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A Escuridão me Basta - Thomas Merton



"Senhor, é quase meia-noite e estou Te esperando na escuridão e no grande silêncio.
Lamento todos os meus pecados.
Não me deixe pedir mais do que ficar sentado na escuridão, 
sem acender alguma luz por conta própria, nem me abarrotar com os próprios pensamentos
 para preencher o vazio da noite na qual espero por Ti.
Deixa-me virar nada para a luz pálida e fraca dos sentidos, 
a fim de permanecer na doce escuridão da Fé pura.
Quanto ao mundo, deixa-me tornar-me para ele totalmente obscuro para sempre. 
Que eu possa, deste modo, por esta escuridão, chegar enfim à Tua claridade.
Que eu possa, depois de ter me tornado insignificante para o mundo, 
estender-me em direção aos sentidos infinitos, contidos em Tua paz e Tua glória.
Tua claridade é minha escuridão. 
Eu não conheço nada de Ti e por mim mesmo nem posso imaginar como fazer para Te conhecer.
Se eu te imaginar, estarei errado.Se Te compreender, estarei enganado.
Se ficar consciente e certo que Te conheço, serei louco.
A escuridão me basta".

Thomas Merton, OCSO

Uma breve introdução à Teologia Negativa - a Via Negationis


Diversas vezes, já me referi a uma tentação que considero bem característica deste nosso tempo em que nós, católicos, somos desafiados a vencer as trevas da irrazoabilidade dos inimigos de Deus dando, como pede S. Pedro, as razões da nossa fé. Esta ordem nos impele a, à medida de nossas forças, buscarmos uma sólida formação doutrinária e teológica, o que implica, também, um certo conhecimento dos princípios básicos da Filosofia. Eis, então, que o estudo torna-se caro para os cristãos - não que seja determinante, o que não é - , sobretudo para os que andam a pugnar em nome da Fé.

A tentação a que me referia é, neste contexto, aderir a uma posição devotamente racionalista. Claro que uma boa formação será suficiente para afastar este perigo, mas ainda assim, como esta luta é algo de esteticamente agradável, sobretudo no que diz respeito aos mais preparados, corre-se o risco de, especialmente os neófitos, se voltarem demasiadamente para este aspecto da vida da Fé.

No entanto, é importante saber que, estritamente falando, os nossos conceitos não alcançam a Deus. Por mais altas que sejam as teorias, as imagens, as idéias, etc., elas sempre partilham de um limite. Toda linguagem humana tem, em comum, a prática da circunscrição do seu objeto. Deste modo, como tratar da divindade, que é infinita e extrapola toda definição, utilizando-se da nossa linguagem humana?

É o que narra Sto Agostinho, após o êxtase que teve com sua mãe: "voltamos ao vão ruído dos nossos lábios, onde a palavra começa e acaba. Como poderá esta, meu Deus, comparar-se ao vosso Verbo?"

Dito isto, notamos que toda a palavra sobre Deus, toda a teologia conceitual, ainda que nos diga de modo objetivo verdades reais sobre Deus, apenas o fazem ao modo de analogia. Com isto não há que relativizar a precisão de um conceito. Quando se diz que Deus é Uno e Trino, não se deve dar margens para quartetos ou para disparates de que "Deus é dez".. rs.. Mas, enquanto esta idéia nos informa algo sobre Deus, é preciso reconhecer que o que entendemos disto - ser Deus uno e trino - dista infinitamente da essência divina.

Sto Tomás, tratando do mesmo assunto, nos diz ainda que "a realidade [de Deus] permanece ilimitada e excede a significação do termo". Portanto, se de um lado nos utilizamos dos conceitos pela sua veracidade, de outro devemos reconhecer-lhes a humildade quando tratamos sobre a divindade. Não é isto tender ao irracionalismo; ao contrário. A inteligência, ávida de luz, conhece objetivamente a realidade. Mas haverá de reconhecer que, acima de sua esfera de visão, na "supranatureza", há realidades que a transcendem e que, dada a infinita luz destas realidades, elas como que ofuscam os olhos naturais humanos, assemelhando-se, por isto, a trevas. É como se um sujeito quisesse aproximar-se do sol. Num dado estágio do caminho, seus olhos se ofuscariam pelo excesso de luz.

O conceito nos aproxima de Deus e nos livra de cair em heresias. Mas uma teologia que pretendesse encerrar Deus nos seus axiomas seria herética, e não católica. Se para todo conceito há um limite e se Deus é ilimitado, é forçoso admitir que entre o conceito e Deus há uma distância infinita. Neste sentido, os teólogos negativos aconselham que, para ir a Deus, é preciso despir-se destes limites. Mas, para estar aptos para esta 'nudez', é preciso ter sido guiado a este ponto, precisamente, pelos conceitos. Teologia Positiva e Teologia Negativa, então, não são exatamente opostas, mas indicam, antes, níveis diferentes do processo para Deus.

Os extremos de ambas levam a uma falsa religião. De um lado, o racionalismo ou a crença de que os conceitos esgotam a realidade divina. De outro, o irracionalismo, ou a desconfiança dos conceitos, como se fosse possível entrar naquela 'penumbra' de modo direto. Este tipo de prática mística, não obstante exista quem a defenda, é herética.

Uma vez que se compreende esta questão, nota-se como não há qualquer contradição entre S. Tomás de Aquino e S. João da Cruz, por exemplo. Também Sto Tomás teve uma forte experiência da 'inefabilidade' no fim da vida, o que o fez parar de escrever por considerar que, diante do que tinha visto, tudo quanto tinha escrito era palha. Quem, no entanto, reputar Sto Tomás a um nível baixo somente demonstrará, com isto, ser um cego. Por sua vez, S. João da Cruz nos saúda constantemente, na sua obra, com axiomas tomistas e recomenda, diversas vezes, a própria prática da meditação, que é a observação racional metódica de verdades da Fé. E isto como meio de dispor-se àquela "noite amorosa".

Fique, portanto, claro que a Teologia Positiva é sumamente necessária. No entanto, estudemo-la compreendendo que ela é uma série de afirmações analógicas, ao invés de ser estritamente literal. Somente esta atitude já faz uma grande diferença. Concedamos a Deus o atributo da sua infinitude.

Fábio.

Atitudes erradas na Fé: respeitos humanos e violência a priori

Para quem acompanha com certa assiduidade os blogs e sites católicos, graças a Deus inumeráveis hoje em dia, as coisas por aí começam a aparecer sem a nuvem que antes as encobriam. Quero dizer: uma vez que se distinga o que é, de fato, o catolicismo, a enorme onda de discrepâncias que assolam a Igreja vai se fazendo notar. Naturalmente, a uma visão mais clara se segue uma conduta mais firme, mais decidida, isto é, menos politicamente correta, menos morna.

Quem vive o seu catolicismo com o intuito de não despertar animosidades, faz disto a  motivação  da sua fé e não pode ficar sem trair a verdade. Não digo que o objetivo seja despertar estas tensões, mas é bom compreender que a firme adesão a qualquer coisa que se ame, naturalmente atrai, seja a admiração, seja o desgosto de outros. Quem, ao contrário, busca somente agradar a todo mundo, apenas prova que não ama verdadeiramente nada, a não ser a si mesmo.

É muito interessante notar que Jesus afirma, categoricamente, que os seus discípulos seriam, também, perseguidos, "pois o servo não é maior que o Senhor". Esta perseguição supõe a tomada de uma posição explícita, o que sempre desgosta a alguém. Não se pode pretender agradar a todo mundo sem que se abra mão da sinceridade. Ou, como diz Nosso Senhor: "Não podeis servir a dois senhores".

Então, o primeiro traço dos capituladores da Fé é o excessivo respeito com tudo. É o que Pio XII chamou de "falso irenismo": tudo torna-se aceitável desde que as relações pacíficas não sejam rompidas. O campo da verdade, neste contexto, pouco importa. É o relativismo doutrinal em função dos respeitos humanos. Terrível!

Há, porém, um outro ponto a se evitar. Os que começam a ver este contexto com uma certa clareza, naturalmente terão qualquer tipo de indignação por esta atitude covarde de uma apostasia prática. Isto pode tender a despertar uma reação maximamente contrária, não digo fidelíssima, mas violentíssima, que tenha como objetivo primário a criação de tensões. Isto também é problemático.

Se os enfrentamentos estão presentes na vida cristã, eles não são senão consequência da coerência de um sujeito com os princípios que adotou. Isto quer dizer que as tensões são posteriores à adesão. Há, porém, quem simplesmente adira a algo já em vista do que isto pode gerar. Há quem se delicie na admiração da própria capacidade de causar estranheza. Isto, além de imaturidade, é tão somente outra forma velada da mesma vaidade anterior.

Porém, estes diversos tipos de erro podem ser todos evitados se começamos a considerar a Fé como algo muito sério. Isso mesmo: pode ser muito comum que alguém milite pela Fé e, no fundo, apenas o faça por diversão. Seria como uma "brincadeira de adultos". Para que se compreenda, de fato, o que é a Fé Cristã, estas criancices devem ser deixadas. Certos tipos de arrogâncias que se tornou comum observar por aí apenas revelam a compreensão pueril que alguns têm da Religião. Parece, nestes casos, ter havido qualquer tipo de mera apropriação dos conceitos, ao invés de um mergulho no abismo  da Fé que deve caracterizar a adesão cristã.

A proposta é, então, ver no Cristianismo algo seríssimo; tão sério que valha o investimento da própria vida. A lógica, então, torna-se outra: quando percebo que Ele me ultrapassa infinitamente, não mais tendo a usá-lo como meio de auto-promoção. É aí que o homem velho, escondido sob a capa de uma devoção artificial, é realmente golpeado; começa aí o verdadeiro combate e é neste ambiente que surgem, em todo o seu verdadeiro brilho, para além dos conceitos, as virtudes cristãs: a humildade, o amor, a pureza, a santidade.

Enquanto pensarmos que o bom odor de Cristo pode ser exalado a partir da nossa própria violência, o máximo que conseguiremos é um horrível cheiro de suor. Claro... haverá quem diga que é preciso educar o nariz para perceber a sutileza de tal cheiro... Há discurso pra tudo. Porém, quando realmente O encontramos e deixamos de brincar, então a Fé, a Igreja, os Valores... tudo isto brilha e encanta.

É como dizia Sto. Agostinho:
"Chamaste e rompeste a minha surdez"
"Brilhaste e venceste a minha cegueira"
"Exalaste perfume e respirei".

Todos estes efeitos supõem um contato primeiro com Ele. Do contrário, seriam apenas conceitos repetidos... notícia sem substância.

Sejamos, portanto, bons católicos.
Tratemos Nosso Senhor com seriedade.

Fábio

Ps.: Não me entendam mal, pelo amor de Deus..rs.
Qualquer dúvida, pergunta aí...

Sobre o silêncio na oração


Há quem pense que fazer silêncio enquanto se reza se resume apenas a ficar calado exteriormente. Antigamente, era comum que ficássemos na capela com o Santíssimo e havia, naturalmente, os momentos de silêncio. Enquanto, porém, cessavam os ruídos vocais (pelo menos os articulados), se iniciava uma orquestra de outros sons, provenientes das contínuas mudanças de posição, dos pigarros, dos suspiros, dos zippers das bíblias, etc... Obviamente que não havia silêncio. E a oração ficava sempre no superficial.

Outra forma de se entender o silêncio é o que chamam de "uma abertura ao ouvir". Se isto é importante porque põe a alma numa posição receptiva com relação a Deus, tem também seu fator desinteressante: muitos ficam esperando mesmo ouvir literalmente alguma coisa. Ora, isso é um prato cheio para a imaginação. E quando "ouvem" ou "visualizam" alguma coisa, isto é, quando imaginam, se adiantam logo a pretender que seja Deus falando... E aí se praticam as maiores ingenuidades e non senses e Deus é quem leva a culpa. rs...

Não. O silêncio, o verdadeiro silêncio tem que ser algo mais sincero, mais puro e mais profundo. Claro que há, poderíamos dizer, vários níveis desta quietação, e pretendo tratar brevemente a este respeito.

Primeiramente, se requer uma disciplina mínima pra aprender a se ficar quieto. Há pessoas que não sabem rezar sem se coçar ou balançar as pernas. Tem quem nem se force a ficar de olhos fechados. Se se obstinam nestas criancices, nunca saberão o que é oração.

Esta questão do ficar quieto é muito importante, e também dá disciplina à alma. De início, já seria interessante reservar pelo menos um tempo pra treinar só isso aí. Os padres do deserto, logo quando iniciavam a vida monástica, eram recomendados a permanecer na cela, só isso... O próprio fato de se aquietarem lá faria com que avançassem na vida espiritual. Pronto! Essa mínima disciplina se requer...

Depois, o fato de se pôr na presença de Deus é o que define, exatamente, a oração. Sta Teresa D'Avila dizia que, na oração, não importa falar muita coisa, mas amar muito. Ela mesma critica o costume de alguns, ainda tão comum nos dias atuais, de ficar falando coisas continuamente de uma forma mecânica, sem pôr o coração naquilo que se diz. A oração deve ser um diálogo ou interrelação entre a alma amante e o Senhor amado. Este encontrar-se na presença do Outro, que é Deus, é o que caracteriza a oração. Mas tratemos ainda do silêncio.

Calar a boca é já um começo, mas geralmente a boca reproduz, por meio dos sons, aquilo que se concebeu no espírito, isto é, a boca traduz em palavras as idéias da alma. É conveniente, portanto, não apenas calar a boca, mas também aquietar os pensamentos e os sentimentos. O que pretendo dizer? Que, depois de ter estabelecido o silêncio no exterior, começamos a aquietar também o interior. É aí que passamos a observar o silêncio propriamente dito.

S. João da Cruz diria para pôr os sentidos na noite, isto é, esvaziá-los de sua operação comum. Por isto, fechamos os olhos... Mas e os demais sentidos? Entendemos, aí, como não é conveniente ficar procurando sons espirituais (audição), nem fragrâncias (olfato), nem visualizações (como que uma visão interior), nem arrepios (tato), nem experimentar suaves sabores (paladar). Esta busca por experiências indica atividade do espírito e, portanto, impede a quietude.

Além dos cinco sentidos comuns, S. João da Cruz traz mais dois, aos quais chama sentidos internos: a fantasia e a imaginação. Tão logo a alma pretende pôr-se em oração silenciosa, estas duas iniciam o seu desfile de estranhas figuras. Haveria muito o que dizer sobre a atitude a tomar diante desta aparente dificuldade, mas é suficiente dizer que a paciência silenciosa é a melhor atitude; uma como que indiferença... Isto acontece, segundo o doutor místico, porque os sentidos não encontram um objeto definido para se fixar, sendo Deus totalmente transcendente a qualquer objeto sensível que se possa conceber. Porém, com um certo tempo, também estas figuras se aquietam...

Há quem diga que, nesta atitude, a alma não faz nada, pelo que não pode se dar nenhum mérito. S. João da Cruz responde à objeção afirmando que não faz pouco quem se aquieta a si mesmo, pois aquietar-se é, verdadeiramente, dispor-se, abrir-se ao Outro que é Deus.

Além do silêncio dos pensamentos, imagens, etc..., requer-se também o silêncio das vontades. É comum que, quando se ponha em oração, surja a impaciência e se façam notar outras sensações, como a fome, o incômodo da posição, entre outras. Tudo isto se resume nisso: a vontade de estar a fazer qualquer outra coisa. Isto é um produto da sensibilidade que deseja sempre o mais agradável. Aquietar-se, também neste sentido, significa esvaziar-se desta busca de bem-estar, de modo que o que é saboroso não seja buscado somente porque é saboroso, e o que é incômodo não seja evitado por ser incômodo. Isto parece se assemelhar à Hesychia dos monges orientais, que busca, entre outras coisas, a apathia ou perfeita indiferença as estes incômodos externos, donde se afirmava ser possível um estado de imperturbabilidade.

O próprio doutor da noite, resume bem isto com a sua célebre frase:
"Para vir a saborear tudo, não queiras saborear coisa alguma"... O que S. João da Cruz pede aqui é para aquietar a vontade.

Mas não voemos tão alto quanto os monges orientais, por ora. Observemos, no entanto, como o silêncio, bem compreendido, difere do que se costuma entender...E isto é importantíssimo. São Bento, a quem celebramos dias atrás, dizia ser o silêncio o mestre dos mestres, pois ensina sem palavras. Se a alma buscar a Deus com sinceridade, Ele mesmo haverá de ensinar-lhe estas coisas, desde que, naquilo que depende dela, a alma busque aprender da Igreja.

Retomarei alguns pontos noutro post...

Fábio.

Cardeal Pacceli: alteração da Fé seria um suicício...


“Estou obcecado pelas confidências da Virgem à pequena Lúcia de Fátima. Essa obstinação de Nossa Senhora diante do perigo que ameaça a Igreja, é um aviso divino contra o suicídio que representaria a alteração da fé, em sua liturgia, sua teologia e sua alma”.

Cardeal Pacceli, futuro Pio XII, quando ainda Secretário de Estado de Pio XI em 1936.

***

A alteração da Fé:
- Em sua Liturgia (liturgia afro, modernismo, invencionices sem conta, palmas e reboladas, músicas pop e rock n' roll na Missa, profanações, falta de zelo, comunhão na mão, abandono das fórmulas, entronização de orações socialistas e sincréticas....)

- Em sua Teologia (abandono do tomismo, ascensão da "teologia da libertação" e da teologia liberal, hemenêutica da ruptura, da suspeita e dos infernos, enfraquecimento da catequese, pentecostalismo, "leitura popular" da Bíblia...)

- Em sua alma (substituição do "Santo Sacrifício da Missa" pela concepção de uma mera reunião fraterna; substituição da realidade do Calvário pelo simbolismo de uma festa ou mero encontro de fiéis; abandono das práticas devocionais tradicionais pela militância em sindicatos da terra, da ecologia e pelo hasteamento de bandeiras vermelhas; substituição do "santo orgulho" de se dizer plenamente católico pela vergonha em aderir de todo ao ensino da Igreja. Substituição da obediência ao Papa e ao Magistério pela soberba da revolução e infração metódica das prescrições eclesiásticas, o que chamam de "carisma sobre instituição").

Estas alterações, caríssimos, representam o suicídio de que se fala acima. São, todas elas, diferentes manifestações do "non serviam" da velha serpente.

O contrário, isto é, a fidelidade à Tradição, à retidão do ensino da Igreja, representa a vida, a vida em plenitude. Felizes os que ouvem a voz do Sumo Pastor e ignoram estes outros que não vêm senão para roubar, matar e destruir.

Que a Virgem de Fátima guarde os seus filhos de toda heresia e apostasia. Que santifique o clero e nos acenda na alma o fogo da Caridade, a fim de que, ardendo de zelo pela Igreja, a defendamos e sejamos testemunhos vivos de Nosso Senhor, luzeiros a ostentar, não bandeiras vermelhas com foices e martelos, mas a suma insígnia da Cruz, sempre bela e sempre forte.

Fábio.

Graus de vida ativa e contemplativa e a escolha da melhor parte. Explicação da passagem evangélica de Marta e Maria.


Sem dúvida, muito do que se debate hoje é de sumo valor. Sobretudo, quando o assunto é a defesa da Fé, as questões doutrinais, uma reta catequese. Porém, certas discussões a respeito de qual o tipo de vida ideal  poderiam ser evitadas se as pessoas atentassem a um simples fato: nem todos têm a mesma vocação. Cada um recebe um chamado e isto é natural. Revela-se inútil, portanto, que um contemplativo force um vocacionado à vida ativa a abandonar seus afazeres para dedicar-se integralmente à contemplação, assim como é também desinteressante que um ativo reclame de um contemplativo porque, aparentemente, nada faz. Este último tipo de crítica é mais comum, porque, num tempo onde a superficialidade impera, o fenomenalismo é uma tentação, embora seja típico de pessoas míopes.

Transcrevo, aqui, parte de livro onde o autor explica bem esta diferença. Muito esclarecedor...
A transcrição é um pouco longa e podem ter pontos obscuros.
As linhas que seguem se inserem dentro da tradição da teologia apofática ou negativa.
Qualquer coisa, é só perguntar.
Boa leitura.

"No Evangelho de São Lucas está escrito que, quando Nosso Senhor se encontrava em casa de Marta, irmão de Maria, Marta ocupava-se de lhe preparar a refeição, enquanto Maria se quedava sentada aos pés do Mestre. E ouvindo a sua palavra, ela não prestava a atenção às ocupações da irmã, conquanto fossem muito boas e santas, já que pertenciam à primeira parte da vida activa. E também não reparava na preciosidade daquele corpo bendito, nem naquela doce voz, nem nas palavras da humanidade do Senhor, ainda que tudo isso fosse melhor e mais santo, pois pertencia à segunda parte da vida activ e à primeira da vida contemplativa. Maria voltava-se, pois, para a sabedoria suprema da divindade do Senhor, velada nas palavras obscuras da sua humanidade, e nisto se fixava com todo o amor do seu coração. Com efeito, dali não se queria afastar, por nada do que pudesse ver ou ouvir ao seu redor; antes permanecia sentada, muito quieta em seu corpo...

(...) quando Marta se queixou a nosso Senhor, exigindo que a irmã se erguesse e prestasse auxílio, para não ter de arcar sozinha com os trabalhos e fadigas, Maria permaneceu sentada, muito quieta, e não disse palavra de resposta, nem teve nenhum gesto de ressentimento contra a irmã, por causa de qualquer um dos seus queixumes. E nada disto admira, pois ela tinha outro trabalho para fazer, que Marta desconhecia. Portanto, não tinha vagar para a ouvir, nem para responder à sua queixa.

Sim, amigo, todas as obras, palavras e gestos que ocorreram entre Nosso Senhor e estas duas irmãs servem de exemplo a todos os activos e contemplativos da Santa Igreja, até ao dia do juízo final. Maria representa os contemplativos, porque eles devem conformar a sua vida com a dela; Marta representa os activos, do mesmo modo e por análoga razão.

Assim como Marta outrora se queixava de Maria, assim também, ainda hoje, os activos se queixam dos contemplativos. De facto, suponhamos que alguém de um meio secular ou de uma ordem religiosa se sente chamado a abandonar toda a ocupação exterior, para se entregar plenamente à vida contemplativa. Que acontece a quem é tocado deste modo pela graça, dando ouvidos a conselhos espirituais? Que sucede a quem adopta um tal gênero de vida, segundo a luz dos seus conhecimentos e os ditames da sua consciência, com a aprovação do director espiritual? No mesmo instante, os seus irmãos e irmãs, todos os seus amigos íntimos, e muitos outros que não conhecem as suas moções interiores nem o seu estilo de vida, se voltam contra ele com duras críticas e asperamente lhe dizem que a sua conduta não faz sentido. E logo se põem a desfiar um rosário de falsas histórias, com histórias verdadeiras à mistira, falando sobre a queda de homens e mulheres que se votaram ao mesmo gênero de vida no passado. Mas nunca hão-de citar o bom exemplo de alguém que se aguentou de pé!

(...) Alguns poderiam pensar que eu não presto a devida honra a Marta, essa santa especial, pois comparo as suas palavras de protesto contra a irmã às palavras da gente do mundo. A verdade, porém, é que não pretendo faltar com respeito nem a Marta nem às pessoas do mundo. E o Senhor me livre de, nesta obra, eu fazer a mais pequena crítica aos seus servos de qualquer grau, dizendo alguma coisa em desabono da sua santa especial. De facto, penso que se eve relevar totalmente a queixa de Marta, tendo em conta a ocasião e o modo como a fez. A causa do que ela disse foi a ignorância; mas não nos deve admirar que, na altura, ela não soubesse qual era a ocupação de Maria, pois estou em crer que, até ali, ainda mal tinha ouvido falar de semelhante perfeição. Por outro lado, a santa também se exprimiu com toda a cortesia e em breves palavras, pelo que sempre a devemos considerar plenamente desculpada.

Assim, a meu ver, as pessoas de vida activa, inseridas no mundo, também devem obter o perdão para as suas palavras de protesto acima referidas, muito embora falem de maneira rude, pois é necessário atender à ignorância de que são vítimas. Com efeito, assim como Marta estava muito pouco ciente do que fazia a sua irmã, quando se queixava dela a Nosso Senhor, assim tambem os nossos contemporâneos sabem muito pouco ou nada do que pretendem os jovens discípulos de Deus, quando se retiram dos negócios do mundo, para se tornarem servos especiais do mesmo Deus, na santidade e rectidão de espírito. E, se alguma coisa em verdade soubesse, eu atrever-me-ia a dizer que os nosso coevos teriam outra linguagem e comportamento.

(...) Por conseguinte, na minha opinião, os consagrados à vida contemplativa não se deviam limitar a ser indulgentes para com as práticas dos activos; mas seria também conveniente que se aplicassem de tal modo à sua ocupação espiritual que nem sequer prestasse atenção ao que as pessoas fazem ou dizem à sua volta. Foi esta a conduta de Maria, nosso modelo, quando Marta se queixou a Nosso Senhor. E se nós a quisermos imitar, Nosso Senhor fará por nós, ainda hoje, o mesmo que outrora fez por ela.

Que sucedeu, então? Vejamos como agiu o nosso amado Senhor Jesus Cristo, para quem nada existe de secreto nem oculto: Marta pediu-lhe que assumisse o papel de juiz e dissesse a Maria que tratasse de colaborar em O servir; Ele percebeu, no entanto, que o espírito de Maria se encontrava fervorosamente ocupado em amar a sua divindade; assim, pelo modo mais cortês e conveniente, segundo os ditames da razão, Ele próprio, o Senhor, respondeu por aquela contemplativa, a qual nem sequer se defendia a si mesma, para não interromper o amor que Lhe devotava. E como respondeu Ele? Certamente que não assumiu o papell de mero juiz, a pedido de Marta, mas antes, como advogado, tomou a defesa legal de quem O amava. Disse: "Marta, Marta!" Para ser mais eficaz, duas vezes a chamou pelo nome, pois queria que ela O ouvisse e prestasse atenção às suas palavras. "Andas inquieta - prosseguiu o Senhor - e estás perturbada com muitas coisas". De facto, os activos andam sempre atarefados, e têm sempre de se preocupar com variadíssimas coisas, primeiro, para proverem às suas próprias necessidades e, depois, para realizarem obras de misericórdia em favor do próximo, como exige a caridade. E o intuito do Senhor, ao falar a Marta daquele modo, era fazê-la saber que a ocupação dela era boa e proveitosa para a saúde da alma. Contudo, para que ela não pensasse que o seu trabalho era o melhor que se poderia empreender, o Senhor acrescentou: "Mas uma só coisa é necessária".

E que é esta coisa única necessária? É, sem dúvida, amar e render louvor só a Deus exclusivamente, pondo tal ocupação acima de qualquer outra, material ou espiritual, que se possa levar a efeito. E para que Marta não pensasse que poderia chegar tão alto, enquanto se ocupava das necessidades desta vida, Nosso Senhor quis afiançar-lhe que ela não poderia servir a Deus senão imperfeitamente, dedicando-se a ocupações materiais e espirituais em simultâneo. Assim, o Senhor acrescentou que Maria escolhera a melhor parte, que nunca lhe seria tirada.


Verdadeira explicação do seguinte passo do Evangelho: "Maria escolheu a melhor parte".

Que significa a afirmação de que Maria escolheu o óptimo? Sempre que se propõe ou nomeia o óptimo, postulam-se duas coisas - o bom e o melhor -, pois só assim temos o óptimo, que vem em terceiro lugar. Dito isto, quais são as três coisas boas, dentre as quais Maria escolheu a melhor de todas? Não são três espécies de vida, pois a Santa Igreja apenas reconhece duas: a vida activa e a vida contemplativa, e estas encontram-se figuradas, no relato evangélico, pelas duas irmãs, Marta e Maria. Sem adoptar uma ou outra destas vidas, ninguém se pode salvar; mas também, não sendo elas mais que duas, não se pode escolher uma que seja óptima, em sentido estrito.

Só existem, pois, duas vidas, mas ambas ligadas perfazem três partes, cada uma das quais melhor do que a precedente. (...) Efectivamente, segundo referi, a primeira parte, vemo-la de pé, ocupada em praticar obras corporais de misericórdia e caridade, boas e honestas; equivale ao primeiro grau da vida activa, conforme também já afirmei. Por seu turno, a segunda parte das duas vidas a que me reporto está deitada, absorvida em meditações espirituais salutares, durante as quais o ser humano considera a sua própria miséria, a Paixão de Cristo e as alegrias do Céu. A primeira parte é boa, mas a segunda é melhor, pois equivale ao segundo grau da vida activa e ao primeiro da vida contemplativa. Nesta segunda parte é que a vida contemplativa e a vida activa se unem em parentesco espiritual e se convertem em autênticas irmãs, à semelhança de Marta e Maria.

A terceira parte das duas vidas mencionadas está suspensa na escura nuvem do não-saber e abunda em impulsos de amor secreto, cujo alvo exclusivo é Deus somente. A primeira parte é boa, a segunda é melhor, mas a terceira é a melhor de todas. É esta a melhor parte de Maria. Por isso, é necessário compreender bem que nosso Senhor não disse: - "Maria escolheu a vida melhor de todas" - , pois não existem senão duas vidas, e onde só há duas realidades, não se pode escolher uma que seja a melhor de todas. Mas destas duas vidas "Maria escolheu" - disse o Senhor - "a parte melhor de todas, que nunca lhe será tirada".

A primeira parte e a segunda, embora sejam boas e santas, terminam com a vida presente. Com efeito, na outra vida, já não haverá necessidade, como agora, de praticar obras de misericórdia, nem de chorar por causa da nossa miséria ou da Paixão de Cristo. Então, ninguém terá fome nem sede, nem morrerá de frio, nem andará doente, nem se encontrará sem abrigo ou na prisão; tão-pouco será necessário enterrar seja quem for, porque ninguém morrerá. Contudo, a terceira parte, que Maria escolheu, seja escolhida igualmente por quem ouvir o apelo da graça. Ou melhor: quem Deuys tiver escolhido para essa parte, deixe-se inclinar para ela com gosto. Tal parte nunca lhe será tirada, pois começa aqui, mas durará para todo o sempre.

Por conseguinte, que a voz de Nosso Senhor brade aos activos, como se no presente lhes estivesse falando em nosso favor, do mesmo modo que outrora falou a Marta em favor de Maria: "Marta, Marta!" - "Activos, activos!, ocupai-vos quanto puderdes na primeira e na segunda parte, ora numa ora noutra, e se quiserdes e vos aprouver, em ambos os casos utilizai os vossos sentidos. Mas deixai em paz os contemplativos. Vós não sabeis o que se passa com eles. Deixai-os permanecer sentados, em seu descanso e recreio, com a terceira e melhor parte de Maria.

Doce era  o amor recíproco entre Nosso Senhor e Maria. Ela, que muito O amava, era amada por Ele mais ainda. Na verdade, quem observasse com atenção o comportamento de um para com o outro (...) verificaria que ela se dava a amá-Lo tão intensamente que nenhum ser inferior a Ele a podia confortar, nem tão-pouco reter-lhe o coração. Aliás, era precisamente Maria que, ao procurar o Senhor no sepulcro, com lágrimas escorrendo-lhe pela face, não permitia que os anjos a consolassem. Eles dirigiam-lhe palavras doces e afectuosas, dizendo: "Não choreis, Maria, porque Nosso Senhor, a quem procuras, ressuscitou, e tu O hás-de possuir e contemplar, vivo e cheio de beleza, entre os seus discípulos, na Galiléia, como Ele mesmo prometeu". Ela, porém, não sustinha o pranto, pois, a seu ver, quem buscava o Rei dos anjos não devia fazer caso de simples mensageiros.

E que mais? Certamente, quem examinar com cuidado o relato evangélico, deparará com muitos actos maravilhosos de amor perfeito que Maria realizou. Todos eles foram registrados para nos servir de exemplo (...) E se alguém quiser ver com os próprios olhos, nas páginas do Evangelho, o amor maravilhoso e especial de Nosso Senhor para com Maria, que personifica todos os pecadores inveterados sinceramente convertidos e chamados à graça da contemplação, verificará que o mesmo Nosso Senhor não permitia a ninguém - nem sequer a Marta, que era irmã! - pronunciar uma única palavra contra Maria, por quem Ele mesmo tratava de responder. (...) Ora, isto era a prova de um grande amor, um amor inexcedível!"

A Nuvem do Não Saber, Anônimo do Século XIV

Vai ser santo?! Comece logo...



Algumas pessoas costumam dizer que, realmente, querem ser santas, que vão se empenhar, que, usando a terminologia paulina, vão "combater o bom combate". Mas isto dizem sem qualquer intenção de iniciar imediatamente. Parece que não há pressa... E, como se estivessem a declarar qualquer coisa de interessante, falam solenemente: "Estou esperando o momento certo; algo que marque o começo". Muitos se decidem começar no início do ano, mas... o ano novo chega, e nada de pôr em prática. E isto se deve, antes de tudo, à imaturidade com que vemos o dever da santidade.. Sim, dever! "Sede santos" é uma ordem!

Neste intenção, disponibilizo um texto de um escritor muito suave, muito carinhoso, e que bem poderia ser o "marco" pelo qual esperam tantos relaxados, entre eles, talvez eu também. O nome do escritor não conhecemos; sabemos apenas que é do século XIV e que escreveu um clássico da mística católica, particularmente da teologia apofática: "A Nuvem do Não-Saber". Segue o texto... Notem a brandura do escritor:

"E agora, débil miserável, ergue o teu olhar e repara no que és. Quem és tu, quais os teus méritos, para o Senhor te haver chamado desse modo? Oh!, mísero coração sem energia, adormecido na preguiça, que te não acorda nem a atração deste amor, nem a voz deste chamamento! Acautela-te, desgraçado, porque no tempo presente te espreita o Inimigo. Nunca te julgues mais santo nem melhor, seja pelo valor da tua vocação, seja pela singular forma de vida que abraçaste. Considera-te, antes, mais desgraçado e maldito, se, com o auxílio da graça e da direção espiritual, não fazes da melhor forma o que está ao teu alcance para viveres segundo a tua vocação. Devias ser tanto mais humilde e afetuoso para com o teu Esposo espiritual, quanto é certo que Ele - o Deus todo-poderoso, Rei dos reis e Senhor dos senhores! - resolveu humilhar-se para descer ao teu nível, graciosamente te quis escolher dentre as ovelhas do seu rebanho, para seres um dos seus amigos especiais, e a seguir te colocou num lugar de pastagem, para aí seres alimentado com a doçura do seu amor, como prelúdio da tua herança: o reino do Céu.

Continua, pois, eu te rogo, continua com toda a rapidez. Olha agora para diante e deixa o que está para trás. Vê o que te falta ainda e não o que já tens, pois essa é a melhor maneira de adquirir e conservar a humildade. A partir de agora, toda a tua vida deve ser, por completo, um desejo, pois só assim poderás crescer na perfeição. Tal desejo, por seu turno, deve ser sempre despertado na tua vontade, pela mão de Deus todo-poderoso, aliada ao teu consentimento.

Uma coisa, entretanto, te afirmo: Deus é um amante ciumento, que não tolera rivalidades, e não quererá atuar na tua vontade, se não estiver a sós contigo. Ele não busca nenhuma ajuda, só te busca a ti mesmo. Toda a sua vontade é que te limites a olhá-Lo e O deixes agir sozinho. Guarda as janelas e a porta contra a invasão das moscas e o assalto dos inimigos. E se te dispuseres a fazer isso, só terás de O invocar com insistência humilde na oração, que logo Ele virá em teu auxílio. Insiste, pois;mostra as tuas disposições. Ele está mais que pronto e apenas te aguarda."

A Nuvem do Não-Saber, Anônimo do século XIV.

"Sim sinhô"...rs..

2010 anos desde que Ele nos veio... Quando virá de novo?


Um olhar enamorado fala por si...

Pronto. Estamos já no ano de 2010... E sabem o que isto, sobretudo, significa? Que, ignorando algum pequeno erro de cálculo, já são 2010 anos que Ele veio até nós. Tanto tempo...

Desde então, Nosso Senhor, embora tenha prometido estar sempre conosco (e, verdadeiramente Ele está, particularmente no mistério Eucarístico), também escondeu-se, pôs-se sob o véu, para que O víssemos na via obscura da Fé. Pelo mesmo motivo, Ele diz aos Apóstolos: "Convém a vós que eu vá", e ainda a Madalena: "Não me toques". Ainda por isto também repreende Tomé: "Felizes os que crêem sem ter visto".

No entanto, como dizia S. João da Cruz, o amante cujo amor seja já crescido somente pode saciar suas violentas ânsias de amor pela presença e pela figura do Amado. Se é verdade que tudo o que existe fala de Cristo, há um estágio de amor onde o amante não mais se contenta com as cartas ou  sinais do Amado. Ele  quer o Amado mesmo... Diz o doutor místico a Jesus: "Não queiras enviar-me mais mensageiro algum, pois não sabem dizer-me o que desejam... E todos quanto vagam, de Ti me vão mil graças relatando, e todos mais me chagam e deixa-me morrendo um 'não-sei-quê' que ficam balbuciando." Justamente por isto, os cristãos perfeitos mais não querem que O ver e, por isto, muitos desejam a morte como via de libertação e consumação do abraço com Deus. Isto é ensinado por Deus Pai a Santa Catarina; é também facilmente observável na vida dos amigos de Nosso Senhor. Sta Teresa D'avila exclava: "Ai que longa esta vida, que duros estes desterros; este cárcere, estes ferros onde a alma está metida (...) morro porque não morro". O mesmo S. João da Cruz, por sua vez, gritava a Nosso Senhor "Acaba já, se queres; rompe a tela deste doce amplexo (...) Pode o peixe sentir algum conforto fora d'água? Assim também a minha alma longe de Ti. Toma esta vida que não a quero, pois me privando de ver-Te, é mais morte que vida (...) Já que me roubaste o coração, porque não levas o roubo que roubaste? Que vejam-te meus olhos, pois deles és a luz e para Ti somente os quero ter".

Lembro-me ainda daquele monge cartuxo cego que, ao ser indagado se temia a morte, respondera que um cristão não a deve temer; ao contrário! Quando o filho percebe a proximidade do encontro com o Pai não deve se entristecer, mas antes alegrar-se.

Lá pelas profundas alturas (o paradoxo é proposital...) da vida mística, porém, o amor torna-se tão intenso que, para a usar a expressão de Elias, devora o coração. Daí decorre uma santa impaciência, uma profunda ânsia de ver o Amado que, se não satisfeita ao menos em parte, levaria à literal morte do amante. A alma não suporta a ausência dAquele a quem ama.... Neste estágio, O Esposo inicia toda uma série de cortejos à alma. Aparece satisfazendo-a por um breve momento mas, num relance, novamente se esconde. É em virtude desta "brincadeira de amor" que a Nosso Senhor foi atribuída a comparação com o cervo que, pela sua agilidade, aparece e some entre as árvores da floresta.

Mas falando, enfim, para pobrezinhos como eu; crianças ainda na fé... o propósito deste artigo não é fazer notar o desejo de morte dos perfeitos nem as experiências espirituais dos que ultrapassaram as fases de iniciantes e proficientes, alcançando a via mística. O que quero fazer ver é quão pouco amamos a Deus. Parece, à vezes, que não há sequer saudades... Celebramos a vinda de mais um ano e, ao invés de isto nos remeter a Ele, ao contrário, faz-nos às vezes esquecer até do Seu recente aniversário... E isto é muito bem representado pela frase de uma música que ouvi num especial do Chaves: "o natal ficou pra trás..."

Há quem trocasse a eternidade no Céu pela eternidade na terra... E como isto é lamentável... A comemoração do ano 2010 é a celebração de 2010 anos desde que Ele nos veio e, ao mesmo tempo, num certo sentido, a lamentação dos muitos anos da sua "ausência". Lembro agora o que disseram alguns discípulos de S. Francisco de Assis quando, pela última vez, o viram lhes deixar: "e ele se afastava e, consigo, levava os nossos corações".

E ainda  os exilados de Sião que, com saudades de sua Pátria, penduravam seus instrumentos nas árvores...

Enfim... Estes assuntos do amor são muito profundos e pouco é o meu trato e nenhuma a minha experiência  pra sobre eles discorrer. O que escrevo neste sentido vem, sobretudo, dos livros... E não deixo de envergonhar-me por amar tão pouco a Nosso Senhor... Tempos atrás, terminando um romance sobre a vida de Sto Tomás, o escritor punha na boca de um médico que o analisara algo assim: "há almas santas cujo amor por Deus pode ser mais terrível que as mais altas febres... É o que acontece com Tomás". Não sei se isto procede no preciso sentido histórico com relação ao doutor angélico (a biografia que li era, de fato, um romance...), mas sei que acontece com os santos... Depois disto, numa aula de filosofia, um professor, comentando este fato, dissera que Tomás morrera de enfarte. Em todo caso, foi o coração de Tomás que cedeu ao violento amor que devotara ao Esposo...

E eu quisera muito amar a Deus assim...
O amor é algo muito sério e, por isto, brinca de amar é algo terrivel...

Por fim, posso ao menos confessar que partilho da saudade de Cristo. Queria que Ele viesse logo...
Mas.. faça-se a Sua vontade. Deixo-vos, então, duas bonitas músicas...
Talvez elas expressem melhor tudo isso...




Dionísio Areopagita e a teologia apofática


Giovanni Reale / Dario Antiseri

Entre os séculos V e VII, viveu o autor que se denomina Dionísio Areopagita, que foi confundido com aquele Dionínio que São Paulo converteu com seu discurso no Areópago. Sob o seu nome, chegou-nos um corpus de escritos (Hierarquia Celeste, Hierarquia eclesiástica, Nomes divinos, Teologia Mística e Epístolas) que teve grande repercussão na Idade Média (a própria estrutura hierárquica do Paraíso de Dante foi influenciada pela concepção hierárquica da realidade de Dionísio).

Dionísio repropõe o Neoplatonismo em termos cristãos, sobretudo o neoplatonismo tal como se havia configurado nas formulações elaboradas por Proclo. Mas o que mais se destaca neste corpus, que contém muitas concepções bastante sugestivas, é a formulação da teologia apofática (ou negativa). Deus pode ser designado por muitos nomes extraídos das coisas sensíveis e entendidos em um sentido translato, enquanto e à medida que ele é causa de tudo; de modo menos inadequado, Deus pode ser designado por nomes extraídos da esfera das realidades inteligíveis, como "belo" e "beleza", "amor" e "amado", "bem" e "bondade", e assim por diante; mas, melhor ainda, Deus pode ser designado negando-lhe todo atributo, à medida que ele é superior a todos, é o "supra-essencial" e, portanto, o silêncio e a treva expressam melhor essa realidade supra-essencial do que a palavra e a luz intelectual.

Eis o trecho mais significativo da Teologia Mística: "A Causa de todas as coisas pode ser expressa com muitas e com poucas palavras, mas também com a ausência absoluta de palavras. Com efeito, não há palavra nem inteligência para expressá-la, porque ela está colocada supra-substancialmente além de todas as coisas e só se revela verdadeiramente e sem qualquer véu para aqueles que transcendem todas as coisas impuras e puras, superam toda a subida de todos os cumes sagrados, abandonam todas as luzes divinas e os sons e discursos celestes e penetram na escuridão onde verdadeiramente reside, como diz a Escritura, aquele que está além de tudo". E, transcendendo tudo aquilo que é sensível e também aquilo que é inteligível e inteligente, o homem pode aderir "àquele que é completamente impalpável e invisível" e pertencer completamente "àquele que tudo transcende e a nenhum outro, através da inatividade de todo conhecimento", tornando-se capaz de "conhecer para além da inteligência pelo não conhecer nada".

Giovanni Reale / Dario Antiseri, História da Filosofia, Antiguidade e Idade Média.
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