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A Igreja Católica é o Reino de Deus

Scott Hahn

Nos momentos que antecederam a Ascensão de Jesus ao céu, havia apenas uma pergunta que ardia no coração dos discípulos: "Senhor, é agora que vais restaurar o reino de Israel?" (At 1,6)

No centro da história bíblica, bem como no coração do povo de Deus, havia um lamento fúnebre no sentido de perda e ganho, queda e redenção. Deus tinha concedido um reino ao Seu povo, mas eles haviam perdido esse reino. Daí, aguardavam ansiosamente pela sua restauração. E Jesus anunciou a sua iminente restauração. E Jesus anunciou a sua iminente restauração.

Realmente a história começa no livro do Gênesis, quando Deus dá a Adão o "domínio" sobre "toda a terra" e todas as criaturas nele, de peixes a aves, gado e todos os bichos (Gn 1,26). Adão foi feito "imagem" e "semelhança" de Deus, o que nos indica um relacionamento paterno e uma atribuição de responsabilidades reais. Homem e mulher são criados para servirem a Deus como reis. Quando o salmista retoma esse tema, ele aborda o domínio em termos da realiza que Deus compartilha de boa vontade com o primeiro homem:

O que é o homem, para dele te lembrares? O ser humano, para que o visites? Tu o fizeste pouco menos do que um deus, e o coroaste de glória e esplendor. Tu o fizeste reinar sobre as obras de tuas mãos, e sob os pés dele tudo colocaste. (Sl 8,5-7)

Deus "coroou" toda a humanidade em Adão e outorgou ao primeiro casal e sua prole, todo o "domínio" e "governo" sobre a terra. Os povos antigos teriam percebido no Gênesis uma forma simples de comportamento real, que era a de acumular terras para passá-las a seus filhos e herdeiros.

Mas Adão era mais do que um simples rei. Ele era um rei sacerdotal. O Gênesis relata que Deus atribuiu a ele funções específicas, indicadas pelos verbos hebraicos abodah e shamar (comumente traduzidos como "servir" e "cuidar"). Em outras partes do Pentateuco, esses verbos aparecem juntos apenas para descrever o serviço ritual dos sacerdotes Levitas no santuário (ver Nm 3,7-8; 8,26; 18,5-6). Ao descrever o serviço sacerdotal, eles deveriam prestar o "serviço" e a "guarda". Os sacerdotes eram destinados a oferecer o serviço do sacrifício a Deus, e a guardar o santuário do Senhor das contaminações. Essas pistas literárias sugerem a intenção dos autores bíblicos ao descreverem toda a criação como um templo real construído por um rei celestial. Intencionalmente, Adão é retratado como o primogênito real e uma figura sacerdotal, ou seja, um misto de rei e sacerdote para governar como vice-rei sobre o templo-reino da criação.

Deus sela tudo isso de uma maneira especial. Os termos da relação do homem com Deus são ordenados pela aliança do Shabbath, estabelecido no sétimo dia. A palavra hebraica para um juramento da aliança é sheva, que significa "sete". Pois tal juramento é, literalmente, o "próprio sétimo dia". Então, a aliança tem seu significado no repouso do sétimo dia por Deus. É certo que não poderia ter sido para o descanso de Deus, pois o Todo-poderoso não se cansa. Não, Deus está criando aqui um vínculo por meio de uma aliança - um vínculo de uma família- com o universo. Ao soprar a vida em Adão, Ele concedeu o Seu Espírito de filiação ao homem. Adão deveria governar o mundo como um filho de Deus. Este aspecto é corroborado não somente pelo ensinamento da Igreja Católica, mas também nos escritos dos antigos rabinos. Estudiosos modernos têm feito referência ao sétimo dia, abençoado por Deus, como uma "Aliança Universal".

Na história da criação, vemos Deus preparando um reino e, depois, estabelecendo a humanidade como Sua família real na terra. Solenemente, Ele sela o seu decreto, estabelecendo uma aliança eterna.

Esta aliança é fundamental para compreendermos o Livro do Gênesis - e toda a Bíblia, a qual, aliás, é dividida em "Antiga Aliança" e "Nova Aliança" (A palavra hebraica para aliança, berith, e a grega, diatheke, são normalmente traduzidas para o português como "testamento"). Quando tomamos o Gênesis em seus termos próprios, o mesmo é inteligível. No entanto, quando tentamos impor as nossas condições ao texto, este se desintegra diante de nossos olhos.

Por exemplo, algumas pessoas leem o Gênesis como um livro didático de ciência antiga e, por isso, acham várias falhas nele. Mas este livro não foi escrito como um livro de ciências. Trata-se, de certa forma, de uma carta da realeza - do reinado de Adão, cujo nome significa tanto "um homem" como "a humanidade". Um dos termos da aliança de Deus com a raça humana é o domínio: Adão e Eva deviam encher a terra e subordiná-la a eles. Assim, Deus fez o universo para o bem e o gozo deles. Ele fez o universo cognoscível para eles de uma forma que não era conhecido pelos outros animais. O nosso conhecimento da criação difere do deles não somente em grau, mas em espécie. A mente humana, então, foi conformada à criação, e a criação feita para a mente humana. Este é o princípio antropológico universal em sua forma primitiva. E este termo da aliança, esta declaração de domínio e realeza - juntamente com a necessária inteligibilidade da criação - é o que tornaram possíveis as ciências naturais e tecnológicas.

Ao conceder o mundo para Adão, Deus deu um reino à raça humana para governá-lo como Seu vigário. Pelo seu orgulho e desobediência deles, contudo, Adão e Eva perderam o seu estado privilegiado. Quando a serpente os tentou, eles renunciaram ao seu ofício divino. Adão não conseguiu proteger o jardim santuário do seu mortal intruso e, ao comer do fruto proibido, ele e Eva recusaram-se a fazer um sacrifício de seu desejo sobre os bens terrenos. Eles se recusaram, também, a exercer domínio sobre a besta que os desafiou. Assim, Adão falhou em ambas as tarefas, real e sacerdotal. Ele abdicou do trono que Deus tinha compartilhado com ele, e fez de sua herança um fracasso em todas as gerações de sua linhagem.

Este, o Pecado Original, é um desastre de proporções universais. Os antigos cristãos e seus descendentes modernos poderiam cantar esta perda da graça original como uma "feliz culpa", porque criou a necessidade de um salvador, a real ocasião da encarnação do eterno Verbo de Deus. A partir dos destroços da queda, Deus faria uma obra ainda maior para a humanidade. Por causa da autodestruição de Adão, o mundo pôde esperar por uma restauração.

O caminho de volta

Mas a salvação estava ainda muito longe. Nos capítulos seguintes do Gênesis, a família humana cresce mais revolta, começando com o assassinato de Abel por seu irmão Caim, continuando até a decadência de todo o mundo no tempo de Noé. Deus restabelece parcialmente a ordem do universo, salvando a família de Noé, mas o pecado, mais uma vez, aparece em cena. Com a arrogante autoadoração na Torre de Babel, a família humana é, de novo, dispersada, exilada de Deus e até mesmo um do outro. Estas más gerações têm vagado bem distantes da real e original vocação da humanidade.

Porém, em seguida, surge Abraão, um homem de fé, a quem Deus promete uma futura restauração da aliança universal. Para Abraão e seus descendentes, Deus promete Sua bênção divina para todas as famílias da terra (Gn 12,3); uma terra frutífera (12,1); e uma linhagem de reis (17,6). E Deus sela cada uma dessas promessas com uma aliança (ver Gn 15; 17,4-8; 22,15-18), assim estabelecendo os laços de parentesco entre Deus e a família humana. É por meio de Abraão que também vai se vislumbrar a figura de um rei-sacerdote, Melquisedeque, rei de Salém (Gn 14,18), que abençoou Abraão quando ele ofereceu um sacrifício de pão e vinho a Deus (Salém será posteriormente chamada de Jeru-salém e identificada com o Monte Sião (ver Sl 76,2). A aliança de Deus com Abraão marca a restauração parcial, um cumprimento parcial que, um dia, seria completa, universal, cósmica - católica.

Mas só depois de outros retrocessos... Pois, dentro de apenas algumas gerações, a família de Deus voltaria a pecar gravemente, desta vez trazendo para si o castigo da escravidão numa terra estrangeira. Mas, esse castigo também se revela uma "feliz culpa", como a escravidão no Egito fornece a ocasião da grande obra salvadora de Deus com o Êxodo. A narrativa bíblica que descreve a libertação de Israel, em toda a sua parte, ecoa a narrativa da criação do Gênesis. Israel é salvo através da água como uma nova criação. A nuvem da presença divina cobre o Monte Sinai por seis dias, antes que Deus chame Moisés, no sétimo dia, para entrar na nuvem e receber o plano para a habitação de Deus (Ex 24). As instruções divinas aparecem em setes, de novo, como na obra da criação, com Suas sete ordens culminando em normas de observância para o sétimo dia, o Shabbath. A confecção das vestes sacerdotais e a construção do tabernáculo recordam a narrativa da criação. Em ambos, a obra prossegue por sete etapas (as quais, no Êxodo, se concluem "como o Senhor ordenou a Moisés"). Moisés contempla sua obra, como fez Deus no Gênesis e a abençoa (Ex 39,43). Como Deus "finalizou Sua obra", assim Moisés "finaliza o trabalho" (Gn 2,1-2; Ex 40,34). E, como Deus descansou ao sétimo dia, abençoou-o e santificou-o, assim Moisés finalizou o seu trabalho, e a presença divina encheu o tabernáculo (Ex 40,34). Com o Êxodo, Deus restaurou o sacerdócio real e a realeza sacerdotal. Ele escolheu Israel para ser Sua "propriedade particular dentre todos os povos... um reino de sacerdotes e uma nação santa" (Ex 19,5-6) Ele os colocou no lugar de Adão, o rei-sacerdote. O que Adão deveria ter sido para cada pessoa, Israel seria para cada nação - um sacerdócio régio, "o primogênito de muitos irmãos" (ver Rm 8,29). Como Adão tinha sido criado à imagem e semelhança de Deus, assim Deus destinou Israel com títulos sugestivos da progenitura do sacerdócio régio. Para Deus, Israel é "Meu filho, Meu primogênito" (Ex 4,22-23; 19,6).

Contudo, da mesma forma que os israelitas receberam a vocação de Adão, eles também perpetraram uma queda na graça como Adão. E assim como a queda original resultou no exílio e na dessacralização da realeza sacerdotal, assim também fizeram uma adoração idolátrica ao bezerro de ouro. Deus deserdou Seu povo dizendo claramente a Moisés que eles são o "teu povo, que tu tiraste da terra do Egito" (Ex 32,7). Ao se contaminar por uma rebelião ritual, assim como Adão, Israel tornou-se impróprio para a vocação divina e nunca mais o Antigo Testamento usaria o título de realeza sacerdotal de Êxodo 19,6 para descrever o povo de Israel.

Ainda assim, devido à força de Sua aliança com seu pai Abraão (ver Ex 32,13), Deus poupou Israel e permitiu que as tribos, eventualmente, pudessem entrar na Terra prometida. Então, o povo de Deus experimentou, novamente, uma restauração parcial.

Na Terra prometida, Israel se manteve um povo separado, que, ao contrário de qualquer outro povo, não foi governado por leis humanas, mas pelo próprio Deus mediante Seus profetas. Porém, inexoravelmente, eles foram atraídos pelas armadilhas da realeza que viam nos povos vizinhos, nas terras pagãs. Eles queriam poder, prestígio, lutas e conquistas. Em outras palavras, não queriam ser mais uma nação à parte. Desejavam ser como todos os demais e, por isso, exigiram que o profeta Samuel nomeasse um rei para eles (ver 1Sm 8). Como o pecado de Adão no Éden e o de Israel no Sinai, este pedido evidenciava uma rebelião contra o domínio de Deus. Moisés tinha previsto este dia e, por isso, a contragosto, no livro do Deuteronômio, ele havia dado as leis para reger o comportamento dos reis de Israel.

Samuel avisou ao povo o que eles poderiam esperar de um rei: impostos, recrutamento militar e opressão. Mas o povo insistiu e Deus quis deixá-los seguir o seu caminho. Por meio de um rito, Samuel ungiu Saul em seu ofício real, ação esta que anteriormente era usada apenas para a ordenação dos sacerdotes. Tão logo foi ungido, Saul começou a profetizar. Assim, Deus mostrou ao Seu povo que, embora tivessem rejeitado o Seu governo, Ele continuaria a governá-los através de seu rei, pois eles não tinham escolhido Saul como seu rei, mas Deus o tinha. Nessas condições, apesar de Saul ser orgulhoso e arrogante como rei, ele era "o ungido", que em hebraico é messiah e, em grego, christós, de onde obtemos o título em português "Cristo". Embora os crimes de Saul tenham gerado a queda do seu reinado e sua dinastia, eles não poderiam derrubar a validade da realeza que Deus tinha estabelecido.

Em última análise, Deus iria transformar o pedido de um rei por Israel, como em todas as rebeliões anteriores da humanidade, na ocasião de uma maior obra de Sua parte. Das ruínas do reinado de Saul, surgiu uma casa real ainda maior - de fato, um grande messias-rei - uma bênção para Israel e, através deste povo, uma bênção para todas as nações.

Deste modo, apesar dos repetidos fracassos da humanidade em viver de acordo com sua vocação real e sacerdotal, a restauração da aliança universal ocorreu na história, no tempo certo da providência divina. Inicialmente, Deus reuniu, num único reino, todos os filhos de Abraão, de modo que, posteriormente, pudesse reunir todos os filhos de Adão.

O FUTURO REINO TRANSITÓRIO

A Diferença que Davi fez

Como salmista, rei e antepassado de jesus Cristo - e como um homem conforme o coração de Deus (1Sl 13,14) - o Rei Davi representa muito mais do que poderíamos imaginar a partir das homiléticas populares. Não me leve a mal: não estou dizendo que ninguém prega ou escreve sobre Davi. Essa afirmação seria um absurdo. Davi é o protagonista de um conto emblemático de arrependimento da Bíblia, como consequência de seu namoro com Betsabá. Como tal, ele é uma figura considerada tola nos sermões de cada denominação.

Mas Davi é bem mais do que isso. Na Bíblia, ele é o homem que define a realeza - uma realeza que simplesmente tinha sido sugerida nas histórias da criação e do Êxodo. Ele estabelece a única casa real permanente do Antigo Testamento e a mais longa dinastia do mundo antigo.

Os estudiosos e pregadores costumam reconhecer Davi como a figura dominante do livro dos Salmos, com mais de setenta salmos atribuídos a ele. O que não é amplamente reconhecida é a sua proeminência no decorrer de todo o Antigo Testamento. Sem dúvida, a memória viva de Davi e do seu reinado são centrais para o Evangelho de Jesus Cristo, mas talvez seja mais importante para o direcionamento e significado do Antigo Testamento.

Por que Davi tem sido relativamente negligenciado? É difícil dizer, mas, uma das razões é que os pesquisadores tendem a se concentrar mais na importância e influência de Moisés e da aliança no Sinai.

Moisés é, de fato, uma figura de grande influência em ambos os Testamentos da Bíblia. Mas seria Davi menos influente? Consideremos apenas alguns pontos. Enquanto o nome Moisés ocorre mais de 720 vezes no Antigo Testamento, Davi é mencionado cerca de 1.020 vezes. A vida de Davi é o tema de quarenta e dois capítulos, ou quase 30% do que os antigos rabinos chamavam de "profetas antigos" (de Josué até 2º Reis). Em Crônicas, que faz uma revisão da história de Israel numa perspectiva sacerdotal, o percentual é anda maior.

Nos livros proféticos, Davi é mencionado trinta e sete vezes e Moisés apenas sete. E as esperanças do povo judeu costumam focar no Monte Sião, o lugar do palácio real de Davi, em vez do Sinai, onde Moisés recebeu a Lei. Ainda hoje, o movimento judeu de restabelecimento da antiga pátria é conhecido como "Sionismo", e seu símbolo pertence, não ao legislador, mas ao rei: a estrela de Davi.

Quando os antigos israelitas, e mais tarde os judeus, falaram de "reino", o seu único referencial histórico era o reinado de Davi. Como as histórias de Adão, Abraão e Moisés previam o reinado de um rei sacerdotal, este rei sacerdotal era Davi e, por sua vez, sua casa, sua descendência, seu "filho".

A casa do Sol Nascente

As Escrituras nos falam que Davi era um homem conforme o coração de Deus (1Sm 13,14). De fato, era um homem diferente de Saul. Enquanto este olhava o principado, Davi era um jovem simples e de pequena estatura (1Sm 16,7). Mas quando "Samuel pegou o chifre com óleo e ungiu Davi no meio de seus irmãos... o Espírito do Senhor apoderou-se dele, a partir daquele momento." (1Sm 16,13)

No mesmo instante, o Senhor retirou Seu Espírito de Saul, que passou, então, a ser atormentado pelos demônios. Esses demônios se retiravam somente quando Davi tocava sua lira (da mesma forma que os demônios, um dia, correriam de jesus, confessando que Ele é o Ungido, o Cristo. Ver Lc 4,41).

Saul provocou sua própria morte quando se opôs à vontade de Deus e procurava matar Davi. Tão logo Davi assumiu o trono, ele começou um reinado completamente diferente de Saul, mudando a capital do país para Jerusalém, a fim de unir as tribos. Uma vez firmemente estabelecido em Jerusalém, Davi decidiu trazer a Arca da Aliança para o santuário - Arca esta que continha a Lei que Deus havia dado a Israel, e outras relíquias, tais como o cajado sacerdotal de Aarão e o maná do céu. A presença da Arca em Jerusalém faria desta cidade, não apenas o centro político de Israel, mas também o centro religioso. O próprio Davi estava vestido com vestes reais, mas com paramentos sacerdotais: uma estola de linho. Ele dançou de alegria "com todo o seu poder" diante da Arca e, quando a procissão chegou a sua nova casa, o próprio Davi ofereceu sacrifícios.

Por que tudo correu bem para Davi quando atuou como um sacerdote? Afinal, ele não era um membro da tribo de Levi. Antes, quando Saul tinha tentado oferecer sacrifícios, este fora severamente punido. Porém, havia uma grande diferença entre Davi e Saul. Os sacrifícios de Saul eram apenas uma barganha comercial com Deus, enquanto que Davi dançou e prestou sacrifícios por amor e alegria, não porque quisesse algo de Deus.

Davi era um rei sacerdotal, como Deus pretendia que Adão fosse. Ele tinha o sacerdócio régio, como Deus desejava que Israel esperasse. Davi e seu filho, Salomão, deviam ser reis e sacerdotes como Melquisedeque que reinou e ofereceu sacrifício em (Jeru)Salém (ver Sl 110,1-4).

No entanto, Davi não estava satisfeito; desejava algo mais: ele queria construir um Templo para Deus em Jerusalém. Fez, então, uma consulta ao profeta Natã: "Veja! Eu moro em palácio de cedro, enquanto a Arca de Deus mora numa tenda!" (2Sm 7,2), No entanto, Deus não tinha a intenção de que Davi construísse o Templo, pois tinha guardado algo muito mais importante para o Seu rei. Natã transmitiu as palavras de Deus para Davi:

O Senhor te anuncia que Ele quer fazer-te uma casa... Eu estabelecerei o trono real dele para sempre. Serei para ele um pai e ele será um filho para mim. Se ele falhar, eu o corrigirei com bastão e chicote, como se costuma fazer. Mas eu não desistirei de ser fiel para com ele, como desisti de Saul, que tirei da sua frente. A dinastia e a realeza dele permanecerão firmes para sempre diante de mim; e o seu trono será sólido para sempre. (2Sm 7,11-16)

Aqui o Senhor renovou a Sua aliança com Israel através da casa de Davi. Ele restabeleceu Seu vínculo familiar com o Seu povo usando uma linguagem próxima de parentesco. Como Adão e, depois, Israel viveriam como os primogênitos de Deus, assim o herdeiro de Davi iria desfrutar de um relacionamento de pai e de filho com o Todo-poderoso. Desta vez, porém, ele veio com uma garantia eterna.

Os termos da Aliança são bem perceptíveis:

* O Senhor fará para ti uma casa: Davi não será apenas rei por um dia ou por uma vida, mas o fundador de uma dinastia real.

* Ele estabelecerá o Seu reino: o filho de Davi será o legislador de um vasto reino que inclui todo Israel, e também, o resto do mundo, "as nações" (ver Sl 2,8; 72,11.16). Os livros das Crônicas vão tão longe a ponto de chamá-lo de "o Reino de Yahweh" (ver 1Cr 28,5; 2Cr 13,8).

* ele edificará uma casa ao seu nome: O filho de Davi vai construir o templo como um lar permanente para a Arca da Aliança.

* Serei para ele um pai, e ele será Meu filho: o filho de Davi seria adotado como o próprio filho de Deus. Esta é a primeira vez em que a filiação divina é explicitamente aplicada a um indivíduo. Antes disso, o povo de Israel era chamado o filho primogênito de Deus (Ex 4,22), mas jamais uma pessoa em particular foi chamada de "filho de Deus".

* Se ele falhar... Mas eu não desistirei de ser fiel para com ele: Deus jamais renegaria Davi, não importando o quanto seus descendentes pudessem pecar. A Aliança seria permanente. Como um pai amoroso, Deus puniria Seu filho, mas apenas para o seu próprio bem.

* O seu trono será sólido para sempre: A dinastia de Davi nunca terminaria. Em todas as outras monarquias terrenas, as dinastias se elevam e caem, mas o trono de Davi seria sempre ocupado por um descendente do próprio Davi.

As chaves de Davi

Considerando-se que o reino de Davi seria eterno, este viria a definir o "reino" para todas as gerações subsequentes elevadas sobre a palavra de Deus. Não era apenas um conceito teórico ou uma metáfora teológica. Ele tinha uma forma histórica, definida de maneira vívida e especificamente registrada pelos historiadores, poetas e profetas de Israel. E as qualidades que eles registravam se relacionam diretamente com os termos da aliança revelada pelo próprio Natã.

Com o que se assemelhava o reino de Davi? É importante que saibamos, porque - como o próprio Jesus deixou claro - os contornos do "reino" marcam a forma da nossa salvação. O ministério terreno do coração de Jesus foi a proclamação do reino, e o uso que Ele faz desta palavra podia significar apenas uma coisa para os Seus ouvintes. Eles O entenderam com o significado da restauração do reino de Davi, e o Senhor não contradisse essa expectativa. Na verdade, Ele a confirma e esclarece, nunca diminuindo seu caráter messiânico.

Das fontes históricas, podemos identificar certos elementos que prevaleceram enquanto a Casa de Davi governava de Jerusalém. Aqui eu gostaria de identificar sete características principais da aliança de Deus com a casa de Davi e três secundárias. Concentro-me nessas dez características porque são essenciais para o drama da dinastia que lemos nos últimos livros do Antigo Testamento, e também porque eles vão realçar as chaves da identidade Davídica de Jesus Cristo - e da Igreja que Ele estabeleceu na terra.

1- A monarquia Davídica foi fundada sobre a aliança divina, o único sre humano do reino do Antigo testamento que desfrutaria de tal privilégio (ver 2Sm 8,11-16).

2- A monarquia Davídica era o Filho de Deus. A relação familiar do rei com Deus é evidenciada nos oráculos de Natã, e também em outros lugares (ver Sl 2,7). O filho de Davi recebeu a graça da filiação divina no momento da sua unção.

3- O filho de Davi era "o Cristo", ou seja, "o messias", cujo termo em hebraico é "mashiach" que, literalmente, significa "o ungido" (ver 1Sm 16,13; 1Rs 1,43-48; 2Rs 11,12; Sl 89,20-39). Sua unção com óleo fez dele um sacerdote e um rei, "um sacerdote segundo a ordem de Melquisedeque" (Sl 110,4). Este era um sacerdote-rei em Jerusalém dos tempos de Abraão (Gn 14,18; Sl 76,2).

4- A Casa de Davi era indissoluvelmente ligada a Jerusalém, particularmente ao MOnte Sião, o qual era de propriedade pessoal do rei Davi e de seus herdeiros (2Sm 5,9), Mais do que a capital de uma monarquia, Jerusalém tornou-se o centro espiritual do povo de Deus, bem como o local de peregrinação para Israel e todas as nações (Is 2,1-3).

5- O templo era o sinal visível da aliança Davídica e do reino de Deus. A construção do Templo era algo central para os termos da aliança, e a mesma palavra hebraica para "casa" era usada para descrever, não somente a dinastia de Davi, mas também o lugar da morada de Deus, que servia como uma "casa de oração para todos os povos" (Is 56,7; Mt 21,12-15).

6- O reino de Davi era para governar sobre todas as doze tribos de Israel - e também, sobre todas as nações. Foi somente sobre Davi e Salomão que, tanto Judá quanto as outras tribos do norte, foram unidas num só reino que os libertou da opressão estrangeira (ver 2Sm 5,1-5; 1Rs 4,1-19). O Senhor também decretou que o reino de Davi seria para governar sobre todas as nações (Sl 2,8; 72,1-17), sobre todos os gentios que peregrinavam a Jerusalém (1Rs 8,41-43; 10,1-24) e sobre todo o mundo. O reino de Davi em Sião marca, assim, a primeira vez que Israel fora chamado a acolher os gentios como parte integrante da sua aliança com Deus.

7- A monarquia devia ser eterna. Um dos destaques mais evidentes nos Salmos e na história era de que a dinastia de Davi seria eterna (ver 2Sm 7,16). Não somente a dinastia, mas também a abrangência da vida do monarca reinante, eram descritas como eternas (ver Sl 21,4).

Junto a essas sete características principais, devemos observar três elementos secundários. Embora estes não tenham sido mencionados explicitamente nos oráculos de Natã, são encontrados em todas as histórias e hinos da Casa de Davi. Novamente, eles se tornarão ainda mais importantes sob a Nova Aliança em Jesus Cristo.

1- A Rainha Mãe se torna uma parte importante do governo real. Começa com o Rei Salomão em 1Rs 2,19;

Betsabá foi ao rei Salomão para lhe falar sobre Adonias. O rei se levantou para recebê-la e se inclinou diante dela. Depois se assentou no trono, mandou trazer um trono para sua mãe, e Betsabá se sentou à sua direita.

Note-se, aqui, que todos se curvaram diante de Salomão, mas Salomão se prostrou diante de sua mãe. A partir desse ponto, a rainha-mãe se torna um elemento permanente no reino, um símbolo da continuidade da linhagem real de Davi. Ela também atuava como um dos mais importantes conselheiros do rei. Na verdade, Provérbios 31 é identificado como o conselho da rainha-mãe ao Rei Lamuel: "Palavras de Lamuel, rei de Massa, ensinadas por sua mãe." Quando o profeta Jeremias aborda o rei, ele se dirige à sua mãe, pois tal era a sua autoridade: "Diga ao rei e à rainha-mãe..." (Jr 13,18; ver também 2Rs 24,15).

2- O "primeiro-ministro" ou chefe se tornara uma função distinta no governo real. O rei tinha vários servos (em 1Rs 4,7 havia doze), mas um homem era o chefe diante deles e se situava entre o rei e seus outros ministros. Quase dois séculos após Davi, Isaías profetizou uma transição no governo real, na qual um primeiro-ministro seria trocado por outro (ver Is 22,15-25). Desta profecia, podemos dizer que qualquer um no reino podia identificar o primeiro-ministro: "ele será um pai para os habitantes de Jerusalém e para a casa de Judá". O sinal do papel do primeiro-ministro era o da chave do reino. "E eu vou colocar sobre seu ombro a chave da casa de Davi: ele abrirá, e ninguém fechará; ele fechará, e ninguém abrirá."

3- A oferta de agradecimento ou o "sacrifício de ação de graças" se tornou a primeira liturgia celebrada no Templo, muito mais do que o sacrifício de reparação pelos pecados (ver Sl 50,13-14; 116,17-19). A oferta de agradecimento (Lv 7,12-15) incluía pão não fermentado e vinho oferecidos a Deus em gratidão pela libertação. Mestres judeus antigos previam que, quando viesse o Messias, nenhum outro sacrifício seria oferecido: a única oferta de agradecimento continuaria. A palavra hebraica para "oferta de agradecimento" é tidah, e foi traduzida para eucharistia em várias traduções gregas das Escrituras e nos escritos de antigos judeus, tais como Fílon e Áquila.

O trono perdido

Sob Davi, e depois, sob seu filho Salomão, o reino florescia. Deus fez cumprir Sua promessa de paz, estabilidade e vínculo familiar entre Ele e Seu povo. As bênçãos da aliança pareciam evidentes em toda a parte e as nações estrangeiras queriam uma parte dessas bênçãos. Procuraram fazer alianças com Salomão, enviando suas delegações a Jerusalém para prestar homenagem ao seu Deus. E Salomão preparou o seu Templo para acolher o culto dos pagãos, como sendo "uma casa de oração para todas as nações" (Is 56,7). Tão grande era o prestígio e a prosperidade de Israel que a memória daquelas gerações, de Davi a Salomão, permaneceria indelével durante milênios, especialmente para a tribo de Judá.

No entanto, a realidade histórica do reino desmoronou muito rapidamente.

Da mesma forma que antes Adão e Israel tinham pecado, Salomão pecou gravemente e, em seguida, entrou numa espiral descendente de pecado. Ele desrespeitou as leis de Moisés que regiam a realeza; sobretaxou as tribos e multiplicou o número de suas esposas (setecentas!) e concubinas (trezentas!). Tais pecados levaram a pecados ainda mais mortais. As Escrituras nos dizem que "suas mulheres lhe perverteram o coração... aos deuses estrangeiros" (1rs 11,1-3). Inicialmente um homem de grande sabedoria, Salomão, agora, se tornara um idólatra.

Quando Salomão morreu, seu filho Roboão se recusou a renegociar a política de impostos do reino e as tribos se rebelaram. Dez das doze tribos se separaram e estabeleceram o Reino do Norte, isolando-se, não somente do trono de Davi, mas também do culto do Templo. Tudo o que restara da Casa de Davi foram as duas pequenas tribos de Judá e Benjamin.

Neste período de decadência, grandes profetas surgiram para anunciar um reavivamento da Casa de Davi. Isaías profetizou que a salvação viria com o nascimento de um herdeiro do trono de Davi. O domínio do novo rei seria amplo e duraria "tanto agora como para sempre" (ver Is 9,5-6). Em outra passagem (ver Is 11,1-16), Isaías previu o surgimento de um novo rebento da raiz de Jessé, que foi o pai de Davi. Repetidamente, os profetas retrataram a restauração como uma recapitulação das alianças de Deus no passado; seria como que uma nova criação, um novo êxodo, bem como um novo reino.

Os profetas, no entanto, não conseguiram deter o declínio de Israel. Bastante enfraquecido, o reino dividido foi presa fácil para os seus vizinhos, que almejavam conquistar as terras do rei de Jerusalém. O reino do Norte foi destruído em 722 a.C., na invasão dos Assírios. Em 587, a Babilônia saqueou Jerusalém, desmantelando o Reino do Sul e enviando suas elites para o exílio. O rei conquistado, englobando os descendentes do Rei Davi, foram abatidos sem piedade.

Aproximadamente uma geração após a morte de Davi, o "reino eterno" havia desaparecido. Por 500 anos, também a linhagem real foi aparentemente extinta.

Tudo era tão evidente: o cumprimento das promessas de Deus e Abraão de abençoar todos os povos através da sua descendência; a reabilitação de Israel como uma nação sacerdotal por meio do sacrifício do Templo; e até mesmo a restauração da aliança universal de Deus com todos os filhos de Adão [não aconteceram].

A esperança é eterna

Ainda assim, as palavras dos profetas sustentavam a promessa e a história relembrava os oráculos de Deus através de Natã como uma garantia incondicional.

Na segunda metade do século VI a.C., depois da queda da Babilônia para os Persas, alguns israelitas voltaram para Jerusalém e começaram a reconstruir o Templo. O Segundo Templo era apenas uma sombra do de Salomão, um lembrete humilhante de quão fundo o povo e sua terra haviam caído diante da prosperidade e do próprio Deus.

A literatura intertestamentária evidencia a esperança residual que a Casa de Davi tinha em sua restauração: "levante-se o seu rei, o filho de Davi... que ele possa reinar sobre Israel, seu Servidor... Por tudo será santo e, seu rei, o ungido (Messias, Cristo) do Senhor!" Os escritos do Mar Morto testemunham a mesma esperança: "Ele é o ramo de Davi, que se levantará... em Sião, no fim dos tempos. Como está escrito, 'Levantarei a tenda de Davi que está caída'. Ou seja, a tenda caída de Davi é aquela que se levantará para salvar Israel."

Apesar da aparente impossibilidade da sua realização, a esperança suportou. Depois de tudo, a tenda de Davi tinha caído; o tronco de Jessé tinha sido cortado. Mas foi Deus quem fez aliança com a Casa de Davi; foi Deus quem fez as promessas. O Todo-poderoso podia suscitar filhos de Abraão até das pedras, se o quisesse. Ele poderia fazer brotar o tronco de Davi de um pequeno toco da árvore genealógica de sua família.

Aquele que fez a aliança também havia criado a terra, e poderia reunir os filhos de Adão, mais uma vez, das profundezas da terra para receber as bênçãos do filho de Davi, do filho de Abraão.

A idéia de uma fé católica, de uma fé universal - desejada na criação, prometida a Abraão, mediada por Israel, vislumbrada em Davi - permaneceu como algo especial, próprio do remanescente de Israel. As nações pagãs estavam contentes com seus deuses locais. Mas o povo de Deus aguardava pelo dia do grande rei de Israel e das nações. "Providenciarei um só pastor para cuidar das minhas ovelhas. Será o meu servo Davi. Ele cuidará delas, e será o seu pastor... O meu servo Davi reinará sobre elas, e haverá um só pastor para todas. Elas viverão segundo as minhas normas, observarão os meus estatutos e os colocarão em prática" (Ez 34,23; 37,24).

O REINO SE APROXIMA

Sobre Cristo como Rei, o Filho de Davi

Há uma ampla evidência de que no século I a.C. o povo de Deus sentia (e esperava) que o momento estava próximo. A hora havia chegado.

A tradução grega do Antigo Testamento, chamada Septuaginta, muito popular entre os judeus dispersos em terras pagãs, por vezes adicionou títulos de realeza que não haviam na Bíblia hebraica. Por exemplo, em Gênesis 49,10, a Septuaginta acrescenta que o legislador que vem será um "príncipe".

No livro apócrifo do 2º Esdras, o oráculo divino antecipa a chegada do "Meu filho, o Messias" (2Esd 7,28-29), que governará "todo o povo" do "topo do Monte Sião" (13,36-37). Uma linguagem similar aparece na literatura atribuída à tradição de Enoque e nos Manuscritos do Mar Morto. Os autores deste esperavam a iminente chegada, não de um messias, mas de dois: um rei guerreiro e um profeta sacerdotal. Os Manuscritos se referem ao futuro rei com ambos os títulos: "messias" e "descendente de Davi". Encontramos o espírito da época vividamente preservado nos anais do historiador judeu Flávio Josefo, que registra a ascensão e a queda de vários autoproclamados messias. O próprio Josefo apresentou um candidato improvável para este título: o seu patrono, o imperador Romano Vespasiano.

Aqueles que mantinham viva a fé permaneciam firmes na esperança; embora isso devesse ser bem difícil. As condições do povo de Deus na época eram, certamente, humilhantes. Muitas vezes, os gentios zombavam dos judeus pelo forte contraste entre o elitismo deles - pois apregoavam ser o "povo escolhido" por Deus - e seu efetivo status, de um estado vassalo dos impérios pagãos decadentes.

Mas Deus tinha enunciado claramente as Suas promessas na aliança com Davi. Sua descendência seria eterna; embora, agora, parecesse extinta. O filho de Davi iria governar sobre todas as nações; mas, agora, as nações se revezavam no poder sobre Israel! As Escrituras hebraicas proclamavam a permanência e a majestade da Casa de Davi; mas, agora, essa majestade estava longe de ser encontrada. Aliás, a Casa de Davi é que estava longe de ser encontrada.

A situação beirava o ridículo. A evidência de algo errado estava por toda a parte. Exceto por um breve período na época dos Macabeus, Israel - ou melhor, o que restava de Israel - era governado por potências estrangeiras.

Falsos começos

Após o período dos Macabeus, então, ocorre um intervalo estranho, quando os reis pareciam ansiosos e capazes de restaurar as riquezas de Israel - nos próprios termos da aliança de Deus com Davi. Eles reconquistaram quase todas as terras que, anteriormente, haviam pertencido a Israel, e forçaram os habitantes do sexo masculino a se submeterem à circuncisão.

Com o tempo, veio um rei chamado Herodes, o qual é mencionado pelos historiadores como Herodes, o Grande. Este rei tentou, pelo poder, ser visto como o "filho de Deus". Reconstruiu o Templo de Jerusalém em grande escala, superando até mesmo Salomão - inclusive, adquiriu muitas esposas para si, exatamente como o fez Salomão. E o povo prosperava. Os patronos romanos de Herodes proporcionaram certa paz, estabilidade e segurança para a região.

Herodes, porém, não era judeu. Embora se mantivesse com alimentos judaicos e fizesse um show com algumas práticas religiosas, ele nascera um edomita, ou seja, pagão. Além disso, Herodes era um insano. Assassinou brutalmente três de seus próprios filhos, pois temia que estes tramassem sua saída do trono. Essa curiosa combinação de religiosidade exterior com extrema crueldade, movia César Augusto a dizer que era preferível ser um porco de Herodes a ser filho dele. Os feitiços paranoicos de Herodes muitas vezes terminavam com expurgos assassinatos de seus súditos. Certa vez, ele mandou crucificar ao longo de uma movimentada estrada centenas de suspeitos de conspiração, deixando seus corpos apodrecerem lá por semanas.

No entanto, os sucessos de Herodes eram indiscutíveis: a restauração da terra; a recuperação das tribos, que há muito haviam se misturado com os pagãos; e a reconstrução do Templo. Algumas pessoas perguntavam se ele não poderia ser realmente o Filho de Davi. Afinal, mesmo Salomão tivera suas faltas...

Provavelmente, Herodes soubesse melhor disso do que qualquer pessoa, mas a sua vida dependia dessa estratégia. É bem possível que ele também esperasse a chegada do verdadeiro "filho de Davi" a qualquer momento. Mas até quando ele manteria isso?

Tal era o clima social, político, religioso e de aliança no momento em que o Verbo se fez carne, no momento em que Ele fez Sua morada junto a Seu povo.

Nasce um Rei

"Assim diz o Senhor: se vocês puderem romper a minha aliança com o dia e com a noite, de modo que já não haja mais dia e noite no tempo certo, também será rompida a minha aliança com meu servo Davi, de modo que lhe falte um descendente no trono" 9Jr 33,19-21). Assim diz o Senhor por meio do profeta Jeremias - após o reino dos descendentes de Davi já ter sido pilhado.

Aqueles que tinham fé continuaram esperançosos. Deus fez promessas muito específicas ao Rei Davi. Ele não poderia ter sido mais claro, mesmo que as circunstâncias fizessem tais promessas parecerem absurdas. A oração do povo de Deus no Antigo Tesamento continuava a se elevar ao céu durante o reinado de Herodes: "Até quando, ó Senhor?"

Vemos a resposta a esta pergunta - e às orações - nas primeiras palavras do Novo Testamento: 'Livro da genealogia de Jesus Cristo, Filho de Davi, Filho de Abraão" (Mt 1,1), Enfrentando um público judeu, Mateus identifica Jesus como "o Cristo", o Ungido, o Messias esperado; e acrescenta que, fiel às expectativas, o Messias nasce da Casa de Davi e da descendência de Abraão. Ao invocar esses dois nomes, Mateus evidencia as alianças. Assim, a partir do início de seu Evangelho, ele deixa claro que está anunciando a chegada do reino. Essa é a essência de sua "Boa-Nova" (significado literal da palavra 'Evangelho'). As alianças tinham sido cumpridas. O reino prometido havia chegado e, de fato, era um reino universal, composto por Israel e os gentios. "De você nascerão reis... Abraão se tornará uma nação grande e poderosa, e através dele serão abençoadas todas as nações da terra" (Gn 17,6; 18,18). "Eu estabelecerei o trono real dele [de Davi] para sempre" (2Sm 7,13-14),

O tão esperado rei havia chegado, o filho de Davi, o filho de Deus, o Cristo - o ungido. E Ele tinha sangue real para prová-lo.

A genealogia de Mateus começa com Abraão, mas é centrada no reino de Davi. Os quatro pontos de destaque são a vida de Abraão, o reinado de Davi, a queda da Casa de Davi com o exílio babilônico, e a chegada de Jesus. Mateus resume as gerações de modo a dividi-las em três grupos de quatorze, número este que, em hebraico, corresponde ao nome de Davi (DVD = D:4; V:6; D:4 - 4+6+4=14). Assim como no latim, também no hebraico as letras correspondem a valores numéricos; de modo que a genealogia do filho de Davi é repetidamente identificada com a familia real.

Com o desenrolar de sua narrativa, Mateus nos mostra a convergência de dois personagens antagônicos para o reino: Herodes e Jesus. Jesus nasce em Belém, a cidade de Davi, a qual foi identificada pelos profetas como a terra natal do Rei-Messias, (Mt 2,6; Mq 5,2). Além disso, Ele nasceu de uma virgem, cumprindo a profecia de Isaías sobre o Rei messiânico: "Eis que uma virgem conceberá e dará à luz um filho" (Mt 1,23; Is 7,14).

Quando do nascimento de Jesus, os gentios, representados pelos Magos, vêm prestar homenagem ao rei recém-nascido, assim como o fizeram com o filho legítimo de Davi, o rei Salomão (Sl 72,10-11). Os magos encontraram Jesus com Maria - o rei com sua rainha-mãe, assim como encontraram Salomão com Betsabá na corte real de Jerusalém, em tempos passados (ver 1Rs 2,19).

A visitação dos Magos provoca um dos assassinatos furiosos de Herodes, que ordena o massacre dos inocentes. A sagrada família deixaria o país, da mesma forma que o legítimo ungido Davi tinha sido forçado a fugir da ira do invejoso, e divinamente deposto, Saul.

A própria revelação do Rei

Não são apenas os evangelistas que identificam Jesus como rei e o reino como Davídico. Não é apenas uma questão de encaixar as profecias nas cenas. Repetidas vezes, os contemporâneos e, até mesmo os seus inimigos, dão esse título a Jesus. Lembre-se dos cegos que clamam "Filho de Davi, tem compaixão de nós!" 9Mt 9,27; 20,30) ou da mulher Cananeia que busca a cura para sua filha (Mt 15,22). A multidão que acolhe Jesus na capital de Davi, Jerusalém, e o saúda com "Hosana ao Filho de Davi!" (Mt 21,9). Os fariseus hostis identificam "o Cristo" com "o Filho de Davi" (Mt 22,42). Mesmo Pilatos e os soldados romanos que zombam de Jesus com títulos davídicos (Mt 27,11.29,37), bem como a multidão, que o injuriava dizendo que se fosse o filho de Davi deveria ser também o filho de Deus (Mt 27,40).

Jesus não recusa nem nega os títulos Davídicos, mas os confirma com suas próprias declarações. Certo capítulo começa com a história de Jesus e seus discípulos colhendo grãos num sábado, uma ação que Jesus justifica comparando a Si mesmo e aos Seus com Davi e seus companheiros: "Não lestes o que fez Davi num dia em que teve fome, ele e seus companheiros...?" (Mt 12,3). Mais adiante no mesmo capítulo, o povo se questiona: "Não será este o filho de Davi?" (12,23). E Jesus responde a eles dizendo: "Se é pelo Espírito de Deus que expulso os demônios, então chegou para vós o Reino de Deus" (12,28).

Sem qualquer dúvida, os Evangelhos identificam Jesus como "filho de Deus" e "filho de Davi", como rei e ungido. Seu reino é claramente o reino de Deus, bem como o reino de Davi, o que é confirmado em pequenos detalhes. Pois o reino de Jesus, como encontramos nos Evangelhos, apresenta as características que constituem a monarquia davídica. Vamos rever as sete principais características e as três características secundárias da aliança de Deus com Davi, e assim veremos como Jesus preenche este papel.

1. A monarquia Davídica foi estabelecida sobre uma aliança divina. A aliança de Deus com Davi, conforme descrita na profecia de Natã (2Sm 7,9-16), fornece todo o conteúdo do relato angélico de Jesus em Lucas 1,32-33. Posteriormente, Jesus associa o Seu reino com a "nova aliança" (Lc 22,20) e afirma que o reino foi atribuído a Si (literalmente, "feito uma aliança") pelo Pai (Lc 22,29).

2. A monarquia Davídica era o Filho de Deus. Jesus não é simplesmente adotado, mas o Filho natural de Deus (Lc 1,35), e este título é utilizado por Ele em todo o Novo Testamento.

3. O filho de Davi era "o Cristo". De fato, "Cristo" é o título preferido de Jesus, da primeira linha do Novo Testamento em diante. Na verdade, Ele é o "Cristo do Senhor" (Lc 2,26), um título aplicado somente aos reis do Antigo Testamento (ver 1Sm 16,6).

4. A Casa de Davi foi ligada indissoluvelmente a Jerusalém. As cenas de clímax do ministério de jesus ocorrem em Jerusalém - Seu julgamento, Paixão e Morte. O Evangelho deixa claro que a Palavra de Deus deve sair "de Jerusalém" para os confins da Terra (Lc 24,47).

5- A monarquia foi também ligada ao Templo. O Evangelho de Lucas começa narrando a infância de Jesus no Templo. Depois, Ele purifica o Templo ao expulsar os mercadores. Durante a maior parte do Evangelho, Jesus está a caminho de Jerusalém (9,51-19,27), tendo seu ponto alto quando de Sua chegada a esta cidade, onde se purifica e ensina a partir do Templo (Lc 19,45-21,38).

6. O Reinado de Davi é destinado a governar as doze tribos de Israel, bem como todas as nações. Os Evangelhos nos mostram por vários sinais que Jesus pretende restaurar a unidade das doze tribos. Ele nomeia doze Apóstolos e promete que vai julgar "as doze tribos de Israel" (Lc 22,30). Figuras-chave, tais como a profetisa Ana, da tribo de Aser, representam um resquício fiel das tribos "dispersas" do Norte (Lc 2,36). E Jesus ganhou uma "multidão" de seguidores das antigas terras do Estado de Israel ao pregar na Galileia, Samaria e Judeia. Com Sua entrada em Jerusalém, Ele forma um reino unido. Contudo, a realeza de Jesus se estende a todas as nações" (Lc 2,32). Lucas descreve a genealogia a partir de Adão, em vez de Abraão. Jesus cura os gentios e judeus (por exemplo, Lc 7,1-10). Ele profetiza dizendo que "os homens virão do oriente e do ocidente, do norte e do sul" para se sentarem à mesa do Reino de Deus (Lc 13,29). E ordena que o "perdão dos pecados seja levado em Seu nome a todas as nações, a começar por Jerusalém" (Lc 24,47).

7. O Reino de Davi era destinado a ser eterno. O anjo Gabriel promete a Maria que Jesus "reinará sobre a casa de Jacó para sempre, e Seu reinado não terá fim" (Lc 1,33).

As três características secundárias também se encontram relatadas no Evangelho:

1. Maria aparece como a Rainha-Mãe quando aconselha seu filho rei (Jo 2,3), quando defende a causa de seus súditos, quando recebe os dignatários estrangeiros com ele (Mt 2,11) e quando se encontra com Sua corte real de doze ministros, os Apóstolos (Jo 19,25; At 2,14).

2. Jesus nomeia Pedro como primeiro-ministro com os próprios termos usados na nomeação do "administrador", que reina na "corte real de Davi" como vice-rei (ver Mt 16,19; Is 22,15-25). O rei concede uma autoridade simbólica com "as chaves".

3. Jesus renova o sacrifício de ação de graças, a todah, mediante Sua própria oferta de pão e vinho, [Eucharistia], a Eucaristia. Com efeito, sempre que encontrarmos Jesus partindo o pão, o veremos "dando graças" (por exemplo, Lc 24,30-35; Jo 6,11).

Ninguém que crê nos Evangelhos pode negar que os contemporâneos de Jesus esperavam por um Messias-rei vindo da Casa de Davi. Ninguém que crê nos Evangelhos pode negar que Jesus se apresentou como o tão esperado rei da Casa de Davi.

Se Jesus é rei da Casa de Davi, o Seu reino deve ser, em certo sentido, um reino Davídico - o reino Davídico. O "reino de Deus" em Jesus não suplantou nem substituiu o reino eterno criado pela aliança com Davi. O reino de Jesus era aquele reino, pois é aquele reino, cumprido em plenitude.

Apenas o reino de Davi fora chamado de o "reino de Yahweh" (1Cr 28,5). Os autores do Antigo Testamento entenderam que o reinado da casa de Davi era baseado numa aliança divina, na qual o filho de Davi seria chamado de o Filho de Deus (2Sm 7,14; Sl 2,7). Portanto, o reino de Davi era a manifestação do domínio de Deus sobre a Terra, isto é, do reino eterno de Deus sobre Israel e sobre todas as nações.

Mas aonde está esse reino hoje? Na verdade, onde ele esteve todos esses anos, desde a Ascensão de Jesus? Para o apologista cristão, antigo ou moderno, talvez não haja questão mais importante do que esta.

QUANDO CHEGAR O REINO

Um estudioso bíblico moderno, Alfred Loisy, profetizou a sua própria perda da fé, quando comentou, ironicamente: "Jesus proclamou o reino; o que veio foi a Igreja." Porém, Loisy não falava simplesmente dele mesmo. Essa justaposição da Igreja ao reino tornou-se um ponto comum em certos círculos acadêmicos no final do século XIX.

Quando se trata do reino de Deus, de fato, muitas vezs, há uma diferença entre as expectativas daqueles que acreditavam, e o seu cumprimento pelo Senhor. Pessoas com melhores disposições do que Alfred Loisy foram atormentadas por este problema. Considere a profunda tristeza dos discípulos após a morte de Jesus: "Nós esperávamos que fosse ele quem havia de restaurar Israel..." (Lc 24,21).

Eles esperavam que a redenção viesse com uma conquista militar ou com uma intervenção milagrosa do céu. Eles não esperavam que esta redenção implicasse num sofrimento, na morte e num aparente fracasso. Quando eles clamavam por um reino, certamente não esperavam a Igreja. No entanto, é isso o que eles têm.

Ao longo dos séculos, os judeus citaram o "fracasso" de Jesus em criar o esperado reino como uma evidêcia óbvia contra as reivindicações do Cristianismo. Alguns pagãos adversários do Cristianismo (Celso, no século II e Juliano, no século IV) seguram na mesma linha de argumentação. Entretanto, no século XIX e XX, certos cristãos juntaram suas vozes a esse coro incomum. Alfred Loisy estava entre eles, mas não estava sozinho. Outro foi o alemão F. C. Baur, que afirmou que Paulo inventou o Cristianismo como o conhecemos hoje, adequando-se ao não aparecimento do reino.

No extremo oposto do espectro teológico de Baur e Loisy, o dispensacionalista americano C. I. Scofield - cuja famosa obra Scofield Reference Bible tem alimentado gerações de americanos fundamentalistas - tentou uma resposta aos críticos liberais, mas aceitou a alegação de que houve uma ruptura entre a expectativa e a realização do reino. A versão de Scofiel assim afirmava: Jesus ofereceu o reino aos judeus, mas eles O rejeitaram. Por isso, Ele estabaleceu a Igreja com um "grande parênteses" entre o ministério de Jesus e a vinda do verdadeiro reino, que não chegará até que haja o "arrebatamento".

Nos dias imediatamente seguintes à ressurreição, um discípulo perguntou: "Senhor, é agora que vais restaurar o reino de Israel?" (At 1,6) E esta angustiada pergunta ecoa por milênios. É claro que, depois de todos esses anos, alguns discípulos ainda encontram uma insuportável disparidade entre o que Deus prometeu e o que o Cristianismo é.

Porém, devemos nos questionar se o problema é com a provisão de Deus ou com as expectativas humanas. Voltemos comigo ao momento da Escritura no qual Jesus proclamou o Seu reino nos termos mais evidentes e claros - na Última Ceia. A partir do Evangelho de Lucas, que nos fornece abundantes detalhes relacionados com o reino, vamos olhar mais de perto a questão.

Uma ceia adequada a um Rei

O relato da Última Ceia em Lucas é u texto-chave para a ligação entre a identidade de jesus com o "filho da realeza de Davi" e o "Reino de Deus" em Davi. Naquela ceia, Jesus estabeleceu os Apóstolos como Seus vice-reis, isto é, como os homens que, a partir daí, vão exercer a autoridade em Seu nome. Nos Atos dos Apóstolos - livro que Lucas escreveu como continuaão do seu Evangelho - vemos os Apóstolos exercendo a autoridade que Jesus havia lhes dado e como deviam governar a Igreja.

Mais do que os outros evangelistas, Lucas associa a imagem do reino com a ceia de comunhão Os estudiosos identificam dez refeições diferentes em Lucas, as quais odem servistas como antecipações da Ceia do Messias anunciada pelos profetas do Antigo Testamento (ver Is 25,6-8; Zc 8,7-8. 19-23). Isso se torna particularmente evidente nas refeições organizadas pelo próprio Messias: na alimentação das cinco mil pessoas (9,10-17); na Última Ceia (22,7-38) e na ceia de Emaús (24,13-35). NEstas três refeições em Lucas - e somente nelas - o pão é "partilhado"; expressão esta que será utilizada em Atos 2,42,46; 20,7.11; 27,35.

O tema do reino é assinalado nestas três refeições:

- todas as cinco mil pessoas ficam "satisfeitas" e ainda sobram doze cestos cheios (9,17), enfatizzando a plenitude das doze tribos de Israel sob o Filho de Davi (ver 1Rs 4,20; 8,65-66);

- a Última Ceia é intimamente associada à vinda iminente do reino (ver Lc 22,26.18,29-30);

- a sequência de Emaús e iniciada com  observação dos discípulos: "Esperávamos que Ele fosse estabelecer o reino de Israel", ou seja, restaurar o reino de Davi (ver Lc 1,68-69).

Nas refeições de partilha, Jesus estava agindo como o Seu antepassado real. Davi tinha estendido a fidelidade da aliança através de uma ceia-real de comunhão (2Sm 9,7.10.13; 1Rs 2,70. Os Salmos de Davi usam a imagem de comer e beber para celebrar o dom de Deus, e os profetas descrevem a restauração da vidade de Davi (Is 25,6-8; Jr 31, 12-14) e a aliança de Davi (Is 55, 1-5) mediante as imagens de uma festa. Em Ezequiel, o papel principal do "pastor" Davi é "alimentar" Israel (Ez 34,23).

Então, essa é a marca verdadeiramente real que Jesus fala aos Seus Apóstolos: "'Tenho desejado ardentemente comer convosco esta Páscoa, antes de sofrer. Pois vos digo: não tornarei a comê-la, até que ela se cumpra no Reino de Deus.' Pegando o cálice, deu graças e disse: 'Tomai este cálice e distribuí-o entre vós. Pois vos digo: já não tornarei a beber do fruto da videira, até que venha o Reino de Deus.'" (Lc 22,15-18).

Jesus enfatiza aqui que a Ceia é algo relacionado ao reino e à sua vinda, cujo reino, na verdade, está próximo. Ele associa o reino com comer e beber, como Ele dirá novamente alguns versículos depois, ao assegurar a Seus discípulos que eles vão "comer e beber... no Meu reino" (v. 30). Aquelas duas declarações enquadram a história da Ceia, e estabelecem uma promessa: o comer e o beber com Jesus são manifestações importantes da presença do reino. Alguns dias depois, quando o Cristo ressuscitado come com os discípulos, aqueles momentos são a Sua garantia de que o reino se fez verdadeiramente presente.

As evidências da Última Ceia

Se a promessa de Jesus é o quadro da história, o ponto focal é a assim chamada "narrativa da institução". As palavras da instituição são, certamente, estranhas, embora os cristãos tenham se acostumado a elas ao longo dos milênios. Jesus, o rei e o ungido, se identifica com a fração do pão e com o vinho: "Isto é o Meu corpo... este é o cálicce... da nova aliança no Meu sangue" (Lc 22, 19-20). Em seguida, em Lucas e na narração da história de Paulo, ouvimos a ordem de Jesus para repetir esta ceia "em Sua memória". É essa ordem que torna essa passage uma narrativa da instituição. Sem essa ordem, nada seria instituído: seria, apenas, a história da última ceia de Jesus antes da Sua morte. Mas Jesus ordena aos Apóstolos para repetirem a refeição quando Ele não estiver mais visivelmente presente, e assim, o episódio da Última Ceia se torna a história fundamental para as ações da Igreja, como vemos nos Atos dos Apóstolos (2,42.46; 20,7.11; 27,35).

Algumas pessoas dizem que Jesus usou o pão e o vinho como metáforas para explicar o seu sacrifício que estava próximo. Mas se fosse esse o caso, tais metáforas seriam inúteis, pois são falhas, uma vez que seriam o pão e o vinho que necessitariam de uma explicação, e não a Sua morte! As palavras de Jesus não são tanto uma explicação ou um ensinamento em forma de "discurso", uma declaração que evidencia o que expressa, tal como "Faça-se a luz!", ou qualquer uma das promessas da aliança de Deus. O discurso de Jesus não vem após o evento; mas ele torna o evento presente.

E o que está implícito na Última Ceia, se torna explícito na história de Emaús, onde a presença visível do Senhor desaparece durante a distribuição das espécies (24,31). Por que isso aconteceu? Porque, à luz de Lucas 22,19, a Sua presença estava agora evidente com o pão. Assim, o reino messiânico foi "dado a conhecer" aos discípulos "no partir o pão" (24,35). Depois, Lucas correlaciona a sua própria experiência litúrgica à Última Ceia de Jesus, incluindo-se dentre aqueles que se reúnem no primeiro dia da semana para a "fração do pão" (At 20,7)

Na Última Ceia e no episódio de Emaús, os cristãos aprenderam, com estes fatos, que o Cristo ressuscitado está realmente presente no pão que juntos nós partimos. Onde está a Eucaristia, aí está o Rei. E onde está o Rei, aí está o Reino.

Novo e melhor

No Evangelho de Lucas, Jesus se refere ao cálice Eucarístico como o cálice da "nova aliança no Meu sangue" (22,20). Certamente, Ele estava evocando as palavras de Moisés em Êxodo 24,6-8, "Eis o sangue da aliança...", mas combinando-as com as posteriores palavras de Jeremias no oráculo sobre as promessas de Deus: "Dias hão de vir - oráculo do Senhor - em que firmarei nova aliança com as casas de Israel e de Judá" (Jr 31,31). A "nova aliança" de Jeremias era para ser o contrário da aliança do Sinai que foi violada (Jr 31,32). O profeta esclarece (em Jr 30-33) que a "nova aliança" envolveria outro nível de intimidade com Deus (Jr 31, 33-34) - além da reunificação do reino dividido (31,31) e da restauração da Casa de Davi (30,9; 33,14-26) e da aliança de Davi (33,19-21). Essa é a grande notícia: que tudo está contido nas palavras de Jesus na instituição.

Com essas associações da aliança, Jesus marca esta ceia como a ceia de renovação da aliança, assim como a Pásacoa era a renovação da aliança de Deus com Moisés também numa refeição. Quando os cristãos bebem do cálice da Eucaristia, eles reafirmam o seu lugar dentro da aliança, renovando e transformando a aliança messiânica de Davi.

Dentro desse reino renovado, Jesus irá partilhar a Sua autoridade, mas não sem antes corrigir as noções equivocadas dos discípulos sobre o reino e seu poder (Lc 22,28-30). Ele lhes diz: "Assim como o meu Pai confiou o Reino a mim, eu também confio o Reino a vocês" (v.29). O verbo, traduzido aqui como "confiar" não chega a captar o sentido do grego. A palavra original, diatithemai, significa, literalmente, "estabelecer uma aliança". Portanto, uma tradução mais precisa da frase seria: "Assim como o meu Pai estabeleceu uma aliança em mim, eu também estabeleço uma aliança em vocês. E vocês hão de comer e beber à minha mesa no meu Reino, e sentar-se em tronos para julgar as doze tribos de Israel." (Lc 22,29-30)

O esclarecimento desse verbo pode parecer uma mudança pequena, mas, realmente, ele condiciona um elemento surpreendente à lilsta já notável de privilégios messiânicos, que Jesus está passando aos Seus Apóstolos: os tronos, as tribos, a relação pai e filho, o banquete à mesa real - e, agora, a aliança.

Pois as Escrituras nos falam somente de um reino que foi fundado sobre uma aliança: o reino de Davi (ver Sl 89,3-4. 28-37). Somente este reino gozava dos laços familiares com o próprio Deus, mas que, agora, Jesus está estendendo a aliaça mediante a renovação em Si mesmo.

O significado de Lucas 22,29 se torna claro: uma vez que Jesus é o filho de Davi, Ele é o herdeiro legítimo do trono e da aliança de Davi. Deus "estabelelce" um reino em Jesus. E agora, Jesus, através da "nova aliança no [Seu] sangue", "estabelece" esse mesmo reino com os discípulos. Esta aliança estabelecida não é a promessa de uma atribuição (algo futuro), mas a declaração da atribuição (tempo presente).

No entanto, Jesus não está dando o Seu reino. Ele continua a se referir a ele como "o meu reino". Assim, os Apóstolos não substituem Jesus, mas agora eles podem participar de Sua realeza, bem como, de Seu sacerdócio. O propósito da Nova Aliança, diz Jesus, é de admitir os discípulos a "comer e beber à Minha mesa no Meu reino." O Senhor está compartilhando o exercício da autoridade sobre Seu reino com aqueles que compartilham de Seu corpo, de Sua aliança, de Sua vida. E a marca distintiva dessa autoridaade é o serviço. O próprio Jesus não está sentado, mas sim, servindo os outros.

O sinal do reino será comer e beber à mesa do rei. Mas perceba que os discípulos já estão - na Última Ceia - comendo e bebendo à mesa de Jesus. E Ele não desloca esse gesto para uma data futura. O sinal do reino já está lá, presente, no Cenáculo. Qual o significado desse gesto? Significa que o reino já se fa presente no comer e no beber Eucarísticos. E a ppresença do reino continua quando os Apóstolos partem o pão em memória de Jesus. A celebração da Eucaristia manifesta o rein. O reino e a Eucaristia estão fortemente ligados, pois o reino de Deus é um reino Eucarístico.

Jesus é o herdeiro da aliança com Davi. Ele é o eterno rei de Israel e das nações (Lc 1, 32-33). Mas agora Ele decreta uma nova aliança entre Ele e os seus discípulos, estendendo os privilégios da aliança de Deus para além da Casa de Davi, ou seja, a todos os Apóstolos. Estes, como Cristo, sã~agora herdeiros do reino de Davi; e porque são herdeiros, gozam dos privilégios dos filhos de Deus: eles comem à mesa real e se sentam em tronos da Casa real, para julgar as doze tribos.

E isso é tudo sobre o reino de Davi. É tudo sobre o reino de Deus. É tudo sobre a Igreja. E é tudo sobre você e eu. Pois Cristo deixou claro: o reino de Deus é a Igreja, e esta pertence aos filhos de Deus, pois "participam da carne e do sangue" (Hb 2,14) do grande rei.

Rumo ao Alto

O que isso signfica para a Igreja? Logo descobriremos em várias situações nos Atos dos Apóstolos. A promessa da heraça e do reino de Jesus é cumprida com os Apóstolos assumindo sua autoridade na Igreja. Além do mais, a promessa da comunhão à mesa é cumprida logo após a Ressurreição e, depois, continuada na prática Eucarística da Igreja.

Nos primeiros versículos dos Atos (1,3.6), aprendemos que o assunto tratado por Jesus com os Apóstolos, ao longo dos 40 dias, foi o reino de Deus. O "reino" continuará sendo um tema central em todo o livro, que termina com Paulo anunciando o reino de Deus em Roma (28,31). Atos 1,4 faz a conexão, agora familiar, entre a promessa do reino e o comer e beber - o banquete messiânico - quando afirma que Jesus lhes ensinou nesse período de quarenta dias, e "fez uma refeição" com eles. "Fazer uma refeição" é uma gíria que significa "comer juntos".

Quando os discípulos perguntam a Jesus: "Senhor, é agora que vais restaurar o reino de Israel?" (1,6), eles podiam estar se referindo à promessa de Jesus em Lucas 22,30 que dizia: "vocês se sentarão nos tronos". E assim sendo, os Apóstolos ficam se questionando, então: "quando receberemos a autoridade a nós prometida?" Ao mesmo tempoem que Jesus não incentiva qualquer especulação sobre a época desses acontecimentos (v.7), por outro lado, Ele descreve os meios através dos quais o reino seria restaurado, ou seja, mediante o testemunho dos Apóstolos por toda a Terra, quando inspirados pelo Espírito (v.8). Por um lado, a descrição geográfica de Jesus sobre a missão deles - "em Jerusalém, em toda a Judéia e Samaria, e até os confins da terra" - é um destaque profético da narrativa de Atos, nos ajudando a reconhecer que todo o livro nos fala sobre a expansão do reino (cf. At 28,31). Mas, por outro lado, é um mapa Davídico que reflete a geografia teológica da promessa da aliança de Deus relacionada à extensão do império de Davi. Jerusalém era a cidade de Davi (2Sm 5,6-10); a Judéia, a terra de sua tribo (2Sm 5,5; 1Rs 12,21); a Samaria representava o norte de Israel, a nação de Davi (1Rs 12,16); e "os confins da Terra" significa os gentios (cf. Is 49,6), os vassalos de Davi (Sl 2,7-8; 72,8-12; 89,25-27).

Mesmo assim, os Apóstolos não compreendiam ainda o que Jesus estava lhes dizendo. Eles não sabiam que Ele transformaria as expectativas deles de um reino nacional terrestre na realização de um reino internacional, universal, católico - um reino que se manifesta na Terra, mas que é essencialmente celeste. O Espírito ainda seria derramado antes que os Apóstolos percebessem o reino transformado. Assim, somente após os discípulos terem recebido o poder do Espírito Santo, é que eles se tornariam verdadeiras testemunhas (At 1,8).

Entre a promessa do Espírito (At 1,8) e Pentecostes (2,1-4), Lucas nos recorda a restauração do grupo dos Doze mediante a substituição de Judas por Matias. Uma vez reconstituídos os Doze, o evento de PEntecoestes (At 2,1-42) marca a restauração de Israel como o reino sob o Filho de Davi, e o começo do vice-reinado dos Apóstolos neste mesmo reino.

De modo bem vivo, Lucas nos mostra as promessas da restauração do reino. Não somente todos os Doze (e presumidamente os cento e vinte) estão "reunidos no mesmo lugar" (2,1) - assim representando o núcleo do Israel restaurado - mas eles endereçam sua mensage aos "judeus piedosos de todas as nações que há abaixo do céu" (v.5); e Lucas enumera tais nações (vv. 9-11). POr um momento, o trabalho dos Apóstolos transforma os efeitos do exílio e da dispersão das tribos.

Assim, as profecias de Joel (Jl 2,28-32) e outras são cumpridas, e Israel é restaurado, não definitivamente - coo a Igreja mais tarde o seria - mas, neste sentido, fundamentalmente, pois Deus reuniu os filhos dispersos de Israel e todo o povo eleito, que agora reunidos, eram a própria salvação definitiva.

Nos Atos, vemos que o Israel restaurado tinha uma certa forma e esstrutura: não daquelas tribos reunidas no Sinai, mas daquelas doze tribos reunidas no reino de Davi. O discurso de Pedro engloba a realeza Messiânica de Jesus Cristo (At 2,36). Ele prega aos exilados de Israel, ali presentes, que Jesus é o cumprimento da aliança de Davi (v.30) e o cumprimento das profecias que Davi fez a respeito do próprio Jesus (vv. 25-28; 34-35). Ele aplica a Jesus o salmo da entronizzação real (Sl 110), assegurando que Jesus foi agora entronizado no céu ("exaltado à direita de Deus") de onde derrama o Seu Espírito sobre os Apóstolos, como todos ali podiam testemunhar (v.33). Assim, Jesus está agora reinando no céu e os resutlados do Seu reino estavam sendo manifestados naqueles eventos que o povo podia "ver e ouvir" (v.33).

Pedro e os Apóstolos, cheios do Espírito, tinham se tornado testemunhas. Agora, eles vêem a natureza do reino de Jesus e  Sua realização presente. Quando os ouvintes de Pedro aceitam o fato de que Jesus é o Messias de Davi - e, assim, reconhecem o Seu reino legítimo sobre eles - são incorporados na Igreja pelo Batismo (2,41-42; ver também 4,32-5,11, especiamente este último versículo, o 5,11).

Entretanto, é importante notar que o reino messiânico não é somente restaurado, mas também, transformado. O Fiho de Davi não é entronizado na Jerusalém terrestre, mas na celeste, "exaltado à direita de Deus". O reino foi deslocado da Terra para o Céu, mesmo que continue a se manifestar na Terra pela Igreja. O reino - a Igreja - existe simultaneamente na terra e no Céu. O rei é entronizado no céu, mas Seus ministros (os Apóstolos) estão em atividade na Terra. Enquanto isso, o rei celeste está unido aos Seus oficiais e a Seus súditos através do Espírito Santo e dos sacramentos, especialmente do Batismo e da Eucaristia (At 2,38-42).

Historicamente, o reino de Davi se realiza na Igreja Católica. No entanto, ele também sofre uma transposição do reino terrestre para a esfera celeste. A Jerusalém terrena e seu Templo, apesar do genuíno respeito de Lucas por eles, não podem ser o cumprimento final ldo reino (ver At 7,48-50; Lc 21,6). Pedro deixa claro que a lei atual de Cristo não se dá a partir da Jerusalém terrena, mas da Jerusalém do alto (At 2,33). Contudo, o Seu reinado se expressa no reino terrestre mediante o que pode ser "visto e ouvido" (At 2,33). O novo reino de Davi, do qual a Igreja é a sua manifestação visível, existe simultaneamente no céu e na terra, pois seus cidadãos passam de uma esfera à outra.

Ainda, o reino inteiro - ou seja, toda a Igreja - está unido(a) pela presença do Espírito Santo nele(a) e pela celebração da Eucaristia. Essa é a forma do rei se fazer presente, quando o reino é manifestado e quando os cidadãos deste reino da terra participam perpetuamente do banquete messiânico do rei celestial.

Tudo é novo. No entanto, tudo já estava lá, como que em gérmen, no tempo de Davi. O estudioso das Escrituras do século XX, Padre Raymond Brown, atesta que o reino de Israel unido sob Davi permanece uma instituição israelita da maior relevância para o estudo atual da Igreja:


A história de Davi evidencia todos os pontos fortes e fracos dos primórdios da instituição religiosa do reino para o povo de Deus... O reino estabelecido por Davi no Antigo Testamento... tem seu paralelo mais próximo na Igreja no Novo Testamento... Para ajudar os cristãos a entenderem como a Bíblia nos fala (em questões relacionadas à Igreja), seria bom se eles conhecessem sobre Davi e seu reino, pois este reino também era o reino de Deus e cujos reis, apesar de todas as suas imperfeições, o Senhor prometeu tratar como Seus “filhos” (2Sm 6,14)

De fato, há imperfeições no que vemos da Igreja. Afinal, todos os governantes terrenos do reino são imperfeitos, como eu sou e, como eu suponho que você também seja; e como Davi era, e como Pedro também foi. Como disse no início do livro, o Papa se confessa pelo menos uma por semana.

Mas este Igreja, com todas as suas imperfeições, é a única Igreja que pode corresponder tanto com o reino da aliança de Jesus, como com as “parábolas do reino” que Jesus nos fala no Evangelho de Mateus. Com aquelas sete parábolas, Ele preparou seus discípulos para que reconhecessem o reino dos céus, e também, para que percebessem que o reino na Terra seria uma mistura de bons e de maus – muito parecido com o reino original de Davi. Seria como um campo semeado tanto com trigo como com joio, ou como uma rede de arrastão cheia de bons peixes, mas também de peixes ruins.

Ao mesmo tempo, as parábolas deixam claro que o reino restaurado será manifestado de uma forma inesperada e que muitos poderão não reconhece-lo (cf. Mt 13, 11-15.44-46). Este reino não será caracterizado pela pompa real, por uma conquista militar, por um poder político, nem por uma riqueza econômica. Em meio ao interrogatório de Pilatos, Jesus falou o que importava saber em termos inequívocos: “O meu Reino não é deste mundo; se o meu Reino fosse deste mundo, os meus súditos certamente lutariam para que eu não fosse entregue aos judeus. Mas o meu Reino não é deste mundo” (Jo 18,36). Jesus não quis dizer que o Seu reino não estava neste mundo, mas apenas que o Seu reino não tinha sua autoridade real derivada de espadas ou exércitos, ou votos majoritários em eleições ou partidos políticos. Sua autoridade real é derivada de Seu Pai celeste. O Reino não era o que Caifás ou Pilatos – ou qualquer dos seus contemporâneos – esperavam.

A partir das parábolas do Reino, podemos concluir, sem sombra de dúvida, que Jesus estabeleceu com a Sua vinda, um reino sobre a Terra. No século IV, Santo Agostinho colocou isso muito bem: “A Igreja já é agora o reino de Cristo e o reino dos Céus”! Um teólogo moderno, o cardeal Charles Journet, corroborou: “O Reino já está na terra; e a Igreja já está no céu. Abandonar o valor idêntico que tem a Igreja e o Reino significaria desconsiderar esta importante revelação.”

Assim, a menos que consideremos o reino tanto terreno como celestial, não estaremos vendo a Igreja (ou o Reino) como Jesus quer que vejamos. Pois não existem duas Igrejas, uma no céu e outra na terra. Também não existem dois reinos, um na terra e outro (para o momento) apenas presente no céu. Assim, a Igreja existe em dois estados, mas é uma única Igreja. É um único reino. Como professamos no Credo, há somente a Igreja uma, santa, católica e apostólica.

O Reino chegou e este é a Igreja – a Igreja universal, a Igreja Católica – um campo com trigo e joio, uma rede com peixes bons e ruins. Se Jesus pretendesse estabelecer um reino em sua total perfeição, Ele não teria incluído o joio no campo, nem os peixes ruins nessa rede de arrasto. As Suas parábolas só têm sentido se o reino for a Igreja como nós a conhecemos – uma, santa, católica e apostólica – cheia de pecadores, alguns de nós arrependidos.

Somente no céu, no fim dos tempos, nós conheceremos o Reino manifestado em sua glória: “quando Ele se manifestar, seremos semelhantes a Deus, porque o veremos tal como Ele é” (1Jo 3,2). Até aquele dia, Ele ainda permanecerá conosco, na Igreja, com toda a Sua glória na Eucaristia. E não é que Ele seja menos glorioso agora, mas é que esta é a forma que h oje temos para perceber como Ele é.

Ainda, graças à aliança, “agora somos filhos de Deus” (1Jo 3,2). Somos filhos no “Filho de Deus”, o rei da criação, pela linhagem de Davi. E isso é motivo suficiente de alegria, desde agora até o dia em que o Filho de Davi nos restaurar, para podermos vê-Lo (cf. Lc 18,41) em Sua glória.

Jerusalém, meu lar doce lar

O Antigo Testamento previu o nosso dia e o profetizou. Mesmo nos tempos de Davi, a B´´iblia grega Septuaginta nos diz que, quando o rei-sacerdote se reuniu com o povo de Israel para adorar a Deus, ele se reuniu com a ekklesia. Essa é a palavra que o Novo Testamento usa para significar a Igreja. Então, o rei-sacerdote se reúne hoje com a Sua Igreja. Mas onde?

Não devemos nos surpreender ao saber que, quando vamos à Missa, estamos indo para a casa do Rei Davi: “Vós vos aproximastes da montanha de Sião, da cidade do Deus vivo, da Jerusalém celestial, das miríades de anjos, da assembleia [ekklesia, Igreja] festiva dos primeiros inscritos no livro dos céus” (Hb 12,22-23). Embora a Jerusalém terrestre e seu Templo tenham sido destruídos cerca de uma geração após Jesus ter subido aos céus, o próprio Cristo deu ao Seu povo mais do que uma consolação. Ele nos revelou a Jerusém celeste: “Levou-me em espírito a um grade e alto monte e mostrou-me a Cidade Santa, Jerusalém, que descia do céu, de junto de Deus, revestida da glória de Deus” (Ap 21,10-11), “a nova Jerusalém, que desce dos céus enviada por meu Deus” (Ap 3,12).

Isso é o que acontece quando celebramos a Eucaristia: a nova Jerusalém desce do céu – e Deus e os Seus anjos nos elevam à vida divina. Quando vamos à Missa, nos reunimos como Igreja ao redor do rei-sacerdote, um rei para sempre como Davi, um sacerdote para sempre como Melquisedeque. O rei de Salém, o rei da Paz, ainda reina no lugar onde o pãõ e o vinho são oferecidos a Deus em ação de graças, na todah, na eucaristia. O Filho de Davi está realmente presente entre nós e, por isso, nós estamos presentes no Seu reino.

O Monte Sião desce a nós do céu! A Jerusalém desce em graça ao lugar aonde eu e você vamos à Missa, quer seja numa humilde capela, quer seja ao ar livre atrás de muralhas numa terra estrangeira. Estamos na casa do Monte Sião. O reino dos céus toca a terra onde quer que estejamos presentes à Missa. Lá nós somos servidos pelos ministros apostólicos, vice-regentes de Cristo, ordenados de acordo com o costume dos Apóstolos.

O reino imaginário domina o livro bíblico do Apocalipse. É lá que encontramos Jesus como “o primogênito dentre os mortos e o príncipe dos reis da terra”, lembrando o que é dito sobre Davi no Salmo 89,28: “Por isso, eu o constituirei meu primogênito, o mais excelso dentre todos os reis da terra”. Este Jesus que “fez de nós [sermos] um reino” (Ap 1,6). A espada que sai de sua boca (Ap 1,16) se refere à profecia messiânica de Isaías 11,4: “[O tronco de Jessé] ferirá o homem impetuoso com uma sentença de sua boca, e com o sopro dos seus lábios fará morrer o ímpio”. Em Ap 5,5, Cristo aparecerá como “o Leão da tribo de Judá, o descendente de Davi”. O reino deste Cristo Messias é universal e eterno: “O reinado sobre o mundo pertence agora ao nosso Senhor e a seu Cristo, e ele reinará pelos séculos dos séculos” (Ap 11,15). Em Apocalipse 12,1-6, a mãe de Cristo (aquela “que deu à luz um filho homem, que veio para governar todas as nações com cetro de ferro”, v.5; ver Sl 2,8-9) é retratada com realeza (“uma Mulher revestida do sol, tendo a lua debaixo de seus pés e na cabeça uma coroa de doze estrelas”, v.1), ou seja, cumprindo o papel da Rainha-Mãe de Israel.

Então, o que encontramos na última página do Apocalipse recapitula o que tínhamos visto nas primeiras páginas do Gênesis, num estado primitivo da natureza humana. Encontramos o homem divinizado com domínio sobre o cosmos, por meio de uma aliança com Deus. Na Sagrada Comunhão, nós somos um com aquele Homem. Muito mais do que sermos um com nosso antepassado Adão, nós somos um com Jesus, o Cristo, o Filho de Deus, o Rei.

O Seu reino é a Igreja e esse fato nos deixa surpresos. Mas o Senhor nos disse que assim faria, pois assim devia ser; afinal, nosso Deus nos transcende. Ele cumpre com Suas promessas e nos surpreende com suas expectativas evidentes, mas, por vezes, ocultas. Aliás, essa é a própria definição de mistério.

Então, qual era a intenção de Alfred Loisy com sua provocação de ser a Igreja uma pobre substituta para o reino? Loisy se deparou com a evidência de que Jesus intencionava fundar uma Igreja, e que Ele desejava fazê-lo. Mas nós podemos muito bem responde-lo com esta pergunta: onde está dito que Jesus pretendia abolir as estruturas e as tradições de Israel? Simplesmente não está!! O próprio Jesus declarou enfaticamente: “Não penseis que vim abolir a Lei ou os Profetas; não vim para os abolir, mas si, para leva-los à plenitude. Pois, em verdade vos digo: passará o céu e a terra, antes que desapareça um jota, um traço da lei. Aquele que violar um destes mandamentos, por menor que seja, e ensinar assim aos homens, será declarado o menor no Reino dos céus. Mas aquele que os guardar e os ensinar será declarado grande no Reino dos céus” (Mt 5, 17-19). A pergunta que deveríamos fazer é esta: o que seria daquelas antigas tradições e estruturas davídicas se não fossem todas cumpridas numa nova forma messiânica, agora restaurada e transformada?

HAHN, Scott Walker. Razões para crer: como entender, explicar e defender a Fé Católica. São Paulo: Cléofas, 2005. p.146-188

A morte espiritual e o retorno à vida


O Homem possui duas vidas, e pode morrer duas vezes. Isso nada tem que ver com a crença tola na reencarnação. Me refiro à vida física e à vida espiritual ou da graça. Quando Adão foi criado, ele possuía a vida natural - que o tornava imagem de Deus - e a vida da graça - que o tornava semelhança de Deus. Havia sido advertido de que não comesse do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal pois no dia em que dela comesse certamente ele morreria. Ocorre que Adão comeu e, porém, ainda viveu quase mil anos. Uma leitura superficial e imediata concluiria que Deus errou no profetizar a morte imediata de Adão após a queda. Ou isso ou será preciso recorrer a hermenêuticas esquisitas para encontrar na expressão "no dia" uma metáfora mais esquisita ainda.

A morte de que se fala é a morte espiritual que, então, não indica uma cessação da vida orgânica, mas a perda de um vínculo que unia o homem a Deus e sobrenaturalizava as suas ações, dispondo-o para a consumação da visão beatífica, o ver Deus face a face. Com o Pecado, o homem perdeu sua semelhança com Deus e a sua alma, antes luminosa, encheu-se de trevas.

Esta Queda foi ocasião de uma intervenção ainda mais direta de Deus. Para salvar o homem, vendo-o impedido de salvar a si mesmo, de sair da vala na qual tinha caído, Deus assume a natureza humana - corpo e alma - e se entrega em Sacrifício, corrigindo o antigo erro. A angústia e fidelidade de Jesus no jardim do Getsêmani corrigem a traição no jardim do Éden. Aquilo que, neste último, terminou com a expulsão dos nossos primeiros mais, culminará no esponsal divino com os homens.

Se a primeira mulher foi ocasião de Queda, agora será dada aos homens uma segunda, nascida já do lado aberto da fidelidade consumada do Cristo dormido na cruz, e, portanto, geradora de fidelidade nos homens: a Igreja. Quanto ao fruto proibido, é dito que a mulher, vendo-o de agradável aspecto, tomou-o e comeu-o. Já o fruto desta nova árvore, Jesus dá-o antecipadamente aos Apóstolos que igualmente "tomam e comem", "tomam e bebem": a Santíssima Eucaristia.

O Salmo da Quinta Feira Santa nos diz que "é sentida por demais pelo Senhor a morte dos seus santos, seus eleitos." Sendo que a alma humana é imortal, a morte física é apenas uma passagem. Isso, obviamente, embora seja um mal - visto que não é natural que a alma exista separada do corpo -, não o é de todo. Nesta ordem atual de coisas, os santos desejam morrer para estar com Deus. É o que Paulo deseja quando escreve que prefere partir. Parece-me que a morte aí referida é, antes, a morte espiritual, a perda da graça, aquela mesma que ocasionou a encarnação e a morte de Jesus.

Todos nós podemos perder a vida da alma. Basta que cometamos um pecado mortal. Neste sentido, Sta Teresa D'Avila escreve que este é o único mal de fato digno deste nome porque ameaça de condenação eterna a pobre alma. Cito-a:

"Antes de passar adiante, quero dizer-vos que considereis o que será ver este castelo tão resplandecente e formoso (que é a alma), esta pérola oriental, esta árvore de vida que está plantada nas mesmas águas vivas da Vida, que é Deus, quando cai em pecado mortal. Não há trevas mais tenebrosas, nem coisa tão escura e negra que ela o não esteja muito mais. Basta saber que, estando até o mesmo Sol, que lhe dava tanto resplendor e formosura no centro de sua alma, todavia é como se ali não estivesse, para participar d'Ele, apesar de ser tão capaz de gozar de Sua Majestade, como o cristal o é para nele resplandecer o sol. Nenhuma coisa lhe aproveita; e daqui vem que todas as boas obras que fizer, estando assim em pecado mortal, são de nenhum fruto para alcançar glória; porque, não procedendo daquele princípio que é Deus, do qual vem que a nossa virtude é virtude, e apartando-nos d'Ele, não pode a obra ser agradável a Seus olhos; porque, enfim, o intento de quem faz um pecado mortal, não é contentar a Deus, senão dar prazer ao demônio o qual, como é as mesmas trevas, assim a pobre alma fica feita uma mesma treva." (Castelo Interior)

Eis, pois, que a treva, numa espécie de paródia da luz, enquanto esta é união divina, aquela é união com o demônio. Isto significa que a alma que peca mortalmente se torna de tal modo apartada de Deus que, em certo sentido, consegue fugir da Onipresença, isto é, esquivar-se dos raios do amor divino, e atar-se ao que é inferior. O pecado mortal é o despencar do in excelsis para o in infieris. Isto, obviamente, não se dá literalmente - no sentido espacial nem no afastamento ontológico de Deus -, uma vez que Deus persiste em trazê-la - à alma - através das graças atuais. Mas o centro da alma, tomado assim de rebeldia, tende a resistir-Lhe e fazer-se de cego e surdo diante dos Seus apelos. Porém, se Deus lamenta assim a morte dos Seus, infinitamente maior que o lamento é o gozo que Ele experimenta quando vê um filho Seu voltar à vida. Assim como chorou quando da morte de Lázaro, sem dúvida sorriu quando lhe trouxe de novo à vida. Isto significa que poderemos compensar os destratos aos quais submetemos o coração divino nos colocando novamente sob os influxos da Sua paixão, e isto se dá no Confessionário. Na primeira queda, havia um anjo de espada flamejante que protegia o jardim para que ninguém lá voltasse. Deste novo jardim, os porteiros são os padres, e basta que deixemos para trás o veneno que trazíamos para que as mãos sacerdotais, como que empunhando espadas divinas, ajam no próprio centro da nossa alma extirpando de lá o pus da infecção e tornando-nos novamente vivos. Acorramos aos confessionários, pois a glória de Deus é o homem vivo.

Fogo e sangue, cruz e renúncia.


"Os ritos, as manifestações de respeito para com o culto, o próprio dízimo, as oferendas sobre o altar, e a contribuição para o culto, tudo isso se conjuga sem grande dificuldade com uma vida segundo o Mundo. Mas Cristo é uma chama que passeia pela nossa alma e devora toda a nossa substância: 'vim trazer fogo à Terra'. É de fogo, e de sangue, de cruz, de renúncia, que se trata. O amor dá a sua vida. Fogo e sangue, cruz, renúncia."

Pe. Jaques Leclercq

Respondendo ao Adventismo do Sétimo Dia


Tradução de Fábio Silvério

Há duas distintas reivindicações principais do Adventismo do Sétimo Dia que separam-no do resto do Cristianismo:

1. Primeiro, que os cristãos devem manter o Sábado, o Sabbath, santo. Eles se opõem ao culto no Domingo, argumentando que é contra os Dez Mandamentos e anti-escriturístico em geral.

2. Segundo, que a fundadora do Adventismo do Sétimo Dia, Ellen G. White, foi uma profetiza.

O site oficial dos Adventistas do Sétimo Dia declara:

Um dos dons do Espírito Santo é a profecia. Este dom é uma marca identificatória da igreja remanescente e foi manifestado no ministério de Ellen G. White. Como mensageira do Senhor, seus escritos são uma continuante e autorizada fonte de verdade que provê para a igreja conforto, orientação, instrução e correção.

Mas como nós logo veremos, White não era profetiza, e seus trabalhos estão cheios de erros. Vejamos dois de seus maiores argumentos sobre o Sabbath, ambos de seu supostamente-inspirado livro, O Grande Conflito.


I. Quando a Adoração no Domingo começou?

A primeira das idéias que eu quero considerar é a afirmação de White de que todos os cristãos primitivos mantiveram o verdadeiro Sabbath pelos primeiros séculos do Cristianismo:

Nos primeiros séculos o verdadeiro Sabbath foi mantido por todos os Cristãos. Eles eram zelosos pela honra de Deus, e, acreditando que Sua lei é imutável, eles zelosamente guardaram a sacralidade de seus preceitos.

(Ellen G. White, O Grande Conflito, p.52)

Então isso significa que, pelo menos, nós deveríamos ver cada singular cristão cultuando no Sábado por pelo menos dois séculos (já que "primeiros séculos" deve significar pelo menos dois). Agora leia o que São Justino Mártir escreveu em 150 A.D., em sua Primeira Apologia:

E no dia chamado do Sol, todos que vivem nas cidades ou no interior se juntam em um lugar, e as memórias dos apóstolos ou os escritos dos profetas são lidos, tanto quanto o tempo permite; depois, quando o leitor termina, o presidente instrui oralmente, e exorta à imitação destas dos coisas. Então nós todos nos levantamos juntos e rezamos, e, como dissemos antes, quando nossa oração termina, pão e vinho e água são trazidos, e o presidente de modo semelhante oferece orações e agradecimentos [a palavra grega aqui é Eucaristia], de acordo com sua habilidade, e as pessoas assentem, dizendo Amém; e há uma distribuição para cada um, e uma participação daqueles sobre os quais foram feitas ações de graças, e para aqueles que estão ausentes uma porção é enviada pelos diáconos. E aqueles que estão aptos, e querem, dão o que cada um julga cabível; e o que é coletado é depositado com o presidente, que socorre os órfãos e viúvas e aqueles que, por causa da doença ou qualquer outra causa, estão em falta, ou aqueles que estão presos e os estranheiros peregrinos em nosso meio, e em uma palavra cuida de todos os que precisam.
Mas Domingo é o dia em que nós todos temos nossa assembléia em comum, porque é o primeiro dia em que Deus, tendo agido nas trevas e matéria, fez o mundo; e Jesus Cristo nosso Salvador no mesmo dia ressurgiu dos mortos. Pois Ele foi crucificado no dia anterior ao de Saturno [que é o dia antes do Sábado]; e no dia depois do de Saturno, que é o dia do Sol, tendo aparecido aos Seus apóstolos e discípulos, Ele os ensinou estas coisas, que nós temos submetido a vocês também para sua consideração.

Então, bem, dentro dos primeiros séculos do Cristianismo, o culto no Domingo já era praticado. E note que Justino não descreve isto como alguma inovação. Ele está explicando a não cristãos como é a prática do cristão básico, e o culto no Domingo é já a normal para "todos" em 150. Para alguém que alega ser um profeta, White é incapaz de apresentar a verdade mesmo sobre este ponto básico do Sábado.

Surpreendentemente, estudiosos do Adventismo do Sétimo Dia admitem que ela está errada neste ponto. Dr. Samuele Bacchiocchi, talvez o maior estudioso adventista, escreveu:

Os primeiros documentos mencionando o Domingo como dia de culto recuam até Barnabé em 135 e Justino Mártir em 150. Assim, é evidente que o Domingo como dia de culto já estava estabelecido pelo meio do segundo século. Isto significa que para ser historicamente preciso o termo "séculos" deveria ser mudado para o singular "século". Esta simples correção aumentaria a credibilidade d'O Grande Conflito, porque é relativamente fácil defender a observância geral do Sabbath durante o primeiro século, mas é impossível fazer isto a partir do segundo século.

Em outros termos, as palavras da alegada profetiza são verdadeiras, desde que você mude as palavras. Isto soa como um modo educado de dizer que Ellen White é uma falsa profetiza.

Mas e quanto ao argumento de Bacchiocchi de que enquanto adoração no Domingo existia no segundo século, ela não existia no primeiro? Ele está fazendo um argumento de silêncio. É uma tática comum que eu tenho visto ser usada por protestantes na defesa de seus pontos de vista. Se você mostra que Inácio acreditava que a Eucaristia é o Corpo e o Sangue de Cristo em 107 A.D., eles responderão que a Igreja deve ter tomado isto de um modo simbólico até 106. É claro que este tipo de argumento é ridículo. Se você vai fazer um argumento de silêncio, o mais forte argumento é que nenhuma mudança na doutrina ou prática aconteceu - porque se uma mudança de doutrina tivesse acontecido, nós veríamos uma evidência disso. Se cristãos de repente (globalmente) começassem a fazer o culto no Domingo ao invés do Sábado, alguém não teria mencionado isto em algum lugar?


II. Quem mudou o Sábado para o Domingo?

O segundo argumento de White é que foi o imperador Constantino que mudou o dia de culto do Sábado para o Domingo. Isto está na p. 553 do livro que eu acabei de citar, O Grande Conflito:

Na primeira parte do quarto século, o Imperador Constantino assinou um decreto fazendo do Domingo um festival público em todo o Império Romano. O dia do sol foi reverenciado por seus súditos pagãos e foi honrado pelos Cristãos; isto foi uma política do imperador para unir os interesses conflitantes do paganismo e Cristianismo. Ele foi pressionado a isto pelos bispos da Igreja, os quais, inspirados pela ambição e sede de poder, perceberam que se o mesmo dia fosse observado por ambos cristãos e pagãos, isto promoveria a nominal aceitação do Cristianismo pelos pagãos e assim aumentaria o poder e a glória da Igreja.

Nós já sabemos que isto é falso: que os cristãos sempre fizeram o culto no Domingo muito antes de Constantino. Mas o que é interessante é que White teve uma segunda e contraditória profecia. Você vê, ela também disse que foi o grande, mau papa, não Constantino, que mudou a data do Sábado para o Domingo. Assim, por exemplo, em Primeiros Escritos de Ellen Gould White, nós lemos sua descrição de uma visão que ela afirma ter tido em 1850:

O papa mudou o dia de descanso do sábado para o primeiro dia. Ele pensou em mudar o próprio mandamento que foi dado para causar no homem a lembrança do Criador. Ele pensou em mudar o maior mandamento no decálogo e assim fazer a si mesmo igual a Deus, ou até exaltar-se acima de Deus.

Disto, ela entende que o papa é o Anticristo. Em uma visão anterior de 1847, ela diz:

Eu vi que o Sábado não foi cravado na cruz. Se fosse, os outros nove mandamentos teriam sido; e nós estaríamos em liberdade para ir adiante e quebrá-los todos, bem como quebrar o quarto. Eu vi que Deus não mudou o Sábado, pois Ele nunca muda. Mas o Papa mudou-o do sétimo para o primeiro dia da semana; pois ele estava para mudar os tempos e as leis.

É tentador dizer isto: ela claramente é uma falsa profetiza. Adventistas do Sétimo Dia acreditam que o Sabbath seja no Sábado por causa dos ensinos de White e suas profecias. Ambos são demonstravelmente falsos. Ela não tinha idéia do que a história do Sabbath de fato era, e contou do seu jeito. O que eu achei chocante é que, por outro lado, estudiosos Adventistas estão conscientes de que White estava errada tanto em seu trabalho de ensino quanto em suas profecias, e ainda assim eles fazem vista grossa. Este é Bacchiocchi de novo:

Surpreendentemente até alguns de nossos líderes evangelistas acreditam, na base das afirmações de Ellen White, que o Domingo começou a ser o dia de culto na primeira metade do quarto século quando os líderes da Igreja forçaram Constantino a promulgar em 321 a famosa Lei do Domingo.
Esta visão popular expôs nossa Igreja às mais indesejáveis críticas. Estudiosos não adventistas e líderes da Igreja como Dr. James Kennedy acusam nossa Igreja de ignorância crassa, por ensinar que o Domingo começou a ser observado no quarto século, quando há evidências históricas irrefutáveis que colocam sua origem dois séculos antes.
Eu gastei horas sem conta explicando ao Dr. James Kennedy e a professores que viram os recentes programas da NET satélite que esta visão popular adventista não reflete o ensino adventista. Nenhum estudioso adventista tem ensinado jamais ou escrito que a observância dominical começou no quarto século com Constantino. Uma compilação de provas é o simpósio O Sábado na Escritura e na História produzido por 22 estudiosos adventistas e publicado pela Review and Herald em 1982. Nenhum dos estudiosos adventistas que contribuíram para o simpósio sequer sugeriu que a observância dominical começou no quarto século.

Então, uma vez que eles examinaram as evidências, mesmo os especialistas adventistas percebem que os escritos de Ellen White são cheios de erros. Questão óbvia: se este é o caso, porque continuam adventistas?

A Igreja Adventista do Sétimo Dia inteira está desacreditada porque:

(a) declara Ellen White uma profetiza, quando ela claramente não o é;
(b) declara seus escritos uma fonte autorizada da verdade, quando eles claramente não o são; e
(c) continua, com sua missão distintiva, a celebrar o Sabbath no Sétimo Dia, Sábado. Mesmo o nome da igreja é baseado nessa missão, ainda que a missão esteja fundada numa história falsa, falsa profetiza, e em má exegese bíblica.

Não é como se White estivesse errada em apenas alguns detalhes menores. Ela erra nos fatos básicos do coração da doutrina dos Adventistas, e isto é óbvio. Já passou da hora dos Adventistas se desfazerem de Ellen White e voltaram para casa na ortodoxia do Cristianismo.

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Atualização: Checando o post de Brent Stubb em Constantine and the Catholic Church, ele cita Sto Inácio de Antioquia, escrevendo em cerca de 107-110, e que diz:

Se, todavia, aqueles que se converteram da antiga ordem de coisas e tomaram posse de uma nova esperança não mais observam o Sábado, mas, vivendo na observância do Dia do Senhor, no qual também a nossa vida se levantou novamente por Ele e por Sua morte - ao qual alguns negam, pelo mistério pelo qual nós obtivemos a Fé, e assim persistimos, para que nós possamos ser achados os discípulos de Jesus Cristo, nosso único Mestre - como nós poderemos ser capazes de viver separados d'Ele, cujos discípulos os profetas eles mesmos no Espírito esperaram por Ele como Seu Mestre?

Então na primeira década do segundo século, o Domingo já era o dia de assinalar que os Cristãos acreditavam em Jesus como o Messias, e em Sua Ressurreição. Então até o argumento de Bacchiocchi de que o culto cristão no sábado existiu pelos primeiros anos do Cristianismo é falso. E é incrivelmente improvável que esta prática fosse nova no tempo de Inácio. Desde que o Apóstolo João morreu cerca do ano 100 A.D., se poderia pensar que ele teria se pronunciado contra o culto no Domingo, se isto fosse verdadeiramente uma violação do Evangelho. Ao menos, é claro, que ele tivesse tomado uma parte massiva na conspiração de Constantino/Papa. É claro, nós também vemos a observância dominical em lugares como Atos 20,7, então não há razão para ver nisto qualquer outra origem que não a apostólica.

Atualização 2: Brock, nos comentários, cita a Didache, que foi provavelmente escrita do meio para o fim do primeiro século... isto é, ao mesmo tempo que o Novo Testamento. Isto fecha a questão na idéia de que os primeiros cristãos eram adoradores dominicais.

"Mas em todo Dia do Senhor reúnam-se juntos, e partam o pão, e dêem graças [Eucaristia] depois de terem confessado suas transgressões, para que o seu sacrifício seja puro. Mas não deixe ninguém que esteja em desacordo com o seu amigo vir junto com vocês até que eles estejam reconciliados, para que o seu sacrifício não seja profanado. Pois isto é o que falou o Senhor: em todo lugar e tempo ofereçam-me um sacrifício puro; pois eu sou um grande Rei, diz o Senhor, e meu nome é maravilhoso entre as nações."

Boa pegada, Brock! Eu poderia acrescentar que o trecho inteiro trata da necessidade da confissão, da Liturgia Eucarística sendo um Sacrifício, etc. - tudo incrivelmente Católico.

Isto é a moral


Pe Jacques Leclercq

O Homem encaminha-se para o bem total, para o necessário, para o único, para Deus, na multiplicidade do contingente e através dela. É através de todos estes bens contingentes, não-necessários - que são bens e que podem ser perfeições, não sendo nenhuma delas o bem, nem podendo tornar-se a perfeição - que abro o meu caminho para o bem e para a perfeição.

Isto é a moral. A moral é a regra por que me encaminho para o necessário pelo contingente, para Deus pelas criaturas. Dirige a multiplicidade do meu amor à unidade do seu fim. Dá a fórmula por que me sirvo da multiplicidade dos bens exteriores para atingir o bem absoluto.

Sob este ponto de vista, a primeira regra da moral é viver pelo espírito, porque é o espírito que vê a verdade e o bem no ser. Poderia mesmo dizer-se, remontando mais alto, que é o espírito que vê o ser no ser. O espírito vê, assim, os seres absolutos nos seres contingentes, a verdade e o bem absolutos nas verdades e nos bens contingentes. Só o espírito pode conduzir o contingente ao necessário, compreender de que maneira e em que medida o contingente conduz ao necessário e de que maneira o Homem pode ir para o necessário, para o uno, através do múltiplo.

A maior parte das virtudes morais não tem outro fim além do de libertar o espírito da matéria, a fim de permitir coordenar o uso dos bens contingentes com esta busca da unidade. Primeiro unificando-se a si mesmo, unificando a ação nesta busca do uno, e depois, servindo-se de quanto nos rodeia.

Certas virtudes, como a humildade e a prudência, ou como a fé no plano sobrenatural, estão centradas na visão do verdadeiro; outras, como a fortaleza e, no plano sobrenatural, a caridade, estão centradas na busca do bem, umas mais intelectuais, outras mais voluntárias. As virtudes intelectuais sem vontade fazem espíritos clarividentes que não realizam o que vêem; as virtudes voluntárias sem inteligência fazem naturezas generosas que não realizam o bem por falta de clarividência. A perfeição do Homem está na coordenação de todas as virtudes, unidade de multiplicidade.

Quando o espírito está livre da paixão, quando a vontade dirige a vida no sentido em que o espírito o indica, e as paixões intensificam a ação ao serviço do espírito, o Homem torna-se capaz de se unificar na procura de Deus. Pelas suas próprias forças, o Homem pode identificar-se de certa maneira com Deus, identificando a sua vida com a vontade divina manifestada na Natureza. Para isso, deve conhecer a Deus tanto quanto o seu espírito pode conhecê-lo. Conhecer a Deus é conhecer o uno e ver o absoluto no relativo.

Identificar-se com a virtude divina manifestada na Natureza é escolher entre os bens aqueles que permitem desenvolvermo-nos plenamente, e se há vários, escolher um que se utilize até o fim. Na medida em que nos tornamos perfeitos, conhecemos a Deus e compreendemos que é o bem e a beleza. Esta única compreensão, ainda que abstrata, enche o espírito de uma alegria que ultrapassa qualquer outra.

Mas Deus não abandona o Homem a si mesmo. Ao Homem que empreende a conquista da sua perfeição, Cristo traz-lhe pela sua redenção uma vida realmente divina. Então o Homem já se não identifica unicamente com Deus pela identificação da sua ação com a vontade divina, mas possui a Deus e goza de Deus segundo um modo que é para nós misterioso, que é puro dom gratuito de Deus e que eleva a criatura a uma plenitude de ser e de felicidade realimente inexprimível. 

E eis aqui toda a regra de vida.

LECLERCQ, Jacques. Diálogo do homem e de Deus. 6 ed, Coimbra: Casa do Castelo, 1965. p.107-109.

Quaresma - tempo de mortificação


Os católicos observamos a Quaresma como um tempo de preparação para a Páscoa. A princípio, viu-se a necessidade de uma preparação de três dias, que se tornou o que hoje chamamos de "tríduo pascal". Mas, pela enormidade do significado, os cristãos acharam por bem aumentar o tempo de preparação, e estabeleceram o sugestivo número de quarenta dias. 40 é um número que aparece recorrentemente na Bíblia, e indica sempre um período delimitado que é como que uma tensão preparatória para algo. O símbolo maior desta preparação se dá no jejum que Jesus, inspirado pelo Espírito, faz no deserto e que antecede o começo da sua vida pública.

Toda preparação busca desenvolver os meios necessários para aquilo que se vai executar. Assim, Jesus jejua e é tentado pelo demônio. Na quaresma, nós somos convidados a jejuar, fazer mortificações, e enfrentar os nossos demônios. O deserto é, já, um lugar difícil, áspero, escasso em objetos de satisfação. Portanto, é o lugar propício para o combate. Não à toa, é o lugar para onde Deus leva Israel a fim de falar-lhe ao coração. No deserto da quaresma, Deus deseja também falar-nos e nos preparar para o esponsal que Ele mesmo realizará, não mais no deserto, mas num jardim, sobre uma árvore frondosa cujos frutos anularão os efeitos do pecado: a árvore da Cruz.

Quero neste texto meditar um pouco sobre o significado das mortificações. Quase ninguém insiste nisso, hoje, e a pregação dos padres se resume, no mais das vezes, à dimensão política. A Campanha da Fraternidade, posta durante a quaresma, também não ajuda. Esta desatenção às mortificações é profundamente prejudicial. A Igreja sempre declarou, nos seus santos e doutores, que estas são não somente uma recomendação, mas uma necessidade para a vida espiritual, de modo que quem não se mortifica não avança. Os santos, que são os verdadeiros representantes do cristianismo, foram dela muito amigos e não dispensavam oportunidades de praticá-la. Dada, então, a sua importância essencial na vida cristã, falemos dela.

Mortificar significa fazer morrer alguma coisa. Há em todos nós forças internas que nos impelem para a direção contrária à que deveríamos seguir. Todos nós sabemos disso por experiência: nós somos gulosos, luxuriosos, egoístas, violentos, orgulhosos, vaidosos, preguiçosos, covardes, dissolutos. A mera tomada de consciência dessas coisas não é, contudo, suficiente para nos fazer mudar. Uma coisa é conhecer o que eu deveria ser e não sou, e outra muito diferente é ter a força de me tornar isso que eu deveria ser. São Paulo apóstolo descreve, de modo formidável, o drama pelo qual passa todo filho de Adão que intenta conformar-se ao Cristo: 

"Porque bem sabemos que a lei é espiritual; mas eu sou carnal, vendido sob o pecado. Porque o que faço não o aprovo; pois o que quero isso não faço, mas o que aborreço isso faço. E, se faço o que não quero, consinto com a lei, que é boa. De maneira que agora já não sou eu que faço isto, mas o pecado que habita em mim. Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem algum; e com efeito o querer está em mim, mas não consigo realizar o bem. Porque não faço o bem que quero, mas o mal que não quero esse faço. Ora, se eu faço o que não quero, já não o faço eu, mas o pecado que habita em mim. Acho então esta lei em mim, que, quando quero fazer o bem, o mal está comigo. Porque, segundo o homem interior, tenho prazer na lei de Deus; mas vejo nos meus membros outra lei, que batalha contra a lei do meu entendimento, e me prende debaixo da lei do pecado que está nos meus membros." (Rm 7,14-23)

Vemos aqui que o pecado é como uma lei interna nossa, e, além disso, Paulo lhe atribui autoria pelo pecado, como se ele fosse um falso eu em nós. Qualquer perspectiva espiritual que não perceba isso tudo é mera ilusão. Daí se vê a puerilidade de certos discursos que atribuem o não ser santo a apenas uma questão de falta de vontade, de "safadeza" pessoal, como se o "participar da natureza divina" estivesse ao alcance do homem. Ledo engano. Nós não somos auto-suficientes, e, além do fato de a santidade estar infinitamente acima dos nossos esforços naturais, nós sequer sabemos o que seja um santo antes de nos tornarmos um. Assim, mesmo que tivéssemos a força necessária - o que não é mesmo o caso -, não poderíamos nos dar aquilo que não conhecemos. É uma contradição trivial.

A santidade, junto com as virtudes teologais, nos é dada por Deus. Não há outra fonte. E devemos mesmo desesperançar de querer produzi-la por nossos meros esforços. O que fazer, então? Dissemos que a santidade nos é dada por Deus, e, sendo esta a nossa vocação e a razão mesma da nossa existência, é claro que Deus deseja dá-la a todos os homens. E por que não o faz? Porque não encontra a devida abertura na nossa alma. Não há espaço em nós para que Deus aja, e isto porque estamos vivendo ainda sob a lei do pecado e estamos inchados de egoísmo. O que fazer, então? Felizmente a nossa natureza não está de todo estragada. A luz da inteligência ainda dá conta de perceber verdades fundamentais, e a vontade, devidamente informada, pode ainda dispender certos esforços necessários para que a ação de Deus se dê. Contudo, nada é fácil.

O problema fundamental é o seguinte: desde que nascemos, estamos viciados no prazer, o que nos torna egoístas. Abraçamos o que nos agrada, rejeitamos o que nos desagrada, e assim atribuímos às coisas e pessoas como que uma segunda natureza, que ofusca a sua identidade verdadeira, e, assim, falseia a nossa visão de todas elas, inclusive de nós mesmos. Este vício começa bem antes de tomarmos consciência do problema. Logo, temos dele anos e anos de prática. Como o prazer é manipulável, aprendemos a provocá-lo, a intensificá-lo e a mediar as nossas relações sempre com vistas nele. O nosso eu se torna, assim, o eixo da nossa existência; se torna um ídolo que se fortalece na medida em que sacrificamos valores, coisas e pessoas no seu altar. Esta centralidade do ego é o que se chama egoísmo. E é importante frisar: quando nos percebermos egoístas, já o teremos sido por muito tempo. Assim, não é a simples tomada de consciência e o desejo de deixar de sê-lo que serão suficientes para resolver o caso. Pelo contrário, se não cuidarmos, será bem capaz que o próprio desejo de sermos bons e santos tenha por motivação última o próprio egoísmo. No lusco-fusco da nossa alma, tateando entre sutilezas e obscuridades, vamos errando no caminho qual estrelas perdidas, e se confiarmos em nossa própria cegueira, cairemos, infalivelmente, no buraco; teremos fracassado.

O que fazer, então? Duas coisas: a primeira é pedir ajuda a Quem pode nos ajudar, que é Deus, e a segunda é fazer o pequeno papel que nos cabe. Falemos um pouco da primeira.

Pedir ajuda a Deus não se resume a rezar. Nosso Senhor estabeleceu meios objetivos para que participássemos daquilo que Ele nos conseguiu na Cruz. Aquilo que Ele conseguiu foi a Graça divina, e os meios objetivos são os Sacramentos. Sem a força da Graça propiciada pelos sacramentos todo o projeto de santidade é apenas um projeto mal orientado.

O que nos cabe fazer é rezar e nos mortificar. Como nós temos essa busca natural pelo prazer, que sempre nos limita e nos condiciona, a mortificação, com vistas a nos devolver a liberdade de uma ação mais correta, buscará atacar o eu a partir de desconfortos voluntários ou da aceitação de desconfortos involuntários, o que nos dará as mortificações ativa e passiva.

O princípio do prazer espraia-se em tudo quanto fazemos: amizades, trabalho, ocupações diversas, oração, etc,: tudo está como que abrangido por ele. Costumamos chegar atrasados no trabalho ou ficamos felizes se saímos antes da hora porque o nosso ego não se agrada de que lhe sejam impostas obrigações. Se rezamos, gostamos de sentir Deus e procuramos ativamente por ficarmos em paz, às vezes reduzindo as nossas orações - ou as intensificando - precisamente quando estamos necessitados. Sempre é o nosso eu quem dita. Sempre é a nossa vontade a nossa verdadeira senhora. Quando nos mortificamos, nos impomos desprazeres, e nos acostumamos ao desconforto, começa a acontecer uma coisa estranha em nós. A princípio, será só tédio, impaciência, desconfiança, desatenção, cansaço, angústia. Mas, se perseveramos, a melhora se segue ao amargor do remédio. Vamos percebendo que estávamos como que bêbados e sonolentos - nem isto sabíamos! -, e agora a consciência meio que acorda e passa a luzir num outro nível. Contornos sutis da realidade, antes despercebidos, se revelam qual um degradê de montanhas sequenciadas que estavam encobertas pela névoa da concupiscência. A cor postiça que impúnhamos aos entes empalidece e a cor real, subjacente à nossa ilusão, desponta. Não apenas as coisas se revelam, mas as relações entre elas também se tornam visíveis, e o próprio gosto nelas presente, uma vez que tenhamos aprendido o desapego e a fruição desinteressada, se dá a nós sem esquivas. Estes são efeitos que estão ao alcance mesmo de uma ascese natural, não necessitando ainda da Graça santificante para serem experimentados. Mas é claro que tais efeitos não serão imediatos.

Além do efeito anticoncupiscência e seu ulterior despertar - que se dá como iluminação da inteligência -, a mortificação revigora a vontade que andava enfraquecida sob os ditames da sensibilidade e do desejo. Aquele "outro" que nos habita, e que era testemunhado por São Paulo como autor do mal, perde terreno e o nosso verdadeiro eu, antes desmaiado nalguma sarjeta interior, recupera os sentidos e lhe passa a exercer maior resistência, podendo, aos poucos, tomar-lhe as rédeas. Isto libera certas energias da alma, o que dá à existência um grande senso de vitalidade e inclusive melhora a saúde e aprimora o caráter. Ao contrário do que dizem por aí, que pessoas mortificadas são sujeitos cabisbaixos e sem gana, é uma vida permissiva e dissoluta que mina a disposição e gera timidez, tristeza, angústia e fraqueza.

Por fim, a mortificação faz a pessoa perceber o seguinte: se eu desejo algo e, não obstante, eu o renuncio, como que se cria entre o desejo e o eu um espaço, e este espaço torna evidente que o eu não é o desejo. Quando deixo de me identificar aos meus desejos, aos meus apegos, aos meus caprichos, poderei encontrar, sob os escombros desses movimentos automáticos, a sede da minha liberdade e a minha verdadeira identidade subjacente. Perceberei que não é uma relação óbvia que um desejo engendre uma ação, pois o desejo pode me surgir como um estranho, uma espécie de rebelião interna a que é preciso pacificar. Não é outra coisa a "noite dos sentidos", de São João da Cruz. Uma vez que a "casa está sossegada", o verdadeiro eu assume liberdade e seus movimentos ficam desimpedidos. Isto permite uma satisfação de um nível totalmente superior, e é esta satisfação, resultante da saúde da alma e da sua operação em correspondência à sua natureza espiritual, que pode ser corretamente chamada de alegria. Não é que o prazer cessa de existir; reencaixado na santidade, ele até será mais intenso, enquanto que desprovido de seus apelos desordenados. Ele será também não um fim das ações, mas um acompanhante, um efeito de uma vida reta, ordenada, e reconciliada com a realidade.

Quarta feira de Cinzas - Significado das Cinzas


Queremos antes de tudo corrigir um equívoco uma vez propagado aqui pelo blog: Não. Hoje, Quarta feira de cinzas, não é dia de preceito. Não obstante, é altamente recomendável que o católico vá à Santa Missa. Além do sugestivo sinal das cinzas, e da recepção do Sacratíssimo Corpo do Senhor, é também o início formal da Quaresma. Nada melhor do que adentrar neste tempo forte e santo da Igreja participando do Sacrifício e Banquete do Senhor, e comendo, como dizia Sta Teresa Benedita da Cruz, o "pão seco dos fortes".

"Mas qual o significado das cinzas?", alguém pode perguntar. "Esses católicos inventam muita coisa". Desde o Antigo Testamento, as cinzas sempre foram apresentadas como sinal de penitência. Os habitantes de Nínive, ao ouvirem a pregação de Jonas, se arrependem e fazem penitência, inclusive o rei, vestindo-se de sacos e cobrindo-se de cinzas. (Jn 3,5-6) Mardoqueu, no livro de Ester, ao saber do decreto do Rei Asuer I que condenava à morte todos os judeus do império, veste-se de saco e cobre-se de cinzas implorando o favor divino. (Est 4,1) Jó, quando arrependido, faz o mesmo. (42,6) Também Daniel, suplicando a Deus, impõe-se o cilício e se reveste de cinzas (Dn 9,3). Por fim, Jesus igualmente faz referência ao uso das cinzas em Mt 11,21.

Vê-se que o seu uso está grandemente fundamentado nas Escrituras e indica um claro sinal de arrependimento, de contrição, de súplica pela misericórdia divina. Assim, nada mais apropriado do que ser reutilizado no início da Quaresma, tempo por excelência de conversão.

Além deste significado, as cinzas também encerram a idéia da finitude e efemeridade da vida. Quando o padre no-las impõe à festa, ele diz a fórmula: "porque és pó e em pó te hás de tornar." A consciência da finitude, do limite, da não auto-suficiência é um realismo necessário sem o qual não há vida espiritual. "Deus resiste aos soberbos", diz a Escritura. Portanto, o pressuposto da conversão é a humildade. A cinza, sendo o resto daquilo que era vivo - são os restos das palmas usadas na celebração de ramos do ano anterior -, antecipa o destino humano. Torna presente aquilo que infalivelmente será a sua sorte. Ela traz à consciência a célebre fórmula de Salomão: "Vaidade das vaidades, tudo é vaidade." Ao desesperançar do que vai debaixo do sol, a alma se abre àquilo que está acima do efêmero, à "Beleza tão antiga e tão nova", Àquele que, por transcender o tempo, renova todas as coisas, inclusive o nosso coração.

Mas lembremos que o cinza é também uma cor, e, como tal, ocupa um lugar entre o preto e o branco. O preto, sendo ausência de cores, foi entendido pela Igreja como um símbolo da morte - ausência de vida - ou com as trevas exteriores. O preto assim pode simbolizar aquilo que está fora da via de salvação. Um primeiro movimento em direção a Deus seria a tomada de consciência da distância d'Ele e o arrependimento. Este primeiro passo espiritual marca o trânsito entre o preto e o branco. A primeira saída do preto em direção ao branco gera o cinza. Assim, o cinza se torna, também pelo simbolismo das cores, o sinal do início de uma mudança que, por ser só início, é disposição do coração, arrependimento. "Rasgai os vossos corações", diz Deus, "e não as vestes". O coração é o que há de mais íntimo no homem, em oposição às vestes, que são aquilo que está aparente. Nesta Quaresma, peçamos ao Senhor que a nossa conversão seja verdadeira, e não meramente exterior. Que a Virgem Santíssima caminhe conosco. Pax.

Fábio

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