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A morte espiritual e o retorno à vida


O Homem possui duas vidas, e pode morrer duas vezes. Isso nada tem que ver com a crença tola na reencarnação. Me refiro à vida física e à vida espiritual ou da graça. Quando Adão foi criado, ele possuía a vida natural - que o tornava imagem de Deus - e a vida da graça - que o tornava semelhança de Deus. Havia sido advertido de que não comesse do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal pois no dia em que dela comesse certamente ele morreria. Ocorre que Adão comeu e, porém, ainda viveu quase mil anos. Uma leitura superficial e imediata concluiria que Deus errou no profetizar a morte imediata de Adão após a queda. Ou isso ou será preciso recorrer a hermenêuticas esquisitas para encontrar na expressão "no dia" uma metáfora mais esquisita ainda.

A morte de que se fala é a morte espiritual que, então, não indica uma cessação da vida orgânica, mas a perda de um vínculo que unia o homem a Deus e sobrenaturalizava as suas ações, dispondo-o para a consumação da visão beatífica, o ver Deus face a face. Com o Pecado, o homem perdeu sua semelhança com Deus e a sua alma, antes luminosa, encheu-se de trevas.

Esta Queda foi ocasião de uma intervenção ainda mais direta de Deus. Para salvar o homem, vendo-o impedido de salvar a si mesmo, de sair da vala na qual tinha caído, Deus assume a natureza humana - corpo e alma - e se entrega em Sacrifício, corrigindo o antigo erro. A angústia e fidelidade de Jesus no jardim do Getsêmani corrigem a traição no jardim do Éden. Aquilo que, neste último, terminou com a expulsão dos nossos primeiros mais, culminará no esponsal divino com os homens.

Se a primeira mulher foi ocasião de Queda, agora será dada aos homens uma segunda, nascida já do lado aberto da fidelidade consumada do Cristo dormido na cruz, e, portanto, geradora de fidelidade nos homens: a Igreja. Quanto ao fruto proibido, é dito que a mulher, vendo-o de agradável aspecto, tomou-o e comeu-o. Já o fruto desta nova árvore, Jesus dá-o antecipadamente aos Apóstolos que igualmente "tomam e comem", "tomam e bebem": a Santíssima Eucaristia.

O Salmo da Quinta Feira Santa nos diz que "é sentida por demais pelo Senhor a morte dos seus santos, seus eleitos." Sendo que a alma humana é imortal, a morte física é apenas uma passagem. Isso, obviamente, embora seja um mal - visto que não é natural que a alma exista separada do corpo -, não o é de todo. Nesta ordem atual de coisas, os santos desejam morrer para estar com Deus. É o que Paulo deseja quando escreve que prefere partir. Parece-me que a morte aí referida é, antes, a morte espiritual, a perda da graça, aquela mesma que ocasionou a encarnação e a morte de Jesus.

Todos nós podemos perder a vida da alma. Basta que cometamos um pecado mortal. Neste sentido, Sta Teresa D'Avila escreve que este é o único mal de fato digno deste nome porque ameaça de condenação eterna a pobre alma. Cito-a:

"Antes de passar adiante, quero dizer-vos que considereis o que será ver este castelo tão resplandecente e formoso (que é a alma), esta pérola oriental, esta árvore de vida que está plantada nas mesmas águas vivas da Vida, que é Deus, quando cai em pecado mortal. Não há trevas mais tenebrosas, nem coisa tão escura e negra que ela o não esteja muito mais. Basta saber que, estando até o mesmo Sol, que lhe dava tanto resplendor e formosura no centro de sua alma, todavia é como se ali não estivesse, para participar d'Ele, apesar de ser tão capaz de gozar de Sua Majestade, como o cristal o é para nele resplandecer o sol. Nenhuma coisa lhe aproveita; e daqui vem que todas as boas obras que fizer, estando assim em pecado mortal, são de nenhum fruto para alcançar glória; porque, não procedendo daquele princípio que é Deus, do qual vem que a nossa virtude é virtude, e apartando-nos d'Ele, não pode a obra ser agradável a Seus olhos; porque, enfim, o intento de quem faz um pecado mortal, não é contentar a Deus, senão dar prazer ao demônio o qual, como é as mesmas trevas, assim a pobre alma fica feita uma mesma treva." (Castelo Interior)

Eis, pois, que a treva, numa espécie de paródia da luz, enquanto esta é união divina, aquela é união com o demônio. Isto significa que a alma que peca mortalmente se torna de tal modo apartada de Deus que, em certo sentido, consegue fugir da Onipresença, isto é, esquivar-se dos raios do amor divino, e atar-se ao que é inferior. O pecado mortal é o despencar do in excelsis para o in infieris. Isto, obviamente, não se dá literalmente - no sentido espacial nem no afastamento ontológico de Deus -, uma vez que Deus persiste em trazê-la - à alma - através das graças atuais. Mas o centro da alma, tomado assim de rebeldia, tende a resistir-Lhe e fazer-se de cego e surdo diante dos Seus apelos. Porém, se Deus lamenta assim a morte dos Seus, infinitamente maior que o lamento é o gozo que Ele experimenta quando vê um filho Seu voltar à vida. Assim como chorou quando da morte de Lázaro, sem dúvida sorriu quando lhe trouxe de novo à vida. Isto significa que poderemos compensar os destratos aos quais submetemos o coração divino nos colocando novamente sob os influxos da Sua paixão, e isto se dá no Confessionário. Na primeira queda, havia um anjo de espada flamejante que protegia o jardim para que ninguém lá voltasse. Deste novo jardim, os porteiros são os padres, e basta que deixemos para trás o veneno que trazíamos para que as mãos sacerdotais, como que empunhando espadas divinas, ajam no próprio centro da nossa alma extirpando de lá o pus da infecção e tornando-nos novamente vivos. Acorramos aos confessionários, pois a glória de Deus é o homem vivo.

Fogo e sangue, cruz e renúncia.


"Os ritos, as manifestações de respeito para com o culto, o próprio dízimo, as oferendas sobre o altar, e a contribuição para o culto, tudo isso se conjuga sem grande dificuldade com uma vida segundo o Mundo. Mas Cristo é uma chama que passeia pela nossa alma e devora toda a nossa substância: 'vim trazer fogo à Terra'. É de fogo, e de sangue, de cruz, de renúncia, que se trata. O amor dá a sua vida. Fogo e sangue, cruz, renúncia."

Pe. Jaques Leclercq

Respondendo ao Adventismo do Sétimo Dia


Tradução de Fábio Silvério

Há duas distintas reivindicações principais do Adventismo do Sétimo Dia que separam-no do resto do Cristianismo:

1. Primeiro, que os cristãos devem manter o Sábado, o Sabbath, santo. Eles se opõem ao culto no Domingo, argumentando que é contra os Dez Mandamentos e anti-escriturístico em geral.

2. Segundo, que a fundadora do Adventismo do Sétimo Dia, Ellen G. White, foi uma profetiza.

O site oficial dos Adventistas do Sétimo Dia declara:

Um dos dons do Espírito Santo é a profecia. Este dom é uma marca identificatória da igreja remanescente e foi manifestado no ministério de Ellen G. White. Como mensageira do Senhor, seus escritos são uma continuante e autorizada fonte de verdade que provê para a igreja conforto, orientação, instrução e correção.

Mas como nós logo veremos, White não era profetiza, e seus trabalhos estão cheios de erros. Vejamos dois de seus maiores argumentos sobre o Sabbath, ambos de seu supostamente-inspirado livro, O Grande Conflito.


I. Quando a Adoração no Domingo começou?

A primeira das idéias que eu quero considerar é a afirmação de White de que todos os cristãos primitivos mantiveram o verdadeiro Sabbath pelos primeiros séculos do Cristianismo:

Nos primeiros séculos o verdadeiro Sabbath foi mantido por todos os Cristãos. Eles eram zelosos pela honra de Deus, e, acreditando que Sua lei é imutável, eles zelosamente guardaram a sacralidade de seus preceitos.

(Ellen G. White, O Grande Conflito, p.52)

Então isso significa que, pelo menos, nós deveríamos ver cada singular cristão cultuando no Sábado por pelo menos dois séculos (já que "primeiros séculos" deve significar pelo menos dois). Agora leia o que São Justino Mártir escreveu em 150 A.D., em sua Primeira Apologia:

E no dia chamado do Sol, todos que vivem nas cidades ou no interior se juntam em um lugar, e as memórias dos apóstolos ou os escritos dos profetas são lidos, tanto quanto o tempo permite; depois, quando o leitor termina, o presidente instrui oralmente, e exorta à imitação destas dos coisas. Então nós todos nos levantamos juntos e rezamos, e, como dissemos antes, quando nossa oração termina, pão e vinho e água são trazidos, e o presidente de modo semelhante oferece orações e agradecimentos [a palavra grega aqui é Eucaristia], de acordo com sua habilidade, e as pessoas assentem, dizendo Amém; e há uma distribuição para cada um, e uma participação daqueles sobre os quais foram feitas ações de graças, e para aqueles que estão ausentes uma porção é enviada pelos diáconos. E aqueles que estão aptos, e querem, dão o que cada um julga cabível; e o que é coletado é depositado com o presidente, que socorre os órfãos e viúvas e aqueles que, por causa da doença ou qualquer outra causa, estão em falta, ou aqueles que estão presos e os estranheiros peregrinos em nosso meio, e em uma palavra cuida de todos os que precisam.
Mas Domingo é o dia em que nós todos temos nossa assembléia em comum, porque é o primeiro dia em que Deus, tendo agido nas trevas e matéria, fez o mundo; e Jesus Cristo nosso Salvador no mesmo dia ressurgiu dos mortos. Pois Ele foi crucificado no dia anterior ao de Saturno [que é o dia antes do Sábado]; e no dia depois do de Saturno, que é o dia do Sol, tendo aparecido aos Seus apóstolos e discípulos, Ele os ensinou estas coisas, que nós temos submetido a vocês também para sua consideração.

Então, bem, dentro dos primeiros séculos do Cristianismo, o culto no Domingo já era praticado. E note que Justino não descreve isto como alguma inovação. Ele está explicando a não cristãos como é a prática do cristão básico, e o culto no Domingo é já a normal para "todos" em 150. Para alguém que alega ser um profeta, White é incapaz de apresentar a verdade mesmo sobre este ponto básico do Sábado.

Surpreendentemente, estudiosos do Adventismo do Sétimo Dia admitem que ela está errada neste ponto. Dr. Samuele Bacchiocchi, talvez o maior estudioso adventista, escreveu:

Os primeiros documentos mencionando o Domingo como dia de culto recuam até Barnabé em 135 e Justino Mártir em 150. Assim, é evidente que o Domingo como dia de culto já estava estabelecido pelo meio do segundo século. Isto significa que para ser historicamente preciso o termo "séculos" deveria ser mudado para o singular "século". Esta simples correção aumentaria a credibilidade d'O Grande Conflito, porque é relativamente fácil defender a observância geral do Sabbath durante o primeiro século, mas é impossível fazer isto a partir do segundo século.

Em outros termos, as palavras da alegada profetiza são verdadeiras, desde que você mude as palavras. Isto soa como um modo educado de dizer que Ellen White é uma falsa profetiza.

Mas e quanto ao argumento de Bacchiocchi de que enquanto adoração no Domingo existia no segundo século, ela não existia no primeiro? Ele está fazendo um argumento de silêncio. É uma tática comum que eu tenho visto ser usada por protestantes na defesa de seus pontos de vista. Se você mostra que Inácio acreditava que a Eucaristia é o Corpo e o Sangue de Cristo em 107 A.D., eles responderão que a Igreja deve ter tomado isto de um modo simbólico até 106. É claro que este tipo de argumento é ridículo. Se você vai fazer um argumento de silêncio, o mais forte argumento é que nenhuma mudança na doutrina ou prática aconteceu - porque se uma mudança de doutrina tivesse acontecido, nós veríamos uma evidência disso. Se cristãos de repente (globalmente) começassem a fazer o culto no Domingo ao invés do Sábado, alguém não teria mencionado isto em algum lugar?


II. Quem mudou o Sábado para o Domingo?

O segundo argumento de White é que foi o imperador Constantino que mudou o dia de culto do Sábado para o Domingo. Isto está na p. 553 do livro que eu acabei de citar, O Grande Conflito:

Na primeira parte do quarto século, o Imperador Constantino assinou um decreto fazendo do Domingo um festival público em todo o Império Romano. O dia do sol foi reverenciado por seus súditos pagãos e foi honrado pelos Cristãos; isto foi uma política do imperador para unir os interesses conflitantes do paganismo e Cristianismo. Ele foi pressionado a isto pelos bispos da Igreja, os quais, inspirados pela ambição e sede de poder, perceberam que se o mesmo dia fosse observado por ambos cristãos e pagãos, isto promoveria a nominal aceitação do Cristianismo pelos pagãos e assim aumentaria o poder e a glória da Igreja.

Nós já sabemos que isto é falso: que os cristãos sempre fizeram o culto no Domingo muito antes de Constantino. Mas o que é interessante é que White teve uma segunda e contraditória profecia. Você vê, ela também disse que foi o grande, mau papa, não Constantino, que mudou a data do Sábado para o Domingo. Assim, por exemplo, em Primeiros Escritos de Ellen Gould White, nós lemos sua descrição de uma visão que ela afirma ter tido em 1850:

O papa mudou o dia de descanso do sábado para o primeiro dia. Ele pensou em mudar o próprio mandamento que foi dado para causar no homem a lembrança do Criador. Ele pensou em mudar o maior mandamento no decálogo e assim fazer a si mesmo igual a Deus, ou até exaltar-se acima de Deus.

Disto, ela entende que o papa é o Anticristo. Em uma visão anterior de 1847, ela diz:

Eu vi que o Sábado não foi cravado na cruz. Se fosse, os outros nove mandamentos teriam sido; e nós estaríamos em liberdade para ir adiante e quebrá-los todos, bem como quebrar o quarto. Eu vi que Deus não mudou o Sábado, pois Ele nunca muda. Mas o Papa mudou-o do sétimo para o primeiro dia da semana; pois ele estava para mudar os tempos e as leis.

É tentador dizer isto: ela claramente é uma falsa profetiza. Adventistas do Sétimo Dia acreditam que o Sabbath seja no Sábado por causa dos ensinos de White e suas profecias. Ambos são demonstravelmente falsos. Ela não tinha idéia do que a história do Sabbath de fato era, e contou do seu jeito. O que eu achei chocante é que, por outro lado, estudiosos Adventistas estão conscientes de que White estava errada tanto em seu trabalho de ensino quanto em suas profecias, e ainda assim eles fazem vista grossa. Este é Bacchiocchi de novo:

Surpreendentemente até alguns de nossos líderes evangelistas acreditam, na base das afirmações de Ellen White, que o Domingo começou a ser o dia de culto na primeira metade do quarto século quando os líderes da Igreja forçaram Constantino a promulgar em 321 a famosa Lei do Domingo.
Esta visão popular expôs nossa Igreja às mais indesejáveis críticas. Estudiosos não adventistas e líderes da Igreja como Dr. James Kennedy acusam nossa Igreja de ignorância crassa, por ensinar que o Domingo começou a ser observado no quarto século, quando há evidências históricas irrefutáveis que colocam sua origem dois séculos antes.
Eu gastei horas sem conta explicando ao Dr. James Kennedy e a professores que viram os recentes programas da NET satélite que esta visão popular adventista não reflete o ensino adventista. Nenhum estudioso adventista tem ensinado jamais ou escrito que a observância dominical começou no quarto século com Constantino. Uma compilação de provas é o simpósio O Sábado na Escritura e na História produzido por 22 estudiosos adventistas e publicado pela Review and Herald em 1982. Nenhum dos estudiosos adventistas que contribuíram para o simpósio sequer sugeriu que a observância dominical começou no quarto século.

Então, uma vez que eles examinaram as evidências, mesmo os especialistas adventistas percebem que os escritos de Ellen White são cheios de erros. Questão óbvia: se este é o caso, porque continuam adventistas?

A Igreja Adventista do Sétimo Dia inteira está desacreditada porque:

(a) declara Ellen White uma profetiza, quando ela claramente não o é;
(b) declara seus escritos uma fonte autorizada da verdade, quando eles claramente não o são; e
(c) continua, com sua missão distintiva, a celebrar o Sabbath no Sétimo Dia, Sábado. Mesmo o nome da igreja é baseado nessa missão, ainda que a missão esteja fundada numa história falsa, falsa profetiza, e em má exegese bíblica.

Não é como se White estivesse errada em apenas alguns detalhes menores. Ela erra nos fatos básicos do coração da doutrina dos Adventistas, e isto é óbvio. Já passou da hora dos Adventistas se desfazerem de Ellen White e voltaram para casa na ortodoxia do Cristianismo.

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Atualização: Checando o post de Brent Stubb em Constantine and the Catholic Church, ele cita Sto Inácio de Antioquia, escrevendo em cerca de 107-110, e que diz:

Se, todavia, aqueles que se converteram da antiga ordem de coisas e tomaram posse de uma nova esperança não mais observam o Sábado, mas, vivendo na observância do Dia do Senhor, no qual também a nossa vida se levantou novamente por Ele e por Sua morte - ao qual alguns negam, pelo mistério pelo qual nós obtivemos a Fé, e assim persistimos, para que nós possamos ser achados os discípulos de Jesus Cristo, nosso único Mestre - como nós poderemos ser capazes de viver separados d'Ele, cujos discípulos os profetas eles mesmos no Espírito esperaram por Ele como Seu Mestre?

Então na primeira década do segundo século, o Domingo já era o dia de assinalar que os Cristãos acreditavam em Jesus como o Messias, e em Sua Ressurreição. Então até o argumento de Bacchiocchi de que o culto cristão no sábado existiu pelos primeiros anos do Cristianismo é falso. E é incrivelmente improvável que esta prática fosse nova no tempo de Inácio. Desde que o Apóstolo João morreu cerca do ano 100 A.D., se poderia pensar que ele teria se pronunciado contra o culto no Domingo, se isto fosse verdadeiramente uma violação do Evangelho. Ao menos, é claro, que ele tivesse tomado uma parte massiva na conspiração de Constantino/Papa. É claro, nós também vemos a observância dominical em lugares como Atos 20,7, então não há razão para ver nisto qualquer outra origem que não a apostólica.

Atualização 2: Brock, nos comentários, cita a Didache, que foi provavelmente escrita do meio para o fim do primeiro século... isto é, ao mesmo tempo que o Novo Testamento. Isto fecha a questão na idéia de que os primeiros cristãos eram adoradores dominicais.

"Mas em todo Dia do Senhor reúnam-se juntos, e partam o pão, e dêem graças [Eucaristia] depois de terem confessado suas transgressões, para que o seu sacrifício seja puro. Mas não deixe ninguém que esteja em desacordo com o seu amigo vir junto com vocês até que eles estejam reconciliados, para que o seu sacrifício não seja profanado. Pois isto é o que falou o Senhor: em todo lugar e tempo ofereçam-me um sacrifício puro; pois eu sou um grande Rei, diz o Senhor, e meu nome é maravilhoso entre as nações."

Boa pegada, Brock! Eu poderia acrescentar que o trecho inteiro trata da necessidade da confissão, da Liturgia Eucarística sendo um Sacrifício, etc. - tudo incrivelmente Católico.

Isto é a moral


Pe Jacques Leclercq

O Homem encaminha-se para o bem total, para o necessário, para o único, para Deus, na multiplicidade do contingente e através dela. É através de todos estes bens contingentes, não-necessários - que são bens e que podem ser perfeições, não sendo nenhuma delas o bem, nem podendo tornar-se a perfeição - que abro o meu caminho para o bem e para a perfeição.

Isto é a moral. A moral é a regra por que me encaminho para o necessário pelo contingente, para Deus pelas criaturas. Dirige a multiplicidade do meu amor à unidade do seu fim. Dá a fórmula por que me sirvo da multiplicidade dos bens exteriores para atingir o bem absoluto.

Sob este ponto de vista, a primeira regra da moral é viver pelo espírito, porque é o espírito que vê a verdade e o bem no ser. Poderia mesmo dizer-se, remontando mais alto, que é o espírito que vê o ser no ser. O espírito vê, assim, os seres absolutos nos seres contingentes, a verdade e o bem absolutos nas verdades e nos bens contingentes. Só o espírito pode conduzir o contingente ao necessário, compreender de que maneira e em que medida o contingente conduz ao necessário e de que maneira o Homem pode ir para o necessário, para o uno, através do múltiplo.

A maior parte das virtudes morais não tem outro fim além do de libertar o espírito da matéria, a fim de permitir coordenar o uso dos bens contingentes com esta busca da unidade. Primeiro unificando-se a si mesmo, unificando a ação nesta busca do uno, e depois, servindo-se de quanto nos rodeia.

Certas virtudes, como a humildade e a prudência, ou como a fé no plano sobrenatural, estão centradas na visão do verdadeiro; outras, como a fortaleza e, no plano sobrenatural, a caridade, estão centradas na busca do bem, umas mais intelectuais, outras mais voluntárias. As virtudes intelectuais sem vontade fazem espíritos clarividentes que não realizam o que vêem; as virtudes voluntárias sem inteligência fazem naturezas generosas que não realizam o bem por falta de clarividência. A perfeição do Homem está na coordenação de todas as virtudes, unidade de multiplicidade.

Quando o espírito está livre da paixão, quando a vontade dirige a vida no sentido em que o espírito o indica, e as paixões intensificam a ação ao serviço do espírito, o Homem torna-se capaz de se unificar na procura de Deus. Pelas suas próprias forças, o Homem pode identificar-se de certa maneira com Deus, identificando a sua vida com a vontade divina manifestada na Natureza. Para isso, deve conhecer a Deus tanto quanto o seu espírito pode conhecê-lo. Conhecer a Deus é conhecer o uno e ver o absoluto no relativo.

Identificar-se com a virtude divina manifestada na Natureza é escolher entre os bens aqueles que permitem desenvolvermo-nos plenamente, e se há vários, escolher um que se utilize até o fim. Na medida em que nos tornamos perfeitos, conhecemos a Deus e compreendemos que é o bem e a beleza. Esta única compreensão, ainda que abstrata, enche o espírito de uma alegria que ultrapassa qualquer outra.

Mas Deus não abandona o Homem a si mesmo. Ao Homem que empreende a conquista da sua perfeição, Cristo traz-lhe pela sua redenção uma vida realmente divina. Então o Homem já se não identifica unicamente com Deus pela identificação da sua ação com a vontade divina, mas possui a Deus e goza de Deus segundo um modo que é para nós misterioso, que é puro dom gratuito de Deus e que eleva a criatura a uma plenitude de ser e de felicidade realimente inexprimível. 

E eis aqui toda a regra de vida.

LECLERCQ, Jacques. Diálogo do homem e de Deus. 6 ed, Coimbra: Casa do Castelo, 1965. p.107-109.

Quaresma - tempo de mortificação


Os católicos observamos a Quaresma como um tempo de preparação para a Páscoa. A princípio, viu-se a necessidade de uma preparação de três dias, que se tornou o que hoje chamamos de "tríduo pascal". Mas, pela enormidade do significado, os cristãos acharam por bem aumentar o tempo de preparação, e estabeleceram o sugestivo número de quarenta dias. 40 é um número que aparece recorrentemente na Bíblia, e indica sempre um período delimitado que é como que uma tensão preparatória para algo. O símbolo maior desta preparação se dá no jejum que Jesus, inspirado pelo Espírito, faz no deserto e que antecede o começo da sua vida pública.

Toda preparação busca desenvolver os meios necessários para aquilo que se vai executar. Assim, Jesus jejua e é tentado pelo demônio. Na quaresma, nós somos convidados a jejuar, fazer mortificações, e enfrentar os nossos demônios. O deserto é, já, um lugar difícil, áspero, escasso em objetos de satisfação. Portanto, é o lugar propício para o combate. Não à toa, é o lugar para onde Deus leva Israel a fim de falar-lhe ao coração. No deserto da quaresma, Deus deseja também falar-nos e nos preparar para o esponsal que Ele mesmo realizará, não mais no deserto, mas num jardim, sobre uma árvore frondosa cujos frutos anularão os efeitos do pecado: a árvore da Cruz.

Quero neste texto meditar um pouco sobre o significado das mortificações. Quase ninguém insiste nisso, hoje, e a pregação dos padres se resume, no mais das vezes, à dimensão política. A Campanha da Fraternidade, posta durante a quaresma, também não ajuda. Esta desatenção às mortificações é profundamente prejudicial. A Igreja sempre declarou, nos seus santos e doutores, que estas são não somente uma recomendação, mas uma necessidade para a vida espiritual, de modo que quem não se mortifica não avança. Os santos, que são os verdadeiros representantes do cristianismo, foram dela muito amigos e não dispensavam oportunidades de praticá-la. Dada, então, a sua importância essencial na vida cristã, falemos dela.

Mortificar significa fazer morrer alguma coisa. Há em todos nós forças internas que nos impelem para a direção contrária à que deveríamos seguir. Todos nós sabemos disso por experiência: nós somos gulosos, luxuriosos, egoístas, violentos, orgulhosos, vaidosos, preguiçosos, covardes, dissolutos. A mera tomada de consciência dessas coisas não é, contudo, suficiente para nos fazer mudar. Uma coisa é conhecer o que eu deveria ser e não sou, e outra muito diferente é ter a força de me tornar isso que eu deveria ser. São Paulo apóstolo descreve, de modo formidável, o drama pelo qual passa todo filho de Adão que intenta conformar-se ao Cristo: 

"Porque bem sabemos que a lei é espiritual; mas eu sou carnal, vendido sob o pecado. Porque o que faço não o aprovo; pois o que quero isso não faço, mas o que aborreço isso faço. E, se faço o que não quero, consinto com a lei, que é boa. De maneira que agora já não sou eu que faço isto, mas o pecado que habita em mim. Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem algum; e com efeito o querer está em mim, mas não consigo realizar o bem. Porque não faço o bem que quero, mas o mal que não quero esse faço. Ora, se eu faço o que não quero, já não o faço eu, mas o pecado que habita em mim. Acho então esta lei em mim, que, quando quero fazer o bem, o mal está comigo. Porque, segundo o homem interior, tenho prazer na lei de Deus; mas vejo nos meus membros outra lei, que batalha contra a lei do meu entendimento, e me prende debaixo da lei do pecado que está nos meus membros." (Rm 7,14-23)

Vemos aqui que o pecado é como uma lei interna nossa, e, além disso, Paulo lhe atribui autoria pelo pecado, como se ele fosse um falso eu em nós. Qualquer perspectiva espiritual que não perceba isso tudo é mera ilusão. Daí se vê a puerilidade de certos discursos que atribuem o não ser santo a apenas uma questão de falta de vontade, de "safadeza" pessoal, como se o "participar da natureza divina" estivesse ao alcance do homem. Ledo engano. Nós não somos auto-suficientes, e, além do fato de a santidade estar infinitamente acima dos nossos esforços naturais, nós sequer sabemos o que seja um santo antes de nos tornarmos um. Assim, mesmo que tivéssemos a força necessária - o que não é mesmo o caso -, não poderíamos nos dar aquilo que não conhecemos. É uma contradição trivial.

A santidade, junto com as virtudes teologais, nos é dada por Deus. Não há outra fonte. E devemos mesmo desesperançar de querer produzi-la por nossos meros esforços. O que fazer, então? Dissemos que a santidade nos é dada por Deus, e, sendo esta a nossa vocação e a razão mesma da nossa existência, é claro que Deus deseja dá-la a todos os homens. E por que não o faz? Porque não encontra a devida abertura na nossa alma. Não há espaço em nós para que Deus aja, e isto porque estamos vivendo ainda sob a lei do pecado e estamos inchados de egoísmo. O que fazer, então? Felizmente a nossa natureza não está de todo estragada. A luz da inteligência ainda dá conta de perceber verdades fundamentais, e a vontade, devidamente informada, pode ainda dispender certos esforços necessários para que a ação de Deus se dê. Contudo, nada é fácil.

O problema fundamental é o seguinte: desde que nascemos, estamos viciados no prazer, o que nos torna egoístas. Abraçamos o que nos agrada, rejeitamos o que nos desagrada, e assim atribuímos às coisas e pessoas como que uma segunda natureza, que ofusca a sua identidade verdadeira, e, assim, falseia a nossa visão de todas elas, inclusive de nós mesmos. Este vício começa bem antes de tomarmos consciência do problema. Logo, temos dele anos e anos de prática. Como o prazer é manipulável, aprendemos a provocá-lo, a intensificá-lo e a mediar as nossas relações sempre com vistas nele. O nosso eu se torna, assim, o eixo da nossa existência; se torna um ídolo que se fortalece na medida em que sacrificamos valores, coisas e pessoas no seu altar. Esta centralidade do ego é o que se chama egoísmo. E é importante frisar: quando nos percebermos egoístas, já o teremos sido por muito tempo. Assim, não é a simples tomada de consciência e o desejo de deixar de sê-lo que serão suficientes para resolver o caso. Pelo contrário, se não cuidarmos, será bem capaz que o próprio desejo de sermos bons e santos tenha por motivação última o próprio egoísmo. No lusco-fusco da nossa alma, tateando entre sutilezas e obscuridades, vamos errando no caminho qual estrelas perdidas, e se confiarmos em nossa própria cegueira, cairemos, infalivelmente, no buraco; teremos fracassado.

O que fazer, então? Duas coisas: a primeira é pedir ajuda a Quem pode nos ajudar, que é Deus, e a segunda é fazer o pequeno papel que nos cabe. Falemos um pouco da primeira.

Pedir ajuda a Deus não se resume a rezar. Nosso Senhor estabeleceu meios objetivos para que participássemos daquilo que Ele nos conseguiu na Cruz. Aquilo que Ele conseguiu foi a Graça divina, e os meios objetivos são os Sacramentos. Sem a força da Graça propiciada pelos sacramentos todo o projeto de santidade é apenas um projeto mal orientado.

O que nos cabe fazer é rezar e nos mortificar. Como nós temos essa busca natural pelo prazer, que sempre nos limita e nos condiciona, a mortificação, com vistas a nos devolver a liberdade de uma ação mais correta, buscará atacar o eu a partir de desconfortos voluntários ou da aceitação de desconfortos involuntários, o que nos dará as mortificações ativa e passiva.

O princípio do prazer espraia-se em tudo quanto fazemos: amizades, trabalho, ocupações diversas, oração, etc,: tudo está como que abrangido por ele. Costumamos chegar atrasados no trabalho ou ficamos felizes se saímos antes da hora porque o nosso ego não se agrada de que lhe sejam impostas obrigações. Se rezamos, gostamos de sentir Deus e procuramos ativamente por ficarmos em paz, às vezes reduzindo as nossas orações - ou as intensificando - precisamente quando estamos necessitados. Sempre é o nosso eu quem dita. Sempre é a nossa vontade a nossa verdadeira senhora. Quando nos mortificamos, nos impomos desprazeres, e nos acostumamos ao desconforto, começa a acontecer uma coisa estranha em nós. A princípio, será só tédio, impaciência, desconfiança, desatenção, cansaço, angústia. Mas, se perseveramos, a melhora se segue ao amargor do remédio. Vamos percebendo que estávamos como que bêbados e sonolentos - nem isto sabíamos! -, e agora a consciência meio que acorda e passa a luzir num outro nível. Contornos sutis da realidade, antes despercebidos, se revelam qual um degradê de montanhas sequenciadas que estavam encobertas pela névoa da concupiscência. A cor postiça que impúnhamos aos entes empalidece e a cor real, subjacente à nossa ilusão, desponta. Não apenas as coisas se revelam, mas as relações entre elas também se tornam visíveis, e o próprio gosto nelas presente, uma vez que tenhamos aprendido o desapego e a fruição desinteressada, se dá a nós sem esquivas. Estes são efeitos que estão ao alcance mesmo de uma ascese natural, não necessitando ainda da Graça santificante para serem experimentados. Mas é claro que tais efeitos não serão imediatos.

Além do efeito anticoncupiscência e seu ulterior despertar - que se dá como iluminação da inteligência -, a mortificação revigora a vontade que andava enfraquecida sob os ditames da sensibilidade e do desejo. Aquele "outro" que nos habita, e que era testemunhado por São Paulo como autor do mal, perde terreno e o nosso verdadeiro eu, antes desmaiado nalguma sarjeta interior, recupera os sentidos e lhe passa a exercer maior resistência, podendo, aos poucos, tomar-lhe as rédeas. Isto libera certas energias da alma, o que dá à existência um grande senso de vitalidade e inclusive melhora a saúde e aprimora o caráter. Ao contrário do que dizem por aí, que pessoas mortificadas são sujeitos cabisbaixos e sem gana, é uma vida permissiva e dissoluta que mina a disposição e gera timidez, tristeza, angústia e fraqueza.

Por fim, a mortificação faz a pessoa perceber o seguinte: se eu desejo algo e, não obstante, eu o renuncio, como que se cria entre o desejo e o eu um espaço, e este espaço torna evidente que o eu não é o desejo. Quando deixo de me identificar aos meus desejos, aos meus apegos, aos meus caprichos, poderei encontrar, sob os escombros desses movimentos automáticos, a sede da minha liberdade e a minha verdadeira identidade subjacente. Perceberei que não é uma relação óbvia que um desejo engendre uma ação, pois o desejo pode me surgir como um estranho, uma espécie de rebelião interna a que é preciso pacificar. Não é outra coisa a "noite dos sentidos", de São João da Cruz. Uma vez que a "casa está sossegada", o verdadeiro eu assume liberdade e seus movimentos ficam desimpedidos. Isto permite uma satisfação de um nível totalmente superior, e é esta satisfação, resultante da saúde da alma e da sua operação em correspondência à sua natureza espiritual, que pode ser corretamente chamada de alegria. Não é que o prazer cessa de existir; reencaixado na santidade, ele até será mais intenso, enquanto que desprovido de seus apelos desordenados. Ele será também não um fim das ações, mas um acompanhante, um efeito de uma vida reta, ordenada, e reconciliada com a realidade.

Quarta feira de Cinzas - Significado das Cinzas


Queremos antes de tudo corrigir um equívoco uma vez propagado aqui pelo blog: Não. Hoje, Quarta feira de cinzas, não é dia de preceito. Não obstante, é altamente recomendável que o católico vá à Santa Missa. Além do sugestivo sinal das cinzas, e da recepção do Sacratíssimo Corpo do Senhor, é também o início formal da Quaresma. Nada melhor do que adentrar neste tempo forte e santo da Igreja participando do Sacrifício e Banquete do Senhor, e comendo, como dizia Sta Teresa Benedita da Cruz, o "pão seco dos fortes".

"Mas qual o significado das cinzas?", alguém pode perguntar. "Esses católicos inventam muita coisa". Desde o Antigo Testamento, as cinzas sempre foram apresentadas como sinal de penitência. Os habitantes de Nínive, ao ouvirem a pregação de Jonas, se arrependem e fazem penitência, inclusive o rei, vestindo-se de sacos e cobrindo-se de cinzas. (Jn 3,5-6) Mardoqueu, no livro de Ester, ao saber do decreto do Rei Asuer I que condenava à morte todos os judeus do império, veste-se de saco e cobre-se de cinzas implorando o favor divino. (Est 4,1) Jó, quando arrependido, faz o mesmo. (42,6) Também Daniel, suplicando a Deus, impõe-se o cilício e se reveste de cinzas (Dn 9,3). Por fim, Jesus igualmente faz referência ao uso das cinzas em Mt 11,21.

Vê-se que o seu uso está grandemente fundamentado nas Escrituras e indica um claro sinal de arrependimento, de contrição, de súplica pela misericórdia divina. Assim, nada mais apropriado do que ser reutilizado no início da Quaresma, tempo por excelência de conversão.

Além deste significado, as cinzas também encerram a idéia da finitude e efemeridade da vida. Quando o padre no-las impõe à festa, ele diz a fórmula: "porque és pó e em pó te hás de tornar." A consciência da finitude, do limite, da não auto-suficiência é um realismo necessário sem o qual não há vida espiritual. "Deus resiste aos soberbos", diz a Escritura. Portanto, o pressuposto da conversão é a humildade. A cinza, sendo o resto daquilo que era vivo - são os restos das palmas usadas na celebração de ramos do ano anterior -, antecipa o destino humano. Torna presente aquilo que infalivelmente será a sua sorte. Ela traz à consciência a célebre fórmula de Salomão: "Vaidade das vaidades, tudo é vaidade." Ao desesperançar do que vai debaixo do sol, a alma se abre àquilo que está acima do efêmero, à "Beleza tão antiga e tão nova", Àquele que, por transcender o tempo, renova todas as coisas, inclusive o nosso coração.

Mas lembremos que o cinza é também uma cor, e, como tal, ocupa um lugar entre o preto e o branco. O preto, sendo ausência de cores, foi entendido pela Igreja como um símbolo da morte - ausência de vida - ou com as trevas exteriores. O preto assim pode simbolizar aquilo que está fora da via de salvação. Um primeiro movimento em direção a Deus seria a tomada de consciência da distância d'Ele e o arrependimento. Este primeiro passo espiritual marca o trânsito entre o preto e o branco. A primeira saída do preto em direção ao branco gera o cinza. Assim, o cinza se torna, também pelo simbolismo das cores, o sinal do início de uma mudança que, por ser só início, é disposição do coração, arrependimento. "Rasgai os vossos corações", diz Deus, "e não as vestes". O coração é o que há de mais íntimo no homem, em oposição às vestes, que são aquilo que está aparente. Nesta Quaresma, peçamos ao Senhor que a nossa conversão seja verdadeira, e não meramente exterior. Que a Virgem Santíssima caminhe conosco. Pax.

Fábio

A Igreja é Santa - Scott Hahn


Scott Hahn

Frequentemente o Novo Testamento fala da Igreja em termos de santidade. A Igreja é uma "nação santa" (1Pd 2,9). É a esposa de Cristo (Ef 5,31-32). É o "templo do Deus vivo" (2Cor 2,12). Como anteriormente mencionamos, a Igreja é o santo Corpo de Cristo.

Os membros da Igreja são "fiéis consagrados" (At 9,13; 1Cor 6,1), ou "santos", dependendo da tradução da Bíblia que você usa.

O conceito de santidade é central para uma religião bíblica, ou seja, para aquela que se baseia tanto no Antigo quanto no Novo Testamento. O profeta Daniel previu que "os santos do Altíssimo receberão o reino e o possuirão para sempre" (Dn 7,18).

A palavra hebraica para santidade é kiddushin que, literalmente, significa "separado", reservado para um propósito especial, como o Templo está colocado à parte de outras construções, como o Shabbat é reservado frente aos outros dias, e como uma esposa é "separada" para seu noivo (de fato, kiddushin pode significar "casamento" também). O povo santo de Deus é aquele que Ele criou à parte de todo o resto da criação, para ser a coroa da Sua criação, Sua maior glória na criação; não simplesmente Suas criaturas ou Seus servos (o que já seria uma grande honra), mas Seus amados filhos e filhas.

A Igreja é santa porque ela compartilha da Sua vida divina. Como Corpo de Cristo, a Igreja possui e distribui a própria vida de Cristo. Seus membros são santos porque, pelo Batismo, são "participantes da natureza divina" 92Pd 1,4). Este é o significado da graça: uma partilha da vida do próprio Deus.

As pessoas que a Igreja honra como "santos" são aqueles que correspondem, de forma exemplar, à graça de Deus. Muitas vezes, esta graça se manifestou em sinais exteriores como uma vida heroicamente virtuosa, a morte de um mártir, ou até mesmo com a ocorrência de grandes milagres.

Mas aqui precisamos ter cautela. Atualmente, muitas pessoas equiparam santidade com uma mera justiça ou com um bom comportamento, mas que não significa a mesma coisa, embora suas qualidades devam coexistir na mesma alma (esse é o significado literal de "justificação" e "santificação". Somos "feitos justos" e "santos"). A santidade é a vida divina, a vida de Cristo reproduzida na existência e na morte do santo. No mártir, a santidade é reproduzida de uma forma vívida e preeminente. E é esta a vida de Cristo que centelha nossa reverência e temor.

A Igreja antiga venerava os mártires, como atesta o Novo Testamento (Hb 11,35-38; Ap 6,9-11). Os cristãos posteriores veneravam ainda outro grupo além dos mártires. Em tempo, alguns autores diriam que tal grupo viveu uma espécie de "martírio brando", não morrendo de uma violência gloriosa, mas morrendo para si mesmos, em silêncio, no decorrer normal de suas vidas. Este grupo era composto de cristãos que tinham renunciado a uma vida normal em favor de Cristo e do Seu reino; tratava-se dos membros celibatários da Igreja e das virgens consagradas.

Jesus elogia os celibatários como aqueles "que se fizeram eunucos por causa do Reino do Céu" (Mt 19,12). No mundo antigo, os eunucos eram homens castrados nas cortes reais, muitos dos quais guardavam o harém do rei (ver, por exemplo, At 8,27 e uma nota de rodapé em sua Bíblia). Por serem incapazes de ter relações sexuais eram confiáveis para atender às questões do Estado, sem as distrações ou tentações que poderiam assolar outros ministros do rei. Mas Jesus não se refere a estes eunucos físicos. Ele explica que, na Nova Aliança, haverá homens celibatários que renunciam ao sexo e ao casamento para guardar a Igreja, a verdadeira noiva do Rei dos reis. Jesus conclui que tal ofício não é para qualquer um, mas "quem puder entender, que entenda" (Mt 13,12).

São Paulo dedica grande parte de um capítulo, na primeira Carta aos Coríntios, aos cuidados com as virgens (cap. 7). Enquanto Paulo afirma os benefícios do casamento, repetidas vezes, ele volta à superioridade do celibato (vv 1, 7, 8, 27-35, 38, 40), citando sua própria experiência pessoal. O livro do Apocalipse apresenta as virgens e os celibatários como aqueles que já estão vivendo como se estivessem no céu, livres para seguir a Cristo: "para aqueles que são castos; aqueles que seguem o Cordeiro aonde quer que Ele vá. Foram resgatados do meio dos homens e foram os primeiros a serem oferecidos a Deus e ao Cordeiro" (Ap 14,4). De fato, o próprio Jesus enfatizou o celibato como uma condição da vida celeste (cf. Mt 12,25); e Paulo falou das virgens consagradas como "aquelas que tiram partido deste mundo, como se não desfrutassem, porque a aparência deste mundo é passageira" (1Cor 7,31).

Durante os primeiros séculos do Cristianismo, a Igreja continuou a observar e venerar a virgindade e o celibato, frenquentemente invocando os precedentes do Novo Testamento. Além disso, um apologista cristão dos primórdios, chamado Santo Afraates, observou que o celibato não é uma bênção somente do Novo Testamento, mas também no Antigo. Ele ressaltou que a abstinência temporária era uma condição da santificação de Moisés em Israel (Ex 19,10.15), e que Josué, Jeremias, Elias e Eliseu eram celibatários -, Jeremias por ordem explícita do Senhor (Jr 16,2). Também era costume para os sacerdotes de Israel que se abstivessem de relações conjugais normais durante o serviço no santuário.

Nada disso implica que o sexo e o casamento sejam maus ou de alguma forma "sujos". O celibato é sagrado precisamente por causa do valor do que é sacrificado. Ninguém tentaria consagrar lixo colocando-o sobre o altar; assim, o casamento e o sexo são belas dádivas do nosso bondoso Deus. E os cristãos, até mesmo os profetas e sacerdotes pré-cristãos, estavam dispostos a abrir mão de algo bom pelo bem de Alguém melhor; estavam dispostos a abster-se de relações - o que, novamente, é a maior definição de santidade - como um sinal da santidade, da kiddushin, do casamento de Deus com Sua esposa, a Igreja.

Este sinal de santidade é proeminente nas Escrituras. Foi também em toda parte na Igreja antiga e medieval, e mesmo em épocas posteriores. Hoje eu consigo pensar somente numa Igreja Cristã onde esse sinal de santidade é tão proeminente, e esta é a Igreja Católica Romana. O celibato não é uma soma de santidade, mas sim um importante sinal, e um sinal bíblico no qua todos os outros sinais - justiça, milagres, fidelidade - se unem em plenitude.

HAHN, Scott. Razões para crer. São Paulo: Ed Cléofas, 2015. p.87-90.

Homilia de Santo Efrém sobre o Natal


Hoje, Maria, ao levar a divindade, se tornou para nós céu; e Cristo, sem deixar a glória paterna, se encerrou nos apertados limites do ventre materno, para exalçar os homens à dignidade mais elevada. Escolheu só esta Virgem, dentre todas as virgens, para instrumento de nossa salvação.

Nela se realizaram todos os vaticínios de todos os justos e profetas. Dela própria saiu aquele esplendidíssimo astro sob cuja guia o povo que andava em trevas viu grande luz. (Is 9,2)

De diversos nomes pode ser Maria acertadamente designada. E, com efeito, é ela o templo do filho de Deus que dela saiu de modo diverso do que entrou, pois no ventre entrara sem corpo e dele saíra revestido de nossa humanidade.

É ela o místico novo céu (Ap 21,1) em quem habitou, como em sua sede, o Rei dos reis, e donde baixou à terra, levando diante de si forma e semelhança terrenas. É ela a videira de frutificação de suave odor (Ecle 24,23), cujo fruto, embora diferente da natureza da árvore, dela devia ter tomado algo semelhante.

É ela a fonte que brota (Joel 3,18) da casa do Senhor da qual jorraram para os sedentos águas vivas que matarão a sede para sempre (Jo 4,13) de todo aquele que apenas com os lábios as tiver provado.

Erra, portanto, caríssimos, quem julga poder comparar-se o dia de hoje de reparação ao da criação! E, de fato, no princípio, a terra foi criada; hoje, foi renovada. No início, dado o crime de Adão, foi maldita por causa da obra dele (Gn 3,17); hoje, porém, a paz e a segurança lhe foi restituída. No início, pelo delito dos  primeiros pais, a morte passou a todos os homens (Rm 5,12); hoje, no entanto, por Maria, passamos da morte à vida (1Jo 3,14) No início, a serpente penetrou nos ouvidos de Eva, donde o veneno infeccionou todo o corpo: hoje, Maria deu ouvidos à afirmação da felicidade perpétua. O que, portanto, fora de morte passou a ser, ao mesmo tempo, instrumento de vida.

Aquele cujo trono assenta sobre os querubins (Sl 98,1) ei-lo sentado nos braços de uma mulher; aquele que o mundo todo não encerra, só Maria o abraça; aquele que os tronos e as dominações reverenciam, a donzela acaricia; aquele cuja sede se acha nos séculos dos séculos (Sl 44,7), eis que se senta nos joelhos virginais; a terra é escabelo de seus pés, tocando-a com as plantas dos pés infantis.

Ó feliz e afortunado Adão, que, ao nascer o Senhor, recobrou a honra e o esplendor perdidos! Felicíssimos mortais que, vasos de ira para a morte (Rm 9,22) lhe deram o revestimento da própria argila! Redirei felicíssimos aqueles a quem foi dado ver o fogo de nossos corações envolto em seus paninhos!

Tamanhas coisas fez Deus para corrigir a estultície de um só homem! Visto que o servo caíra pela própria soberba, o Senhor o levantara em sua humildade.

Demos, pois, irmãos caríssimos, graças a Deus Pai que, para remir servos, entregou o próprio Filho. Exaltemos igualmente a Jesus com os máximos louvores, pois curou com tanta felicidade as feridas dos homens. E, por fim, veneremos piamente o Espírito de ambos, que nos foi dado (Rm 5,5) para que tenhamos a vida e a tenhamos em abundância. (Jo 10,10)

Santo Efrém, Doutor da Igreja. Sermão III de diversis.

Qualidades para a gravidade do pecado


As condições para que um pecado possa ser qualificado como mortal ou venial são três: Matéria, Consciência e Liberdade. Explico:

A Matéria é a situação específica, se foi grave ou não, se se roubou ou se se mentiu, se houve ou não agravantes, etc. Assim, uma mentira pode ser venial ou mortal a depender das circunstâncias ou das consequências. Tais circunstâncias ou consequências são agravantes. Uma coisa é mentir a idade apenas por vaidade; outra é menti-la para que se obtenha um benefício, como um emprego; outra, ainda, é dissimulá-la a fim de isentar-se de um serviço obrigatório.

A consciência é naturalmente a auto-percepção de estar a fazer algo errado. Um ato errado sem consciência obviamente não pode ser culpabilizado. Se eu aperto um botão crendo que ele irá libertar animais presos, e, no entanto, o que ele faz é detonar uma bomba numa escola infantil, eu não posso ser culpado pelas consequências uma vez que não tinha consciência delas. Óbvio que se pode aqui questionar se tal ignorância é ou não culpável. Isto envolve um outro exame. Mas, a rigor, se faltou consciência, a culpa não pode ser aplicada. É o caso de pessoas que se casam e, depois de muitos anos, percebem que são parentes de primeiro grau. Neste caso, a culpa não lhes é imputada.

Por fim, a liberdade é a livre decisão de fazer ou não o ato referido. Roubar é errado. Porém, a gravidade da fome ou da pobreza dos parentes pode minorar - sem tornar lícito, frise-se - este ato. Do mesmo modo, certas compulsões mentais tiram ao sujeito a liberdade de agir de um modo diferente. A necessidade do ato torna-o, novamente, isento de culpa, ainda que a pessoa tivesse consciência da imoralidade do feito. Suponhamos ainda que alguém tem fobia por aranhas e está num hospital de idosos em que o silêncio é necessário. Ao ver o objeto temido, a descarga de ansiedade lhe faz gritar, e isto causa um incômodo considerável nos velhinhos, fazendo inclusive com que alguns precisem ser atendidos. Se estava em posse da pessoa não gritar, o fato de ter gritado torna-se culpável. Mas se não lhe era possível não fazê-lo, então ela não pode ser responsabilizada. Deve ser, obviamente, retirada do ambiente, mas não tem culpa. Algo similar ocorre com a blasfêmia: se feita livremente, é pecado gravíssimo. Se feita num momento de crise, a culpa pode ser minorada. Se feita porque alguém nos pôs uma arma na cabeça e ameaçou disparar se não blasfemássemos, a culpa poderá ser até nula.

Há, porém, um outro componente que julgo importante constar para que se avalie a moralidade de uma ação: é a intenção. Uma pessoa pode ter consciência de que um ato é mau, pode estar livre para fazê-lo, pode querer fazê-lo, mas ainda assim pode ter uma intenção que não é má. É o caso, por exemplo, de quem, conhecendo as regras da Igreja sobre o estado de graça necessário à comunhão, decide, num momento de inspiração, arriscar, fazer um ato de confiança cega na misericórdia divina, e tomar a santíssima espécie. Esta situação parece mais frequente do que se imagina. É claro que isto não a isenta da gravidade do ato, mas consideremos que uma coisa é que ela vá a comungar com a intenção de cometer um sacrilégio, e outra, muito diferente, é a de que esteja a fazer um ato extremado de Fé. Vê-se como a intenção é importante para uma justa avaliação dos atos. E os santos insistem particularmente nisto: a pureza de intenção. Pode-se, porém, esclarecer que, no exemplo citado, a consciência da pessoa está reduzida, uma vez que, embora conheça os ditames da Igreja, parece neles não confiar de todo, o que implica uma falta de consciência. Assim, nos casos em que a intenção é boa mas a ação não o é, tem-se um caso de ignorância, e, como dissemos, há que se investigar as causas desse defeito para se descubra se há culpa pessoal nisso ou não. Assim, embora a intenção só não seja suficiente para a moralidade de um ato, ela tampouco é dispensável.

Maquiadores do crime


Lenin dizia que, quando você tirou do adversário a vontade de lutar, já venceu a briga. Mas, nas modernas condições de “guerra assimétrica”, controlar a opinião pública tornou-se mais decisivo do que alcançar vitórias no campo militar. A regra leninista converte-se portanto automaticamente na técnica da “espiral do silêncio”: agora trata-se de extinguir, na alma do inimigo, não só sua disposição guerreira, mas até sua vontade de argumentar em defesa própria, seu mero impulso de dizer umas tímidas palavrinhas contra o agressor.

O modo de alcançar esse objetivo é trabalhoso e caro, mas simples em essência: trata-se de atacar a honra do infeliz desde tantos lados, por tantos meios de comunicação diversos e com tamanha variedade de alegações contraditórias, com freqüência propositadamente absurdas e farsescas, de tal modo que ele, sentindo a inviabilidade de um debate limpo, acabe preferindo recolher-se ao silêncio. Nesse momento ele se torna politicamente defunto. O mal venceu mais uma batalha.

A técnica foi experimentada pela primeira vez no século XVIII. Foi tão pesada a carga de invencionices, chacotas, lendas urbanas e arremedos de pesquisa histórico-filológica que se jogou sobre a Igreja Católica, que os padres e teólogos acabaram achando que não valia a pena defender uma instituição venerável contra alegações tão baixas e maliciosas. Resultado: perderam a briga. O contraste entre a virulência, a baixeza, a ubiqüidade da propaganda anticatólica e a míngua, a timidez dos discursos de defesa ou contra-ataque, marcou a imagem da época, até hoje, com a fisionomia triunfante dos iluministas e revolucionários. Pior ainda: recobriu-os com a aura de uma superioridade intelectual que, no fim das contas, não possuíam de maneira alguma. A Igreja continuou ensinando, curando as almas, amparando os pobres, socorrendo os doentes, produzindo santos e mártires, mas foi como se nada disso tivesse acontecido. Para vocês fazerem uma idéia do poder entorpecente da “espiral do silêncio”, basta notar que, durante aquele período, uma só organização católica, a Companhia de Jesus, fez mais contribuições à ciência do que todos os seus detratores materialistas somados, mas foram estes que entraram para a História – e lá estão até hoje – como paladinos da razão científica em luta contra o obscurantismo. (Se esta minha afirmação lhe parece estranha e – como se diz no Brasil – “polêmica”, é porque você continua acreditando em professores semi-analfabetos e jornalistas semi-alfabetizados. Em vez disso, deveria tirar a dúvida lendo John W. O’Malley, org., The Jesuits: Cultures, Sciences, and The Arts, 1540-1773, 2 vols., University of Toronto Press, 1999, e Mordecai Feingold, org., Jesuit Science and the Republic of Letters, MIT Press, 2003).

Foi só quase um século depois desses acontecimentos que Alexis de Tocqueville descobriu por que a Igreja perdera uma guerra que tinha tudo para vencer. Deve-se a ele a primeira formulação da teoria da “espiral do silêncio”, que, em extensa pesquisa sobre o comportamento da opinião pública na Alemanha, Elizabeth Noëlle-Neumann veio a confirmar integralmente em The Spiral of Silence: Public Opinion, Our Social Skin(2ª. ed., The University of Chicago Press, 1993). Calar-se ante o atacante desonesto é uma atitude tão suicida quanto tentar rebater suas acusações em termos “elevados”, conferindo-lhe uma dignidade que ele não tem. As duas coisas jogam você direto na voragem da “espiral do silêncio”. A Igreja do século XVIII cometeu esses dois erros, como a Igreja de hoje os está cometendo de novo.

A sujidade, a vileza mesma de certos ataques são plenejadas para constranger a vítima, instilando nela a repulsa de se envolver em discussões que lhe soam degradantes e forçando-a assim, seja ao silêncio, seja a uma ostentação de fria polidez superior que não tem como não parecer mera camuflagem improvisada de uma dor insuportável e, portanto, uma confissão de derrota. Você não pode parar um assalto recusando-se a encostar um dedo na pessoa do assaltante ou demonstrando-lhe, educadamente, que o Código Penal proíbe o que ele está fazendo.

As lições de Tocqueville e Noëlle-Newman não são úteis só para a Igreja Católica. Junto com ela, as comunidades mais difamadas do universo são os americanos e os judeus. Os primeiros preferem antes pagar por crimes que não cometeram do que incorrer numa falta de educação contra seus mais perversos detratores. Os segundos sabem se defender um pouco melhor, mas se sentem inibidos quando os atacantes são oriundos das suas próprias fileiras – o que acontece com freqüência alarmante. Nenhuma entidade no mundo tem tantos inimigos internos quanto a Igreja Católica, os EUA e a nação judaica. É que viveram na “espiral do silêncio” por tanto tempo que já não sabem como sair dela – e até a fomentam por iniciativa própria, antecipando-se aos inimigos.

A única reação eficaz à espiral do silêncio é quebrá-la – e não se pode fazer isso sem quebrar, junto com ela, a imagem de respeitabilidade dos que a fabricaram. Mas como desmascarar uma falsa respeitabilidade respeitosamente? Como denunciar a malícia, a trapaça, a mentira, o crime, sem ultrapassar as fronteiras do mero “debate de idéias”? Quem comete crimes não são idéias: são pessoas. Nada favorece mais o império do mal do que o medo de partir para o “ataque pessoal” quando este é absolutamente necessário. Aristóteles ensinava que não se pode debater com quem não reconhece – ou não segue – as regras da busca da verdade. Os que querem manter um “diálogo elevado” com criminosos tornam-se maquiadores do crime. São esses os primeiros que, na impossibilidade de um debate honesto, e temendo cair no pecado do “ataque pessoal”, se recolhem ao que imaginam ser um silêncio honrado, entregando o terreno ao inimigo. A técnica da “espiral do silêncio” consiste em induzi-los a fazer precisamente isso.
Olavo de Carvalho, disponível aqui.

Artista espanhol profana hóstias consagradas publicamente - Assine a petição contra!


Este sujeito alega que conseguiu 248 hóstias consagradas em diferentes igrejas enquanto ia comungar. Como se não bastasse já esta extrema profanação, ele as usa para formar o nome "Pederastia", junto com fotos vexatórias.

Assine a petição para que este ser aberrante seja detido.


Meu Deus, eu creio, adoro, espero e amo-vos..
Peço-vos perdão por aqueles que não creem, não adoram, não esperam e não vos amam.

Beber álcool é pecado?

Judeus degustando um mé...

É surpreendente que algumas correntes protestantes considerem que a mera ingestão de álcool seja um pecado. Mas é fácil demonstrar que não é.

Primeiramente, recordemos que Paulo recomenda a Timóteo um pouco de vinho (1Tm 5,23), no caso de que precise como remédio. A objeção aqui é fácil: "mas é um caso de saúde". O leitor pense, então, se consegue imaginar Paulo recomendando um pecado por questão de saúde. Os mártires do Antigo Testamento doavam a vida apenas para não ingerir carne de porco. Veja o caso dos macabeus. Morriam violentamente para não transgredir a lei. Se álcool fosse proibido, os judeus não fabricariam vinho. Porém, há casos descritos em que o vinho do templo era ingerido e provocava a embriaguez.

Além disso, lemos em Provérbios 31:6:

"Dai a bebida forte àquele que desfalece e o vinho àquele que tem amargura no coração: que ele beba e esquecerá sua miséria e já não se lembrará de suas mágoas."

A frase está no imperativo. Está longe de ser uma proibição. Vamos mais?

O caso mais claro é o do Evangelho. Jesus é convidado para um casamento, as famosas bodas de Caná.

A primeira coisa: é uma festa religiosa. Jesus e Maria vão. O vinho que então se consumia tinha álcool: embriagava. Tanto é que quando Jesus realiza o milagre, o chefe dos serventes disse: "É costume servir primeiro o vinho bom e, depois, quando os convidados já estão quase embriagados, servir o menos bom. Mas tu guardaste o vinho melhor até agora." (Jo 2,10)

Aqui há que se notar o seguinte:

1- O vinho (alcoólico) falta, e é um problema.
2- Maria fala com Jesus e Jesus resolve.
3- O vinho de Jesus é melhor ainda que o primeiro.

Os que são contra qualquer consumo de bebida alcoólica gostam de dizer, contra toda evidência, que o que Jesus deu foi suco de uva. Ocorre que o mero suco de uva não tem o sabor característico do vinho fermentado. Logo, não teria sido possível dizer que era um vinho melhor. Depois, se Jesus comparece a uma festa onde o vinho consumido era alcoólico, e Ele não estranha, é porque consumir vinho alcoólico não tem problema. Por fim, se era uma festa judaica, então é prova suficiente que o consumo de vinho não era problema para os judeus, e, tampouco, para Jesus.

Isso significa, então, que tá liberado geral? Óbvio que não. O mal está no excesso, que provoca a embriaguez. Assim, o consumo de álcool seria legítimo dentro dos limites da temperança. Também o contato com as mulheres é advertido. No mesmo capítulo de Provérbios que o supracitado, lemos: "Não dês teu vigor às mulheres e teu caminho àquelas que perdem os reis". (v.3) Alguém poderia aqui querer indicar que o contato com mulheres deve ser proibido, o que é obviamente nonsense. O que se recomenda é o cuidado, a prudência, o manter o juízo. O mesmo se deve fazer com a bebida. O seu excesso é que provoca ruína. Mas, como diz o ditado, o abuso não tolhe o uso.

É certo que os nazireus e os sacerdotes de Israel eram proibidos de consumirem bebidas alcoólicas, mas em função da sua função (e mesmo assim podiam em certa ocasião: Nm 6,20). Essa, no entanto, não era uma proibição para todo mundo.

Vamos a mais uns trechinhos:

"Comprarás ali com esse dinheiro tudo o que te aprouver, bois, ovelhas, vinho, bebidas fermentadas, tudo o que desejares, e comerás tudo isso em presença do Senhor, teu Deus, alegrando-te com tua família" (Deut 14,26).

Será que a Escritura está recomendando pecar na presença do Senhor?

"Fazeis brotar a relva para o gado, e plantas úteis ao homem, para que da terra possa extrair o pão e o vinho que alegra o coração do homem." (Sl 103, 14-15).

Por que será que é dito que o vinho alegra o coração do homem? Obviamente aqui se faz referência a um dos seus efeitos. Ocorre que este efeito é próprio do vinho legítimo, isto é, do que contém álcool. A versão tabajara suquinho de uva não alegra nada..

"Aqueles que colherem o trigo o comerão louvando ao Senhor; aqueles que vindimarem beberão o vinho no átrio de meu santuário". (Isa 62,9)

Neste capítulo, Deus diz que não deixará os estrangeiros beberem o vinho de Israel. Este vinho, algo precioso, será bebido por Israel nos átrios do santuário. Logo, longe de ser proibido, ele é recomendado.  

O livro dos Cânticos, pelo qual tenho certa predileção, traz no seu começo: "tuas carícias me inebriarão mais que o vinho". (Ct 1,4) Esta referência ao efeito do vinho só é feita porque era comum que ele fosse consumido.

Já o livro do Eclesiástico - que não consta na bíblia protestante, mas que importa isso? - se harmoniza com tudo isso que já dissemos em não proibir o consumo do vinho, mas apenas o seu excesso:

"Não é um pouco de vinho suficiente para um homem bem-educado? Assim não terás sono pesado, e não sentirás dor." (Eclo 31,22)

"O vinho bebido sobriamente é como uma vida para os homens. Se o beberes moderadamente, serás sobrio. Que é a vida do homem a quem falta o vinho? Que coisa tira a vida? A morte. No princípio o vinho foi criado para a alegria e não para a embriaguez. O vinho, bebido moderadamente, é a alegria da alma e do coração. A sobriedade no beber é a saúde da alma e do corpo. O excesso na bebida causa irritação, cólera e numerosas catástrofes. O vinho, bebido em demasia, é a aflição da alma. A embriaguez inspira a ousadia e faz pecar o insensato; abafa as forças e causa feridas. Não repreendas o próximo durante uma refeição regada a vinho; não o trates com desprezo enquanto ele se entrega à alegria. Não lhe faças censuras, não o atormentes, reclamando o que te é devido." (Eclo 31,32-42)

O que o autor do Eclesiástico está dizendo basicamente é: "O vinho é bom. Evite o excesso e não encha o saco."

Se alguém, porém, já foi viciado ou tem a tendência de sê-lo, ou convive com quem o é, é bom evitar de todo o consumo de álcool. Mas se não é o caso, experimente deste prazer lícito que Deus nos deu para a NOOOOOSSSA ALEGRIA!! ♪♫

Fábio

A mártir mais jovem a ser beatificada pelo Papa na Coreia


***A notícia já é antiga, mas achei valer muito a pena de ser divulgada neste espaço. Que o exemplo dessa pequena nos inspire a fidelidade a Nosso Senhor.***
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NO SÁBADO, 16 de agosto (2014), por ocasião de sua primeira viagem à Ásia, especificamente à Coreia do Sul, o Papa Francisco beatificará 124 mártires daquele país, entre os quais se encontra o caso muito especial de uma pequena menina, porém verdadeira gigante da fé, assassinada friamente pelo ódio a Jesus Cristo à sua Igreja, antes de completar os 12 anos de idade.

Anastasia Yi Bong-geum nasceu em 1827, filha de Paul Yi Seong-sam e Anastasia Kim Jo-i, que nesse período viviam sua fé na clandestinidade, porque sofriam a perseguição Jeonghae.

Educada pela mãe, desde pequena sabia cumprir bem seus deveres religiosos e manifestava grande fé e amor por Nosso Senhor Jesus Cristo. Com dez anos de idade, aprendeu as orações da manhã e da tarde, assim como o Catecismo da Igreja Católica. Conheceu um sacerdote missionário que se hospedou em sua casa; este, impressionado pela ardente devoção da menina, permitiu-lhe receber a Primeira Comunhão, mesmo sendo ainda tão jovem. 

A fé e as virtudes cresciam em Anastasia, dia a dia. Quando do início da perseguição Gihae, em 1839, ela fugiu com sua mãe para a casa de Protase Hong Jae-yeong. Ali, foi presa pela polícia e levada a Jeonju, onde enfrentou, sem vacilar, o seu martírio.

A menina foi logo interrogada pelo chefe policial, que lhe exigia informações sobre o padre missionário, ao que ela respondeu que era muito pequena para saber de tais coisas. Não satisfeito, o policial lhe disse que, se ela falasse contra Deus, e renegasse a fé cristã, ele lhe pouparia a vida. Anastasia então respondeu-lhe admiravelmente: “Não sabia como adorar o SENHOR até que cheguei ao uso da razão, aos meus sete anos. Eu era muito jovem para ler livros. Mas dos sete anos até agora, adorei o SENHOR. Portanto, não posso trai-lo nem pensar mal dEle, mesmo se tiver que morrer mil vezes!”...

Em princípio, Anastasia foi levada à prisão sem ser torturada, porque era apenas uma frágil menina. Sua mãe fingiu duvidar de sua firmeza e lhe disse que certamente trairia Jesus: "Você não tem coragem para enfrentar a tortura”. Ao ouvir isso, a pequena mais uma vez deu prova de sua firmeza de caráter e, certamente, da assistência divina que recebia. Respondendo que jamais trairia o Cristo, prometendo à sua mãe manter-se fiel ao ensinamento da Igreja, não importando o tipo de tortura que tivesse que sofrer.

O chefe policial e os guardas prisionais insistiram muito com Anastasia para que ela cooperasse e assim salvasse sua vida, porque ela era "ainda tão jovem e uma linda garota", mas ela não cedeu. Jogada na prisão, em tão tenra idade, foi ameaçada muitas vezes, mas não sucumbiu à intensa pressão psicológica. Ao dar-se conta de que a menina realmente não ia ceder, finalmente a autoridade policial ordenou que ela fosse torturada...

Mas os sofrimentos da santa criança não pararam aí. Além de ser torturada, Anastasia foi forçada a assistir o martírio de sua mãe. E mesmo depois, como órfã, continuou a se manter firme em sua adesão ao Evangelho, prosseguindo assim até o final de sua curta vida. O chefe policial, quando ela não tinha ainda completado 12 anos de idade, ordenou que fosse enforcada na prisão, no dia 5 ou 6 de dezembro de 1839.

Fonte: O Fiel Católico

Imortalidade da Alma segundo Lucas e Mateus


No Evangelho de Lucas, Jesus diz o seguinte:

"Não temais os que matam o corpo e, depois, não têm mais que fazer. Mas eu vos mostrarei a quem deveis temer; temei aquele que, depois de matar, tem poder para lançar no inferno; sim, vos digo, a esse temei." (Lc 12,3-4)

ανθ ων οσα εν τη σκοτια ειπατε εν τω φωτι ακουσθησεται και ο προς το ους ελαλησατε εν τοις ταμειοις κηρυχθησεται επι των δωματων

λεγω δε υμιν τοις φιλοις μου μη φοβηθητε απο των αποκτεινοντων το σωμα και μετα ταυτα μη εχοντων περισσοτερον τι ποιησαι



Para os mortalistas, corpo e alma seriam a mesma coisa. Logo, não faria sentido matar o corpo e fazer algo depois, pois nada mais restaria. O trecho acima, no entanto, deixa claro que, depois da morte corporal, há ainda algo mais a ser lançado no inferno. O que é este algo? A mesma passagem em Mateus deixa claro:

"Não temais aqueles que matam o corpo, mas não podem matar a alma; temei antes aquele que pode precipitar a alma e o corpo na geena". (Mt 10,28)

και μη φοβηθητε απο των αποκτεινοντων το σωμα την δε ψυχην μη δυναμενων αποκτειναι φοβηθητε δε μαλλον τον δυναμενον και ψυχην και σωμα απολεσαι εν γεεννη

Se, como os mortalistas, supormos que o inferno é a destruição total no final dos tempos, seria então possível, forçando um pouco as coisas, entender o "depois" de Lucas. Porém, se fosse o caso, o texto deveria vir contrapondo não corpo e alma, mas, sim, agora e depois. A distinção, porém, refere-se a elementos do homem. Destes, somente o corpo pode ser morto por outro homem, e, como Jesus diz para não temer essa morte, isto indica que o corpo, embora bom, é a parte menos excelente, já que a primazia da importância é dada à alma, que subsiste.

Também se costuma objetar que alma (psychen) significa apenas "sopro". Mas esta objeção tem uma consequência cômica: a de um sopro ser condenado ao inferno.

O texto em Mateus deixa claro ainda que corpo e alma podem ser ambos jogados na "geena", o que reforça a idéia de que são coisas distintas. Enquanto o homem pode agir somente sobre o corpo, Deus pode dispor de ambos.

Se são distintos, a morte do primeiro não implica a morte do segundo. Se a alma morresse junto com o corpo, então os homens teriam poder sobre ambos. Tampouco se pode pensar na alma como uma sugestão da integridade humana, como se se quisesse dizer que os homens, podendo nos ferir fisicamente, não poderiam nos perverter, pois o texto diz que Deus pode fazer mal à alma, isto é, jogá-la no inferno. Se fazer mal à alma fosse pervertê-la, Deus não seria indicado como Alguém que pode agir de modo hostil contra ela. 

Quando um ser humano morre fisicamente por causa de alguém, a sua alma, desvinculada do corpo, fica impossibilitada de ser prejudicada pelo agressor. É essa alma que é referida por Mateus, e é a esse depois que Lucas se refere.
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