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O Culto à Santíssima Virgem e o seu papel no Plano da Salvação


A Virgem Maria possui um papel especialíssimo no Catolicismo. Depois de Deus, é o ser mais perfeito, pois a tal grandeza foi elevada pela graça de Deus. Por vontade d'Ele, a Virgem se tornou meio para todas as graças divinas e caminho para Ele. Por isso é chamada "Porta do Céu".

Iremos analisar, neste texto, se essas teses de fato têm fundamento. Seriam tais princípios invenções da Igreja Católica ou resquícios de paganismo que ela teria adquirido a partir de sua suposta subserviência ao império romano? Veremos. O escritor anglicano C.S. Lewis descreve, de modo muito acertado, os ânimos suscitados por esse tema. Na sua obra Cristianismo Puro e Simples, ele escreve:

"...não existe entre os cristãos uma controvérsia maior ou que deva ser tratada com maior tato. As crenças dos católicos não são defendidas apenas com um fervor normal que se espera encontrar em toda religiosidade sincera, mas (muito naturalmente) com o ardor incomum e, por assim dizer, cavalheiresco com que um homem defende a honra de sua mãe ou de sua amada. É muito difícil discordar do católico sem, ao mesmo tempo, não parecer a seus olhos um malcriado ou mesmo um herege. Já a crença do protestante a respeito desse assunto desperta sentimentos inerentes às raízes de todo o monoteísmo. Para o protestante radical, a distinção entre o Criador e a criatura (por mais santa que seja) parece ameaçada: o politeísmo renasce. Logo. é difícil discordar sem parecer a seus olhos algo pior que um herege, um pagão..." (2005, p.11-12.)

Antes de começarmos a análise deste assunto tão delicado, consideremos isto: se Deus quisesse elevar a Virgem Maria às alturas em que a teologia católica a coloca, Ele poderia fazê-lo ou não? Parece que qualquer pessoa tenderia a admitir que sim, ainda que possa supor que Ele não o fez. Mas, desde já, esta possibilidade fica resguardada.

A dificuldade maior na mente de um protestante reside no fato de esta possibilidade aparentemente contradizer certas afirmações da Escritura. Assim, é importante, na realização deste estudo, que observemos as alegações católicas sobre Maria também do ponto da Bíblia. Porém, não pararemos aí. Penso ser importante também vermos como aqueles que se seguiram imediatamente aos apóstolos a viam, e, por fim, olharmos en passant os milagres a ela atribuídos e que são cientificamente incontestáveis. Não que sejamos dependentes de tais certificações, mas é o que o exige o espírito da época, do qual o protestantismo, por sua vez, é simpático.

Gênesis, Evangelho de João e Apocalipse


Gênesis e Apocalipse são respectivamente o primeiro e o último livros da Sagrada Escritura, e narram também o começo e o fim do mundo. Nas religiões tradicionais, costuma-se dizer que o fim será como o começo, ou um retorno ao começo. A santidade, deste modo, é vista como um reordenamento ou restabelecimento da saúde humana e da ordem primordial. Do ponto de vista divino, é como se, pela Queda, se estabelecesse uma tensão pela qual a Sua Justiça exige satisfação. Esta é feita em Jesus e, depois, no fim dos tempos, quando a ordem restabelecida já não mais será destruída.

Por isso, nestes dois livros surgem algumas figuras semelhantes. Depois do Pecado Original, Deus faz pela primeira vez a promessa de um Salvador. Por ser um primeiro anúncio, este trecho recebeu na Tradição o nome de "protoevangelho" ou "primeiro-evangelho". Nele, Deus diz ao demônio:

"Porei ódio entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a dela. Esta te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar." (Gn 3,15)


Analisemos este trecho. Nele se fala de uma descendência da serpente e de uma descendência da mulher. As duas descendências terão ódio entre si, e este ódio é uma emanação ou herança do ódio entre a serpente e a mulher. A serpente nós já sabemos quem é: é o demônio. E quem seria a mulher? As possibilidades são só três: A Igreja, a mulher enquanto gênero, ou uma mulher específica.

O trecho não pode se referir ao gênero feminino como um todo, pois isto significaria que todos os seres humanos - pois todos são nascidos de mulher - seriam inimigos do demônio, o que não é o caso. Jesus chega a dizer mesmo que alguns são "filhos" do demônio. Além disso, não é a espécie humana em si que vence o demônio, mas uma pessoa bem específica, como sabemos: Jesus.

Uma tradição já antiga viu na mulher um símbolo da Igreja. Embora esta relação seja possível a partir de algumas analogias, ela não pode corresponder-lhe totalmente, pois a mulher aqui tem um papel intrínseco e que não pode ser atribuído à Igreja: ela é mãe do alguém que esmagará a serpente. Sendo que esta pessoa é o Cristo, a mulher referida deve necessariamente ser a mãe do Cristo. Pergunta-se: a Igreja pode ser considerada mãe de Cristo? Parece que não.

Logo, sobra-nos a terceira alternativa: a mulher de que aí se trata não é outra senão Maria. Se o leitor não aceita esta conclusão, reveja as alternativas. Observe se há alguma outra não considerada.

A Virgem Maria então entra na história como "a mulher", e isto explica porque Jesus a chama deste modo em momentos muito específicos: nas Bodas de Caná e na Cruz. E é impressionante observar as relações destes dois eventos com o livro do Gênesis. Vejamos:

A relação entre Gênesis e o Evangelho de João fica evidente já na primeira expressão com que ambos começam: "No princípio". O Gênesis diz: "No princípio, Deus criou o céu e a terra". O Evangelho de João afirma; "No princípio, era o Verbo." Logo depois, o Gênesis afirma como Deus criou a luz (Gn 1,3). João, por sua vez, fala da luz incriada, Jesus, que "era a luz dos homens" e que "resplandece nas trevas" (Jo 1,4-5). O Gênesis diz também que o "Espírito pairava sobre as águas" (Gn 1,2), e é o que vemos de novo em João, no relato do batismo de Jesus (Jo 1,32-33). A primeira criação é o início da realidade material. A segunda criação é o início da vida da graça, simbolizada pelo batismo de Jesus. Estas aproximações entre João e o Gênesis não são, portanto, arbitrárias, mas reais e João sabia o que fazia.

Assim como o Gênesis narra a sucessão de dias até chegar ao sétimo, assim também João o faz. No capítulo 1, versículo 29, João escreve: "no dia seguinte", o que nos leva ao segundo dia, onde se dá o encontro de Jesus com seu primo João Batista. No versículo 5, mais uma vez "no dia seguinte", o terceiro dia, que é o início do chamado dos discípulos. De novo, no versículo 43, "no dia seguinte", quarto dia, quando mais dois discípulos se juntam ao grupo. Daqui, João escreve "no terceiro dia" (1,43), o que nos leva ao sétimo dia, onde ele nos conta sobre as Bodas de Caná, uma festa de casamento. A partir de então João não conta mais os dias. Desse modo, os sete dias de João se relacionam de modo claro com os sete dias do Gênesis. Ou é coincidência demais ou simplesmente não é coincidência.

Estamos aqui no Shabbat, o Sétimo Dia, o Dia da Aliança entre Deus e os homens. Pois bem, é justamente aí a primeira vez em que Jesus chama a Virgem Maria de "Mulher", do mesmo modo como foi no último dia que Adão chamou Eva de "Mulher".

Façamos um adendo aqui: alguém poderia objetar que a correspondência dos dias não funciona, pois no sétimo dia, Deus não fez nada. Assim, Adão teria chamado de mulher a Eva num dos dias anteriores. A isto respondemos do seguinte modo: o livro do Gênesis traz dois relatos da criação. O primeiro, vai de Gn1,1 a Gn 1,31. O outro, vai de Gn 2,4b a Gn 2,24. A contagem dos dias ocorre no primeiro relato, e não no segundo. Neste primeiro relato, Adão e Eva são criados juntos no sexto dia. Porém, no segundo relato, Adão é a primeira coisa que Deus faz depois da criação do Céu e da Terra, e Eva é a última. Lemos em Gn 2,2, que Deus terminou "no sétimo dia a obra que tinha feito", o que nos leva à idéia de que ele tinha feito algo ainda nesse dia. Considerando que o primeiro relato é bastante genérico - pois conta num relance a criação de ambos -, enquanto o segundo é mais detalhado, contando como Adão foi adormecido e, então, Eva foi retirada dele e, em seguida, como foi o seu primeiro encontro, parece-nos que o segundo relato pode ser dito mais descritivo. Assim, a mulher teria sido criada no sábado. Logo, no sétimo dia, exatamente quando Adão a viu pela primeira vez e a chamou "Mulher". Bem, isto é uma possibilidade que nos ocorreu agora. Concluindo esse adendo, façamos outro: o Sábado é, para os católicos, um dia consagrado a Maria. Talvez isso tenha alguma causa providencial com o que acabamos de descrever. Voltemos. Estamos nas Bodas de Caná.

Falta vinho, e Maria vem falar com Jesus: "Eles já não têm vinho", ao que Jesus responde: "Mulher, isto compete a nós? Minha hora ainda não chegou." (Jo 2,3-4)

A primeira coisa a se observar é que a resposta é um tanto estranha, mas muito reveladora.

Por que Jesus a chama de "Mulher"? Não é este um modo estranho de tratar a própria mãe? Será que Jesus não a considerava Sua mãe? Isto não procede, pois o Evangelho de Lucas nos diz que Ele lhe era obediente. (Lc 2,51) Além disso, poderia Ele mesmo negar que pelo fato de ter nascido do seu ventre, era, portanto, segundo a natureza, seu filho? Óbvio que não. Estava, ainda, obrigado pela lei - pois nasceu submisso à lei, conforme diz Paulo (Gl 4,4-5) - a honrar a Sua mãe. E mesmo que não o estivesse, sabemos que Ele, que é Deus mesmo, jamais a desonraria. João mesmo diz várias vezes que ela é mãe de Jesus. Ora, a maternidade é uma qualidade que só existe quando em relação com um filho. Portanto, Jesus era seu filho e ela era Sua mãe. Por que, então, Jesus a chama "Mulher"?

Na genealogia de São Lucas, Jesus é remontado a Adão. Assim, Ele assume o papel de Novo Adão, aquele que será o primeiro da humanidade redimida. Paulo O chama de "segundo Adão" (1Cor 15,45), e o confirma em Rom 5,12-21. Ora, vimos que João relaciona intimamente o seu evangelho com o livro do Gênesis. Vimos também que quando Adão vê Eva pela primeira vez, ele, que nomeava todos os seres, lhe chamou "Mulher". (Gn 2,23) Aqui, numa passagem que revive o Gênesis, Jesus chama a Virgem de "Mulher", relembrando o que Adão fez a Eva. Ora, se Jesus é o Novo-Adão, quem é a Nova-Eva? Maria, obviamente!



E aqui, a festa de casamento assume um outro relevo. Assim como Adão e Eva casaram-se a fim de dar origem à descendência humana, assim também há um casamento espiritual entre o Novo-Adão e a Nova-Eva no que concerne à geração dos filhos da graça. Eva é chamada, no Gênesis, "mãe dos viventes". Maria também o será, obviamente, mas num sentido espiritual. Esta nova união, que marca a Nova Aliança, porém, tem um desfecho distinto do primeiro. No Gênesis, a coisa culminou com Eva conduzindo Adão ao pecado. Aqui, ao contrário, Maria como que conduz Jesus ao início da Sua obra.

Note ainda o que Jesus lhe diz: "Minha hora ainda não chegou". Ora, se não chegou então não chegou. Porém, Jesus realiza aí o Seu primeiro milagre. Isto significa que foi Maria quem propiciou isto. Ela antecipou a hora, e isto lhe dá uma relevância imensa no plano da Salvação. Jesus a obedeceu. Ou isso, ou era falso que a Sua hora ainda não tinha chegado. Penso que a conclusão de que Jesus mentiu é mais repugnante aos protestantes que a conclusão de que Jesus a obedeceu num momento tão crucial. Note o leitor que estas relações de fato não são arbitrárias e tampouco novas. Veremos que os primeiros leitores do Evangelho de João estavam muito conscientes disso tudo. Falaremos deles a seu tempo. Observemos agora o livro do Apocalipse.

"Apareceu em seguida um grande sinal no céu: uma Mulher revestida do sol, a lua debaixo dos seus pés e na cabeça uma coroa de doze estrelas. Estava grávida e gritava de dores, sentindo as angústias de dar à luz. Depois apareceu outro sinal no céu: um grande Dragão vermelho, com sete cabeças e dez chifres, e nas cabeças sete coroas. Varria com sua cauda uma terça parte das estrelas do céu, e as atirou à terra. Esse Dragão deteve-se diante da Mulher que estava para dar à luz, a fim de que, quando ela desse à luz, lhe devorasse o filho. Ela deu à luz um Filho, um menino, aquele que deve reger todas as nações pagãs com cetro de ferro. Mas seu Filho foi arrebatado para junto de Deus e do seu trono. A Mulher fugiu para o deserto, onde Deus lhe tinha preparado um retiro para aí ser sustentada por mil duzentos e sessenta dias." (Apo 12,1-6)


Este trecho retoma evidentemente algumas figuras do Gênesis, como a Mulher e o Dragão, a "primitiva serpente", que é obviamente a do Gênesis. Lembremos que o Apocalipse foi escrito pelo mesmo João que escreveu o Evangelho e que construiu aquelas relações com o primeiro livro. João é também o Apóstolo que viveu com a Virgem, em Éfeso, depois da morte de Jesus. Toda a tradição que virá daí será sempre muito mariana, conforme veremos.

Esta Mulher, no Apocalipse, é descrita com mais detalhes do que no Gênesis. Ela tem uma coroa de 12 estrelas, número que relembra tanto as 12 tribos de Israel quanto os 12 apóstolos, sendo estes últimos os chefes das tribos do Novo Testamento. Este fato parece ter relação com a Doutrina ensinada por eles, a chamada "Doutrina dos Apóstolos", a ortodoxia da Fé. O fato pode simbolizar também que ela seja rainha - pois está coroada - das 12 tribos, isto é, de todo o povo de Deus.


Ela está também vestida de sol, sendo que o sol sempre simbolizou o próprio Deus. As vestes geralmente representam o grau moral de uma pessoa. Se ela é pecadora, as vestes são vermelhas. Se é pura, são brancas. Uma mulher revestida de sol indica que está coberta do próprio Deus, num estado muito superior à mera pureza. Isto faz lembrar a anunciação de Gabriel que a declara plena da Graça, e de que falaremos mais detalhadamente depois. Seja como for, Deus está nela.

Tem a lua debaixo dos pés. A lua sempre foi associada à Virgem Maria, pois, assim como esta, ela não tem luz própria. O que se vê nela é a luz refletida do sol. Assim também, a grandeza de Maria é um reflexo da luz divina. Mas houve quem visse na lua o símbolo da inconstância, da oscilação, e que por Maria estar sobre a lua se indicava a firmeza plena e total da sua resolução, a total superação de qualquer inconstância. O "fiat" de Maria foi definitivo, sem retorno, sem olhares retroativos, sem reconsiderações. Foi um "sim" absoluto.

Porém, a "mulher", sobretudo em Apocalipse, tende a ser vista como um símbolo da Igreja, e de fato ela o é. Mas, assim como em Gênesis, o fato de ela simbolizar uma realidade não impede que simbolize outra. Por exemplo, o vinho simboliza tanto a alegria, quanto o mistério, quanto o próprio sacrifício de Cristo. O leão pode, a depender do contexto, simbolizar tanto o Cristo quanto o demônio. A profecia que Jesus faz sobre Jerusalém em Mc 1-13 diz respeito tanto à destruição do Templo pelo general romano Tito, quanto ao fim dos tempos. Porém, a explicação alegórica repousa sobre a literal. No caso que estamos observando, veremos que existe a mesma dificuldade, no Apocalipse, que encontramos em Gênesis: a mulher é mãe de Jesus. Ela é mãe do menino que regerá as nações pagãs com cetro de ferro, o que faz lembrar o Salmo 2,9 e o 110,2. Portanto, em primeira instância, não é a Igreja quem está sendo referida, mas a mãe do Cristo.

Porém, o trecho fica um tanto confuso quando, por exemplo, João relata, depois do supracitado, a luta entre Miguel e o demônio, que ocorreu antes da criação do homem. Assim, o que se tem não é exatamente uma sucessão direta de eventos, mas o entrelaçamento de acontecimentos que, a despeito de sua distância no tempo, têm íntima relação.

Quais seriam as dificuldades de se atribuir todo este texto a Maria? De fato, há algumas. A primeira é que a mulher grita em dores de parto. Segundo a tradição católica, a Virgem Maria não sentiu essas dores, e isto pelo fato de ter mantido a virgindade. As dores são resultado de um espaçamento de tecidos que faz perder a integridade física que caracteriza a virgindade feminina. Assim, ainda que uma mulher engravide sem perder a virgindade - o que é possível -, ela necessariamente a perderá no momento do parto, se o parto for normal. A virgindade de Maria foi mantida - e nisso creram todos os cristãos até a modernidade - pelo que ela não sentiu as dores do parto. São Cirilo de Alexandria costumava descrever este milagre através de uma analogia: assim como o raio de sol atravessa o vidro sem violentá-lo, assim também Jesus teria entrado e saído de sua mãe sem destituí-la de sua virgindade. É comum também que se use o exemplo de Jesus ressurreto entrando no cenáculo estando as portas fechadas e saindo de lá também sem abrir as portas. Santo Afonso de Ligório julgou ver um indicativo da ausência de sofrimento em Maria no próprio Evangelho de Lucas. Este escreve: "Estando eles ali, completaram-se os dias dela. E deu à luz seu filho primogênito, e, envolvendo-o em faixas, reclinou-o num presépio." (Lc 2,6) Sto Afonso nota que o movimento da reclinação é incomum a alguém que recém deu à luz, de modo que haveria aqui um sinal de que Maria não teria sofrido no parto.

A personagem do Apocalipse, no entanto, sofre as dores de parto.


"Quem é essa mulher? - pergunta o Pe. Gabriele Amorth - É frequente na Bíblia uma mesma figura representar uma multiplicidade de sujeitos. Essa mulher pode representar a Igreja; pode representar o povo hebreu; seguramente representa Maria, dado que o seu Filho é Jesus." (2014, p.102)


Vamos considerar as três possibilidades do significado da mulher, que, lembramos, não são mutuamente excludentes: Maria, a Igreja e Israel.

Considerando que seja Maria, a primeira possibilidade é que a Tradição Católica esteja incorreta e que ela tenha sentido as dores de parto. Mas, assim, ela teria perdido a Virgindade. Porém, se tivesse perdido a Virgindade, não haveria motivo para abster-se das relações sexuais com José. Teria tido, assim, outros filhos. Porém, é facílimo de comprovar que Jesus foi filho único. Uma antiga tradição afirma que tanto a Virgem quanto São José, mesmo antes de se conhecerem, já haviam feito voto de castidade. E não é uma tradição flutuante. Ela parece fundamentar-se na própria escritura, mas disso não trataremos neste artigo.

Supondo que a mulher seja Maria, ainda, o que nos resta é entender as dores de parto como dores simbólicas. E isto poderia se referir, de um lado, à recusa de abrigo por ocasião do nascimento de Jesus. Consideramos esta possibilidade, porém, muito inverossímil. Por outro lado, a que julgamos fazer mais sentido entende as dores de parto como as dores da Cruz, pois, ali, de fato, Maria se torna novamente mãe, uma vez que Jesus entrega aos seus cuidados o "discípulo amado", que seríamos todos nós.

Esta parece ser a posição de São Pio X que escreveu:


"Que nascimento foi esse? Certamente foi o nascimento de cada um de nós que, ainda no exílio, estamos sendo gerados para a perfeita caridade em Deus e para a felicidade eterna. E as dores do parto mostram o amor e o desejo com que a Virgem do céu, lá de cima, cuida de nós, e se esforça com incansável oração para completar o número dos eleitos."


A dificuldade desta possibilidade é que, segundo o Apocalipse, as dores de parto antecedem o nascimento daquele que regerá com cetro de ferro, isto é, Jesus. Literais ou simbólicas, essas dores parecem ter de vir antes.

Por isso, parece-nos ter mais sentido o que o Dr. Scott Hahn escreve a este respeito:

"Alguns se opuseram quanto às dores de parto da mulher, que pareciam contradizer à longa Tradição de que Maria teria dado à luz sem as dores do parto. Muitos cristãos acreditam que, uma vez que Maria foi concebida sem o pecado original, ela estaria isenta das maldições de Gênesis 3,16; portanto, não sentiria qualquer sofrimento no parto. Ora, o sofrimento de uma mulher não necessariamente está relacionado às dores físicas do parto. Em outras passagens do Novo Testamento, São Paulo usa a dor do parto como uma metáfora para o sofrimento espiritual, para o sofrimento em geral, ou mesmo para o longo tempo de sofrimento do mundo na expectativa da Redenção no fim dos tempos (Gl 4,19; Rm 8,22). O sofrimento da mulher do Apocalipse poderia representar o desejo de trazer Cristo ao mundo; ou poderia representar os sofrimentos espirituais como o preço da maternidade de Maria."(p.54-55)

Porém, a coisa complica ainda mais se considerarmos que a mulher, neste ponto específico, é um símbolo da Igreja, pois como a Igreja poderia sentir as dores de parto se não é mãe do Cristo? Ela, é verdade, pode ser dita mãe dos cristãos - embora me pareça que mesmo esta designação soe estranha aos ouvidos protestantes. Porém, como dito logo acima, às dores se segue o nascimento do Cristo. Portanto, a mulher é necessariamente mãe do Cristo. E se alguém insistir em contestar, pedimos que responda francamente a esta pergunta: é a Igreja mãe de Jesus? E, no caso imprevisto de uma resposta afirmativa, perguntamos: com base em quê se o afirma?

Uma terceira possibilidade que geralmente se levanta é que a mulher seja Israel. De fato, isto se harmonizaria com algumas coisas, como, por exemplo, nas dores de parto - era um tempo difícil em Jerusalém -, nas doze estrelas - que simbolizaria as doze tribos - e em ser mãe do Messias, uma vez que este, vindo de Israel, é seu filho, especificamente da Casa de Davi, da tribo de Judá.


No entanto, como o Apocalipse versa sobre o fim dos tempos, não se nota porque Israel teria um papel fundamental de luta contra o Dragão, uma vez que se trata de um texto cristão e que a Igreja cristã extrapolou e se desvinculou de Israel, ao menos social e politicamente. Ademais, vimos também que o relato retoma as figuras do Gênesis, que dizem respeito a Jesus e a Maria. Depois, é o mesmo João que exprimirá as relações entre Gênesis e o seu Evangelho, atribuindo novamente o papel da Mulher a Maria.

O texto então se refere a uma série de afirmações que parecem, agora, melhor se adequar à Igreja. Vejamos:

"A Mulher fugiu para o deserto, onde Deus lhe tinha preparado um retiro para aí ser sustentada por mil duzentos e sessenta dias." (Ap 12,6)

Alguns julgaram ver aqui uma referência à famosa fuga ao Egito que José e Maria empreenderam quando estavam a fugir de Herodes. É possível? É. Quanto tempo Jesus e seus pais ficam no Egito? O Evangelho de Mateus, único a relatar o fato, não diz. No entanto, 1260 dias é um número conhecido. Ele aparece em outro texto do Apocalipse, como 42 meses (Apo 13,5), e como "um tempo, dois tempos e metade de um tempo" (12,14), o que lhe é equivalente. Esta última expressão e este tempo aparecem também em trechos de Daniel (7,25; 9,27 e 12,7). Em todos estes textos, o Templo de Deus está sendo perseguido pelo invasor, o que estabelece a "abominação da desolação". Portanto, pode-se sugerir que a Mulher em questão aí simboliza também a Igreja. O deserto, na tradição bíblica, é sempre o lugar para onde fogem os perseguidos. A Igreja, no mundo, será perseguida e deverá viver da vida divina, sendo uma força não mundana. Este exílio cessa depois de um tempo. O Apocalipse nos mostra que o término coincide com a Parusia.

Então, possivelmente há aí um texto que traz, fundidas, essas duas figuras: Maria e a Igreja. O Dr. Scott Hahn, a este respeito, escreve:

"A tipologia bíblica nos leva a ver Maria como a nova Eva, a mãe de todos os viventes, a mãe da aliança da Família de Deus. A tipologia também nos mostra maria como a noiva de Cristo. No auge das Escrituras, porém, no livro do Apocalipse, aquela noiva e mãe é identificada também com a Igreja. 

O Apocalipse nos mostra a unidade mística entre a mulher que trabalha para dar à luz o Cristo (e seus irmãos) e a noiva do Cordeiro revelada no clímax da história. A mãe, a noiva, a mulher... é Maria. A mãe, a noiva, a mulher... é a metrópole da Nova Jerusalém: a Igreja." (p. 105)

"Eu disse que a identificação de Maria com a Igreja é algo místico, mas isso não significa ser metafórico. A tipologia bíblica é mais do que uma mera convenção literária. Para a Bíblia, é mais do que uma literatura, pois a Bíblia é história. Então, a tipologia é mais do que histórica, é profética. Ainda assim, é mais do que uma profecia, é uma realidade. E, ainda mais do que uma realidade, a tipologia é uma eternidade. Quando falamos de Maria como Mãe e arquétipo da Igreja, estamos falando de uma verdade permanente, uma pessoa viva e real e de uma verdade que é essencial ao plano de Deus para o cosmos." (p. 105-106)


E ainda:

"Maria é a figura central do Apocalipse porque, assumida no céu, onde reina, [vive] o cumprimento da realidade, realidade esta da qual a Igreja em si mesma é simplesmente um tipo. Ela é a Virgem, Mãe, Esposa de Cristo, a Jerusalém Celestial, a metrópole que é a Cidade de Deus; o arquétipo celestial." (p. 108)


Arca da Aliança, o Evangelho de Lucas e o Apocalipse


No Antigo Testamento, no Lugar Santíssimo, onde Deus se manifestava e apenas o Sumo Sacerdote podia ir uma vez ao ano, estava a Arca da Aliança, uma espécie de recipiente feito de madeira de acácia, com revestimento de ouro por dentro e por fora e um bordado de ouro ao redor. Em cima dela, havia dois querubins de ouro, construídos por ordem de Deus. Dentro dela estavam três coisas: as Tábuas da Lei, o Maná do Céu e a Vara de Aarão. Se alguém entrasse indevidamente no Lugar Santíssimo ou meramente tocasse na Arca morria instantaneamente. O livro de Levítico narra o episódio em que dois filhos de Aarão, Nadab e Abiú, que eram sacerdotes, por oferecerem um tipo estranho de incenso, distinto do que lhes havia sido prescrito, foram mortos. "Saiu, então, um fogo de diante do Senhor que os devorou, e morreram diante do Senhor." (Lv 10,2)

Isto talvez dê alguma idéia da seriedade de Deus e da sacralidade da Arca. Seis séculos antes de Cristo, por volta de 587 a.C., os babilônios invadiram o Templo, e o profeta Jeremias, para que a Arca não fosse profanada, a escondeu. Lemos em 2Mc 2,5-8:

"No momento em que chegou, descobriu uma vasta caverna, na qual mandou depositar a arca, o tabernáculo e o altar dos perfumes; em seguida, tapou a entrada. Alguns daqueles que o haviam acompanhado voltaram para marcar o caminho com sinais, mas não puderam achá-lo. Quando Jeremias soube, repreendeu-os e disse-lhes que esse lugar ficaria desconhecido, até que Deus reunisse seu povo e usasse com ele de misericórdia. Então revelará o Senhor o que ele encerra e aparecerá a glória do Senhor como uma densa nuvem."

A Arca ficou sempre, desde então, o objeto de busca dos judeus, pois encontrá-la significaria que Deus havia usado de misericórdia para com Israel e iria revelar os Seus segredos. E se nós dissermos que os católicos conhecemos onde a Arca da Aliança está? Mais: se nós dissermos que ela é uma pessoa? Foi o que pelo menos João e Lucas disseram, e, com eles, os primeiros cristãos criam na mesma coisa. Duvida? Vamos ver?

Lucas, que era um intelectual bastante respeitado na antiguidade, soube fazer um paralelo interessantíssimo entre o seu evangelho e alguns trechos do Antigo Testamento. O livro de 2 Samuel narra as viagens de Davi levando a Arca da Aliança para Jerusalém. No início da viagem, diz-se que Davi, junto com sua comitiva, "pôs-se a caminho" (2Sm 6,2) . Já Lucas, em 1,39, inicia a visita de Maria a Isabel do mesmo modo: "Naqueles dias, Maria pôs-se a caminho...". Tanto Davi quanto Maria vão para uma cidade de Judá. (2Sm 6,2; Lc 1,39) Diante da possibilidade de a Arca da Aliança ficar na sua casa, Davi responde: "Como virá a Arca da Aliança ficar em minha casa?" (2Sm 6,9), frase que impressionantemente é muito similar à dita por Isabel quando recebe a Virgem na sua casa: "Donde me vem que a mãe do meu Senhor venha a mim?" (Lc 1,43) Há também quem veja na dança de Davi diante da Arca um prelúdio do "salto" dado por João Batista no ventre de Isabel pela saudação de Maria. Interessante dizer ainda que a cidade onde Isabel morava é identificada com Aim-Karim, a 7 Km de Jerusalém. Já no 2 livro de Samuel, lemos no versículo 2, do capítulo 6: "Pondo-se a caminho, Davi e todo o povo que o acompanhava partiram para Baala de Judá a fim de transportar a Arca de Deus...". Notinha de rodapé da Bíblia de Jerusalém: "[Baala é] o antigo nome de Cariat-Iarim (Js 15,9; cf. Js 15,60; 18,14) Será que "Aim Karim" e "Cariat-Iarim" não seriam a mesma cidade, mudado apenas o modo de escrevê-la? - Acabei de olhar. São a mesma cidade sim. =)

Depois, a arca permaneceu na casa de Obed-Edom de Gat por três meses (2Sm 6,10), o mesmo tempo em que a Virgem fica na casa de Isabel (Lc 1,56). Será coincidência tudo isso?

Veja então o seguinte trecho:

"Então a nuvem cobriu a tenda de reunião e a glória do Senhor encheu o tabernáculo. E era impossível a Moisés entrar na tenda de reunião porque a nuvem pairava sobre ela, e a glória do Senhor enchia o tabernáculo." (Ex 40,34-35)

Sabemos que o que tornava o tabernáculo tão santo era a Arca da Aliança. Agora observe o que Gabriel diz à Virgem:

"O Espírito Santo descerá sobre ti, e a força do Altíssimo te envolverá com a sua sombra." (Lc 1,35)

Achou forçação de barra relacionar os dois trechos? E se nós dissermos que o termo usado em ambos os textos é o mesmo? Com efeito, a palavra grega "episkiasei" pode ser traduzida como "ensombrar". Lucas a usou conscientemente, querendo com isto relacionar os dois eventos. Observe a comparação dos originais:

Καὶ ἐκάλυψεν ἡ νεφέλη τὴν σκηνὴν τοῦ μαρτυρίου, καὶ δόξης κυρίου ἐπλήσθη ἡ σκηνή·
καὶ οὐκ ἠδυνάσθη Μωυσῆς εἰσελθεῖν εἰς τὴν σκηνὴν τοῦ μαρτυρίου, ὅτι ἐπεσκίαζεν ἐπ᾽ αὐτὴν ἡ νεφέλη καὶ δόξης κυρίου ἐπλήσθη ἡ σκηνή. (Ex 34-35)

Agora, o texto de Lucas:

καὶ ἀποκριθεὶς ὁ ἄγγελος εἶπεν αὐτῇ Πνεῦμα Ἅγιον ἐπελεύσεται ἐπὶ σέ, καὶ δύναμις Ὑψίστου ἐπισκιάσει σοι· διὸ καὶ τὸ γεννώμενον ἅγιον κληθήσεται Υἱὸς Θεοῦ. (Lc 1,35)

Para completarmos este tema, sabemos que o dia principal da Antiga Aliança era o chamado "Dia da Expiação" - Yom Kippur - em que o Sumo Sacerdote entrava no Santo dos Santos ou Lugar Santíssimo para derramar o sangue dos touros oferecidos por si mesmo e sua família e pela assembléia. Esta purificação definitiva ocorreu na Cruz do Senhor, e é por isso que logo em seguida à morte de Jesus, o véu do templo, aquele que separava o Santíssimo do povo, é rasgado. Há uma série de paralelos aqui que é preciso explicar.

1º - O Sangue das vítimas era apenas um prelúdio do sangue de Cristo. Se ele era derramado em frente da Arca da Aliança, convinha que o Sangue antitípico também fosse derramado diante da antitípica figura da Arca da Aliança, isto é, Maria. E, de fato, a Virgem estava de pé, diante da Cruz.

2º - A Arca da Aliança era o meio através do qual Deus se manifestava. Jesus, em doar a Virgem Santíssima como mãe dos homens, restabelece este acesso universal a Deus através dela. Daí a doutrina de santos católicos, como S. Luís Maria Grignion de Montfort, que afirmam que Deus, na nova aliança, haverá de reinar por meio de Maria, assim como na Antiga Lei Ele se manifestava por meio da Arca.

3º - Na cruz se realiza a correção do pecado adâmico: diante de uma árvore, Adão e Eva pecaram. Diante de outra árvore - a da Cruz - O Novo Adão e a Nova Eva estabelecem uma fidelidade definitiva. O fruto de Adão e Eva tinha sido o pecado. O novo fruto agora é a Redenção. Por isso, o templo de Jerusalém com os seus sacrifícios e sua liturgia não são mais necessários. É o nascimento da Igreja, que tem uma nova Arca da Aliança, um novo Sacerdócio, uma nova Páscoa, um novo Maná - a Eucaristia - e uma Lei que aperfeiçoa a antiga.

4º - O próprio nome "Arca da Aliança" expressa que é um ente relacionado à Aliança. Ora, há duas Alianças: a antiga e a nova. Logo, assim como há uma Arca da Aliança antiga, deve necessariamente haver uma da Nova.

Agora, resta-nos observar o Apocalipse. Notemos, antes disso, que João é aquele que recebeu a Virgem em sua casa, como ele mesmo escreve no seu evangelho. Esta casa era em Éfeso. Isto é importante também para entender por que ele, que escreverá o Apocalipse, é precisamente o que fará, de um modo ainda mais explícito, a relação entre a Virgem e a Arca da Aliança. Importante também desde já considerar que a divisão dos livros do Novo Testamento em capítulos e versículos foi feita pela Igreja muito tempo depois de terem sido escritos. Tendo isto em mente, vamos ao texto:

"Abriu-se o templo de Deus no céu e apareceu, no seu templo, a arca do seu testamento. Houve relâmpagos, vozes, trovões, terremotos e forte saraiva. Um sinal grandioso apareceu no céu: uma Mulher vestida com o sol, tendo a lua sob os pés e sobre a cabeça uma coroa de doze estrelas."(Apo 12,19-20,1)

Para um cristão, é um tanto difícil apreciar devidamente a força do que João escreve. De fato, dizer que tinha visto a Arca da Aliança, desaparecida há tanto tempo, era uma coisa grandiosa. Escreve o Dr Hahn:

"Para os judeus do primeiro século, o choque do Apocalipse foi certamente o relato de João no final do capítulo 11. É aí então que, após ouvir os toques das sete trombetas, João vê o templo no céu aberto (Ap 11,19), e, dentro dele, um milagre! - A Arca da Aliança. Essa teria sido a notícia do milênio! (...) João prepara seus leitores de várias maneiras para o aparecimento da arca, a qual se revela, por exemplo, após o toque da sétima trombeta do sétimo anjo vingador, numa clara alusão ao Israel da Antiga Aliança. Na primeira e maior batalha que Israel lutou ao entrar na terra prometida, Deus ordenou ao povo eleito carregar a arca à frente deles para o combate. Especificamente, a passagem de Apocalipse 15,11 ecoa Josué 6,13, que descreve como, durante seis dias, os quais antecederam a Batalha de Jericó, os sete sacerdotes guerreiros de Israel marcharam ao redor da cidade com a Arca da Aliança até que, no sétimo dia, eles tocassem as trombetas, fazendo ruir os muros da cidade. Para o antigo Israel, a arca foi, em certo sentido, a arma mais eficaz, pois representava a proteção e o poder de Deus Todo-Poderoso. Do mesmo modo, o Apocalipse mostra que o novo e celeste Israel também combate a batalha na presença da arca. (...) Imagine que você é um leitor do primeiro século, criado como um judeu. Você nunca viu a arca, mas a religião e toda a sua educação religiosa lhe ensinaram a todo instante sobre a restauração do templo. João a realiza antecipadamente, de modo que quase parece estar provocando seus leitores, ao descrever o som e a fúria que acompanhavam a arca. A dramática tensão se torna quase insuportável. O leitor quer ver a arca como João a vê. O que se segue, então, é chocante! Nas nossas bíblias atuais, depois de todo esse desenvolvimento, a passagem, de repente, dá uma parada brusca como o capítulo 11 a conclui. João nos promete a arca, mas parece pôr em cena um final abrupto. Devemos ter em mente, entretanto, que as divisões em capítulos no Apocalipse, bem como em todos os livros bíblicos, é artificial, feita por escritores na Idade Média. Logo, não há capítulos no livro original de João; tudo era uma narrativa contínua.

Assim, os efeitos especiais do final do capítulo 11 serviram como um prelúdio imediato para a imagem que, agora, aparece no capítulo 12. Podemos ler essas linhas juntos como que descrevendo um único evento. (...) João nos mostra a Arca da Aliança... e é uma mulher." (p.47-50)

Queremos chamar a atenção primeiramente para a relação que o Dr. Hahn percebeu entre as sete trombetas do Apocalipse, o livro de Josué e a Arca da Aliança nos dois episódios. Isso é interessantíssimo, e se o leitor julga que estes paralelos não são convincentes, há que se perguntar sobre suas disposições.

Enfim, temos aí a explicação de que estes textos do apocalipse só podem ser entendidos se forem lidos como uma continuidade, e não como a transição entre capítulos que versariam sobre temas diferentes. Não faria sentido que João, depois de tanto preparar a vinda da arca, deixasse de tratar dela tão logo a visse. Assim como possuía um papel central no antigo Israel, a Arca tem um papel central também no novo.

E se fizermos uma abstração dos trechos bíblicos - pois todo este artigo é uma concessão aos que defendem a Sola Scriptura, lembrando que não estamos dependentes dela, pois, como já provamos diversas vezes, nem sentido ela tem -, quais seriam os motivos pelos quais a Virgem Maria seria a Nova Arca da Aliança? Como a Bíblia trabalha com tipos, terá algo na Arca que simbolize a Virgem? Vejamos.

Arca da Aliança - está entronizada no Templo de Deus, e tem dentro de si as Tábuas da Lei, o Maná e a vara de Aarão.

Virgem Maria - há uma conhecidíssima tradição que afirma que a Virgem foi consagrada a Deus no Templo quando tinha apenas 3 anos, lá ficando até os 12, época em que uma moça podia casar. De fato, daí a pouco, Maria engravidou pelo Espírito Santo. Estando grávida de Jesus, Maria realizava as outras condições da Arca: tinha dentro de si não o Maná simbólico, mas o próprio Pão do Céu, como Jesus se autodefine, a Eucaristia, que nascerá em "Bethlehem", a "Casa do Pão". Será portadora não da vara de Aarão, mas do próprio Sumo Sacerdote eterno, de um sacerdócio que não é o de Aarão, mas é o de Melquisedec, mais perfeito. Por fim, Maria trará no seu seio não as tábuas de pedra da Lei, mas o próprio Autor da Lei. Importante dizer que "mandamento" em hebraico se escreve "dabar", que é traduzido ao pé da letra por "palavra", "lógos", em grego. Daí a expressão "Decálogo" ou "Dez palavras". "Lógos" é o termo usado por João para falar de Jesus no prólogo do seu Evangelho. A maioria das versões o traduziu por "Verbo". Maria traz em si o próprio Verbo, que é o Logos, que é o Dabar.

Rainha Mãe


É significativo que se diga, desde a antiga tradição judaica, que o Messias seria da Casa de Davi. As profecias o afirmavam, e de fato este era um dos principais critérios para a identificação do Cristo. Com efeito, havia duas informações aparentemente desencontradas: a primeira esperava que, como Melquisedec, Ele não tivesse genealogia. É por isso que os judeus, não aceitando o messianismo de Jesus, diziam: "Não é este o filho de José? Não é Maria a Sua mãe?" Mas também era estabelecido que Ele nasceria em Belém e que seria da casa de Davi.

Este ponto é absolutamente essencial para o tema que estamos aqui tentando abordar. E por que Davi é tão importante para Israel? O Dr. Hahn responde:

"Foi esse reino [de Davi] que deu ao antigo Israel sua visão de reino do Messias. O segundo rei hebraico, Davi, unificou as doze tribos e estabeleceu Jerusalém como a capital da nação e seu centro espiritual. O povo reverenciava Davi por sua retidão, justiça e fidelidade ao Senhor. Os sucessores de Davi, no entanto, nunca conseguiram viver para ver as virtudes do seu antecessor. Por considerarem que Davi unificou a nação, os reis posteriores incutiram ressentimentos entre as tribos, que acabaram ocasionando uma revolta e a dissolução do reino unificado de Israel. Enfraquecido, Israel tornava-se mais vulnerável a seus inimigos estrangeiros. A partir do momento em que Israel foi atacado por invasores babilônicos, o povo foi exilado no cativeiro e a linhagem de Davi foi completamente, ou quase completamente, dizimada. Sedecias, o último rei davídico, foi posto a assistir a execução pelos caldeus, seus inimigos, de todos os seus filhos, para que, em seguida, lhe furassem os olhos. Desta forma, a última imagem gravada por Sedecias em sua memória seria a dos cadáveres de seus filhos degolados e o aparente fim da dinastia davídica. (2Rs 25,7)

Por meio do exílio e de todos os altos e baixos de sua história subsequente, o povo de Israel olharia para trás, para o reino de Davi, como um modelo; e olhariam para a frente, para o seu futuro com a vinda do Messias, o Ungido, rei-Sacerdote de Deus. Mesmo nos dias de Jesus, os fariseus não hesitaram em identificar o Messias como 'o Filho de Davi' (Mt 22,42). Pois o Senhor tinha prometido a Davi que um rei em sua linhagem governaria um dia todas as nações, e ele reinaria para sempre: 'Eu vou levantar sua descendência depois de ti, que sairá de seu corpo. E eu confirmarei o trono do seu reino para sempre. Eu serei seu pai, e ele será Meu filho' (2Sm 7,12-14). Encontramos a promessa mencionada no livro dos Salmos assim: 'O Senhor jurou a Davi e não retirará sua palavra: 'É o fruto de tuas entranhas que vou colocar no teu trono! Porque o Senhor escolheu Sião, ele a quis para sua morada: 'É este o meu repouso para sempre; aqui vou morar, porque o desejei' (Sl 132,11-13).

Os profetas expressaram a combinação de nostalgia e saudade de Israel e predisseram a vinda do Messias com incrível precisão. Mesmo antes da época de Sedecias, Isaías predisse que a linhagem de Davi - linhagem do tronco do pai de Davi, Jessé - seria reduzida a um 'broto', 'um ramo', mas de cujo broto viria adiante 'a justiça', 'a morada': o Messias (Is 11,1). 'Ouvi, então, vós da casa de Davi [...]. O próprio Senhor vos dará um sinal. Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho, e lhe porá o nome de Emanuel' (Is 7,13-14)." (p.61-63)

Na sua genealogia, Mateus faz Jesus descender de Davi (cf. Mt 1,1) Que Jesus fosse da casa de Davi não era um pormenor destituído de valor, uma vez que o próprio Deus, porque o desejou, predeterminou desde antes que assim seria e o comunicou ao Seu povo. A genealogia de Mateus, porém, apresenta algumas diferenças das genealogias judaicas. Como sabemos, a referência bíblica da família de alguém é geralmente masculina. Deus mesmo se declara o Deus de Abraão, Isaac e Jacó, que nada mais são do que uma descendência. Mateus, porém, inclui na sua genealogia 4 mulheres, algo inédito. Estas mulheres, pior, trazem traços não muito apreciados pelo moralismo judaico. Elas são: Tamar (1,3), uma cananeia que fez sexo com seu sogro (Gn 38,15-18); Raab (Mt 1,5), prostituta e cananéia pagã (Js 2,1-24); Rute (Mt 1,5), pagã moabita; e Betsabá, esposa de Urias, com quem o rei Davi cometeu adultério. Por que será que Mateus faz isso?

O Dr. Hahn vê nisso um modo de responder antecipadamente aos críticos de Jesus que vissem na afirmação do seu nascimento virginal um motivo de ironia. Inclusive, ele diz que Jesus, em alguns trechos do Talmud, é chamado de "bastardo", pois referenciar um homem pela sua mãe era algo insultuoso. Ao relembrar, porém, aos judeus o papel dessas mulheres na ascendência de Salomão, que era o próprio tipo da filiação davídica, sendo Betsabá a sua mãe, Mateus os calava de antemão, pois que se poderia falar de uma Virgem em comparação com estas outras mulheres que, não obstante, ocupam lugar tão importante nos fatos bíblicos?

Para prosseguirmos, convém notar algumas relações entre o Apocalipse e os Salmos do Rei Davi. No Salmo 2, conhecido como "O salmo do Cristo"ou "do Ungido", lemos: "Por que tumultuam as nações? Por que tramam os povos vãs conspirações? Erguem-se, juntos, os reis da terra, e os príncipes se unem para conspirar contra o Senhor e contra seu Cristo. Dirigindo-se a eles em cólera, ele os aterra com o seu furor." (1-2;5) Isto parece se aproximar com o relato mais sintético de Apocalipse 11,18: "Irritaram-se os pagãos, mas eis que sobreveio a tua ira." A referência ao "cetro de ferro em Ap 12,5 é também uma retomada do Sl 2,8-9. Com isso, queremos mostrar as relações entre o Rei Davi e o livro do Apocalipse.

O traço mais importante dessa referência davídica, porém, ainda está por vir.

Em Israel, Davi era rei. Logo, Israel é uma monarquia. Naquela época, era comum que o rei tivesse várias esposas. Vemos que Salomão, filho de Davi, possuía 700 esposas, mais 300 concubinas. Numa tal situação, era muito complicado descobrir quem deveria ser reconhecida pelo povo como rainha e quem deveria ter direito à sucessão ao trono. No Oriente Médio, na maior parte das vezes, esse problema foi resolvido elegendo a mãe do rei como rainha. Isto era conveniente também pelo fato de que ela personificava a continuidade do império enquanto esposa do rei anterior e mãe do atual. Israel, que queria um rei para si, "como todas as outras nações" (1Sm 8,19-20), estabeleceu uma dinastia e adotou então este costume de honrar o rei e a rainha mãe.

Salomão, o protótipo do Rei de Israel, o tipo do Messias, reinará com a sua mãe, Betsabá, sentada à sua direita. Este posto de Rainha Mãe de Israel, que recebe o nome de Gebirah (grande dama), será mantido durante toda a descendência davídica. Mesmo quando os babilônios invadem Jerusalém e deportam a família real para a Babilônia, Neústa, mãe do rei Joaquim, é citada com destaque entre as suas esposas (Cf 2Rs 24,15; Jr 13,18).

O Dr. Scott Hahn esclarece:

"Entre Betsabá e Neústa havia muitas rainhas-mães. Algumas trabalharam para o bem, outras não; mas nenhuma era uma simples figura decorativa. Gebirah era mais do que um título; era uma função com autoridade real." (p.66-67)

Em seguida, ele chama a atenção para uma passagem que descreve a relação real entre Salomão e a sua mãe:

"Então Betsabá foi ao rei Salomão para lhe falar sobre Adonias. O rei se levantou para recebê-la e se inclinou diante dela. Depois se assentou no trono, mandou trazer um trono para a sua mãe, e Betsabá se sentou à sua direita." (1Rs 2,19)

Hahn continua:

"Esta curta passagem nos traz considerações implícitas sobre o protocolo e o poder de estrutura da corte de Israel. Inicialmente, vimos que a Rainha-Mãe se aproximava de seu filho a fim de falar-lhe em nome de outra pessoa. Isso nos confirma o que já sabemos sobre as rainhas-mães nas outras culturas do Oriente Médio. Vemos no épico de Gilgamesh, por exemplo, que a Rainha-Mãe, na Mesopotânia, foi considerada uma intercessora, ou advogada, do povo.

Em seguida, percebe-se que Salomão se levantou de seu trono quando sua mãe entrou no recinto. Isso dá um destaque ao assunto sobre o qual a Rainha-Mãe queria tratar com o rei. Qualquer outra pessoa que viesse à presença do rei deveria seguir o protocolo, mesmo suas mulheres deveriam curvar-se diante dele (1Rs 1,16). Contudo, Salomão se levanta para honrar Betsabá, mostrando mais respeito por ela ao curvar-se e lhe dar o lugar de maior honra, ao seu lado direito. Sem dúvida, esse episódio descreve um ritual da corte no tempo de Salomão, mas um ritual que expressa um relacionamento real. O que nos dizem as atitudes do rei Salomão quanto ao relacionamento com sua mãe?

Inicialmente, seu poder e autoridade não são, de forma alguma, ameaçados por ela. Ele se curva para ela, mas continua sendo o rei. Ela senta-se à sua direita e não ao contrário." (p.67)

O livro dos Provérbios, no seu capítulo 31, traz uma longa passagem que nada mais é do que o conselho que a mãe do rei de Massa, Lamuel, lhe dá.

Já o livro dos Salmos (44,10) nos confirma a Rainha sentada à direita do Rei, "ornada de ouro de Ofir."

O fato de a Gebirah ter um papel tão importante em toda a descendência davídica - sem exceção - é algo que não se pode simplesmente abstrair. Se Jesus é mesmo Rei da Casa de Davi, Ele também terá uma Gebirah.

É esta relação antítipica entre Jesus e Maria - que realiza uma série de prelúdios proféticos - que permite compreender a passagem das Bodas de Caná. Com efeito, o papel de Maria naquela festa se identifica também à função da Rainha Mãe.

Outro indício de que a casa real de Israel de algum modo retoma as figuras de Adão e Eva como reis da criação se encontra naquela frase que Adão diz assim que vê Eva pela primeira vez: "Esta sim, é osso de meus ossos e carne de minha carne" (Gn 2,23), e que se assemelha muito ao que o povo de Israel diz quando Davi é erigido seu rei: "Não somos nós teus ossos e tua carne?" (2Sm 5,1)

A frase de Adão então assume um valor profético, que se realiza parcialmente em Israel, mas que tem sua consumação com o Novo Adão e a Nova Eva, coroada de estrelas, as 12 tribos, os 12 apóstolos da Nova Israel. O Dr. Scott conclui:

"A monarquia inicial da Criação não iria atingir os propósitos de Deus nem a monarquia de Davi, mas uma bem posterior. O Novo Adão, Jesus, reinaria como havia sido prenunciado no Jardim do Éden e nos tribunais de Salomão. O Novo Adão, o Novo monarca davídico, reinaria com Sua noiva, a nova Eva, e ela seria uma mulher histórica real, a quem o Apocalipse identificaria com a Igreja. Ela seria a mãe dos viventes, a advogada do povo, a Rainha-Mãe. Ela seria Maria!" (p. 70)

A Anunciação de Gabriel


Antes de Jesus nascer, Maria foi comunicada pelo Arcanjo Gabriel desta sua vocação, ao que ela consentiu com os célebres termos: "Faça-se em mim segundo a tua palavra." Esta anunciação sempre foi vista, pelos exegetas, como uma inversão da tentação de Eva por Lúcifer. Inclusive, a saudação "Ave", que é a forma latina do grego χαιρε, sempre foi visto também como uma inversão do nome de "Eva", indicando que Maria seria uma inversão de Eva na medida em que corrige, com a sua obediência, a desobediência da primeira mãe dos homens.

De fato, todas essas relações são muito convenientes para que se compreenda o intuito divino na história da salvação. Mas o grande ponto, aqui, é o que Gabriel diz à Virgem Maria. Haveria algum tipo de "segredo" nas expressões angélicas que denunciasse alguma condição particular de Maria? Sim, há.

Quando Lucas narra a anunciação, ele descreve a primeira saudação de Gabriel do seguinte modo:

"Ave, cheia de graça, o Senhor é contigo. Não temas, Maria, pois encontraste graça diante de Deus. Eis que conceberás e darás à luz um filho, e lhe porás o nome de Jesus. Ele será grande e chamar-se-á Filho do Altíssimo, e o Senhor Deus lhe dará o trono de seu pai Davi; e reinará eternamente na casa de Jacó, e o seu reino não terá fim. O Espírito Santo descerá sobre ti, e a força do Altíssimo te envolverá com a sua sombra. Por isso o ente santo que nascer de ti será chamado Filho de Deus." Lc 1,28-35)

Conviria analisar expressão por expressão. Mas, contentemo-nos a relembrar alguns significados de certas afirmações do Anjo e, em seguida, nos deteremos numa expressão em particular, que denuncia a absoluta singularidade de Maria, mais do que as demais.

Primeiramente, notamos o seguinte: desde Adão, nomear as coisas é um ato real. O Gênesis nos diz que os nomes que Adão dava eram os nomes verdadeiros dos entes. (Gn 2,19) Isto indica uma participação na faculdade criadora de Deus. Esta participação é dada. Adão é rei porque assim Deus lhe constitui. Maria recebe o encargo de nomear o filho de Deus, que, agora, "é carne da sua carne e osso dos seus ossos". Com efeito, eles são uma só carne, já que não há participação de homem na concepção de Jesus. Tudo isto faz relembrar novamente Adão e Eva.

"O Senhor Deus lhe dará o trono do seu pai Davi". Remetemos ao subtópico anterior, onde vimos que o trono de Davi possuía necessariamente um lugar de destaque para a Mãe do Rei, a Gebirah. Será um reino que não terá fim, o que indica que o papel singular de Maria também será perpétuo.

"O Espírito Santo descerá sobre ti, e a força do Altíssimo te envolverá com a sua sombra." Também já falamos disso: a expressão aqui usada é a mesma que refere a presença divina sobre o tabernáculo antigo, cuja santidade se devia à Arca da Aliança. O Anjo Gabriel nos confirma que Maria é a Nova Arca da Aliança. E ele deve saber do que fala.

E já que ele sabe do que fala, analisemos o início da sua saudação: "Ave, cheia de graça, o Senhor é contigo". Vamos ao original:

"χαιρε κεχαριτωμενη ο κυριος μετα σου"

Posto em caracteres ocidentais, ficaria mais ou menos assim:

"Chaire, Kecharitomene, ho Kyrios meta sou"

Esta palavrinha κεχαριτωμενη (kecharitomene) é riquíssima de significado, e o usual "cheia de graça" não se aproxima senão de modo muito vago. É uma palavra composta do prefixo "ke", da palavra "Charitos", e do sufixo "Mene".

A palavra "Graça" é a tradução de "Charitos", que também é a origem de "Caridade". Isto se harmoniza perfeitamente com a teologia católica que afirma que a Caridade, virtude teologal, é dom de Deus, isto é, Graça divina. É o Espírito Santo o doador da Graça, a terceira pessoa da Santíssima Trindade e que está relacionada com a santificação da vontade - sendo Ele a processão da vontade divina -, e com o aperfeiçoamento dos entes na medida em que lhes orienta ao seu fim devido. Isto significa que a realização humana não está acessível ao esforço natural, mas deve ser concedida por Deus.

Ocorre que desde a Queda de Adão, todos estiveram privados da graça de Deus, pois esta graça é comunhão com Ele, é um estado de amizade. Como o pecado é passado por herança para todos os humanos - e o próprio cosmos o sofre -, a conclusão necessária era que o homem estava impedido de salvar-se a si mesmo. Apenas a Graça divina - que no Novo Testamento superabunda ao pecado e é fruto da Redenção operada por Jesus na Cruz - poderia trazer novamente ao homem a perspectiva da salvação. O Anjo Gabriel, ao anunciar à Virgem que ela seria Theotókos, isto é, Mãe de Deus, a declara, porém, cheia de Graça. Ora, pense o leitor, como isso é possível? Antes de explicá-lo, vamos aos demais termos.

O "Ke" inicial, que põe a expressão no "perfect tense" - uma espécie de mistura de passado e presente - indica a perfeição ou o grau máximo da qualidade referida - o estado atual de algo recebido antes -, o que indica que a Virgem não adquiriu aquele estado espiritual na anunciação. Ele lhe foi dado desde antes. Como a Graça não é fruto ou paga dos atos humanos, conclui-se que Maria não teve de ter méritos prévios à Graça. Portanto, esta deve ter-lhe sido dada desde o começo. Se isto é assim, temos que admitir que a Virgem nunca teve pecado, já que a Graça é diminuída por ele. E aqui divisamos a própria Imaculada Conceição, da qual falaremos mais adiante. "Ke" também indica alguma idéia de atemporalidade, na medida que o que não sofreu gradação ascendente - não foi dado aos poucos - também não a sofrerá descendente. Veja que isto não é uma conclusão forçada, mas necessária decorrente do próprio termo usado pelo anjo. Isso se quisermos dar algum crédito à Escritura.

A partícula "Mene" é um particípio que dá a idéia de sujeito, ou de elemento passivo. No caso, Maria recebeu esta graça. Ela não é a causa ativa desta graça. É a receptora. A expressão aqui assume o significado gramatical tanto de verbo (foi agraciada) quanto de substantivo (plena da graça). Por este motivo é que ela aparece no Apocalipse vestida de sol, pois Deus a possuiu. O próprio fato de ela ter sido fecundada pelo Espírito Santo já evoca de modo muito profundo esta idéia.

Assim, uma tradução mais precisa da expressão angélica seria:

"Salve, tu que foste, és e sempre serás plena da Graça divina."

O especialista protestante em grego Herbert Weir Smyth escreve:

"Enquanto que kecharitomene, particípio perfeito passivo, demonstra uma integralidade com um resultado permanente. Kecharitomene denota continuidade de uma ação completa." (H. W. Smyth, Greek Grammar [Cambridge: Harvard University Press, 1968.], p. 108-109, sec. 1852: b.).

Já o escritor Funk Blass, também protestante, bacharel em Teologia, mestre pela Butler University e PhD Vanderbilt University, escreve:

"É permissível no grego gramatical e no terreno linguístico parafrasear kecharitomene como completa, perfeita e permanentemente dotada com graça." e "Contudo, Lucas 1,28 usa uma forma conjugada especial de "charitoo". Ele usa "kecharitomene", enquanto que em Efésios 1,6 usa "echaritosen", que é uma forma diferente do verbo "charitoo". Echaritosen significa "ele agraciou" (graça concedida). Echaritosen significa uma ação momentânea, uma ação que pode passar." (Blass and DeBrunner, Greek Grammar of the New Testament, p.166)

Note que algo que é "completa, perfeita e permamentemente dotado de graça" é necessariamente privado de pecado. A mínima mancha de pecado impediria que algo fosse "completa, perfeita e permanentemente dotado de graça". Se o leitor quiser manter a lógica, a conclusão é necessária.

John Gresham Machen, teólogo presbiteriano, professor de Novo Testamento no seminário de Princeton, por sua vez, escreve:

"A ação 'perfeita' do particípio é considerada por ter sido completada antes do momento da fala daquele que anuncia." (J. Gresham Machen, New Testament greek for begginers, p.187)

Ou seja: a graça de que se fala nem é um tipo de "bom olhar divino" nem é resultante da encarnação do Verbo, mas é um estado espiritual anterior à Encarnação. Como vimos, este estado remonta ao início da existência de Maria, isto é, à sua concepção.

Fantástico, não?

Vamos agora responder a algumas dificuldades que são comumente levantadas pelos protestantes a respeito da Virgem.

Intercessora e Medianeira


Os católicos afirmamos que a Virgem Maria é intercessora e medianeira de todas as graças. Os protestantes, cativos da Sola Scriptura e, portanto, impedidos de uma compreensão acima da literal mais rasteira, desfavorecidos pela lógica mais básica, afirmam que isto contradiz a Bíblia em dois pontos.

1º - É dito que Jesus é o único mediador entre Deus e os homens. (1Tm 2,5) Considerando que a intercessão é uma mediação, ela estaria impedida também neste texto. Não deixa de ser impressionante que os mesmos que afirmam esta impossibilidade estejam o mais frequentemente pedindo orações aos irmãos e a seus ditos pastores. Ora, o que é orar por alguém senão interceder? Existe alguma lógica em proibir um e aceitar o outro? Não, não há. E considerando que nós vemos Paulo pedindo orações aos cristãos nas suas cartas, a única atitude coerente e sincera seria a de compreender e aceitar que a intercessão entre os cristãos não é um impedimento ou proibição; é, antes, uma recomendação.

Nada ajuda restringir a proibição aos santos, pois esta especificação - ou qualquer restrição ao afirmado - não é feita no texto. Além disto, considerando a possibilidade de haver pessoas no céu - ao que não se oporia a maioria dos protestantes - não se entende a impossibilidade de eles orarem por nós. No caso dos que negam a imortalidade da alma - o que é outro absurdo -, há alguns que aceitam a missão, também referida biblicamente, dos anjos da guarda. Se é permitido pedir orações a uma pessoa da igreja, por que seria proibido pedi-la a estes seres especialmente designados para o nosso cuidado? As contradições são infinitas.

Além disso, o que é pregar para alguém senão estabelecer uma mediação entre essa pessoa e Deus? O que é a Bíblia senão uma mediação? O que é uma canção senão uma mediação? O que é a água no batismo senão uma mediação? O que é uma igreja senão um meio, isto é, algo que realiza a mediação, entre o homem e Deus? Vê-se que a interpretação literal não se sustenta ao mínimo ato de inteligência. E é de fato impressionante que pessoas tão inteligentes se mantenham cativos de teias tão frágeis e evidentemente tão falsas.

Expliquemos, então, a aparente contradição entre a proibição textual e o campo do real. Quando Paulo o escreve, ele está a dizer o seguinte: desde a Queda de Adão, a humanidade se via escrava do pecado - o que só foi reforçado pela Lei - e impedida de se salvar. Jesus é o único que consegue reatar as relações entre Deus e a humanidade, e o faz por meio da Sua Cruz. Assim, qualquer afirmação de uma mediação entre Deus e os homens que seja alheia à mediação do Cristo é necessariamente falsa. Ocorre que a mediação dos santos não são alheias à do Cristo, mas possibilitadas por Ele. A partir da mediação absoluta de Jesus, originam-se uma série de novas possibilidades, suportadas, isto é, fundadas na d'Ele. É a pregação do Cristo que possibilita e dá razão de ser ao ofício dos pregadores cristãos. A mediação destes nasce da mediação única do Cristo. Esta nova dinâmica espiritual que se dá a partir do Cristo, que nos estabelece como corpo, sendo Ele a cabeça, chama-se comunhão dos santos, e é um dos dogmas da Igreja. Estamos vendo que ele nada mais é do que o resultado da reta compreensão das coisas.

A Virgem Maria, sendo particularmente agraciada, tem um papel muito particular de intercessora e medianeira. Provemos isto em mais uma concessão à Sola Scriptura.

1- Maria foi ou não o meio pelo qual Jesus nos veio? Foi. Embora Ele seja verdade que Ele poderia ter escolhido vir diretamente, é fato que decidiu vir por meio dela. Logo, Maria é meio da Encarnação e, portanto, da Redenção. Então repita comigo, leitor: "Maria é meio. Em outras palavras: Maria é medianeira entre Deus e os homens."

2- Isabel, de quem falaremos mais à frente, ficou cheia do Espírito Santo - o que purificou também a João Batista, no seu ventre - através da voz de Maria. Foi ou não foi? Se foi, Maria foi ou não meio de Deus? Foi. Maria foi meio para que Isabel ficasse cheia do Espírito Santo.

3- Vamos às bodas de Caná, de que já tratamos. Era o momento de Jesus realizar o primeiro milagre? Parece que não, né? Pelo menos é o que se depreende do que Jesus diz: "minha hora ainda não chegou." Maria no entanto insiste. Ela põe os servos em relação com Jesus. Põe ou não põe? Põe. Jesus depois realiza o milagre. Sim ou não? Sim. E por que o faz? Porque sua mãe o pediu. Se já ia realizar, por que falou o que falou? A conclusão é clara: realizou-o porque Sua Mãe lho pediu. Maria foi ou não meio e intercessora? Foi. A Bíblia é idólatra? Conclua..

Imaculada


Nós católicos afirmamos, em correspondência com a saudação angélica, que a Virgem Maria foi preservada por Deus de toda e qualquer mancha de pecado. Vimos que somente assim ela poderia se adequar ao referido por Gabriel. Os protestantes, porém, afirmam que isto contradiz a afirmação paulina de que "todos pecaram". (Rm 3,23)

Note primeiramente que fazendo a interpretação protestantes, teríamos de incluir aí o próprio Jesus, uma vez que Ele, sendo alguém, deveria ser naturalmente incluído no conjunto do "todos".

Em segundo lugar, o que dizer das crianças não nascidas, ou mortas na infância, como no caso dos assassinados por Herodes? Mas aqui já há que se fazer uma distinção: Paulo está falando dos pecados pessoais - cometidos ativamente -, ou do pecado original? Na verdade, ambos estão implicados, pois o pecado pessoal só é feito tão facilmente porque há o desejo anterior, a concupiscência, que é efeito do pecado original. Assim, não é possível ter este desejo - que a teologia chama "fomes" - e abster-se sempre do pecado. Uma vez que todos nascem com o pecado original e, consequentemente, com a inclinação perversa ao pecado, todos pecarão. É sobretudo desta possibilidade que fala São Paulo, mais do que dos pecados individuais e concretos. A afirmação é uma estimativa genérica, e não um pronunciamento sobre os casos isolados. Quando aplicamos isto a Maria, concluímos facilmente o seguinte: Maria pecaria como todos os demais se Deus não a tivesse preservado. Assim, ela não contradiz o dito pelo Apóstolo, uma vez que este dito referia-se a uma lei proveniente da Queda.

E aqui passamos a uma segunda distinção: Sto Tomás de Aquino ensina que Deus pode agir sobre uma pessoa de dois modos: um curativo e outro preservativo. No primeiro modo, o mais comum, Ele regenera a pessoa por meio da Sua graça, santificando-a posteriormente, o que implica a necessidade da conversão. Mas Deus, que está fora do tempo - lembremos! - pode também preservar antecipadamente alguém. Um exemplo corriqueiro é o que os protestantes chamam de "livramento". O que é isto senão a intervenção prévia de Deus que, embora pudesse curar a pessoa depois do evento, prefere salvá-la antecipadamente?

Assim ocorreu com Maria. A fonte mesma da Graça é a Redenção, isto é, o Sacrifício de Jesus na Cruz. É daí que saem os raios da misericórdia que nos concedem a possibilidade da Salvação. É daí que sai a força que nos perdoa os pecados. Também no caso de Maria é assim. O fato de ter sido preservada do pecado é um efeito antecipado da Cruz. Como diziam os Santos Padres, Maria é como a aurora que, embora venha antes do sol, é na verdade produzida por ele. Deus poderia fazer isso se quisesse? Poderia, tanto que fez.

Mas existe ainda uma espécie de "necessidade" para que isto tivesse sido assim.

Jesus é Deus, e como tal totalmente avesso ao pecado. Seria uma impossibilidade metafísica - uma contradição em termos - que Jesus tivesse tido algum tipo de contaminação pessoal com o pecado. Assim, Ele não poderia tê-lo herdado. E no caso absurdo de tê-lo feito, se veria privado da graça e não poderia redimir ninguém.

Se Jesus queria redimir os homens, teria antes de se tornar um deles. Porém, teria de fazê-lo como homem que não herdasse a fraqueza e a desordem do pecado. Iria, no entanto, sofrer as suas consequências, posteriormente, por sua livre escolha, e é precisamente isto que permite o caráter expiatório do Seu Sacrifício. Mas para que tivesse nascido sem pecado, era necessário herdar sua natureza humana de outra natureza humana que já estivesse isenta de pecado. E tal foi o caso de Maria.

Duas objeções surgem aqui:

1º - Se Maria foi sem pecado, então por que sua mãe também não seria, e assim sucessivamente?
2º - Jesus não poderia ter se autopreservado do pecado?

Quanto à primeira, Deus seria obviamente livre para fazer a intervenção em quem Ele bem quisesse. Porém, uma vez que isso apenas era necessário em relação à mãe direta do Messias, e uma vez que apenas Maria recebeu a anunciação de Gabriel chamando-a de "plena da graça divina", depreende-se que apenas Maria recebeu esta graça por livre eleição divina.

Quanto à segunda, há uma impossibilidade lógica. O meio expiatório é o sacrifício da natureza humana de Cristo. Isto é: a Sua morte humana é meio e a Redenção é efeito. Preservar-se a Si mesmo do pecado seria aplicar o efeito sem a causa. Veja que a impossibilidade não é meramente temporal - pois a Virgem foi preservada -, mas lógica. Agir pressupõe existir. A ação redentora pressupõe uma natureza humana sobre a qual ainda não agiu a ação redentora. Assim, o Cristo apenas poderia preservar outra, e não a Si mesmo, diretamente. Se na cabeça do leitor, agora, passa a idéia de que Deus pode tudo e então Ele poderia fazer isso, então o leitor não compreendeu o que dissemos, e então sugerimos repetir a leitura. De fato, a coisa é algo sutil. Dizer que Jesus poderia ter-Se preservado sem mais é o mesmo que dizer que Ele poderia redimir a humanidade apenas querendo, o que faz da Crucificação do Senhor um ato inútil. Este tipo de pensamento é obviamente blasfemo. As coisas não são meramente arbitrárias.

A conclusão a que se chega, portanto, é que, para que o Cristo nascesse sem pecado e pudesse agir redentoramente, era necessário que herdasse Sua natureza humana de uma mulher sem pecado. Necessidade lógica.

Uma outra objeção fica latente: se Jesus não poderia assumir uma natureza com pecado, como Ele pôde assumir os pecados do mundo? Veja: o mesmo Apóstolo que disse que Nosso Senhor se tornou pecado por nós é o mesmo que disse que Ele assumiu a nossa natureza em tudo, menos no pecado. Jesus assumiu sobre si, mas não o fez intrinsecamente. Jesus jamais consentiu no pecado (Hb 4,15). A Sua alma, embora tenha sofrido os efeitos do pecado, nunca comungou com Ele. Ele o tomou sobre si, diz o livro de Isaías. Muito diferente seria herdar o pecado como um movimento interno da natureza, como é o caso de nosotros.


É permitido louvar a Maria?



Outra pergunta que geralmente se faz é se é possível louvar a Maria. Os protestantes negam-no energicamente e, de novo, usam alguns trechos bíblicos para isso.

"Eu sou o Senhor, esse é meu nome, a ninguém cederei minha glória, nem a ídolos minha honra." (Isa 42,8)

"Enquanto ele assim falava, uma mulher levantou a voz do meio do povo e lhe disse: 'Bem-aventurado o ventre que te trouxe, e os peitos que te amamentaram! Mas Jesus replicou: 'Antes bem-aventurados aqueles que ouvem a palavra de Deus e a observam!" (Lc 11,27-28)

Julgamos que estes dois textos resumem bem os argumentos protestantes. Vejamos um por um.

Quanto ao primeiro, alguns sites católicos gostam de rebatê-lo com outros trechos da Escritura. Jesus, por exemplo, na Sua despedida, na oração sacerdotal, diz ao Pai referindo-Se aos apóstolos:

"Eu lhes dei a glória que me deste" (Jo 17,22)

Nos salmos encontramos este trecho:

"O Senhor dá a graça e a glória. Ele não recusa os seus bens àqueles que caminham na inocência." (Sl 83,12)

Eu, sendo protestante, objetaria o seguinte: temos aqui uma imprecisão semântica. O termo "glória" pode indicar tanto o louvor dado a alguém quanto a salvação. Neste último sentido é que se diz "reino da glória". Assim, o que Deus dá a alguém é o segundo, e não o primeiro. É uma boa objeção - feita não obstante por um católico, para que não se diga que faltamos à sinceridade.

Preferimos respondê-lo do seguinte modo: a primeira coisa a se notar é que Deus está falando contra os ídolos das nações pagãs. Estes ídolos se colocavam como entidades alternativas e competidoras de Deus, o que é obviamente absurdo, visto que só Deus é Deus.

No caso dos santos de Deus, aqueles que são santos justamente porque O amam e participam da Sua natureza, como escreve Pedro, estes serão glorificados na própria glória de Deus. Isto não significa que eles terão alguma espécie de glória própria, mas uma glória derivada que, não obstante, será real. Será uma glória participada. E aqui nos serve a segunda citação-resposta: "Ele não recusa os seus bens àqueles que caminham na inocência." A ressalva de Deus em Isaías diz respeito aos ídolos, e não aos Seus santos. Ademais, Deus não é um carente afetivo preocupado em disputar com outros. Se Ele falou o que falou, isto era pelo próprio bem de Israel, uma vez que Ele não Se sente ameaçado por ídolos e outras entidades, existentes ou não. Entendê-lo literalmente é cair num antropomorfismo pueril, é reduzir Deus ao nível de uma divindade grega, como, ironicamente, às vezes somos acusados de fazer. Daremos já já prova de que o próprio Deus não apenas não Se ofende, como Ele mesmo inspirou o louvor a Maria. Afinal, quem não ficaria contente de ter a sua obra prima louvada? Mas, antes, abordemos o segundo texto:

Os protestantes gostam de ver aqui uma reprimenda do próprio Jesus contra aqueles que querem cultuar Maria. Vejamos os termos que a mulher usa: "Bem-aventurado o ventre que te trouxe, e os peitos que te amamentaram!" Os comentadores católicos tendem a ver aqui uma espécie de exaltação a Maria como se ela só o merecesse a despeito de qualquer colaboração, como se fosse objeto inerte. A resposta de Jesus - "Antes bem-aventurados aqueles que ouvem a palavra de Deus e a observam!" - enfatiza o aspecto ativo: a bem-aventurança se dá pela observância pessoal, pelo exercício da liberdade humana que voluntariamente adere a Deus. Maria, não obstante tenha sido agraciada por Deus, é colaboradora ativa d'Ele. Seu sim foi plenamente livre. Vemos em Maria uma observadora fiel dos princípios judaicos. Tomada como uma reprimenda, a resposta de Jesus poderia sugerir que Maria não ouve a palavra de Deus e não a observa. Vimos, porém, que isto não faz nenhum sentido, visto que o próprio Deus a agraciou, e que o resultado da graça é a santidade. Assim, longe de preterir Sua mãe, Jesus sugere que o mérito dela não é somente de ser objeto, mas de ser atuante.

Vejamos, então, mais uma vez aquilo que ocorre na sua visita a Isabel. Aqui nós temos a seguinte ordem:

1- Isabel fica cheia do Espírito Santo;
2- Isabel louva Maria nos seguintes termos:

"Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre. Donde me vem a honra de vir a mim a mãe do meu Senhor? Pois assim que a voz de tua saudação chegou aos meus ouvidos, a criança estremeceu de alegria no meu seio. Bem-aventurada és tu que creste, pois se hão de cumprir as coisas que da parte do Senhor te foram ditas!" (Lc 1,42-45)

A primeira coisa a se perguntar é: isto é ou não um louvor? Isabel a chama bendita. Diz que não tem o merecimento de que a "mãe do meu Senhor" venha a ela, o que, como vimos, a faz associar-se com a Arca da Aliança. Chama-a ainda de Bem-aventurada. Isso tudo não é um louvor? Quando Zacarias louva a Deus (v.68), ele inicia chamando-O de bendito, e isto é suficiente para caracterizar a oração como um louvor. Por que não o seria aqui quando Isabel usa a mesma expressão para com a Mãe do Senhor? Os meus louvores à Virgem Maria tendem a ser muito mais modestos - mea culpa.

Depois, Quem inspirou este louvor? Não foi o próprio Deus? De Quem Isabel estava cheia quando louvou a Maria? Não é permitido louvá-la? Como Deus inspira o que não é permitido?


E as procissões?


Para entender o fenômeno das procissões, primeiramente temos de dissociá-las da idolatria. Definamos idolatria: é o culto a ídolos que se crê serem deuses. É o caso dos santos católicos? De nenhum modo. Logo, se ninguém considera que os objetos cultuados sejam deuses ou ídolos, então não é possível que o fenômeno se enquadre na categoria idolatria.

Os protestantes, no entanto, cismam com o aspecto da coisa. Seria algo semelhante a acusar um protestante de idolatria porque ele ora voltado para o céu do mesmo modo que um cultuador dos astros também ora voltado para o céu, e inclusive com as mãos erguidas. A mera posição física ou o comportamento externo não dão conta de distinguir uma coisa da outra. Isto serve para demonstrar como a idolatria deve ser, antes de tudo, uma realidade interna, que, obviamente, se expressa externamente. Mas duas realidades internas totalmente distintas podem se expressar externamente de modos similares. Os primeiros milagres de Moisés eram imitados pelos sacerdotes do Faraó, embora a natureza dos fenômenos fosse absolutamente distinta. Sabemos, também, de modo pessoal - basta fazer um exame qualquer -, que a aparência de adoração não caracteriza a adoração propriamente dita. Lembremos do caso dos algozes de Jesus: eles se prostravam diante d'Ele, mas isto não caracterizava adoração, senão zombaria. Assim, um mesmo ato exterior pode ter uma variada série de motivações. Com isso queremos dizer que o fato de uma identificação estética das procissões como idolatria não implica que elas sejam isso. 

Peguemos, por exemplo, o ato de ajoelhar-se diante de algo ou alguém. Para alguns protestantes, somente é permitido ajoelhar-se diante de Deus, e para isto citam a reprimenda que Pedro dá em Cornélio. Aqui, porém, Lucas diz claramente que "Cornélio saiu a recebê-lo e prostrou-se aos seus pés para adorá-lo." (At 10,15) Coitado de Cornélio: não era cristão nem judeu. Sendo pagão, estava acostumado à idéia de uma multiplicidade de divindades, pelo que era-lhe o mais comum adorá-las. A reprimenda de Pedro não é tanto ao gesto físico, mas à atitude interior que se exprimia fisicamente.

Outro trecho muito usado contra o gesto da genuflexão está em Apocalipse 19,10, quando João ia prostrando-se diante de um anjo para adorá-lo, e, de novo, recebeu uma reprimenda: "Não faças isso!". Haveria que se perguntar: Por que João fez isso? Ele não tinha juízo? O contexto esclarece: o anjo tinha acabado de dizer: "Felizes os convidados para a ceia das núpcias do Cordeiro." e, em seguida, "Estas são palavras autênticas de Deus." Provavelmente, João confundiu o ser que lhe falava com o próprio Deus, uma vez que este disse estar falando autenticamente palavras de Deus. Seja como for, aqui de novo a proibição é feita porque João claramente quis adorá-lo, ao que o anjo, esclarecendo se tratar de um servo, responde: "adora a Deus."

Vejamos, então, alguns casos em que o mero ato de prostrar-se não caracteriza idolatria.

Diante de anjos:

Gn 19,1 - Lot se prostra com o rosto em terra diante dos anjos que chegam em Sodoma;
Nm 22,31 - Balaão prostra-se diante do anjo do Senhor;
1Cr 21,16 - Davi e os anciãos se prostram diante do anjo com a espada desembainhada;

Diante de pessoas:

Gn 33,3 - Jacó prostra-se sete vezes diante de seu irmão;
Gn 33,6-7 - Mais um monte de gente se prostra diante de Esaú;
Gn 37,7.9-10 - José, num sonho revelado, vê seus irmãos e seu pai se prostrarem diante dele;
Gn 41,43 - Os servos do faraó se ajoelham diante de José;
Gn 42,6 - Os irmãos de José se prostram diante dele com o rosto por terra;
Gn 43,26 - Novamente os irmãos de José se prostram diante dele;
Gn 44,13 - De novo...
Gn 49,8 - Os filhos de Judá se prostrarão diante dele;
Ex 18,7 - Moisés se prostra diante de seu sogro;
1Sm 20,41 - Davi prostra-se três vezes diante de Jônatas;
1Sm 24,9 - Davi se prostra diante de Saul;

Diante de coisas:

Js 7,6 - Josué se prostra diante da Arca;
Es 24,9 - Esdras prostrado diante da Casa de Deus;
Jd 4,9 - Sacerdotes e crianças prostram-se diante do templo;
Sl 137,2 - Prostração diante do templo;

Vemos aqui, como aliás é óbvio, que nem sempre o ato da prostração é idolatria. Ela pode indicar, como no caso dos anjos e das pessoas, apenas respeito e profunda estima. Às vezes, arrependimento. Um protestante objetaria: "mas uma coisa é respeitar alguém, e outra é cultuá-lo". O condenável então nas prostrações católicas diante de imagens ou nas suas demonstrações externas de afeto seria o culto rendido a elas. Analisemos isso. 

Diante de alguém vivo, os personagens bíblicos se prostravam e em geral faziam alguma espécie de solicitação ou agradecimento. Era um ato externo, motivado por uma realidade interna, seguida de uma intenção. É um ato intrinsecamente comunicativo, pois dirige-se a uma consciência e espera desta consciência uma resposta. Alguma objeção até aqui?

O que seria, então, o culto a uma imagem? Primeiramente, lembremos que a imagem é mero símbolo, assim como eram apenas símbolos não somente os anjos sobre a Arca da Aliança, mas também aquilo que ela continha - falaremos da Arca já já. Uma imagem católica simboliza uma pessoa que realmente viveu. Portanto, o culto que se lhe rende é, do mesmo modo, um ato comunicativo que se dirige à sua consciência. O fundamento disto é a fé na imortalidade da alma e a idéia de que, estando em Deus, Este pode comunicar à pessoa referida o ato específico, uma vez que este ato não contradiz o ato de adoração que deve ser rendido a Deus somente. Assim, um protestante poderia até nos objetar a Fé na imortalidade, mas não pode acusar-nos de idolatria, pois o que fazemos está amplamente demonstrado na Bíblia diante de pessoas vivas. Outra coisa seria se o culto aos santos fosse algo alternativo - por fora - ao culto a Deus. Mas, como dissemos, isto ocorre "por dentro". Afinal, alguém só é santo porque participa da santidade de Deus. Um santo é alguém que viveu radicalmente o Evangelho e, assim, se tornou exemplo e canal para a ação divina, pois, habitando agora com Deus, e tendo consumado a total purificação do seu coração, pode pedir por nós. E isso impede tanto o culto direto a Deus quanto o fato de pedir oração aos irmãos impede que eu me dirija diretamente a Ele. Ou seja: não impede!

Talvez alguém nos considere algo desonestos pelos terceiros casos que pusemos acima: a prostração diante de coisas. As coisas de que então se fala não são meras coisas, mas realidades onde Deus se manifesta. A Arca da Aliança, os templos e altares de sacrifício nos remetem diretamente a Deus, e não a outros seres. Ok. Concordamos integralmente. Mas observe que, se, por um lado, eles nos remetem a Deus, eles não são Deus. Atuam de modo simbólico ou presentificam, sem se identificar com ela, a realidade divina. Assim, estas pessoas estão se prostrando sim diante de coisas nas quais Deus se manifestará. Estas coisas são canais teofânicos. Voltemos então às imagens católicas. Elas simbolizam pessoas nas quais Deus agiu de modo soberano. Qualquer pessoa que se detenha a estudar a vida de qualquer santo verá que o que o torna santo não é apenas uma bondade de caráter ou uma constância relativa na vivência da Fé, etc. Um dos passos para a canonização é o grau heróico das virtudes, o que significa que a elevação espiritual destas pessoas alcançou alturas vertiginosas. Elas não seriam capazes sequer de sonhar aquilo de que foram vítimas. Isto significa que foram objetos privilegiados da ação divina. Deus as transformou de um modo tão radical que é sempre muito difícil, senão impossível, dar uma dimensão sequer aproximada daquilo. Estas pessoas se tornam focos de Deus. Isso acontecia com os apóstolos, à sombra dos quais os doentes se prostravam para que ela os curasse. Isso era idolatria, caros? Uma imagem católica é um símbolo de uma pessoa que teve uma dimensão espiritual dessa natureza. E se o teve, foi porque Deus a elevou a este grau. Assim, ela se torna não somente um foco da ação divina, mas um exemplo e uma prova viva do realismo do Evangelho. Os santos, ao invés de serem estímulos à idolatria, são impedimentos a ela. São gritos absurdamente altos de que "só Deus basta!" Elevar uma pessoa dessas e apresentá-la nas ruas é gritar para todos que o Evangelho é real, é vivo, é possível, e que Deus existe, e que tudo no mundo que seja oposto a isto é fraude, é farsa, é mentira.

Vamos, então, ao ato de andar demorada e ritualmente de um lugar a outro, que é o que caracteriza a procissão.

Sabemos que Israel estava proibido de fazer imagens, pois, como vivia rodeado por culturas politeístas e possuíam ídolos, era sempre uma tentação querer adotar os costumes que eles viam. Sobretudo a cultura dos cananeus, que tinham deuses responsáveis pela agricultura e pelas chuvas. Como Israel era agrário, aqueles deuses eram-lhe atrativos. Nós notamos inclusive essa busca por fazer representações da divindade quando Moisés, indo ao Sinai - onde recebe as tábuas da Lei -, o seu povo, aturdido pela sua demora, decide fazer um bezerro de ouro. O mesmo ocorre quando, depois de estarem sendo mortos por serpentes, Deus manda fazer uma serpente de bronze: quem olhá-la ficará curado. Pois bem: os judeus em seguida passam a querer adorar a serpente, pelo que Deus manda destruí-la. Assim, por causa dessa inclinação natural de Israel à idolatria, Deus lhes proibiu a confecção de esculturas, pois seriam associadas aos ídolos.

Uma vez que é proibido fazer imagens, fica complicado de fazer procissões. No entanto, estas são feitas com o que sobra de elemento simbólico. Na impossibilidade de se levar um templo nos ombros, resta a Arca da Aliança. Como dissemos mais acima, a Arca era um objeto de madeira, recoberta de ouro, e tinha dentro de si as Tábuas da Lei, o Maná e a vara de Aarão. Acima da tampa havia dois querubins de ouro, que, só pra constar, são imagens, e de escultura, e feitas por ordem divina.

A Escritura narra várias procissões que se fazia com a Arca:

"Partiram da montanha do Senhor e caminharam três dias. Durante esses três dias de marcha, a arca da aliança do Senhor os precedia, para lhes escolher um lugar de repouso." (Nm 10,33)

"Passados três dias, os oficiais atravessaram pelo meio do acampamento, dando ao povo esta ordem: 'Quando virdes a arca da aliança do Senhor, vosso Deus, levada pelos sacerdotes, filhos de Levi, deixareis vosso acampamento e vos poreis em marcha, seguindo-a." (Js 3,3)

"Sete sacerdotes, tocando sete trombetas, irão adiante da arca. No sétimo dia dareis sete voltas à cidade, tocando os sacerdotes a trombeta. (...) Marcharam os guerreiros diante dos sacerdotes que tocavam a trombeta, e à retaguarda seguia a arca; e durante toda a marcha ouvia-se o retinir das trombetas. (...) A arca do Senhor deu uma volta à cidade, e retornaram ao acampamento para ali passar a noite. Josué levantou-se muito cedo e os sacerdotes levaram a arca do Senhor. Os sete sacerdotes, levando as sete trombetas retumbantes, marchavam diante da arca do Senhor, tocando a trombeta durante a marcha. Os guerreiros precediam-nos, e à retaguarda seguia a arca do Senhor. E ouvia-se o retinir da trombeta durante a marcha. Deram volta à cidade uma vez, no segundo dia, e voltaram ao acampamento. O mesmo fizeram durante seis dias." (Js 6,4;9;11-14)

A primeira coisa a se perguntar é: isto é ou não uma procissão? É. Logo, procissões não são necessariamente erradas. O leitor tem de admitir isso. 

Em segundo lugar, por mais santa que seja a Arca, ela não é Deus. É onde Ele se manifesta, mas não é Deus. E o culto devido à Arca só tem razão de ser por causa de Deus, né? Óbvio. Mas o mesmo se dá com os santos! Um santo é como um ramo consumado da videira que é Jesus. É a vida divina que torna o santo um santo, assim como era o maná, as tábuas da lei e a vara de Aarão que tornavam a Arca santa. E por que estes objetos faziam isto? Porque estavam como que animados da energia divina, a Shekinah.

Então temos o seguinte: Shekinah >> Objetos da Arca >> Arca da Aliança -- tanto os objetos quanto a Arca são símbolos ou meios.

Então, chegamos à seguinte conclusão: a) Procissão em si não é um erro; b) Procissão com objetos que remetam a Deus não é um erro. Depois disso, só resta concluir que as procissões católicas não são um erro.

Porém, precisamos ainda considerar algumas coisas. Se é verdade que o culto à Virgem Maria é algo tão entranhado nas Escrituras e na vida de Fé da Igreja desde o começo, poderíamos encontrar algum indício disso nos primeiros cristãos, aqueles que sucederam os apóstolos? Vamos ver

Como os primeiros cristãos viam a Virgem Maria


Comecemos por Sto Inácio, bispo de Antioquia, do séc I e II. Este rapaz foi discípulo do Apóstolo João e foi ordenado pelo próprio Pedro. Sto Inácio é o primeiro santo a chamar a Igreja Cristã de Católica, lá pelo ano 105 d.C. Sobre Maria, ele escreve:

"E permaneceram ocultos ao príncipe desse mundo a Virgindade de Maria e seu parto, bem como a morte do Senhor: três mistérios de clamor, realizados no silêncio de Deus" 

A virgindade misteriosa não é, obviamente, a mera virgindade pré-parto, que não teria nada de misteriosa. É, antes, a virgindade perpétua.



São Justino, também do Séc. II, escreve:

“[Jesus] se fez homem por meio da Virgem, de sorte a ser finalizada a desobediência, oriunda da serpente, por ali mesmo onde havia começado. Eva era virgem e incorrupta; concebendo a palavra da serpente, gerou a desobediência e a morte. A Virgem Maria, porém, concebeu fé e alegria quando o anjo Gabriel lhe anunciou a boa nova”.


Santo Irineu de Lião, também do Séc. II, especialista em heresias, escreve:

“Como por uma virgem desobediente foi o homem ferido, caiu e morreu, assim também por meio de uma virgem obediente à palavra de Deus, o homem recobrou a vida. Era justo e necessário que Adão fosse restaurado em Cristo, e que Eva fosse restaurada em Maria, a fim de que uma virgem feita advogada de uma virgem, apagasse e abolisse por sua obediência virginal a desobediência de uma virgem.”

“Ora, como Eva..., que tendo-se feito desobediente, se tornou causa de morte tanto para si quanto para todo o gênero humano, também Maria...obedecendo, tornou-se causa de salvação tanto para si quanto para todo o gênero humano...”


"A Virgem Maria mostrou-se obediente ao dizer: 'Eis aqui tua serva, Senhor; faça-se em mim conforme a tua palavra'. Entretanto, Eva foi desobediente; mesmo enquanto era virgem, ela não obedeceu. Como ela - que ainda era virgem embora tivesse Adão por marido... - foi desobediente, tornou-se a causa da sua própria morte e também de todo gênero humano; então, também Maria, noiva de um homem, mas, apesar disso, ainda virgem, sendo obediente, se tornou a causa de salvação dela própria e de todo o gênero humano... Assim, o problema da desobediência de Eva foi eliminado pela obediência de Maria. O que a virgem Eva causou em sua incredulidade, a Virgem Maria eliminou através da sua fé"

"Assim como o gênero humano foi levado à morte por uma virgem, foi libertado por uma Virgem."


Santo Hipólito de Roma, Séc II e III:

"O Cristo foi concebido e tomou o seu crescimento de Maria, a Mãe de Deus toda pura [...] Como o Salvador do mundo tinha decretado salvar o gênero humano, nasceu da Imaculada Virgem Maria."

Só queremos lembrar ao leitor que Constantino, a quem falsamente os protestantes atribuem o nascimento da Igreja Católica, é do séc. IV. Portanto, estamos aqui antes de quaisquer supostas corrupções do império romano, e em plena fase da perseguição aos cristãos. Tenha isso em mente. Mais algumas de Santo Hipólito:

"Deus, o Verbo descendeu à Santa Virgem Maria ..."

"Ele (Jesus) era a arca composta por madeira incorruptível. Com efeito, o seu tabernáculo (Maria) era isento da podridão e corrupção."

“… corpo de Maria toda santa, sempre Virgem, por uma concepção imaculada, sem conversão, e se fez homem na natureza, mas em separado da maldade: o mesmo era Deus perfeito, e o mesmo era o homem perfeito, o mesmo foi na natureza em Deus, uma vez perfeito e homem.”


Orígenes, Séc. II e III:

"Desposada com José, mas não carnalmente unida. A Mãe deste foi Mãe imaculada, Mãe incorrupta, Mãe intacta. A Mãe deste, de qual este? A Mãe do Senhor, Unigênito de Deus, do Rei universal, do Salvador e Redentor de todos." 

"Esta Virgem Mãe do Unigênito de Deus chama-se Maria, digna de Deus, imaculada das imaculadas, sem par."

“Este menino não precisa de Pai na terra, porque tem um pai incorruptível no céu; não precisa de Mãe no Céu, porque tem uma Mãe Imaculada e casta na terra, a Virgem Bem-aventurada, Maria".

"Maria é Mãe de Deus, unigênito do Rei e criador de tudo o que existe."

Os protestantes gostam de dizer, de novo equivocadamente, que o título de Mãe de Deus foi inventado e dado a Maria só no Séc. V, no Concílio de Éfeso. No entanto, vemo-la ser chamada deste modo já no Séc. II!



Santo Atanásio, Séc. IV:

"Maria é Mãe de Deus, completamente intacta e impoluta."

“As Sagradas Escrituras, as quais nos instruem, e a vida de Maria, Mãe de Deus, são suficientes como um ideal de perfeição e da forma de vida celeste.”


Santo Efrém, Séc. IV:

"Somente Vós (Cristo) e vossa Mãe sois mais belos do que qualquer outro ser. Em ti, Senhor, não há mancha alguma; na tua Mãe nada de feio existe."

"A Santíssima Senhora, Mãe de Deus, a única pura na alma e no corpo, a única que ultrapassa toda perfeição de pureza, a única morada de todas as graças do Santíssimo Espírito, e, portanto, excedendo qualquer comparação até mesmo com as virtudes angelicais em pureza e santidade de corpo e alma ... minha Senhora santíssima, puríssima, incorruptível, inviolada, prenda imaculada dAquele que se revestiu com luz e prenda ...flor que não murcha, púrpura tecida por Deus, a única imaculada."

“Maria e Eva, duas pessoas sem culpabilidade, duas pessoas simples, são idênticas. Mais tarde, entretanto, uma se converteu na causa de nossa morte e a outra na causa de nossa vida.

"Que a mulher entoe louvor à pura Maria."


Santo Ambrósio de Milão, Séc. IV:

"Maria, uma virgem não profanada, Virgem tornada inviolável pela graça, livre de toda mancha do pecado."


São Teodoro de Ancira, Séc. IV:

"Maria, na sua pureza, leva vantagem sobre os serafins e querubins".

“Em lugar de Eva, um instrumento de morte, é escolhida uma Virgem, mais agradável a Deus e cheia da graça divina, como um instrumento de vida. Uma Virgem incluída no gênero feminino, mas sem compartilhar com a falta deste gênero. Uma Virgem inocente, imaculada; livre de toda culpa; sem mancha; incorruptível; santa no espírito e na carne, um lírio entre os espinhos.


São Jerônimo, Séc. IV e V, grande erudito e tradutor da bíblia hebraica e grega para o latim. Um sumo especialista em Sagrada Escritura:

"Maria é verdadeiramente Mãe de Deus."


São João Crisóstomo, Sèc. IV e V:

"É verdadeiramente justo proclamar-vos bem-aventurada, ó Deípara, que sois felicíssima, toda pura e Mãe do nosso Deus. Nós vos magnificamos: a vós, que sois mais digna de honra do que os querubins e incomparavelmente mais gloriosa do que os serafins! A vós que, sem perder a vossa virgindade, destes ao mundo o Verbo de Deus! A vós, que sois verdadeiramente a Mãe de Deus.


Sto Agostinho, Séc. IV e V:

"Concebeu-O [a Jesus] sem concupiscência, uma Virgem; como Virgem deu-lhe à luz, Virgem permaneceu."

''Entre todas as mulheres, Maria é a única a ser ao mesmo tempo Virgem e Mãe, não somente segundo o espírito, mas também pelo corpo. Ela é mãe conforme o espírito, não dAquele que é nossa Cabeça, isto é, do Salvador do qual ela nasceu, espiritualmente. Pois todos os que nele creram – e nesse número ela mesma se encontra – são chamados, com razão, filhos do Esposo (filii sponsi) (Mt 9,15). Mas, certamente, ela é mãe de seus membros, segundo o espírito, pois cooperou com sua caridade para que nascessem os fiéis na Igrejaos membros daquela divina Cabeça – da qual ela mesma é, corporalmente, a verdadeira mãe. Convinha, pois, que nossa Cabeça, por insigne milagre, nascesse segundo a carne de uma virgem, dando a entender que seus membros, que somos nós, haviam de nascer segundo o Espírito dessa outra virgem que é a Igreja. Somente Maria, portanto, é mãe e virgem, no espírito e no corpo. É Mãe de Cristo e também Virgem de Cristo.''

"Maria é Mãe de Deus, feita pela mão de Deus."

"Nem se deve tocar na palavra 'pecado' em se tratando de Maria; e isto em respeito Àquele de quem mereceu ser a Mãe, que a preservou de todo pecado por sua graça."

"Exceto a Santa Virgem Maria, da qual não quero, por honra do que é devido ao Senhor, suscitar qualquer questão ao se tratar de pecados, pois sabemos que lhe foi concedida a graça para vencer por todos os flancos o pecado, porque mereceu ela conceber e dar à luz a quem não teve pecado algum. Exceto, digo a esta Virgem, se tivéssemos podido congregar todos os santos e santas que aqui viviam e perguntássemos se jamais tinham pecado, o que teriam respondido? (...) Não é verdade que teriam unanimemente exclamado: 'Se dissermos que não pecamos, enganamo-nos, e a verdade não está em nós'?"

“A admirável santidade de Maria é fruto da graça de Deus que a cumulou, em vista de sua missão. A Virgem Maria representa o que de mais digno, puro e inocente poderia oferecer esta nossa terra a Deus, a fim de que o Filho de Deus se dignasse baixar até ela.”

"A Santíssima Virgem é o meio de que Nosso Senhor se serviu para vir a nós; e é o meio de que nos devemos servir para ir a ele."


Sto Epifânio, Séc V:

"Numa consideração exterior e aparente, dir-se-ia que de Eva derivou a vida de todo o gênero humano, sobre a terra. Mas na verdade é de Maria que deriva a verdadeira vida para o mundo, é ela que dá à luz o Vivente, ela a Mãe dos viventes. Portanto, o título de “mãe dos viventes” queria indicar, na sombra e na figura, Maria.”


Proclo, Patriarca de Constantinopla, Séc. V:

"Ele veio sem nenhuma mancha dela [de Maria], que a formou para Si mesmo sem qualquer mancha."

"Maria é a esfera celeste de uma nova criação, na qual o Sol de justiça, sempre brilhando, fez desaparecer inteiramente de sua alma toda a noite do pecado.”


Há uma antiga liturgia no Egito, que remonta ao Século I, e é atribuída ao Apóstolo São Marcos, e que diz o seguinte:

“Lembremo-nos, sobretudo, da Santíssima, intemerata e bendita Senhora Nossa, a Mãe de Deus e sempre Virgem Maria".

Na Liturgia dos Etíopes, encontramos uma oração de autor desconhecido, mas também do Séc. I, e que diz:

"Alegrai-vos, Rainha, verdadeiramente Imaculada, alegrai-vos, glória de nossos pais.'' ePelas preces e a intercessão que faz em nosso favor Nossa Senhora, a Santa e Imaculada Virgem Maria."

A mais antiga oração mariana - que não seja meramente louvor -, porém, que chegou até nós em fonte primária remonta ao Séc III, e nela se lê


"À vossa proteção recorremos, Santa Mãe de Deus. Não desprezeis as nossas súplicas em nossas necessidades, mas livrai-nos sempre de todos os perigos, oh Virgem gloriosa e bendita." 

Ela é conhecida como "Sub Tuum Praesidium" ("À vossa proteção" em latim)

E é também do início do Séc. III, em plena perseguição da Igreja, a mais antiga representação artística da Virgem, pintada pelos cristãos que se escondiam nas Catacumbas de Priscila, em Roma.




Nós poderíamos continuar indefinidamente as citações. Isto tudo, além de demonstrar que todos os cristãos tinham o mesmo pensamento quanto à Santíssima Virgem, prova também que a Igreja nunca mudou.

Passemos agora ao modo como a viam os reformadores protestantes.

A visão dos reformadores


Martinho Lutero

Ó bem-aventurada mãe, virgem digníssima, recorda-te de nós que também em nós o senhor faça essas grandes coisas”. (Comentário sobre o Magnificat)

“Não se deve adorar somente a Cristo? Mas não se deve honrar também a santa mãe de Deus? Esta é a mulher que esmagou a cabeça da serpente. Ouve-nos, pois o Filho te honra; Ele nada te nega.” (Sermão em 17/01/1546)

“O Filho de Deus faz-se homem, de modo a ser concebido do Espírito Santo sem o concurso de varão e a nascer de Maria pura, santa e sempre virgem”. (Doutrina Cristã, 1537)

Não há honra, nem beatitude, que sequer se aproxime por sua elevação da incomparável prerrogativa superior a todas as outras, de ser a única pessoa humana que teve um filho em comum com o Pai Celeste”.

"A veneração de Maria está inscrita no mais profundo do coração humano." (Homilia, 1 de setembro de 1522).

"[Ela é] mulher mais alta e mais nobre jóia no cristianismo depois de Cristo. . . Ela é a nobreza, a sabedoria e a santidade personificadas. Nós não poderemos jamais honrá-la o suficiente. Contudo, a honra e o louvor deve ser dado a ela de tal modo a ferir nem Cristo, nem as Escrituras." (Sermão, Natal, 1531).

"Nenhuma mulher é como você. Você é mais que Eva ou Sara, abençoada acima de toda a nobreza, sabedoria e santidade." (Sermão, Festa da Visitação, 1537).

"É a consolação e a bondade superabundante de Deus, que o homem é capaz de exultar com tal tesouro. Maria é sua verdadeira mãe." (Sermão, Natal, 1522)

"Maria é a Mãe de Jesus e Mãe de todos nós, embora fosse só Cristo quem repousou sobre os joelhos. . . Se ele é nossa, deveríamos estar na situação dele, lá onde ele está, nós também devemos estar e tudo que ele tem deveria ser nosso, e sua mãe também é nossa mãe." (Sermão, Natal, 1529).

"É uma opinião doce e piedosa que a infusão da alma de Maria foi feita sem o pecado original, de modo que, ao infundir a sua alma, ela também foi purificada do pecado original e adornada com os dons de Deus, recebendo uma alma pura, infusa por Deus; assim desde o primeiro momento que ela começou a viver ela esteve livre de todo pecado." (Sermão: "No Dia da Concepção da Mãe de Deus", 1527).

Ela é cheia de graça, proclamada para ser inteiramente sem pecado, algo tremendamente grande. Por graça de Deus enche-la com tudo de bom e faz dela desprovido de todos os males. (Personal {“Little”} Prayer Book, 1522).


Zwínglio


“Firmemente creio, segundo as palavras do Evangelho, que Maria, como virgem pura, nos gerou o Filho de Deus e que no parto e após o parto permaneceu para sempre virgem pura e íntegra” (Corpus Reformatorum: Zwingli Opera 1 424)

"Estimo grandemente a Mãe de Deus, a Virgem Maria perpetuamente casta e imaculada” (ZO 2,189).

“Quanto mais crescem a honra e o amor de Cristo entre os homens, tanto mais crescem também a estima e a honra de Maria, que gerou para nós um tão grande e propício Senhor e Redentor."

Zwinglio inclusive recitava a Ave-Maria durante o seu culto.


Amman, discípulo de Zwínglio


“Maria foi preservada de toda mancha e culpa do pecado original, do pecado mortal e do pecado atual”.

"Eu nunca pensei, e ainda menos tenho ensinado, ou declarado publicamente, qualquer coisa a respeito do assunto da sempre Virgem Maria, Mãe da nossa salvação, que poderia ser considerado desonroso, ímpio, indigno ou mal. . . Eu acredito com todo meu coração, segundo a palavra do Santo Evangelho que esta virgem pura suportou por nós o Filho de Deus e que ela permaneceu, no parto e depois dele, uma virgem pura e imaculada, para a eternidade." (Thurian, ibid., P.76 sermão / mesmo)


Calvino


“Não podemos reconhecer as bênçãos que nos trouxe Jesus, sem reconhecer ao mesmo tempo quão imensamente Deus honrou e enriqueceu Maria, ao escolhê-la para ser Mãe de Deus”.

Vê-se, assim, que mesmo os reformadores protestantes jamais duvidaram do papel singularíssimo da Virgem Maria, não hesitando em reconhecê-la sob os títulos de Mãe de Deus e Mãe dos Cristãos, e defendendo inclusive a sua imaculada conceição.

Seguimos agora para uma questão famosa e que é comum objeção na mente dos protestantes.

Por que a Bíblia fala tão pouco de Maria, se ela é tão importante?


Comecemos dizendo que, como vimos, não é tão pouco, não. Vários foram os que defenderam que a Virgem está na verdade em toda a Bíblia, só que de modo velado, não explícito, como inclusive parece ter sido o seu traço vocacional. Como falou Sto Inácio de Antioquia, a nobreza da Virgem se deu em segredo, seja do mundo, seja do demônio, seja dela mesma. Santo Afonso chega a dizer que a dignidade da Virgem foi escondida até de si mesma. Não apenas ela, mas também a identidade do Cristo. Isto explica a tentação. Sendo Deus, Jesus não poderia pecar. No entanto, foi tentado pelo demônio. A explicação mais coerente é a que afirma a ignorância de Satanás a respeito da identidade divina de Jesus.

No entanto, dizem os santos, assim como a vocação da Virgem, no início da Redenção, foi dada no silêncio - ela guardava tudo no seu coração -, bem como a divindade de Jesus foi ocultada aos homens, no fim dos tempos um e outro aparecerão de modo ostensivo. A segunda vinda de Jesus será absolutamente gloriosa e Ele mostrará de fato Quem é. Do mesmo modo, o papel da Virgem no fim dos tempos será totalmente explícito, e este papel inclui os preparativos para a Parusia. Mas voltemos à Bíblia.

É fato que nós não encontramos nenhuma afirmação explícita sobre Maria nas cartas de Paulo, nem nas de Pedro, nem nas de João, nem na de Tiago, nem na de Judas. A que isto se deve?

A Igreja ensina que a Bíblia está voltada, de modo primeiro e quase único, para uma só figura: a central, que é Jesus. Tanto o Antigo Testamento quando o Novo têm n'Ele o seu eixo, e somente d'Ele falam de maneira privilegiada. E mesmo no que se refere a Ele, somente é relatado aquilo que é essencial para a compreensão do Mistério necessário à salvação. Este conteúdo revelado inclui o explícito e o implícito. Lembramos, além disso, que nunca foi intenção de nenhum dos apóstolos que a Bíblia fornecesse um conjunto completo dos conteúdos da Fé. A Sola Scriptura só vai ser concebida, com todas as suas contradições inerentes das quais, porém, os seus promotores pareciam inconscientes, no séc. XVI. Esta inconsciência da contradição é bem a característica da Idade Moderna, que tem ali o seu início.

Para se ter uma idéia de como a Bíblia restringe as coisas ao seu mais essencial - que, no entanto, só pode ser compreendido na sua ambiência extra-escriturística -, notemos que, por menor que fosse a importância de José - e ele era importantíssimo: a Virgem e o menino Jesus lhe foram confiados! -, a Bíblia não relata dele uma fala sequer. Isto, contudo, não legitima dizer-lhe inútil ou vulgar. Então chegamos a uma conclusão inicial: a quantidade de menções bíblicas a alguém não é um critério para a valoração espiritual dessa pessoa.

Mas há outras teorias que, longe de serem mutuamente excludentes, atuam complementando umas as outras. Numa delas, se relembra que nos primeiros séculos a Igreja sofria intensa perseguição. Numerosos são os mártires que dão a vida pelo Evangelho. Assim, era papel dos Apóstolos guardar e proteger Maria. Assim como toda Rainha tem os seus escudeiros, João foi eleito, pelo próprio Cristo, o pajem da Virgem. Se a Arca do Antigo Testamento deveria ser protegida, quanto mais a do Novo! Assim, era de prudência que os Apóstolos se referissem pouco a ela, ao menos nos registros escritos.

Uma outra teoria ressalta as crenças politeístas das quais os neófitos cristãos eram antigos adeptos. Assim, havia o risco de, habituados à idéia de vários deuses, os recém convertidos confundissem Maria com uma de suas deusas. Com efeito, vemos um relato de um suposto convertido por São Paulo quando da sua pregação no Areópago, na Grécia, Dionísio Areopagita. (Cf At 17,34) Diz ele, lá pelo ano 96 d.C.:



“Confesso na verdade, que não pensava que fora de Deus fosse possível beleza tão sublime e celestial, como a que contemplei. Vi a Maria Santíssima! Pude ver e rever com meus próprios olhos a Mãe de Jesus Cristo! Confesso mais uma vez que, quando João me levou à presença deífica da Virgem altíssima, fiquei deslumbrado por um esplendor tão grande, que me desfaleceu o coração e faltou a respiração, oprimido como estava pela glória de tamanha majestade (...) Eu a teria adorado como deusa, se a fé não dissesse que ela era também criatura!”

Se o relato é verídico - e de fato o escrito o é - não espanta a prudência dos apóstolos em apresentar Maria aos novos cristãos.

Além disso, nos chegaram também relatos dos próprios escritores bíblicos, como Tiago, que já citamos, e inclusive dos próprios evangelistas Marcos e João, que trazem informações sobre a natureza inequívoca de Maria.

Nas Liturgias do Egito, há a oração atribuída a São Marcos, que repetimos mais uma vez:

“Lembremo-nos, sobretudo, da Santíssima, intemerata e bendita Senhora Nossa, a Mãe de Deus e sempre Virgem Maria.“

Já o Apóstolo André teria dito:

“Maria é Mãe de Deus, resplandecente de tanta pureza, e radiante de tanta beleza, que, abaixo de Deus, é impossível imaginar maior, na terra ou no céu”. (Sto Andreas Apost. in trasitu B. V., apud Amad.) 

“Tendo sido o primeiro homem formado de uma terra imaculada, era necessário que o homem perfeito nascesse de uma Virgem igualmente imaculada, para que o Filho de Deus, que antes formara o homem, reparasse a vida eterna que os homens tinham perdido” (Santo André, Cartas dos Padres de Acaia).

E, por fim, São João:

Maria, é verdadeiramente Mãe de Deus, pois concebeu e gerou um verdadeiro Deus, deu a luz, não um simples homem como as outras mães, mas Deus unido a carne humana.” (S. João Apost. Ibid)

Se tal é o caso, há que se perguntar por que, então, estes escritos não entraram no Cânon. Como é arquiconhecido, foi a Igreja Católica que estabeleceu a lista dos livros sagrados do Novo Testamento. Se ela quisesse, então, impor ou inventar um culto à Virgem que não procedia dos Evangelhos, obviamente que ela teria incluído tais escritos. Se ela não os pôs, foi porque considerou que eles trazem informações que, embora importantes, não cumprem a função primordial dos Evangelhos e dos conteúdos mais centrais da Revelação. O fato de não estarem na bíblia é prova inclusive da honestidade da Igreja. Por outro lado, se considerou não ser necessário colocá-los lá é porque o culto à Mãe de Deus era algo plenamente consensual entre os cristãos, e não havia quem o contestasse dada a sua obviedade. Como vimos, sequer os reformadores do século XVI, inclusive usando o equivocado princípio da Sola Scriptura, negavam o papel singularíssimo da Virgem Maria no Plano da Salvação.


Por fim, o Cardeal Newman, sobre o tema que agora nos ocupa, escreveu:

"Às vezes, nos perguntam porque os escritores sagrados não mencionaram a grandeza de Nossa Senhora. Eu respondo: ela estava ou poderia ainda estar viva, quando os Apóstolos e Evangelistas escreveram sobre ela. Havia um único livro da Escritura que, com certeza, foi escrito depois de sua morte e este livro (o Apocalipse) o fez, por assim dizer, canonizando-a e coroando-a." (Apud HAHN, p. 57)

Milagres Evidentes e Incontestáveis para a Ciência

Um milagre é sempre uma intervenção divina direta e evidente na qual o sobrenatural transparece de modo claro em eventos que fogem às leis naturais. Sabendo que a natureza possui suas leis, é possível concluir que, quando estas leis são negadas num caso em particular, é necessário que se conceba a existência de um agente externo. É uma necessidade.

Os agentes externos à natureza reconhecidos pela perspectiva cristã são de três tipos: anjos, demônios e Deus.

Anjos e demônios possuem a mesma constituição, embora ocupem graus hierárquicos variados. A estes seres, algumas coisas são possíveis e outras, impossíveis. Do ponto de vista das intervenções, podemos dividi-las em três tipos: sinais, prodígios e milagres.

Sinais - do grego semeion - são eventos sensíveis - captados pelos sentidos -, sobrenaturais ou não, e que demandam uma interpretação. Os sinais servem para apontar para outra realidade além da imediata. Eram usados pelos profetas ou por Jesus como meios de suscitar a Fé. O Apóstolo João, por exemplo, atribui aos milagres de Jesus o nome de sinais, pois serviam para identificá-Lo como o Messias. "E os seus discípulos creram n'Ele". (Jo 2,11) Os sinais podem ser causados por entes naturais.

Prodígios - do grego Teras - são manifestações extraordinárias da natureza e que fogem à ordem comum das coisas. Servem para tornar evidente a fragilidade dos discursos naturalistas. Demandam um agente sobrenatural. Os prodígios e os sinais juntos aparecem frequentemente na Escritura (Ex 7,3; Dt 6,22; At 4, 29-31; At 7,35-36)

Milagres - do grego Dynamis, Força, Poder - são manifestações do poder de Deus que realiza feitos impossíveis ao engenho humano e às possibilidades naturais. Transcendem o campo dos prodígios, mais relacionados aos fenômenos da natureza. Em alguns trechos, os três são citados juntos. (At 2,22; 2Col 2,12; Hb 2,3-4; 2Ts 9,12) Um milagre pode ser um sinal, quando tem por objetivo suscitar a Fé, mas pode ser meramente um milagre, quando a Fé já é pressuposta.

A questão que se coloca é: quais são os limites do poder demoníaco? Seriam os entes caídos capazes de operar sinais, prodígios e milagres?

Antes de explicar, convém afirmar já que não é razoável que as suas possibilidades de ação sejam similares às divinas, pois, se fosse o caso, não seria possível distinguir a verdade do erro, e não teriam pecado os fariseus quando atribuíram a Nosso Senhor o agir por meio de Belzebu. Se, ao contrário, Jesus os recrimina duramente, e chega a dizer que as obras que Ele fazia eram testemunhas de que o Pai O havia enviado (Jo 5,36; cf. Mc 16,20) é porque deve haver critérios para o reto discernimento. Assim, os demônios, não obstante possam agir de certos modos, estão limitados e não podem reproduzir realmente certos comportamentos divinos. Isso não os impede, porém, de serem muito convincentes no que armam. Vejamos o que diz sobre isso São Paulo:

"A manifestação do ímpio será acompanhada, graças ao poder de Satanás, de toda a sorte de portentos, sinais e prodígios enganadores." (2Ts 9-12)

Os prodígios que o ímpio aqui realiza são enganadores. Isto é, não são verdadeiros. Não obstante, para os que se convencem fácil e não amam a verdade, será suficiente para seduzi-los. É o que dizem os versículos seguintes. Sobre as possibilidades dos demônios, escreve Sto Tomás de Aquino:

"(...) milagres, em sentido próprio, não nos podem fazer os demônios nem nenhuma criatura, mas só Deus; porque o milagre propriamente dito vai contra a ordem de toda a natureza, cuja ordem compreende todas as virtudes criadas. Porém, chama-se milagre, em sentido lato, ao que excede à faculdade e à razão humanas. E assim os demônios podem fazer milagres, que enchem os homens de estupefação, porque excedem à faculdade e ao conhecimento destes. Pois também qualquer homem, quando faz algo que excede a faculdade e o conhecimento de outro, provoca o espanto deste, com a sua obra, de modo que parece, de certo modo, fazer milagre."

Mas, continua o santo,

"devemos saber que, embora essas obras dos demônios, que nos parecem milagres, não realizem a verdadeira essência destes, con­tudo eles fazem às vezes coisas verdadeiras. Assim os mágicos do Faraó, por virtude dos demônios fizeram serpentes e rãs verdadeiras. E, como diz Agostinho, quando caiu o fogo do céu e de um ímpeto consumiu a família de jó, com seus rebanhos; e um turbilhão destruiu­-lhe a casa e lhe matou os filhos, essas foram obras de Satanás e não fantasmagorias."

E explica:

"Como já se disse antes, a matéria corpórea não obedece à von­tade dos anjos bons ou maus, de modo que os demônios possam pela sua virtude transmutar a matéria de uma forma para outra. Mas po­dem aplicar certos germes existentes nos ele­mentos do mundo, para realizar tais efeitos, como diz Agostinho. Por onde deve-se dizer, que todas as transmutações das coisas corpó­reas, que podem ser feitas por algumas virtudes naturais, entre as quais estão os referidos ger­mes, podem ser feitas por operação dos demônios, com aplicação desses germes; assim quan­do certas coisas são transmutadas em serpen­tes ou rãs, seres que podem ser gerados por putrefação. Porém as transmutações das coisas corpóreas, que não podem ser feitas por vir­tude da natureza, de nenhum modo podem ser realizadas por operação dos demônios, na ver­dade da expressão. E se às vezes algo de tal parece ser feito, por operação dos demônios, isso não se dá real, mas só aparentemente, o que pode acontecer de duplo modo. De um, inte­riormente; assim o demônio pode mudar a fan­tasia do homem e mesmo os sentidos corpóreos, de maneira que uma coisa pareça diversa do que é, como já se disse. E isto também se pode considerar como feito às vezes por virtude de certos agentes corpóreos. De outro modo, ex­teriormente. Pois assim como o demônio pode formar, do ar, um corpo de qualquer forma ou figura, de modo que, assumindo-o, apareça vi­sivelmente, pela mesma razão pode revestir qualquer coisa de uma forma corpórea, de modo que seja visto, na figura desta. E é o que diz Santo Agostinho: a fantasia do ho­mem, mesmo quando este pensa ou sonha, va­ria conforme os inumeráveis gênios das causas e, como corporificada na imagem de algum ani­mal, aparece aos outros sentidos entorpecidos. O que significa, não que a virtude fantástica do homem, ou uma espécie da mesma, corpori­ficada e com ela numericamente idêntica, seja manifestada aos sentidos de outrem, mas que o demônio, que forma uma certa espécie, na fan­tasia de um homem, também pode apresentar outra espécie semelhante aos sentidos de outro homem."

(Suma Teológica, Art. 4.)

O que Sto Tomás está dizendo são duas coisas:

A primeira, é que os sentidos humanos podem ser manipulados pelos demônios de modo que vejamos e/ou imaginemos coisas e figuras projetados por ele.

A segunda, é que os fenômenos podem ser verdadeiros, mas produzidos de modo natural, ainda que por meios que nos escapam. Como eles têm capacidade de agir na matéria e inclusive, em virtude da agudeza de sua inteligência, fazer previsões a médio e longo prazo e lidar com um encadeamento de causas que escapa em muito o horizonte de atenção humana, então é possível produzir, por via material, certos fenômenos que se julgava impossíveis, ou prever coisas que ocorrerão no futuro pela própria ordem atual dos entes.

A estes dois tipos de ação, porém, falta o essencial para que se trate de um milagre, que é a intervenção direta e extraordinária sobre os entes físicos fazendo-os agir de um modo alheio à sua própria constituição.

Neste outro trecho, Sto Tomás é ainda mais claro:

"Entre os milagres, há os que não são verdadeiros, mas fatos imaginários, que enganam o homem, fazendo-o ver o que não existe. Outros, são fatos reais, embora não mereçam verdadeiramente o nome de milagres, pois são produzidos por certas causas naturais. Ora, essas duas categorias de milagres podem ser feitas pelos demônios. Os verdadeiros milagres não podem ser realizados senão pelo poder divino, pois Deus os produz para a utilidade do homem." (ST II-II, 178, 2)

Vejamos, então, alguns milagres atribuídos à Virgem Maria. Há, em verdade, uma infinidade deles. Mas nos dedicaremos aqui a apenas três.


1º Corpos Incorruptos

Corpos incorruptos são aqueles que não se decompõem depois da morte. A Igreja os possui em mais de dois mil. Na verdade, eles não permaneceram assim porque alguém pediu que a Virgem o fizesse. Nem sequer faz sentido que alguém peça que um dado corpo não se decomponha. Assim, não é possível atestar que tenha sido a Virgem Maria a operadora do milagre. No entanto, o que se comprova é que muitos dos corpos incorruptos pertenceram a pessoas profundamente devotas a ela, e inclusive que se lhe consagraram na qualidade de escravos - uma devoção bem conhecida e promovida por São Luís Maria Grignion de Montfort. Alguns desses corpos, além disso, exalam um perfume desconhecido e que não cessa.

Vejamos as possibilidades de que haja engano:

A primeira delas é que seja um fenômeno natural. De fato, há modos naturais de preservar um corpo da decomposição. Algumas dessas técnicas foram usadas no Egito. Dentre elas, temos a plastinação, a mumificação, o adipocere, etc.

Alguns dos casos católicos são falsos, como Sta Margarida de Cortona ou João XXIII. Ambos foram submetidos a processos químicos post mortem. Em outros, afirma-se que o processo se deveu às condições favoráveis do túmulo. Tal foi o caso, por exemplo, do famosíssimo Pe. Pio, que já apresentava alguns sinais de deterioração e ao qual puseram uma máscara de silicone e também o submeteram a operações químicas. Convém, no entanto, dizer que a exumação ocorreu quarenta anos depois da sua morte, e o que chamou a atenção aos médicos foi o fato de o corpo não apresentar nenhum sinal de mau cheiro.

No entanto, vários são os casos autênticos que foram avaliados e se constatou a ausência de manipulações químicas e de qualquer indício de decomposição. Em alguns santos, esse fenômeno ocorre de modo temporário, como foi o caso de São Charbel Makhlouf, que, mesmo depois de vários dias morto, como os habitantes vizinhos ficavam vendo luzes próximas ao seu túmulo, ao ser exumado, constatou-se que não apenas estava incorrupto, como ficava continuamente suando, motivo pelo qual não sabiam se o deixavam vestido ou nu. Com o tempo, porém, seu corpo se decompôs.

Com o corpo de São Francisco Xavier também ocorreu algo semelhante. Enterrado em 1552. Para que seu corpo se desfizesse logo, puseram-lhe cal por baixo e por cima dele, que é uma substância altamente corrosiva. No entanto, meses depois, quando exumado, estava em perfeito estado. E assim ficou, flexível e com cor natural, por 60 anos. Em 1614, porém, alguém teve a idéia de jerico de distribuir-lhe as partes do corpo para veneração em diferentes igrejas. Amputando-lhe o braço, o corpo sofreu uma hemorragia e passou a ressecar. Depois chegaram até a extrair-lhe órgãos internos, ao que ele foi "murchando". Mas até hoje, embora modificado, ainda é exposto para veneração. 

Em vários outros, porém, o estado de incorruptibilidade segue de vento em popa. É o caso - talvez o mais famoso - de Sta Bernadette Soubirous. Vidente de Nossa Senhora em Lourdes, ela foi miraculosamente preservada. Em 1909, ela morreu. Trinta anos depois, na sua exumação, constatada por dois médicos - os Drs Ch. David e A. Jordan -, verificaram que o corpo estava absolutamente intacto, sem nenhum odor, apresentando apenas rigidez, o que é típico dos defuntos. Dez anos depois, numa segunda exumação, novamente intacto. A pedido do bispo, foram-lhe retiradas duas costelas e um pedaço do diafragma, como relíquias. Em 1923 houve uma terceira exumação, com mais retiradas de relíquias. O figado da santa estava em perfeito estado. Ao lado do corpo da santa, se encontra uma placa com os seguintes dizeres:

"O corpo de Santa Bernadette repousa nesta capela desde 3 de agosto de 1925. Ele está intacto e 'como se estivesse petrificado' segundo foi reconhecido pelos médicos juramentados e pelas autoridades civis e religiosas por ocasião das exumações de 1909, 1919 e 1925.
O rosto e as mãos, que escureceram no contato com o ar, foram recobertos com ligeiras camadas de cera, moldadas segundo os modelos recolhidos diretamente. 
A posição inclinada para o lado esquerdo foi assumida pelo corpo no túmulo."

Se o leitor quiser mais detalhes deste caso, veja aqui.

Uma outra santa, ainda, está incorrupta e sentada: Sta Catarina de Bolonha. De dois em dois anos é feita uma radiografia na sua coluna pra ver se ela cede, e sempre se constata que ela se mantém firme. Nascida em 8 de setembro de 1413, Bolonha, Itália, faleceu em 1463. Era mística, profetiza, visionária, fazia grandes milagres e decifrava manuscritos. Era também pintora e, tendo recebido a visitação da Virgem com o menino Jesus num dia de Natal, pintou um quadro retratando o ocorrido. Depois de sua morte, milagres ocorriam ao redor da sua tumba. Ela havia sido enterrada sem caixão. Com dezoito dias, devido aos fenômenos, foi exumada. Tão logo desenterraram-na, um misterioso perfume exalava do seu corpo. Em seguida, foi posta numa cadeira. O Dr. Maestro Marcanova, ao analisar o caso, não soube explicá-lo. Até hoje ela está nesta cadeira e é submetida a uma avaliação de dois em dois anos.

Há inúmeros casos, mas como este texto não trata disto especificamente, ficamos com estes dois. Aqui a causa sobrenatural é evidente, visto que não há procedimentos de embalsamento nem manipulações químicas. A devoção dessas santas à Virgem Maria é inegável, sendo a primeira sua vidente em Lourdes. Se não são naturais, são provocadas por entes sobrenaturais.

Deus ou os demônios?

Vimos que os demônios não podem manipular a matéria como queiram. O que eles podem é influenciá-la dentro das suas leis naturais. Ora, é intrínseco aos corpos compostos que se decomponham quando lhes cessa a vida. O perfume que exalam também é totalmente desconhecido, não possuindo sua origem em nenhum responsável físico. Temos, assim, um fenômeno que transcende as possibilidades demoníacas.

Outra forma de atuação dos demônios é a ludibriação sensitiva, isto é, a distorção das informações captadas pelos sentidos e recebidas na imaginação. Isto, porém, é um fenômeno produzido num ou noutro, mas nunca em todas as pessoas nem por tempo indeterminado. Assim, o que vemos não é uma mera aparência, mas um acontecimento real e essencialmente sobrenatural.

Assim, resta-nos somente uma possibilidade: a divina. É Deus quem realiza os fenômenos descritos, e se o faz, isto testemunha da santidade dessas pessoas. E como eram profundamente devotas da Virgem Maria, fica provada a eficacíssima influência da Virgem nos diletos de Deus.


A Virgem de Guadalupe

Este é um fenômeno mais estritamente mariano. Guadalupe é uma cidade no México. Em 9 de Dezembro, o índio Juan Diego andava pelo monte Tepeyac. Apareceu-lhe então a Virgem Maria e lhe perguntou nos seguintes termos:

“Meu filho, a quem amo ternamente, como a um filho pequenino e delicado, aonde vais?”

‒ “Vou, nobre Senhora minha, à cidade, ao bairro de Tlaltelolco, ouvir a santa missa que nos celebra o ministro de Deus e súdito seu”, respondeu ele.

A Virgem continuou:

‒ “Fica sabendo, filho muito querido, que eu sou a sempre Virgem Maria, Mãe do verdadeiro Deus, e é meu desejo que me erijam um templo neste lugar, de onde, como Mãe piedosa tua e de teus semelhantes, mostrarei minha clemência amorosa e a compaixão que tenho dos naturais e daqueles que me amam e procuram; ouvirei seus rogos e súplicas, para dar-lhes consolo e alívio; e, para que se realize a minha vontade, hás de ir à cidade do México, dirigindo-te ao palácio do bispo que ali reside, ao qual dirás que eu te envio e que é vontade minha que me edifique um templo neste lugar; referirás quanto viste e ouviste; eu te agradecerei o que por mim fizeres a este respeito, te darei prestígio e te exaltarei”

Juan, naturalmente reticente, foi. Lá chegando, foi obviamente desacreditado. Voltando ao monte, ele pediu à Virgem, que novamente lhe apareceu, que ela procurasse alguém mais importante e nobre que ele, "em quem se possa acreditar". Ela então o pede para ir buscar algumas rosas num lugar ali perto, sendo que naquela época não era possível colhê-las. Ele, porém, as encontra e as põe num manto (tilma) que os índios costumavam usar sobre a roupa e com o qual se cobriam quando dormiam ao relento. Em seguida, a Virgem lhe pediu pra voltar ao bispo e mostrá-las a ele. Depois das novas hesitações, o bispo aceitou recebê-lo. Juan Diego então soltou o manto deixando as rosas caírem no chão. Neste momento, viu-se impressa no manto grosseiro a imagem da Virgem Maria. Embora tudo isso já fosse extraordinário, o que tira o fôlego começa agora, com a análise da imagem.

Vamos apenas as características principais.

1- A "tinta" da imagem não é de natureza animal, nem vegetal, nem mineral;

Só isso já foge da alçada do demônio que não pode criar nenhuma substância. Ao leitor, lembramos que tudo quanto há nesse mundo é sempre de natureza ou vegetal, ou animal, ou mineral. Observe então os seguintes pontos:

2- A "tinta" está como suspensa sobre o tecido (3 décimos de milímetro) de modo que não o toca estritamente;

3- O tecido foi elevado a uma resistência muito acima do que lhe era possível. Pano grosseiro, no qual os índios mexicanos se enrolavam na hora de dormir, tendia a resistir de 10 a 15 anos. E, no entanto, lá se vão cinco séculos - desde a aparição em 1531 - em que a capa está preservada;

4- As flores no manto da Virgem ocupam precisamente os lugares correspondentes às montanhas no México;

5- As constelações impressas no seu manto expressam com rigor a disposição dos astros no momento da aparição, além do que trazem um forte elemento simbólico: na cabeça, há a constelação da coroa boreal; no seio, a de virgem, etc.;

6- Os olhos da Virgem, se maximizados, revelam as figuras que ela via no momento em que o senhor bispo ajoelhou-se diante de Juan Diego. Seria impossível reproduzir isso por qualquer técnica artística;

7- Os olhos da Virgem reagem a luz, dilatando a pupila quando um facho se lhes aproxima;

8- O desenho não teve esboço e também não há quaisquer sinais de pincelada.;

9- Um estetoscópio revelou pulsações (115 por minuto) na criança da qual a Virgem está grávida.

10- Além de a imagem estar grávida, ela também aparece com uma fita no seio e os cabelos soltos, divididos ao meio, características de uma virgem na cultura asteca. Maria, portanto, é uma Virgem Mãe.
Ah, e é interessante dizer que a Virgem, no manto, está rodeada pelo sol - como que vestida - e tem a lua sob os pés. Onde foi que a gente já viu isso, mesmo? ...

Lembramos que o leitor é livre para fazer suas pesquisas. Se acha que o manto de guadalupe é fruto de algum pintor sacana, vá procurar.. Você verá que várias pesquisas já foram feitas nele, e nenhuma delas dá conta de explicar o fenômeno. Ahhh, íamos esquecendo: as proporções da figura apresentam o famoso "número áureo", uma precisão matemática que está em toda a natureza e que é dita, vejam só, ser a "assinatura de Deus". Hehe.. Muito apropriado..

Vamos ao último milagre observado:



O Milagre do Sol


Em 1917, Nossa Senhora apareceu a três pastorinhos - Lúcia, Jacinta e Francisco - na cidade de Fátima, Portugal. Na segunda aparição, em  13 de junho de 1917, a Virgem prometeu um sinal que seria visível "que todos hão de ver para acreditarem". A coisa foi divulgada, e em 13 de outubro de 1917, uma multidão de cerca de 70 mil pessoas se reuniu no dia, na Cova da Iria, para testemunhar o tal milagre. Era um dia chuvoso, e lá estavam milhares de pessoas, uns com guarda chuvas, e outros já molhados. Os três pastorinhos à frente esperavam alguma coisa. A Virgem então lhes apareceu - aos três - e, extasiados, mantiveram com ela uma breve conversação. De repente, tendo revelado o que lhes ia ocorrer, Lúcia, a mais velha, gritou: "Olhem, olhem para o sol!"

O Céu então se abriu, as roupas enxugaram-se instantaneamente e o sol pareceu dotar-se de uma flexibilidade que não lhe é própria e começou a rodopiar no céu. Permitindo-se ver, ele passeava a grande velocidade sobre os olhares atônitos de 70.000 pessoas que, sem exceção, o viam.

Eis alguns depoimentos de presentes no ocorrido:

"O sol, rodopiando, parecia cair-se do firmamento e avançar ameaçadoramente sobre a terra" 
(Dr. Almeida Garret, Professor de Ciências Naturais na Universidade de Coimbra)

“Era como um disco de vidro fosco iluminado por detrás e girando sobre si mesmo, dando a impressão que estava caindo sobre nossas cabeças.”
(Sr. Mario Godinho, cético até o dia do Milagre)

“Olhei fixamente para o sol que parecia pálido, não feria meus olhos. Parecendo uma bola de neve, ele girava sobre si mesmo; de repente pareceu cair em ziguezague.”
(Pe. Joaquim Lourenço, que depois disso decidiu ser padre)

“O sol começou a rodar em círculos de todas as cores. Era como uma roda de fogos de artifício, caindo sobre o chão.”
(Sra. Maria Celeste da Câmara e Vasconcelos)

“Olhei para o sol e o vi girando como um disco, rolando sobre si mesmo. Vi as pessoas mudando de cor, tomando as cores do arco-íris.”
(Sr. Antonio Antunes de Oliveira)

“Até nossas roupas tinham secado. Não sentimos absolutamente nada. As roupas estavam secas e pareciam que tinham acabado de vir da lavanderia. Pensei: ou estou louco ou isto foi um milagre, um verdadeiro milagre.”
(Sr. Dominic Reis)

“Minha roupa estava molhada e então, sem me dar conta, ficou seca.”
(Sr. Joaquim Vicente)

“Presenciei também quatro curas no lugar das aparições: duas de tuberculose, uma de uma moça de Lisboa e a outra de Alfarelos; e duas aleijadas.”
(Sra. Maria do Carmo Menezes)

“Não conheço ninguém que dissesse não ter visto.”
(Sr. João Carreira)

“Nunca soube que alguém não tivesse visto nada. Elas não poderiam não ver, a menos que não quissessem olhar o fenômeno.”
(Sr. José Joaquim de Assunção, também era cético do milagre)

Segundo o Poeta Alonso Lopes Vieira e a professora colegial Delfina Lopes, junto com seus alunos e outras testemunhas, o milagre era visível num raio de 40 km, e durou aproximadamente 10 minutos.

Abaixo, um vídeo em que aparecem várias fotos originais tiradas durante o milagre. Os textos estão em inglês, mas têm basicamente as informações que já pusemos acima.




Quais as chances de ser um fenômeno natural? Nenhuma.

Quais as chances de ser um fenômeno provocado pelo demônio? Vamos pensar...

Há a possibilidade de o sol mesmo ter "dançado" no céu? Primeiro: se o fizesse, isto causaria transtornos imensos no planeta, a menos que a terra fosse mantida intacta por um outro milagre; segundo, o mundo inteiro teria visto o sinal. Então, é mais coerente supor que a aparência do sol é que foi movida. O demônio poderia fazer isso? É possível que pudesse enganar um ou outro sujeito, mas 70.000? Além disso, se tal poder estivesse em mãos do demônio, por que não usá-lo sem mais?

Além da impossibilidade de ludibriação de 70.000 pessoas - muitas delas totalmente descrentes no fenômeno e portanto não predispostas -, ocorreram também curas físicas, e muitas conversões. E, para arrematar, a morte de Jacinta e Francisco foi predita com antecedência pela Virgem, e Jacinta tem o corpo incorrupto. =)


"Todas as gerações me chamarão bem aventurada"


Chegamos, enfim, ao último subtópico, e, como vimos, vá o leitor para a esquerda ou para a direita, para cima ou para baixo, para a Bíblia ou para a Tradição, para os Milagres ou para a Lógica, Maria é quem é: Mãe de Deus, a quem os cristãos de todas as épocas veneraram profundamente.

Para concluir, vejamos o que ela falou de si mesma no seu famoso canto "Magnificat".

"Minha alma glorifica ao Senhor, meu espírito exulta de alegria em Deus, meu Salvador, porque olhou para sua pobre serva. Por isto, desde agora, me proclamarão bem-aventurada todas as gerações, porque realizou em mim maravilhas aquele que é poderoso e cujo nome é Santo..." (Lc 1,46-49)

O canto continua, obviamente. Mas notemos, de início, que já há muito notaram as semelhanças entre este canto e o canto de Ana, em 1Sm 2,1-10. Ana é um dos tipos de Maria, pois tem apenas um filho - Samuel - e o dedica a Deus, do mesmo modo como a Virgem consagrou Jesus no templo. (Cf. 1Sm 1,24-28; Lc 2,21-24) Uma outra semelhança entre as duas se dá porque Ana é acusada de estar bêbada com o vinho de Pentecostes (1Sm 1,12-17) Samuel também parece ter feito o voto dos Nazoreus, pois sua mãe faz a promessa de não lhe passar a navalha na cabeça (1Sm 1,11). Já de Jesus foi dito: "Ele será chamado Nazoreu" (Jo 1,46). Embora o autor bíblico explique o nome de Samuel como "foi pedido a Deus", ele significa, na verdade, "nome de Deus", de modo que Samuel é um prelúdio de "Jesus", que é o próprio nome de Deus. Maria reconhece-se então como a agraciada, aquela que, à semelhança de Ana, que era estéril, foi fecundada por obra e graça de Deus.

Por causa disso, Maria profetiza: "Todas as gerações me chamarão bem aventurada". Ela o diz pouco depois da exaltação que Isabel lhe faz, de modo que ambas as expressões têm o mesmo sentido. Maria é mais que feliz, é bem aventurada. É mais que bem aventurada, é kecharitomene. Depois deste cântico, Lucas escreve: "Maria ficou com Isabel cerca de três meses", que, lembramos, faz referência ao tempo que a Arca da Aliança passou na casa de Obed-Edom.

Depois disso tudo, convocamos ao leitor que se junte a nós, o grupo destes que que proclamam a Virgem Santíssima bem-aventurada. 

Quase concluindo, citemos mais uma vez o Dr. Scott Hahn:

"O papel de Maria não tem sentido algum se considerado fora do contexto da história da salvação, pois não é acidental no plano de Deus. Deus quis fazer que seu ato redentor fosse inconcebível sem ela. Maria estava no plano de Deus desde o início." (p.34)

Para terminar - agora sim -, contamos o caso de um êxtase de Santa Gertrudes. Viu-se ela diante do trono divino e naturalmente se ajoelhou. Contemplando a glória de Jesus, perguntou, aflita, o que deveria fazer para honrar mais a Ele. Jesus então sorriu e, apontando para o trono que estava ao lado direito do Seu, o da Gebirah, falou:

"Honre a minha Mãe, que isto Me agrada..."


Fábio

Sto Agostinho e a Continência


"Eu julgava que a continência dependia de minhas próprias forças... forças que eu não conhecia em mim. E eu era tão insensato que não sabia que ninguém pode ser continente, se vós não lho concedeis. E sem dúvida mo teríeis concedido, se com meus gemidos interiores vos ferisse os ouvidos e, com firme fé, depusesse em vós minha preocupação."

Sto Agostinho, Conf., 6,1, 20.

Dia da Expiação e Santuário Celestial


A Escritura nos diz que o santuário antigo foi feito segundo uma cópia celestial. Isto é dito no livro de Êxodo e também por Paulo Apóstolo, no livro dos Hebreus. A lógica também o atesta: a primeira aliança deve relacionar-se com a segunda analogicamente. Deus educa os homens progressivamente, o que indica que Ele teve adotar um método pedagógico. Este método consiste em ir dispondo a humanidade, a partir de atos exteriores e palpáveis, para realidades interiores e sutis. É por isso que é dito que a Antiga Lei foi gravada em pedras enquanto a nova será inscrita nos corações.

Esta relação entre o que é figura e o que é realização, entre símbolo e simbolizado, é chamada, na teologia, de tipologia. A figura é o tipo; o figurado é o antítipo. Pois bem, se o Santuário é um tipo, ele deve ter um antítipo, que é o Santuário Celestial, ou Céu. Os sacerdotes do antigo templo simbolizam o sacerdócio do Cristo. Os sacrifícios contínuos que ocorriam todos os dias eram símbolos do Sacrifício único de Cristo, etc.

Porém, além dos holocaustos diários, havia, uma vez ao ano, o grande Yom Kippur, Dia do Perdão ou da Purificação. Neste dia, uma série de ritos próprios acontecia e o próprio Santuário era purificado. Se isto acontecia enquanto tipo, qual o seu antítipo?

Paulo escreve:

"Se os meros símbolos das realidades celestes exigiam uma tal purificação, necessário se tornava que as realidades mesmas fossem purificadas por sacrifícios ainda superiores. Eis por que Cristo entrou, não em santuário feito por mãos de homens, que fosse apenas figura do santuário verdadeiro, mas no próprio céu, para agora se apresentar intercessor nosso ante a face de Deus." (Hb 9,23-24)

Este texto nos deixa em grande dificuldade, pois, aceitas as premissas e respeitada a lógica, a conclusão não nos parece fazer muito sentido. Veja:

O santuário terrestre simboliza o céu.
O santuário terrestre era purificado por sangue de animais. O santuário celeste é purificado por "sacrifícios superiores", isto é, o de Cristo.
Se o santuário terrestre precisava de purificação, ele tinha contraído algum tipo de impureza.
Se o santuário celeste precisava de purificação, ele também tinha contraído algum tipo de impureza.
Como conceber que o Céu tenha se contaminado?

Mesmo os adventistas sentem dificuldade de entender este texto, e eruditos dentre eles relutam mas terminam admitindo que o Céu de algum modo contraiu a nossa impureza. Como isto é possível, porém, é algo que os escapa, e a nós também.

De que jeito o santuário terrestre ficava impuro? Havia dois modos. Um dos vários tipos de sacrifício que existiam era o pelo pecado, conforme se vê em Lv 4.

Se o pecado fosse cometido pelo sacerdote, por um chefe ou por toda a assembléia, ele exigia que o sacerdote molhasse seus dedos no sangue da vítima e o aspergisse no véu do santuário por trás do qual ficava a Arca da Aliança. O animal morto substituía, no sacrifício, o pecador. Daí que seu sangue estivesse contaminado e precisasse ser derramado, pois, como diz São Paulo, "sem derramamento de sangue não há perdão". (Hb 9,22) Como o sangue contaminado era jogado no Santuário, este contraía a sua impureza, donde ser necessário que houvesse, depois, uma purificação do próprio santuário.

Outro modo de contaminação era o seguinte: quando era uma pessoa comum pecava e desejava fazer sacrifício por sua falta, ela levava um animal ao Santuário e o ofertava e imolava. O sacerdote punha então o sangue do animal sobre os cornos do altar dos holocaustos, derramando o resto ao pé do altar. (Cf Lv 4,27-30) Ora, este altar, embora estivesse fora dos dois lugares (O Santo e o Santíssimo), fazia parte do Santuário, pois se localizava no Pátio. Mas, além disso, os sacerdotes deveriam comer a vítima, como se lê no Cap. 6, v. 19: 

"O sacerdote que oferecer a vítima do sacrifício pelo pecado, comê-la-á em um lugar santo, a saber: no átrio da tenda de reunião."

Este trecho, porém, é ambíguo, pois afirma que é o sacerdote que oferece a vítima, dando a entender a possibilidade de ser um sacrifício restrito ao pecado do sacerdote. Quando uma pessoa oferecia uma vítima, ela mesma a imolava. (Cf Lv 4,29) Porém, no cap. 10, v. 16 em diante, Moisés reclama porque os filhos restantes de Arão, Eleazar e Itamar, não comeram de um boi imolado pelo pecado:

"Por que não comeste no lugar santo o sacrifício pelo pecado? Pois essa é uma coisa santíssima que o Senhor vos deu, a fim de que leveis a iniquidade da assembléia e façais a expiação por ela diante dele. Já que o sangue da vítima não foi trazido para dentro do tabernáculo, vós devíeis tê-la comido em um lugar santo como ordenei" (17-18)

Este trecho também é delicado. O versículo 18 dá a entender que o sangue deveria ter sido levado para dentro do tabernáculo, e o único rito em que isto ocorria era o da aspersão do sangue sobre o véu. Isto, contudo, somente acontecia com sacrifícios dos próprios sacerdotes, dos chefes ou por um pecado coletivo de toda a assembléia. Aqui mais uma vez fica-nos a impressão de que este sacrifício não é o do cidadão comum, mas o do sacerdócio.

Seja como for, é fato que, em alguns deles, o sacerdote comia a carne imolada e isto fazia com que ele levasse a iniquidade da assembléia e fizesse expiação por ela. Não nos fica claro, porém, como a contaminação do Sacerdote implique na contaminação do Santuário. Mas tal é dito pela Sra White:

"O sangue, representando a vida do pecador cuja culpa a vítima assumia, era levado pelo sacerdote ao Lugar Santo e borrifado diante do véu, atrás do qual estava a arca que continha a lei transgredida. Através dessa cerimônia, o pecado era, de maneira simbólica, transferido para o santuário. Em alguns casos o sangue não era levado para o Lugar Santo, mas a carne deveria ser comida pelo sacerdote. Ambas as cerimônias simbolizavam a transferência do pecado do arrependido para o santuário." (O grande conflito, p.195)

Avancemos. 

No dia da Expiação, que acontecia uma vez ao ano, no décimo dia do sétimo mês, como descrito no capitulo 16 de Levítico, o Sacerdote fazia vários ritos. Acompanhemos:

"Tomará um novilho para o sacrifício pelo pecado e um carneiro para o holocausto." (v.3)
"Revestir-se-á da túnica sagrada de linho, cingir-se-á dum cinto de linho e porá na cabeça um turbante de linho. Estas são as vestes sagradas, que ele só vestirá depois de se ter lavado. (v.4)
"Receberá da assembléia dos israelitas dois bodes destinados ao sacrifício pelo pecado e um carneiro para o holocausto." (v.5)
"Aarão oferecerá por si mesmo o touro em sacrifício pelo pecado, e fará a expiação por si mesmo e pela sua casa." (v.6)
"Tomará os dois bodes e os colocará diante do Senhor, à entrada da tenda de reunião." (v.7) 
"Deitará sortes sobre os dois bodes, uma para o Senhor, e outra para Azazel." (v.8)
"Oferecerá o bode sobre o qual caiu a sorte para o Senhor e oferecê-lo-á em sacrifício pelo pecado." (v.9)
"Quanto ao bode sobre o qual caiu a sorte para Azazel, será apresentado vivo ao Senhor, para que se faça a expiação sobre ele, a fim de enviá-lo a Azazel, no deserto." (v.10)
"Aarão degolará o touro destinado ao sacrifício pelo pecado e, tomando o turíbulo, que ele terá enchido de brasas do altar diante do Senhor, bem como dois punhados de perfume aromático em pó, entrará com tudo para dentro do véu." (v.11-12)
"Porá o incenso no fogo diante do Senhor, para que a nuvem do perfume cubra o propiciatório da arca, e Aarão não morra." (v. 13)
"Tomará o sangue do touro e o aspergirá com o dedo sobre o propiciatório, pela frente, e depois aspergirá com o dedo sete vezes defronte o propiciatório." (v. 14)
"Imolará, enfim, o bode do sacrifício pelo pecado do povo, e levará seu sangue para o outro lado do véu. Fará com esse sangue como fez com o sangue do touro, aspergindo o propiciatório e a frente do propiciatório. É assim que fará a expiação pelo santuário, por causa das impurezas dos israelitas e de suas transgressões, e de todos os seus pecados." (vs. 15-16a)

Aqui há um detalhe para o qual eu nunca havia atentado. Observando os versículos 14-16 notamos o seguinte: Aarão já leva o sangue do touro imolado antes (v.11). Quais as coisas que ele leva ao entrar no Lugar Santíssimo? O sangue e o turíbulo. Ele não leva animal. Depois de aspergir o sangue sobre o propiciatório da Arca no Lugar Santíssimo, ele deverá imolar o bode oferecido pelo pecado do povo. Porém: o bode não está lá. Está fora. Além do que seria totalmente inconveniente imolar um bode no Lugar Santíssimo. Portanto, ele tem de sair deste recinto, imolar o animal, e, em seguida, voltar. Veja que o versículo 15 diz que ele "levará seu sangue para o outro lado do véu", ou seja, o imolou do lado de cá, obviamente. Veremos que só isso já demonstra que a concepção adventista do tipo do santuário não se sustenta.

Continuemos.

"Da mesma forma fará pela tenda de reunião, que está com eles no meio de suas imundícies." (v. 16b)
"Ninguém esteja na tenda de reunião quando Aarão entrar para fazer a expiação no santuário até que saia. Fará assim a expiação por si mesmo, pela sua família e por toda a assembléia de Israel." (v. 17)
"Quando tiver saído, irá para o altar que está diante do Senhor e fará a expiação por esse altar: tomará o sangue do touro e do bode e o porá nos cornos do altar em toda a volta. Aspergirá com o dedo sete vezes o altar, para purificá-lo e santificá-lo por causa das imundícies dos israelitas." (v. 18-19)

Aqui estaria concluída a expiação do santuário, conforme diz o próximo versículo:

"Havendo terminado a expiação do santuário, da tenda de reunião e do altar, Aarão trará o bode vivo. Imporá as duas mãos sobre a sua cabeça, e confessará sobre ele todas as iniquidades dos israelitas, todas as suas desobediências, todos os seus pecados. Pô-los-á sobre a cabeça do bode e o enviará ao deserto pelas mãos de um homem encarregado disso." (v. 20-21)
"O bode levará, pois, sobre si, todas as iniquidades deles para uma terra selvagem." (v.22)

Vamos analisar algumas coisas.

Os adventistas aplicam tudo isso aí ao final dos tempos. Segundo eles, o ano de 1844 marca a entrada de Jesus no Lugar Santíssimo, onde estaria até agora. Porém, como vimos, o Sumo Sacerdote entrava duas vezes nesse lugar: quando levava o sangue do touro por si mesmo, e, depois, quando levava o sangue do touro oferecido pela assembléia. Assim, Jesus teria de ter entrado duas vezes. Uma objeção possível seria dizer que o Sumo Sacerdote necessitava fazê-lo por causa da sua impureza, uma vez que o primeiro sacrifício era oferecido por si mesmo e pela sua família. Jesus, porém, não tem pecados por si mesmo, donde a não necessidade de que faça isso duas vezes. Tudo bem, só que isto já prejudica um pouco a correspondência entre os dois ofícios. Outra coisa, o turíbulo com os perfumes é usado apenas na primeira vez em que o Sumo Sacerdote adentra no Lugar Santíssimo. Uma vez que o incenso geralmente representa as orações que sobem aos céus, isto bem poderia ser usado para simbolizar a intercessão de Jesus (cf. Hb 7,25), mas aí teríamos de manter a primeira entrada ou unir a incensação à expiação pelos pecados da assembléia. Enfim..

Quando Jesus sair do Santo dos Santos, Ele voltará à terra, para purificá-la. Isto supostamente poderia ser significado pela purificação da tenda da reunião, "que está com eles no meio de suas imundícies." (v.16b) A dificuldade é que, segundo o que se diz, não deve haver ninguém quando Ele fizer isso. O antítipo exigiria que todos estivessem mortos ou arrebatados. E mais: é dito que ninguém pode estar na tenda enquanto Aarão estiver fazendo "a expiação no santuário até que saia" (v.17), o que dificulta imensamente a adequação de uma coisa à outra, pois isto implicaria que desde 1844 ninguém mais estivesse na terra. Mas essa identificação da tenda do santuário com a terra quem está fazendo sou eu. Nunca vi nenhum trecho adventista que a defendesse. Apenas me pareceu dever fazê-lo, uma vez que a purificação no fim dos tempos é geral, e uma vez que o Dia da Expiação judeu simbolizaria esta purificação total, de modo que a terra teria de ser representada por algum tipo. Com efeito, sabe-se que para as religiões tradicionais - portanto, para o judaísmo -, o templo é uma representação de todo o cosmos. É por isso que Jesus associa a destruição do templo de Jerusalém com a destruição do mundo. Qual seria, então, o correspondente antitípico da tenda da reunião? Notemos que o Santuário somente estará purificado depois da purificação deste último lugar.

Se se quiser ver nesta tenda um símbolo de algum outro compartimento do céu, surge o problema de esta tenda estar no meio das imundícies das pessoas.

Uma vez tendo feito isso tudo é que Jesus voltaria. Se assim é, então a tenda da reunião - seja lá o que for o seu antítipo - é purificada antes da Parusia. 

Depois disso tudo, Aarão traz o bode vivo - aquele que foi sorteado para Azazel -, impõe as mãos sobre a cabeça dele e confessa todas as iniquidades dos israelitas. Um adendo: como Aarão poderia fazer isso se não as conhecesse? E como poderia conhecê-las se elas não lhes fossem contadas? Se isto procede, então é forçoso aceitar que a confissão  auricular dos pecados já existia.

Segundo o adventismo, este bode, que é enviado a Azazel, representa Satanás que no final dos tempos será responsabilizado pelos pecados de todo o universo e, em seguida, será afastado, irá para o deserto, símbolo da sua destruição. Uma dificuldade aqui é que o bode não é Azazel, mas é enviado para Azazel, que é uma entidade demoníaca que habitava no deserto. Se o bode representa Satanás, a conclusão é que Satanás é enviado a algum demônio, o que não parece fazer muito sentido.

Mas, enfim, depois dessas coisas, estaria iniciada a vida eterna para os fiéis de Deus.

Bem, pelo menos segundo o ensino da IASD. Contudo, o ministério de Aarão não acaba aí. Ele prossegue, e sem qualquer antítipo correspondente segundo o adventismo. Eles simplesmente não tratam disso. Vejamos:

"Quando o bode tiver sido mandado para o deserto, Aarão voltará para a tenda de reunião, tirará as vestes de linho que ele pôs à sua entrada no santuário, e as deporá ali." (v. 23)
"Lavará o seu corpo no lugar santo, retomará depois suas vestes e sairá para imolar o seu holocausto e o do povo, fazendo a expiação por ele e pelo povo." (v. 24)"Queimará no altar a gordura do sacrifício pelo pecado." (v. 25)

Como se vê, ainda há expiação depois de tudo isso. Esta expiação pós-purificação do Santuário não é explicada pela Profecia do Santuário. 

Por fim, vamos a mais algumas dificuldades. Os adventistas gostam de relacionar o livro de Levíticos com o de Hebreus. Esta relação de fato é real. Mas São Paulo não parece endossar o duplo ministério de Jesus pós-ressurreição. Vejamos alguns trechos:

"Depois de ter realizado a purificação dos pecados, está sentado à direita da Majestade no mais alto dos céus." (Hb 1,3)

Segundo Paulo, Jesus realizou a purificação total dos pecados na Cruz. Aí Ele completou a Sua obra expiatória, e está, já, sentado à direita de Deus "no mais alto dos céus."

"Temos, portanto, um grande Sumo-sacerdote que penetrou nos céus, Jesus, Filho de Deus." (Hb 4,14)

Por  chamar Jesus de "Sumo-sacerdote" e dizer que Ele "penetrou nos céus", Paulo estabelece uma comparação com a penetração do Sumo-Sacerdote no Lugar Santíssimo, pois entrar no Santo dos Santos era permitido a qualquer sacerdote e podia ocorrer todos os dias. No Lugar Santíssimo, porém, só o Sumo Sacerdote. Portanto, segundo Paulo, Jesus penetrou no Lugar Santíssimo depois da Sua ascensão.

"Esperança esta que seguramos qual âncora de nossa alma, firme e sólida, e que penetra até além do véu, no santuário, onde Jesus entrou por nós como precursor, Pontífice eterno, segundo a ordem de Melquisedec." (Hb 6,19-20)

Jesus entrou além do véu, no Santuário. Embora o Santuário tivesse dois véus, o que separava o Lugar Santíssimo do Lugar Santo, e o que separava este do Pátio, o véu mais "famoso" pela sua importância e por guardar o compartimento onde estava a Arca da Aliança, é o primeiro. Portanto, dizer que Jesus entrou além do véu é dizer que Ele foi ao Lugar Santíssimo, e isso desde o tempo de Paulo.

"Assim sendo, enquanto na primeira parte do tabernáculo entram continuamente os sacerdotes para desempenhar as funções, no segundo entra apenas o sumo-sacerdote, somente uma vez ao ano, e ainda levando consigo o sangue para oferecer pelos seus próprios pecados e pelos do povo. Com o que significava o Espírito Santo que o caminho do Santo dos Santos ainda não estava livre, enquanto subsistisse o primeiro tabernáculo." (Hb 9,6-8)

Aqui Paulo mostra que a necessidade de o sumo sacerdote adentrar no Lugar Santíssimo apenas uma vez ao ano mostra que "o caminho do Santo dos Santos ainda não estava livre." Se o verbo é usado no passado, significa que agora - no tempo de Paulo - ele está livre. Portanto, não é necessário mais que se dê este ministério específico do sumo-sacerdote.

"Porém, já veio Cristo, Sumo-sacerdote dos bens vindouros. E através de um tabernáculo mais excelente e mais perfeito, não construído por mãos humanas (isto é, não deste mundo), sem levar consigo o sangue de carneiros ou novilhos, mas com seu próprio sangue, entrou de uma vez por todas no santuário, adquirindo-nos uma redenção eterna." (Hb 9,11-12)

Paulo diz que Jesus, Sumo Sacerdote, entrou de uma vez por todas no santuário. Se houvesse, na época dele, mais algum compartimento celeste para entrada futura, Paulo não diria que Jesus entrou "de uma vez por todas."

"Enquanto todo sacerdote se ocupa diariamente com o seu ministério e repete inúmeras vezes os mesmos sacrifícios que, todavia, não conseguem apagar os pecados, Cristo ofereceu pelos pecados um único sacrifício e logo em seguida tomou lugar para sempre à direita de Deus." (Hb 10,11-12)

Aqui se diz que Nosso Senhor tomou lugar para sempre à direita de Deus, isto é, adentrou já de uma vez no Lugar Santíssimo depois da Sua ascensão. Está sentado. Embora interceda, não realiza um ministério de expiação restante.

Como se vê, Paulo não sugere que Jesus esteja realizando mais alguma coisa, agora. A expiação está completa, e isso desde a Cruz. Mas, ainda que assim não fosse, não haveria razão de ser para que o antítipo do Dia da Expiação tivesse começado em 1844 e ainda não tivesse terminado.

Livro de Daniel: a profanação do Santuário, a aliança com muitos e a cessação do sacrifício


Deve fazer um mês e pouco, eu comecei a escrever uns artigos sobre a doutrina adventista da Profecia do Santuário, que é um tema difícil e sofisticado. Quaisquer eventuais erros nessa questão só poderão ser identificados com um estudo detido, atento às sutilezas. 

Como já dito, o trecho central da profecia se encontra no livro de Daniel, cap. 8. Nele se fala de um pequeno chifre em um bode. Cito o texto a partir do versículo 9:

"De um deles [de quatro chifres anteriores] saiu um pequeno chifre que se desenvolveu consideravelmente para o sul, para o oriente e para a jóia (dos países). Cresceu até alcançar os astros do céu, do qual fez cair por terra diversas estrelas e as calcou aos pés. Cresceu até o chefe desse exército de astros, cujo (holocausto) perpétuo aboliu e cujo santuário destruiu, junto com o exército; sobre o sacrifício ele pôs a iniquidade; a verdade foi lançada à terra. O pequeno chifre teve êxito na sua empreitada.

Ouvi um santo que falava, a quem outro santo respondeu: 'quanto tempo durará o anunciado pela visão a respeito do holocausto perpétuo, da infidelidade destruidora, e do abandono do santuário e do exército calcado aos pés?' Respondeu: 'duas mil e trezentas noites e manhãs. Depois disso o santuário será restabelecido.'" (Dn 8,9-14)

Depois disso, Gabriel vem a Daniel para explicar a visão. Claro que, quando vemos essas coisas pela primeira vez, tudo nos parece muito esquisito. O próprio Daniel ficou doente por não ter compreendido. Então imagina o que acontece conosco, totalmente alheios? Por isso, eu decidi ler o livro inteiro, e aí muita coisa foi ficando mais clara. Algumas afirmações feitas aqui completarão de modo muito feliz aquilo que foi escrito no outro texto. Embora essas simbologias sejam de fato difíceis, ao ler o livro inteiro fica-nos a impressão de um padrão que é seguido. O simbolismo usado começa a fazer maior sentido.

Então, vejamos só: o pequeno chifre referido guerreia contra um monte de coisas. Seria importante saber de quem se trata e quem são esses contra os quais ele guerreia.

Antes, porém, vejamos o próximo texto que é fundamental para a Profecia adventista:

"Setenta semanas foram fixadas a teu povo e à tua cidade santa para dar fim à prevaricação, selar os pecados e expiar a iniquidade, para instaurar uma justiça eterna, encerrar a visão e a profecia e ungir o Santo dos Santos. Sabe, pois, e compreende isto: desde a declaração do decreto sobre a restauração de Jerusalém até um chefe ungido, haverá sete semanas e sessenta e duas semanas; ressurgirá, será reconstruída com praças e muralhas. Nos tempos de aflição, depois dessas sessenta e duas semanas, um ungido será suprimido, e ninguém (será) a favor dele. A cidade e o santuário serão destruídos pelo povo de um chefe que virá. Seu fim (chegará) com uma invasão, e até o fim haverá guerra e devastação decretada. Concluirá com muitos uma sólida aliança por uma semana e no meio da semana fará cessar o sacrifício e a oblação; sobre a asa das abominações virá o devastador, até que a ruína decretada caia sobre o devastado." (Dn 9,24-27)

Vamos por parte. Tentemos esclarecer o significado de alguns desses símbolos.

Do primeiro texto:

O chifre pequeno é Antíoco IV, chamado Epífanes. O próprio livro falará dele no capítulo 11, mostrando como é dele que se tratam as duas profecias citadas. A bíblia diz que ele cresceu sobre a "jóia dos países". Trata-se da Palestina, pois esta expressão é usada para referir-se a ela, conforme se vê em Ez 20,6.

"Cresceu até os astros do céu, do qual fez cair diversas estrelas e calcou aos pés." Estes astros são o próprio povo de Deus, conforme nos diz o cap. 12,3, ou ainda Mt 13,43. De fato, Antíoco massacrou vários habitantes da Palestina, conforme vemos no cap. 11,33-35: "durante algum tempo, perecerão pela espada, fogo, cativeiro e pilhagem. Enquanto forem caindo dessa maneira, serão um tanto amparados; e um bom número unir-se-á hipocritamente a eles. Muitos desses sábios sucumbirão, a fim de que sejam provados, purificados e branqueados até o termo final."

"Cresceu até o chefe deste exército de astros, cujo perpétuo aboliu e cujo santuário destruiu." Este chefe do exército de astros se refere ao próprio Deus, "dono" dos sacrifícios e do santuário. De novo, Antíoco não só invadiu o Santuário como aboliu os Sacrifícios, conforme se verifica no livro de 1 Macabeus. 

"Após ter derrotado o Egito, pelo ano cento e quarenta e três, regressou Antíoco e atacou Israel, subindo a Jerusalém, com um forte exército. Penetrou cheio de orgulho no santuário, tomou o altar de ouro, o candelabro das luzes com todos os seus pertences, a mesa da proposição, os vasos, as alfaias, os turíbulos de ouro, o véu, as coroas, os ornamentos de ouro da fachada, e arrancou as embutiduras. Tomou a prata, o ouro, os vasos preciosos e os tesouros ocultos que encontrou. Arrebatando tudo consigo, regresso à sua terra após massacrar muitos judeus e pronunciar palavras injuriosas." (1Mc 1,20-24)

"Por intermédio de mensageiros, o rei enviou a Jerusalém e às cidades de Judá, cartas prescrevendo que aceitassem os costumes dos outros povos da terra, suspendessem os holocaustos, os sacrifícios e as libações no templo, violassem os sábados e as festas, profanassem o santuário e os santos, erigissem altares, templos e ídolos, sacrificassem porcos e animais imundos, deixassem seus filhos incircuncidados e maculassem suas almas com toda sorte de impurezas e abominações, de maneira a obrigarem-nos a esquecer a lei e a transgredir as prescrições. todo aquele que não obedecesse à ordem do rei, devia ser morto."  (Mc 1,44-50)

"Sobre o sacrifício ele pôs a iniquidade" - Este trecho é explicado em Dn 11,31 que, a respeito de Antíoco, diz: "tropas sob sua ordem virão profanar o santuário, a fortaleza..."

De novo, o livro de Macabeus descreve:

"No dia quinze do mês de Casleu, do ano cento e quarenta e cinco, edificaram a abominação da desolação por sobre o altar e construíram altares em todas as cidades circunvizinhas de Judá. (...) E, no dia vinte e cinco do mês, sacrificavam no altar, que sobressaía ao altar do templo" (1 Mc 1,54-55;59)

A iniquidade se refere tanto à proibição que Antíoco estabeleceu aos Sacrifícios diários - perseguindo e matando os judeus que não se submetessem à inovações - quanto à profanação dos objetos sagrados e à entronização de ídolos no Santuário, conforme se vê no supracitado.

"A verdade foi lançada à terra" - isto se nota por toda a política de helenização de Antíoco e pela adesão de grande parte dos judeus, que preferiam assistir os esportes ao invés de ocupar-se com as coisas da religião. Os versículos 36-37 dizem sobre Antioco: "O rei fará então tudo o que desejar. Ensoberbecer-se-á, elevar-se-á no seu orgulho acima de qualquer divindade; proferirá até coisas inauditas contra o Deus dos deuses; prosperará até que a cólera divina tenha chegado ao seu termo, porque o que está decretado deverá ser executado."

O livro de Macabeus traz o seguinte:

"Rasgavam e queimavam todos os livros da lei que achavam; em toda parte, todo aquele, em poder do qual se achava um livro do Testamento, ou todo aquele que mostrasse gosto pela lei, morreria por ordem do rei." (Mc 1,56-58)

Daí, um dos santos - provavelmente um anjo - pergunta a outro: "quanto durará o anunciado pela visão a respeito do holocausto perpétuo, da infidelidade destruidora, e do abandono do santuário e do exército calcado aos pés?" Sobre o exército, diz o versículo 41 do cap 11: "Invadirá o país que é a jóia da terra, onde muitos homens cairão." O livro de Macabeus diz: "Serviram de cilada para o templo, e um inimigo constantemente incitado contra o povo de Israel, derramando sangue inocente ao redor do templo e profanando o santuário." Veja como a pergunta do anjo fica clara. O segundo anjo então responde: "duas mil e trezentas tardes e manhãs. Depois disso o santuário será restabelecido."

Como se vê, yoda esta invasiva de Antíoco está bem descrita no primeiro livro de Macabeus. Em 1 Mc 1,54, conforme já citado, se lê: 

"No dia quinze do mês de Casleu, do ano centa e quarenta e cinco, edificaram a abominação da desolação por sobre o altar e construíram altares em todas as cidades circunvizinhas de Judá."

Vamos fixar as datas: 15 do mês de Casleu do ano 145. 

O mesmo livro conta quando o sacrifício voltará a ser oferecido. No cap. 4, 52-53, vemos: 

"No dia vinte e cinco do nono mês, isto é, do mês de Casleu, do ano cento e quarenta e oito, eles se levantaram muito cedo, e ofereceram um sacrifício legal sobre o novo altar dos holocaustos, que haviam construído."

15 de Casleu de 145 - santuário profanado.
25 de Casleu de 148 - holocausto volta a ser oferecido. Vamos calcular..

Temos aí basicamente três anos exatos. Um ano possui 12 meses. Um mês bíblico equivale a 30 dias.

12 x 30 = 360 
1 ano = 360 dias

360 x 3 = 1080 
1080 + 14 dias - 1094 dias

O tempo que o Santuário ficou sem sacrifícios, portanto, foi de 1094 dias. Este é um cálculo aproximado, mas nada exato, da compreensão das 2.300 tardes e manhãs entendidas como 2.300 sacrifícios, o que equivaleria, já que eram dois sacrifícios diários, a 1150 dias, faltando portanto 56 dias para a correspondência exata. Só que há um porém: o calendário judaico era "lunissolar", baseado nas fases da lua, mas tendo de se adaptar ao ciclo solar. Além dos anos comuns - de doze meses -, há no judaísmo os chamados "anos embolísticos", nos quais se acresce mais um mês aos doze anteriores. Este mês é chamado Veadar ou Adar II, e soma um total de 13 meses. Estes meses acontecem nos anos 3º, 6º, 8º, 11º, 14º, 17º e 19º.

Como temos três anos, há que se acrescer um mês de 29 dias no último ano, pelo que teríamos 1123 dias, o que é, convenhamos, uma data já aproximada de 1150, faltando um todo de 27 dias, pouco menos de um mês. Os que porventura estranharem essas imprecisões, considerem o que é dito em Jr 25,11-12: "Converter-se-á esta terra em angústia e solidão, e por setenta anos lhe há de perdurar a servidão ao rei de Babilônia." Porém, na realidade, o cativeiro na Babilônia durou 65 anos, indo de 604 a 539 a.C. É verdade que a diferença é bem menor, mas há que se convir que a duração do tempo da profecia também é menor, e, sobretudo, que de fato temos uma imprecisão, o que dificulta um cálculo exato, permitindo apenas uma idéia aproximada. Com isso queremos dizer que a interpretação de 2.300 tardes e manhãs como sendo 2.300 anos é falsa? Não. Estamos somente vendo as possibilidades. Provaremos isto em outro artigo.

Prossigamos.

Segundo texto:

Quero analisar os seguintes trechos:

Nos tempos de aflição, depois dessas sessenta e duas semanas, um ungido será suprimido, e ninguém (será) a favor dele. A cidade e o santuário serão destruídos pelo povo de um chefe que virá. Seu fim (chegará) com uma invasão, e até o fim haverá guerra e devastação decretada. Concluirá com muitos uma sólida aliança por uma semana e no meio da semana fará cessar o sacrifício e a oblação; sobre a asa das abominações virá o devastador, até que a ruína decretada caia sobre o devastado." (Dn 9,24-27)

Um ungido será suprimido - de fato, trata de Nosso Senhor, cujo título "Cristo" significa exatamente "Ungido". Mas também simboliza o Sacerdote Onias III, assassinado em Antioquia no ano 171 a.C. (Cf. 2Mc 4,30-38)

A cidade e o santuário serão destruídos pelo povo de um chefe que virá. - Trata-se, historicamente, de Antíoco Epifânio, antes de Cristo, e/ou do imperador Tito, que o realizou no ano 7 d.C.

Concluirá com muitos uma sólida aliança por uma semana e no meio da semana fará cessar o sacrifício e a oblação - este trecho aqui é fonte de controvérsias. Os adventistas afirmam que ele se refere a Jesus estabelecendo a Nova e Eterna aliança. Porém, nós entendemos que, uma vez que, segundo o texto, o Ungido já havia morrido, este trecho se refere ao invasor do templo. Isto é reforçado pelo fato de este personagem fazer cessar o sacrifício no meio da semana, o que equivaleria ao terceiro dia e meio, faltando ainda três dias e meio para que se completassem as 70 semanas. Três dias e meio, transmutando em dias de anos, ficariam 3 anos e meio, o que equivaleria a 1260 dias que é sempre uma data que se refere à dominação do povo de Deus pelos inimigos. (Cf Dn 7,25; 12,7; Apo 12,6; 13,5. 

Isso tudo ainda é reforçado pelo próprio livro de Daniel que usa as mesmas expressões para se referir ao profanador: "Dirigirá novamente sua fúria contra a santa aliança, tomará medidas contra ela, fazendo um pacto com aqueles que a abandonarem." (Dn 11,30) 

Note o paralelo: 

"Concluirá com muitos uma sólida aliança por uma semana" (Dn 9,27)
"Fazendo um pacto com aqueles que a abandonarem." (Dn 11,30)
"Submeterá, com suas lisonjas, os violadores da aliança" (Dn 11,32)
"Os que o reconhecerem - ao profanador -, multiplicará as honras, conferir-lhes-á autoridade sobre numerosos vassalos e distribuir-lhes-á terras em recompensa." (Dn 11,39)

Não parecem referirem-se todos estes textos à mesma coisa? Com efeito, todos eles falam de aliança, ou pacto. E o que dizer dos trechos seguintes?

"No meio da semana fará cessar o sacrifício e a oblação" (Dn 9,27)
"Seu coração meditará o mal contra a santa aliança; cometê-lo-á..." (Dn 11,28)
"Farão cessar o holocausto perpétuo" (Dn 11,31)

Se o segundo e o terceiro textos se referem obviamente ao profanador e às suas tropas, por que o primeiro iria se referir a Jesus? Todos eles seguem o mesmo padrão. Estão falando da mesma coisa. Notem ainda as semelhanças nos trechos sublinhados: "fará cessar", "farão cessar".

Por fim, enquanto Dn 9,27 termina dizendo que "sobre a asa da abominação virá o devastador, até que a ruína decretada caia sobre o devastado", Dn 11,31 diz: "instalarão a abominação do devastador" e o v. 36: "porque o que está decretado deverá ser executado."

O leitor note bem: esses paralelos são o argumento mais forte deste texto. Eles provam claramente que o personagem indicado em Dn 9,27 não é Jesus, mas o profanador.

E aí surge outra pergunta no texto. Daniel questiona um homem, provavelmente Jesus, que lhe aparece: "Meu senhor, qual será a conclusão disso tudo?" O contexto é o mesmo que a pergunta do primeiro santo ao segundo. Ele então lhe responde: "Desde o tempo em que for suprimido o holocausto perpétuo e quando for estabelecida a abominação do devastador, transcorrerão mil duzentos e noventa dias." Aqui teríamos duas referências:

O atentado de Antíoco Epifânio ao Santuário no ano 145 a.C. - + 1290, chegaríamos ao ano 1145.
A invasão de Jerusalém por Tito, no ano 70 d.C. - + 1290, chegaríamos ao ano 1360.

Aconteceu algo importante em 1145? Eleição do Papa Eugênio III e a bula Quantum prædecessores convocando a Segunda Cruzada. Nada, porém, que lembre nem de longe o fim de alguma perseguição. Veja aqui.

Aconteceu algo importante em 1360? Guerra dos cem anos, Pedro I de Portugal casou com Inês de Castro, Maomé IV mata o cunhado e se torna o 10º rei de Granada, o condado de Anjou torna-se um ducado, nasceu um monte de gente, morreu um monte de gente... e nada que se assemelhe ao dito. Veja aqui.

Agora, lembramos que esta data de 1290 dias aparece no mesmo contexto que as 2.300 tardes e manhãs. Porém, os 1290 dias não podem marcar o fim, pois é dito logo em seguida, no versículo 12, que "feliz quem esperar e alcançar mil trezentos e trinta e cinco dias!", ou seja, depois dos 1290 dias, feliz quem ainda esperar mais 45 dias.

Como se vê há três datas: 2300 ou 1150, 1290, 1335. Por que escolher uma dessas datas ao invés das outras?

A única conclusão disso tudo é que é tudo muito confuso. É mais fácil dizer o que não é do que o que é. E o que não é eu creio que dissemos seguramente: o personagem de Dn 9,27 não é Jesus.

Ideologia de Gênero - Análise do Discurso



A refutação à Ideologia de Gênero pode seguir duas linhas: 

a) O estudo histórico-literário das suas fontes;
b) A análise lógica das suas premissas, o que poderíamos chamar também de "bom senso".

Já escrevemos bastante sobre o primeiro aspecto. Neste artigo, falaremos sobre o segundo:

Um documentário que segue esta linha e que recomendamos vivamente - já o disponibilizamos aqui no blog - é o estudo "Paradoxos da Igualdade", estudo tão completo e destruidor da ideologia que fez com que a Noruega, país que se gaba de ter a maior igualdade entre os sexos, retirasse todo o financiamento a este devaneio.

Vejamos, para começar, quais são os argumentos possíveis favoráveis à questão de gênero. Seguiremos depois com as refutações.

1- Nem todo mundo está adequado à própria sexualidade. Costuma-se dizer que se nasceu no corpo errado. Assim, embora tenha corpo de homem, a pessoa não se identifica como homem. O mesmo ocorre com as mulheres. Há, portanto, uma dissociação entre sexo biológico e identidade. Daí o surgimento da distinção entre sexo - fator biológico - e gênero - fator de autoidentificação.

2- O ser humano é moldado cultural e socialmente. Nós, atualmente, somos frutos de um constructo. Se tivéssemos nascido ou vivêssemos em outro lugar, nós seríamos diferentes: teríamos talvez outros hábitos, outros gostos, projetos, visões de mundo, etc. Se tivéssemos nascido na Índia, por exemplo, seríamos budistas ou hindus. Se fôssemos rapazes na Alemanha Nazista, provavelmente teríamos defendido aquelas idéias. Isto significa que a identidade do sujeito é mutável, isto é, é influenciada ou mesmo produzida pelo seu entorno.

3- Se a identidade de gênero não é necessariamente determinada pelo fator biológico, se ela é uma estrutura flutuante que se esquiva do físico, então é forçoso admitir que ela é construída. Formam a personalidade individual os ideais culturais, o modo como a pessoa é vista, as expectativas suas ou dos outros, os princípios religiosos, etc. Logo, o gênero é construído. 

Creio eu que nenhum defensor da questão de gênero estaria insatisfeito com a defesa que fiz. Vamos agora a alguns comentários.

Quanto ao 1, o modo como uma pessoa se vê pode ser correto ou não. Há, portanto, um limite de legitimidade na variação da autovisão. Se não houvesse, não seria possível identificar um maluco, por exemplo. Este limite é dado pelo fator biológico, e ele diz respeito tanto ao sexo, quanto à espécie, à genealogia, à raça, etc. Alguém não pode, à força de suposições, tornar-se japonês porque assim se identificou. Do mesmo modo, não pode tornar-se um lagarto, ou uma borboleta. Também não pode tornar-se filho do Sílvio Santos e reclamar o direito à herança. Enfim, não pode, tendo nascido homem, dizer-se mulher. A inadequação que alguém possa ter não anulará a sua constituição somente pelo pensamento. Um gordo que se sinta incomodado não se torna magro por declará-lo. Neste sentido, orientação sexual e identidade de gênero são coisas totalmente distintas. Um homem gay é alguém que sabe ser homem mas cuja libido está voltada ao mesmo sexo. O mesmo se dá com uma mulher gay. O gênero, por sua vez, diz que o ser homem ou mulher é que é construído. Assim, a ideologia confunde a direção da energia sexual com o ser. A libido assume o estatuto de fundante ontológico.

Quanto ao 2, é fato que muito do que nós somos é efeito das nossas influências. Porém, esta afirmação é uma metonímia. Quando dizemos "muito do que nós somos" estamos querendo dizer literalmente "muito do que nós estamos". Na verdade, o que nós somos antecede as escolhas e as influências. Ele é um pressuposto ontológico a partir e por dentro do qual teremos as nossas influências e faremos as nossas escolhas. Por preceder-nos, ele exerce um limite ao campo onde ocorrem as variações. Este limite é biológico e espiritual. Contudo, se a questão biológica, que é mais evidente, tem sido negada, não convém que entremos agora no segundo aspecto. Fiquemos no primeiro. Façamos algumas considerações. Mulher e homem têm diferenças intrínsecas de personalidade? Os ideólogos de gênero dizem que não. Porém, como veremos, é evidente que sim. O fator orgânico influencia enormemente a personalidade. As drogas são um exemplo óbvio. Mudando a química cerebral, o comportamento é alterado. Se alguém recebe uma pancada forte na cabeça e isto danifica um dos lobos pré-frontais, esta pessoa se tornará ou extremamente mal humorada ou extremamente bem humorada. Ainda que não falemos em acidentes ou em uso de drogas ilícitas, pensemos nas diferenças hormonais naturais entre homens e mulheres. Homens têm duas vezes mais testosterona que as mulheres. Isto é o responsável pelo fato de eles serem mais lentos no aprendizado da linguagem e das relações interpessoais. Têm tendência a ser menos empáticos, a lidar com mecanismos, sistemas, e preferem ficar sozinhos quando em crise. Mulheres tendem a ser mais afetivas, comunicativas, sociais, detalhistas, tendem a ter a atenção mais dispersa ou multifocal, e preferem sofrer acompanhadas. É por isso que mulher adora uma DR enquanto que os homens preferem bater o mindinho do pé numa quina. Sabemos também que elas têm oscilações hormonais bem maiores do que os homens. Pelo fato de serem o polo passivo da procriação, onde a criança será gestada, mensalmente o seu organismo se prepara para recebê-lo. Isto produz uma série de adaptações orgânicas e tudo isto é acompanhado por inconstâncias de personalidade. Essas diferenças e inconstâncias são a raiz de brincadeiras e piadas como as seguintes:





A famosa tpm é um exemplo notório. Ninguém pode negá-la por um simples ato de abstração. Ora, é o cérebro que comanda e ordena todo o aparato biológico com as suas mudanças hormonais, cada uma com a sua respectiva função. Se organicamente homens e mulheres são diferentes - se os homens não têm tpm nem ficam férteis por períodos espaçados de tempo, se não menstruam nem se preparam biologicamente para receber uma criança -, segue que necessariamente os cérebros feminino e masculino são distintos, e é óbvio que isto tem sim seus efeitos na personalidade. Estes efeitos se exprimem também na própria aparência das pessoas. Não é à toa que mulheres são mais macias, mais aconchegantes, mais curvilíneas, enquanto os homens são mais duros, retos, mais fortes fisicamente, mais preparados para a defesa da mulher e da prole, etc. Naturalmente, então, os homens terão uma personalidade mais ativa, mais focada em um só objeto, mais agressiva, etc.

Do que foi dito, é fácil perceber como o 3 é falso, pois, embora haja de fato algo de construído na personalidade e no modo como alguém se vê, nas expectativas que tem e nos ideais que adotou, isto não o muda substancialmente, isto é, a sua ontologia, o substrato dessas variações mantém-se o mesmo e exerce uma força limitadora. É como um recipiente que comprime o conteúdo cultural e as mudanças que ocorrem dentro da pessoa, não permitindo que estas extrapolem a natureza. Por isso, só no fantástico mundo de Bob é que um homem biologicamente pode se dizer mulher. Isto significa que a nossa luta contra o Gênero se identifica com uma luta em favor da própria sanidade mental.

A oração do terço - monotonia e distração?


O Rosário - ou o Santo Terço, sua versão reduzida - é uma oração maximamente recomenda aos católicos, não só pelos santos e Papas, mas pela própria Virgem Maria, que a pediu vivamente nas parições de Fátima. Não obstante, é fato que, para alguns, é uma atividade enfadonha, devido à sua repetição e monotonia. São Luís Maria Grignion de Montfort fala dos "devotos críticos", o primeiro grupo dos falsos devotos, que vêem nessas práticas populares algo mais adequado à gente simples. Eles, por sua vez, deveriam dar-se a altas contemplações, mais correspondentes à sua dignidade. Este tipo de erro pode surgir em nós quando consideramos, por exemplo, que ler um livro seria algo mais rentável espiritualmente do que rezar o terço. Quaisquer pensamentos neste sentido serão sempre falaciosos. Quando se quer e se organiza o dia, há tempo para tudo. Além disso, está mal orientado quem vive de calcular que tipo de atividade espiritual surtirá mais efeito. Isto torna a oração supersticiosa e somente reforça o ego. A coisa se torna uma espécie de "contra-oração".

Porém, ainda que não caiamos neste erro fundamental, alguns de nós podemos sim, pela nossa própria natureza, encontrar alguma dificuldade na oração do terço. Sta Teresinha de Lisieux relata a sua dificuldade pessoal quanto a isso. E, com ela, vários outros. Eu particularmente, embora consagrado à Virgem pelo método de São Luís Maria, nunca tive na oração do terço algo a que eu me adequasse inteiramente. Sempre é preciso fazer certa violência para que eu possa rezá-lo. E ontem, enquanto meus dedos corriam as suas contas, eu considerei algo desses assuntos e me propus a escrever um texto encaminhado a todos os demais que, como eu, sentem esta dificuldade. Pelo fato de fazermos algo que a nossa natureza não aprecia tanto, é comum que haja distrações, pelo que pode surgir a consideração: "mas adiantará alguma coisa que eu o reze se eu não consigo fazê-lo direito?" Eu gostaria então de dizer algumas coisas que comigo funcionam. São dicas da minha experiência pessoal. Podem não servir para algumas pessoas, mas eu creio que servirão para outras.

DISTRAÇÃO

Qual o valor do terço se eu só me distraio? A primeira coisa é a seguinte: isso não acontece somente com você. Jesus diz nos Evangelhos: "onde está o teu tesouro, aí estará o teu coração". Salvo pessoas muito disciplinadas, é natural que a mente corra para as nossas preocupações pessoais. Há inclusive um mecanismo de defesa em nós que tenta nos proteger de atividades cansativas. É por isso que diante de uma palestra chata o sono aparece. É por isso também que o rosário é por muitos recomendado como remédio contra insônia. Então, como defesa, a mente se ausenta da fonte de cansaço e tenta encontrar algo mais agradável com que se ocupar. Isto é efeito da nossa sensibilidade decaída, e a luta que teremos de travar é natural, mesmo. São Domingos Sávio era um rapazinho muito ativo. Quando rezava, o seu natural o distraía e ele ficava fitando diferentes objetos. Teve de se forçar a manter-se de olhos fechados e o esforço era tamanho que isto lhe causava dores de cabeça.

São Bernardo de Claraval, um tanto quanto enervado pelo fato das distrações, foi consolado por Jesus que lhe disse ser normal: era muito raro alguém rezar uma ave-maria totalmente sem distração. O santo então resolveu fazer um teste. Andando a cavalo, falou com um rapaz que ia à frente: "se você conseguir rezar uma ave-maria inteira sem se distrair, este cavalo é seu." O rapaz, contente e crente de que já tinha ganho o cavalo, começou: "Ave Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco.... mas o cavalo é com sela ou sem sela?" São Bernardo então comprovou o que lhe havia sido revelado.

Portanto, amigo, você não está só. Há inclusive santos em sua companhia. Sabe o que isto significa? Que distrair-se não é motivo para não rezar. O que você não deve fazer é distrair-se voluntariamente. Tampouco deve agitar-se quando perceber a mente divagando, pois a agitação não gera quietude; bem pelo contrário.


TEMPO

Sta Teresa D'Avila dizia que a oração não se faz à força de falar muito, mas de amar muito. Isto significa que o fundamental é ter uma reta disposição e pura intenção. Ela dizia ainda: "a alma enamorada fala disparates com Deus". A atitude pressuposta da oração é, então, fundamental, e tê-la correta já é oração. O tempo reservado para a oração, ainda que não seja tão bem aproveitado segundo os nossos critérios, também já tem seu valor, pois o que interferiu nele foi a nossa fraqueza. Conscientemente, porém, a nossa decisão foi de aproveitá-lo para estar com Deus. E só poderemos melhorar nisso se praticarmos bastante. Ninguém fica bom em uma atividade deixando para executá-la apenas quando for perfeito. O aperfeiçoamento pressupõe o exercício desde os mais baixos graus da indisciplina. 

CONTEÚDO

Quando nos distraímos, as palavras nos saem sem atenção e se tornam como que "flatus vocis", isto é, mero som. Isto se formos seguir uma lógica meramente natural. Na oração, porém, a coisa é mais complexa.

Somada aos pressupostos da reserva do tempo e da reta disposição e intenção está a força própria dos termos da oração. No nosso caso, as orações dos Pai Nossos e das Ave Marias. Ora, sabemos que o Pai Nosso foi a oração ensinada pelo próprio Cristo. A conclusão que se segue é que não importa o nosso grau de atenção e formação teológica ou mística, o significado das palavras transcende sempre a nossa compreensão. O mesmo se diga da Ave Maria, oração que foi recitada pelo próprio Arcanjo Gabriel e por Sta Isabel quando estava cheia do Espírito Santo. Portanto, estas palavras não apenas são expressões de idéias nossas, mas, como palavras divinamente inspiradas, têm uma eficácia própria e podem produzir em nós o seu efeito. Elas poderão gerar na nossa alma o que significam.

Mas, a fim de acompanhar com mais advertência estas orações, convém que observemos palavra a palavra e lhes atribuamos significados simples e diretos. Nestes últimos dias, eu tenho rezado o Pai Nosso do seguinte modo, seguindo de perto São Máximo, Confessor:

Pai Nosso - indica a figura de Deus Pai
Santificado seja o Vosso Nome - o "Nome" aqui indica Jesus
Venha a nós o teu reino - O "Reino" indicaria o Espírito Santo
Seja feita a tua vontade - o significado aqui é claro
Assim na terra como no céu - De novo, um significado óbvio
O Pão nosso de cada dia - Isto indica a Eucaristia
Nos dai hoje - este "hoje" transcende o hoje atual, mas indica o "hoje" da eternidade, ou a imortalidade.
Perdoai as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido - sentido óbvio
Não nos deixeis cair em tentação - temos as nossas fragilidades pessoais. Podemos aqui pensar nelas.
Mas livrai-nos do mal - o mal aqui, como o próprio Catecismo o declara, indica a pessoa de Satanás.
Amém.

Os significados, principalmente da primeira parte, podem mudar. Bento XVI dá outros sentidos à expressão "Vosso Nome", no seu livro "Jesus de Nazaré". Mas é bom que o significado não fique tão aberto. Do contrário, a nossa inteligência não fixará nada.

Agora, convém esclarecer o seguinte: o santo terço não deve ser rezado num processo cíclico de pensamento, passeando literalmente pelo significado de cada palavra da Ave Maria. Este movimento repetitivo é mesmo cansativo à mente, e é não natural. As "dez ave marias" devem servir-nos de "fundo musical" para a contemplação dos mistérios. Por exemplo, se estamos contemplando os mistérios gozosos - os meus favoritos -, os nossos lábios recitam as Ave-Marias enquanto a nossa mente reflete nos fatos contemplados, observando os detalhes e encontrando neles verdades escondidas. Portanto, acompanhar o significado literal dos termos não é importante. Isto permite que a mente diminua consideravelmente a sua inclinação a distrair-se. Isto também permite que o santo terço seja adequado igualmente tanto a pessoas simples quanto a pessoas mais sofisticadas intelectualmente. Os tesouros dos mistérios são inesgotáveis. A cada vez podemos intuir novas verdades.


HUMILDADE

Por fim, fazer a experiência da nossa fraqueza é a matriz mesma de onde surgirá a reta disposição da oração. Olhar para o céu como um necessitado dá consciência da razão de ser da oração. A humildade resultante pode se estabelecer em nós como um hábito, e isto é maximamente importante, pois Deus se revela aos pequenos. A humildade é a porta de abertura para que o contato entre Deus e a alma humana se estabeleça de fato.


MATERNIDADE

A Virgem Maria é também a nossa mãe. Ela sabe que, como crianças, ficamos à procura de satisfações, como um filho que se distrai diante de algum ensinamento dos pais. Ela, como mãe terna e doce que é, poderá educar o nosso coração para que ele amadureça. Muito mais do que nós, ela deseja a nossa santificação. 


EXALAR O PERFUME DE DEUS

O livro dos cânticos traz um belíssimo texto: "Enquanto o Rei descansa em seu divã, eu exalo o seu perfume." Esta expressão é seguida de perto por São Paulo: "nós devemos exalar o bom odor de Cristo." Para que possamos ter em nós este perfume, é preciso permanecer com Ele bastante tempo. Moisés, depois de ficar 40 dias com Deus, desceu do monte e o seu rosto brilhava. Torna-se luminoso quem permanece com a luz. Torna-se "cheiroso" quem permaneceu na presença do Cristo. Só então poderemos exalar este perfume e, então, ele encherá toda a casa. É como dizia Sta Teresinha de Lisieux: "far-me-ei santa; sê-lo-ei depressa. Assim converto-Te os corações." Rezar o terço nos dá esta graça: meditando nos mistérios da vida do Cristo, fazemos-lhe companhia e vamos nos tornando parecidos com Ele. Além de progredirmos tendo-O como um ser extrínseco a nós, somos também formados infusamente, modelados sem que o percebamos. Tal o efeito da oração.

Por isso, não nos esquivemos do rosário. Se nos falta tempo, apenas precisamos dar uma caminhada e levar o terço junto. Essas pequenas diligências nos disporão gradativamente para Deus. Que a Virgem Maria, mãe do Verbo, nos ensine e conduza.

Ainda sobre o Inferno: símbolo do fogo e trevas exteriores


Depois de ter devidamente provado que a própria Bíblia atesta a existência do inferno, vejamos agora mais uma conveniência bíblica de que o inferno seja real.

No texto passado, vimos como o destino eterno dos condenados é referido como "lago de fogo sulfuroso". Outra expressão que sugere uma idéia similar é "Geena" (Mt 5,22,29). Na verdade, este era um lugar físico, fora de Jerusalém, onde eram jogados os lixos, animais mortos, e, depois,  eram incinerados. É obviamente uma comparação que Jesus faz. Os negadores do inferno creem que a analogia se deve ao fato dos corpos físicos - objetos e animais - serem destruídos. Nós, ao contrário, cremos que Jesus utiliza esta figura para simbolizar o estado contínuo do inferno, não no que se refere à destruição, mas à chama.

E aqui fazemos um parêntese: embora haja de fato teólogos e santos que afirmam haver fogo literal no inferno, crer nisto não é essencial à Fé Católica. Não há consenso entre os teólogos a respeito da natureza do inferno, e as revelações dos santos que supostamente visitaram-no se enquadram no campo das revelações particulares que não obrigam a crença individual.

Além disso, quando consideramos o modo como o ser humano conhece, vemos que é complicado que uma pessoa veja sensivelmente realidades espirituais não sensíveis. Expliquemos: o ser humano é um composto substancial de corpo e alma. A alma possui inteligência e vontade, mas opera través da substância material, que são os órgãos físicos e os sentidos. Assim, a fim de inteligirmos algo, é necessário que o processo se inicie nos sentidos que apreendem as "espécies sensíveis" ou "imagens" dos entes corporais; em seguida, estas espécies são encaminhadas à imaginação e retidas pela memória. Até aí elas continuam sendo realidades singulares, isto é, individuais. Isto significa que tudo quanto temos na imaginação são realidades físicas. Mesmo que juntemos espécies sensíveis distintas compondo entes inexistentes, ainda assim estes entes terão uma figura física. Pois bem: desta matéria prima captada pelos sentidos e depositada na imaginação, a inteligência, agora uma faculdade espiritual, retira, num processo chamado "abstração", as "espécies inteligíveis", os dados universais que estavam "vestidos" pelos traços individuantes. É destes traços universais que virá o conceito ou definição das coisas. Isto significa que o ente humano não pode conhecer, por si mesmo, seres que não sejam materiais, a não ser por comparação com os entes físicos. Desse modo, há um claro limite cognoscitivo, o que faz com que Deus, querendo revelar ao homem realidades suprassensíveis, tenha de as adaptar ao conhecimento sensível humano. Assim, mesmo as visões dos santos e místicos deve necessariamente ter um caráter analógico. O que se conclui disso? Que não é possível dizer, a princípio, que no inferno exista fogo literal.

Agora, o fogo visto pode ter - e tem - um caráter simbólico. Mesmo um fogo literal cumpriria uma função: a submissão de um ente inteligente e espiritual a um elemento material e irracional, o que seria um remédio perpétuo para o orgulho humano. Além disso, o fogo pode meramente simbolizar a inquietude e o sofrimento que, no inferno, são contínuos. O escritor Joseph Pieper dizia que no inferno não há nem silêncio nem música, mas só barulho, isto é, não há a quietude da cessação nem a ordem da harmonia, mas apenas a agitação contínua e ruidosa, perpetuação das desordens da paixão que dominaram a pessoa em vida, efeito da animalidade à qual se submeteu durante sua estadia na terra.

O fogo, segundo o simbolismo antigo e medieval, também é composto de duas características: é seco e é quente. A sequidão é o princípio da fixidez, da não fluidez. O quente é o princípio da fragmentação, da não coesão. O fogo, portanto, poderia simbolizar a dureza dos entes fragmentados, isto é, que não alcançaram a sua coesão interior, e que permanecem nesta condição, o que significa que os condenados manifestariam uma espécie de personificação do estado de guerra. Nada mais adequado, portanto, que o fogo para servir-lhes de símbolo.

Contudo, nem sempre o inferno é referido, na Bíblia, como um lugar de fogo. Com efeito, lemos em 2Pe 2,4 o que segue:

"Pois se Deus não poupou os anjos que pecaram, mas os precipitou nos abismos tenebrosos do inferno onde os reserva para o julgamento..."

Aqui o inferno aparece como "abismos tenebrosos", isto é, lugar onde habitam as trevas. Inferno, aí, tem o sentido de "lugar inferior" em oposição ao "lugar superior", o Céu. Como, porém, o Céu não é uma realidade material e, portanto, é não-espacial, também o "lugar inferior" ou "inferno" pode ser o símbolo de um estado inferior contrário ao celeste, e não exatamente um lugar. A Escritura diz que o demônio, depois do pecado, foi enviado à terra. Se se quiser tomar "inferno" como lugar literal, então talvez tivéssemos de fazer a identificação entre a terra e o inferno. Estariam corretos os que dizem que "o inferno é aqui", hehe.. A coisa complica ainda mais se considerarmos que Paulo, referindo-se a estes que foram precipitados "nos abismos tenebrosos do inferno", habitam nos ares (Ef 6,12). Além disso, qualquer protestante tende a aceitar que os demônios têm liberdade suficiente para tentar os cristãos, o que indica que os abismos onde estão precipitados não é exatamente um lugar.

O Inferno é, portanto, o contrário da beatitude celestial, isto é, um estado de alma. Do mesmo modo, as trevas do inferno são o oposto da luz divina. O que se nota, porém, é que, embora estejam reservados para um futuro julgamento, os anjos decaídos - que chamamos "demônios - habitam desde já nestes estados, o que significa que estas trevas não são um símbolo da sua destruição.

Porém, o próprio Jesus usa o exemplo das trevas para simbolizar o castigo dos proscritos depois do julgamento. Vamos ver?

"Por isso, eu vos declaro que multidões virão do Oriente e do Ocidente e se assentarão no Reino dos céus com Abraão, Isaac e Jacó, enquanto os filhos do Reino serão lançados nas trevas exteriores, onde haverá choro e ranger de dentes." (Mt 8,11-12)

Quando Jesus conta a parábola da festa das bodas do filho do Rei, inclui um personagem que está sem a veste nupcial. Qual será o destino deste sujeito?

"Amarrai-lhe os pés e as mãos e lançai-o nas trevas exteriores. Ali haverá choro e ranger de dentes." (Mt 22,13)

Falando do servo mau e preguiçoso que enterrou o talento ao invés de tê-lo ao menos colocado no banco para correr juros, Jesus, referindo-se à Sua volta, diz:

"E a esse servo inútil, jogai-o nas trevas exteriores; ali haverá choro e ranger de dentes." (Mt 25,30)

Eu estou pegando de propósito somente trechos de Mateus, pois se citasse autores diferentes alguém poderia objetar a diferença de estilos e de símbolos. Mas se é só um autor, fica evidente a intenção dele.

Notem que os trechos acima sempre relacionam o "choro e ranger de dentes" às "trevas exteriores". Agora, observem a seguinte relação:

"O Filho do homem enviará seus anjos, que retirarão de seu Reino todos os escândalos e todos os que fazem o mal e os lançarão na fornalha ardente, onde haverá choro e ranger de dentes." (Mt 13, 41-42)

"Assim será no fim do mundo: os anjos virão separar os maus do meio dos justos e os arrojarão na fornalha, onde haverá choro e ranger de dentes." (Mt 13,49-50)

O que é que se nota aí? Mateus faz uma relação evidente entre "trevas exteriores" e "choro e ranger de dentes". Depois, ele faz o mesmo com "fornalha ardente" e "choro e ranger de dentes", o que indica que "trevas exteriores" e "fornalha ardente" sejam a mesma coisa. Obviamente que a idéia de "trevas exteriores" não sugere destruição.

Como vimos na afirmação de Pedro, as "trevas exteriores" ou "lugares tenebrosos", ou, ainda, "profundezas das trevas" (2Pe 2,17), onde estão os demônios desde já, não simbolizam a destruição literal. Logo, a "fornalha ardente" tampouco a simboliza.

Daqui surge naturalmente a questão: se os demônios já esperam no lugar tenebroso pelo julgamento, o que mudará ao serem julgados se se está dizendo que eles permanecerão neste lugar?

Antes, porém, de respondê-la, notemos o seguinte: Jesus, em Jo 16,11, afirma que o juízo, do qual o Espírito Santo nos convencerá, é o de que o "príncipe deste mundo", isto é, o demônio, "já está julgado e condenado".

Se já está julgado e condenado porque haveria um julgamento também dos demônios no fim dos tempos? Será que o texto quer dizer que apenas Lúcifer já está julgado e condenado e que os demais demônios podem ser ainda inocentados? Obviamente que não. Isto indica que o Juízo Final é um juízo de confirmação e de exposição das obras de cada pessoa - humana ou angélica - a fim de, depois, determinar-lhe justa punição. Os demônios, nesta ocasião, perdem todo o poder de causar mal aos outros, sendo, dentre todos, os que mais sofrerão. Do mesmo modo, os ressurretos para a perdição terão acrescido, pelo fato de estarem agora com seus corpos, o sofrimento de que padecerão pela eternidade.

Papa oferece perdão às mulheres que fizeram aborto - Como é?!


Mais uma vez, como sempre, a mídia instrumentaliza a fala do Papa para sugerir "inovações", "mudanças morais", uma igreja "mais inclusiva", e várias outras idéias que unem a falsidade com o potencial sensacionalista. Vamos ver o que o Papa falou de verdade? Comentamos depois:

"Um dos graves problemas do nosso tempo é certamente a alterada relação com a vida. Uma mentalidade muito difundida já fez perder a necessária sensibilidade pessoal e social pelo acolhimento de uma nova vida. O drama do aborto é vivido por alguns com uma consciência superficial, quase sem se dar conta do gravíssimo mal que um gesto semelhante comporta. Muitos outros, ao contrário, mesmo vivendo este momento como uma derrota, julgam que não têm outro caminho a percorrer. Penso, de maneira particular, em todas as mulheres que recorreram ao aborto. Conheço bem os condicionamentos que as levaram a tomar esta decisão. Sei que é um drama existencial e moral. Encontrei muitas mulheres que traziam no seu coração a cicatriz causada por esta escolha sofrida e dolorosa. O que aconteceu é profundamente injusto; contudo, só a sua verdadeira compreensão pode impedir que se perca a esperança. O perdão de Deus não pode ser negado a quem quer que esteja arrependido, sobretudo quando com coração sincero se aproxima do Sacramento da Confissão para obter a reconciliação com o Pai. Também por este motivo, não obstante qualquer disposição em contrário, decidi conceder a todos os sacerdotes para o Ano Jubilar a faculdade de absolver do pecado de aborto quantos o cometeram e, arrependidos de coração, pedirem que lhes seja perdoado. Os sacerdotes se preparem para esta grande tarefa sabendo conjugar palavras de acolhimento genuíno com uma reflexão que ajude a compreender o pecado cometido, e indicar um percurso de conversão autêntica para conseguir entender o verdadeiro e generoso perdão do Pai, que tudo renova com a sua presença."
Fonte: Vaticano

Voltamos. Como vê quem sabe ler, não há aí nenhuma espécie de relativização do pecado nefando do aborto. Ele costuma sendo o que é: assassinato de infantes. E continua gerando o que gera: excomunhão automática. Quando uma mulher comete aborto - e com ela todos quantos a apoiaram, induziram, ajudaram, etc. - ela é imediatamente excluída da Igreja, isto é, deixa de ser católica, ainda que ninguém o saiba! A pertença à Igreja não se resume a ter um lugar num dos bancos do templo, ou a poder assistir missas. É antes de tudo uma comunhão espiritual que dá acesso aos sacramentos através dos quais a pessoa participa da vida divina.

Pois bem. Antes, quando uma dessas excomungadas, tendo tomado consciência da burrada que fez, e, cheia de arrependimento, decidia voltar à Igreja, o que ela precisava fazer? Ela tinha de recorrer ao bispo ou a algum padre especialmente delegado por ele. Então ela se confessava e, desde que tivesse as devidas disposições, recebia a absolvição e voltava a fazer parte da Igreja, mas não sem portar ainda as grandes penas decorrentes do ato.

O que mudou agora com o pronunciamento do Papa Francisco para o ano da misericórdia? Somente que não será mais necessário recorrer diretamente ao bispo, sendo suficiente que a pessoa se confesse com qualquer sacerdote legitimamente ordenado. Mas continuam valendo as precondições anteriores: as retas disposições que incluem o arrependimento sincero - efeito da compreensão do pecado -, a detestação do ato cometido e o firme propósito de não mais praticá-lo. Além disso, esta possibilidade existe apenas durante o ano da Misericórdia.

É verdade de Fé que qualquer pecado, por mais grave que seja, tem perdão se a pessoa verdadeiramente se arrepende. Isto não é exceção sequer para o aborto, e nem mesmo para o sacrilégio. Portanto, não há tanta novidade assim no pronunciamento do Papa. Ele apenas facilitou um pouco o acesso às pessoas arrependidas. Mas aqueloutras que queiram gozar do perdão da Igreja sem um verdadeiro arrependimento, ou, ainda, qualquer uma que se aproveite deste ato de misericórdia da Igreja para cometer este crime que clama aos céus, pretendendo facilmente confessar-se depois, estará cavando sob si mesma o próprio buraco para o inferno, pois une um crime abominável com o pesadíssimo ato do sacrilégio. Portanto, que a misericórdia de Deus não seja pretexto para mais infanticídios. E, de outro lado, que as pessoas que chegaram um dia a cometer este ato absurdo sejam de fato tocados pelas graças atuais de Deus e, verdadeiramente arrependidas, voltem ao seio da Santa Igreja.

PME de União dos Palmares sem Gênero II - Aprovação das emendas e aditivos


Ontem, dia 31 de Agosto de 2015, ocorreu, na Câmara de vereadores aqui da cidade, uma sessão para a aprovação das emendas e aditivos feitos ao Plano Municipal de Educação. E este mês combativo se fechou com chave de ouro: não somente as expressões nas quais constava o termo "gênero" foram retiradas, como também foi proibida qualquer menção do tema nas aulas, nos materiais didáticos e paradidáticos, nos debates, nos seminários, nos concursos de redação, etc. Ou seja: estamos, de fato, livres - ao menos juridicamente - desta armadilha satânica.

Contudo, assim como ocorreu no Plano Nacional de Educação, no qual foram inseridos, à revelia do acordado no Senado Federal, os termos referentes a gênero, assim também é comum que, fazendo vista grossa ao que foi determinado, e supondo-se os maiores representantes da democracia e da sociedade esclarecida, as autoridades educacionais voltem a forçar a barra e a incluir a ideologia "por baixo dos panos", o que já é o modus operandi dessa turma. De fato, já há vários livros didáticos que trazem a temática. Portanto, a luta não termina aqui. Ela permanece enquanto vigilância e, quando necessário, luta aberta.

Mas, por ora, estamos felizes porque a luta valeu a pena. Hoje o PME, tal qual aprovado pela Câmara, é enviado para a prefeitura e terá um prazo de quinze dias para a sanção do prefeito. Julgamos que não haverá veto, mas, em havendo, ele volta à casa legislativa do município e, aí, os vereadores poderão derrubar o veto do prefeito desde que dez vereadores estejam de acordo, o que nos parece, também, que, se for o caso, não haverá problemas, uma vez que eles foram unânimes na retirada das menções de gênero.

Agora, nos unimos à luta de Maceió que nesta sexta feira realizará uma audiência pública para o debate do tema. Neste intuito, pedimos orações de todos os amigos. Que, enfim, esta luta chegue a um resultado vitorioso; que Deus cuide das crianças e não permita que ideólogos levianos pervertam a inocência dos infantes.

Fábio

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