uma mulher.

Na verdade, o Apocalipse pode parecer estranho. Anteriormente, nós vimos uma noiva que aparecia como uma cidade; agora, nós vemos a arca que aparece como uma mulher.


LINHAS DE BATALHA

Quem é essa mulher que é também uma arca? A maioria dos exegetas concorda que, num primeiro nível pelo menos, essa mulher (como a noiva de Apocalipse 19) representa a Igreja, que trabalha para dar à luz os seus filhos que creem, em todas as épocas. No entanto, é pouco provável que a mulher descrita por João seja, exclusive ou mesmo principalmente, para representar a Igreja. O cardeal Newman nos oferece um argumento convincente a respeito do porquê essa personificação não ser suficiente na leitura de Apocalipse 12.

A imagem da mulher, segundo as Escrituras geralmente em uso, é muito ousada e importante para uma mera personificação. A Escritura não é muito favorável às alegorias. De fato, temos várias figuras lá, quando, por exemplo, nos fala do braço ou da espada de Deus; assim, também, quando fala de Jerusalém ou da Samaria, no feminino, ou da Igreja como uma noiva ou como a videira. Mas a Escritura não é muito dada a tecer idéias abstratas ou generalizações de atributos pessoais. Esse é o estilo clássic, e não o da Escritura. Xenofonte colocou Hércules entre a Virtude e o Vício, representados como mulheres.

Realmente a mera personificação não parece corresponder ao método de São João durante todo o episódio com a mulher. Ele pode apresentar outros personagens fantásticos que podem assumir certas idéias, mas não há dúvida de que eles também são pessoas reais. Por exemplo, poucos exegetas questionam a identidade do "filho varão", a que a mulher dá à luz (Ap 12,5). Dado o contexto do Apocalipse, este menino só poderia ser Jesus Cristo. São João nos fala que a criança "há de reger todas as nações com cetro de ferro", e isso, claramente, é uma referência ao Salmo 2,9, que descreve o rei messiânico prometido por Deus. João também acrescenta que esta criança "foi arrebatada para Deus e para o seu trono", o que só pode se referir a Jesus que subiu aos céus.

O que é verdade para o menino também o é para o seu inimigo, o dragão. João afirma claramente que o dragão não é apenas uma alegoria, mas uma pessoa específica: "a primitiva serpente, chamada Demônio e Satanás, o sedutor do mundo inteiro." (Ap 12,9)

De modo semelhante, o aliado do dragão, a "besta saindo do mar" (Ap 13,1), também corresponde a uma pessoa real. Observemos essa besta horrível e, depois, olhemos para trás, na história, a fim de vermos o que João viu. A besta tem "dez chifres e sete cabeças, com dez coroas sobre os chifres e um nome blasfemo sobre sua cabeça". A partir do capítulo 7 do livro de Daniel, sabemos que, em profecia, tais bestas geralmente representavam dinastias. Por exemplo, os chifres são um símbolo comum do poder dinástico.

Devemos nos perguntar, então: no primeiro século, que dinastia foi mais ameaçada pela ascensão do rei messiânico a partir da linhagem de Davi? O Evangelho de Mateus (cap. 2) deixa isso bem claro: era a dinastia de Herodes, a dos herodianos. Herodes, afinal, era um não judeu, nomeado pelos romanos para governar a Judéia. A fim de fortalecer o seu reinado ilegítimo, os romanos dizimaram todos os herdeiros da dinastia judaica dos Hasmoneus. E Herodes dizia ser rei em Jerusalém, indo bem longe ao reconstruir o templo em grande escala. Herodes, um líder carismático e ao mesmo tempo gentil, ganhou aos poucos o medo, a gratidão e até mesmo a adoração de seus súditos ao longo de seu sangrento reinado. O primeiro assassinato por ordem de Herodes foi o de sua própria esposa, depois o de seus três filhos, sua sogra, um cunhado e um tio, para não mencionarmos todas as crianças de Belém.

Além disso, Herodes tinha influenciado os sacerdotes do templo durante seu governo. Afinal, a quem Herodes consultou quando soube do Messias recém-nascido? Sua dinastia era uma falsificação satânica da Casa de Davi. Como o verdadeiro herdeiro de Davi, Salomão, Herodes tinha construído o templo e mantinha várias mulheres. Com a ajuda dos romanos, ele também conseguiu unificar a terra de Israel como não ocorria havia séculos.

A dinastia dos Herodes se tornaria, para eles mesmos, o maior obstáculo à verdadeira restauração do reino de Davi. Sete Herodes governaram após seu patriarca e fundador, Antípatro, e havia dez Césares na linha imperial de Roma, desde Júlio César até Vespasiano. A besta com dez chifres e sete cabeças corresponde curiosamente aos sete Herodes coroados que governaram apoiados pelo poder da dinastia dos dez Césares.

Afirmar que Apocalipse 12 é um exercício de personificação seria uma simplificação grosseira. A visão de João, embora rica em simbolismo, descreve uma história real com pessoas reais, embora numa perspectiva celestial.


MAIS DO QUE UMA MULHER

João descreve as lutas em torno do nascimento e da missão do Messias. Simbolicamente, ele mostra quais papéis teriam Satanás, os Césares e os Herodes. No entanto, ainda na peça central de Apocalipse 12, o elemento mais proeminente é a Mulher, que é a Arca da Aliança.

Se ela é mais do que a encarnação de uma idéia, então quem é ela?

A Tradição nos diz que ela é a mesma pessoa a quem Jesus chama de "mulher" no Evangelho de João, a reprise daquela pessoa que Adão chama "mulher" no Jardim do Éden. Como no início desse Evangelho, esse episódio do Apocalipse evoca repetidamente o Protoevangelho de Gênesis.

A primeira pista é que João, tanto no Apocalipse quanto no Evangelho, nunca revela o nome dessa pessoa; refere-se a ela apelas pelo nome que Adão deu a Eva no paraíso: ela é "mulher". No mesmo capítulo do Apocalipse, um pouco adiante, aprendemos que, como Eva era a "mãe de todos os viventes" (Gn 3,20), assim também a mulher da visão de João é mãe não simplesmente do "menino", mas de todo "o resto de sua descendência", mais semelhantes "àqueles que guardam os mandamentos de Deus e dão testemunho de Jesus". (Ap 12,17) Sua prole, então, são todos aqueles que têm nova vida em Jesus Cristo. A nova Eva cumpre a antiga promessa de ser, de modo perfeito, a mãe de todos os viventes.

Contudo, a referência mais explícita do Apocalipse em relação ao Protoevangelho é a figura do dragão, a quem João identifica claramente como a "primitiva serpente" do Gênesis, "o sedutor do mundo inteiro" 9Ap 12,9; ver Gn 3,13). O conflito que se segue, então, entre o dragão e o filho cumpre fielmente a promessa de Gênesis 3,15 quando Deus jurou colocar "inimizade" entre a serpente e "a mulher; entre a tua descendência e a dela". E a angústia da entrega da mulher parece que vem em cumprimento das palavras de Deus a Eva: "Multiplicarei os sofrimentos de teu parto; darás à luz com dores..." (Gn 3,16)

Claramente, João pretende relacionar Eva, a mãe de todos os viventes, com a mulher do Apocalipse, a nova Eva, a pessoa que ele identifica como "mulher" no Evangelho.


MARIA, MARIA, UM RELICÁRIO?

Ficamos, no entanto, com a questão de como essa mulher pode ser a reverenciada Arca da Aliança.

Para entendermos isso, precisamos primeiramente considerar o que fez a arca ser tão santa. Não foi a madeira de acácia ou os ornamentos de ouro. Nem foram as figuras esculpidas dos anjos. A arca continha a aliança, o que a fez se tornar santa. Dentro dessa caixa de ouro estavam os dez mandamentos, a Palavra de Deus escrita pelo dedo de Deus; o maná, o pão milagroso enviado por Deus para alimentar seu povo no deserto; e o cajado sacerdotal de Aarão.

O que quer que tenha feito a arca ser santa, fez Maria ser ainda mais santa. Vejamos. Se a primeira arca continha a Palavra de Deus na pedra, o corpo de Maria continha a Palavra de Deus encarnada. Se a primeira arca continha o pão milagroso do céu, em seu corpo Maria tinha o próprio Pão da Vida que vence a morte para sempre. Se a primeira arca continha o cajado do primeiro sacerdote do povo, o corpo de Maria continha a própria pessoa do sacerdote eterno, Jesus Cristo.

O que João viu no templo celeste era muito maior do que a arca da antiga Aliança, a arca que tinha irradiado a nuvem de glória antes da menorah, no coração do antigo templo de Israel. João viu a arca da nova Aliança, o vaso escolhido para levar a aliança de Deus ao mundo de uma vez por todas.


OBJEÇÕES NEGADAS?

Os primeiros Padres da Igreja deram forte testemunho dessa identificação de Maria com a Arca da Aliança. Ainda assim, alguns exegetas levantaram algumas objeções, às quais os Padres responderam.

Por exemplo, alguns se opuseram quanto às dores de parto da mulher, que pareciam contradizer à longa Tradição de que Maria teria dado à luz sem as dores do parto. Muitos cristãos acreditam que, uma vez que Maria foi concebida sem o pecado original, ela estaria isenta das maldições de Gênesis 3,16; portanto, não sentiria qualquer sofrimento no parto.

Ora, o sofrimento de uma mulher não necessariamente está relacionado às dores físicas do parto. Em outras passagens do Novo Testamento, São Paulo usa a dor do parto como uma metáfora para o sofrimento espiritual, para o sofrimento em geral, ou mesmo para o longo tempo de sofrimento do mundo na expectativa da Redenção no fim dos tempos (Gl 4,19; Rm 8,22). O sofrimento da mulher no Apocalipse poderia representar o desejo de trazer Cristo ao mundo; ou poderia representar os sofrimentos espirituais como o preço da maternidade de Maria.

Outros exegetas se mostram preocupados com a menção aos "outros filhos" da mulher, pois tal ponto contradiz o dogma da Virgindade Perpétua de Maria. Afinal, como ela poderia ter outros filhos se ela permaneceu sempre virgem? No entanto, de novo, esses filhos não precisam ser seus filhos físicos. Os Apóstolos frequentemente falam de si próprios como "pais" das primeiras gerações de cristãos (ver 1Cor 4,15). A "outra prole" de Apocalipse 12 são certamente "aqueles que carregam o testemunho de Jesus" e, então, se tornam Seus irmãos, partilhando o mesmo Pai do céu e Sua mãe.

Ainda outros são simplesmente obscurecidos pelos detalhes do relato de João, por exemplo, quando à mulher foram "dadas duas asas de grande águia, a fim de voar para o deserto [...] fora do alcance da cabeça da serpente" 9Ap 12,14). Tais passagens acreditam que representam a proteção divina dada a Maria contra o pecado e a influência diabólica. Outros vêem como uma narrativa estilizada da fuga para o Egito (Mt 2,13-15), para onde a Sagrada Família foi impulsionada pela besta de Herodes.


SUBINDO AS MONTANHAS

A maior dificuldade para os exegetas, no entanto, parece ser a singularidade aparente da visão tipológica de João no Apocalipse. Afinal, onde mais Maria é chamada de a Arca da Aliança? Um estudo mais atento do Novo Testamento nos mostra que essa visão de João não era única; mas, mais explícita do que em outras passagens; porém, certamente, não a única.

Com os livros de São João, os escritos de São Lucas são a outra grande mina de ouro da doutrina sobre Maria. É Lucas quem nos narra o episódio da anunciação do anjo a Maria, da visitação a sua prima Isabel, das circunstâncias miraculosas do nascimento de Jesus, da purificação da Virgem no templo, de sua busca por seu filho aos doze anos e de sua presença entre os Apóstolos no primeiro Pentecostes.

Lucas era um artista literário meticuloso que poderia alegar a vantagem adicional de ter o Espírito Santo como seu coautor. Ao longo dos séculos, os estudiosos têm se maravilhado com a forma como o Evangelho de Lucas sutilmente faz um paralelo-chave com vários textos do Antigo Testamento. Um dos primeios exemplos em sua narrativa é a história da visitação de Maria a Isabel. A linguagem de Lucas parece ecoar a narração, no segundo livro de Samuel, das viagens de Davi ao trazer a Arca da Aliança para Jerusalém. A história começa com Davi que "levantou-se e foi" (2Sm 6,2). No relato da visitação, Lucas inicia com as mesmas palavras: Maria "levantou-se e foi" (1,39). Em suas viagens, então, tanto Maria quanto Davi ultrapassaram a região montanhosa de Judá. Davi reconhece a sua indignidade com as palavras: "Como pode que a arca do Senhor venha me visitar?" (2Sm 6,9). Palavras semelhantes ecoam quando Maria se aproxima de sua prima Isabel: "Donde me vem que a mãe do meu Senhor venha me visitar?" (Lc 1,43). Note aqui que a frase é quase idêntica, a não ser que a "arca" é substituída por "mãe". Lemos ainda que Davi "dançou" de alegria na presença da arca (2Sm 6,14.16), e nós encontramos expressão similar usada para descrever o pulo da criança no ventre de Isabel quando Maria se aproximou (Lc 1,44). Por fim, a arca permaneceu na região montanhosa por três meses (2Sm 6,11), o mesmo período de tempo que Maria passou com Isabel (Lc 1,56).

No entanto, por que Lucas é tão profundo nesses acontecimentos? Por que não somente dizer que a Virgem Santíssima é um tipo bíblico ou o cumprimento da arca?

O cardeal Newman abordou essa questão de uma forma interessante: "Às vezes, nos perguntam por que os escritores sagrados não mencionaram a grandeza de Nossa Senhora. Eu respondo: ela estava ou poderia ainda estar viva, quando os Apóstolos e Evangelistas escreveram sobre ela. Havia um único livro da Escritura que, com certeza, foi escrito depois de sua morte e este livro (o Apocalipse) o fez, posso assim dizer, canonizando-a e coroando-a."

Será que Lucas, com seu jeito calmo, foi apresentando Maria para ser a Arca da Aliança? A prova é muito evidente para explicar a credibilidade de outra forma.


OS PRIMEIROS INTÉRPRETES

A mulher do Apocalipse é a Arca da Aliança no templo celeste; e aquela mulher é a Virgem Maria. Contudo, isso não exclui outras leituras de Apocalipse 12. A Escritura, afinal, não é um código a ser decifrado, mas um mistério que nós nunca poderemos sondar plenamente.

No século IV, por exemplo, Santo Ambrósio viu a mulher claramente como a Virgem Maria, "porque ela é Mãe da Igreja, pois deu à luz Àquele que é a Cabeça da Igreja"; e ainda viu a mulher do Apocalipse como uma alegoria da própria Igreja. Santo Efrém da Síria chegou à mesma conclusão, sem temer qualquer contradição: "A Virgem Maria é, mais uma vez, a figura da Igreja... Vamos chamar a Igreja pelo Nome de Maria, pois ela é digna de um nome duplo."

Santo Agostinho também considerou que a mulher do Apocalipse "significa Maria, que, sendo impecável, trouxe adiante, a nossa Cabeça impecável. Trouxe também diante de si mesma a figura da Santa Igreja, para que, como Maria trouxe à luz um filho permanecendo virgem, assim também a Igreja deve, durante os séculos, vir trazendo à luz seus membros, e ainda sem perder seu estado de integridade."

Como Maria gerou Cristo para o mundo, assim, a Igreja gera todos os que creem "outros Cristo", a cada geração. Como a Igreja se torna mãe dos crentes pelo Batismo, assim Maria se torna mãe dos crentes como irmãos de Cristo. A Igreja, nas palavras de um recente estudioso, "reproduz o mistério de Maria".

Podemos ler todas essas interpretações como uma marcante passagem de Santo Irineu, que encontramos no último capítulo. Para o menino é, sem dúvida, "o filho puro abrindo impecavelmente o ventre puro que regenera os homens para Deus". E os "outros filhos", vemos em Apocalipse, são certamente aqueles que são regenerados para Deus, ou seja, aqueles que são nascidos do mesmo ventre como Jesus Cristo.

Lido à luz dos Padres, Apocalipse 12 pode iluminar a nossa leitura posterior de todas as passagens do Novo Testamento que descrevem os cristãos como irmãos de Cristo. A palavra grega para "irmão", adelphos, literalmente significa "do mesmo ventre". De João a Irineu até Efrém e Agostinho, os primeiros cristãos acreditaram que esse ventre pertencia a Maria.

A passagem se revela extremamente rica. Outros Padres viram a mulher do Apocalipse como um símbolo de Israel, a qual deu à luz o Messias; ou como o povo de Deus através de todas as épocas; ou como o império de Davi, definido em contraste aos dos Herodes e dos Césares.

Ela e todas essas coisas, mesmo quando é a Arca da Aliança. Enquanto cada uma dessas interpretações é suficiente de uma forma primária ou secundária, nenhuma pode cumprir o significado principal do texto. Todas essas leituras simbólicas apontam, para além de si mesmas, a um significado primordial que é o histórico-literal. Ou, como o Cardeal Newman colocou: "O santo Apóstolo não teria falado da Igreja sob esta imagem em particular, a menos que tivesse existido uma Bem-Aventurada Virgem Maria, que foi elevada às alturas e objeto de veneração de todos os fiéis."

Nas palavras de outro exegeta, a mulher do Apocalipse deve ser "uma pessoa concreta que engloba um coletivo". Além disso, o significado primário para a mulher, bem como para o seu menino, deve pertencer ao indivíduo, à pessoa histórica, Santíssima Virgem Maria, que ao mesmo tempo tornou-se mãe de Cristo e dos membros do Seu corpo, a Igreja.

Dr Scott Hahn, Salve, Santa Rainha. São Paulo: Cléofas, 2013. p.47-59.

Profecia do Santuário IV - O princípio Dia-Ano aplicado a Dn 9,24-27



Dando prosseguimento ao nosso estudo sobre a Profecia do Santuário (PS), trataremos, nesse texto, do Princípio Dia-Ano e suas aplicações.

Princípio Dia-Ano


Como dito no texto de exposição, o fundamento para a contagem dos dias relacionados à purificação do santuário é o princípio dia-ano, onde, profeticamente, um dia equivale a um ano. Segundo vimos também, essa equivalência se baseia sobretudo em dois textos do Antigo Testamento:

"Quando esse período estiver terminado, tu te deitarás sobre o lado direito, para de novo levar a iniquidade da casa de Judá durante quarenta dias; cada dia que te concedo corresponde a um ano." (Ez 4,6)

"Explorastes a terra em quarenta dias; tantos anos quantos foram esses dias pagareis a pena de vossas iniquidades, ou seja, durante quarenta anos, e vereis o que significa ser objeto da minha vingança." (Nm 14,34)

Há outros textos, mas estes dois são os principais. O "Questões sobre doutrina" diz: 

"O princípio a ser adotado na interpretação de tempo simbólico é: '[Eu] te dei cada dia por um ano' (Ez 4,7; comparar com Nm 14;34). Acreditamos, portanto, em harmonia com muitos sábios eminentes ao longo dos anos, que os 2.300 'dias' proféticos indicam 2.300 anos literais no cumprimento, e que algo mais, ou algo menos, seria contrário ao princípio básico do simbolismo de tempo." (2008, p.201)

A primeira impressão que nos dá é que essa base é por demais frágil para sustentar uma regra profética. Estes dois textos em nada se relacionam com questões apocalípticas ou com o livro de Daniel. No entanto, o texto de Ezequiel, que é escolhido na citação acima não por acaso, é truncado, bastante simbólico, e de fato profético. Mas, ainda assim, basear-se num único texto, e tão obscuro, para tomar um princípio profético geral, nos parece temerário.

O texto de Números fala de uma ameaça que Deus faz aos israelitas que reclamavam pouco tempo depois de terem saído do Egito. "'Oxalá tivéssemos morrido no Egito ou neste deserto! Por que nos conduziu o Senhor a esta terra para morrermos pela espada? Nossas mulheres e nossos filhos serão a presa do inimigo. Não seria melhor que voltássemos para o Egito?' E diziam uns aos outros: 'Escolhamos um chefe e voltemos para o Egito'." (14, 1-4)

No trecho usado como uma das fontes do princípio dia-ano, Deus diz que este é o tempo em que eles ficarão no deserto e lá morrerão:

"'Até quando sofrerei eu essa assembléia revoltada que murmura contra mim? Ouvi as murmurações que os israelitas proferem contra mim. Dir-lhes-ás: juro por mim mesmo, diz o Senhor, tratar-vos-ei como vos ouvi dizer. Vossos cadáveres cairão nesse deserto. Todos vós que fostes recenseados da idade de vinte anos para cima, e que murmurastes contra mim, não entrareis na terra onde jurei estabelecer-vos, exceto Caleb, filho de Jefoné, e Josué, filho de Nun. Todavia, introduzirei nela os vossos filhinhos, dos quais dizíeis que seriam a presa do inimigo, e eles conhecerão a terra que desprezastes. Quanto a vós, os vossos cadáveres ficarão nesse deserto, onde os vossos filhos guardarão os seus rebanhos durante quarenta anos, pagando a pena de vossas infidelidades, até que vossos cadáveres apodreçam no deserto. Explorastes a terra em quarenta dias; tantos anos quantos foram esses dias pagareis a pena de vossas iniquidades, ou seja, durante quarenta anos, e vereis o que significa ser objeto de minha vingança. Eu, o Senhor, o disse. Eis como hei de tratar essa assembléia rebelde que se revoltou contra mim. Eles serão consumidos e mortos nesse deserto!" (Nm 14, 26-35)
O que se diz é que, por terem explorado a terra por 40 dias e já estarem cheios de reclamação, por 40 anos - punição - sofrerão. Aqui não há uma equivalência, mas um justiçamento. É só observar o contexto.

O texto de Ezequiel, de que referimos a dificuldade, citamo-lo inteiro para que o leitor fique consciente da sua obscuridade. Estamos no capítulo 4. Os versículos do 1 ao 4 são bastante herméticos.

"Filho do homem, toma um tijolo, põe-no diante de ti, e desenha nele a cidade de Jerusalém. Farás contra ela trabalhos de assédio, contra ela construirás terraços e trincheiras, estabelecerás campos e prepararás aríetes. tomarás em seguida uma frigideira de ferro, e a colocarás como uma muralha de ferro entre ti e a cidade. Em seguida voltarás contra ela a tua face; ela será atacada e farás então o assédio. Será isto um símbolo para a casa de Israel."
O que se depreende do texto é que Jerusalém seria cercada. Do versículo 4 em diante, temos:

"Deita-te sobre o lado esquerdo e toma sobre ti a iniquidade da casa de Israel; todo o tempo em que ficares assim deitado levarás sua iniquidade. E eu fixo o número dos anos do seu pecado, segundo o número de dias que te concedo, trezentos e noventa dias, durante os quais carregarás a iniquidade da casa de Israel. Quando esse período estiver terminado, tu te deitarás sobre o lado direito, para de novo levar a iniquidade da casa de Judá durante quarenta dias; cada dia que te concedo corresponde a um ano."

O texto nos parece bastante confuso, e talvez por isso não pudemos encontrar nenhuma explicação mais detida sobre ele em fontes adventistas. Também não encontramos uma explicação do que seriam os "trezentos e noventa dias". Pegar, portanto, esta idéia e usá-la como critério para o cômputo das demais profecias parece-nos arbitrário. E muito mais quando um dos critérios da hermenêutica adventista é nunca basear nada em apenas um texto da Bíblia. 

Não obstante, este princípio de fato foi muito utilizado não só por adventistas, mas por outras várias denominações protestantes, e inclusive por católicos, e, como veremos, ele de fato parece funcionar, ainda que a coisa às vezes se torne um tanto problemática. É preciso saber quando ele deve ser aplicado e quando não. Para resolver esse problema, não basta observar se o livro é profético ou histórico, como às vezes se faz, pois, como veremos depois, o termo "dia" (yom) é naturalmente polissêmico. A nossa idéia com este texto, então, não é exatamente refutar o princípio, mas problematizá-lo e questionar a sua aplicação em certas questões. Embora presumidamente óbvio, pareceu-nos este um dos pontos mais complexos de todo este estudo.

Um aparente sucesso na sua aplicação se dá no caso das setenta semanas, porque, calculadas como anos desde o ano 457, supostamente a data do Decreto de Artaxerxes, as 70 "setes", que são "semanas de anos", nos levam a pelo menos datas aproximadas do nascimento do Cristo, do Seu batismo e da Sua morte, considerando a identificação do "Ungido" com o Cristo, que eu penso ser coerente, embora alguns o identifiquem com Ciro ou Onias III.

O primeiro problema é que, neste caso das 70 semanas, a Bíblia não especifica se se trata de dias ou de anos. A primeira sugestão de que não se referem a dias vem da própria redação: "setenta setes" (Shebuah), e não "semanas". Em segundo lugar, a profecia dada a Daniel por Gabriel diz respeito aos 70 anos de Jer 25,11-12, e que, conforme 2Cr 36,21, é uma aplicação das ameaças divinas em Lv 25,1-5 por não terem guardado o 7º ano: 

"O Senhor disse a Moisés no monte Sinai: 'Dize aos israelitas o seguinte: quando tiverdes entrado na terra que vos hei de dar, a terra repousará: este será um sábado em honra do Senhor. Durante seis anos semearás a tua terra, durante seis anos podarás a tua vinha e recolherás os seus frutos. Mas o sétimo ano será um sábado, um repouso para a terra, um sábado em honra do Senhor: não semearás o teu campo, nem podarás a tua vinha; não colherás o que nascer dos grãos caídos de tua ceifa, nem as uvas de tua vinha não podada, porque é um ano de repouso para a terra." (Lv 25,1-5)

No versículo 8, lemos:

"Contarás sete semanas de anos, sete vezes sete anos, isto é, o tempo de sete semanas de anos, quarenta e nove anos."

Aqui se fala claramente das "semanas de anos", e, como vimos, isto está intimamente ligado às angústias de Daniel e à resposta de Gabriel. Logo, nada mais natural que a interpretação anual das sete semanas que o Arcanjo deu ao profeta de fato se apliquem. Se assim é, esta não seria exatamente uma prova da funcionalidade do princípio "dia-ano", visto que a palavra "dia" nem aparece.

Outra coisa que bate é a menção que o Anjo Gabriel faz a "um tempo, dois tempos e metade de um tempo", em Dn 7,25 e 12,7. Considerando que "um tempo" equivale a "um ano", teríamos 3 anos e meio. Convertidos em grupos de doze meses de trinta dias, temos 1260 dias. O curioso é que nós encontramos a mesma quantidade de dias, transmutada de modos diferentes, também em duas passagens de Apocalipse: 12,6 e 13,5. A primeira fala explicitamente de 1260 dias, e a segunda de 42 meses, o que lhe é equivalente.

Há aqui um porém. Esses 1260 dias, correspondentes ao "um tempo, dois tempos e metade de um tempo", o que equivaleria a 3,5 tempos, corresponde exatamente à "meia semana" de Dn 9,27. 

Analisemos, então, o contexto de cada trecho:

Dn 7,25 - "Proferirá insultos contra o Altíssimo e porá à prova os santos do Altíssimo; ele tentará mudar os tempos e a Lei, e os santos serão entregues em suas mãos por um tempo, tempos e metade de um tempo.

Parte da nota de rodapé da Bíblia de Jerusalém diz que este trecho "exprime (...) um período de calamidades permitidas por Deus, mas cuja duração, para consolo dos aflitos, será limitada."

Dn 12,7 - "Ouvi o homem vestido de linho, que se achava contra a correnteza do rio, o qual ergueu para o céu a mão direita e a mão esquerda, jurando por Aquele que vive eternamente: 'Será por um tempo, tempos e metade de um tempo. E quando se completar o esmagamento da força do povo santo, essas coisas todas se consumarão!"

Apo 12,6 - "E a Mulher fugiu para o deserto, onde Deus lhe havia preparado um lugar em que fosse alimentada por mil duzentos e sessenta dias."

Parte da nota de rodapé da Bíblia de Jerusalém: "[O deserto é o] refúgio tradicional dos perseguidos do AT (cf. Ex 2,15, 1Rs 19,3, 1Mc 2,29-30)"

Apo 13,5 - Foi-lhe dada uma boca para proferir palavras insolentes e blasfêmias, e também poder para agir durante quarenta e dois meses.

Sendo que 42 meses de 30 dias dão, de novo, 1260 dias.

Como se vê das passagens acima, o período referido sempre se refere a um tempo em que os inimigos do povo de Deus encontram liberdade e ocasião para agir. É um tempo em que o povo de Deus está sendo oprimido. Mesmo em Apo 12,6, a Mulher só vai ao deserto porque está sendo perseguida. 

E o que será que diz Dn 9,27? Vejamos:

"Ele confirmará uma aliança com muitos durante uma semana; e pelo tempo de meia semana fará cessar o sacrifício e a oblação. E sobre a nave do Templo estará a abominação da desolação até o fim, até o termo fixado para o desolador."

Este trecho é interpretado pela IASD como se referindo a Jesus: a aliança durante a semana seria a pregação do Evangelho até a morte de Estêvão, o que iria supostamente do ano 27 ao 34 d.C.. O sacrifício e a oblação cessados se referiria à morte de Jesus, que fez encerrar a Antiga Aliança.

Porém, vamos analisar o texto. Quem é o "ele" com que começa o versículo 27? O 26 responde: "E a cidade e o Santuário serão destruídos por um príncipe que virá. Seu fim será num cataclismo e, até o fim, a guerra e as desolações decretadas."

Então, o "Ele" não é Jesus, mas o "príncipe que virá" e destruirá a cidade e o Santuário, isto é, o imperador romano Tito, aqui aparecendo como um tipo dos perseguidores, já que o mesmo período de tempo está referido no Apocalipse.

E este imperador, destruindo o Templo de Jerusalém, fará cessar o sacrifício e a oblação, naturalmente. 

"E sobre a nave do Templo estará a abominação da desolação até o fim, até o termo fixado para o desolador."

Duas coisas aqui: "o termo fixado para o desolador" parece se referir ao período de 1260 dias, isto é, os três anos e meio. Se se aplicar aqui o princípio dia-ano - que, lembramos, é problemático -, temos 1260 anos. Uma vez que a invasão do templo se deu no ano 70 d.C., a desolação teria de ir pelo menos até 1330, que é o resultado da soma de 1260 e 70. Há algum fato marcante nesse ano? Parece que não. Isso, claro, considerando que quem faz cessar os sacrifícios seja Tito. Se o aplicarmos a Jesus, considerando a interpretação adventista, temos o ano de 31 d.C. No entanto, "o termo fixado para o desolador" fica uma expressão flutuante. Parece haver aí um salto forçado de repente para o ano 70. Mas, ainda assim, em que consistiria o "termo fixado para o desolador"? Vimos que todas os textos bíblicos que falam de um desolador datam o seu período limitado de dominação em 1260 dias.

A outra questão é a seguinte: Devemos observar o trecho "sobre a nave do Templo estará a abominação da desolação." Antes de saber o significado disso, notemos que Jesus faz menção exata à expressão quando está falando da destruição do Templo: "Quando virdes estabelecida no lugar santo a abominação da desolação que foi predita pelo profeta Daniel, então os habitantes da Judéia fujam para as montanhas." (Mt 24,15-16).

Como nota de rodapé, a Bíblia Ave Maria traz: "a abominação da desolação: esta expressão deve designar os estandartes romanos que os exércitos de Tito implantaram no Templo de Jerusalém."

Já a de Jerusalém diz: "Ao que parece, Daniel designava com essa expressão um altar pagão que Antíoco Epífanes ergueu no Templo de Jerusalém em 168 a.C."

Com efeito, antes de Daniel, o Templo de Jerusalém já havia sido destruído por Nabucodonosor e seria depois profanado por Antíoco. A profecia de Daniel, embora se refira naturalmente ao "tempo do fim", parece também fazer menção à profanação efetuada por Antíoco Epífanes, pois já se fala dele em Dn 11, do versículo 21 em diante. Em 1Mc 41 e seguintes, vê-se que Antíoco tinha publicado um edito prescrevendo que todos, judeus e gentios, formassem um único povo e tivessem uma única religião, "sacrificando aos ídolos e violando o sábado" (1Mc 1,43) Pediu que os israelitas suspendessem os holocaustos diários e os demais ritos, e colocassem altares de ídolos no templo, sacrificando animais considerados imundos e não mais circuncidando seus filhos. Os que não obedeciam tinham de ser mortos. Nos versículos 54 a 60, lemos:

"No dia quinze do mês de Casleu, do ano cento e quarenta e cinco, edificaram a abominação da desolação por sobre o altar e construíram altares em todas as cidades circunvizinhas de Judá. Ofereciam sacrifícios diante das portas das casas e nas praças públicas, rasgavam e queimavam todos os livros da lei que achavam; em toda parte, todo aquele, em poder do qual se achava um livro do Testamento, ou todo aquele que mostrasse gosto pela lei, morreria por ordem do rei. Com esse poder que tinham, tratavam assim, cada mês, os judeus que eles encontravam nas cidades e, no dia vinte e cinco do mês, sacrificavam no altar, que sobressaía ao altar do templo. As mulheres, que levavam seus filhos a circuncidar, eram mortas conforme a ordem do rei, com os filhos suspensos aos seus pescoços. Massacravam-se também seus próximos e os que tinham feito a circuncisão."

De novo é dado aos inimigos poder durante um período e se fala aqui claramente de "abominação da desolação", certamente fazendo referência à profecia de Daniel. Há também uma interpretação das 70 semanas que, com outros critérios, faz referir-se a estes eventos do tempo da profanação de Antíoco.

Seja como for, não é possível que Dn 9,27 se refira a Jesus, pois o fazer cessar o holocausto é obra dos inimigos de Deus. Outra razão para isso é que, segundo a descrição profética, a morte de Jesus é dita no versículo 26. Portanto, a "aliança" do v. 27 e a cessação do sacrifício não podem referir-se ao "Ungido".

Vejamos os dois versículos agora em sequência:

"Depois das sessenta e duas semanas um Ungido será eliminado, e ninguém será a favor dele. E a cidade e o Santuário serão destruídos por um príncipe que virá. Seu fim será num cataclismo e, até o fim, a guerra e as desolações decretadas. Ele confirmará uma aliança com muitos durante uma semana; e pelo tempo de meia semana fará cessar o sacrifício e a oblação. E sobre a nave do Templo estará a abominação da desolação até o fim, até o termo fixado para o desolador."

A Bíblia de Jerusalém, em nota de rodapé, confirma essa visão:

"A abolição do sacrifício antigo não significa aqui a sua substituição pelo sacrifício da nova aliança; as passagens paralelas e o contexto mostram que se trata de obra dos ímpios.

A meia semana, então, seria o equivalente aos 1260 dias, que no decorrer dos livros da bíblia simbolizam o tempo dado ao inimigo de Deus sobre os seus.

As dificuldades dessa interpretação residem no seguinte:

- O fazer cessar o sacrifício ocorre na metade da septuagésima semana, isto é, na metade dos últimos sete anos. A invasão de Jerusalém, no entanto, se dá cerca de 40 anos depois da morte de Jesus, em 70 d.C.

- Quais seriam as alianças que Tito teria feito com muitos?

- Ao contrário, parece ser possível estabelecer uma relação entre a "aliança feita com muitos" e o "sangue da nova aliança derramado por muitos" da Santa Ceia. 

Diz o C, Mervyn Maxwell:

"O uso feito por Cristo da palavra 'aliança' e da expressão 'em favor de muitos', mostra que durante a última ceia Ele estava pensando em Daniel 9,27. 'Ele fará firme aliança com muitos por uma semana.' A referência ao Seu sangue significava que o concerto somente poderia tornar-se efetivo se Ele ofertasse o Seu próprio corpo na cruz. Sem derramamento de sangue não há remissão. (Hb 9,22)" (Uma nova era segundo as profecias de Daniel, 2013, p. 234)
Sobre a nossa sugestão de que o "Ele" que inicia o versículo 27 de Dn 9 refira-se não ao Cristo, mas ao invasor do Templo, isto é, ao general romano Tito, o mesmo autor nos diz o seguinte:

"Não é de surpreender que ao longo dos séculos alguns estudiosos da Bíblia tenham mantido a errônea suposição de que o 'ele' desta porção do texto seja o príncipe desolador, e não o Messias Príncipe. Até mesmo o conhecimento comentarista romano Hipólito cometeu esse erro no terceiro século, concluindo que seria um futuro anticristo - e não Jesus Cristo - que faria cessar os sacrifícios. É lamentável que o erro de Hipólito seja ainda hoje por vezes citado, como se fosse verdade." (p. 222-223)

- Em todo caso, mesmo que a cessação dos holocaustos fosse devida ao sacrifício de Cristo, a abominação da desolação só pode ir até o final das 70 semanas, pois é dito na profecia que este era o tempo para acabar a transgressão, embora, de novo, Jerusalém só seja invadida no ano 70 d.C. e, portanto, depois do tempo referido das setenta semanas de anos, se as começarmos a contar a partir de 457 a.C., o que também é controverso. Parece-nos que este trecho - acabar com a transgressão - se encontra no mesmo contexto de Dn 8,14 - de que trataremos longamente depois - que fala da "purificação do santuário". Portanto, "cessar a transgressão" ou "purificar o santuário" - uma vez que a agressão é contra o Templo - seria trazer o santuário à sua ordem natural, isto é, afastar ou destruir os que o transgrediam, embora talvez se possa dizer que o "cessar a transgressão" é a primeira etapa ou negativa da "purificação do santuário", a parte posterior e positiva, uma vez que as 70 semanas comumente se entendem deverem ser cortadas dos 2.300 dias. O "Questões sobre Doutrina", no entanto, traz uma explicação que nos pareceu bastante infundada:

"Para fazer cessar a transgressão - o sentido desta frase é o de levar a transgressão ao máximo. O ato de os judeus encherem a medida da iniquidade foi mencionado por nosso Senhor, ao dizer: 'Enchei vós, pois, a medida de vossos pais' (Mt 23,32; comparar com Gn 15,16). Seu pecado culminante foi, naturalmente, a rejeição e crucifixão do Messias. Dessa maneira, a nação ultrapassou o limite além do qual não haveria retorno. 'Eis que a vossa casa os ficará deserta', declarou Jesus (Mt 23,38). Isso cumpriu a profecia do Mestre: 'O reino de Deus vos será tirado e será entregue a um povo que Lhe produza os respectivos frutos.' (Mt 21,43)" (2008, p. 217)

Não nos parece que isso tudo signifique "fazer cessar a transgressão". O que o leitor pensa?

Uma outra obra adventista, já citada, o "Uma nova era segundo as profecias de Daniel", tentando explicar essa expressão, discorda da anterior:

"O livro de Hebreus representa grande auxílio na compreensão de Daniel 9,24. Hebreus 9,26 fala de Jesus como Aquele que 'Se manifestou uma vez por todas para aniquilar pelo sacrifício de Si mesmo o pecado.' Esta afirmação corresponde obviamente à parte A de Daniel 9,24, 'para fazer cessar a transgressão, para dar fim aos pecados, para expiar a iniquidade.' Hebreus também nos incentiva a olhar a Jesus Cristo como o 'Autor da salvação eterna' (Hb 5,9) - conselho que corresponde à promessa de Deus em Daniel 9,24, de que o Messias traria 'justiça eterna'." (2013, p. 218)
Aqui há dois detalhes. A citação em negrito, note, está sem a conjunção aditiva "e", o que dá a entender falsamente que as três expressões "cessar a transgressão", "dar fim aos pecados" e "expiar a iniquidade" são sinônimos exatos. Neste caso, a conjunção geralmente vem no final da citação, dando a entender que cada uma das expressões usadas possui um sentido específico. Por isso, se não a citou inteiramente, o autor deveria ter posto uma reticência ao final. Vejamos outras traduções

Ave Maria - "... para dar fim à prevaricação, selar os pecados e expiar a iniquidade..."

De Jerusalém - "... para fazer cessar a transgressão e apagar a iniquidade e instaurar uma justiça eterna..."

Almeida Corrigida e Revisada - "... para cessar a transgressão, e para dar fim aos pecados, e para expiar a iniqüidade, e trazer a justiça eterna..."

Nova Versão Internacional - "... Setenta semanas estão decretadas para o seu povo e sua santa cidade para acabar com a transgressão, para dar fim ao pecado, para expiar as culpas, para trazer justiça eterna, para cumprir a visão e a profecia, e para ungir o santíssimo." (citamos inteira por causa da conjunção no final, que tira a idéia da equivalência entre as expressões. No caso da citação utilizada pela obra adventista, que termina com um ponto final, isto torna o sentido da frase ambíguo e permite o sentido que eles querem forçar.

Sociedade Bíblia Britânica - "... para consumir a transgressão, para dar fim aos pecados, para expiar a iniqüidade, para trazer a justiça eterna, para selar a visão e profecia e para ungir o santíssimo." (Mesmo caso de cima)

No entanto, é óbvio que cada uma dessas expressões traz um significado próprio. Neste sentido, o "Questões sobre doutrina" parece-nos mais completo e correto, pois ele explica expressão por expressão.

O segundo detalhe é que a citação diz que o texto de Hebreus 9,26 corresponde obviamente às três primeiras expressões de Dn 9,24, o que significa dizer que o "Questões sobre doutrina" estaria obviamente errado. E aí temos uma fonte adventista discordando obviamente de outra.

Fica, então, a pergunta: o que danado significa "fazer cessar a transgressão?" Consideramos mais coerente relacioná-la à cessação de uma força inimiga que atenta contra o Templo, como em todos os demais casos correspondentes. Mas disso surgem outros problemas, como vimos. Outra coisa: qual é o "tempo fixado para o desolador", do final de Dn 9, 27? Isto, de novo, parece-nos harmonizar-se com o "fazer cessar a transgressão" de modo que poderíamos juntar as duas idéias do seguinte modo:

"A transgressão será cessada quando se completar o tempo fixado para o desolador." Mas ficam ainda outras questões por responder.

Pois é, amigo, não resolveremos esse impasse. Mas tampouco era nossa intenção. Apenas queremos indicar que a aplicação que a IASD faz não é assim tão óbvia. E tampouco há algum interesse particular nosso em negar este ponto, visto que várias denominações, incluindo a Igreja Católica, geralmente aplicam as 70 semanas ao tempo messiânico, o que ainda nos parece mesmo o mais conveniente, embora, diferentemente da IASD, a cessação dos sacrifícios nos pareça se referir aos profanadores.

Veja o que diz a nota de rodapé da Bíblia Ave Maria sobre o versículo 27 de Dn 9:

"Este oráculo recebeu duas principais interpretações: a que vê em toda a profecia uma descrição dos tempos macabeus, e a que vê nela um pré-anúncio dos tempos messiânicos. Os partidários da primeira admitem, no entanto, por trás da descrição dos tempos macabeus, a existência de um segundo plano referente aos tempos messiânicos. A interpretação puramente messiânica, entretanto, prevalece na Igreja e na tradição católicas. Em cada um dos dois sistemas, o modo de contar as 'semanas de anos' será necessariamente diferente. Mas em caso algum as setenta semanas devem ser consideradas como um cálculo exato. Finalmente, é preciso reconhecer que o profeta entrevê uma terceira perspectiva, a do fim dos tempos."

Aqui está uma advertência para que as semanas não sejam calculadas literalmente, como semanas de dias. Mas mesmo em se tratando de semanas de anos - que seria o intuito profético -, é comum que os números tenham um simbolismo místico - como os frequentes números 40, 400, 12, 7, etc - e que eles às vezes sejam, mesmo com a transposição, literalmente imprecisos e somente aproximados. Um exemplo:

Em Jer 25,11-12, a profecia que está no background do que o Anjo Gabriel diz a Daniel, lemos:

"Converter-se-á esta terra em angústia e solidão, e por setenta anos lhe há de perdurar a servidão ao rei de Babilônia."

Nota de rodapé da Bíblia Ave Maria: "Setenta anos: na realidade, o cativeiro em Babilônia durou sessenta e cinco anos, ou seja, aproximadamente, de 604 a 539, data da queda de Babilônia sob o domínio persa."

Nota de rodapé da Bíblia de Jerusalém: "Número arredondado da duração do exílio, retomado em 29,10 e numa outra forma em 27,7. O tema se encontra em 2Cr 36,21 e fundamenta Dn 9."

E se às vezes o número, mesmo transmutado, não é exato, como ficam as suas aplicações?

No próximo artigo, pois este já vai longo, trataremos do princípio dia-ano aplicado a Dn 8,14.

Até lá.

Fábio
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