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Dia de São Francisco de Assis, nosso Pai Seráfico.


Hoje, 4 de outubro de 2014, é dia de São Francisco de Assis, e, nesta época de crise generalizada, mesmo as grandes figuras da Igreja terminam sendo distorcidas e instrumentalizadas para fins ideológicos. Dentre estes, o que mais sofreu com deformações foi sem dúvida o Poverello.

Se o leitor é um católico comum, que aprende religião nos meios ordinários de catequeses e homilias, é quase que certo que você tem uma idéia equivocada de Francisco. Na verdade, ele não é um hippie. Também não é verdade que ele se opôs à dita pompa da Igreja. A oração comumente atribuída a ele - Senhor, fazei-me instrumento... - tampouco é dele. Também não tem muito sentido dizer que Francisco tinha preocupações ecológicas. O lobo de Gubbio também é um conto mítico, embora seja de fato belo, etc, etc.

Como se pode ver, Francisco não foi o que se conta. Essa imagem natureba e hiponga que fizeram dele é, na verdade, um constructo tão real quanto o Goku. Quem foi São Francisco, então?

Ele era mais duro do que se pensa, embora também fosse profundamento terno. Extremamente rigoroso com relação às regras e materiais litúrgicos; rigoroso também nas suas palavras e nos seus hábitos. Francisco acostumou-se a uma mortificação extrema, ao ponto de raramente comer algo que fosse considerado de fato aproveitável por uma pessoa moderna. Quando a comida era fresca e boa, ele costumava misturar-lhe cinzas. As duras mortificações de Francisco, os seus olhos fundos de chorar, etc., não seriam qualidades apreciadas pelos católicos paz e amor de hoje, acostumados com padres galãs e cantores. Francisco, se vivesse entre nós, seria antes confundido com um desses intolerantes dogmáticos, pois, de fato, ele era assim.

Francisco não pode também ser aclamado com padroeiro dos coelhos, formigas e cogumelos. Na verdade, ele é o santo do Crucificado. Esta era a única coisa que ele dizia saber: Cristo crucificado. Inimigo do politicamente correto, dizia querer encher a boca do demônio de fezes, e pedia para lhe pisarem - a ele mesmo - na boca, acusando-o de falta de humildade.

Suas orações, jejuns e rigores, no entanto, não lhe impediam a alegria, é verdade; antes, eram causas dela, de uma alegria verdadeira e tão extasiante que fazia eco daquela promessa: "que a Minha alegria esteja em vós, e que seja plena"; mas esta alegria não era isenta de gravidade. 

Que Francisco tenha sido um mistério, ele mesmo o diz: "infeliz o homem que não tem segredos com o seu Senhor." O pouco que sabemos sobre suas orações vem de irmãos "espiões" que, sem permissão, iam olhá-lo nos seus momentos de intimidade com Deus e não raro viam-no levitar, ou comunicar-se com estranhas luzes, ou ainda estar acompanhado de multidões de santos e anjos.

Sua identificação com o Cristo foi tanta que ele recebeu, literalmente, as marcas da Paixão. Seu despojamento foi tanto que ele quis morrer nu, no chão. Seu amor a Deus foi tão violento que ele chamou a morte de irmã, e pediu perdão ao irmão corpo por ter sido tão duro com ele; até hoje sentimos a força daquele amor que abalou o mundo e fez São João Paulo II dizer: "Francisco, o mundo tem saudades de ti".

Que São Francisco de Assis, esposo fidelíssimo da Dama Pobreza, imitador perfeito do Cristo Crucificado, interceda por nós nestes tempos tão difíceis, e nos conceda de Deus a graça de o imitarmos com o coração decidido e o espírito resoluto.

Francisco de Assis, rogai por nós.

São Francisco de Assis


Hoje é dia de S. Francisco de Assis, que na época da adolescência foi o meu santo de devoção. Francisco foi o primeiro de todos a me encantar pela vida religiosa e pela mística em geral. Eu costumo dizer que foi ele quem me acordou para essa nova dimensão da realidade.

São Francisco de Assis é um santo muito conhecido pela devoção popular. Isso tem seu lado positivo, mas também seu lado negativo. Quando uma coisa fica muito conhecida é muito mais fácil de ser distorcida. E isso, infelizmente, tem acontecido com ele. Quem nunca ouviu falar que São Francisco é o santo da ecologia, do bom mocismo, da fraternidade com todos, etc? É muito comum mostrá-lo assemelhado aos hippies. Basta ver um filme sobre ele que, na época, ficou famosíssimo: Irmão Sol, Irmão Lua, do Franco Zeffirelli. Todo a gravidade da personalidade do Poverello é tratada aí como inexistente. Mas quem o conhece para além dos filmes e musiquinhas legais do Pe. Zezinho sabe como ele sabia ser duro.

O mundo interior de Francisco também não é muito conhecido. E isso porque ele era muito reservado. Nós conhecemos, claro, vários episódios de sua vida, contados principalmente nos Fioretti, na sua biografia escrita por Tomás de Celano e em livros de S. Boaventura. Porém, é nestes próprios escritos que vemos como ele era "fechado" quando se tratava de seu eu com relação a Deus. Muitos dos êxtases e orações de Francisco chegaram até nós graças a bisbilhoteiros e curiosos que o iam espionar durante seus momentos de recolhimento, quase sempre a contragosto dele. Já dizia alguém que o pior inimigo de um santo são os seus biógrafos. E isso com certeza ocorre com S. Francisco de Assis. Santo da humildade, teria preferido passar oculto aos olhos do mundo e manter seus "segredos com o Senhor" desconhecidos. Porém, quis a providência que soubéssemos algo deste gigante da vida interior.

Das virtudes cristãs, a que ele mais estimava era a da Pobreza Interior e se hoje eu estimo tanto este ponto da vida espiritual, isto se deve principalmente a ele. Na adolescência, quando somos tão sensíveis às vaidades do mundo, eu aprendi a ter como sonho de consumo a humildade de Francisco. Gostava de cortar pelo meio algumas das minhas frescuras e dos meus apegos. Mas é claro que eu mantinha outros tantos, principalmente os mais sutis, dos quais só vim me dar conta inteiramente mais tarde.

A pobreza, portanto, foi a grande amada de Francisco, ao ponto de ele chamá-la de esposa. Uma esposa exigente e uma bela viúva, pois seu primeiro esposo, fidelíssimo, havia sido o Cristo, morto na Cruz. Quem quiser, portanto, entender o santo de Assis deve mergulhar no mistério da Pobreza, não da pobreza social, que não tem nada a ver, mas no da pobreza de coração, daquela pobreza de que Jesus fala: felizes os pobres de coração porque deles é o Reino dos Céus.

Esta pobreza é representada de modo perfeito e total pela Cruz do Senhor. Ela é símbolo do total esvaziamento do Filho de Deus. Portanto, serve como síntese perfeita da vida cristã. É por isso que São Francisco de Assis rejeitará atalhos e falsos caminhos e se tornará um santo do Crucificado. E sua proficiência neste caminho foi tal que ele chegou a receber nos seus membros os estigmas da Paixão.

É importante dizer que a pobreza total de Francisco abriu espaço na sua alma para o amor extremamente violento de Deus. Francisco foi alguém que se consumiu no fogo do amor divino, do mesmo modo como uma mariposa é atraída pela chama. E ele lançou-se sem pensar em mais nada. Deu-se inteiramente sem exigir condições nem garantias. Havia aprendido este modo de agir com o próprio Deus durante as durezas de suas penitências e as vigílias que o deixavam com os olhos fundos. Mas compensou! Francisco é também conhecido como o santo da alegria, e ele de fato o foi. A alegria real surge da plena conformação com o Filho de Deus. É por isso que Francisco já não cabia em si de felicidade, de modo que este mundo já não podia contê-lo. Ele era maior que este mundo. Precisava de novas amplidões, de novos horizontes que pudessem conter a vida que ele trazia na alma. 

Faço aqui um apanhado geral. Somente quero dizer que, se quisermos entender Francisco, temos de olhar para algo mais do que a sua aparência e o fato de ele gostar de fazer carícias em animais e de falar com os pássaros. É na sua alma que reside o segredo que dá significado a tudo aquilo que ele fazia. Não o distorçamos. Peçamos, antes, a ele que interceda por nós a fim de que, também a nós, seja dada a graça de uma pobreza interior verdadeira, de um amor violento a Deus e de uma alegria e liberdade profundas!

"Quando à pobreza se une a alegria, não há cobiça nem avareza".

São Francisco de Assis, rogai por nós.

Dia do Pai Seráfico, São Francisco de Assis


"São Francisco era magro, pequeno e vivaz - fino como um cordel, vibrante como a corda de um arco, e, nos seus movimentos, semelhante a uma flecha disparada. A vida toda ele foi um conjunto de mergulhos e de fugas: correndo atrás do mendigo, ou nu pela floresta, atirando-se para o estranho navio, ou se arremessando para a tenda do sultão e propondo atirar-se ao fogo. Exteriormente, deve ter-se assemelhado ao esqueleto muito fino e amarelado de uma folha outonal, a dançar eternamente adiante do vento; em verdade, porém, ele é que era o vento.

G.K. Chesterton, Biografia de Sto Tomás de Aquino.

02 de Agosto - Dia de Indulgência Plenária


Pessoal, hoje, dia 02 de Agosto, todos nós podemos obter a grande graça da Indulgência Plenária, desde que observemos alguns requisitos.

Esta indulgência foi, primeiramente, conseguida por S. Francisco de Assis após um encontro místico com Jesus, no ano de 1216. Estando recolhido em oração na igreja de Santa Maria dos Anjos, S. Francisco obteve de Nosso Senhor uma celestial visita e a graça de lhe ser concedido o que desejasse. Ele pediu, então, que todos aqueles que entrassem naquela igrejinha da Porciúncula, em Assis, recebessem o perdão total de seus pecados, tanto das culpas quanto das penas. Jesus, após lhe dizer que aceitava seu pedido, mandou-o solicitar tal graça com o Santo Padre, na época o Papa Honório III.

Não obstante fosse um pedido incomum, o Santo Padre, adivinhando a sua natureza verdadeiramente sobrenatural, lho concedeu tal graça, e a estendeu para sempre. Esta graça foi, depois, concedida a todas as igrejas católicas do mundo, de modo que nós podemos obter o produto do pedido de Francisco na nossa própria paróquia.

Vamos, então, aos requisitos:

1- É preciso estar em Estado de Graça, isto é, estar sem NENHUM pecado mortal.
2- Visitar uma igreja católica.
3- Rezar o Credo, Um Pai Nosso e um Glória, suplicando a Indulgência.
4- Rezar um Pai Nosso, Uma Ave Maria e um Glória pelas intenções do Santo Padre.
5- Comungar
6- Ter uma total aversão ao pecado.

Lembramos que esta Indulgência pode ser aplicada também em favor de alguma alma do Purgatório ou pela conversão de terceiros.

Aproveitemos, pois.

São Francisco de Assis e a Vocação Mais Perfeita


Thomas Merton

Estes pensamentos sobre a vocação são evidentemente incompletos. Mas há uma lacuna que precisa ser preenchida para evitar toda a confusão. Falamos das vidas ativa e contemplativa, sem até aqui nos referir à vocação que S. Tomás coloca acima de qualquer outra? a vida apostólica em que os frutos da contemplação são divididos com outros.

Em lugar de falar teoricamente desta vocação, consideremo-la, antes, em sua perfeita encarnação num dos maiores santos: Francisco de Assis A estigmatização de S. Francisco foi o sinal divino de que ele foi de todos os santos o mais semelhante a Cristo. Ele conseguiu, mais do que nenhum outro, reproduzir em sua vida a simplicidade, a pobreza e o amor de Deus e dos homens, que marcaram a vida de Jesus. Mais do que isso, Ele foi um Apóstolo que encarnou perfeitamente o espírito e a mensagem do Evangelho. Conhecer S. Francisco é simplesmente compreender o Evangelho, e segui-lo no seu verdadeiro e integral espírito, é viver o Evangelho em toda a sua plenitude. O gênio da sua santidade fê-lo capaz de comunicar ao mundo os ensinamentos de Cristo não neste ou naquele aspecto, não em fragmentos desenvolvidos pelo pensamento e a análise, mas na total plenitude da sua simplicidade existencial. S. Francisco foi, como devem ser todos os santos, simplesmente "um outro Cristo".

Sua vida não reproduziu somente este ou aquele mistério da vida de Cristo. Ele não se contentou de reviver as humildes virtudes da infância divina e da vida oculta em Nazaré. Não foi só tentado como Cristo no deserto ou cansado como Ele nas viagens do seu apostolado.  Não fez só milagres como Jesus. Não foi, apenas, crucificado como Ele. Todos esses mistérios foram unidos na vida de Francisco, e nós os encontramos todos ali, ora em separado, ora em conjunto. Cristo ressuscitado reviveu perfeitamente nesse santo que foi completamente possuído e transformado pelo Espírito da divina caridade.

A frase de S. Tomás, contemplata aliis tradere (dividir com outros os frutos da contemplação), não é retamente compreendida se não temos em mente a imagem de um S. Francisco andando pelas estradas da Itália medieval, transbordando de alegria com a mensagem que só podia ser-lhe diretamente comunicada pelo Espírito de Deus. A sabedoria e a salvação pregadas por Francisco foram não apenas a exuberância da mais alta espécie de vida contemplativa, mas foram simplesmente a expressão da plenitude do Espírito cristão, isto é, do Espírito Santo.

Homem algum poderá ser um apóstolo de Cristo, se não é cheio do Espírito Santo. E homem algum é cheio de Espírito Santo, se não faz o que normalmente se espera de um homem que segue Cristo até o fim: abandonar todas as coisas, para recobrá-las em Cristo.

O que há de notável em S. Francisco, é que no sacrifício que fez de todas as coisas, ele incluiu também todas as "vocações", no sentido limitado do termo. Edificados durante séculos pelos vários ramos da família religiosa franciscana, ficamos surpresos de pensar que S. Francisco se pôs em marcha nas estradas da Umbria, sem a menor idéia de possuir uma "vocação franciscana". E de fato não possuía. Ele lançara aos ventos todas as vocações, com as suas vestes e outras possessões. Não se considerava um apóstolo, mas um mendigo errante. Certamente não se tomou por monge; se tivesse querido ser monge, teria achado uma porção de mosteiros para entrar. E, evidentemente, não era também consciente de ser um "contemplativo". Nem se preocupava com comparações entre as vidas ativa e contemplativa. Levava, entretanto, as duas ao mesmo tempo, e com a mais alta perfeição. Nenhuma boa obra lhe foi estranha, nenhuma obra de misericórdia, corporal ou espiritual, faltou em sua bela vida! Sua liberdade abraçava tudo.

Francisco poderia ter sido ordenado padre. Recusou por humildade (pois isso também teria sido uma "vocação", e ele estava acima das vocações). Mas tinha, de fato, a perfeição e a quintessência do espírito apostólico de sacrifício e caridade, que são necessários na vida de cada sacerdote.

É preciso um instante de reflexão para aceitar o pensamento que S. Francisco nunca disse Missa, o que é difícil de crer a quem for penetrado do seu espírito.

Se havia em seu tempo uma vocação reconhecida, que Francisco podia ter associado com a sua vida, era a de eremita. Os eremitas foram os únicos membros duma classe definida de religiosos, que ele imitou com nitidez. Saía, frequentemente, para as montanhas a rezar e a viver solitário. Mas não pensou, jamais, que tinha a "vocação" de só fazer isto. Ficava sozinho enquanto o Espírito o conduzia à solidão, e depois deixava-se levar de volta às cidades e aldeias, pelo mesmo Espírito.

Se ele tivesse pensado nisso, poderia ter reconhecido que a sua vocação era essencialmente "profética". Era como outro Elias ou Eliseu, ensinado pelo Espírito na solidão, mas reconduzido por Deus às cidades dos homens com uma mensagem a dizer-lhes. As muitas facetas da vocação de um S. Francisco mostram que aqui ultrapassamos os ordinários "estados de vida". Mas é por este motivo mesmo que, ao falar de "vida mista", ou de "vocação apostólica", faríamos bem em pensá-las em termos de um S. Francisco ou de um Elias. A "vida mista" é muito facilmente reduzida ao seu nível mais baixo, onde ela não é mais que uma forma da vida ativa. Nesse plano, ela perde em comparação com a vida contemplativa. Por quê? Porque a dignidade da vida apostólica, segundo S. Tomás, deriva não do elemento de ação que ela contém, mas do elemento de contemplação. Uma vida de pregação sem contemplação não passa de uma "vida ativa", e, embora possa ser muito santa e meritória, não pode reivindicar a dignidade atribuída por S. Tomás à vida que "divide, com outros os frutos da contemplação".

Mas na proporção em que um frade mendicante se aproxima do ideal de fundador, na proporção em que ele vive a pobreza e a caridade de Francisco ou Domingos, e mergulha no conhecimento amoroso de Deus que só a poucos é concedido, na proporção em que se abandona ao Espírito Santo, ele ultrapassará de muito a perfeição contemplativa daquele cuja contemplação é um dom recebido para si somente.

MERTON, Thomas. Homem Algum É Uma Ilha. Rio de Janeiro: AGIR, 1968. p. 139-141.

Dois modos equivocados de Franciscanismo



Ontem foi dia do seráfico pai do franciscanismo, um homem que, não obstante o seu profundo amor à Dama Pobreza - e justamente por causa disso - , enriqueceu o nosso mundo e a história do cristianismo. A seu respeito, muito acertadamente, disse o beato João Paulo II: "O mundo tem saudades de ti..."

Francisco era um mistério; era um sujeito que tornava o sobrenatural quase visível e, de fato, já o trazia impresso na própria carne nos seus últimos dias de vida. Muito embora seja um dos santos mais conhecidos da Igreja, Francisco é, na verdade, muito pouco conhecido. Ele mesmo afirmava que é infeliz o homem quando não tem segredos com o seu Senhor. Muito inclinado ao recolhimento e ao silêncio, alguns segredos de Francisco só foram descobertos devido à curiosidade de alguns irmãos que o iam espionar em suas orações. É por eles que, hoje, conhecemos alguns dos seus êxtases e dos seus colóquios com personagens do outro mundo.

Seja como for, Francisco foi um grande santo porque quis unicamente, em tudo, conformar-se, isto é, tomar a mesma forma de Nosso Senhor Jesus Cristo. Para tal, entregou toda a sua vida e combateu como verdadeiro cavaleiro - Francisco amava esse estilo cavaleiresco - contra o seu amor próprio e todo tipo de vaidade. Absolutamente vitorioso sobre si mesmo, desprezando-se com rigor, adquiriu uma tal violência de amor por Deus que o simples fato de pôr os olhos num crucifixo lhe fazia derramar copiosas lágrimas. Tinha os olhos fundos e um corpo fragilizado pelas longas vigílias e pelas constantes penitências que ele mesmo se impunha.

Pois bem! O Francisco que hoje, no mais das vezes, é divulgado por aí, inclusive pelos frades da sua Ordem, é qualquer outra coisa: o santo da ecologia, o santo do ecumenismo (por causa da sua conversa com o sultão...), o santo da paz universal e sincrética, o santo do bom mocismo, etc. E isso quando Francisco não é utilizado como instrumento de ideologia de esquerda. E é sobre estes dois erros que quero tratar bem sucintamente. Há muita gente por aí que ama Francisco - que até assistiu o filme hippie que fizeram dele, o "Irmão Sol Irmã Lua" que, porém, é mesmo um clássico, rs - e que simplesmente não vai às fontes e fica a admirar um personagem inventado, um homem bobinho que era só sorrisos e gostava de deitar na relva e defender os animaizinhos. Ou isso, ou a redução de toda a espiritualidade franciscana - que é altíssima - ao trabalho social com os marginalizados.

Falemos de um e de outro.

Primeiramente, S. Francisco só muito secundariamente poderia ser tido como um representante do Green Peace. O seu amor pela natureza - que realmente existiu - não era algo que 'parava' nas plantinhas e nos animaizinhos. Na verdade, o que fazia com que Francisco ficasse comovido era saber que toda e qualquer criatura fala do seu Criador. Quando o Poverello contemplava as flores ou a perfeição das pedras, tudo isto lhe servia de meditação sobre Deus. Era do seu intenso amor a Deus que brotava o seu amor por todas as coisas. Vemos isto de modo muito claro no seu "Cântico das Criaturas" que, na verdade, não é um louvor das criaturas, mas de Deus pelas criaturas.

Portanto, fazer o amor de Francisco ter como fim último a plantinha lá ou o animalzinho cá é cair num reducionismo absurdo que torna a figura deste santo somente um caricato bobo daquilo que ele foi de verdade. O que abundava em Francisco era o dom da Sabedoria pelo qual o cristão nota a relação entre tudo o que existe e Deus. O que fazia Francisco admirar a criação era a sua abertura à transcendência, era o seu olhar voltado para o alto. Uma vez que conhecia e amava a Deus, Francisco passava a amar tudo aquilo que era obra de Suas mãos. O contrário, porém, não é o amor franciscano. Fechar-se numa perspectiva imanente significa, antes, fechar-se para o profundo conhecimento das criaturas e, logo, para o verdadeiro amor delas em Deus. A idéia de um amor alternativo a Deus é equivocada. E, no entanto, abundam as manifestações deste tipo de "franciscanismo".

O mesmo pode ser dito com relação à ênfase franciscana no aspecto social. Francisco sabia que todos os homens somos filhos de Deus porque criados por Ele e que, em especial, os mais sofridos - na sua época, os leprosos e os mendigos - representavam como uma segunda encarnação de Cristo. Jesus havia dito: "O que fizerdes a um destes pequeninos, é a mim que o fazeis". Francisco, então, sabendo do mistério que envolve o ser humano, e compreendendo que é Deus mesmo Quem se esconde nestes desfavorecidos, os servia com amor e resignação. Não é que Francisco desconsiderasse a individualidade de cada homem. Ao contrário: era por amar tanto a Deus e ser íntimo do mistério da Sua cruz, que Francisco, conhecendo agora mais perfeitamente a dignidade singular de cada sujeito e vislumbrando neles a figura sofrida de Jesus, os acolhia e os abraçava. Novamente, temos um trabalho social que aure sua força e sua razão de ser do alto e, portanto, só pode ser compreendido numa perspectiva transcendente.

Porém, tornou-se comum um tipo de "franciscanismo" que, de novo, foca o social pelo social, num claro testemunho de naturalismo que, em última instância, significará uma porta aberta ao ateísmo prático, a uma desvirtuação da caridade, fazendo desta mera filantropia. Quando, de volta ao fechamento imanentista, nós nos prendemos estritamente à imediaticidade do que vemos, resulta disto que não compreenderemos a profundidade dos indivíduos que temos diante de nós, reduzindo o nosso serviço apenas ao aspecto físico e/ou, se muito, ao subjetivo. Mas, de novo, fizemos um mutilação no sujeito que pretendíamos ajudar, ignorando um aspecto importantíssimo e crucial para que pudéssemos promovê-lo na totalidade. Sem aproximá-lo de Deus, o que fizermos estará circunscrito, forçosamente, ao âmbito do efêmero. Teremos rebaixado toda a nossa intervenção a uma busca de conforto do outro. Não estou a dizer que isto não seja importante, mas, de fato, não basta. Não era essa a intenção primeira de Francisco. Sabia ele que nós ajudamos alguém em profundidade quando pomos diante dos seus olhos, mesmo a partir de atos comuns, a perspectiva da eternidade. É só quando permitimos ao sujeito expor-se à luz divina que ele passa a compreender quem, de fato, é e tende, a partir disso, a ressignificar o seu presente à luz do transcendente. É quando somos motivados pela altíssima dignidade de uma alma imortal que podemos dispender os maiores esforços na luta pela sua defesa também no aspecto físico. O que importa é não se fechar.

Várias correntes franciscanas, porém, aderiram ao método marxista de trabalho social. Não se pode dizer que a sua intenção seja má, visto que as formações contemporâneas de frades e padres são, na imensa maioria das vezes, muito defasadas e claramente inclinadas a um viés ideológico. Mas, optar por este tipo de prática é renegar o seguimento do exemplo puro de Francisco. É meter a foice comunista no real e ficar só com o que é material e contingente. E, sinceramente, inspirar-se numa ideologia que é problemática, seja na leitura do processo histórico, seja na metodologia de ação, seja ainda na finalidade a que se ordena, é, obviamente, renunciar a qualquer possibilidade de uma ajuda mais profunda e mais real. O que vicia estas comunidades de esquerda, mesmo quando se declaram católicas, é que elas tendem a entender as questões metafísicas e espirituais como se fossem uma realidade de segunda ordem, algo menos real do que o real aparente, dando, daí, absoluta primazia a este último. Mas isto significa uma inversão radical da ordem das coisas e este tipo de avesso não pode produzir nenhum fruto duradouro e benéfico, pois tem fundamento num erro e, portanto, se opõe à verdade, sendo desta uma negação prática.

Enfim, quando falarmos de franciscanismo, tenhamos estas coisas em vista. Não sejamos precipitados na leitura da figura de Francisco. Ele é um sujeito que é difícil de esgotar e, mesmo, de entender. Mas, se quisermos nos aproximar ao menos um pouco desta santa figura, não o deveremos fazer senão entendendo o seu profundíssimo amor a Cristo Crucificado, fonte de toda a sua espiritualidade, e o seu esponsal com a Dama Pobreza, o tesouro escondido de Francisco, como ele mesmo disse:

"Vou me casar com uma noiva nobre e bonita como vocês nunca viram, que ganha das outras em beleza e supera a todas em sabedoria"

Franciscanismo com abstração de Cristo, ainda que sutil, seja de cunho ecológico ou de viés social, é somente ludibriação.

Que Francisco nos ensine, a nós que somos seus devotos, a compreender minimamente o mistério da sua vida e interceda para que Nosso Senhor nos dê forças de imitá-lo naquilo que a nós compete.

Fábio

Descrição de S. Francisco de Assis e do seu amor pelas criaturas


Tomás de Celano

Seria muito longo e praticamente impossível enumerar e descrever tudo que o glorioso pai São Francisco fez e ensinou durante a sua vida. Como contar o afeto que tinha para com todas as coisas de Deus? Quem seria capaz de mostrar a doçura que sentia quando contemplava nas criaturas a sabedoria, o poder e a bondade do Criador? Ao ver o sol, a lua, as estrelas e o firmamento, enchia-se muitas vezes de alegria admirável e inaudita. Piedade simples,simplicidade piedosa!

Tinha um amor enorme até pelos vermes, por ter lido sobre o Salvador: Sou um verme e não um homem. Recolhia-os por isso no caminho e os colocava em lugar seguro, para não serem pisados pelos que passavam. Que poderei dizer mais sobre as outras criaturas inferiores, se até para as abelhas, para que não desfalecessem no rigor do frio, fazia dar mel ou um vinho de primeira? A operosidade e o engenho das abelhas exaltavam-no a tão grande louvor de Deus que muitas vezes passou o dia louvando a elas e às outras criaturas.

Como os três jovens de antigamente, colocados na fornalha em brasa, sentiram-se convidados por todos os elementos para louvar e glorificar o Criador de todas as coisas, também este homem, cheio do espírito de Deus, não cessava de glorificar, louvar e bendizer o Criador e Conservador do universo por meio de todos os elementos e criaturas.

Que alegria a sua diante das flores, ao admirar-lhes a delicada forma ou aspirar o suave perfume! Passava imediatamente a pensar na beleza daquela flor que brotou da raiz de Jessé no tempo esplendoroso da primavera e com seu perfume ressuscitou milhares de mortos. Quando encontrava muitas flores juntas, pregava para elas e as convidava a louvar o Senhor como se fossem racionais. Da mesma maneira, convidava com muita simplicidade os trigais e as vinhas, as pedras, os bosques e tudo que há de bonito nos campos, as nascentes e tudo que há de verde nos jardins, a terra e o fogo, o ar e o vento, para que tivessem muito amor e louvassem generosamente ao Senhor.

Afinal, chamava todas as criaturas de irmãs, intuindo seus segredos de maneira especial, por ninguém experimentada, porque na verdade parecia já estar gozando a liberdade gloriosa dos filhos de Deus. Na certa, ó bom Jesus, ele que na terra cantava o vosso amor a todas as criaturas, estará agora a louvar-vos nos céus com os anjos porque sois admirável.

É impossível compreender quanto se comovia quando pronunciava vosso nome, Senhor santo! Parecia um outro homem, um homem de outro mundo, todo cheio de júbilo e do mais puro prazer. Por isso, onde quer que encontrasse algum escrito, de coisas divinas ou humanas, na rua, em casa ou no chão, recolhia-o com todo o respeito e o colocava em algum lugar sagrado ou decente, pensando que poderia referir-se ao Senhor ou conter seu santo nome.

Um dia, um frade lhe perguntou por que recolhia com igual apreço os escritos dos pagãos, onde não estava o nome do Senhor, e ele respondeu: "Meu filho, contêm as letras com que se escreve o gloriosíssimo nome do Senhor. O que há de bom neles não pertence aos pagãos nem a ninguém em particular, mas somente a Deus, 'de quem são todos os bens'". Outra coisa admirável é que, quando mandava escrever alguma carta de cumprimentos ou conselhos, não permitia que se apagasse alguma letra ou sílaba, mesmo que fosse supérflua ou errada.

Como era bonito, atraente e de aspecto glorioso na inocência de sua vida, na simplicidade das palavras, na pureza do coração, no amor de Deus, na caridade fraterna, na obediência ardorosa, no trato afetuoso, no aspecto angelical! Tinha maneiras finas, era sereno por natureza e de trato amável, muito oportuno quando dava conselhos, sempre fiel em suas obrigações, prudente no julgar, eficaz no agir e em tudo cheio de elegância. Sereno na inteligência, delicado, sóbrio, contemplativo, constante na oração e fervoroso em todas as coisas. Firme nas resoluções, equilibrado, perseverante e sempre o mesmo. Rápido para perdoar e demorado para se irar, tinha a inteligência pronta, uma memória luminosa, era sutil ao falar, sério em suas opções e sempre simples. Era rigoroso consigo mesmo, paciente com os outros, discreto com todos.

Muito eloqüente, tinha o rosto alegre e o aspecto bondoso, era diligente e incapaz de ser arrogante. Era de estatura um pouco abaixo da média, cabeça proporcionada e redonda, rosto um tanto longo e fino, testa plana e curta, olhos nem grandes nem pequenos, negros e límpidos, cabelos castanhos, pestanas retas, nariz proporcional, delgado e reto, orelhas levantadas mas pequenas, têmporas achatadas, língua pacificadora, ardente e penetrante, voz forte, doce, clara e sonora, dentes unidos, alinhados e brancos, lábios pequenos e delgados, barba preta e um tanto rala, pescoço esguio, ombros retos, braços curtos, mãos delicadas, dedos longos, unhas compridas, pernas delgadas, pés pequenos, pele fina, enxuto de carnes. Vestia-se rudemente, dormia pouco e era muito generoso.

E como era muito humilde, mostrava toda a mansidão para com todas as pessoas, adaptando-se a todos com facilidade. Embora fosse o mais santo de todos, sabia estar entre os pecadores como se fosse um deles.

Pai santíssimo que amas os pecadores, ajuda-os! Com tua poderosa intercessão e cheio de misericórdia, digna-te levantar os que vês prostrados na abjeção dos pecados.  

Tomás de Celano, Primeira Vida de S. Francisco, Cap. 29.

VAI COMEÇAR O PERDÃO DE ASSIS: MEIO-DIA DE 01 DE AGOSTO




Caríssimos ,
Ao meio dia de amanhã, I de agosto, começará o "Perdão de Assis", que se estenderá até o entardecer do dia 02 de agosto.
Abaixo o relato do acontecido e as Indulgências da Porciúncula  estendidas à humanidade inteira.
Boa Leitura.

Pe. Marcélo Tenorio

**
Certa noite do mês de Julho de 1216, como acontecia em tantas outras noites, na silenciosa solidão da pequena Igreja da Porciúncula, São Francisco ajoelhado, estava profundamente mergulhado nas suas orações, quando de súbito, uma luz vivíssima e fulgurante encheu todo o recinto e no meio dela, apareceu Jesus ao lado da Virgem Maria sorridente, sentados num trono e circundados por diversos Anjos. 
Jesus perguntou-lhe:“Qual o melhor auxílio que desejarias receber, para conseguir a salvação eterna da Humanidade?”

Sem hesitar Francisco respondeu: “Senhor Jesus, peço-Vos que, a todos os arrependidos e confessados, que visitarem esta Igreja, lhes concedais um amplo e generoso perdão, uma completa remissão de todas as suas culpas.”

“O que pedes Francisco, é um benefício muito grande,”disse-lhe o Senhor, “muito embora sejas digno e merecedor de muitas coisas. Assim, acolho o teu pedido, com uma condição, deverás solicitar essa indulgência ao meu Vigário na Terra.”

No dia seguinte, bem cedinho, Francisco acompanhado de Frei Masseu, seguiu para Perúgia, a fim de se encontrar com o Papa Honório III. Chegando disse-lhe:“Santo Padre, há algum tempo, com o auxílio de Deus, restaurei uma Igreja em honra a Santa Maria dos Anjos. Venho pedir a Vossa Santidade que concedais, nesta Igreja uma indulgência a quantos a visitarem, sem a obrigação de oferecerem qualquer coisa em pagamento (naquela época, toda indulgência concedida a uma pessoa, estava ligada à obrigação dessa pessoa fazer uma oferta), a partir do dia da dedicação da mesma.”

O Papa ficou surpreendido e comoveu-se com o tal pedido. Depois perguntou: “Por quantos anos pedes esta indulgência?”

“Santo Padre, não peço anos, mas penso em muitos homens e mulheres que precisam sentir o perdão de Deus”, respondeu Francisco.

“Que pretendes, em concreto, dizer com isto?” retorquiu o Papa.

“Se aprouver a Vossa Santidade, gostava que todas as pessoas que venham a visitar a Porciúncula, contritos de seus pecados, em “estado de graça”, confessado e tendo recebido a absolvição sacramental, obtenham a remissão de todos os seus pecados, na pena e na culpa, no Céu e na Terra, desde o dia de seu batismo até ao dia em que entre na Porciúncula.”

“Mas não é um costume a Cúria Romana conceder tal indulgência!"

“Senhor, disse o “Poverello”, este pedido não o faço por mim, mas por ordem de Cristo, da parte de quem estou aqui.”

Ouvindo isto o Papa cheio de amor repetiu três vezes:“Em nome de Deus, Francisco, concedo-te a indulgência que em nome de Cristo me pedes.”

Tendo alguns Cardeais, ali presentes, manifestado algum desacordo, o Papa reafirmou: “Já concedi a indulgência. Todo aquele que entrar na Igreja de Santa Maria dos Anjos da Porciúncula, sinceramente arrependido das suas faltas e confessado, seja absolvido de toda pena e de toda culpa. Esta indulgência valerá somente durante um dia, em cada ano, “in perpetuo”, desde as primeiras vésperas, incluída a noite, até às vésperas do dia seguinte.”

A “consagração” da Igrejinha aconteceu no dia 2 de Agosto do mesmo ano de 1216.

A Indulgência da Porciúncula somente era concedida a quem visitasse a Igreja de Santa Maria dos Anjos, entre a tarde do dia 1 Agosto e o pôr-do-sol do dia 2 Agosto. Em 9 de Julho de 1910, o Papa Pio X concedeu autorização aos Bispos de todo o mundo, só naquele ano de 1910, para que designassem qualquer Igreja Pública das suas Dioceses, a fim de que também nelas, as pessoas recebessem a Indulgência da Porciúncula. (Acta Apostolicae Sedis, II, 1910, 443 sq.; Acta Ord. Frat. Min., XXIX, 1910, 226). Este privilégio foi renovado por um tempo indefinido por decreto da Sagrada Congregação de Indulgências, em 26 março de 1911 (Acta Apostolicae Sedis, III, 1911, 233-4).Significa que, atualmente, qualquer Igreja Católica de qualquer país, tem o benefício da Indulgência que São Francisco conseguiu de Jesus para toda humanidade. Assim ganharão a Indulgência, todas as pessoas que estando em "estado de graça", visitarem uma Igreja nos dias mencionados, rezarem um Credo, um Pai-Nosso e um Glória, suplicando ao Criador o benefício da indulgência, e rezando também, um Pai-Nosso, uma Ave-Maria e um Glória, pelas intenções do Santo Padre. Poderão utilizar a Indulgência em seu próprio benefício, ou em favor de pessoas falecidas ou daquelas que necessitam de serem ajudadas na conversão do coração.

Por outro lado, a Indulgência é "toties quoties", quer dizer, pode ser recebida tantas vezes quantas a pessoa desejar, isto é, em cada ano, fazendo visitas a diversas Igrejas das 12 horas do dia 1 de Agosto até o entardecer do dia 2 de Agosto.

O maior dos dons do Espírito


"Acima de todas as graças e de todos os dons do Espírito Santo, os quais Cristo concede aos amigos, está o de vencer-se a si mesmo..." S. Francisco de Assis

S. Francisco de Assis, Pobreza e Simplicidade


Seu amor pela altíssima pobreza fez com que o homem de Deus aumentasse seu tesouro de santa simplicidade. Ele mesmo nada possuía de próprio desse mundo, mas parecia proprietário de todas as coisas e de todos os bens em Deus, Criador do mundo. Tinha uma visão , uma atitude de espírito, semelhante à simplicidade da pomba; tudo o que via, sua contemplação o colocava em relação ao soberano Artífice. Em cada objeto descobria o Criador, amando-o e louvando-o. Desse modo, por um favor da bondade do céu, chegou a possuir tudo em Deus e Deus em tudo. Pelo hábito de retornar sempre à origem de todas as coisas, dava o nome de Irmão e Irmã às criaturas, mesmo às mais humildes, uma vez que elas e ele haviam nascido do mesmo princípio. No entanto, tinha mais simpatia e amor por aquelas que, por sua natureza ou pelo simplismo bíblico, lembram o amor e a brandura de Cristo. Por isso os animais sentiam-se atraídos a ele, e mesmo as coisas inanimadas obedeciam à sua vontade, como se a simplicidade e a justiça do santo o tivessem já feito voltar ao estado de inocência original.  

S. Boaventura, Legenda Maior, As Virtudes Com Que Deus o Distinguiu

O saboroso odor do Amor + Download de Cd


Isso mesmo! O amor tem cheiro! Podemos observar isto naqueles vários casos em que santos e beatos morrem exalando um odor ao mesmo tempo saboroso e desconhecido deste mundo. Há muitos exemplos disto.

Em toda a literatura cristã, o amor sempre foi comparado ao perfume. O sacrifício da vida santa, porque ato contínuo de amor a Deus, sobe aos céus como incenso de agradabilíssimo odor. Quem ama de verdade cheira bem.

Isto ocorreu com S. Francisco de Assis. Enquanto ainda temeroso diante dos leprosos que lhe causavam náuseas, aquela beleza estava-lhe escondida. O cheiro do amor escondia-se sob a vis aparências da miséria. Mas, tão logo o cavaleiro da pobreza lançou-se a abraçar o irmão desprezado, realizou-se aquilo que pouco antes ele tinha escutado de Deus: "as coisas que consideravas saborosas, as verás sem gosto. Já o que tinhas até hoje por repugnante, te parecerá mais doce que o mel". E por trás do mau cheiro daquele corpo ferido, Francisco aspirou o aroma de flores de outras terras.

A Sagrada Escritura nos conta ainda o caso da pecadora que, adentrando numa reunião entre Jesus e um fariseu, lança-se aos pés do Senhor e quebra o seu perfume, um perfume caro que, no dizer do mau apóstolo, não deveria ser desperdiçado daquele modo. No entanto, Nosso Senhor lhe elogia e afirma que onde quer que o Evangelho fosse pregado, aquela sua atitude seria contada em sua memória. O evangelista diz ainda que o perfume encheu toda a casa. Mais uma vez, temos uma referência claríssima entre perfume, amor e sacrifício ou entrega. A mulher não poupou. Mais precioso do que aquilo que derramava era Aquele por Quem derramava. É como a vida que se deve dar por Jesus. No ato do verdadeiro abandono, ela reassume frescor e fecundidade; seu perfume enche a casa. É como a semente que morre e produz fruto. O amor, quando se dá, num ato oblativo, se sublima, se aperfeiçoa e torna-se maior. É um perfume que chega a Deus e Lhe agrada sumamente. 

No livro dos Cânticos, lemos o seguinte: "Enquanto o rei descansa em seu divã, meu nardo exala o seu perfume" (Ct 1,12). Enquanto Nosso Senhor persevera em Seu silêncio em nossos sacrários, como um Rei que dorme num barco em tempestade, importa que o nosso nardo, isto é, o nosso perfume ou a nossa vida, aquilo que precisa ser dado por Ele, exale o perfume d'Ele, o amor d'Ele, para que este mundo sinta desejos de conhecê-Lo e de amá-Lo. É pelo amor que nos reconhecerão como Seus discípulos. Que o Seu perfume esteja em nós.

Disponibilizo a trilha sonora do filme Chiara e Francesco, do Mons. Marco Frisina, e que é saborosa e, eu diria ainda, cheirosa... ^^ Cliquem na imagem do Post para baixar.

Pax.

Fábio.

Oração de S. Francisco de Assis, já depois de estigmatizado


Tu és santo, Senhor Deus, só tu operas maravilhas.
Tu és o forte.
Tu és o grande.
Tu és o altíssimo.
Tu és o rei onipotente, Pai santo,
Rei do céu e da terra.
Tu és o trino e uno, Senhro Deus, bem universal.
Tu és o bem, todo o bem, o sumo bem, Senhor Deus, vivo e verdadeiro.
Tu és a caridade, o amor.
Tu és a sabedoria.
Tu és a humildade.
Tu és a paciêcia.
Tu és a segurança.
Tu és o descanso.
Tu és a alegria e o júbilo.
Tu és a justiça e a temperança.
Tu és toda a riqueza, a nossa suficiência.
Tu és a beleza.
Tu és a calma.
Tu és a proteção.
Tu és o guarda e o defensor.
Tu és a fortaleza.
Tu és o alívio.
Tu és nossa esperança.
Tu és a nossa fé.
Tu és nossa inefável doçura.
Tu és nossa vida eterna, ó grande e admirável Senhor,
Deus onipotente, misericordioso Salvador.

Laudes Seráficas - Oração da Manhã - S. Francisco de Assis


Santíssimo Pai Nosso, Criador, Redentor, Salvador e Consolador.

Que estás nos Céus, nos Anjos e nos Santos, iluminando-os todos para que te conheçam, porque tu és, Senhor, a luz; inflamando-os para que te amem, porque tu és, Senhor, o amor; habitando neles e repletando-os para a visão beatífica, porque tu és, Senhor, o sumo bem, o bem eterno do qual procede todo bem e sem o qual nõ pode haver bem algum.

Santificado seja o teu Nome: que seja claro em nós o conhecimento de ti, para que saibamos qual é a largura de teus benefícios, o comprimento de tuas promessas, a altura de tua majestade e a profundidade de teus juízos.

Venha a nós o teu reino, para que reines em nós pela graça e nos faças chegar ao teu Reino, onde te veremos e será perfeito o amor a ti, beatífica a comunhão contigo, eterna a fruição de tua essência.

Seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu: que te amemos de todo o coração, pensando sempre em ti; de toda a alma, aspirando sempre por ti; de todo o nosso entendimento, ordenando a ti os nossos desejos todos e buscando em tudo a tua honra; de todas as nossas forças, empenhando todas as virtudes e sentidos da alma e do corpo a serviço do teu amor e a nada mais. E para amarmos o nosso próximo como a nós mesmos, atraindo-os todos, na medida de nossas forças, para o teu amor, alegrando-nos pela felicidade dos outros, como pela nossa, compadecendo-nos deles em suas tribuçaões e jamais os ofendendo.

Dá-nos hoje o pão nosso deste dia, o teu Filho bem-amado, Nosso Senhor Jesus Cristo; para a lembrança, a compreensão e o respeito pelo amor que ele teve por nós, bem como tudo o que por nós disse, fez e sofreu.

Perdoa-nos as nossas ofensas, por tua inefável misericórdia, em virtude da paixão de teu dileto Filho Nosso Senhor Jesus Cristo, pelos méritos e pela intercessão da Santíssima Virgem e de todos os teus eleitos.

Assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido: e o que não perdoamos totalmente, faze, Senhor, que o perdoemos de modo pleno, a fim de que possamos amar sinceramente os nossos inimigos, por causa de ti; que por eles intercedamos com devoção junto a ti, não retribuamos a ninguém o mal pelo mal, e nos esforcemos para fazer o bem a todos, em ti.

E não nos deixes cair em tentação, oculta ou manifesta, súbita ou importuna.

Mas livra-nos do mal, passado, presente e futuro.

Amém.

São Francisco de Assis, Orar com S. Francisco de Assis.

Memória do Trânsito de S. Francisco de Assis


"Muito tempo antes, Francisco ficou sabendo a hora de sua morte, e quando ela estava próxima, comunicou aos irmãos que deicaria em breve seu corpo, essa tenda em que sua alma havia feito acampamento, como lhe revelara o Senhor.

Dois anos depois de ter recebido os estigmas, vinte anos após sua conversão, pediu para ser transportado a Santa Maria da Porciúncula a fim de pagar seu tributo à morte e receber em troca e em recompensa a eternidade, no mesmo local em que, pela Mãe de Deus, ele mesmo conhecera o espírito de graça e de perfeição. Chegado a esse local e querendo mostrar eplo exemplo que nada tinha de comum com o mundo, nesta doença que deveria ser a última, mandou que o colocassem nu sobre a terra, a fim de nesta última hora em que o inimigo desfecharia talvez contra ele o último assalto, ele pudesse lugar nu contra o adversário nu.

Lá estava ele deitado, atleta nu, sobre a terra e na poeira, a mão levada à chaga do lado direito para ocultá-la aos olhares dos presentes, fixando o céu, como gostava de fazer, fisionomia tranqüila e aspirando com todas as veras de sua alma à glória eterna. Começou então a louvar ao Altíssimo por tanta glória: a de ir para ele inteiramente livre, desembaraçado de tudo.

Aproximava-se a hora. Mandou vir todos os irmãos presentes então na Porciúncula e com algumas palavras de consolo para amenizar-lhes o pesar, exortou-os de todo o coração de pai a amar a Deus. Em herança legou-lhes como propriedade a pobreza e a paz; recomendou-lhes que orientassem sempre seus desejos para os bens eternos e se preminissem contra os perigos deste mundo. Encorajou-os, com toda a força persuasiva de sua palavra, a seguirem perfeitamente as pegadas de Jesus crucificado.

Todos os seus filhos formavam por assim dizer uma coroa em volta do patriarca dos pobres; o santo, quase cego, não de velhice, mas por causa das lágrimas, e já às portas da morte, estendeu as mãos, entrecruzou os braços, como lhe aprazia muitas vezes, e abençoou todos os irmãos, os ausentes como os presentes, pelo poder e no nome do Crucificado.

Em seguida, pediu que fosse lido o texto de São João que começa assim: "Antes da festa da Páscoa, sabendo Jesus que chegara a sua hora de passar deste mundo ao Pai, havendo amado os seus que estavam no mundo, até o extremo os amou..." Queria ouvir nessa passagem do Evangelho o chamado do Bem-Amado que bate à porta, esse Bem-Amado de quem estava separado apelas pela simples parede da carne. Por fim, tendo-se realizado nele todos os planos de Deus, o bem-aventurado adormeceu no Senhor, rezando e cantando um salmo. Sua santíssima alma se desprendeu da carne para ser absorvida no abismo da claridade de Deus."

Devocionário da Família Franciscana
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