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Maria, a nova Arca da Aliança


"[Quando Maria visita sua prima Isabel], é claro que os protagonistas do encontro se tornam explicitamente os meninos que as duas mulheres trazem no ventre. João exulta de alegria na presença do seu Senhor, realizando a profecia transmitida por Gabriel a Zacarias, isto é, que o menino haveria de ser purificado no seio materno. E Jesus começa a sua grande obra de santificação. Logo que foi concebido - não é um aglomerado de sangue, como pretendem os assassinos modernos que fizeram aprovar leis assassinas -, já é o Filho de Deus! Trata-se de um ensinamento que todas as mulheres que concebem um filho devem ter bem claro.

Depois, há um outro particular a realçar neste encontro de grande valor profético e salvífico que remete para um episódio bíblico e parece ser uma sua antecipação. Quando a Arca da Aliança, de que Deus tinha tomado posse cobrindo-a com a sua sombra para indicar a sua presença nela foi levada para Jerusalém pelo rei Davi, fez uma primeira paragem. O rei teve um momento de hesitação e de terror, por causa da santidade da arca, quando Uzá morreu inesperadamente só por ter ousado tocar nela. Então, Davi mandou que ela ficasse na casa de Obed Edom durante três meses, o mesmo período que Maria passou junto de sua prima. Depois, quando se decidiu que ela fosse transportada definitivamente para Jerusalém, sentiu toda a sua indignidade e exclamou: 'Como entrará a Arca do Senhor em minha casa?' (2Sm 6,9)

Todo esse episódio foi um sinal profético. A verdadeira Arca da Aliança é Maria, a quem o anjo disse: 'O Espírito Santo virá sobre ti e a força do Altíssimo estenderá sobre ti a sua sombra', Isabel, também ela repleta da presença divina, repete quase as palavras humildes de David: 'E donde me é dado que venha ter comigo a mãe do meu Senhor?'. É realmente estupenda essa realização no plano de Deus que, a partir das antecipações veladas do Antigo Testamento, encontra as suas concretizações no Novo.

A Visitação relata-nos um dos episódios mais jubilosos da vida de Maria. Que não são muitos! A exultação de Isabel e a exultação de João Batista dizem-nos claramente a alegria gerada pela presença de Maria, onde quer que vá, onde quer que obtenha acolhimento. Porque com ela está sempre não só a presença de Jesus, que dá a graça da salvação, mas também a presença do Espírito Santo, que ilumina, que faz compreender os grandes mistérios de Deus.

Pe. Gabriele Amorth, O evangelho de Maria. Parede: Lucerna, 2014. p.31-32.

Sábado Santo, Dia da Virgem Maria - Entenda por quê.


Parece que, no grande tríduo pascal, entre a crucifixão e a ressurreição, existe um vazio, uma pausa de expectativa e de silêncio. Mas esse vazio é colmatado por uma pessoa que tem o coração cheio de esperança. Com toda a certeza, porque a sua fé - e só a sua fé - não se desmoronou. Quando Deus a preanuncia no Gênesis, ela é o sinal de que o Salvador virá; o seu nascimento é saudado como a aurora que anuncia o sol, Jesus Cristo. O Sábado Santo é o dia típico de Maria e vai-se difundindo cada vez mais o uso de celebrar nesse dia "a hora de Maria". Só nela é que a esperança está viva no mundo, porque só ela espera confiadamente pela hora do triunfo.

Os outros não. Para os outros, aquele sábado ainda é um dia angustiante, repleto apenas de recordações dolorosas, de incógnitas e de trevas. Os pensamentos das principais testemunhas só podiam deter-se em recordações tristes: a morte atroz de Jesus, com os seus contornos humilhantes, tornados ainda mais indignos pelo comportamento dos seus amigos. Tinha-se consumado a traição de Judas, que pusera fim à sua vida, enforcando-se desesperado; na verdade, Satanás havia entrado nele. Pedro, impulsivo e generoso, depois da sua tríplice negação, não tivera como não chorar lágrimas amargas de arrependimento. Os outros apóstolos não conseguiram fazer melhor do que fugir, pois não tinham conseguido engolir o medo de serem procurados, e estavam muito bem escondidos em casa. Também as mulheres, as fidelíssimas de Cristo, só misturam o pranto com uma preocupação prática: como embalsamar o corpo morto de Cristo, porque naquela sexta-feira à tardinha o sepultamento havia sido feito à pressa e o dia seguinte era o "grande sábado".

Era evidente em todos o desabamento de toda a esperança, a impressão de que tudo tinha acabado. Nunca pensaram que tudo estava a começar. Ninguém pensou que aquele sangue derramado pela nova aliança indicava o caminho do novo povo de Deus. A ressurreição chegaria como uma daquelas surpresas em que se tem dificuldade em acreditar, mas que se apoiaria em provas que se sucederiam em cadeia. Primeiro, o sepulcro vazio e os anjos proclamando: "Não está aqui; ressuscitou!" (Lc 24,6); depois, as diversas aparições a indivíduos, a grupos, a uma multidão de cerca de 500 fiéis (cf. 1Cor 15,6-8). A Liturgia pascal caracterizar-se-ia pelo canto jubiloso à Virgem: "Alegra-te, Rainha do Céu, porque o teu Filho ressuscitou como tinha prometido."

No entanto, naquele sábado de silêncio, a chama da fé da humanidade está totalmente e unicamente acesa em Maria. Seria para ela uma grande libertação poder morrer com o Filho; mas devia iniciar a sua nova missão de nossa mãe, recebida precisamente ali, do filho agonizante, a quem também disse o seu fiat. A sua missão começa exatamente nesse sábado, quando oferece a Deus algo precioso, de que ninguém se apercebe: uma fé inquebrantável. Só ela crê e pensa naquilo em que ninguém crê nem pensa; só ela está preparada para o grande acontecimento, que mais ninguém espera. Com certeza, pensa no terceiro dia em que reencontrou Jesus no Templo; ou voltou a pensar noutro terceiro dia, aquele em que o seu Filho se encontrou com ela em Caná e transformou a água em vinho; depois, na Quinta-Feira Santa, Ele tinha transformado vinho em sangue. Ou nas palavras, que provavelmente se lhe referiam, quando Jesus preanunciou a sua paixão, concluindo sempre com uma frase que os apóstolos não compreendiam: "E ressuscitarei ao terceiro dia". É verdade que o seu coração estava cheio de esperança, de certeza.

E, no entanto, aquele sábado decorria de maneira estranha. Os guardas alternavam-se a vigiar um sepulcro fechado e selado, com um cadáver lá dentro, como se o homem pudesse pôr um limite à onipotência de Deus. Todo o povo que acorreu à cidade estava em festa porque celebrava a Páscoa; não se dava conta de que aquela sua Páscoa era o sinal profético de uma grande realidade, que já se tinha realizado na dor e estava quase a realizar-se na alegria. Um sepulcro rigorosamente vigiado, a celebração de um rito que já não fazia sentido - eis dois dos muitos anacronismos daquele dia em que de válido só havia a fé de Maria, a certeza do que ia acontecer e que transformaria definitivamente os modos de encarar a vida humana.

Deste modo, o sábado tornar-sei-a o dia de Maria, o dia de preparação para o Domingo da Ressurreição, que suplantaria o sábado hebraico como dia festivo para os cristãos. Um lento aprofundamento cultual e litúrgico teria lugar até se chegar, no século IX, a uma celebração do sábado dedicado a Maria, com a missa e o ofício próprios da Virgem. Mas o primeiro arranque, o ponto de partida, foi precisamente a importância que a Senhora teve naquele Sábado Santo.

Finalmente, surge a aurora do domingo. Logo de manhãzinha, vemos um pequeno grupo de mulheres dirigir-se para o sepulcro. São as mesmas que vimos ao pé da Cruz; mas falta uma, a mais importante. Por que é que Maria não está com elas? É uma ausência significativa. Talvez o Senhor ressuscitado já lhe tenha aparecido, embora o Evangelho não o diga. Ou talvez esteja tão segura da ressurreição que não comete o erro das outras mulheres de procurar o Vivente entre os mortos. Podemos pensar o que queiramos, mas o que é certo é que ela não vai ao sepulcro porque há um motivo forte que a detém.

As mulheres, admiráveis pela sua fidelidade e pelo seu zelo, encontrarão uma surpresa: o sepulcro vazio. Este acontecimento faz com que as pedras mudas adquiram uma importância especial: por estarem vazias, tornam-se as primeiras testemunhas da ressurreição de Cristo. E é por isso que o Santo Sepulcro se tornará o lugar mais querido, mais amado e mais visitado pelos cristãos.

Depois, sucederam-se as várias aparições do Ressuscitado, pelo que os discípulos comunicaram ente si o grito jubiloso: "Jesus Cristo está vivo!". Ainda hoje, mais de 2000 anos depois, a tarefa dos cristãos é gritar a todos os homens; "Jesus Cristo está vivo!". É este o alegre anúncio que os pode salvar.

Pe. Gabriele Amorth, O evangelho de Maria.

Exemplo da importância dos exorcismos no sacramento do batismo que foram excluídos do novo rito


Numa escola da Fraternidade São Pio X, as professoras constataram, ao longo do ano letivo, uma clara melhora no comportamento de três de seus alunos. O mais velho, da sétima série*, era muito desagradável, insolente, grosseiro. Éramos obrigados frequentemente a repreendê-lo em aula, mas sobretudo, no recreio e no refeitório. Ajudava na Missa da escola, mas sem mostrar muita piedade. Seu olhar às vezes fixo e malvado, impressionava-nos e alguns ousavam se perguntar se essa criança não estaria possuída.

O segundo, da décima série, embora menos insolente e grosseiro, fazia-se notar por um comportamento às vezes estranho.

A mais jovem, de seis anos, mesmo parecendo estimar sua professora, fazia tudo para chateá-la: silêncio desobediente, sujeira nos seus cadernos ou nela; ira surpreendente diante das punições (como torcer seus óculos)... Com frequência, a professora, vendo tais cadernos, perguntava-lhe: "Você é aplicada?", e sempre a mesma resposta da criança, olhando insolentemente nos olhos da professora: "Não!" Não sabíamos como lidar com ela.

Durante o terceiro trimestre, constatamos uma rápida mudança nessas crianças. Os meninos ajudavam a Missa com mais piedade, não eram mais insolentes. O mais velho havia perdido seu olhar que nos impressionava. Não o repreendíamos mais no refeitório, onde se tornou um modelo de silêncio e onde estava sempre pronto a nos prestar auxílio. A menina havia se tornado afetuosa com sua professora, deixando até suas brincadeiras, para se aproximar dela, e mesmo lhe obter um afago. A caligrafia melhorou, assim como o estado dos cadernos. Aplicava-se enfim. Havia se tornado mais gentil com seus colegas.

Mesmo sem terem virado crianças-modelo nem primeiros de turma, tinham mudado. O que teria acontecido? Nosso diretor nos deu a chave do problema: essas crianças haviam sido batizadas no novo rito, sem os exorcismos. Com a permissão dos pais, o padre havia feito, perto da Páscoa, um complemento do Batismo; isto é, havia feito os exorcismos neles! Banido o demônio, a Graça atuava melhor nessas crianças.

Quantas crianças, hoje, teriam necessidade desse complemento, para que a Graça as ajudasse a lutar melhor contra suas más inclinações!

Uma professora

*No sistema educacional francês, as primeiras séries têm maior número que as que se lhes seguem. Não há correspondência exata com o sistema brasileiro. (N. do T.)

Pe. Matthias Gaudron, Catecismo da crise na Igreja. Rio de Janeiro: Permanência, 2011. p.217.

Quatro regras orientadoras para se discernir um verdadeiro "carismático" que possua o dom da cura ou libertação


1ª, que o indivíduo (ou a comunidade) viva intensamente conforme o Evangelho;

2ª, que seja completamente desinteressado (e recuse todas as ofertas, mesmo sabendo que com elas pode ficar milionário);

3ª, que utilize os meios habitualmente admitidos na Igreja, sem excentricidades ou superstições (que utilize orações e não fórmulas mágicas; sinal da cruz, imposição das mãos sem nada que ofenda o pudor; que utilize água benta, incenso, relíquias sem nada que seja estranho ao normal uso eclesiástico); que reze em nome de Jesus;

4ª, que os frutos sejam bons. A regra evangélica "é pelo fruto que se conhece a árvore" (Mt 12,33) constitui sempre o critério fundamental.

Acrescentamos outras características que são típicas das curas obtidas pela via carismática. Estas agem sobre todas as doenças, mesmo maléficas, isto é, provocadas pelo demônio, e não se fundamentam na capacidade ou na força humanas, mas na oração feita com fé, na força do nome de Jesus e na intercessão da Virgem e dos santos. O carismático não perde a energia e não tem, portanto, necessidade de descansar para retomar forças (como fazem os curandeiros, os vedores e similares), não se verificam reações físicas, pois é apenas um intermediário ativo da graça. As curas carismáticas não tendem a elevar o carismático a um pedestal, mas a louvar a Deus e fortalecer a fé e a oração.

Pe. Gabriele Amorth, Um exorcista conta-nos. 8ª Ed. Prior Velho: Paulinas, 2012. p. 160.

Ps.: o termo "carismático" não designa necessariamente um membro da RCC.

Quando o demônio se serve de uma pessoa para atingir grupos - exemplos de Hitler, Marx e Stalin, entre outros


Perguntaram-me, também, se era possível atingir comunidades de pessoas através da magia. Respondo afirmativamente. Este assunto, porém, merece só por si um estudo separado. Também aqui, como em todo o meu livro, contento-me em chamar a atenção para as coisas. É possível que o demônio se sirva de uma pessoa para atingir grupos, mesmo muito numerosos, suscetíveis de dominar até uma nação inteira ou de estender a sua influência sobre várias nações. Penso que, na nossa época, Karl Marx, Hitler e Estaline fizeram parte dessas pessoas. As atrocidades dos nazis, os horrores do comunismo e os massacres de Estaline atingiram um nível de perfídia verdadeiramente diabólico. 

Fora do domínio político, não hesito em dizer que certas músicas e certos cantores, cujos concertos provocam um frenesi que pode engendrar manifestações de extrema violência ou de vontade destruidora, são veículos de Satanás.

Mas há outros casos, mais fáceis de controlar e de curar (embora as possessões coletivas sejam sempre muito difíceis de curar), em que foram atingidos grupos de alunos ou comunidades como, por exemplo, comunidades religiosas. É incrível a habilidade para conseguir enganar e fazer penetrar os piores erros em grupos inteiros. Há quem pense que é mais fácil enganar uma multidão do que um indivíduo, e a verdade é que o demônio pode atingir grupos, mesmo muito numerosos. Assinalemos, contudo, que existe quase sempre, nestes casos, um consenso humano de livre adesão à obra satânica: por interesse, por vício, por ambição, por tantos motivos possíveis.

A influência do demônio sobre a coletividade é uma das mais perigosas e mais poderosas armas. Daí a insistência dos últimos pontífices a este respeito. Refiro-me aqui ao discurso de Paulo VI, em 15 de novembro de 1972, e ao de João Paulo II, em 20 de agosto de 1986.

Satanás é o nosso pior inimigo e sê-lo-á até o fim dos tempos. É por isso que ele usa a sua inteligência e os seus poderes para entravar os planos de Deus que, ao contrário, deseja a salvação de todos nós. A nossa força é a Cruz de Cristo, o seu sangue, as suas chagas, a obediência às suas Palavras e à sua instituição que é a Igreja.

Pe. Gabriele Amorth, Um exorcista conta-nos. 8ª Ed. Prior Velho: Paulinas, 2012. p. 155-156.

Pe Gabriele Amorth sobre o espiritismo - É possível invocar os mortos? Uma única exceção.


O espiritismo está presente em todas as culturas e povos. O médium tem o papel de intermediário, entre os espíritos e o homem, emprestando a sua energia (voz, gestos, escrita...) ao espírito que se deseja manifestar. Pode acontecer que os espíritos invocados, que são sempre e só demônios, tomem posse sobre algum dos presentes. A Igreja sempre condenou as sessões de espiritismo e a participação nelas. Não é consultando Satanás que se aprenderá alguma coisa de útil.

Mas será verdadeiramente impossível evocar os mortos? São sempre e unicamente os demônios que se manifestam durante as sessões dos médiuns? Sabemos bem que a existência desta dúvida junto dos crentes resulta de uma única exceção. A Bíblia menciona um só e único caso, quando Saul se dirige a uma pitonisa e lhe impõe: "Prediz-me o futuro, invocando um morto, e faz-me chegar àquele que eu te disser" (1Sm 28,8). Neste caso, Samuel, que tinha morrido havia pouco tempo, apareceu efetivamente. Deus permitiu esta exceção, mas lembremos o grito horroroso que a pitonisa deu ao ver Samuel e, sobretudo, a grave reprovação que este fez: "Por que é que me perturbaste invocando-me?" (1Sm 28,15). 

É preciso respeitar os mortos e não os importunar. Sendo o único relato na Bíblia, notemos o seu caráter excepcional. Eu concordo com a opinião de um psiquiatra e exorcista protestante a este respeito: "É puro egoísmo e crueldade querermos ficar agarrados aos nossos defuntos ou querer chamá-los para junto de nós. Eles têm necessidade é da libertação eterna e não de ser envolvidos nas coisas e nas pessoas deste mundo..." (Kenneth McAll, Fino alle Radici, Ancora, p.141).

Pe. Gabriele Amorth, Um exorcista conta-nos. 8ª Ed. Prior Velho: Paulinas, 2012. p. 153-154.

Demônio diz como é o inferno


O padre Cândido fez, muitas vezes, perguntas ao demônio, presente em pessoas de todas as idades; mas prefere fazê-lo às crianças porque, desta forma, ainda é mais evidente, uma vez que elas não têm capacidade para dar resposta por si próprias. Nesses casos, a presença do demônio é praticamente confirmada. Perguntou um dia a uma adolescente de 13 anos: "Dois inimigos, que se odiaram de morte durante toda a vida, acabaram ambos no Inferno: como será lá o relacionamento entre eles, uma vez que ficarão juntos por toda a eternidade?"

Eis a resposta: "Como tu és estúpido! No Inferno, cada um vive virado sobre si próprio e atormentado pelos remorsos. Não há relacionamento com ninguém; cada um encontra-se na mais completa solidão a chorar desesperadamente o mal que fez; é como um cemitério."

Pe. Gabriele Amorth, Um exorcista conta-nos. 8ª Ed. Prior Velho: Paulinas, 2012. p. 80.

São inteligentes os que negam Deus? O demônio responde.

Pe. Cândido Amantini

[A presença do demônio em possessos] também se torna evidente perante certas respostas profundas, sobretudo se são dadas por crianças. O padre Cândido quis fazer perguntas complicadas a uma criança de 11 anos, depois de se ter revelado nela a presença do demônio. Perguntou-lhe: "Há sobre a terra grandes cientistas, pessoas altamente inteligentes que negam a existência de Deus e a vossa. O que é que tu dizes?" Ao que a criança respondeu, imediatamente; "Altamente inteligentes? Que altíssimas inteligências! São altíssimas insipiências!" E o padre Cândido acrescentou, fazendo referência expressa aos demônios: "Há alguns que negam Deus conscientemente, com a sua vontade. O que é que achas disso?" A criança possessa deu um salto e disse furiosa: "Toma atenção. Lembra-te que nós quisemos reivindicar a nossa liberdade também diante dele. Dissemos-lhe não para sempre." O exorcista insistiu: "Explica-me e diz-me lá que sentido tem reivindicar a sua própria liberdade diante de Deus, quando sem Ele tu és um zero, tal como me acontece a mim. É como se, no número 10, o zero se quisesse separar do um. O que é que acontecia? O que é que realizarias? Em nome de Deus, ordeno-te que respontas: O que é que fizeste de positivo? Vá, fala." O rapazinho, cheio de rancor e de ódio, contorcia-se, babava-se, chorava de forma terrível, inconcebível para uma criança de 11 anos e dizia: "Não me faças essa acusação! Não me faças essa acusação!"

Pe. Gabriele Amorth, Um exorcista conta-nos. 8ª Ed. Prior Velho: Paulinas, 2012. p. 79-80.

Possessão demoníaca e Psiquiatria - Faria a Igreja confusão?


Pe. Gabriele Amorth

Fazem-me rir certos pretensiosos teólogos modernos, que afirmam como sendo uma grande novidade o facto de certas doenças se poderem confundir com a possessão diabólica. Certos psiquiatras ou parapsicólogos estão nas mesmas circunstâncias: pensam ter "descoberto a América" ao proferir tais afirmações. Se fossem um pouco mais instruídos, saberiam que as autoridades eclesiásticas foram as primeiras a pôr os teólogos de sobreaviso contra esse possível erro. Nos decretos do Sínodo de Reims de 1583, a Igreja já tinha chamado a atenção para este possível equívoco, afirmando que certas manifestações, consideradas como sinais de possessão diabólica, poderiam, com efeito, ser apenas sintomas de doenças mentais. Nessa época, porém, a psiquiatria ainda não tinha nascido e os teólogos acreditavam no Evangelho.

(...) Tenho muito apreço por esses psiquiatras que têm competência profissional e o sentido dos limites da sua ciência, e que sabem, honestamente, reconhecer quando um de seus pacientes apresenta sintomas que não se enquadram nas doenças reconhecidas cientificamente. O professor Simone Morabito, psiquiatra em Bergamo, afirmou ter provas de que um grande número de doentes, apelidados de doentes psíquicos, eram na realidade possessos de Satanás, e conseguiu curá-los com a ajuda de alguns exorcistas.

(...) Sem dúvida que é muito difícil distinguir um endemoninhado de um doente psíquico. Contudo, um exorcista experimentado está mais apto a distinguir esta diferença do que um psiquiatra, porque o exorcista tem presente as várias possibilidades e sabe reunir elementos que lhe permitem fazer essa distinção. Na maior parte das vezes, o psiquiatra não acredita na possessão diabólica, por isso, não tem sequer em conta essa eventualidade. Há bastantes anos, o padre Cândido exorcizava um jovem que, segundo o psiquiatra que o tinha seguido, sofria de epilepsia. Este médico aceitou vir assistir a um exorcismo. Logo que o padre Cândido pousou a mão sobre a cabeça do jovem, este caiu por terra, como acontece nas convulsões. "Vê padre, trata-se com toda a evidência de um caso de epilepsia", apressou-se o médico a dizer. O padre Cândido inclinou-se e voltou a pôr a mão sobre a cabeça do jovem. Este levantou-se bruscamente e ficou de pé, imóvel. "Será que os epiléticos fazem isto?", perguntou o padre Cândido. "Não, nunca", respondeu o psiquiatra, evidentemente perplexo perante aquele comportamento.

(...) Aprecio imenso os sábios que, mesmo sem serem crentes, reconhecem os limites da sua ciência. O professor Emílio Servadio, psiquiatra, psicanalista e parapsicólogo de renome internacional, fez declarações interessantes à Rádio Vaticano, em 2 de fevereiro de 1975:

A ciência deve parar perante aquilo que os seus instrumentos não podem verificar nem explicar. Não podemos definir exatamente estes limites, porque não se trata de fenômenos físicos. Mas ceio que todo o cientista digno desse nome sabe que os instrumentos não vão para além de um certo ponto.

No que se refere à possessão demoníaca, só posso falar em nome próprio e não em nome da ciência. Parece-me que, em certos casos, o caráter maligno e destruidor dos fenômenos atinge um nível tão específico, que é verdadeiramente impossível confundir este tipo de fenômenos com aqueles que o especialista (parapsicólogo ou psiquiatra) registra nos casos de tipo Potergeist ou outros. Para dar um exemplo, isso seria comparar um garoto traquina com um criminoso sádico. Há uma diferença que não se pode medir com fita métrica, mas que se pode facilmente perceber. Creio que um homem de ciência deve admitir a presença de forças que escapam ao controlo da ciência e que a ciência, como tal, não é capaz de definir.

Pe. Gabriele Amorth, Um exorcista conta-nos. 8ª Ed. Prior Velho: Paulinas, 2012. p. 53-54; 66; 67-68)

A centralidade de Cristo e a vitória sobre os demônios


Pe. Gabriele Amorth

Também o demônio é uma criatura de Deus; não se pode falar dele e dos exorcistas sem fazer referência, pelo menos de forma sistemática, a alguns conceitos-base sobre o plano de Deus na criação. Não diremos, por certo, nada de novo, mas talvez abramos perspectivas novas a alguns leitores.

Habituamo-nos, muitas vezes, a pensar na criação de uma forma errônea, embora tenhamos adquirido uma série de dados. Crê-se que, num belo dia, Deus tenha criado os anjos; que os tenha submetido a uma prova, não se sabe bem qual, da qual resultou a divisão entre os anjos e os demônios: os anjos recompensados por com o Paraíso, os demônios punidos no Inferno. Também se crê que, noutro belo dia, Deus tenha criado o Universo, o reino mineral, vegetal, animal e, por fim, o homem. Adão e Eva no paraíso terrestre pecaram, obedecendo a Satanás e desobedecendo a Deus. Nessa altura, para salvar a humanidade, Deus pensou enviar o seu Filho.

Não é este o ensinamento da Bíblia, nem é este o ensinamento dos Padres da Igreja. Numa tal concepção, o mundo angélico e a criação tornam-se estranhos ao ministério de Cristo. Pelo contrário, leia-se o prólogo ao Evangelho de João e os dois hinos cristológicos que abrem as cartas aos Efésios e aos Colossenses: Cristo é o Primogênito de toda a criatura, tudo por Ele e por causa d'Ele. Não têm sentido as discussões teológicas em que se questiona se Cristo teria vindo, caso Adão não tivesse pecado. Ele é o centro da criação, Aquele que reuniu em si todas as criaturas: as celestes (anjos) e as terrestres (homens). Contudo, é verdadeiro afirmar que, tendo-se dado a queda de Adão e Eva, a vinda de Cristo assumiu um papel particular: veio como Salvador. E no centro da sua ação está o mistério pascal: por meio do sangue da sua cruz reconcilia com Deus todas as coisas, no Céu (anjos) e na Terra (homens).

Deste ponto de vista cristocêntrico depende o papel de cada criatura. Não podemos omitir uma reflexão a respeito da Virgem Maria. Se o Primogênito de toda a criatura é o Verbo encarnado, não podia estar ausente do pensamento divino, tendo prioridade sobre qualquer outra criatura, a figura daquela em que tal encarnação se iria verificar. Daqui a sua ligação única com a Santíssima Trindade, a ponto de ser chamada, já no século II, "o quarto elemento da Tríade divina". Àqueles que desejarem aprofundar este aspecto, recomendamos os dois volumes de Emanuele Testa, Maria, Terra Vergine (Jerusalém, 1986)

Impõe-se uma segunda reflexão quanto à influência de Cristo sobre anjos e demônios. No que se refere aos anjos, certos teólogos pensam que, só em virtude do mistério da cruz, estes tenham sido admitidos à visão beatífica de Deus. Muitos padres formulam afirmações interessantes. Lemos por exemplo, em Sto. Atanásio, que também os anjos devem a sua salvação ao Sangue de Cristo. No que se refere aos demônios, as afirmações contidas no Evangelho são inúmeras. Cristo com a sua cruz venceu o reino de Satanás e instaurou o Reino de Deus. Por exemplo, os endemoninhados gadarenos exclamaram: "Que temos nós contigo, Jesus, Filho de Deus?? Vieste para nos atormentar antes do tempo?" (Mt 8,29). É uma clara referência ao poder de Satanás, a diminuir progressivamente por causa de Cristo; por consequência, ainda perdura, e perdurará até que a salvação se complete, porque foi precipitado o acusador dos nossos irmãos (Ap 12,10). Para aprofundar estes conceitos e o papel de Maria, inimiga de Satanás desde o primeiro anúncio da salvação, indicamos o belo livro do padre Cândido Amantini, Il Mistero de Maria (Ed. Dehoniane, 1971).

À luz da centralidade de Cristo, é-nos dado ver o plano de Deus, que criou boas todas as coisas "para Ele e por causa dele". Também nos é dado ver a obra de Satanás, o inimigo, o tentador, o acusador, por cuja sugestão entrou na criação o mal, a dor, o pecado, a morte. Daí resulta a restauração do plano divino, operado por Cristo com o seu sangue.

O poder do demônio também é manifestamente claro. Jesus chama-lhe "príncipe deste mundo" (Jo 14,30); S. Paulo qualifica-o de "deus deste mundo" (2Cor 4,4); S. João afirma que "todo o mundo está sob o jugo do Maligno" (1Jo 5,19), entendendo-se por mundo tudo aquilo que se opõe a Deus. Satanás era o mais esplendoroso dos anjos; tornou-se o pior dos demônios e o seu chefe. Porque também os demônios estão vinculados entre si por uma hierarquia muito estrita e conservam o grau que ocupavam, quando eram anjos: principados, tronos, dominações... É uma hierarquia de escravidão e não de amor como a que existe entre os anjos, cujo chefe é São Miguel.

A obra de Cristo é muito clara: foi Ele quem destruiu o reino de Satanás e instaurou o Reino de Deus. Por isso, os episódios em que Jesus liberta os endemoninhados têm uma importância muito especial: quando Pedro evoca, diante de Cornélio, a obra de Cristo, não cita outros milagres, mas apenas o facto de ter curado "todos os que eram oprimidos pelo diabo" (At 10,38). Compreendemos agora porque é que o primeiro poder que Jesus dá aos Apóstolos é o de expulsar os demônios (cf. Mt 10,1); e a mesma coisa vale para os crentes: "Eis os sinais que acompanharão aqueles que acreditarem: em meu nome expulsarão demônios..." (Mc 16,17) Assim, Jesus salva e restabelece o plano divino, arruinado pela rebelião de uma parte dos anjos e pelo pecado dos nossos primeiros pais.

Deve ficar bem claro que o mal, a dor, a morte, o Inferno (isto é, a condenação eterna no tormento que não terá fim) não são obras de Deus. Permito-me fazer um breve comentário sobre este ponto. Um dia, o padre Cândido estava a expulsar um demônio. No final do exorcismo, voltou-se para aquele espírito imundo com ironia: "Vai-te daqui, de mais a mais, o Senhor preparou-te uma bela casa tão quentinha!" Ao que o demônio respondeu: "Tu não sabes nada. Não foi Ele (Deus) que fez o Inferno. Fomos nós. Ele nem tinha pensado nisso." Em situação análoga, enquanto interrogava um demônio para saber se também ele tinha colaborado a criar o Inferno, obtive esta resposta: "Todos nós contribuímos."

A centralidade de Cristo, no plano da criação e na restauração dela, através da redenção, é fundamental para se compreenderem os desígnios de Deus e a finalidade do homem. Na verdade, aos anjos e aos homens foi dada uma natureza inteligente e livre. Quando ouço dizer (confundindo a presciência divina com a predestinação) que Deus sabe já quem se salva e quem se condena - e, por isso, tudo é inútil -, habitualmente respondo recordando quatro verdades claramente contidas na Bíblia, que vieram a ser definidas dogmaticamente: Deus quer que todos se salvem; ninguém é predestinado ao Inferno; Jesus morreu por todos; a todos são dadas as graças necessárias à salvação.

A centralidade de Cristo ensina-nos que só no seu nome podemos ser salvos. E só no seu nome podemos vencer e libertar-nos do inimigo da salvação: Satanás. 

Já no final dos exorcismos, quando se trata de casos mais fortes, os de total possessão diabólica, rezo o hino cristológico da Carta aos Filipenses (2,6-11). Quando chegou às palavras "para que ao nome de Jesus todo o joelho se dobre, nos céus, na terra e nos infernos", eu ajoelho-me, ajoelham-se os presentes e o próprio endemoninhado vê-se sempre obrigado a ajoelhar. É um momento forte e sugestivo. Tenho a impressão de que também as legiões angélicas, que estão à nossa volta, se ajoelham, perante a invocação do nome de Jesus.
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Pe. Gabriele Amorth, Um exorcista conta-nos. 8ª Ed. Prior Velho: Paulinas, 2012. p. 25-29.

Exorcista Romano Gabriele Amorth diz para Papa Francisco tomar cuidado com uma morte rápida e os maçons

O exorcista romano Gabriele Amorth disse que o papa Francisco queria uma "igreja pobres dos pobres", como João Paulo I. "Eu não gostaria que ele terminasse como Luciani". João Paulo I morreu depois de apenas 33 dias no papado.


Padre Gabriele Amorth, exorcista-chefe da Diocese de Roma, alertou o novo Papa Francisco sobre uma morte rápida seguindo o destino do Papa João Paulo I. "O maçons têm suas filiais em todos os lugares, até mesmo no Vaticano, infelizmente", Amorth disse em uma entrevista com o jornal italiano "Il Giornale", que o jornal "Österreich" online relatou.

Amorth disse que o novo Papa Francisco queria uma "igreja pobres dos pobres", como João Paulo I "Eu não gostaria que ele terminasse como Luciani", comentou o exorcista-chefe, mas os maçons aspiram apenas atrás de dinheiro e carreira ", eles ajudam um ao outro ", relatou," Österreich "" online.

Padre Gabriele afirma que eles incluem o atual primeiro-ministro italiano Mario Monti, um maçom, assim como o presidente Giorgio Napolitano. Em princípio, todos os políticos no poder são subordinados aos maçons e o mundo foi dominado por sete ou oito pessoas que mantiveram todo o dinheiro em suas mãos, disse o monge de 88 anos de idade, que acredita ter realizado 70.000 exorcismos com sucesso.

"Não mais somente a sua fumaça pela fenda, mas o próprio Satanás irrompe triunfalmente pelas portas centrais"


Dom Manoel Pestana Filho

O grande papa Leão XIII entrou no século XX ainda apavorado pela visão que tivera da formidável presença diabólica em Roma, "para a perdição das almas". Desde 1886, mandara a todos os bispos rezar a oração a São Miguel Arcanjo, escrita por ele, de próprio punho, como também um exorcismo maior que recomendava a bispos e párocos para recitarem com frequência nas dioceses e paróquias.

"O século do homem sem Deus", anunciado por Nietzsche, transforma-se no século de Satanás, que prepara o seu reino com a Primeira Guerra Mundial, implanta o comunismo ateu e tirânico, contra Deus e contra o homem, na revolução bolchevista de 1917, semeia a Europa inteira de ruínas e sangue com a Segunda Guerra Mundial, fruto dos poderes das trevas; invade toda a terra de ódio, terror, impiedade, heresia, blasfêmia e corrupção em guerras e revoluções sem trégua; insinua-se, de início, como fumaça, e, depois, implanta-se, poderoso, no seio da própria Igreja.

Tudo isto, Nossa Senhora confidenciara aos videntes de Fátima, exatamente no mesmo ano da tragédia russa; e o mesmo se diga do 3º capítulo do Gênesis, em que se pinta a vitória da serpente infernal e a presença de Maria, esmagando-lhe a cabeça.

A Cristandade continuou a rezar as orações de Leão XIII, estimulada pelos Papas. pensadores cristãos como, por exemplo, Anton Böhm (Satã no Mundo Atual, Tavares Martins) e de La Bigne Villeneuve (Satan dans la Cité, Du Cèdre) denunciam a infiltração visível do demônio em todas as estruturas da sociedade. Bernanos surpreende-nos Sob o Sol de Satã.

De súbito, ao aproximar-se o último e temeroso quartel do século XX, contesta-se a existência dos anjos, desaparece a oração de São Miguel, suspendem-se os exorcismos, inclusive o do Batismo, mergulha no silêncio o ministério e a função do exorcista.

Paulo VI queixa-se da fumaça de Satanás dentro do templo, quase a ocupar o espaço do incenso esquecido, e amargura-se com a autodemolição da Igreja. Os seminários desaparecem, a teologia prostitui-se em cátedras de iniquidade, a liturgia reduz-se, com certa frequência, a uma feira irrelevante de banalidades folclóricas. A pretexto de inculturação, a vida religiosa desliza para o abismo.

"Os poderes do inferno não prevalecerão contra a Igreja", é certo. Mas o próprio Senhor prediz o obscurecimento da fé, o esfriamento da caridade. A visão (do Inferno) de Fátima faz vacilar o otimismo ingênuo e irresponsável dos que apostam na salvação de todos, mesmo até dos que a recusam.

(...) Jesus começa a sua missão, tentado pelo demônio e a expulsão dos maus espíritos torna-se uma das notas mais relevantes da sua atividade messiânica. "Em meu nome expulsarão os demônios" (Mc 16,17), diz Jesus, ao despedir-se dos discípulos, notando que este será um sinal dos que crêem nele. E Satanás, pela ação dos Apóstolos, caía do céu como um raio... Quando os cristãos de todos os níveis, apesar dos Evangelhos e do Magistério, principiaram a duvidar da ação e, depois, da existência do espírito rebelde, aconteceu o que Jesus havia anunciado (Mt 14,44-45): expulso, ele volta para a casa "desocupada, varrida e arrumada", mas indefesa, com sete espíritos piores do que ele, "e a condição final torna-se pior do que antes", exatamente o que está a acontecer.

Hoje, não é só a fumaça de Satanás, penetrando por uma fenda oculta, mas o diabo, de corpo inteiro, que irrompe triunfalmente pelas portas centrais. Quem o vai exconjurar das nossas igrejas, das nossas residências episcopais e paroquiais, dos nossos centros comunitários, dos nossos seminários e universidades, dos Senados e das Câmaras Legislativas, dos Palácios do Governo e da Justiça, dos bancos e das bolsas, dos meios de comunicação, das escolas e hospitais, das consciências de todos nós?

E, não hesitemos: quem vai expulsar os demônios dos Palácios Pontifícios, das Congregações e Secretarias, das Nunciaturas, das Conferências Episcopais e Cúrias, dos Santuários e Basílicas, das ONU e dos Parlamentos, sem falar desse mundo "posto maligno", que viceja "sob o sol de Satã"?

Nós precisamos, urgentemente, de exorcismo!

Dom Manoel Pestana, Prefácio do livro "Um Exorcista Conta-nos" do Pe. Gabriele Amorth

Como o demônio não tolera o oferecimento de nós mesmos a Deus pelas mãos de Maria


Pe. Francesco Bamonte

O que me impressiona mais, durante os exorcismos, nas atitudes e nas expressões dos demônios é o seu medo e ódio terrível à oferta que fazemos de nós próprios a Deus, por amor, em espírito de reparação dos nossos pecados e dos pecados dos outros, pondo previamente esta oferta nas mãos de Maria, a fim de que seja ela a apresentá-la ao Senhor. Na prática, trata-se de dar, com grandíssimo amor, pelas mãos de Maria, a nossa vida a Deus, com a intenção de reparar as ofensas que Ele e a Virgem Maria recebem dos pecados do mundo; para reparar as consequências dos nossos pecados e dos pecados dos outros; para obter a conversão daqueles que, por causa dos seus pecados, correm o tremendo perigo da condenação eterna1. Muitas vezes, experimentei o poder dessa oferta. De fato, aconteceu-me frequentemente que, quer no decurso dos exorcismos, quer no meu ministério sacerdotal, enquanto eu conversava com a pessoa possuída e lhe ensinava como se vive a oferta de si mesmo, o demônio, até aquele momento escondido, repentinamente manifestava-se furioso, porque não suportava que eu fizesse aquela catequese. Compreendi, então, com clareza, que essa oferta a Deus é um meio eficacíssimo, não só para tirar ao demônio os corpos que ele mantém possessos, mas também e sobretudo para arrancar às suas garras muitas almas que vivem no pecado. Como veremos, os próprios demônios, malgrado seu, tiveram de confirmar tudo isto com grande desapontamento.

Num parágrafo anterior (...), já descrevi o modo como a intercessão da Virgem não consiste apenas em orar, por nós e para nós, para nos obter não só a graça santificante e cada uma das graças de que vamos precisando, mas também em dar a Deus o que lhe oferecemos. Um dia, enquanto estávamos a apresentar e a oferecer a Nossa Senhora orações, alegrias, sofrimentos e toda a nossa vida, juntamente com os sofrimentos da pessoa possessa, o demônio foi obrigado a dizer: "Cada alegria, dor, sofrimento, oferecidos àquele Coração (de Maria), são doces ternuras de profunda caridade que ela aceita e oferece com as suas mãos e levanta-as à luz daquele Criador."

Um triste acontecimento tinha provocado em mim um grandíssimo sofrimento moral. Uma manhã, quando retomei os exorcismos, no primeiro dia depois daquela prova dolorosa, o demônio, sentindo-se irritado com o meu regresso aos exorcismos, quis desforrar-se e, de repente, começou a descrever com grande precisão, e rindo-se perfidamente e com grande satisfação, todos os fatos que me tinham causado aquela aflição, gabando-se de ter contribuído para suscitá-los e para fomentá-los. Também ameaçava provocar-me outros. Então, fiz esta oração: "Senhor, pelas mãos da Mãe Celeste ofereço-te com todo o meu coração aqueles sofrimentos." Ainda não tinha acabado de dizer a palavra "sofrimentos" e já o demônio mudava a "música". Com urros que rebentavam os tímpanos, gritou: "Não, nããoo! Foi ela que a apanhou (palavrão). Roubou-a! Logo a levou! (referia-se à oferta do sofrimento). Levou-a Àquele, imediatamente!!! Quase nem deu tempo de apanhá-la. Apanhou-a e levou-lha lá acima. Todas elas almas que me levooouu!!!"

Está ainda viva em mim a recordação de um episódio que aconteceu recentemente: durante uma conversa pessoal, eu tinha ensinado a oferta a Deus de si próprio, pelas mãos de Maria, ao marido de uma senhora que recebia exorcismos. Eu também tinha composto uma oração que ele deveria inserir entre as suas orações da manhã e da noite, para vivificar o espírito desta oferta diária.

Naquele momento, a esposa não tinha qualquer possibilidade de saber nada do que eu dissera ao marido, porque vinha ao nosso encontro com a filha. Tendo chegado junto d nós e sido iniciado o exorcismo, logo o demônio, berrando, disse: "É inútil que ensines aquelas coisas a esse (e disse um palavrão, apontando com o dedo o marido daquela mulher) e, depois, aquele papel que escreveste (referia-se claramente à oração que eu tinha composto, vou rasgá-lo, vou rasgá-lo!"
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1- De fato, os pecados, segundo a sua gravidade, nunca deixam de ter efeitos: provocam sempre danos, tanto em quem os comete, como na sociedade inteira. O dano mais grave, porque não há possibilidade de remédio, para quem persevera no pecado até ao último instante, é o Inferno.

Pe. Francesco Bamonte, A Virgem Maria e o Diabo nos Exorcismos.

Aversão do demônio ao Rosário


Pe. Francisco Bamonte

Na minha experiência de exorcista, apercebi-me de que nenhuma oração extralitúrgica é tão odiada, temida e hostilizada pelo demônio como o Santo Rosário.

Um dia, enquanto eu pegava o terço, o demônio exclamou: "É uma coisa que não suporto, não suporto! Aquele estúpido velho apelidara-a bem, tinha-lhe dado o nome certo: chamava-lhe "arma", porque é uma verdadeira arma. Uma verdadeira arma contra nós"1. Eu disse: "Em nome de Jesus, quem é o estúpido velho a que te referes?" E ele: "Pio" - "Padre Pio de Pietrelcina?" - "Siiim!" Então, eu rebati: "Não é um estúpido: é inteligente, sábio e devoto." E ele: "Para nós é um estúpido. Ainda agora, aquele estúpido trabalha ao lado do Nazareno e daquela mulher que está lá em cima." - "Como se chama aquela mulher que está lá em cima?" - "Chama-se como esta (e dirige um palavrão à pessoa possessa)."

Um dia, ordenei ao demônio: "Descreve as maravilhas do Rosário!" Respondeu-me: "A mim, mete-me nono." E eu: "Para nós é maravilhoso. Em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, que deu a Virgem Maria por Mãe a cada um de nós, descreve todas as coisas que te metem nojo e que, para nós, são boas." E o demônio: "Descreve todo o itinerário de dor que Ele ofereceu por vós e que custou tanto sofrimento não só a Ele, mas também à sua Mãe, para vos salvar a todos, para vos abrir as portas do Paraíso. Ela sofreu tanto, tanto quanto o Filho, e expiou juntamente com Ele os vossos pecados. É por isso que cada conta (do Rosário) é uma lágrima daquela Mulher que sofreu durante os três anos que Ele padeceu por vós, evangelizou, curou e se manifestou. Tudo fez naqueles três anos, compreendendo aquilo que realizou naquela cinquentena, que o Papa mandou consagrar antes disto, compreendendo isso (refere-se evidentemente aos "mistérios da Luz" que João Paulo II ajuntou aos mistérios do Rosário). Quando vós rezais aquele terço maldito, tudo nos faz mal, porque contemplais tudo aquilo que ele faz contra nós. Tudo. Naqueles três anos, Ele lutou só e exclusivamente para fazer-nos mal e afastar as almas de nós, porque antes não era possível. Depois da sua vinda e especialmente depois da sua revelação (pública), naqueles três anos que contemplais nestes mistérios, vós "massacrais-nos", porque nós revivemos os acontecimentos da sua vida, especialmente se os contemplais oferecendo-os revivendo (em vós) os seus sofrimentos, como esta (diz um palavrão referindo-se à pessoa possessa). Esta mulher (a possessa, que oferece todos os seus sofrimentos a Deus) é um verdadeiro perigo, como são outras como ela. Se, ao meditardes os mistérios desta arma (o Rosário), vós unis os vossos sofrimentos aos deles (Jesus e maria) e ao de todos os sofredores que Ele (Jesus) escolheu, como esta mulher - porque ela não os escolheu para si, é Ele quem a mantém neste estado -, então, sim, vós fazeis realmente muito mal."

Noutro exorcismo, o Maligno disse: "Quando dizeis a Ave-Maria é como se ela tomasse o vosso espírito e o levasse diante do Pai. Todas as vezes. Porque ela ama-vos como ninguém mais vos ama, leva-vos lá acima consigo. E quando tu recordas a vida daquele (refere-se à meditação de cada mistério durante o Rosário), para mim é um suplício reviver todas as vezes o que aquele estabeleceu (mais um palavrão), porque quando tu acabas, começa outro, e [quando] este deixa, outro inicia, e este sai, outro entra. Sempre, há sempre alguém que está a rezá-lo. Não há um instante em que não seja rezado. É uma cantilena ininterrupta, em todas as partes do mundo. Mas, para nós, é um fundo musical mortal. Com todos aqueles (outro palavrão) mistérios, lembrais-nos todas as vezes o que nos fez e nos faz maaaaaal!"

E um dia 7 de outubro, dia da memória litúrgica da Senhora do Rosário. Tirei do bolso o terço e ele disse imediatamente: "Essas contazinhas fazem-me mal, bastardas! E também bastardos os que o fazem! (talvez se referisse àqueles que confeccionam os terços do Rosário)." Ordenei-lhe: "Por que te aborrecem tanto aquelas contazinhas?" E ele: "Porque me dais muitos murros. Acabai com isso! Já não vos dou o suficiente?" Então, coloquei o terço em cima daquela pessoa e o demônio berrou: "É pesado, esmaga-me, tira-o, esmaga-me! Estás a esmagar-me! Saem-me as "tripas", não vês!" O que é que estas reações do demônio nos ensinam para a nossa vida diária? Que o Rosário, bem rezado, "pesa" no demônio de tal maneira que já não pode fazer-nos todo o mal que quereria, porque a Senhora, precisamente através do Rosário, faz-nos crescer na fé em Deus e protege-nos das insídias do inimigo.

Noutro dia, enquanto eu exorcizava, tirei novamente um terço do bolso e imediatamente o demônio gritou: "Tira essa corrente, tira essa corrente!" E eu: "Que corrente?" E ele: "Essa com a cruz ao fundo. Ela chicoteia-nos com essa corrente!" Trata-se, na verdade, de uma linguagem metafórica, mas faz-nos compreender de maneira muito concreta o poder do Rosário e quanto o demônio o teme.

Outra vez, eu tinha posto ao pescoço da pessoa possessa um terço; o demônio gritou: "Queres matar-me? És um assassino! Estas contas são pior do que os espinhos da coroa de Cristo! São fogo vivo. Cada pérola é um coração consagrado! Mata-nos a todos! Tira-nos a respiração! Está a sufocar-me! Para nós é morte certa!"

Outra vez, enquanto eu estava a dependurar o terço ao pescoço de uma pessoa possessa, o demônio gritou, tentando travar-me: "Tira essas rosas: fedem, fedem, essas rosas!" Instintivamente, eu disse: "Onde estão as rosas?" E o demônio: "Puseste-as em cima dela (referia-se à pessoa possessa)." Depois do exorcismo, essa pessoa referiu-me que se recordava apenas de que, em determinado momento, se tinha sentido envolvida por uma coroa de rosas.

Outras expressões sobre o Rosário, em diversos outros exorcismos:

"Cada conta desse terço, com que vós rezais, é para nós uma chicotada, queima-nos."

"Quando usais aquela maldita corrente, sinto-me mal, porque invocais aquela (a Ave-Maria), recordais-me a vida daquele (a nossa contemplação dos mistérios do Evangelho no Rosário atormenta-o e faz-lhe perder as forças)"

"Quem se agarra a esta (e procurou arrancar o terço que eu tinha posto ao pescoço da pessoa possessa), nunca se perderá."

"Quando contemplais os mistérios daquele terço, fico doente. São bastonadas. Arranca de mim muitas, muitas almas. Porque é sua. Porque é daquela."

"Odeio-o (o terço), porque é uma coroa de amor que une todas a Ele e a ela."

Finalmente:

"Se vós todos soubésseis, eu seria destruído em menos de um segundo. Se rezardes o Rosário, esta coisa aqui bastarda, com fé! (E afastou com desprezo o terço que eu tinha nas mãos.) Sabes o que é que ela faz quando vós rezais o terço? (diz uma série de insultos contra mim): Ela pega a vossa mão, estica-se para o Céu e pega na do vosso Deus, e, através desta oração, desta corrente de (um palavrão), aproxima as duas mãos e aproxima-as para fazer com que se toquem. Quando estas duas mãos se encontram, ela exulta, exulta, exulta, ajoelha-se e reza. Só poucos homens alcançam aquela mão, porque muitas vezes arrancam-ma da mão daquela, porque não querem fazê-lo, graças a mim que sou o seu deus, mas os que conseguem (e repete), mas os que conseguem, têm plena consciência disso e ela exulta. Ei-la que se ajoelha e beija os pés perfurados do Filho e diz que fez graça a este (isto é, a alguma pessoa), porque tocou naquela mão e no meio daqueles (os habitantes do Paraíso), quando acontece, todo o Paraíso, todo o Paraíso exulta. Que nojo, que nojo! E lágrimas de alegria saem daqueles olhos (diz um palavrão). Que nojo, que nojo, que nojo, que nojo, que nojo, que nojo, que nojo!"

1- São Pio de Pietrelcina disse, um dia: "Satanás procura destruir esta oração, mas nunca o conseguirá: é a oração daquela que triunfa sobre tudo e sobre todos. Foi ela quem no-la mostrou, como Jesus nos ensinou o Pai-nosso."

Pe. Francisco Bamonte, A Virgem Maria e o Diabo nos exorcismos.

A recusa, da parte do demônio, do projeto da Encarnação do Filho de Deus e de Maria Rainha dos Anjos e dos homens


O homem foi criado por Deus à sua imagem e semelhança, isto é, segundo a imagem do Filho que o Pai Eterno tinha na sua mente, quando, chegada a plenitude dos tempos, haveria de enviá-lo ao mundo para fazer-se homem e redimir a humanidade. O homem é, portanto, "figura daquele que haveria de vir" (Rm 5,14), Cristo Jesus. Por isso, esteve presente na mente de Deus, desde a eternidade, antes de qualquer outra criatura, e também a figura daquela em quem a Encarnação do Filho haveria de realizar-se: Maria Imaculada. Diz o Concílio Vaticano II: "A santíssima Virgem [foi] predestinada desde toda a eternidade, no desígnio da Encarnação do Verbo divino, para [ser] Mãe de Deus".1 A natureza humana de Cristo e de Maria é o vértice da obra da criação. Embora, cronologicamente, Cristo e Maria aparecessem no mundo muitos séculos depois da criação de todas as coisas, a Santíssima Trindade tinha em mente desde a eternidade esta obra-prima insuperável relativamente a qualquer obra criada por Deus: "Uma Mulher imaculada que fosse Mãe do Filho, dando-lhe a carne humana do seu seio por obra do Espírito Santo".

Nesta perspectiva, a Virgem Maria pode ser definida como "primogênita" do Pai, porque nos seus decretos divinos Ele a predestinou juntamente com o Filho Jesus Cristo, antes de todas as criaturas.2 Cristo e Maria foram pensados, queridos e amados pelo Pai Eterno, pelo seu Verbo e pelo Espírito Santo, antes de toda a criação, e, a eles, todas as coisas estão subordinadas e se ordenam necessariamente. Todo o universo material e espiritual foi criado intimamente unido ao homem, de que Cristo e Maria são o vértice, e só por meio do homem todas as coisas podem atingir o fim para que foram criadas. Portanto, a criação dos anjos, feita por Deus, esteve ligada à sua decisão de unir-se ao homem mediante a Encarnação: isto é, entrar no mundo da matéria, do espaço e do tempo. Portanto, a criação dos anjos foi orientada, desde o início, para a síntese admirável da criação, que é o homem, cujo representante máximo é o Verbo de Deus que se torna carne por meio de Maria e se faz homem. A criação do homem - e, em particular, a natureza humana do Verbo - dá consistência e significado a todo o universo, incluindo também os anjos.

É claro que, neste projeto de Deus, a Virgem Maria, embora constituída, como cada criatura humana, de espírito e matéria (alma e corpo), é elevada acima dos anjos que são espíritos puros. Pela sua natureza angélica mais semelhante a Deus, espírito puríssimo, Satanás pretendia que lhe competiria a proeminência sobre toda a criação, que Deus conferiu à Virgem Maria. Consequentemente, esta atitude implicava uma contestação decisiva quer da Encarnação do Verbo de Deus - que haveria de assumir a natureza humana, inferior à angélica - quer da presença daquela Mulher, da qual, encarnando, o Filho de Deus haveria de nascer no tempo. Ela, posta à sua direita, como Rainha dos homens e dos anjos, havia de fato sido eleita não só acima das criaturas humanas, mas também das angélicas. O fato de Satanás rejeitar Maria foi uma consequência lógica da rejeição da Encarnação.

No momento em que a Santíssima Trindade criou os anjos, já sabia que alguns deles haveriam de usar o dom da liberdade para recusar o seu projeto de amor sobre toda a criatura: voltar-se-iam contra Deus, seu Criador, operando pela destruição da sua criação, que era inteiramente boa, e haveriam de introduzir nela o mal, o sofrimento e a morte. Por isso, desde o princípio da Criação, Deus estabeleceu que a Encarnação do Verbo também haveria de ser redentora, a fim de salvar as criaturas que haveriam de continuar fiéis a Ele. Por isso, enquanto criava, Deus pensava no seu Filho feito homem - isto é, Jesus Cristo - como Redentor, e em sua Mãe, cooperadora com o Filho redentor.

O teólogo jesuíta espanhol Francisco Suárez3, que apresenta a síntese provavelmente mais completa de angelologia e demonologia da Idade Moderna, retomando a opinião do Padre das Igrejas, Lactâncio (cerca de 260-330) - segundo o qual o pecado do anjo foi o de inveja, não em relação ao homem, mas em relação ao Filho de Deus feito homem (o Logos) -, explica que, depois, por esse motivo, Lúcifer4 haveria de enganar o homem por inveja (Divinae Institutuiones). Suárez afirma que a revolta de Lúcifer e dos outros anjos rebeldes consistiu em não ter aceitado o plano que Deus lhes tinha preanunciado, relativo à futura Encarnação do Verbo. Esta hipótese teológica fundamenta-se nas seguintes palavras da Carta aos Hebreus (1,6): "Quando [Deus] introduz o Primogênito no mundo, diz: Adorem-no todos os anjos de Deus." De algum modo, Deus haveria de mostrar a todos os anjos a futura imagem do Filho, Deus feito homem, Jesus Cristo, convidando-os a reconhecer nele, desde então, o seu chefe, o autor da sua salvação e o seu legislador.

Lúcifer e uma parte dos anjos recusaram-se a adorar um homem inferior a eles por natureza, embora ao mesmo tempo superior, sendo a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, encarnada. Eles consideraram o projeto divino da Encarnação como uma ofensa inaudita à sua dignidade angélica e à sua grandeza na hierarquia dos seres; por isso, rejeitaram-no desdenhosamente5. Por isso, tratou-se de um pecado de soberba que brota, no entanto (e de acordo com o Beato Duns Escoto), do amor desordenado a si mesmo: amor de concupiscência e, simultaneamente, amor da sua própria excelência. De fato, cego pelo amor desordenado de si mesmo e da sua excelência, Lúcifer pretendeu que a união hipostática do Verbo6 não se fizesse com uma natureza humana, mas sim, necessária e exclusivamente, com a sua natureza angélica.

Por isso, quando os anjos foram convidados a reconhecer Cristo feito homem como seu chefe e seu salvador, e a adorá-lo como Deus, Lúcifer opôs-se, presumindo que essa honra deveria ser dada exclusivamente a ele. Na sua rebelião, arrastou os outros anjos, persuadindo-os de que só a ele conviria a dignidade da união hipostática (isto é: segundo Lúcifer, a natureza divina deveria unir-se à sua natureza angélica e não à natureza humana, como aconteceu em Cristo Senhor). Contra o plano de Deus, ele desejou a união hipostática do Verbo de Deus com a sua própria natureza angélica, porque essa união adquiriria uma proeminência; de fato, considerava que a união hipostática lhe era devida a ele e não ao homem, dado que a natureza angélica é superior à humana7. Por isso, trata-se de um pecado de soberba e de desobediência, a que se seguiu a inveja em relação a Cristo, associada à cólera e ao ódio contra Ele e contra o gênero humano, e muitos outros pecados.

Por conseguinte, a rejeição de Lúcifer não se manifestou somente em relação à Encarnação do Filho de Deus, mas também em relação à Virgem Maria, através de quem a Encarnação haveria de realizar-se. A mística mariana espanhola, a venerável Maria de Jesus d'Agreda (1602-1665)m na sua famosa obra La mística ciudad de Dios, afirma que Lúcifer, por ser a criatura mais luminosa da criaçaõ, pensava que estava destinado a ser ele o chefe dos anjos e da humanidade. No entanto, quando compreendeu que não iria ser ele mas outro - isto é, que o Filho de Deus se faria homem -, não só se recusou adorá-lo e reconhecê-lo como chefe dos anjos e dos homens, como também rejeitou a decisão que Deus lhe havia notificado: com a Encarnação do Verbo, os anjos "deviam considerar igualmente superior a mulher através da qual o Verbo haveria de fazer-se carne. Essa mulher, embora fosse uma criatura humana, e, portanto, de natureza inferior à sua, haveria de ser não só sua Rainha, a quem teriam de obedecer, mas também a Senhora de todas as criaturas, superando nos dons de graça e de glória todas as criaturas angélicas e humanas. Ao obedecerem a este preceito do Senhor, os anjos bons aumentariam a sua humildade, pela qual não só o acolheram, mas também louvaram o poder e os mistérios do Altíssimo. Mas não [fizeram] assim Lúcifer e os seus companheiros; por causa deste preceito e mistério, elevaram-se de tal maneira em soberba e em vaidade ainda maiores que, desordenadamente furioso, ele reclamou para si próprio o privilégio de ser chefe de toda a estirpe humana e de todas as ordens angélicas; e, se isto haveria de acontecer através da união hipostática, que ela se realizasse nele".

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1- Gaudium et spes 61.
2- Por predestinação não se entende algo de já estabelecido, independentemente da livre decisão da vontade do homem. Aliás, pode-se dizer que Deus já conhece o que irão fazer os seus filhos que, no entanto, são sempre livres de decidir em plena liberdade. Isto é, Deus predestina que sejam conformes com o seu Filho Jesus aqueles que o escolhem como Pai: "Tudo contribui para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados, de acordo com o seu desígnio. Porque àqueles que Ele de antemão conheceu, também os predestinou para serem uma imagem idêntica à do seu Filho" (Rm 8,28-29). Trata-se sempre de uma escolha livre. Por isso, embora seja predestinada a ser Mãe do Filho de Deus feito homem, Maria aderiu a Ele livremente. Também o Filho de Deus, mesmo que predestinado a encarnar através de Maria, escolheu livremente realizar este projeto de amor do Pai, para que os homens fossem conformes à sua imagem. Na carta aos Hebreus, Cristo diz: "Eis que venho - como está escrito no livro a meu respeito - para fazer, ó Deus, a tua vontade" (Heb 10,7).
3- Nasceu em Granada em 1548 e faleceu em 1617.
4- É o nome de Satanás tinha antes do seu pecado. Deriva do latim e significa "portador de luz".
5- Aceitando-se a tese de que o pecado dos anjos se realiza na rejeição de adorar o Verbo encarnado, talvez compreendamos melhor o contínuo serviço dos próprios anjos na obra da Encarnação e na assistência prestada a Jesus Cristo. Ao mesmo tempo, intuímos o motivo mais radical da luta do demônio contra Ele.
6- Por "união hipostática" entende-se a união da natureza divina com uma natureza alheia, isto é, com uma natureza que o próprio Deus criou.
7- Um dos teólogos do séc. XII, Honório d'Autun, afirmou que o Verbo não podia assumir a natureza angélica, porque nesse caso salvaria unicamente um anjo (já que cada um deles é uma "espécie", o que o torna diferente de todos os outros, enquanto os homens pertencem todos à mesma espécie).

Pe. Francesco Bamonte, A Virgem Maria e o Diabo nos Exorcismos. Prior Velho: Paulinas, 2010.

Bastaria que compreendêsseis que o amor moveu tudo...


"Bastaria que compreendêsseis que o amor moveu tudo, bastaria que compreendêsseis, para eu ser destruído! Bastaria que cada homem, cada homem compreendesse um por cento do amor que moveu Aquele a vir à terra, e eu estaria destruído porque é tão grande que nem sequer o imaginais! E eu sofro por isso, porque Ele vos ama! O que poderia senão isto? O quê? Se o compreendêsseis, eu estaria "morto", "morto" e "só", "só", "só"! Mas vós, ... ahhh! (exclamação de satisfação) ninguém crê em nós, ninguém, e eu rejubilo, ahhh ahhhh ahhhhh!... Veio avisar-vos, abrir-vos os olhos, dizer-vos: "Olhai que estou aqui, estou aqui, amo-vos!" ... e vós nada (e ri-se)! Mas nunca vos interrogastes o que, durante dois mil anos, esta bastarda de Igreja, como vós lhe chamais, fez para avançar? O que fazeis, o que fazeis, nunca vos interrogastes? Pensais que sois bruxos? Mas (palavrão) porque (palavrão) não acreditais?! Como estou contente, como estou contente: sois tão estúpidos, estúpidos!" 

Declarações de um demônio numa sessão de exorcismo

Pe. Francesco Bamonte, A Virgem Maria e o Diabo nos exorcismos

O que o diabo diz sobre Bento XVI


“O diabo disse-me um dia que João Paulo II era péssimo, mas o Papa actual era pior. As palavras do diabo foram um elogio para Bento XVI. “

Pe. Gabriele Amorth

Virgem Maria contra Satanás


Pe. Gabriele Amorth

Por que é que Maria é tão poderosa contra o demônio? Por que é que o Maligno treme e foge diante da Virgem? Se até agora já expusemos os motivos doutrinais, é tempo de dizer alguma coisa mais concreta que manifeste a experiência de todos os exorcistas.

Começo precisamente pela apologia da Senhora, que o próprio demônio foi obrigado a fazer. Obrigado por Deus, falou melhor do que qualquer pregador.

Em 1823, em Ariano Irpino (Avelino, Itália), dois célebres pregadores dominicanos, os padres Cassiti e Pignataro, foram convidados a exorcizar um rapaz. Nessa época, discutia-se entre os teólogos sobre a verdade da Imaculada Conceição, que haveria de ser proclamada dogma de fé, trinta e um ano depois, em 1854. Pois bem, os dois frades impuseram ao demônio que demonstrasse que Maria era Imaculada, obrigando-o a fazê-lo através de um soneto: uma poesia de catorze versos hendecassílabos com rima própria obrigatória. Note-se que o endemoniado era um menino analfabeto de doze anos.

Imediatamente Satanás pronunciou estes versos:

Vera Mãe sou de um Deus que é Filho
e sou filha d'Ele, embora sua Mãe.
Ab eterno Ele nasceu e é meu Filho
no tempo nasci eu que sou a Mãe.
Ele é o meu Criador e é meu Filho;
eu sou sua criatura e sua Mãe.
Prodígio divino foi ser meu Filho
um Deus eterno, e me ter por Mãe.
O ser é quase comum entre Mãe e Filho
porque o ser do Filho teve a Mãe
e o ser da Mãe teve também o Filho.
Ora, se o ser do Filho foi também da Mãe
ou se dirá que foi manchado o Filho
ou sem mácula se há-de dizer a Mãe.

Pio IX comoveu-se quando, depois de ter proclamado o dogma da Imaculada Conceição, leu este soneto que lhe foi apresentado naquela ocasião.

Há anos, um meu amigo oriundo de Brescia, padre Faustino Negrini, já falecido, enquanto exercia o ministério de exorcista no pequeno santuário de Stella, contou-me que obrigou o demônio a fazer a apologia de Nossa Senhora. Perguntou-lhe:

- Por que é que tens tanto medo quando nomeio a Virgem Maria?
- Porque é a criatura mais humilde de todas e eu sou o mais soberbo; é a mais obediente e eu sou a mais rebelde (a Deus); é a mais pura e eu sou o mais imundo - ouviu-o responder pela boca da endemoninhada.

Em 1991, quando exorcizava um endemoniado, lembrei-me deste episódio e repeti ao demônio as palavras ditas em honra de Maria e conjurei-o a que me respondesse, sem fazer a mais pálida idéia do que diria:

- A Virgem Imaculada foi elogiada por três virtudes. Agora, você vai me dizer qual é a quarta virtude que o faz ter tanto medo.
- É a única criatura que me pode vencer inteiramente, porque nunca foi tocada pela menor sombra do pecado.

Se é desta maneira que o demônio fala de Maria, que mais poderiam dizer os exorcistas? Limito-me à experiência que todos temos: palpamos a verdade de que Maria é realmente Medianeira de graças, porque é sempre Ela que obtém do Filho a libertação de alguém das garras do demônio. Quando se começa a exorcizar um endemoniado, um daqueles de quem o diabo se apossa realmente por dentro, somos insultados e gozados:

- Eu estou aqui muito bem... Nunca sairei daqui... Tu não podes nada contra mim... És muito fraco e estás a perder o teu tempo...

Mas, pouco a pouco, Maria vai entrando em campo e a música começa a mudar:

- É Ela quem quer... Conta Ela não posso nada... Diz-lhe que deixe de interceder por esta pessoa... Ela ama muito esta criatura... Bem, para mim acabou...

Também me aconteceu muitas vezes ser-me logo atirada à cara a intervenção da Senhora, desde o início do exorcismo:

- Eu estava aqui tão bem, mas foi Ela quem te mandou... Sei porque é que veio, porque foi Ela que quis... Se Ela não tivesse intervido, eu nunca te teria encontrado...

São Bernardo, no final do seu famoso Discurso do aqueduto, seguindo um fio de raciocínios estritamente teológicos, conclui com uma frase escultural: "Maria é toda a razão da minha esperança".

Aprendi esta frase quando era rapaz, enquanto esperava diante da porta da cela nº 5, em San Giovanni Rotondo; era a cela do Padre Pio. Depois, quis estudar o contexto desta expressão que, à primeira vista, poderia parecer simplesmente devocional. Saboreei a sua profundidade, a sua verdade e o encontro entre doutrina e experiência prática. Por isso, repito-a espontaneamente a quem está em dificuldades ou desespera, como acontece frequentemente a quem foi atingido por danos maléficos: "Maria é toda a razão da minha esperança".

D'Ela nos vem Jesus; e de Jesus todo o bem. Foi este o desígnio do Pai; um desígnio que não muda. Toda a graça chega até nós pelas mãos de Maria que obtém para nós aquela efusão de Espírito Santo que liberta, consola e alegra.

São Bernardo não hesita em exprimir estes conceitos com uma afirmação corajosa que marca o ponto mais alto do seu discurso e que inspirou a Dante aquela famosa oração à Virgem

"Veneramos Maria
com todo o ímpeto do nosso coração,
dos nossos afetos e dos nossos desejos.
Assim que Aquele que estabeleceu
que recebêssemos tudo
por intermédio de Maria."

É esta a experiência que, concretamente, todos os exorcistas experimentam sempre.

Pe. Gabriele Amorth, Novos Relatos de Um Exorcista

Conversa entre um exorcista e um satanista


Testemunho do Fr. Christian Cruty, O.F.M., exorcista de Avinhão, França.

"Sendo exorcista de uma grande cidade francesa, onde exerci o meu ministério à sombra da Virgem Bendita, aconteceu de acolher muitos infelizes, atormentados ou perseguidos por Satanás, ouvir muitas confissões libertadoras e ser testemunha de libertações ou curas, que somente posso atribuir à intervenção misericordiosa da Mãe de Deus, mediante a oração de exorcismo da Igreja, de quem sou servo e instrumento. Entre muitos fatos, parece-me proveitoso contar um deles, que me deixou completamente perplexo.

Entra no meu escritório um homem estranho e esquisito. Tudo nele é claramente insólito: o aspecto, o comportamento, a roupa extravagante e, sobretudo, um cheiro estranho, repelente, fétido! Não era cheiro de vício, mas de qualquer coisa indefinível, entre o ovo choco e enxofre. Pensei imediatamente que poderia ser um determinado tipo de incenso, usado em certas seitas de blasfêmias, que, com o tempo, impregna as roupas dos participantes.

Aquele homem, com o seu comportamento enigmático e curioso, parecia me indagar, para adivinhar os meus pensamentos e os meus sentimentos. E, no entanto, eu percebia que não desconfiava de mim, mas de alguém que não eu. De fato, de vez em quando, virava-se de lado ou baixava a voz, de modo que poderia ser ouvido apenas por mim. Mas nós estávamos a sós! Primeiro, pensei que temesse ser visto ou ouvido por algum dos meus penitentes; mas, depois, compreendi que tinha medo de ser espiado ou seguido por um membro da sua seita ou , mais precisamente, do malefício ou da bruxaria de que se tornava escravo.

A sua roupa, roxo e cinza, tinha um corte estranho. Pouco a pouco, fui me lembrando de já tê-lo visto reproduzido numa revista que se falava de uma missa satânica: era precisamente um daqueles paramentos litúrgicos. Depois, foi ele mesmo quem me disse:

- O meu mestre trabalha, sobretudo, à noite.

E continuem a pensar que se tratava, segundo a tal revista, de uma liturgia luciferina. Este homem disse que praticava o ocultismo e a magia negra. Era uma confissão que muitos outros já tinham me feito, mas em busca de libertação. Porém, eu não compreendia as intenções daquele visitante; confirmou que estava ligado a uma seita satânica com certo ritual, mas não parecia desejar ser libertado.

Eu pensava: por que veio me procurar? Certamente para obter uma libertação de Satanás. Ou talvez quisesse hóstias consagradas, para poder profaná-las? Ou esperava atrair-me a ti? Ou, então, apenas queria me anunciar a vitória, falava sempre dele, parecia que tinha uma grande mensagem e transmitir a este padrezinho de Cristo. Tomei imediatamente apontamentos sobre tudo o que me havia já dito. Eis uma parte:

- O meu mestre venceu você! Estamos destruindo a sua Igreja. É o meu mestre quem estabelece o equilíbrio entre as nações e domina completamente a sua Igreja. Deve reconhecê-lo! Sim, é evidente a força de Satanás no mundo, contra quem a própria Virgem nos avisa nas diversas aparições. Como é evidente que em muitos vacilam as três colunas (a Eucaristia, a Senhora e o Pontífice), também vacila a sua fé. Paulo VI e João Paulo II falaram; sobretudo fala do Apocalipse, da luta de Satanás. É a sua hora: mas é também a hora da Mulher vestida de Sol.

Quando interrompeu o seu monólogo e me permitiu falar, fiz que percebesse que a vitória do demônio é só provisória e aparente, por algum tempo. Com a sua cruz, Jesus venceu Satanás precisamente no momento em que Satanás se considerava vencedor e assim acontecerá com a Igreja: a sua paixão atual põe em marcha aquela renovação interior que prepara para o novo Pentecostes, muitas vezes anunciado e tão desejado. Satanás é uma das muitas criaturas de Deus, criada boa e que se perverteu por sua culpa.

"Não! Satanás é igual a Deus!", apressou a dizer o meu interlocutor, quando percebi que não queria falar de Jesus, mas apenas de Deus. "A sua rebelião contra Ele foi um sucesso!" E, de vez em quando me perguntava: "Mas não tem medo do meu mestre?"

De início, esta frase, frequentemente repetida, soava-me como uma ameaça; depois foi revelando que havia nela um medo íntimo, porque Satanás vê tudo e ouve tudo. Reafirmei que lhe falava em nome de Jesus, de quem era sacerdote, e que nada me podia acontecer sem a Sua permissão. Além do mais, eu tinha a proteção da Virgem, sobretudo durante os exorcismos.

Não o agradava que eu falasse da Virgem e esforçava-se por desviar a conversa para o seu mestre, Satanás. Então, recordei-lhe o Proto-Evangelho: "Farei reinar a inimizade entre ti e a Mulher". Ele aceitou a conversa, mas com uma interpretação sua: "E Satanás morder-lhe-á o calcanhar, quer dizer que a vencerá". Depois, passei a explicar a respeito da visão do Apocalipse, sobre a Mulher vestida de Sol, a luta com o dragão vermelho que é derrotado por Miguel. Eu pensava que também haveria discussão sobre os textos bíblicos que narram as tentações de Cristo. Mas o assunto Maria operou uma reviravolta na nossa conversa: diante deste tema, começou a se sentir indisposto, angustiado e, por fim, desesperado.

Primeiro tinha-lhe dito que o seu mestre não lhe poderia dar a paz do coração nem, muito menos, a felicidade. Pelo contrário, Jesus dava a paz e a alegria; libertava, precisamente, do poder de Satanás que, no máximo, prometia dinheiro, poder e glória humana. Dentro de mim, orava incessantemente à Virgem Maria e, assim, via que ele ia perdendo terreno e recuava; estava claro que só tinha medo do seu mestre. Então, falei para ele sobre o amor do meu Mestre, que morreu para me salvar e perdoou tudo. Ele falou da sua blâsfemia (a sua mudança de opinião) num tom de verdadeiro desespero. Só depois, quando refleti, é que me lembrei da sua referência ao pecado contra o Espírito Santo e me pareceu que aquele desgraçado não deveria ser plenamente culpado disso.

Convidei-o para se arrepender e deixar o seu mestre; disse-lhe que, todas as noites, eu pedia perdão a Deus por todos os pecados e também pelas blasfêmias. Aquele homem parecia perturbado, prensado entre dois sentimentos: a esperança e a desesperança. Perguntei-lhe se aceitaria que eu orasse por ele. Pareceu-me favorável e fiz interiormente um breve exorcismo para expulsar Satanás; depois, repeti-o em voz alta.

Era demasiado! Levantou-se como se fosse fugir, mas, antes, disse-me o seu nome: Pedro. E saiu correndo.

Ainda hoje me interrogo sobre o significado daquela visita. Aquele homem terá sido enviado por Satanás para me desviar? Terá sido mandado pela Senhora para ser convertido, ou, pelo menos, para que orasse por ele? A verdade é que pude ver palpavelmente como é difícil, para um membro de uma seita satânica, para quem é consagrado ao demônio, voltar para Deus."

Fr. Christian Cruty, O.F.M

Novos Relatos de Um Exorcista, Gabriele Amorth
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