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Livro de Daniel: a profanação do Santuário, a aliança com muitos e a cessação do sacrifício


Deve fazer um mês e pouco, eu comecei a escrever uns artigos sobre a doutrina adventista da Profecia do Santuário, que é um tema difícil e sofisticado. Quaisquer eventuais erros nessa questão só poderão ser identificados com um estudo detido, atento às sutilezas. 

Como já dito, o trecho central da profecia se encontra no livro de Daniel, cap. 8. Nele se fala de um pequeno chifre em um bode. Cito o texto a partir do versículo 9:

"De um deles [de quatro chifres anteriores] saiu um pequeno chifre que se desenvolveu consideravelmente para o sul, para o oriente e para a jóia (dos países). Cresceu até alcançar os astros do céu, do qual fez cair por terra diversas estrelas e as calcou aos pés. Cresceu até o chefe desse exército de astros, cujo (holocausto) perpétuo aboliu e cujo santuário destruiu, junto com o exército; sobre o sacrifício ele pôs a iniquidade; a verdade foi lançada à terra. O pequeno chifre teve êxito na sua empreitada.

Ouvi um santo que falava, a quem outro santo respondeu: 'quanto tempo durará o anunciado pela visão a respeito do holocausto perpétuo, da infidelidade destruidora, e do abandono do santuário e do exército calcado aos pés?' Respondeu: 'duas mil e trezentas noites e manhãs. Depois disso o santuário será restabelecido.'" (Dn 8,9-14)

Depois disso, Gabriel vem a Daniel para explicar a visão. Claro que, quando vemos essas coisas pela primeira vez, tudo nos parece muito esquisito. O próprio Daniel ficou doente por não ter compreendido. Então imagina o que acontece conosco, totalmente alheios? Por isso, eu decidi ler o livro inteiro, e aí muita coisa foi ficando mais clara. Algumas afirmações feitas aqui completarão de modo muito feliz aquilo que foi escrito no outro texto. Embora essas simbologias sejam de fato difíceis, ao ler o livro inteiro fica-nos a impressão de um padrão que é seguido. O simbolismo usado começa a fazer maior sentido.

Então, vejamos só: o pequeno chifre referido guerreia contra um monte de coisas. Seria importante saber de quem se trata e quem são esses contra os quais ele guerreia.

Antes, porém, vejamos o próximo texto que é fundamental para a Profecia adventista:

"Setenta semanas foram fixadas a teu povo e à tua cidade santa para dar fim à prevaricação, selar os pecados e expiar a iniquidade, para instaurar uma justiça eterna, encerrar a visão e a profecia e ungir o Santo dos Santos. Sabe, pois, e compreende isto: desde a declaração do decreto sobre a restauração de Jerusalém até um chefe ungido, haverá sete semanas e sessenta e duas semanas; ressurgirá, será reconstruída com praças e muralhas. Nos tempos de aflição, depois dessas sessenta e duas semanas, um ungido será suprimido, e ninguém (será) a favor dele. A cidade e o santuário serão destruídos pelo povo de um chefe que virá. Seu fim (chegará) com uma invasão, e até o fim haverá guerra e devastação decretada. Concluirá com muitos uma sólida aliança por uma semana e no meio da semana fará cessar o sacrifício e a oblação; sobre a asa das abominações virá o devastador, até que a ruína decretada caia sobre o devastado." (Dn 9,24-27)

Vamos por parte. Tentemos esclarecer o significado de alguns desses símbolos.

Do primeiro texto:

O chifre pequeno é Antíoco IV, chamado Epífanes. O próprio livro falará dele no capítulo 11, mostrando como é dele que se tratam as duas profecias citadas. A bíblia diz que ele cresceu sobre a "jóia dos países". Trata-se da Palestina, pois esta expressão é usada para referir-se a ela, conforme se vê em Ez 20,6.

"Cresceu até os astros do céu, do qual fez cair diversas estrelas e calcou aos pés." Estes astros são o próprio povo de Deus, conforme nos diz o cap. 12,3, ou ainda Mt 13,43. De fato, Antíoco massacrou vários habitantes da Palestina, conforme vemos no cap. 11,33-35: "durante algum tempo, perecerão pela espada, fogo, cativeiro e pilhagem. Enquanto forem caindo dessa maneira, serão um tanto amparados; e um bom número unir-se-á hipocritamente a eles. Muitos desses sábios sucumbirão, a fim de que sejam provados, purificados e branqueados até o termo final."

"Cresceu até o chefe deste exército de astros, cujo perpétuo aboliu e cujo santuário destruiu." Este chefe do exército de astros se refere ao próprio Deus, "dono" dos sacrifícios e do santuário. De novo, Antíoco não só invadiu o Santuário como aboliu os Sacrifícios, conforme se verifica no livro de 1 Macabeus. 

"Após ter derrotado o Egito, pelo ano cento e quarenta e três, regressou Antíoco e atacou Israel, subindo a Jerusalém, com um forte exército. Penetrou cheio de orgulho no santuário, tomou o altar de ouro, o candelabro das luzes com todos os seus pertences, a mesa da proposição, os vasos, as alfaias, os turíbulos de ouro, o véu, as coroas, os ornamentos de ouro da fachada, e arrancou as embutiduras. Tomou a prata, o ouro, os vasos preciosos e os tesouros ocultos que encontrou. Arrebatando tudo consigo, regresso à sua terra após massacrar muitos judeus e pronunciar palavras injuriosas." (1Mc 1,20-24)

"Por intermédio de mensageiros, o rei enviou a Jerusalém e às cidades de Judá, cartas prescrevendo que aceitassem os costumes dos outros povos da terra, suspendessem os holocaustos, os sacrifícios e as libações no templo, violassem os sábados e as festas, profanassem o santuário e os santos, erigissem altares, templos e ídolos, sacrificassem porcos e animais imundos, deixassem seus filhos incircuncidados e maculassem suas almas com toda sorte de impurezas e abominações, de maneira a obrigarem-nos a esquecer a lei e a transgredir as prescrições. todo aquele que não obedecesse à ordem do rei, devia ser morto."  (Mc 1,44-50)

"Sobre o sacrifício ele pôs a iniquidade" - Este trecho é explicado em Dn 11,31 que, a respeito de Antíoco, diz: "tropas sob sua ordem virão profanar o santuário, a fortaleza..."

De novo, o livro de Macabeus descreve:

"No dia quinze do mês de Casleu, do ano cento e quarenta e cinco, edificaram a abominação da desolação por sobre o altar e construíram altares em todas as cidades circunvizinhas de Judá. (...) E, no dia vinte e cinco do mês, sacrificavam no altar, que sobressaía ao altar do templo" (1 Mc 1,54-55;59)

A iniquidade se refere tanto à proibição que Antíoco estabeleceu aos Sacrifícios diários - perseguindo e matando os judeus que não se submetessem à inovações - quanto à profanação dos objetos sagrados e à entronização de ídolos no Santuário, conforme se vê no supracitado.

"A verdade foi lançada à terra" - isto se nota por toda a política de helenização de Antíoco e pela adesão de grande parte dos judeus, que preferiam assistir os esportes ao invés de ocupar-se com as coisas da religião. Os versículos 36-37 dizem sobre Antioco: "O rei fará então tudo o que desejar. Ensoberbecer-se-á, elevar-se-á no seu orgulho acima de qualquer divindade; proferirá até coisas inauditas contra o Deus dos deuses; prosperará até que a cólera divina tenha chegado ao seu termo, porque o que está decretado deverá ser executado."

O livro de Macabeus traz o seguinte:

"Rasgavam e queimavam todos os livros da lei que achavam; em toda parte, todo aquele, em poder do qual se achava um livro do Testamento, ou todo aquele que mostrasse gosto pela lei, morreria por ordem do rei." (Mc 1,56-58)

Daí, um dos santos - provavelmente um anjo - pergunta a outro: "quanto durará o anunciado pela visão a respeito do holocausto perpétuo, da infidelidade destruidora, e do abandono do santuário e do exército calcado aos pés?" Sobre o exército, diz o versículo 41 do cap 11: "Invadirá o país que é a jóia da terra, onde muitos homens cairão." O livro de Macabeus diz: "Serviram de cilada para o templo, e um inimigo constantemente incitado contra o povo de Israel, derramando sangue inocente ao redor do templo e profanando o santuário." Veja como a pergunta do anjo fica clara. O segundo anjo então responde: "duas mil e trezentas tardes e manhãs. Depois disso o santuário será restabelecido."

Como se vê, yoda esta invasiva de Antíoco está bem descrita no primeiro livro de Macabeus. Em 1 Mc 1,54, conforme já citado, se lê: 

"No dia quinze do mês de Casleu, do ano centa e quarenta e cinco, edificaram a abominação da desolação por sobre o altar e construíram altares em todas as cidades circunvizinhas de Judá."

Vamos fixar as datas: 15 do mês de Casleu do ano 145. 

O mesmo livro conta quando o sacrifício voltará a ser oferecido. No cap. 4, 52-53, vemos: 

"No dia vinte e cinco do nono mês, isto é, do mês de Casleu, do ano cento e quarenta e oito, eles se levantaram muito cedo, e ofereceram um sacrifício legal sobre o novo altar dos holocaustos, que haviam construído."

15 de Casleu de 145 - santuário profanado.
25 de Casleu de 148 - holocausto volta a ser oferecido. Vamos calcular..

Temos aí basicamente três anos exatos. Um ano possui 12 meses. Um mês bíblico equivale a 30 dias.

12 x 30 = 360 
1 ano = 360 dias

360 x 3 = 1080 
1080 + 14 dias - 1094 dias

O tempo que o Santuário ficou sem sacrifícios, portanto, foi de 1094 dias. Este é um cálculo aproximado, mas nada exato, da compreensão das 2.300 tardes e manhãs entendidas como 2.300 sacrifícios, o que equivaleria, já que eram dois sacrifícios diários, a 1150 dias, faltando portanto 56 dias para a correspondência exata. Só que há um porém: o calendário judaico era "lunissolar", baseado nas fases da lua, mas tendo de se adaptar ao ciclo solar. Além dos anos comuns - de doze meses -, há no judaísmo os chamados "anos embolísticos", nos quais se acresce mais um mês aos doze anteriores. Este mês é chamado Veadar ou Adar II, e soma um total de 13 meses. Estes meses acontecem nos anos 3º, 6º, 8º, 11º, 14º, 17º e 19º.

Como temos três anos, há que se acrescer um mês de 29 dias no último ano, pelo que teríamos 1123 dias, o que é, convenhamos, uma data já aproximada de 1150, faltando um todo de 27 dias, pouco menos de um mês. Os que porventura estranharem essas imprecisões, considerem o que é dito em Jr 25,11-12: "Converter-se-á esta terra em angústia e solidão, e por setenta anos lhe há de perdurar a servidão ao rei de Babilônia." Porém, na realidade, o cativeiro na Babilônia durou 65 anos, indo de 604 a 539 a.C. É verdade que a diferença é bem menor, mas há que se convir que a duração do tempo da profecia também é menor, e, sobretudo, que de fato temos uma imprecisão, o que dificulta um cálculo exato, permitindo apenas uma idéia aproximada. Com isso queremos dizer que a interpretação de 2.300 tardes e manhãs como sendo 2.300 anos é falsa? Não. Estamos somente vendo as possibilidades. Provaremos isto em outro artigo.

Prossigamos.

Segundo texto:

Quero analisar os seguintes trechos:

Nos tempos de aflição, depois dessas sessenta e duas semanas, um ungido será suprimido, e ninguém (será) a favor dele. A cidade e o santuário serão destruídos pelo povo de um chefe que virá. Seu fim (chegará) com uma invasão, e até o fim haverá guerra e devastação decretada. Concluirá com muitos uma sólida aliança por uma semana e no meio da semana fará cessar o sacrifício e a oblação; sobre a asa das abominações virá o devastador, até que a ruína decretada caia sobre o devastado." (Dn 9,24-27)

Um ungido será suprimido - de fato, trata de Nosso Senhor, cujo título "Cristo" significa exatamente "Ungido". Mas também simboliza o Sacerdote Onias III, assassinado em Antioquia no ano 171 a.C. (Cf. 2Mc 4,30-38)

A cidade e o santuário serão destruídos pelo povo de um chefe que virá. - Trata-se, historicamente, de Antíoco Epifânio, antes de Cristo, e/ou do imperador Tito, que o realizou no ano 7 d.C.

Concluirá com muitos uma sólida aliança por uma semana e no meio da semana fará cessar o sacrifício e a oblação - este trecho aqui é fonte de controvérsias. Os adventistas afirmam que ele se refere a Jesus estabelecendo a Nova e Eterna aliança. Porém, nós entendemos que, uma vez que, segundo o texto, o Ungido já havia morrido, este trecho se refere ao invasor do templo. Isto é reforçado pelo fato de este personagem fazer cessar o sacrifício no meio da semana, o que equivaleria ao terceiro dia e meio, faltando ainda três dias e meio para que se completassem as 70 semanas. Três dias e meio, transmutando em dias de anos, ficariam 3 anos e meio, o que equivaleria a 1260 dias que é sempre uma data que se refere à dominação do povo de Deus pelos inimigos. (Cf Dn 7,25; 12,7; Apo 12,6; 13,5. 

Isso tudo ainda é reforçado pelo próprio livro de Daniel que usa as mesmas expressões para se referir ao profanador: "Dirigirá novamente sua fúria contra a santa aliança, tomará medidas contra ela, fazendo um pacto com aqueles que a abandonarem." (Dn 11,30) 

Note o paralelo: 

"Concluirá com muitos uma sólida aliança por uma semana" (Dn 9,27)
"Fazendo um pacto com aqueles que a abandonarem." (Dn 11,30)
"Submeterá, com suas lisonjas, os violadores da aliança" (Dn 11,32)
"Os que o reconhecerem - ao profanador -, multiplicará as honras, conferir-lhes-á autoridade sobre numerosos vassalos e distribuir-lhes-á terras em recompensa." (Dn 11,39)

Não parecem referirem-se todos estes textos à mesma coisa? Com efeito, todos eles falam de aliança, ou pacto. E o que dizer dos trechos seguintes?

"No meio da semana fará cessar o sacrifício e a oblação" (Dn 9,27)
"Seu coração meditará o mal contra a santa aliança; cometê-lo-á..." (Dn 11,28)
"Farão cessar o holocausto perpétuo" (Dn 11,31)

Se o segundo e o terceiro textos se referem obviamente ao profanador e às suas tropas, por que o primeiro iria se referir a Jesus? Todos eles seguem o mesmo padrão. Estão falando da mesma coisa. Notem ainda as semelhanças nos trechos sublinhados: "fará cessar", "farão cessar".

Por fim, enquanto Dn 9,27 termina dizendo que "sobre a asa da abominação virá o devastador, até que a ruína decretada caia sobre o devastado", Dn 11,31 diz: "instalarão a abominação do devastador" e o v. 36: "porque o que está decretado deverá ser executado."

O leitor note bem: esses paralelos são o argumento mais forte deste texto. Eles provam claramente que o personagem indicado em Dn 9,27 não é Jesus, mas o profanador.

E aí surge outra pergunta no texto. Daniel questiona um homem, provavelmente Jesus, que lhe aparece: "Meu senhor, qual será a conclusão disso tudo?" O contexto é o mesmo que a pergunta do primeiro santo ao segundo. Ele então lhe responde: "Desde o tempo em que for suprimido o holocausto perpétuo e quando for estabelecida a abominação do devastador, transcorrerão mil duzentos e noventa dias." Aqui teríamos duas referências:

O atentado de Antíoco Epifânio ao Santuário no ano 145 a.C. - + 1290, chegaríamos ao ano 1145.
A invasão de Jerusalém por Tito, no ano 70 d.C. - + 1290, chegaríamos ao ano 1360.

Aconteceu algo importante em 1145? Eleição do Papa Eugênio III e a bula Quantum prædecessores convocando a Segunda Cruzada. Nada, porém, que lembre nem de longe o fim de alguma perseguição. Veja aqui.

Aconteceu algo importante em 1360? Guerra dos cem anos, Pedro I de Portugal casou com Inês de Castro, Maomé IV mata o cunhado e se torna o 10º rei de Granada, o condado de Anjou torna-se um ducado, nasceu um monte de gente, morreu um monte de gente... e nada que se assemelhe ao dito. Veja aqui.

Agora, lembramos que esta data de 1290 dias aparece no mesmo contexto que as 2.300 tardes e manhãs. Porém, os 1290 dias não podem marcar o fim, pois é dito logo em seguida, no versículo 12, que "feliz quem esperar e alcançar mil trezentos e trinta e cinco dias!", ou seja, depois dos 1290 dias, feliz quem ainda esperar mais 45 dias.

Como se vê há três datas: 2300 ou 1150, 1290, 1335. Por que escolher uma dessas datas ao invés das outras?

A única conclusão disso tudo é que é tudo muito confuso. É mais fácil dizer o que não é do que o que é. E o que não é eu creio que dissemos seguramente: o personagem de Dn 9,27 não é Jesus.

Ideologia de Gênero - Análise do Discurso



A refutação à Ideologia de Gênero pode seguir duas linhas: 

a) O estudo histórico-literário das suas fontes;
b) A análise lógica das suas premissas, o que poderíamos chamar também de "bom senso".

Já escrevemos bastante sobre o primeiro aspecto. Neste artigo, falaremos sobre o segundo:

Um documentário que segue esta linha e que recomendamos vivamente - já o disponibilizamos aqui no blog - é o estudo "Paradoxos da Igualdade", estudo tão completo e destruidor da ideologia que fez com que a Noruega, país que se gaba de ter a maior igualdade entre os sexos, retirasse todo o financiamento a este devaneio.

Vejamos, para começar, quais são os argumentos possíveis favoráveis à questão de gênero. Seguiremos depois com as refutações.

1- Nem todo mundo está adequado à própria sexualidade. Costuma-se dizer que se nasceu no corpo errado. Assim, embora tenha corpo de homem, a pessoa não se identifica como homem. O mesmo ocorre com as mulheres. Há, portanto, uma dissociação entre sexo biológico e identidade. Daí o surgimento da distinção entre sexo - fator biológico - e gênero - fator de autoidentificação.

2- O ser humano é moldado cultural e socialmente. Nós, atualmente, somos frutos de um constructo. Se tivéssemos nascido ou vivêssemos em outro lugar, nós seríamos diferentes: teríamos talvez outros hábitos, outros gostos, projetos, visões de mundo, etc. Se tivéssemos nascido na Índia, por exemplo, seríamos budistas ou hindus. Se fôssemos rapazes na Alemanha Nazista, provavelmente teríamos defendido aquelas idéias. Isto significa que a identidade do sujeito é mutável, isto é, é influenciada ou mesmo produzida pelo seu entorno.

3- Se a identidade de gênero não é necessariamente determinada pelo fator biológico, se ela é uma estrutura flutuante que se esquiva do físico, então é forçoso admitir que ela é construída. Formam a personalidade individual os ideais culturais, o modo como a pessoa é vista, as expectativas suas ou dos outros, os princípios religiosos, etc. Logo, o gênero é construído. 

Creio eu que nenhum defensor da questão de gênero estaria insatisfeito com a defesa que fiz. Vamos agora a alguns comentários.

Quanto ao 1, o modo como uma pessoa se vê pode ser correto ou não. Há, portanto, um limite de legitimidade na variação da autovisão. Se não houvesse, não seria possível identificar um maluco, por exemplo. Este limite é dado pelo fator biológico, e ele diz respeito tanto ao sexo, quanto à espécie, à genealogia, à raça, etc. Alguém não pode, à força de suposições, tornar-se japonês porque assim se identificou. Do mesmo modo, não pode tornar-se um lagarto, ou uma borboleta. Também não pode tornar-se filho do Sílvio Santos e reclamar o direito à herança. Enfim, não pode, tendo nascido homem, dizer-se mulher. A inadequação que alguém possa ter não anulará a sua constituição somente pelo pensamento. Um gordo que se sinta incomodado não se torna magro por declará-lo. Neste sentido, orientação sexual e identidade de gênero são coisas totalmente distintas. Um homem gay é alguém que sabe ser homem mas cuja libido está voltada ao mesmo sexo. O mesmo se dá com uma mulher gay. O gênero, por sua vez, diz que o ser homem ou mulher é que é construído. Assim, a ideologia confunde a direção da energia sexual com o ser. A libido assume o estatuto de fundante ontológico.

Quanto ao 2, é fato que muito do que nós somos é efeito das nossas influências. Porém, esta afirmação é uma metonímia. Quando dizemos "muito do que nós somos" estamos querendo dizer literalmente "muito do que nós estamos". Na verdade, o que nós somos antecede as escolhas e as influências. Ele é um pressuposto ontológico a partir e por dentro do qual teremos as nossas influências e faremos as nossas escolhas. Por preceder-nos, ele exerce um limite ao campo onde ocorrem as variações. Este limite é biológico e espiritual. Contudo, se a questão biológica, que é mais evidente, tem sido negada, não convém que entremos agora no segundo aspecto. Fiquemos no primeiro. Façamos algumas considerações. Mulher e homem têm diferenças intrínsecas de personalidade? Os ideólogos de gênero dizem que não. Porém, como veremos, é evidente que sim. O fator orgânico influencia enormemente a personalidade. As drogas são um exemplo óbvio. Mudando a química cerebral, o comportamento é alterado. Se alguém recebe uma pancada forte na cabeça e isto danifica um dos lobos pré-frontais, esta pessoa se tornará ou extremamente mal humorada ou extremamente bem humorada. Ainda que não falemos em acidentes ou em uso de drogas ilícitas, pensemos nas diferenças hormonais naturais entre homens e mulheres. Homens têm duas vezes mais testosterona que as mulheres. Isto é o responsável pelo fato de eles serem mais lentos no aprendizado da linguagem e das relações interpessoais. Têm tendência a ser menos empáticos, a lidar com mecanismos, sistemas, e preferem ficar sozinhos quando em crise. Mulheres tendem a ser mais afetivas, comunicativas, sociais, detalhistas, tendem a ter a atenção mais dispersa ou multifocal, e preferem sofrer acompanhadas. É por isso que mulher adora uma DR enquanto que os homens preferem bater o mindinho do pé numa quina. Sabemos também que elas têm oscilações hormonais bem maiores do que os homens. Pelo fato de serem o polo passivo da procriação, onde a criança será gestada, mensalmente o seu organismo se prepara para recebê-lo. Isto produz uma série de adaptações orgânicas e tudo isto é acompanhado por inconstâncias de personalidade. Essas diferenças e inconstâncias são a raiz de brincadeiras e piadas como as seguintes:





A famosa tpm é um exemplo notório. Ninguém pode negá-la por um simples ato de abstração. Ora, é o cérebro que comanda e ordena todo o aparato biológico com as suas mudanças hormonais, cada uma com a sua respectiva função. Se organicamente homens e mulheres são diferentes - se os homens não têm tpm nem ficam férteis por períodos espaçados de tempo, se não menstruam nem se preparam biologicamente para receber uma criança -, segue que necessariamente os cérebros feminino e masculino são distintos, e é óbvio que isto tem sim seus efeitos na personalidade. Estes efeitos se exprimem também na própria aparência das pessoas. Não é à toa que mulheres são mais macias, mais aconchegantes, mais curvilíneas, enquanto os homens são mais duros, retos, mais fortes fisicamente, mais preparados para a defesa da mulher e da prole, etc. Naturalmente, então, os homens terão uma personalidade mais ativa, mais focada em um só objeto, mais agressiva, etc.

Do que foi dito, é fácil perceber como o 3 é falso, pois, embora haja de fato algo de construído na personalidade e no modo como alguém se vê, nas expectativas que tem e nos ideais que adotou, isto não o muda substancialmente, isto é, a sua ontologia, o substrato dessas variações mantém-se o mesmo e exerce uma força limitadora. É como um recipiente que comprime o conteúdo cultural e as mudanças que ocorrem dentro da pessoa, não permitindo que estas extrapolem a natureza. Por isso, só no fantástico mundo de Bob é que um homem biologicamente pode se dizer mulher. Isto significa que a nossa luta contra o Gênero se identifica com uma luta em favor da própria sanidade mental.

A oração do terço - monotonia e distração?


O Rosário - ou o Santo Terço, sua versão reduzida - é uma oração maximamente recomenda aos católicos, não só pelos santos e Papas, mas pela própria Virgem Maria, que a pediu vivamente nas parições de Fátima. Não obstante, é fato que, para alguns, é uma atividade enfadonha, devido à sua repetição e monotonia. São Luís Maria Grignion de Montfort fala dos "devotos críticos", o primeiro grupo dos falsos devotos, que vêem nessas práticas populares algo mais adequado à gente simples. Eles, por sua vez, deveriam dar-se a altas contemplações, mais correspondentes à sua dignidade. Este tipo de erro pode surgir em nós quando consideramos, por exemplo, que ler um livro seria algo mais rentável espiritualmente do que rezar o terço. Quaisquer pensamentos neste sentido serão sempre falaciosos. Quando se quer e se organiza o dia, há tempo para tudo. Além disso, está mal orientado quem vive de calcular que tipo de atividade espiritual surtirá mais efeito. Isto torna a oração supersticiosa e somente reforça o ego. A coisa se torna uma espécie de "contra-oração".

Porém, ainda que não caiamos neste erro fundamental, alguns de nós podemos sim, pela nossa própria natureza, encontrar alguma dificuldade na oração do terço. Sta Teresinha de Lisieux relata a sua dificuldade pessoal quanto a isso. E, com ela, vários outros. Eu particularmente, embora consagrado à Virgem pelo método de São Luís Maria, nunca tive na oração do terço algo a que eu me adequasse inteiramente. Sempre é preciso fazer certa violência para que eu possa rezá-lo. E ontem, enquanto meus dedos corriam as suas contas, eu considerei algo desses assuntos e me propus a escrever um texto encaminhado a todos os demais que, como eu, sentem esta dificuldade. Pelo fato de fazermos algo que a nossa natureza não aprecia tanto, é comum que haja distrações, pelo que pode surgir a consideração: "mas adiantará alguma coisa que eu o reze se eu não consigo fazê-lo direito?" Eu gostaria então de dizer algumas coisas que comigo funcionam. São dicas da minha experiência pessoal. Podem não servir para algumas pessoas, mas eu creio que servirão para outras.

DISTRAÇÃO

Qual o valor do terço se eu só me distraio? A primeira coisa é a seguinte: isso não acontece somente com você. Jesus diz nos Evangelhos: "onde está o teu tesouro, aí estará o teu coração". Salvo pessoas muito disciplinadas, é natural que a mente corra para as nossas preocupações pessoais. Há inclusive um mecanismo de defesa em nós que tenta nos proteger de atividades cansativas. É por isso que diante de uma palestra chata o sono aparece. É por isso também que o rosário é por muitos recomendado como remédio contra insônia. Então, como defesa, a mente se ausenta da fonte de cansaço e tenta encontrar algo mais agradável com que se ocupar. Isto é efeito da nossa sensibilidade decaída, e a luta que teremos de travar é natural, mesmo. São Domingos Sávio era um rapazinho muito ativo. Quando rezava, o seu natural o distraía e ele ficava fitando diferentes objetos. Teve de se forçar a manter-se de olhos fechados e o esforço era tamanho que isto lhe causava dores de cabeça.

São Bernardo de Claraval, um tanto quanto enervado pelo fato das distrações, foi consolado por Jesus que lhe disse ser normal: era muito raro alguém rezar uma ave-maria totalmente sem distração. O santo então resolveu fazer um teste. Andando a cavalo, falou com um rapaz que ia à frente: "se você conseguir rezar uma ave-maria inteira sem se distrair, este cavalo é seu." O rapaz, contente e crente de que já tinha ganho o cavalo, começou: "Ave Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco.... mas o cavalo é com sela ou sem sela?" São Bernardo então comprovou o que lhe havia sido revelado.

Portanto, amigo, você não está só. Há inclusive santos em sua companhia. Sabe o que isto significa? Que distrair-se não é motivo para não rezar. O que você não deve fazer é distrair-se voluntariamente. Tampouco deve agitar-se quando perceber a mente divagando, pois a agitação não gera quietude; bem pelo contrário.


TEMPO

Sta Teresa D'Avila dizia que a oração não se faz à força de falar muito, mas de amar muito. Isto significa que o fundamental é ter uma reta disposição e pura intenção. Ela dizia ainda: "a alma enamorada fala disparates com Deus". A atitude pressuposta da oração é, então, fundamental, e tê-la correta já é oração. O tempo reservado para a oração, ainda que não seja tão bem aproveitado segundo os nossos critérios, também já tem seu valor, pois o que interferiu nele foi a nossa fraqueza. Conscientemente, porém, a nossa decisão foi de aproveitá-lo para estar com Deus. E só poderemos melhorar nisso se praticarmos bastante. Ninguém fica bom em uma atividade deixando para executá-la apenas quando for perfeito. O aperfeiçoamento pressupõe o exercício desde os mais baixos graus da indisciplina. 

CONTEÚDO

Quando nos distraímos, as palavras nos saem sem atenção e se tornam como que "flatus vocis", isto é, mero som. Isto se formos seguir uma lógica meramente natural. Na oração, porém, a coisa é mais complexa.

Somada aos pressupostos da reserva do tempo e da reta disposição e intenção está a força própria dos termos da oração. No nosso caso, as orações dos Pai Nossos e das Ave Marias. Ora, sabemos que o Pai Nosso foi a oração ensinada pelo próprio Cristo. A conclusão que se segue é que não importa o nosso grau de atenção e formação teológica ou mística, o significado das palavras transcende sempre a nossa compreensão. O mesmo se diga da Ave Maria, oração que foi recitada pelo próprio Arcanjo Gabriel e por Sta Isabel quando estava cheia do Espírito Santo. Portanto, estas palavras não apenas são expressões de idéias nossas, mas, como palavras divinamente inspiradas, têm uma eficácia própria e podem produzir em nós o seu efeito. Elas poderão gerar na nossa alma o que significam.

Mas, a fim de acompanhar com mais advertência estas orações, convém que observemos palavra a palavra e lhes atribuamos significados simples e diretos. Nestes últimos dias, eu tenho rezado o Pai Nosso do seguinte modo, seguindo de perto São Máximo, Confessor:

Pai Nosso - indica a figura de Deus Pai
Santificado seja o Vosso Nome - o "Nome" aqui indica Jesus
Venha a nós o teu reino - O "Reino" indicaria o Espírito Santo
Seja feita a tua vontade - o significado aqui é claro
Assim na terra como no céu - De novo, um significado óbvio
O Pão nosso de cada dia - Isto indica a Eucaristia
Nos dai hoje - este "hoje" transcende o hoje atual, mas indica o "hoje" da eternidade, ou a imortalidade.
Perdoai as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido - sentido óbvio
Não nos deixeis cair em tentação - temos as nossas fragilidades pessoais. Podemos aqui pensar nelas.
Mas livrai-nos do mal - o mal aqui, como o próprio Catecismo o declara, indica a pessoa de Satanás.
Amém.

Os significados, principalmente da primeira parte, podem mudar. Bento XVI dá outros sentidos à expressão "Vosso Nome", no seu livro "Jesus de Nazaré". Mas é bom que o significado não fique tão aberto. Do contrário, a nossa inteligência não fixará nada.

Agora, convém esclarecer o seguinte: o santo terço não deve ser rezado num processo cíclico de pensamento, passeando literalmente pelo significado de cada palavra da Ave Maria. Este movimento repetitivo é mesmo cansativo à mente, e é não natural. As "dez ave marias" devem servir-nos de "fundo musical" para a contemplação dos mistérios. Por exemplo, se estamos contemplando os mistérios gozosos - os meus favoritos -, os nossos lábios recitam as Ave-Marias enquanto a nossa mente reflete nos fatos contemplados, observando os detalhes e encontrando neles verdades escondidas. Portanto, acompanhar o significado literal dos termos não é importante. Isto permite que a mente diminua consideravelmente a sua inclinação a distrair-se. Isto também permite que o santo terço seja adequado igualmente tanto a pessoas simples quanto a pessoas mais sofisticadas intelectualmente. Os tesouros dos mistérios são inesgotáveis. A cada vez podemos intuir novas verdades.


HUMILDADE

Por fim, fazer a experiência da nossa fraqueza é a matriz mesma de onde surgirá a reta disposição da oração. Olhar para o céu como um necessitado dá consciência da razão de ser da oração. A humildade resultante pode se estabelecer em nós como um hábito, e isto é maximamente importante, pois Deus se revela aos pequenos. A humildade é a porta de abertura para que o contato entre Deus e a alma humana se estabeleça de fato.


MATERNIDADE

A Virgem Maria é também a nossa mãe. Ela sabe que, como crianças, ficamos à procura de satisfações, como um filho que se distrai diante de algum ensinamento dos pais. Ela, como mãe terna e doce que é, poderá educar o nosso coração para que ele amadureça. Muito mais do que nós, ela deseja a nossa santificação. 


EXALAR O PERFUME DE DEUS

O livro dos cânticos traz um belíssimo texto: "Enquanto o Rei descansa em seu divã, eu exalo o seu perfume." Esta expressão é seguida de perto por São Paulo: "nós devemos exalar o bom odor de Cristo." Para que possamos ter em nós este perfume, é preciso permanecer com Ele bastante tempo. Moisés, depois de ficar 40 dias com Deus, desceu do monte e o seu rosto brilhava. Torna-se luminoso quem permanece com a luz. Torna-se "cheiroso" quem permaneceu na presença do Cristo. Só então poderemos exalar este perfume e, então, ele encherá toda a casa. É como dizia Sta Teresinha de Lisieux: "far-me-ei santa; sê-lo-ei depressa. Assim converto-Te os corações." Rezar o terço nos dá esta graça: meditando nos mistérios da vida do Cristo, fazemos-lhe companhia e vamos nos tornando parecidos com Ele. Além de progredirmos tendo-O como um ser extrínseco a nós, somos também formados infusamente, modelados sem que o percebamos. Tal o efeito da oração.

Por isso, não nos esquivemos do rosário. Se nos falta tempo, apenas precisamos dar uma caminhada e levar o terço junto. Essas pequenas diligências nos disporão gradativamente para Deus. Que a Virgem Maria, mãe do Verbo, nos ensine e conduza.

Ainda sobre o Inferno: símbolo do fogo e trevas exteriores


Depois de ter devidamente provado que a própria Bíblia atesta a existência do inferno, vejamos agora mais uma conveniência bíblica de que o inferno seja real.

No texto passado, vimos como o destino eterno dos condenados é referido como "lago de fogo sulfuroso". Outra expressão que sugere uma idéia similar é "Geena" (Mt 5,22,29). Na verdade, este era um lugar físico, fora de Jerusalém, onde eram jogados os lixos, animais mortos, e, depois,  eram incinerados. É obviamente uma comparação que Jesus faz. Os negadores do inferno creem que a analogia se deve ao fato dos corpos físicos - objetos e animais - serem destruídos. Nós, ao contrário, cremos que Jesus utiliza esta figura para simbolizar o estado contínuo do inferno, não no que se refere à destruição, mas à chama.

E aqui fazemos um parêntese: embora haja de fato teólogos e santos que afirmam haver fogo literal no inferno, crer nisto não é essencial à Fé Católica. Não há consenso entre os teólogos a respeito da natureza do inferno, e as revelações dos santos que supostamente visitaram-no se enquadram no campo das revelações particulares que não obrigam a crença individual.

Além disso, quando consideramos o modo como o ser humano conhece, vemos que é complicado que uma pessoa veja sensivelmente realidades espirituais não sensíveis. Expliquemos: o ser humano é um composto substancial de corpo e alma. A alma possui inteligência e vontade, mas opera través da substância material, que são os órgãos físicos e os sentidos. Assim, a fim de inteligirmos algo, é necessário que o processo se inicie nos sentidos que apreendem as "espécies sensíveis" ou "imagens" dos entes corporais; em seguida, estas espécies são encaminhadas à imaginação e retidas pela memória. Até aí elas continuam sendo realidades singulares, isto é, individuais. Isto significa que tudo quanto temos na imaginação são realidades físicas. Mesmo que juntemos espécies sensíveis distintas compondo entes inexistentes, ainda assim estes entes terão uma figura física. Pois bem: desta matéria prima captada pelos sentidos e depositada na imaginação, a inteligência, agora uma faculdade espiritual, retira, num processo chamado "abstração", as "espécies inteligíveis", os dados universais que estavam "vestidos" pelos traços individuantes. É destes traços universais que virá o conceito ou definição das coisas. Isto significa que o ente humano não pode conhecer, por si mesmo, seres que não sejam materiais, a não ser por comparação com os entes físicos. Desse modo, há um claro limite cognoscitivo, o que faz com que Deus, querendo revelar ao homem realidades suprassensíveis, tenha de as adaptar ao conhecimento sensível humano. Assim, mesmo as visões dos santos e místicos deve necessariamente ter um caráter analógico. O que se conclui disso? Que não é possível dizer, a princípio, que no inferno exista fogo literal.

Agora, o fogo visto pode ter - e tem - um caráter simbólico. Mesmo um fogo literal cumpriria uma função: a submissão de um ente inteligente e espiritual a um elemento material e irracional, o que seria um remédio perpétuo para o orgulho humano. Além disso, o fogo pode meramente simbolizar a inquietude e o sofrimento que, no inferno, são contínuos. O escritor Joseph Pieper dizia que no inferno não há nem silêncio nem música, mas só barulho, isto é, não há a quietude da cessação nem a ordem da harmonia, mas apenas a agitação contínua e ruidosa, perpetuação das desordens da paixão que dominaram a pessoa em vida, efeito da animalidade à qual se submeteu durante sua estadia na terra.

O fogo, segundo o simbolismo antigo e medieval, também é composto de duas características: é seco e é quente. A sequidão é o princípio da fixidez, da não fluidez. O quente é o princípio da fragmentação, da não coesão. O fogo, portanto, poderia simbolizar a dureza dos entes fragmentados, isto é, que não alcançaram a sua coesão interior, e que permanecem nesta condição, o que significa que os condenados manifestariam uma espécie de personificação do estado de guerra. Nada mais adequado, portanto, que o fogo para servir-lhes de símbolo.

Contudo, nem sempre o inferno é referido, na Bíblia, como um lugar de fogo. Com efeito, lemos em 2Pe 2,4 o que segue:

"Pois se Deus não poupou os anjos que pecaram, mas os precipitou nos abismos tenebrosos do inferno onde os reserva para o julgamento..."

Aqui o inferno aparece como "abismos tenebrosos", isto é, lugar onde habitam as trevas. Inferno, aí, tem o sentido de "lugar inferior" em oposição ao "lugar superior", o Céu. Como, porém, o Céu não é uma realidade material e, portanto, é não-espacial, também o "lugar inferior" ou "inferno" pode ser o símbolo de um estado inferior contrário ao celeste, e não exatamente um lugar. A Escritura diz que o demônio, depois do pecado, foi enviado à terra. Se se quiser tomar "inferno" como lugar literal, então talvez tivéssemos de fazer a identificação entre a terra e o inferno. Estariam corretos os que dizem que "o inferno é aqui", hehe.. A coisa complica ainda mais se considerarmos que Paulo, referindo-se a estes que foram precipitados "nos abismos tenebrosos do inferno", habitam nos ares (Ef 6,12). Além disso, qualquer protestante tende a aceitar que os demônios têm liberdade suficiente para tentar os cristãos, o que indica que os abismos onde estão precipitados não é exatamente um lugar.

O Inferno é, portanto, o contrário da beatitude celestial, isto é, um estado de alma. Do mesmo modo, as trevas do inferno são o oposto da luz divina. O que se nota, porém, é que, embora estejam reservados para um futuro julgamento, os anjos decaídos - que chamamos "demônios - habitam desde já nestes estados, o que significa que estas trevas não são um símbolo da sua destruição.

Porém, o próprio Jesus usa o exemplo das trevas para simbolizar o castigo dos proscritos depois do julgamento. Vamos ver?

"Por isso, eu vos declaro que multidões virão do Oriente e do Ocidente e se assentarão no Reino dos céus com Abraão, Isaac e Jacó, enquanto os filhos do Reino serão lançados nas trevas exteriores, onde haverá choro e ranger de dentes." (Mt 8,11-12)

Quando Jesus conta a parábola da festa das bodas do filho do Rei, inclui um personagem que está sem a veste nupcial. Qual será o destino deste sujeito?

"Amarrai-lhe os pés e as mãos e lançai-o nas trevas exteriores. Ali haverá choro e ranger de dentes." (Mt 22,13)

Falando do servo mau e preguiçoso que enterrou o talento ao invés de tê-lo ao menos colocado no banco para correr juros, Jesus, referindo-se à Sua volta, diz:

"E a esse servo inútil, jogai-o nas trevas exteriores; ali haverá choro e ranger de dentes." (Mt 25,30)

Eu estou pegando de propósito somente trechos de Mateus, pois se citasse autores diferentes alguém poderia objetar a diferença de estilos e de símbolos. Mas se é só um autor, fica evidente a intenção dele.

Notem que os trechos acima sempre relacionam o "choro e ranger de dentes" às "trevas exteriores". Agora, observem a seguinte relação:

"O Filho do homem enviará seus anjos, que retirarão de seu Reino todos os escândalos e todos os que fazem o mal e os lançarão na fornalha ardente, onde haverá choro e ranger de dentes." (Mt 13, 41-42)

"Assim será no fim do mundo: os anjos virão separar os maus do meio dos justos e os arrojarão na fornalha, onde haverá choro e ranger de dentes." (Mt 13,49-50)

O que é que se nota aí? Mateus faz uma relação evidente entre "trevas exteriores" e "choro e ranger de dentes". Depois, ele faz o mesmo com "fornalha ardente" e "choro e ranger de dentes", o que indica que "trevas exteriores" e "fornalha ardente" sejam a mesma coisa. Obviamente que a idéia de "trevas exteriores" não sugere destruição.

Como vimos na afirmação de Pedro, as "trevas exteriores" ou "lugares tenebrosos", ou, ainda, "profundezas das trevas" (2Pe 2,17), onde estão os demônios desde já, não simbolizam a destruição literal. Logo, a "fornalha ardente" tampouco a simboliza.

Daqui surge naturalmente a questão: se os demônios já esperam no lugar tenebroso pelo julgamento, o que mudará ao serem julgados se se está dizendo que eles permanecerão neste lugar?

Antes, porém, de respondê-la, notemos o seguinte: Jesus, em Jo 16,11, afirma que o juízo, do qual o Espírito Santo nos convencerá, é o de que o "príncipe deste mundo", isto é, o demônio, "já está julgado e condenado".

Se já está julgado e condenado porque haveria um julgamento também dos demônios no fim dos tempos? Será que o texto quer dizer que apenas Lúcifer já está julgado e condenado e que os demais demônios podem ser ainda inocentados? Obviamente que não. Isto indica que o Juízo Final é um juízo de confirmação e de exposição das obras de cada pessoa - humana ou angélica - a fim de, depois, determinar-lhe justa punição. Os demônios, nesta ocasião, perdem todo o poder de causar mal aos outros, sendo, dentre todos, os que mais sofrerão. Do mesmo modo, os ressurretos para a perdição terão acrescido, pelo fato de estarem agora com seus corpos, o sofrimento de que padecerão pela eternidade.

Papa oferece perdão às mulheres que fizeram aborto - Como é?!


Mais uma vez, como sempre, a mídia instrumentaliza a fala do Papa para sugerir "inovações", "mudanças morais", uma igreja "mais inclusiva", e várias outras idéias que unem a falsidade com o potencial sensacionalista. Vamos ver o que o Papa falou de verdade? Comentamos depois:

"Um dos graves problemas do nosso tempo é certamente a alterada relação com a vida. Uma mentalidade muito difundida já fez perder a necessária sensibilidade pessoal e social pelo acolhimento de uma nova vida. O drama do aborto é vivido por alguns com uma consciência superficial, quase sem se dar conta do gravíssimo mal que um gesto semelhante comporta. Muitos outros, ao contrário, mesmo vivendo este momento como uma derrota, julgam que não têm outro caminho a percorrer. Penso, de maneira particular, em todas as mulheres que recorreram ao aborto. Conheço bem os condicionamentos que as levaram a tomar esta decisão. Sei que é um drama existencial e moral. Encontrei muitas mulheres que traziam no seu coração a cicatriz causada por esta escolha sofrida e dolorosa. O que aconteceu é profundamente injusto; contudo, só a sua verdadeira compreensão pode impedir que se perca a esperança. O perdão de Deus não pode ser negado a quem quer que esteja arrependido, sobretudo quando com coração sincero se aproxima do Sacramento da Confissão para obter a reconciliação com o Pai. Também por este motivo, não obstante qualquer disposição em contrário, decidi conceder a todos os sacerdotes para o Ano Jubilar a faculdade de absolver do pecado de aborto quantos o cometeram e, arrependidos de coração, pedirem que lhes seja perdoado. Os sacerdotes se preparem para esta grande tarefa sabendo conjugar palavras de acolhimento genuíno com uma reflexão que ajude a compreender o pecado cometido, e indicar um percurso de conversão autêntica para conseguir entender o verdadeiro e generoso perdão do Pai, que tudo renova com a sua presença."
Fonte: Vaticano

Voltamos. Como vê quem sabe ler, não há aí nenhuma espécie de relativização do pecado nefando do aborto. Ele costuma sendo o que é: assassinato de infantes. E continua gerando o que gera: excomunhão automática. Quando uma mulher comete aborto - e com ela todos quantos a apoiaram, induziram, ajudaram, etc. - ela é imediatamente excluída da Igreja, isto é, deixa de ser católica, ainda que ninguém o saiba! A pertença à Igreja não se resume a ter um lugar num dos bancos do templo, ou a poder assistir missas. É antes de tudo uma comunhão espiritual que dá acesso aos sacramentos através dos quais a pessoa participa da vida divina.

Pois bem. Antes, quando uma dessas excomungadas, tendo tomado consciência da burrada que fez, e, cheia de arrependimento, decidia voltar à Igreja, o que ela precisava fazer? Ela tinha de recorrer ao bispo ou a algum padre especialmente delegado por ele. Então ela se confessava e, desde que tivesse as devidas disposições, recebia a absolvição e voltava a fazer parte da Igreja, mas não sem portar ainda as grandes penas decorrentes do ato.

O que mudou agora com o pronunciamento do Papa Francisco para o ano da misericórdia? Somente que não será mais necessário recorrer diretamente ao bispo, sendo suficiente que a pessoa se confesse com qualquer sacerdote legitimamente ordenado. Mas continuam valendo as precondições anteriores: as retas disposições que incluem o arrependimento sincero - efeito da compreensão do pecado -, a detestação do ato cometido e o firme propósito de não mais praticá-lo. Além disso, esta possibilidade existe apenas durante o ano da Misericórdia.

É verdade de Fé que qualquer pecado, por mais grave que seja, tem perdão se a pessoa verdadeiramente se arrepende. Isto não é exceção sequer para o aborto, e nem mesmo para o sacrilégio. Portanto, não há tanta novidade assim no pronunciamento do Papa. Ele apenas facilitou um pouco o acesso às pessoas arrependidas. Mas aqueloutras que queiram gozar do perdão da Igreja sem um verdadeiro arrependimento, ou, ainda, qualquer uma que se aproveite deste ato de misericórdia da Igreja para cometer este crime que clama aos céus, pretendendo facilmente confessar-se depois, estará cavando sob si mesma o próprio buraco para o inferno, pois une um crime abominável com o pesadíssimo ato do sacrilégio. Portanto, que a misericórdia de Deus não seja pretexto para mais infanticídios. E, de outro lado, que as pessoas que chegaram um dia a cometer este ato absurdo sejam de fato tocados pelas graças atuais de Deus e, verdadeiramente arrependidas, voltem ao seio da Santa Igreja.

PME de União dos Palmares sem Gênero II - Aprovação das emendas e aditivos


Ontem, dia 31 de Agosto de 2015, ocorreu, na Câmara de vereadores aqui da cidade, uma sessão para a aprovação das emendas e aditivos feitos ao Plano Municipal de Educação. E este mês combativo se fechou com chave de ouro: não somente as expressões nas quais constava o termo "gênero" foram retiradas, como também foi proibida qualquer menção do tema nas aulas, nos materiais didáticos e paradidáticos, nos debates, nos seminários, nos concursos de redação, etc. Ou seja: estamos, de fato, livres - ao menos juridicamente - desta armadilha satânica.

Contudo, assim como ocorreu no Plano Nacional de Educação, no qual foram inseridos, à revelia do acordado no Senado Federal, os termos referentes a gênero, assim também é comum que, fazendo vista grossa ao que foi determinado, e supondo-se os maiores representantes da democracia e da sociedade esclarecida, as autoridades educacionais voltem a forçar a barra e a incluir a ideologia "por baixo dos panos", o que já é o modus operandi dessa turma. De fato, já há vários livros didáticos que trazem a temática. Portanto, a luta não termina aqui. Ela permanece enquanto vigilância e, quando necessário, luta aberta.

Mas, por ora, estamos felizes porque a luta valeu a pena. Hoje o PME, tal qual aprovado pela Câmara, é enviado para a prefeitura e terá um prazo de quinze dias para a sanção do prefeito. Julgamos que não haverá veto, mas, em havendo, ele volta à casa legislativa do município e, aí, os vereadores poderão derrubar o veto do prefeito desde que dez vereadores estejam de acordo, o que nos parece, também, que, se for o caso, não haverá problemas, uma vez que eles foram unânimes na retirada das menções de gênero.

Agora, nos unimos à luta de Maceió que nesta sexta feira realizará uma audiência pública para o debate do tema. Neste intuito, pedimos orações de todos os amigos. Que, enfim, esta luta chegue a um resultado vitorioso; que Deus cuide das crianças e não permita que ideólogos levianos pervertam a inocência dos infantes.

Fábio

Uma defesa bíblica do Inferno


A grande maioria dos cristãos entende que o Inferno é real e é eterno. A sua natureza é que é objeto de controvérsia: alguns dizem que é lugar, outros que é estado de alma, outros ainda que é um estado de alma num lugar. Discute-se também se o fogo é literal, ou se é apenas um símbolo, ou se é ambos, etc. Mas há também aqueles que negam que ele exista. Dentre estes, estão os Adventistas e os Testemunhas de Jeová, que o entendem como um símbolo da destruição ou segunda morte da pessoa no fim dos tempos. Esta destruição implicaria a cessação da consciência. Assim, a negação do inferno exige a visão mortalista da alma, enquanto que a sua afirmação, sendo ele uma realidade eterna, pressupõe a crença na imortalidade da alma.

Um dos trechos favoritos dos negadores do inferno se encontra em Mac 3,19 (em algumas versões 4,1), que diz:

"Porque eis que vem o dia, ardente como uma fornalha. E todos os soberbos, todos os que cometem o mal serão como a palha; este dia que vai vir os queimará - diz o Senhor dos exércitos - e nada ficará; nem raiz, nem ramos." 

E há ainda outras várias passagens bíblicas que sugerem a um mortalista o fim da existência dos condenados: Isa 47,14, Pr 10,25; Sl 37,22; Sl 37,9-10, 20, 38; Sl 145,20; etc.

Mas também há os vários trechos que falam de uma punição que perdura eternamente. Dentre eles:

"Se a tua mão for para ti ocasião de queda, corta-a; melhor te é entrar na vida aleijado do que, tendo duas mãos, ires para a geena, para o fogo inextinguível, onde o seu verme não morre e o fogo não se apaga." (Mc 9,43-44)

Mais alguns: Mat. 18:8, Mat. 3:12, Apo. 14:11, Mt. 25:41, Mc. 9:43, Apo 19:3, Jd. 1:7, Lc. 3:17, etc.

Bem, como se vê, a questão é espinhosa, e tanto os textos pró-inferno quanto os contra são, em geral, convincentes. Para resolver o impasse de vez, teríamos de abordar a questão da imortalidade da alma, o que por ora não dá pra fazer, pois este é um tema gigantesco - mas de que ainda iremos tratar detidamente aqui.

Porém há uma combinação de trechos bíblicos que, na primeira vez em que a vi, considerei suficiente para afastar a tese do mortalismo. Ele está no livro do Apocalipse. Acompanhemos:

No capítulo 19, versículo 19 em diante, lemos:

"Eu vi a Fera e os reis da terra com os seus exércitos reunidos para fazer guerra ao Cavaleiro e ao seu exército. Mas a Fera foi presa, e com ela o falso profeta, que realizara prodígios sob o seu controle, com os quais seduzira aqueles que tinham recebido o sinal da Fera e se tinham prostrado diante de sua imagem. Ambos foram lançados vivos no lago de fogo sulfuroso." 

Este lago sulfuroso seria supostamente a destruição última e total de todos os que são lançados lá. Contudo, acompanhemos. No capítulo 20, um anjo desce do céu com a chave do abismo e aprisiona o Dragão, "a primitiva Serpente". Esta prisão dura mil anos, conforme se lê no versículo 2 e 3. Pois bem: mil anos! Atente nisso.

Depois de passar todo esse tempo, chega a hora de o demônio ser solto "por um pouco de tempo", para seduzir as nações dos quatro cantos da terra. É então que ocorre o que lemos a seguir:

"Mas desceu um fogo dos céus e as devorou. O Demônio, sedutor delas, foi lançado num lago de fogo e de enxofre, onde já estavam a Fera e o falso profeta, e onde serão atormentados, dia e noite, pelos séculos dos séculos." (20, 9-10)

Como, depois de mil anos, a Fera e o falso profeta ainda estavam lá? Mas nem que fosse com uma estrelinha de São João! Imagina sendo um "lago de fogo sulfuroso"?

Será um problema de tradução? Vamos à Bíblia de Jerusalém:

"O Diabo que os seduzira foi então lançado no lago de fogo e de enxofre, onde já se achavam a Besta e o falso profeta."

A versão Almeida Corrigida e Revisada Fiel complica ainda mais a vida dos mortalistas:

"E o diabo, que os enganava, foi lançado no lago de fogo e enxofre, onde estão a besta e o falso profeta; e de dia e de noite serão atormentados para todo o sempre."

Além do problema do trecho grifado, o que fazer com a afirmação exatamente subsequente?

"E de dia e de noite serão atormentados para todo o sempre" ou "pelos séculos dos séculos"

O termo utilizado "de dia e de noite" sugere claramente a continuidade do sofrimento, e este, em consonância com o que Nosso Senhor mesmo falou, não tem fim: é contínuo choro e ranger de dentes, pelos séculos dos séculos.

Adventismo: O Juízo Investigativo



A Igreja Adventista do Sétimo Dia - IASD afirma a existência de um negócio chamado "Juízo Investigativo". Na verdade, seriam três juízos ou três fases de um único juízo, como se diz, e aqui iremos estudá-las e ver se há fundamento para elas.

Estes três momentos judicativos surgem como consequência lógica de três eventos.

O primeiro deles é a entronização de Jesus no Lugar Santo em 22 de Outubro de 1844. O segundo seria o reino do milênio, após a primeira vinda de Jesus, antes da ressurreição dos infiéis. O terceiro seria, enfim, quando Jesus decretar o destino dos não convertidos que, ressuscitados, ouvirão a sua sentença e a sofrerão, sendo destruídos em seguida. Estes três juízos ou três fases do juízo recebem nomes específicos.

A primeira, como já dissemos, chama-se Juízo Investigativo.
A segunda, Juízo Judicativo.
A terceira, Juízo Executivo.

Neste texto especificamente nos deteremos no Juízo Investigativo.

Este juízo, como o nome sugere, seria um processo de investigação em que Jesus, tendo entrado no Lugar Santíssimo, examina os escritos dos anjos relatores. O adventismo crê que há anjos responsáveis por escrever tudo quanto fazemos: desde os nossos atos às mais recônditas intenções da nossa alma.

Um fiel registro de todas as suas [dos homens] ações é feito diariamente pelos anjos relatores. Todos os seus atos, mesmo as intenções e propósitos do coração acham-se fielmente revelados. (Testemunhos para a Igreja 1, pg. 468, disponível aqui)

A fim de que seja preservada a Justiça divina, Ele necessita conhecer todos estes fatos antes de uma tomada de decisão:
"Deve haver um exame dos livros de registro para determinar quem, através do arrependimento e fé em Cristo, tem direito aos benefícios de Sua expiação. A purificação do santuário envolve, portanto, uma obra de investigação - um julgamento - antes da volta de Cristo, pois quando Ele vier, Sua recompensa estará com Ele para dar a cada um segundo as suas obras (Ap 22,12)." (O grande conflito, p. 197)

Assim, existiriam livros no Santuário Celestial (Dn 7,10, Apo 20,12), e, neste lugar, Jesus, ministrando, ocasião que corresponderia ao Grande Dia da Expiação, analisa uma a uma as histórias dos homens: "A esse período nos referimos como o antitípico Dia da Expiação." (Questões sobre doutrina, p.315) O objetivo disto é apenas um: decidir quem mantém seu nome escrito no livro da vida ou quem o terá apagado, pois este apagamento pode acontecer (Cf. Ex 32,33; Apo 3,5; Sl 69,28). Por isso, até a fim de economizar tempo (rs), os que um dia foram fiéis são os únicos casos a serem examinados. Isto é: os não cristãos já estão naturalmente excluídos.

Escreve Ellen White:

"No ritual simbólico, os únicos que participavam do Dia da Expiação eram aqueles cujos pecados haviam sido transferidos ao santuário durante o ano. Assim, no grande Dia da Expiação final e do juízo investigativo, os únicos casos examinados são os daqueles que afirmaram fazer parte do povo de Deus. O julgamento dos ímpios é algo distinto e separado, e ocorre posteriormente. 'Porque a ocasião de começar o juízo pela casa de Deus é chegada.' (1Pe 4,17)

Os livros de registro no Céu determinam a decisão do julgamento. O Livro da Vida contém os nomes de todos os que já serviram a Deus. Jesus ordenou aos discípulos: 'Alegrai-vos, [...] porque o vosso nome está arrolado nos Céus.' (Lc 10,20). Paulo fala de seus cooperadores, 'cujos nomes se encontram no Livro da Vida' (Fp 4,3). Daniel declara que o povo de Deus será livrado, 'todo aquele que for achado inscrito no livro [da vida]' (Dn 12,1). E João diz que entrarão na cidade de Deus apenas aqueles cujos nome estão 'inscritos no Livro da Vida do Cordeiro' (Ap 21,27).

No livro 'memorial', estão registradas as boas ações dos 'que temem ao Senhor e para os que se lembram do Seu nome' (Ml 3,16). Cada tentação resistida, cada mal vencido, cada palavra bondosa dita a alguém, cada ato de sacrifício, cada sofrimento suportado por amor de Cristo, está registrado. 'Contaste os meus passos quando sofri perseguições; recolheste as minhas lágrimas no Teu odre; não estão elas inscritas no Teu livro?' (Sl 56,8)." (O Grande Conflito, p. 225)

Veja também isso:
"Assim, compreendemos que o livro da vida é o registro dos que professaram ser seguidores de Deus e deram início à caminhada rumo à vida eterna. O apóstolo Paulo fala da 'Igreja dos primogênitos arrolados nos Céus' (Hb 12,23) Falando em linguagem comum, diríamos que o livro da vida é o registro celestial da igreja. Nessa lista estão todos os que Deus pode considerar candidatos ao Seu reino eterno, desde Adão até a última pessoa na Terra que se volva ansiosamente para Ele, não importando quão limitada seja sua compreensão da gloriosa boa-nova do evangelho.
Cremos que a eliminação dos nomes do livro da vida é uma obra do juízo investigativo. O completo e perfeito exame de todos os candidatos à vida eterna terá de ser feito antes que Cristo volte nas nuvens do céu, pois, quando Ele aparecer, já terão sido tomadas as decisões para vida ou para morte. Os que morreram em Cristo serão chamados à vida, e os seguidores vivos de Cristo serão trasladados (1Ts 4,15-17). Todos são cidadãos do reino eterno. Depois do segundo advento, não haverá tempo para essas decisões." (Questões sobre doutrina, pg. 312)

Considere mais este texto de Ellen White sobre o que ocorre no Juízo Investigativo:

"Ao abrirem-se os livros de registro no juízo, é passada em revista perante Deus a vida de todos os que creram em Jesus. Começando pelos que primeiro viveram na Terra, nosso Advogado apresenta os casos de cada geração sucessiva, finalizando com os vivos. Todo nome é mencionado, cada caso minuciosamente investigado. Aceitam-se nomes, e rejeitam-se nomes. Quando alguém tem pecados que permanecem nos livros de registro, para os quais não houve arrependimento nem perdão, seu nome será omitido do livro da vida, e o relato de suas boas ações apagado do livro memorial de Deus. [...] Todos os que verdadeiramente se tenham arrependido do pecado e que pela fé hajam reclamado o sangue de Cristo, como seu sacrifício expiatório, tiveram o perdão aposto ao seu nome, nos livros do Céu; tornando-se eles participantes da justiça de Cristo, e verificando-se estar o seu caráter em harmonia com a lei de Deus, seus pecados serão riscados e eles próprios havidos por dignos da vida eterna. (O grande conflito Apud Questões sobre doutrinam, p. 315)

Ao término deste exame, acontecerá a volta de Jesus e o início do milênio.

"Tendo concluído Seu ministério como sumo sacerdote, nosso Salvador retorna à Terra, em glória, e então Satanás é lançado no abismo, onde ele e seus confederados de rebelião permanecerão por todo o milênio." (Questões sobre doutrina, p. 316)

Vamos então a alguns problemas

O primeiro problema, e que salta à vista, é a concepção materialista do céu que se tem e a negação prática da onisciência divina. Surpreendentemente, Deus precisa recorrer a livros para conhecer as minúcias da vida dos seres humanos, o que leva também a um segundo absurdo: que os anjos relatores saibam previamente algo que Deus não sabe ainda.

A Sra White nada fala sobre isso - pelo menos não o vimos -. Mas, como é um problema básico e facilmente percebido, o Questões sobre doutrina se apercebe dele e tenta uma justificação:

"Se a questão envolvesse apenas Deus, certamente não haveria necessidade de registros. Mas, para que os habitantes de todo o Universo, incluindo os anjos bons e maus e todos quantos já viveram na Terra, pudessem compreender Seu amor e Sua justiça, a história da vida de toda pessoa que já viveu neste mundo foi registrada, e no juízo serão abertos esses registros - pois todo homem será julgado segundo o que for revelado 'nos livros' do registro (Dn 7,10; Ap 20,12)" (p. 303)

"Cuma foi, seu zé?"
Isso, além de não melhorar muito, levanta outros sérios problemas. O primeiro é que a multidão de homens e anjos é de repente transformada numa plêiade de curiosos e fuxiqueiros. Além disso, o fato de eles precisarem conferir para só então se certificarem de que Deus é justo instaura e sacraliza, nos salvos, a desconfiança de Deus. Os que virem Deus face a face não apenas o amarão e nele confiarão, mas terão ainda quaisquer reservas que os farão conferir o Seu trabalho. E o que garantiria a estes desconfiados que os registros falam a verdade? Se se desconfia de Deus, imagina de um anjo relator? Então, o que se vê é uma série interminável de problemas. Os adventistas julgaram necessário levantar essa questão devido à afirmação bíblica de que os justos julgarão o mundo. (2Pe 2,4) Mas é muito interessante que os tais justos julguem o que já está julgado. Segundo, se se referisse a um desejo espontâneo de conferir um caso ou outro em particular, não seria o mundo que seria julgado, mas apenas alguns casos - por certo, a minoria, pois o Céu deve ser muito mais interessante do que tédio subjacente necessário à perda de tempo que seria fazer isso aí.

Mas que se trata de um caso de desconfiança é dito pelo próprio Questões sobre doutrina:

"O amor e a justiça de Deus têm sido desafiados por Satanás e suas hostes. O arquienganador e inimigo de toda justiça tem feito parecer que Deus é injusto. Portanto, em sua infinita sabedoria, Ele determinou resolver para sempre toda dúvida. Faz isso revelando perante o Universo inteiro a história completa do pecado, desde seu início." (p. 303)
Quer dizer que "em sua infinita sabedoria", Deus resolveu tirar a dúvida dos homens dando-lhes livros? "Vamos fazer do Céu um país de leitores."

Além disso, a segunda citação acima afirma que também os "anjos maus e todos quantos já viveram na Terra" poderão, através desses registros, "compreender Seu amor e Sua justiça", o que traz imediatamente a questão: também os demônios e os perdidos terão acesso a estes registros? Ora, estamos no Milênio, que é quando os "santos curiosos e paranóicos" supostamente reconferirão os tais registros. Mas os demônios não estarão no abismo? Os registros serão levados lá? E o que dizer dos homens maus que já tiverem morrido e estiverem supostamente naquela soneca? Não é só no final que eles serão ressuscitados? Quer dizer que depois da segunda ressurreição ainda haverá tempo de verificar, por parte dos condenados, a história de todas essas pessoas? Então põe mais um milênio aí... Pelo menos morrerão cultos... 

Shandaray...
Outra coisa curiosa: toda a perspectiva adventista pressupõe a existência do tempo no Céu. Na verdade, o tempo é uma criação de Deus para as realidades espaciais e, portanto, materiais. O que é o tempo? É justamente a distância entre o início de um movimento - físico ou mental - e o seu termo. Percorrer essa distância exige que no início do movimento ainda não se tenha o que se terá no fim. Portanto, o tempo exige um ser carecente que busca algo que lhe falta. Ora, Deus é completo e onipresente, o que impossibilita inclusive que Ele se mova, já que mover-se implica ocupar espaço antes não ocupado. Se Deus está em todo lugar, Ele não pode ocupar um lugar ainda não ocupado porque tal lugar não existe. Tempo e espaço existem neste universo. Deus está fora do tempo. É por isso que Deus se chama de "Eu sou".

Tudo quanto está no tempo muda. Ora, Deus não muda, o que significa que Ele não tem um antes e um depois. Ele simplesmente é. Ler livros é fazer um trabalho temporal e sucessivo, onde a consciência transita de nome a nome, de idéia a idéia, de história a história, e, de novo, isto pressupõe a negação da onisciência. Deus pode expressar-se sucessivamente já que Ele se dirige a seres temporais cujos atos cognoscitivos são sucessivos. Mas, enquanto atividade imanente, Deus não tem sucessão.

Poder-se ia objetar que Jesus o faz enquanto homem. Mas isto seria perder tempo, pois Jesus é Deus e pode saber de tudo num átimo. Contrasta com essas verdades evidentes a hipótese de Jesus estar, desde 1844, neste trabalho.

Acaba mair não...

Também do ponto de vista profético, isso não bate. Com efeito, costuma-se atribuir um dia a um ano. As 2.300 tardes e manhãs de Daniel seriam supostamente 2.300 anos, que levariam a 1844 - Na verdade, 1843. Assim, o dia da expiação, sendo somente um dia no tipo do Santuário, deveria ser correspondente a mil anos proféticos no seu antítipo. Chegaríamos então a 1944[43], que já passou faz tempo. Mesmo assim, esta teoria contrastaria com o que dissemos anteriormente.

Os livros de que se fala certamente não são livros literais, mas um símbolo usado pela Escritura para dar à consciência humana uma idéia comparativa de que Deus tem tudo registrado. Em Apocalipse 10,10 se fala de um livro pequeno que o Apóstolo João come, e até descreve o gosto. Ora, não se deve tomar isso literalmente.

O Questões sobre doutrina, a este respeito, diz:

"A que se assemelham esses 'livros' exatamente, não sabemos. Isso não foi revelado. As Escrituras, porém, tornam claro que, seja qual for a natureza desses registros, desempenham papel vital na cena do juízo." (p. 303)

Notem que ele aspeia a palavra "livros". Talvez algum adventista que estivesse nos acompanhando até aqui estivesse vendo com maus olhos o fato de atribuirmos a estes livros um sentido não literal. Mas eis que uma fonte de peso adventista diz o mesmo. Pô-lo entre aspas é o mesmo que dizer que não são livros exatamente. Mas é preciso dizer mais: se estes registros forem quaisquer objetos extrínsecos à mente divina, teremos de novo uma negação prática da onisciência. É preciso, portanto, que eles sejam a própria Inteligência de Deus, pelo que dispensam o "tempo" - que inexiste no Céu - de exame.

Por fim, se a intenção de Deus fosse comunicar as suas decisões e as razões delas, nada O impediria de iluminar simultaneamente a consciência de todos quantos houvesse no mundo, tanto anjos quanto homens.

Outro problema: como é possível que um julgamento da vida inteira de alguém aconteça enquanto o julgado ainda está vivendo? Deus poderia fazê-lo na sua presciência - como de fato Ele já sabe de antemão quem se salvará e quem se condenará -, mas isto dispensaria a necessidade de qualquer exame. A crença adventista, ao contrário, é a de que o meu nome pode estar sendo examinado agora no livro, e as minhas disposições atuais determinarão a minha salvação ou condenação. O meu nome por certo não será revisto, pois isto abriria ocasião para a revisão de todos os demais, e, sendo que o que motivaria uma tal revisão seria uma mudança interior, e sendo que esta pode se dar continuamente, seguir-se-ia daí a possibilidade de uma revisão contínua, e penso que eu que nem a paciência divina daria conta.

Crer no Juízo Investigativo é divinizar a sorte. Depois que o meu nome passar pelo exame e for apagado do livro da vida, de nada adiantará os meus ulteriores arrependimentos. Estarei perdido. Do mesmo modo, se no exame, eu for encontrado arrependido, e meu nome for mantido no livro da vida, isto significa que eu posso até fazer pacto com o demo depois, que nem por isso ele sairá de lá. Se se contestar isso, se terá de admitir a possibilidade da revisão do livro. A única saída é supor que um tal exame não existe, e que o julgamento divino, não precisando ocorrer no tempo, será imediato, no fim dos tempos, quando todos os homens tiverem terminado a sua história, como é a única alternativa lógica.

Vamos a mais uma citação que prova por A+B que o juízo investigativo nega a onisciência divina:

"Evidentemente, o relator celestial fez uma completa biografia de todo indivíduo que já viveu na Terra, não omitindo coisa alguma que pudesse ter qualquer influência na decisão do Juiz Onipotente." (p. 311)

A primeira coisa a se perguntar é: onde se diz na Bíblia sobre os anjos relatores?

A segunda é: por que os anjos relatam tudo de todo indivíduo se, como vimos, apenas os que uma vez foram cristãos serão objetos de exame?

Depois: se os anjos não omitem "coisa alguma que pudesse ter qualquer influência na decisão" de Deus, então isto significa que se eles omitissem, Deus não o saberia, isto é, poderia ser influenciado. Diga-me o leitor? Há sentido dizer isso considerando a onisciência divina?

Vamos a apenas mais dois problemas. Um deles já o adiantamos acima: na primeira citação, Ellen White deixa claro que apenas os uma vez ingressados na vida cristã serão analisados no Juízo Investigativo:

"No ritual simbólico, os únicos que participavam do Dia da Expiação eram aqueles cujos pecados haviam sido transferidos ao santuário durante o ano. Assim, no grande Dia da Expiação final e do juízo investigativo, os únicos casos examinados são os daqueles que afirmaram fazer parte do povo de Deus. O julgamento dos ímpios é algo distinto e separado, e ocorre posteriormente. (O grande conflito, p. 255)


Isto de fato otimizaria bastante o tempo. Mas, de novo: por que os anjos relataram a vida inclusive de quem nunca foi cristão? E o caso desses infiéis seria analisado só durante o Milênio? O Questões sobre Doutrina é taxativo: Depois do segundo advento, não haverá tempo para essas decisões." (p. 312)" Então, o julgamento dos ímpios ocorre posteriormente quando? Além disso, se eles não entraram no convívio dos justos, não já estão julgados? Como saber quem não entra no céu senão julgando-os anteriormente? Note-se que a sra White diz que "os únicos casos examinados são os dos que afirmaram fazer parte do povo de Deus".


Por fim, Ellen White cita Jesus e São Paulo:


"Alegrai-vos, [...] porque o vosso nome está arrolado nos Céus.' (Lc 10,20). Paulo fala de seus cooperadores, 'cujos nomes se encontram no Livro da Vida' (Fp 4,3)." (O grande conflito, p. 255)

Daí eu pergunto: que sentido faz se alegrar porque o nome aparece no livro dos céus se o mais normal do mundo é que depois o corretivo santo ou a borracha do poder entrem em ação e apaguem o nome de lá? Pelo contrário, quando Jesus ou Paulo falam isto, é óbvio que eles estão dizendo que aqueles aos quais eles se referiam eram pessoas eleitas de Deus.

Votação do PME de União dos Palmares na Câmara hoje - Sem Ideologia de Gênero!


Hoje, dia 20 de Agosto de 2015, é um dia histórico para União dos Palmares. Tivemos, a partir das 9 horas da manhã, uma Audiência Pública na Câmara dos Vereadores, sob presidência do Ver. Tita, a respeito da inserção da Questão de Gênero no Plano Municipal de Educação de União dos Palmares.

Antes das participações dos representantes das Instituições - entre eles, eu, que tive a imerecida honra de representar a Igreja Católica -, houve uma explanação do tema por dois amigos de Maceió, o Alessandro e o Leonardo, que, com a ajuda de um projetor, exprimiram de maneira magistral o plano ideológico e político que se imiscui no termo "Gênero".

Depois de muita discussão, vencemos, ao menos por ora, a causa por unanimidade. Com exceção de alguns militantes de esquerda, todos fomos contra, inclusive a totalidade dos vereadores presentes. Até mesmo um vereador do PT declarou-se contrário à Ideologia de Gênero.

Dentre os que foram favoráveis, o que geralmente se nota parece ser, não necessariamente uma má vontade ou um caráter maquiavélico, mas o total desconhecimento da própria noção de Gênero neste novo contexto. Por exemplo, o que mais se dizia da parte de quem defendia a teoria de gênero eram duas coisas: que era o mesmo que combate à homofobia - que é na verdade uma coisa totalmente diferente e não tem nada a ver com gênero -; e a idéia de que não existe opção sexual, pois isto não seria questão de escolha: nasce-se assim. Embora isso seja um pouco mais problemático, tudo bem. O que acontece é que este discurso do homoerotismo inato destrói a própria noção de gênero, pois todo teórico dessa idéia afirma categoricamente que a identidade de gênero é mutável, é fluida, é flutuante e pode ser mudada tanto quanto se queira. Ou seja: os próprios defensores do gênero são contra o gênero. Para se certificar disso, basta ir às fontes!

Citemos, só a título de exemplo, a Judith Butler, que é a maior autoridade atual sobre esse assunto - e inclusive estará aqui no Brasil agora em Setembro para um seminário sobre gênero na Bahia:

"A distinção entre sexo e gênero serve ao argumento segundo o qual o gênero é culturalmente construído. Portanto, o gênero não seria nem o resultado causal do sexo nem seria aparentemente fixo como o sexo.
Se o gênero são os significados culturais que o corpo sexuado assume, então não se pode dizer absolutamente que o gênero seja consequência do sexo.
Além disso, mesmo que, em sua morfologia e constituição, os sexos pareçam ser binários (algo que questionaremos mais adiante), não há razão para presumir que os gêneros devam também continuar sendo dois. Quando o status construído do gênero é teorizado como radicalmente independente do sexo, o gênero se torna uma artificialidade livremente flutuante. A consequência é que homem e masculino podem facilmente significar tanto um corpo feminino como um corpo masculino, e mulher e feminino podem significar tanto um corpo masculino como um corpo feminino.
Se o caráter imutável do sexo for contestado, talvez esta construção chamada 'sexo' seja tão culturalmente construída como 'gênero'; na verdade, talvez ela já tivesse sido sempre 'gênero', com a consequência de que a distinção entre sexo e gênero termine por não ser distinção alguma." (O problema de gênero: feminismo e subversão da identidade)

Aqui, contra toda a evidência mais evidente, Butler nega não somente a dualidade dos gêneros, mas a própria dualidade sexual, caracterizando-a como "construção". É evidentemente uma lunática. Eu poderia citar todas as demais defensoras desta teoria, mas não julgamos necessário, visto já termos escrito bastante a respeito. Basta procurar aqui no blog mesmo.

Outra coisa que eles consideram absurdo é que nós façamos referências à destruição da família, quando isso é dito com todas as letras pelas próprias feministas que promovem essa idéia, como a Kate Millet, que lamenta o fracasso da destruição da família na Revolução Russa em 1917, sob Lênin, e parte, a partir daí, ao estudo de um modus operandi mais eficiente para levar a termo o intento, sendo a Teoria de Gênero um fruto direto deste esforço.

Veja o que diz a respeito a maluca (literalmente) da Shulamith Firestone, outra das inspiradoras desse absurdo:

"Estamos falando de uma mudança radical. Libertar as mulheres de sua biologia significa ameaçar a unidade social, que está organizada em torno da sua reprodução biológica e da sujeição das mulheres ao seu destino biológico, a família.
Em segundo lugar, a segunda exigência será a total autodeterminação, incluindo a independência econômica, tanto das mulheres quanto das crianças. É por isso que precisamos falar de um socialismo feminista. Com isso atacamos a família em uma frente dupla, contestando aquilo em torno de que ela está organizada: a reprodução das espécies pelas mulheres e das crianças. Eliminar estas condições já seria suficiente para destruir a família, que produz a psicologia do poder. Contudo, nós a destruiremos ainda mais.
É necessário, em terceiro lugar, a total integração das mulheres e das crianças em todos os níveis da sociedade. E, se as distinções culturais entre homens e mulheres e entre adultos e crianças forem destruídas, nós não precisaremos mais da repressão sexual que mantém estas classes diferenciadas, sendo pela primeira vez possível a liberdade sexual 'natural'. Assim, chegaremos, em quarto lugar, à liberdade sexual para que todas as mulheres e crianças possam usar a sua sexualidade como quiserem. Em nossa nova sociedade e humanidade poderá finalmente voltar à sua sexualidade natural 'polimorficamente diversa'. Serão permitidas e satisfeitas todas as formas de sexualidade.
"É possível que a criança estabeleça suas relações físicas estreitas com gente de sua própria idade por mera conveniência física do mesmo modo que os homens e as mulheres, em igualdade de outros fatores, se preferirão um ou outro sobre os demais indivíduos do próprio sexo por simples conveniência física. Porém, se não for assim, se a criança escolhesse a relação sexual com os adultos, ainda no caso de que escolhesse a sua própria mãe genética, não existiriam razões a priori para que esta rechaçasse suas insinuações sexuais, visto que o tabu do incesto teria perdido a sua função."
(A dialética do sexo)

Aqui se revela o claríssimo intento da destruição da família e, para tal, da liberação do incesto e pedofilia, isto é, das relações sexuais entre crianças e adultos, inclusive da mesma família.

Shulamith, quando escreveu estas atrocidades, estava pensando em Max Horkheimer, que, sobre o assunto, afirmou:

"Entre as relações que influem decididamente no modelamento psíquico dos indivíduos, a família possui uma significação de primeira magnitude. A família é o que dá à vida social a indispensável capacidade para a conduta autoritária de que depende a existência da ordem burguesa.
(...) Não somente a vida sexual dos esposos se cerca de segredo diante dos filhos, como também da ternura que o filho experimenta para com a mãe deve ser proscrito todo impulso sexual; ela e a irmã têm direito apenas a sentimentos puros, a uma veneração e uma estima imaculadas.
(...) A subordinação ao imperativo categórico do dever foi, desde o início, o fim consciente da família burguesa. Os países que passaram a dirigir a economia, principalmente a Holanda e a Inglaterra, dispensaram às crianças uma educação cada vez mais severa e opressora. A família destacou-se sempre com maior importância na educação da submissão à autoridade. A força que o pai exerce sobre o filho é apresentada como relação moral, e quando a criança aprende a amar o seu pai de todo o coração, está na realidade recebendo sua primeira iniciação na relação burguesa de autoridade. Obviamente estas relações não são conhecidas em suas verdadeiras causas sociais, mas encobertas por ideologias religiosas e metafísicas que as tornam incompreensíveis e fazendo parecer a família como algo ideal até mesmo em uma modernidade em que, comparada com as possibilidades pedagógicas da sociedade, a família somente oferece condições miseráveis para a educação humana. Na família, o mundo espiritual em que a criança cresce está dominado pela idéia do poder exercido de alguns homens sobre os outros, pela idéia do mandar e do obedecer." (Autoridade e Família, 1936, in: Teoria Crítica, 1968)

Portanto, os intuitos da Ideologia de Gênero são a negação da identidade fixa da pessoa e a destruição da família, pois esta seria a origem da "psicologia do poder", fonte e raiz de toda exploração na sociedade. A família, tornada local privilegiado de intervenção ideológica, torna-se vítima sobretudo na sua parte mais frágil: a criança. Para o sucesso de tal empresa, busca-se a erotização dos infantes, como proposto por Herbert Marcuse, na Alemanha e mais tarde nos Estados Unidos, - que defende desde pedofilia e incesto até a zoofilia ou sexo com animais - e por Michel Foucault, na França, um dos defensores da pedofilia consentida, eufemisticamente chamada de "relação intergeracional". E para chegar a obter sucesso neste quesito, é indispensável que a educação sexual das crianças ocorra por meio do Estado, o que se daria oficialmente pela Educação.

Porém, apenas os membros de alta hierarquia da ideologia entendem o real significado da linguagem esotérica sob a qual disfarçam os seus desejos nestes documentos oficiais. E é por isso que mesmo defensores do gênero geralmente confundem o conceito, reduzindo-o a uma luta por igualdade e vitória sobre o preconceito. Recomendamos vivamente aos instrumentalizados a leitura das fontes originais.

Enfim, parabenizo aos vereadores que tiveram a coragem de se opor ao que foi criminosamente proposto, à revelia das determinações do Senado Federal, e que se pronunciaram usando, para caracterizar um tal projeto, termos como "abominação" e "coisa diabólica". A quem está acostumado com eufemismo, as coisas chamadas pelo nome podem estranhar, mas tais expressões estão corretíssimas.

Por último, quero parabenizar demais à juventude católica de União dos Palmares que esteve lá e fez bonito! De fato, quando começaram a se pronunciar, eu fiquei comovido. Que Deus os abençoe e retribua. Vencemos essa, e aquilo que conseguimos hoje foi algo grande! No entanto, faltam ainda outras etapas que, Deus queira, serão também conseguidas com sucesso. 

Que a Virgem Maria, mãe no menino Deus, cuide das nossas crianças e de nossos jovens.
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