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São João da Cruz, Doutor da Igreja - Uma abordagem geral


Hoje é dia do meu santo de devoção: o grande São João da Cruz. Nascido na Espanha, foi co-autor, junto com Sta Teresa D'Avila, da reforma da Ordem Carmelita. Canonizado em 1726, pelo Papa Benedito XIII, foi declarado Doutor da Igreja em 1926, pelo Papa Pio XI. Além destes títulos, ele é conhecido como Doutor Místico, e em 1952 recebeu o título de patrono dos poetas espanhóis.

Mas em que é que São João da Cruz se destaca? Bem, primeiramente, é preciso dizer que pelo mero fato de ele ter sido declarado santo, isto já indica que ele foi um cristão eminente que visceralmente encarnou as virtudes do Evangelho até conformar-se - assumir a forma - de Nosso Senhor. Além disto, ele foi declarado Doutor da Igreja, entrando para o estreitíssimo grupo de 35 doutores que a Igreja obteve em toda a sua história de mais de dois mil anos de existência. Significa dizer que ele é elite da elite. Mas isso ainda não basta para dizer o que ele foi. São João da Cruz é absolutamente único. De todos os santos, ele é o que melhor compreendeu a vida mística e melhor a explicou, tendo alcançado o último grau de santidade possível nesta vida, chamado de "matrimônio místico". Este é um estágio altíssimo ao qual chega só uma pequena minoria dentre os santos. Tendo percorrido o caminho inteiro, São João está em condições de nos conduzir nestas vias tão misteriosas e difíceis.

Com efeito, ele desempenhou esta função como verdadeiro mestre. Ocorria, então, um fenômeno interessante nas ordens religiosas, principalmente contemplativas: religiosos e monges que estavam já há bastante tempo habituados aos modos convencionais de oração, dentre os quais tinha primazia o método inaciano de meditação, de repente se viam mergulhados numa estranha impossibilidade de continuar no mesmo caminho de sempre. Não conseguiam rezar como antes.. Meditar nas verdades do Evangelho e da Fé se tornava difícil e desconfortável. Se, por acaso, eles se forçavam a rezar deste modo - habituados que estavam às mortificações -, também não adiantava muita coisa. Esta sequidão e aparente inércia da alma parecia não ter fim. O que fazer? São João da Cruz então se colocava como um guia seguro a partir deste ponto. Às pessoas desorientadas por terem adentrado nesse estágio, ele servia de luz, de farol; segurava-as pela mão e as conduzia por um caminho do qual elas, até agora, nada conheciam.

Observemos o seguinte: para almas que estavam habituadas há anos a um modo seguro de vida, o fato de verem-se, de repente, privadas deste caminho era algo que lhes provocava profunda angústia interior. E isto também pelo fato de que não supunham haver outro caminho. Na verdade, elas não tinham idéia do que se sucedia e, por mais que buscassem consolos e orientações, nada as tirava daquelas dificuldades. Aquilo parecia um problema sem solução. Ora, se São João da Cruz se dispunha, então, a orientá-las nessas trevas, podemos nos perguntar: Que tipo de densidades sombrias ele não terá passado? E de que modo ele soube como agir? Quem o teria orientado, sendo ele ainda tão jovem? Sta Teresinha de Lisieux, nobre fruto da árvore do Carmelo que São João da Cruz ajudará a reformar, dirá mais tarde: "estou convencida de que só o sofrimento pode gerar almas". Eis o segredo de S. João da Cruz, santo para o qual a insígnia da Cruz sempre foi o maior distintivo. Com efeito, ele sempre advertirá contra os que pretendem fazer do cristianismo um caminho de facilidades. "Não lhes dêem ouvidos", dirá com firmeza, convencido de que a estreiteza do caminho de Cristo é maior do que a que se supõe. Escreve ele:

"Observemos com cuidado as palavras que Nosso Senhor nos dirige por S. Mateus: "Quão apertada é a porta e quão estreito é o caminho que conduz à vida; e poucos são os que acertam com ele" (Mt 7,14). O peso e o encarecimento deste termo "quão" são muito dignos de nota; é como se o Senhor quisesse dizer: em verdade, o caminho é bem estreito e muito mais do que podeis pensar. Ponderemos ainda que o Senhor primeiramente diz ser apertada, para nos mostrar que a alma desejosa de entrar por esta porta de Cristo - que é o começo do caminho - deve antes de tudo reduzir-se e despojar a vontade em todas as coisas sensíveis e temporais, amando a Deus acima de todas elas." (Subida, Livro II, Cap. VII, n.2)

São João enfatizará a necessidade de um intenso despojamento interior. Este despojamento é necessariamente doloroso pois a nossa tendência natural é apegar-nos aos bens. Por este motivo ficavam desorientados os religiosos acima referidos, pois se viam obrigados a abandonar um meio que lhes era pessoalmente confortável. Se Deus queria conduzi-los a níveis mais altos, isso era-lhes doloroso, pois implicava em deixar os modos anteriores. Essas pessoas agiam como Pedro que, temeroso de abandonar a segurança do seu barco, hesitava em obedecer a voz do Mestre que o chamava a andar sobre as águas, já que isto lhe contrariava a experiência pessoal de que tal proeza é impossível.

Diz ainda o santo:

"Entrar, pois, neste caminho, é sair do seu próprio caminho, ou, para melhor dizer, caminhar diretamente para o termo, deixando seu modo limitado a fim de penetrar em Deus que não tem modo. A alma, chegada a esse estado, já não tem modos particulares, nem se apega ou pode apegar-se a eles, isto é, não mais se prende ao próprio modo de entender, gostar e sentir, conquanto tenha em si todos os modos; assim como quem nada tendo possui tudo excelentemente. Tendo tido ânimo para transpor os estreitos limites de sua natureza, tanto no interior como no exterior, entra em limite sobrenatural que não tem modo algum, embora, em substância, encerre todos os modos. Para chegar a isto, é preciso abandonar tudo aquilo, apartar-se daqui e dali e sair para muito longe de si, deixando o baixo para possuir o altíssimo" (Subida, Livro II, Cap. IV, n.5)

Este caminho une duas dificuldades: é desconhecido, isto é, foge em absoluto de quaisquer experiências prévias da alma, e é doloroso na medida em que exige despojamento. Nossa inclinação natural é recusar a ambos. Tendemos a desejar caminhos fáceis e que já nos sejam conhecidos, isto é, que nos pareçam isentos de perigos e ameaças. Na medida em que Deus passa a exigir-nos apagar nossas luzes artificiais, que são as nossas pequenas seguranças, e sair do que já conhecemos, nós como que adentramos num ambiente escuro, noturno. Caminhar de noite será o símbolo por excelência do início da vida espiritual autêntica. Esta noite diz respeito tanto à Fé - que é uma espécie de conhecimento obscuro de verdades que nos estão, por ora, inacessíveis à verificação empírica - quanto ao despojamento interior que se deve adotar. Se isto é difícil sequer de começar, o que não terá São João da Cruz passado, pessoalmente, para poder chegar a este estágio de não apenas conhecer o caminho, mas de poder ensiná-lo? Quais angústias e sofrimentos interiores ele não terá conhecido? Sta Teresa D'Avila, comentando sobre as durezas próprias de certas alturas da vida espiritual, afirma que elas somente podem ser comparadas às penas do inferno. São João da Cruz não teve quem o orientasse, a não ser o próprio Deus. No seu silêncio, no seu recolhimento, S. João enfrentou lutas de gigantes.

Nosso doutor traçará um esquema geral da vida espiritual, e a dividirá em três partes: 1- A noite dos sentidos; 2- A noite do espírito; 3- a via mística ou iluminativa. Cumpre dizer que esta divisão é clássica e se encontra igualmente em S. Tomás de Aquino, em Sta Catarina de Sena e nos demais místicos. S. João da Cruz teve não apenas o conhecimento teórico disso, mas o experienciou até onde é possível fazê-lo. Qualquer pessoa, portanto, que queira seriamente avançar no caminho de Cristo deve seguir por estas vias. Lembro-me do efeito que isto provocou em mim logo quando o conheci. Antes, a vida espiritual me parecia algo muito difuso: cada santo possui idéias pessoais e ênfases particulares. Os tipos de carisma são variadíssimos e cada um parece seguir um caminho distinto do outro. Iniciar um processo de ascensão espiritual ficava, assim, dado a um certo inspiracionismo. Ao conhecer a Mística de São João, eu pude identificar aquele traço que une os santos todos, que está subjacente à multiplicidade de modos, e fora do qual a vida espiritual é só fachada. Ver tudo isso foi como um eureka, pois então eu percebi com clareza a unidade fundamental da vida espiritual. Dizia eu, então: "agora eu sei por onde ir". Pena que entre saber e fazer há uma grande distância.. Mas saber já é alguma coisa.

Tratemos, portanto, de cada uma das vias em separado.. Mas isso será algo para os próximos capítulos. Tenho de viajar já já. Assim que dispuser de tempo, continuo.

São João da Cruz, rogai por nós.

Respondendo: A mística está acessível aos leigos?

Esquema feito por S. João da Cruz sobre a vida espiritual

Caro Fábio, primeiro gostaria de parabenizá-lo pelo excelente blog, principalmente pelos seus textos sobre mística. Lendo seu texto sobre a mística de São João da Cruz, surgiu-me uma dúvida, é possível viver esse caminho mesmo sendo leigo? Grato

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É uma ótima pergunta. Primeiramente agradeço os elogios ao nosso apostolado. Reze sempre por nós para que o façamos segundo a vontade de Deus.

Vamos lá.

De fato, isso tudo é mais "fácil" e mais comum para os religiosos e monges. E por quê? Porque eles podem se dedicar integralmente a todo esse mundo. Já dizia S. Paulo que os que vivem no século precisam se preocupar com os que estão à sua volta, como família, trabalho, etc. E isto tudo, embora justo e digno, pode e tende a distrair. No livro "O Diálogo", Deus Pai fala a Sta Catarina de Sena que o amor de um leigo, comparado ao de um religioso, deveria ser como um pedaço de gelo comparado a uma chama ardente. Isto nos mostra a diferença ideal entre a dedicação de um e a do outro. Porém, embora a gente possa falar de uma maior incidência de religiosos à vida mística, isto não é determinante.

Sta Teresa D'Avila diz que Deus pode levar a quem Ele bem queira ao cume da vida mística de um modo até rápido, embora não seja comum que Ele o faça. Neste ponto, S. João da Cruz se diferencia dela, pois para o Doutor da Noite, aquela gradação de que tratamos no outro post é uma regra da vida espiritual. Deus pode acelerar o processo, mas não "saltaria" os degraus. O ponto a que quero chegar aqui é este: se agradar a Deus que um leigo alcance tais alturas e, ao mesmo tempo, se o leigo se dispuser, de fato, ele o alcançará.

A vida mística, antes de estar destinada a religiosos, está ordenada à vida humana. Os estágios pelos quais alguém passa dizem respeito às nossas necessidades interiores. O que pode acontecer, porém, é que as purgações necessárias sejam dadas de um ou de outro modo, a depender do modo de vida da pessoa. Um contemplativo estrito terá muitas purgações interiores, por exemplo. Já alguém de vida ativa provavelmente sofrerá doloridas perseguições e abandonos. Mas tudo isto visa contribuir para que a alma se despoje da sua soberba e dos seus apegos. S. João da Cruz avisa, por exemplo, desde o momento em que um novo religioso adentra no convento: "considera que todas estas pessoas não foram postas aqui por Deus senão para te aperfeiçoar", e assim as dificuldades da vida comum também servirão de purgações, se forem vividas de um modo correto, com olhar sobrenatural.

Esta perspectiva se aproxima das afirmações de S. Josemaria Escrivá que pregava a possibilidade de sacralização de toda a vida ordinária, desde que vida digna. Veja só: aqui temos uma coisa interessante. Costumamos ver o convento ou mosteiro como o lugar estrito do Sagrado e o separamos do nosso cotidiano de leigos. No entanto, estes santos estão dizendo que, se tivermos um bom olhar, toda a nossa vida se torna chão consagrado de onde podemos, para usar a expressão de S. Josemaria, fazer transbordar a transcendência divina.

Então, sim! É possível atingir os auges da mística também na vida leiga embora, repito, isto seja menos comum, por causa das distrações e do comodismo geralmente não trabalhado. Veja sobre isso o que escreve S. João da Cruz:

"Se há tão poucos que chegam a tão alto estado, de perfeita união com Deus... não é porque Deus queira haja poucos desses espíritos elevados... mas é que acha poucos... que se disponham a operação tão alta e sublime". A maioria "foge ao trabalho, não querendo sujeitar-se ao menor desconsolo e mortificação", nem trabalhar com paciência perseverante. "Assim, (Deus) já não prossegue a obra de purificá-los pela abnegação e renúncia e levantá-los do pó da terra... Ó almas que quereis andar seguras e consoladas nas coisas do espírito! Se soubésseis quantos sofrimentos convém padecerdes para alcançar tal segurança e consolo... tomaríeis a cruz e, nela cravados, haveríeis de querer beber fel e vinagre puro, considerando-o grande ventura, ao verdes que, assim morrendo para o mundo e para vós mesmos, viveríeis para Deus, em deleites do espírito..."


Portanto, se Deus encontra generosidade por parte da alma, ela será por Ele lapidada e se tornará santa. Isto, porém, exige um grau cada vez maior de renúncia até o abandono total de si mesma. Por qualquer que seja a via, é algo bastante doloroso e exige uma Fé total. Faz parte do processo que a alma seja "cegada", isto é, que não veja para onde vai nem como vai. Diz o santo, porém, que é neste estágio que ela caminha mais ligeira, pois a sua cegueira é efeito da grande luminosidade na qual está inserida. O grande ponto da vida mística é a Fé. "O justo viverá por Fé", diz S. Paulo.

Agora, outra coisa: alguém que queira empreender este caminho, deve fazê-lo por amor a Deus. Se estiver movido de outros interesses, ou será purificado no meio do caminho, ou não encontrará o caminho. É como Moisés diante da Sarça Ardente a quem Deus ordena tirar as sandálias. A alma que quiser se achegar a Deus deve despojar-se de todas as intenções curvas. Já diz a Imitação que o coração puro abraça a Deus e a intenção reta o alcança. E diz Jesus: se os teus olhos forem puros - os olhos aqui simbolizam a intenção -, todo o teu ser estará na luz.

No que se refere à vida leiga, é preciso adquirir um profundo senso espiritual. Para isto, ajudam as práticas espirituais como a recitação constante de jaculatórias, sinais de devoção e a prática da presença de Deus, além de um devotado amor à Virgem Santíssima - sem Ela ninguém chega lá. O objetivo é dar-se conta de que a vida ordinária não está fora, mas dentro da vida espiritual que a abarca e a transcende.

Abraço.
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Dia de S. João da Cruz - A Mística Sanjuanista


Hoje a Santa Igreja celebra a festa de S. João da Cruz. Graças a Deus este santo começa a ser um pouco melhor conhecido, mas, ainda, somente por algumas frases soltas. Toda a pujança da sua mística infelizmente ainda é ignorada pela maioria das pessoas. Não é ocioso dizer que S. João da Cruz é a maior autoridade mística da Igreja. Se, portanto, queremos entender corretamente a espiritualidade católica, faremos muito bem se recorrermos a ele, como dizia Sta Edith Stein. Quero tentar fazer uma sucinta exposição, muito geral, sobre a mística de S. João.

No início da vida espiritual, está o batismo. Sem batismo não há, rigorosamente falando, vida espiritual. É preciso nascer de novo, como diz Jesus a Nicodemos. E isto se efetua no batismo. É aí onde recebemos a Graça Santificante que apagará de nós o Pecado Original e nos restabelecerá na amizade divina. Devemos entender que isto não é apenas uma teoria, mas a mais absoluta e rigorosa verdade. Em seguida, devemos, a partir de uma boa educação religiosa, passar a uma contínua e gradativa generosidade aos apelos interiores da Graça, sempre recorrendo ao Sacramento da Confissão quando acontecer de cairmos em pecado mortal.

A imensa maioria dos ditos católicos caminha totalmente desavisada da importância da Graça e comete disparates inconscientes, como a sacrílega comunhão no estado de pecado mortal. Uma minoria, porém, conhece este ponto e se preserva desses erros; caminha em Graça e se confessa regularmente. Além destas duas classes de católicos, pouca gente sobra. Para que entendamos a mística de S. João da Cruz, é preciso compreender que ser batizado, ser católico e estar em graça são os grandes pressupostos da autêntica vida em Deus.

Não é à toa que S. João da Cruz é tão desconhecido da nossa época. Um mundo que reputa a cruz às paredes e que, na prática, vive a ansiar por recursos financeiros e benefícios físicos e afetivos, não entenderá e sequer se interessará por seu caminho. Ele mesmo já o afirmara desde o início, dizendo que sua doutrina seria seguida por poucos, pois a maioria de nós está a desejar caminhos suaves e recompensas antecipadas. Queiramos ou não, muitos católicos vivemos ainda numa certa lei da barganha, no que Deus Pai, nos diálogos de Sta Catarina de Sena, chamava de "amor mercenário".

O caminho do nosso santo é o da nudez do espírito, da vitória sobre todo egoísmo e do abraço apaixonado na Cruz de Nosso Senhor. E isto somente se faz por um contínuo e desconfortável esvaziamento de nós mesmos, que ele descreve pormenorizada e sistematicamente.

Primeiramente, é preciso que nos decidamos por uma mortificação contínua e metódica. Porque vivemos presos aos confortos dos sentidos, a nossa alma caminha sonolenta e doente. Para despertá-la e dar-lhe a conhecer as belezas da vida espiritual, é preciso iniciar o ataque à soberba, que se manifesta de mil modos, a fim de que a alma recobre saúde. Isto se faz pela mortificação séria e firme, o que S. João da Cruz chamará de "Noite dos Sentidos". É chamada de "noite" porque é uma via ativa de privação das luzes dos sentidos. É "ativa" porque é produto da vontade firme e resoluta. Deste modo, ele recomenda ir tirando impiedosamente todos os atrativos sensíveis com os quais desejamos nos distrair. E isto referente aos cinco sentidos: não querer ver novidades nem atrativos; não querer ouvir conversas nem músicas agradáveis; não querer tocar doces texturas nem buscar o conforto do corpo; não querer comer coisas saborosas nem rejeitar o que não agrada ao paladar; não desejar sentir doces fragrâncias e evitar quaisquer outras delícias sensíveis. Quando isto é observado com rigor por algum tempo, a alma adquire uma vivacidade já bastante considerável.

Inicia-se, então, a famosa "Noite do Espírito" que é mais densa e mais dolorosa. Porém, tendo passado pela dos sentidos, a alma de algum modo saberá como agir nesta outra, ainda que o senso de desorientação seja muito típico deste estágio. Em que consiste a Noite do Espírito? Mortificados os apetites físicos, agora é a vez de fazer o mesmo com os apetites interiores. Esta noite possui uma parte ativa, isto é, que é produto dos esforços do sujeito; e uma passiva, onde Deus a leva por caminhos sensivelmente dolorosos a fim de purificá-la de si mesma. O ponto aqui é renunciar os desejos de satisfação espiritual, sejam os de natureza intelectual, sejam os referentes aos gostos e luzes provenientes das orações. Deus quer a alma totalmente vazia de si mesma. Isto é absolutamente fundamental para que seja levado a termo o processo de santificação que ele quer operar em nós. Do ponto de vista da sensibilidade, porém, é algo extremamente doloroso e difícil. Quando Deus vê que já nos renunciamos suficientemente, Ele mesmo passa a trabalhar na alma que, então, se torna totalmente passiva nas Suas mãos. A alma, no entanto, nada percebe da ação divina. Sente-se cega, perdida, desorientada, sem saber o que fazer e sem ter quem lhe entenda. Somente pode esperar em Deus, mas, mesmo aí ela não encontra sequer um vislumbre de luz. É a parte mais escura da noite. Ao mesmo tempo em que se vê totalmente isenta de qualquer prazer interior e desamparada, Deus ainda lhe concede um conhecimento muito profundo de si mesma, o que lhe causa imensa dor. Vê que nada sabe, que nada pode fazer por si só e, pior, que é ruim, mesquinha e que, até aquele momento, tudo quanto tinha feito de nada valeu, pois estava tudo profundamente eivado de orgulho e vaidade.

A coisa chega a tal extremo que a alma se vê a um passo do inferno e entende que o fato de Deus esquecê-la e jogá-la lá seria algo de muito justo. Se ela tenta rezar, não consegue. Se lê livros espirituais, de nada lhe servem. Neste processo, que Sta Teresa D'Avila afirma ser somente comparado às penas do inferno, a soberba vai sendo expulsa e a alma vai se tornando generosa e delicada para que, então, possa suportar os toques suaves do amor divino. Por enquanto, ela não os aguentaria. Isso tudo chega, então, a um ápice de dor e de trevas, onde o sujeito se vê abandonado por Deus e por todas as criaturas; a verdade é que ele está a passar pelo que Jesus passou na Cruz. Tal dor, dirão os santos, está reservada para os amigos íntimos do Cristo. Por esta dor, acontece o que se costuma chamar de "morte mística". As potências da alma passam por um processo doloroso de destruição, ressurreição e divinização. Quando se dá a morte mística, logo em seguida ocorre a "ressurreição mística". "Se a semente não morrer, não produz fruto", diz Jesus. E ainda: "Quem quiser me seguir, negue-se a si mesmo". Dizia Bernanos que Jesus está a esperar por cada um de nós depois da linha da negação total de nós mesmos. Esta negação total acontece neste momento. E, de repente, um raio de luz incide sobre as trevas da alma e as dissipa, revelando aos seus olhos os imensos tesouros que lhe foram colocados no doloroso caminho purgativo que ela traçou. Agora não há mais risco em mostrar-lhe isto, pois a vaidade, como um pus, foi espremida dela e já não a contamina.

A alma vê-se em posse de um amor extremamente violento por Deus, um amor que lhe levaria a fazer qualquer coisa por Ele e, neste estado, o que lhe causa sofrimento é ver que todas as dores do mundo são pequenas diante da sua disposição de sofrer pelo Amado. Agora, ela chama a Jesus de Amado com propriedade e aguda consciência do que isto significa, pois, de fato, ela O ama. Acabou-se a via purgativa e tem início a vida mística.

Esta vida mística se divide em mais três partes. A primeira, é esta que sucede exatamente a ressurreição espiritual. Aquela que sofreu tanto, agora se vê libertada e solta a recrear-se. 

Escreve o santo: "livre de todas as perturbações e inconstâncias temporais, despida e purificada das imperfeições das penas e da escuridão, tanto nos sentidos como no espírito, ela sente uma nova primavera com liberdade, amplidão e alegria de espírito."

Sem saber exatamente como, ela se vê profundamente configurada com o Cristo. Neste sentido, escreveu S. João: "oh noite mais feliz que a alvorada; oh noite que juntaste Amado com amada, amada já no Amado transformada"; e ainda: "Tu, ó vida divina, nunca matas senão para dar vida... quando castigas, tocas levemente, e isto basta para consumir o mundo inteiro; mas quando regalas, tu o fazes com toda a atenção e assim os regalos de tua doçura são inumeráveis. Feriste-me para curar-me, ó divina mão! Mataste em mim o que me deixava longe, debaixo da árvore da morte, sem a vida de Deus na qual agora vivo. Foi o que realizaste com a liberalidade de tua generosa graça, que me comunicaste ao tocar-me com o toque do resplendor de tua glória e figura de tua substância, que é teu Filho Unigênito."

Neste estado, a alma já é bastante santa e Deus passa a dar-lhe formações infusas, isto é, interiores, de modo que ela aprende muito em pouquíssimo tempo. Apenas alguns pouco segundos e ela entende profundamente algo que, em anos de intensa teologia, ela compreenderia somente de modo superficial. Os conteúdos nos quais Deus lha ensina são os da Sua Incarnação e Redenção, isto é, o mistério da Kenose, do rebaixamento divino e a Sua assunção da natureza humana, e o profundíssimo mistério da Cruz.

Daí a pouco, ocorre o segundo estágio: o do noivado espiritual. Jesus se mostra à alma, mas ainda não inteiramente. Ela O vê, mas, em seguida, Ele volta a esconder-Se. Isto faz com que o amor da alma cresça tanto a ponto de tornar-se um tormento para ela. Em alguns momentos, ela anseia tanto por Ele que, se Ele não cede à sua vontade, ela de certo morrerá literalmente. Jesus aí se comporta como um cervozinho que, na floresta, com notável agilidade, aparece aos olhos do caçador para, logo em seguida, sumir-lhe da mira.

Se isto perdura e a alma mantém sua fidelidade - o que é um tanto difícil de não se dar, visto que ela tenderá a sentir profundo desprezo e asco pelo que desagrade ao Seu Amado -, chegará o felicíssimo estado do "Matrimônio Místico", o último grau de santidade possível neste mundo. Jesus aparece para a alma e, então, se une inteiramente a ela, com comunhão total de bens. Notável é a descrição que deste momento faz Sta Teresa D'Avila. Escreve ela, mais ou menos o seguinte (escrevo com minhas palavras): "Apareceu-me Jesus, enquanto eu estava na fila da comunhão, e a mim se dirigiu: 'até hoje não o tinhas recebido por não seres digna. Hoje, porém, tomo tua mão e te desposo. És minha esposa e tudo o que é teu, é meu; igualmente, tudo quanto é meu, é teu. De hoje em diante, podes pedir a meu Pai todas as minhas dores e Ele tas dará como se fossem coisa tua."

Matrimônio Místico de Sta Catarina de Sena


Ocorre ainda o que se chama de "inocência readquirida", isto é, a inocência do Adão anterior à queda é devolvida à alma e isto significa um certo desconhecimento do mal, de modo que, ainda que ela veja algo ruim, não o entenderá. A esta altura, tudo o que separa esta vida da outra se assemelha a uma frágil tela e o que a alma mais anseia é que seja rasgada impetuosamente. Escreve S. João: "Já não és mais esquiva; acaba já, se queres. Rompe a tela deste doce abraço". Neste desposório, a alma entende como a Árvore da Cruz é, na verdade, a árvore da vida. Se diante da árvore do Bem e do Mal, o homem separou-se de Deus, agora, na árvore da Cruz, ocorre este matrimônio. Sobre isto, escreve ainda S. João da Cruz: "Sob o pé da macieira, ali, comigo foste desposada; ali te dei a mão, e foste renovada, onde a primeira mãe foi violada" e explica: [isto acontece] "Sob a graça da árvore da cruz, simbolizada aqui pela macieira, onde o Filho de Deus remiu, e, consequentemente, desposou consigo a natureza humana, e, portanto, cada alma, concedendo-lhe sua graça e penhores, para este fim, na cruz."

Paro por aqui. Desejo apenas dar um gostinho para despertar maior interesse por este colosso da espiritualidade e da mística. Os estágios estão aqui descritos de maneira muito rápida e superficial. Eles são muito mais detalhados, ricos e cheios de sutilezas. Diferente de toda enganação e pura retórica, o que se vê em S. João da Cruz é uma profundíssima doutrina mística, secundada na própria vida do santo, seguida com rigor e que, não obstante sua incomparável riqueza, apenas plana pelo caminho, visto que a vida mística é irredutível a qualquer descrição.

Neste dia de nosso pai, S. João da Cruz, peçamos que ele interceda por nós, que andamos tão desorientados ao sabor de tantas doutrinas, para que Jesus nos conduza de volta à via única da Santa Cruz.

S. João da Cruz, rogai por nós.

A Ciência da Cruz


"'Quão estreita é a porta e apertado o caminho que conduz à vida. Poucos são os que o encontram" (Mt 7,14) Devemos observar bem a ênfase dada à partícula 'quão', pois é como se dissesse 'na verdade é muito estreita, mais do que podeis imaginar...' Essa via ao alto monte da perfeição exige viajantes que não levem fardos que os façam pender para baixo... Já que se tem o propósito de somente buscar e alcançar a Deus, somente a ele se há de buscar e alcançar de fato! Instruindo-nos e incitando-nos nesse caminho, Jesus Cristo proferiu essa doutrina tão admirável e, receio dizer, tanto menos praticada pelas almas (que se sentem atraídas à vida espiritual) quanto mais necessária!

'Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me. Pois aquele que quiser salvar a sua vida, irá perdê-la; mas o que perder a sua vida por causa de mim e do evangelho, irá salvá-la'. (Mc 8,34)

Oh! Quem poderia aqui agora dar a entender, praticar e saborear este conselho!... aniquilação de toda a suavidade em Deus... aridez... tédio... sofrimentos... eis a pura cruz espiritual e a nudez do espírito pobre, segundo Jesus. O verdadeiro espírito antes procura em Deus a amargura que as delícias, prefere o sofrimento ao consolo, a privação ao gozo, a aridez e as aflições às doces comunicações celestes, sabendo que isto é seguir a Cristo e renunciar-se. Agir de outro modo é buscar-se a si mesmo em Deus, o que é muito contrário ao amor. Buscar a Deus nele mesmo... é inclinar-se a escolher, por amor a Cristo, tudo quanto há de mais áspero, seja de Deus, seja do mundo"1. A renúncia, segundo a vontade divina, consiste em "morrer para sua natureza... aniquilando-a... em tudo quanto a vontade julga ser valioso na ordem temporal, natural e espiritual... Quem assim tomar a cruz sobre si experimentará o jugo suave e o fardo leve, encontrando em todas as coisas grande alívio e suavidade... Quando a alma ficar desfeita em nada - isto é, a suprema humildade - estará realizada a união espiritual entre a alma e Deus... união que consiste numa viva morte de cruz, sensitiva e espiritual, interior e exterior"2.

Para tanto não há outro caminho, pois, segundo o plano divino da salvação, Cristo houve por "remir a alma e desposá-la consigo, servindo-se dos próprios meios que haviam causado a ruína e a corrupção da natureza humana; pois, assim como por meio da árvore proibida no paraíso, foi essa natureza estragada e perdida por Adão, assim na árvore da cruz foi remida e reparada"3. Se quiser partilhar com ele da vida, com ele deverá passar pela morte de cruz, e deverá como Cristo crucificar a própria natureza por uma vida de mortificação e renúncia, entregando-se à crucifixão pelos sofrimentos e pela morte, conforme Deus determinar e permitir. Quanto mais perfeita for a crucifixão ativa e passiva, tanto mais íntima será a união com o crucificado, e tanto maior será a participação na vida divina.

Eis os traços principais que caracterizam a ciência da cruz.

1- São João da Cruz, Subida, 1. II, cap. 7, §5
2- São João da Cruz, Subida, II, 7, §§7 a 11.
3- S. João da Cruz, Cântico Espiritual, Explicação da Canção XXIII

STEIN, Edith. A Ciência da Cruz. São Paulo: Loyola, 2004.

História de S. João da Cruz em Cordel


Recomendo o download. História de S. João da Cruz em Cordel, disponibilizada pelo Alexandria Católica. Para ir ao blog, clique na imagem.

Carta de S. João da Cruz a um seu filho espiritual


Recomendo veementemente a leitura desta carta do grande Doutor da Noite a alguém que lhe pede conselhos para a vida espiritual. Nela se reconhece o centro essencial da "mística da desnudez" própria do santo. Chamo ainda a atenção para a total diferença - e até oposição - entre estes ensinamentos e aqueles outros promovidos pelos movimentos de cunho pentecostal, dos quais a RCC participa naquilo que a caracteriza. Boa leitura.

***

A paz de Jesus Cristo esteja sempre em sua alma, filho.

Recebi a carta em que Vossa Reverência me fala sobre os grandes desejos que Nosso Senhor lhe concede, para aplicar exclusivamente nele a sua vontade, amando-o sobre todas as coisas, e na qual me pede alguns conselhos que o auxiliem a consegui-lo.

Folgo muito de que Deus lhe tenha dado tão santos desejos e muito mais folgarei de que os ponha em prática. Para isso é necessário ter bem presente que todos os gostos, gozos e afeições da alma nascem sempre da vontade e querer das coisas que se lhe oferecem como boas, convenientes e deleitáveis por lhe parecerem elas gostosas e preciosas; e, segundo isto, se movem os apetites da vontade em relação a elas e as espera, nelas se deleita quando as possui, receia perdê-las e sofre vendo-se sem elas; e, assim, segundo as afeições e gozos das coisas, anda a alma perturbada e inquieta.

Portanto, para aniquilar e mortificar estas afeições de gosto acerca de tudo o que não é Deus, deve Vossa Reverência notar que tudo aquilo de que a vontade pode gozar distintamente é o que é suave e deleitável, por lhe parecer isso saboroso; mas nenhuma coisa agradável e suave em que ela possa gozar e deleitar-se é Deus, porque assim como Deus não pode ser apreendido pelas demais potências, tampouco pode ser objeto dos apetites e gostos da vontade, porque assim como nesta vida a alma não pode saborear a Deus essencialmente, assim também toda a suavidade e deleite que experimentar, por sublime que seja, não pode ser Deus; e também porque tudo o que a vontade pode gostar e apetecer distintamente provém do conhecimento adquirido por meio de tal ou tal objeto.

E, assim sendo, como a vontade nunca saboreou a Deus tal como ele é, nem o conhece sob qualquer apreensão de apetite, e, por conseguinte, não sabe como Deus é, não pode saber qual é o seu sabor, nem pode o seu ser, apetite e gosto chegar a saber apetecer a Deus, pois está acima de toda a sua capacidade, logo, claro está que nenhuma coisa distinta, de quantas a vontade pode gozar, é Deus. Por isso, para unir-se a ele se há de esvaziar e desapegar de qualquer afeto desordenado de apetite e gosto de tudo o que distintamente pode gozar, tanto celeste como terreno, temporal ou espiritual, a fim de que purgada e limpa de quaisquer gostos, gozos e apetites desordenados toda ela se empregue em amar a Deus e para ele dirija todos os seus afetos.

Porque se de alguma maneira pode a vontade atingir a Deus e unir-se com ele, não é por qualquer meio apreensivo do apetite e sim pelo amor; e como não é amor o deleite e suavidade, ou qualquer gosto que a vontade possa experimentar, segue-se que nenhum dos sentimentos saborosos pode ser meio adequado para que a vontade se una a Deus, mas unicamente operação da vontade, pois há grande diferença entre a operação da vontade e o seu sentimento: pela operação une-se com Deus e nele põe o seu termo, o que é amor, e não pelo sentimento e apreensão do seu apetite, que se assenta na alma como fim e remate. Os sentimentos não podem servir de moção para amar, se a vontade quer passar adiante e nada mais. De si os sentimentos são saborosos e não encaminham a alma para Deus, antes, a fazem deter-se neles mesmos, porém, a operação da vontade que é amar a Deus, só nele põe o afeto, gozo, gosto, contentamento e amor da alma, afastadas todas as coisas, e amando-o acima de todas elas.

De onde vem que se alguém se move a amar a Deus não por causa da suavidade que sente, já deixa atrás essa suavidade e põe o amor em Deus, a quem não sente; porque se o pusesse na suavidade e gosto que experimentou, reparando e detendo-se nele, isto seria pô-lo em criatura ou coisa referente a ela, e transformar o motivo em fim e termo. Por conseguinte, a obra da vontade seria viciosa; e sendo Deus inacessível e incompreensível, a vontade não há de pôr a sua operação de amor - para a pôr em Deus - naquilo que o apetite pode tocar e apreender, mas no que não pode compreender nem alcançar por meio dela. E, desta maneira, a vontade fica amando com fundamento e deveras, ao gosto da fé, também em vazio e desprendimento e às escuras de seus sentimentos sobre todos os que ela poe alcançar com o entendimento de suas inteligências, crendo e mando além de tudo quanto pode entender.

E, assim, muito insensato seria aquele que, por lhe faltar a suavidade e deleite espiritual, pensasse que por isso lhe falta Deus, e, quando a tivesse, se regozijasse e deleitasse pensando que por isso possuía a Deus. E mais insensato ainda seria se andasse a buscar esta suavidade em Deus e se se dispusesse a deleitar-se e a deter-se nela, porque desta maneira já não andaria buscando a Deus com a vontade fundada em desnudez de fé e caridade, mas estaria indo ao encalço do gosto e suavidade espiritual, que é criatura, deixando-se, assim, arrastar pelo seu gosto e apetite. E deste modo, já não estaria amando a Deus puramente, sobre todas as coisas - que consiste em concentrar nele toda a força da vontade - porque apegando-se e apoiando-se àquela criatura com o apetite, não se eleva a vontade por ela até Deus, que é inacessível, já que é coisa impossível que a vontade consiga chegar à suavidade e deleite da divina união, nem chegue a prelibar os doces e deleitosos abraços de Deus, a não ser em desnudez e vazio de apetite em todo o gosto particular, quem se trate de coisas celestes quer das terrenas. Foi o que Davi quis significar (Sl 80,11) quando disse: "Dilata os tuum, et implebo illud".

Convém, pois, saber que o apetite é a boca da vontade, a qual se dilata quando não se embaraça nem se ocupa com qualquer bocado de algum gosto; porque quando o apetite se apega a alguma coisa, nisso mesmo se restringe, pois fora de Deus tudo é estreiteza. E assim, para que a alma acerte no caminho para Deus e se una a ele já de ter a boca da vontade aberta apenas para o mesmo Deus, vazia e desapropriada de todo bocado de apetite, a fim de que ele a encha e replene de seu amor e doçura, conservando essa fome e sede de Deus só, sem querer satisfazer-se com outra coisa, pois aqui na terra não se pode saborear a Deus tal como ele é, e mesmo aquilo que se pode saborear (se interfere o apetite, digo), também o impede. Isso ensinou Isaías (55,1) ao dizer: "Todos vós que tendes sede, vinde às águas etc."; por essas palavras convida os que têm sede exclusivamente de Deus e estão desprovidos da prata do apetite, para que bebam à saciedade das águas divinas da união com Deus.

Convém, pois, muita a Vossa Reverência, e é de grande importância, se deseja gozar de grande paz na sua alma e chegar à perfeição, entregar-lhe inteiramente a sua vontade para assim se unir a ele e não a empregar nas coisas vis e mesquinhas da terra.

Sua Majestade o faça tão espiritual e santo quanto eu desejo.

De Segóvia, 14 de abril.

FREI JOÃO DA †

Dia de S. João da Cruz, Doutor da Igreja


Hoje é dia de S. João da Cruz, Místico e doutor da Igreja, meu grande santo de devoção, meu pai espiritual. Este dia me é muito significativo. Costumo dizer aos amigos que é como um segundo aniversário, rs...

Esta tarde, estarei ocupado e penso que só poderei fazer outras postagens a respeito à noite. Fica, por ora, a minha recomendação da leitura e do estudo da espiritualidade sanjuanista.

Aqui vocês poderão encontrar as postagens deste blog que tratam da mística do grande Doutor da Noite.

Deixo-vos com uma pequena glosa composta pelo santo e recitada no mosteiro de Granada, no tempo do Natal, quando aí era prior.

Do Verbo divino
A Virgem prenhada,
Segue de caminho:
Pede-vos pousada!

Até...

S. João da Cruz - "Sob o pé da Macieira"


Sob o pé da macieira,
Ali, comigo foste desposada;
Ali te dei a mão,
E foste renovada
Onde a primeira mãe foi violada.

Explicação

Declara o Esposo à alma, nesta canção, o admirável modo e plano de que usou para a remir e desposar com ele, servindo-se dos próprios meios que haviam causado a ruína e a corrupção da natureza humana; pois assim como por meio da árvore proibida no paraíso foi essa natureza estragada e perdida por Adão, assim na árvore da cruz foi remida e reparada, dando-lhe ele ali a mão de sua graça e misericórdia mediante sua paixão e morte, e firmando no alto da cruz a parte que havia sido destruída entre Deus e os homens, em consequência do pecado mortal. Diz então:

Sob o pé da macieira

Isto é, sob a graça da árvore da cruz, simbolizada aqui pela macieira, onde o Filho de Deus remiu, e, consequentemente, desposou consigo a natureza humana, e, portanto, cada alma, concedendo-lhe sua graça e penhores, para este fim, na cruz. Esta é a razão de dizer:

Ali comigo foste desposada,
Ali te dei a mão

Querendo significar: a mão de meu favor e ajuda, levantando-te de teu estado miserável à minha companhia e desposório.

E foste renovada
Onde a primeira mãe foi violada

Tua mãe, a natureza humana, foi violada, de fato, em teus primeiros pais, debaixo da árvore; e também tu, ali debaixo da árvore da cruz, foste reparada. Se, pois, tua mãe, sob a árvore, te deu a morte, eu, sob a árvore da cruz, dei-te a vida. A este teor vai Deus descobrindo à alma as ordenações e disposições de sua sabedoria, mostrando-lhe como de modo tão sábio e formoso sabe ele tirar dos males bens; e assim, aquilo mesmo que foi causa de tanto mal soube transformar em maior bem. As palavras literais desta canção são ditas pelo mesmo Esposo nos Cantares à Esposa: Eu te despertei debaixo da macieira; ali é que tua mãe foi corrompida, ali é que foi violada aquela que te gerou". (Ct 8,5).

S. João da Cruz, Cântico Espiritual, Canção XXIII

A saudade do Céu nos santos

Na imagem, morte de S. Jerônimo

Se você acha que já amou algo ou alguém violentamente, leia a poesia abaixo, e veja o que é amor e o que é violência...

"Por sobre aquelas correntes
que em Babilônia encontrava,
ali me sentei chorando,
ali a terra regava,
recordando-me de ti,
ó Sião, a quem amava.

Tua lembrança era doce,
e com ela mais chorava.
Deixei os trajos de festa,
os de trabalho tomava,
pendurei nos salgueirais
a música que levava,
colocando-a na esperança
daquilo que em ti esperava.

Ali me feriu o amor,
e o coração me arrancava.
Disse-lhe que me matasse,
pois de tal sorte chagava.
Metia-me em seu fogo,
sabendo que me abrasava,
desculpando a mariposa
que no fogo se acabava.

Estava-me consumindo,
e só em ti respirava.
Em mim, por ti, eu morria,
e por ti ressuscitava;
porque a lembrança de ti
dava vida e a tirava.

Finava-me por finar-me
e a vida me matava,
porque ela perseverando,
de ver-te, a mim, me privava.
Mofavam os estrangeiros
entre os quais cativo estava.
Pensava como não viam
que o gozo os enganava.

Pediam-me eles cantares
dos que em Sião eu cantava:
- Canta de Sião um hino;
p'ra vermos como soava.
- Dizei, como em terra alheia
onde por Sião chorava
cantarei eu a alegria
que em Sião desfrutava?

No olvido a deixaria
se em terra alheia gozava.
Com meu palato se junte
a língua com que falava,
se de ti eu me olvidar
na terra onde morava.

Sião, pelos verdes ramos
que Babilônia me dava
Olvide-me a minha destra,
coisa que em ti mais amava,
se de ti não me lembrar
no que mais gosto me dava,
e se eu tivesse festa
e sem ti a festejava.

Ó filha de Babilônia,
Mísera e desventurada!
Bem-aventurado era
Aquele em quem confiava,
que te há de dar o castigo
que da tua mão levava;
e juntará os seus filhos
e a mim, que em ti chorava,
à pedra, que era Cristo,
pelo qual eu te deixava."

S. João da Cruz, Toledo, Cárcere, 1578.

Caso em que S. João da Cruz desmascara falsos sinais de santidade e revelações divinas


No artigo anterior, fiz referência ao episódio em que S. João da Cruz desmascara uma religiosa que apresentava sinais de santidade e a todos fazia crer da veracidade das suas virtudes. Pensei, então, ser conveniente transcrever o episódio inteiro, para que os amigos notem o quanto podem ser sutis estas enganações. Uma mentira facilmente descoberta seria obra de um sujeito inexperiente na arte do engano. Não é o caso do demônio. Isto significa que, quem quer que olhe para essas coisas com olhos benevolentes demais, privando-se de considerar tudo com objetividade e sólidos critérios, terminará por ser enganado. Escrevo pensando nos que facilmente crêem em revelações particulares e não exigem delas nada além de "sentirem-se" bem e de "confirmações pessoais". Estranha inteligência a do demônio se, pretendendo enganar e conseguir adeptos de suas mentiras, ele provocasse, ao invés, um claro mal estar. 

Notem, ainda, que, comparados ao engodo que vai abaixo, certos movimentos fantasiosos de hoje se mostram muito mal orquestrados. Quaisquer semelhanças, além disto, com as "revelações" do Salvai Almas não é mera coincidência. Boa leitura

***

Censura e parecer sobre o Espírito e o modo de proceder na oração de uma carmelita descalça - Provavelmente em Segóvia entre os anos 1588-1589. Chegou até nós, através do seguinte testemunho:

"... A uma religiosa dada à oração, sem base de humildade e animada de desejos curiosos de penetrar grandes segredos do espírito, saiu-lhe o demônio ao encalço simulando efeitos de bom espírito, tanto de suaves sentimentos como de revelações, e isso pelo caminho da fraude, com que costuma ter êxito entre os pouco humildes e nada discretos. E tão cauteloso andava ele em encobrir o deletério embuste, que, falando essa religiosa acerca de seu espírito e oração com vários letrados de diferentes ordens, todos o tiveram por bom. Contudo, o venerável Pe. Fr. Nicolau de Jesus Maria... então prelado superior de todos os descalços..., não acabava de assegurar-se do caminho dessa religiosa...; para examiná-lo com mais cuidado, ordenou-lhe que escrevesse sobre a sua oração e os efeitos que produzia. Entregou depois esse papel ao Pai Fr. João da Cruz, que na ocasião era primeiro definidor da Ordem, pela grande segurança que seu espírito lhe inspirava e por sabê-lo muito esclarecido por Deus em coisas deste gênero; pediu-lhe, então, que lesse atentamente aquela relação e colocasse no rodapé da folha o seu parecer. Lendo nosso venerável Pai o escrito, percebeu logo de que foco procedia aquela luz e deu sua opinião com palavras tão proveitosas e substanciais que bem revelam quão esclarecido estava por Deus para discernir entre a verdadeira e a falsa luz.

E pela luz que tais palavras podem comunicar aos espirituais, pareceu-me bem referi-las aqui em sua pureza, e são as seguintes:
--

No comportamento afetivo desta alma parece-me haver defeitos que impedem um parecer favorável acerca do espírito que a anima.

O primeiro é que se nota nela muita avidez de propriedade, ao passo que o espírito verdadeiro se caracteriza sempre por grande desnudez no apetite.

O segundo, que tem excessiva segurança e pouco receio de errar, interiormente, sendo que o espírito de Deus nunca anda sem ele, para proteger a alma contra o mal, segundo diz o sábio (cf. Pr 15,27).

O terceiro, que parece ter a preocupação de procurar persuadir a todos a que creiam ser muito bom tudo quanto se passa nela, enquanto o verdadeiro espírito procura, ao invés, que todos o tenham em pouco e o depreciem, fazendo ele próprio o mesmo.

O quarto e principal, é que, nesta maneira de agir, não se notam efeitos de humildade; ora, quando as mercês são verdadeiras - consoante ela aqui o afirma - ordinariamente nunca se comunicam à alma sem primeiro desfazê-la e aniquilá-la em abatimento interior de humildade. E, caso houvesse experimentado este efeito, ela não teria deixado de anotá-lo aqui, escrevendo algo e até estendendo-se bastante sobre isso; porque a primeira coisa que ocorre à alma expressar e ter em grande apreço são os efeitos de humildade certamente tão notórios que não é possível dissimulá-los. E ainda que não costumem aparecer tão claramente em todas as apreensões de Deus, nestas, que ela aqui denomina união, estão sempre presentes: A humilhação precede a glória (Pr 18,12), e Foi bom para mim ser humilhado (Sl 118,71).

O quinto, que o estilo e a linguagem empregados não são próprios do espírito que ela pretende aqui significar,  porquanto o mesmo espírito sugere estilo mais simples, desprovido de afetação e de exageros, segundo notamos neste. E tudo quanto declara ter dito a Deus e Deus a ela, parece disparate.

O que eu aconselharia é que não mandem nem permitam escrever coisa alguma a esse respeito, nem o confessor mostre complacência em ouvi-la; ao contrário, procure dar pouco apreço e atalhar tais confidências; além disso, submetam-na à prova no exercício das virtudes, com todo rigor, principalmente no desprezo, humildade e obediência; e no som produzido pelo toque manifestar-se-á a brandura da alma causada por tantas mercês. E as provas hão de ser boas, porque demônio algum deixará de sofrer algo a troco de manter a sua honra." (QUIROGA, p. 281-284).

S. João da Cruz, Pequenos Tratados Espirituais, Obras Completas, Rio de Janeiro: Vozes, 2002. pp. 128-130.

A Doutrina da Cruz segundo S. João da Cruz e Sta Edith Stein


"Quão estreita é a porta e apertado o caminho que conduz à vida. Poucos são os que o encontram. Devemos observar bem a ênfase dada à partícula 'quão', pois é como se dissesse 'na verdade é muito estreita, mais do que podeis imaginar...' Essa via ao alto monte da perfeição, exige viajantes que não levem fardos que os façam pender para baixo... Já que se tem o propósito de somente buscar e alcançar a Deus, somente a ele se há de buscar e alcançar de fato! Instruindo-nos e incitando-nos nesse caminho, Jesus Cristo proferiu essa doutrina tão admirável e, receio dizer, tanto menos praticada pelas amas (que se sentem atraídas à vida espiritual) quanto mais necessária!

'Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me. Pois aquele que quiser salvar a sua vida, irá perdê-la; mas o que perder a sua vida por causa de mim e do evangelho, irá salvá-la'.

Oh! Quem poderia aqui agora dar a entender, praticar e saborear este conselho!... aniquilação de toda a suavidade em Deus... aridez... tédio... sofrimentos... eis a pura cruz espiritual e a nudez do espírito pobre, segundo Jesus. O verdadeiro espírito antes procura em Deus a amargura que as delícias, prefere o sofrimento ao consolo, a privação ao gozo, a aridez e as aflições às doces comunicações celestes, sabendo que isto é seguir a Cristo e renunciar-se. Agir de outro modo é buscar-se a si mesmo em Deus, o que é muito contrário ao amor. Buscar a Deus nele mesmo... é inclinar-se a escolher, por amor a Cristo, tudo quanto há de mais áspero, seja de Deus, seja do mundo". A renúncia, segundo a vontade divina, consiste em "morrer para sua natureza... aniquilando-a... em tudo quanto a vontade julga ser valioso na ordem temporal, natural e espiritual... Quem assim tomar a cruz sobre si experimentará o jugo suave e o fardo leve, encontrando em todas as coisas grande alívio e suavidade... Quando a alma ficar desfeita em nada - isto é, a suprema humildade - estará realizada a união espiritual entre a alma e Deus... união que consiste numa viva morte de cruz, sensitiva e espiritual, interior e exterior".

S. João da Cruz, Subida ao Monte Carmelo, Livro II.


Para tanto não há outro caminho, pois, segundo o plano divino da salvação, Cristo houve por "remir a alma e desposá-la consigo, servindo-se dos próprios meios que haviam causado a ruína e a corrupção da natureza humana; pois, assim como por meio da árvore proibida no paraíso, foi essa natureza estragada e perdida por Adão, assim na árvore da cruz foi remida e reparada." (S. João da Cruz, Cântico Espiritual, Explicação da Canção XXIII) Se quiser partilhar com ele da vida, com ele deverá passar pela morte de cruz, e deverá como Cristo crucificar a sua própria natureza por uma vida de mortificação e renúncia, entregando-se à crucifixão pelos sofrimentos e pela morte, conforme Deus determinar e permitir. Quanto mais perfeita for a crucifixão ativa e passiva, tanto mais íntima será a união com o crucificado, e tanto maior será a participação na vida divina."

Edith Stein, A Ciência da Cruz, Cap. I.

S. João da Cruz aos curiosos ávidos de comunicações sobrenaturais, sejam carismáticos ou ingênuos crédulos de vidências sem fim

Srs. Cláudio Heckert e Ironi Spuldaro, vou orar em línguas: Shut Up!

S. João da Cruz, Doutor da Igreja, Místico

Declara-se por que não é lícito, sob a lei da graça, interrogar a Deus por via sobrenatural, como o era na lei antiga. Prova-se com uma citação de S. Paulo.

No capítulo anterior dissemos como não é vontade de Deus que as almas queiram receber por via sobrenatural graças extraordinárias de visões, palavras interiores, etc. Por outra parte vimos nesse mesmo capítulo, e o provamos com testemunhos da Sagrada Escritura, como na antiga lei este modo de tratar com Deus era usado e lícito; e não somente era lícito, mas ainda o próprio Deus o mandava, repreendendo o povo escolhido quando o não fazia. Em Isaías, podemos observar como Deus admoestou os filhos de Israel porque desejavam descer ao Egito sem primeiramente consultar o Senhor: "E não tendes consultado o meu oráculo" (Is 30,2)

Também lemos em Josué que, sendo enganados os mesmos filhos de Israel pelos gabaonitas, censurou-os o Espírito Santo nestes termos: "Tomaram os israelitas dos seus víveres, e não consultaram o oráculo do Senhor" (Js 9,14). Igualmente vemos, na Sagrada Escritura, que Moisés sempre consultava o Senhor, e o mesmo fazia o rei Davi, e todos os outros reis de Israel em suas guerras e necessidades, bem como os sacerdotes e antigos profetas. Deus lhes respondia falando-lhes sem se desgostar. Assim era conveniente e se eles não interrogassem seria mal feito. Qual o motivo, pois, de não ser agora, na nova Lei da graça, como era antigamente?

Respondo: se essas perguntas feitas a Deus eram lícitas na antiga Lei, e se convinha aos profetas e sacerdotes desejarem visões e revelações divinas, a causa principal era não estarem bem assentados os fundamentos da fé, nem estabelecida a Lei evangélica. Assim era mister interrogar a Deus e receber as suas respostas, fosse verbalmente, ou por meio de visões ou revelações, fosse em figuras ou símbolos, ou, afinal, por sinais de qualquer outra espécie. Porque todas essas palavras e revelações divinas eram mistérios da nossa fé, referentes ou relacionadas a ela. Ora, não sendo as realidades da fé próprias da criatura humana, mas de Deus, reveladas por sua própria boca, era necessário que os homens fossem conhecê-las em sua mesma fonte. Eis porque o Senhor os repreendia quando não o consultavam; e com as suas respostas os encaminhava, através dos acontecimentos e sucessos, para a fé, por eles ainda desconhecida por não estar ainda fundada. Agora, já estabelecida a fé em Cristo, e a Lei evangélica promulgada na era da graça, não há mais razão para perguntar daquele modo nem aguardar as respostas e os oráculos de Deus, como antigamente. Porque em dar-nos, como nos deu, o seu Filho, que é a sua Palavra única (e outra não há), tudo nos falou de uma vez nessa Palavra, e nada mais tem para falar.

Este é o sentido do texto em que S. Paulo quer induzir os hebreus a se apartarem daqueles primitivos modos de tratar com Deus conforme a lei de Moisés, e os convida a fixar os olhos unicamente em Cristo, dizendo: "Tudo quanto falou Deus antigamente pelos profetas a nossos pais, de muitas formas e maneiras, agora, por último, em nossos dias, nos falou em seu Filho, tudo de uma vez" (Hb 1,1). O Apóstolo dá-nos a entender que Deus emudeceu por assim dizer, e nada mais tem para falar, pois o que antes falava por partes aos profetas, agora nos revelou inteiramente, dando-nos o Tudo que é seu Filho.

Se atualmente, portanto, alguém quisesse interrogar a Deus, pedindo-lhe alguma visão ou revelação, não só cairia numa insensatez, mas agravaria muito a Deus em não pôr os olhos totalmente em Cristo sem querer outra coisa ou novidade alguma. Deus poderia responder-lhe deste modo dizendo: "Se eu te falei já todas as coisas em minha Palavra, que é meu Filho, e não tenho outra palavra a revelar ou responder que seja mais do que ele, põe os olhos só nele; porque nele disse e revelei tudo, e nele acharás ainda mais do que pedes e desejas. Porque pedes palavras e revelações parciais; se olhares o meu Filho acharás nele a plenitude; pois ele é toda a minha palavra e resposta, toda a minha visão, e toda a minha revelação. Ao dar-vo-lo como irmão, mestre, companheiro, preço e recompensa, já respondi a todas as perguntas e tudo disse, revelei e manifestei. Quando no Tabor desci com meu espírito sobre ele dizendo: "Este é meu Filho amado em quem pus todas as minhas complacências, ouvi-o" (Mt 17,5), desde então aboli todas as antigas maneiras de ensinamentos e respostas, entregando tudo nas suas mãos. Procurai, portanto, ouvi-lo; porque não tenho mais outra fé para revelar, e nada mais a manifestar. Se antes falava, era para prometer o meu Cristo; se os meus servos me interrogavam, eram as suas perguntas relacionadas com a esperança de Cristo, no qual haviam de achar todo o bem (como o demonstra toda a doutrina dos evangelhos e dos apóstolos). Mas interrogar-me agora e querer receber minhas respostas como no Antigo Testamento, seria de algum modo pedir novamente Cristo e mais fé; tal pedido mostraria, portanto, falta desta mesma fé já dada em Cristo. E assim seria grande agravo a meu amado Filho, pois, além da falta de fé, seria obrigá-lo a encarnar-se novamente, vivendo e morrendo outra vez na terra. Não acharás, de minha parte, o que pedir-me nem desejar, quanto a revelações ou visões; considera-o bem e acharás nele, já feito e concedido tudo isto e muito mais ainda.

Queres alguma palavra de consolação? Olha meu Filho, submisso a mim, tão humilhado e aflito por meu amor, e verás quantas palavras te responde. Queres saber algumas coisas ou acontecimentos ocultos? Põe os olhos só em Cristo e acharás mistérios ocultíssimos e tesouros de sabedoria e grandezas divinas nele encerrados, segundo o testemunho do Apóstolo: "Nele estão encerrados os tesouros da sabedoria e da ciência" (Cl 2,3). Esses tesouros da sabedoria ser-te-ão muito mais admiráveis, saborosos e úteis que tudo quanto desejarias conhecer. Assim glorificava-se o mesmo Apóstolo quando dizia: Porque julguei não saber coisa alguma entre vós, senão a Jesus Cristo, e este crucificado (1Cor 2,2). Enfim, se for de teu desejo ter outras visões ou revelações divinas, ou corporais, contempla meu Filho humano e acharás mais do que pensas, conforme disse também S. Paulo: "Porque nele habita toda a plenitude da divindade corporalmente" (Cl 2,9).

Não convém, pois, interrogar a Deus por via sobrenatural, nem é necessário falar-nos desse modo; tendo manifestado toda a fé em Cristo, não há mais fé a revelar nem jamais haverá. Querer receber conhecimentos por via extraordinária é, conforme dissemos, notar falta em Deus, achando não nos ter dado bastante em seu Filho. Mesmo quando se deseja essa via sobrenatural dentro da fé, não deixa de ser curiosidade proveniente de fé diminuta. Assim não havemos de querer nem buscar doutrina ou outra coisa qualquer por meio extraordinário. Quando Jesus expirando na cruz exclamou: "Tudo está consumado" (Jo 19,30), quis dizer terem-se acabado todos esses meios, e também todas as cerimônias e ritos da Lei antiga. Guiemo-nos, pois, agora pela doutrina de Cristo-homem, de sua Igreja e seus Ministros, e por este caminho, humano e visível, encontraremos remédios para nossas ignorâncias e fraquezas espirituais, pois para todas as necessidades aí se acha abundante remédio. Sair desse caminho não só é curiosidade, mas muita audácia; não havemos de crer, por via sobrenatural, senão unicamente o que nos é ensinado por Cristo, Deus e homem, e seus ministros, homens também. É isto o que nos diz S. Paulo nestas palavras: se algum anjo do céu vos ensinar outra coisa fora do que nós, homens, vos pregamos, seja maldito e excomungado (Gl 1,8).

S. João da Cruz, Subida ao Monte Carmelo, Livro II, Cap. XXII

A Virgem Santíssima e o despertar divino na alma


Bom, termino com esta as citações deste grande livro que acabo de ler, entitulado Ascensão para a Verdade, de autoria do monge trapista Thomas Merton - um dos meus escritores favoritos, digam o que disserem - e que consiste num profundo estudo da mística sanjuanista (referente a S. João da Cruz). Neste último post que faço deste livro, o autor passa a falar da Virgem Santíssima como modelo dos contemplativos e termina fazendo uma transcrição de S. João da Cruz sobre o "despertar de Deus" na alma que caracteriza um dos estados mais altos da vida mística. Depois, farei mais alguns comentários sobre este e outros livros que tratam do Doutor da Noite, bem como do próprio santo, a quem tenho por pai. Boa leitura.

***

Thomas Merton

A Bem-aventurada Virgem Maria foi o mais sábio teólogo. Ela é a Mãe do Verbo que é ao mesmo tempo a teologia de Deus e dos homens. A verdade de Deus entrou tão profundamente em sua vida, que se tornou encarnada em seu seio virginal. Toda a Sabedoria se concentrou em seu Coração Imaculado, sedes Sapientias. Quando o Anjo a visitou na Anunciação, encontrou-a no mais profundo silêncio. Poucas são as palavras recordadas daquela que nos deu o Verbo. E quando ela O deu ao mundo, que poderia fazer ela mesma senão escutá-Lo? "Guardava todas essas palavras conservando-as em seu coração".

E assim Nossa Senhora é o modelo dos contemplativos e o espelho dos místicos. Os que amam a pura Verdade de Deus, instintivamente amam a simplicidade da Imaculada Mãe de Deus. Ela os atrai ao interior do seu silêncio e de sua humildade. Ela é a Virgem da Solidão, que Deus chamou sua eremita: una est columba mea in foraminibus petrae. Ela escondeu-se nas cavernas da pedra, de que nos falava S. João da Cruz, e viveu como um eremita nos sublimes mistérios do seu Filho. Ela viveu todo o tempo no céu, embora andasse sobre a terra, varrendo o assoalho, fazendo cama e cozinhando para os carpinteiros. Que é que acontecia em sua alma inimaginavelmente pura, no espelho sem mancha do seu ser, que Deus fizera para receber a sua perfeita semelhança?

Quando o Anjo falou, Deus acordou no coração dessa moça de Nazaré, e movimentou-se dentro dela como um gigante. Ele mexeu-se e abriu os olhos e viu que ela, ao contê-lo, continha todo o universo também. A anunciação foi tanto uma visão como um terremoto em que Deus moveu o universo e deslocou as esferas, e o princípio e o fim de todas as coisas apareceu aos olhos da Virgem, no mais profundo do coração. E muito abaixo do movimento deste silencioso cataclisma, ela adormeceu na infinita tranquilidade de Deus, e Deus foi uma criança encolhida que dormia em seu seio, enquanto nas suas veias circulava a Sabedoria dessa criança, que é noite, que é luz das estrelas, que é silêncio. E todo o seu ser foi abraçado por Aquele que ela abraçava, e os dois tornaram-se silêncio.

A missão de Nossa Senhora no mundo é formar este seu Cristo, este Gigante, nas almas dos homens, como Ele mesmo se formou na sua. Ela traz-lhes a graça do Cristo, que é a graça da sua presença vivificante. Ele nasce em cada homem pelo batismo, mas nós não o sabemos. Ele cobre a alma com a sua sombra, quando ela O prova na paz da contemplação. Mas isto não basta. No cume da vida mística, Deus deve mexer-se e revela-se, sacode o mundo dentro das almas e surge do seu sono como um gigante.

É isto que nos fala S. João da Cruz na Chama Viva do Amor. É a minha última citação.

"Este despertar é um movimento do próprio Verbo na substância da alma, de tanta grandeza e domínio e glória, e de tão íntima suavidade, que lhe parece que todos os bálsamos e espécies odoríficas e flores do mundo se misturam e agitam, revolvendo-se para dar suavidade, e que todos os reinos e dominação do mundo, e todas as potestades e virtudes do céu se movem. E não só isto, mas também as virtudes e substâncias e perfeições e graças de todas as coisas criadas reluzem e se põem, por sua vez, em movimento uníssono e simultâneo... Donde vem que, movendo-se na alma, este altíssimo Imperador, cujo Reino, como diz Isaías, Ele traz nos seus ombros... então tudo parece mover-se juntamente... Mesmo assim, quando um Palácio é aberto, pode-se ver a um só tempo a eminência da Pessoa que está dentro e o que ela está fazendo... Estando a alma substancialmente em Deus, como toda criatura, Ele tira diante dela alguns dos muitos véus e cortinas que ela tem anteposto, para poder vê-Lo como Ele é, e, assim, se lhe revela, e ela é capaz de ver (embora obscuramente, porque não se tiram todos os véus), esta Face cheia de graça. Como Ele move todas as coisas com a sua virtude, aparece juntamente com Ele aquilo que Ele está fazendo, e Ele parece mover-se nelas e elas n'Ele em movimento contínuo. E é por isto que a alma crê que Deus se moveu e acordou, sendo ela, na realidade, que foi movida e acordada."

Thomas Merton, Sementes de Contemplação

Os dois elementos da Fé: a Proposição Conceitual e a Luz Infusa


Thomas Merton

O homem foi feito para conhecer a verdade, e a sua salvação consiste em amar a mais elevada Verdade, que não pode ser amada sem ser primeiro conhecida. Mas só há uma espécie de conhecimento que efetivamente confere ao homem a luz necessário a este fim sobrenatural. É o que lhe vem na obscuridade da fé.

Disse o profeta, "a menos que creiais, não entendereis". Só a fé nos pode dar a inteligência nos mistérios de Deus. Mas a fé tem algo a mais. "Sem fé, diz S. Paulo, é impossível agradar a Deus".

Que significa agradar a Deus? Deus agrada-se da alma que encontra cheia da sua realidade, seu amor, sua verdade. Misteriosamente, é conhecendo-O, que agradamos a Deus, pois só podemos conhecer, recebendo no coração a sua luz. A fé, portanto, não só é capaz de penetrar na íntima substância da Verdade de Deus, mas significa um conhecimento redentor. Ela nos "salva". Sua luz é mais do que um raio de especulação: confere a vida, transformando, com a luz e a paz, o ser inteiro do homem, que se torna nova criatura, nasce de novo.

Que vida nova é essa? É a presença substancial de Deus. É antes, uma nova presença de Deus que por seu poder, presença e essência, conserva todas as coisas no ser. Esta nova presença é espiritual. Que significa isso? Já a descrevemos. Deus é presente em sua luz, em seu amor. Pela fé, esperança e caridade, Deus torna-se objeto de uma experiência potencial nas profundezas da alma, já que pela graça Ele confere às faculdades o poder e o desejo de possuí-Lo na íntima consciência de nossa união com Ele por amor. Revela-se o interior da alma como objeto de sua mais profunda espera, e promete, por uma presença obscura, a sua clara visão. Suas promessas nos fazem desejar esta visão. E pelo desejo, abraçamos desde já a visão, embora permaneça ela obscura.

Numa palavra, a fé nos dá mais do que luz, mais do que vida, porque a "luz" que ela nos dá é Deus mesmo e a Vida que nos confere é o próprio ser de Deus, que criou toda vida soprando sobre os abismos, e que se torna o princípio da nossa existência sobrenatural.

Ora, nada disto flui pura e simplesmente do conteúdo conceitual da fé. É coisa que vem diretamente de Deus.

Que conclusão tiramos? Em cada ato de fé, há dois elementos em ação. Primeiro, a fórmula, o complexo conceitual que contém a verdade a que assentimos e que se apresenta à nossa mente como qualquer outro conhecimento intencional: na forma de um juízo. Mas ele não ilumina a mente da mesma forma que o conhecimento ordinário. No plano natural, um juízo conceitual ilumina a mente pela clara evidência que ele contém. No ato de fé, o conteúdo conceitual das proposições não lança por si mesmo nenhuma luz sobre o entendimento. A diferença entre a crença e a descrença não é medida pelo nosso poder de apreender o sentido dos artigos de fé. Um homem pode adquirir grande conhecimento técnico da teologia da Trindade sem crer na Trindade. Um outro sem nenhuma visão dos problemas dogmáticos envolvidos no mistério, pode acreditar nele. Este é aquele a quem Deus "salvou", e que pode ser elevado à contemplação. Assim, pois, em cada ato de fé há um segundo elemento, que é o mais importante: uma luz objetiva e sobrenatural a penetrar nas profundezas da alma e a comunicar-lhe o conteúdo real da verdade que não pode ser plenamente apreendido nos termos da proposição a crer.

Cada um dos dois elementos é absolutamente necessário ao ato de fé viva, porque há uma íntima relação entre eles. Se os artigos de fé fossem meramente uma ocasião para a infusão da luz sobrenatural, então não importaria o que Deus nos propõe a crer. Qualquer conceito serviria por igual. Mas isto significaria que o conteúdo intencional do nosso credo seria sem valor nem sentido. Bastaria ser sincero, e Deus infundiria a luz que o faria conhecido sem nenhuma relação com um corpo de verdades reveladas, de nulo valor objetivo.

A relação entre o conteúdo conceitual da fé, e a luz infusa pela qual Deus nos dá a sua verdade, está no seguinte: a verdade acha-se realmente contida, sob uma forma oculta, nos próprios artigos da fé. E é pela luz da fé que achamos a verdade nesses artigos.

Isso vale para todas as proposições de S. João da Cruz sobre o poder da fé: que ela é o único caminho para a união com Deus, que ela é essencialmente obscura e "esconde" a Deus, mas é ao mesmo tempo pura verdade, perfeita em sua certeza, e nos traz Deus como sob um manto de nuvem.

S. Tomás também aceita a nossa distinção, quando diz que a fé consiste principalmente numa luz infusa, mas que recebe dos vários artigos propostos à nossa crença a determinação a uma verdade particular.

Thomas Merton, Ascensão para a Verdade.

A mística independe da doutrina?

Êxtase de Sta Teresa D'Avila

Bem. Temos tratado recorrentemente sobre assuntos relacionados à doutrina da Igreja, sobretudo no que diz respeito a matérias teológicas e tal. E quando eu escrevo "temos", estou me referindo a toda esta leva de blogs católicos que têm se dedicado a fazer um trabalho alternativo de formação dos cristãos, já que, ao que parece, e sem querer generalizar, as catequeses por aí não deram conta nem de formar nos princípios básicos da doutrina católica nem de instigar um ulterior aprofundamento da mesma.

É, às vezes, com comoção que lemos os relatos de inúmeras pessoas que, ao entrar em contato com a infalível verdade católica, passam a respirar, depois de tanto tempo, ares frescos e convertem-se e agradecem veementemente a pessoa da qual Deus se utilizou para fazer resplandecer um raio da Sua luz puríssima.

No entanto, há pessoas até um tanto familiarizadas com certas questões teológicas, mas que persistem na prática de uma mística incorreta e adversa à verdadeira espiritualidade católica. Agem como se estes - doutrina e mística - fossem terrenos estanques, que não se comunicam, quando, na verdade, ocorre justamente o contrário.

Existe uma teoria que ganha cada vez mais adeptos mundo afora e que consiste em dizer que a mística ou a experiência direta com a divindade localiza-se num nível supra-denominacional. As diferentes religiões e doutrinas seriam modos imperfeitos, acomodados ao limite humano, de fazer compreender algo daquele "quê" transcendente. Uma vez, porém, que alguém alcançasse a experiência mística, já não seria preciso manter-se dentro dos limites doutrinários que seriam como que uma palavra penúltima antes da imersão no abismo místico. As religiões seriam, na verdade, tentativas sistemáticas de expressão da experiência do inefável. Como não se pode esperar que todos os homens sejam místicos, então os diferentes sistemas religiosos mantêm a sua vigência, pois, então, eles servem para fazer vislumbrar algo daquele mistério.

Esta doutrina do relativismo religioso em função de uma idêntica experiência mística, como eu falei, tem ganho cada vez mais espaço. S. João da Cruz, por exemplo, é muitas vezes instrumentalizado em discursos e palestras sobre o assunto e mostrado como exemplo desta teoria. Por ser chamado de "doutor do nada", é comum que se faça já uma precipitada identificação entre este nada e o nada budista, pretendendo mostrar como o termo - objetivo alcançado - dos diferentes sistemas é, na verdade, o mesmo. Mestre Eckhart, um sujeito místico e, no dizer de alguns, gnóstico - enfim, alguém suspeito mesmo -, embora de fundo cristão, é outro personagem constantemente evocado nessas discussões.

Um escritor católico, inclusive monge trapista, e de quem recorrentemente trago textos aqui, é também bastante criticado porque aparentou partilhar de uma teoria similar. É o Thomas Merton. Pelo que conheço dele, nunca vi nada explícito neste sentido, mas é certo que ele cultivava bastante interesse na mística oriental e passou os seus últimos anos em viagens pelo oriente, entrevistando mestres e autoridades em meditação, etc. Não consta, porém, que ele tenha jamais abandonado a sua fé.

Mas eu fiquei particularmente feliz quando, lendo um de seus livros, do qual tenho feito ultimamente várias transcrições para este espaço, e onde ele pretende fazer um minucioso estudo da teoria mística de S. João da Cruz - por quem o Thomas Merton torcia para que se tornasse o doutor comum em mística da Igreja -, vi que este monge retira qualquer suspeita de sincretismo e rebeldia à autoridade da Igreja e faz questão de demonstrar que aquela visão de S. João da Cruz como exemplo de uma mística alheia a qualquer doutrina é, na verdade, bastante equivocado e sem nenhum fundamento. Transcrevo abaixo, mais uma vez, alguns trechos:

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Não poderemos compreender bem a S. João da Cruz ou a S. Gregório de Nissa se não nos lembrarmos de que a sua mística é centralizada no Cristo. Mesmo sendo apofática a sua teologia mística, a experiência supra-conceitual que têm de Deus só pode consumar-se em Cristo. E, o que é mais, ela não pode em realidade dar-se sem o conceito do Cristo como Verbo Encarnado de Deus. Isso é essencial à mística evangélica.  "Ninguém vai ao Pai senão por Cristo"" (Jo 14,6)

Alguns escritores de fora da Igreja prestam aos grandes místicos cristãos a homenagem dum certo respeito. Os santos mesmos não se teriam sentido lisonjeados por isto. S. João da Cruz é tratado por alguns como um panteísta a viver atrás de uma fachada cristã. Isso concorda com a teoria que faz viverem juntos no cume do seu Olimpo os místicos de todas as religiões, longe das névoas da doutrina religiosa, do sacerdócio, liturgia, sacrifício, disciplina eclesiástica, e todas as outras aborrecidas coisas que separam a marcha comum dos homens em grupos religiosos. Pensam na prática que os místicos cristãos da "Noite" deixam o Cristo fora das portas de seu próprio Eden contemplativo. A idéia de um Verbo Encarnado é para a gente simples. Devoção a Cristo crucificado, meditação sobre a sua santa Humanidade, supõem-se tão relacionadas com a mística cristã apofática, como o Bakhti Ioga ao mais puro Raja Ioga da Índia. O Bakhti é uma forma respeitável mas reconhecidamente inferior da mística, em que os adeptos chegam à união com o Absoluto concebido sob uma forma pessoal.

Esta engraçada teoria pode cativar-se se deixamos de ler os mais importantes capítulos de S. João, passando sobre as suas doutrinas mais fundamentais como se elas não existissem. Na realidade, a mística dos Carmelitas espanhóis é centralizada em Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, Deum verum de Deo vero, consubstancial ao Pai e nascido da Virgem Maria no tempo, morto na Cruz em redenção da humanidade, e que ressuscitou em glória e subiu aos céus, onde entronizou ao menos potencialmente a nossa natureza humana que Ele assumiu.

Isto é o mínimo exigido para a constituição de uma doutrina mística cristã. Mas o ensino dos carmelitas espanhóis, ou dos cistercienses franceses ou dos franciscanos italianos, ou dos Padres gregos e dos místicos do Deserto egípcio, não é [só] cristão, mas também católico. Quer isto dizer que ele não é só centralizado em Cristo histórico, mas que a sua contemplação é alimentada por esta extensão da Encarnação que é o Corpo Místico de Cristo, a sua Igreja visível, em que ela vive.

(...) Quando, portanto, S. João reconhece na razão um dos fundamentos da vida mística, é porque para ele a razão só preenche o seu ofício quando submete o homem à direção da fé. E esta não é um valor puramente subjetivo, pessoal, incomunicável. Ela tem o seu centro em Deus, revelado ao Corpo inteiro dos fiéis. Chegamos, assim, a esta importante conclusão: a razão é a chave da vida mística enquanto ajuda o homem a conformar toda a sua vida ao ensino e autoridade do Cristo que vive e atua na sua Igreja visível. Esta Igreja é uma unidade orgânica, com credo definido, corpo de leis, culto, chefe visível. A mística de S. João da Cruz não é apenas reconciliável com uma Igreja autoritativa e um sistema dogmático. Ela é efetivamente impossível sem isso. ( \o/ )

Thomas Merton, Ascensão para a Verdade, grifos meus.

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Creio que estas linhas sejam suficientes para demonstrar que a mística católica de modo algum cede à teoria da sopa mística que é defendida por aí. Mesmo quando o contemplativo chega a esta experiência de fato inefável, ela dá-se, sem dúvida, num nível supraconceitual, mas, mesmo aí, ela mantém-se genuinamente católica.

Fábio.
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