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"Quando se darão essas coisas" Parte III - A incerteza do dia do Senhor

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Uma leitura atenta dos Evangelhos deixa no leitor a impressão de que Jesus, embora tenha indicado alguns sinais precursores de sua vinda, em última análise quis deixar a época da parusia velada ao conhecimento humano; é de crer que, mesmo para os homens que a ela assistirem, a segunda vinda do Senhor terá o caráter de acontecimento imprevisto, surpreendente:

"Verificar-se-á por ocasião da volta do Filho do homem o que se deu nos dias de Noé. Pois, assim como no tempo que precedeu o dilúvio, os homens comiam, bebiam, tomavam e davam em matrimônio, até o dia em que Noé entrou na arca, e de nada suspeitaram até que veio o dilúvio, que levou a todos, assim se dará quando o Filho do homem voltar. Então, de dois homens que estiverem num campo, um será tomado, o outro deixado; de duas mulheres que estiverem junto à mó, uma será tomada, a outra abandonada." (Mt 24-37-41)1

O caráter impreviso da parusia é inculcado ainda por duas comparações que o Senhor propõe no Seu discurso escatológico: assim como o raio se desencadeia repentinamente, recobrindo logo toda a extensão do horizonte (Mt 24,27), assim como o salteador surpreende o pai de família em casa durante a noite (Mt 24,35s), assim também o Filho do homem inesperadamente descerá dos céus em Sua Majestade.

S. Paulo desenvolve em colorido vivo a imagem do ladrão:

"Sabeis muito bem que o dia do Senhor virá como um ladrão durante a noite. Quando os homens disserem: "Paz e segurança!", justamente então uma ruína repentina os acometerá, como a dor sobrevém à mulher que está para dar à luz, e não escaparão. Vós, porém, irmãos, não vivais nas trevas de modo que aquele dia vos surpreenda como um ladrão." (1 Tes 5,2-4)2

É justamente a consciência da incerteza do grande dia que motiva, logo a seguir, tanto no vaticínio de Cristo como na epístola de S. Paulo, séria admoestação à vigilância; Jesus insiste nesta atitude, ilustrando-a por meio de parábolas; cf. Mt 24,45-25-13; Lc 1,35-40; 1 Tes 5,5-10.

De resto, o próprio Cristo declarou explicitamente não pertencer à Sua missão revelar aos homens o dia da parusia; tal conhecimento ser-lhes-ia pernicioso mais do que vantajoso. Assim, em Seu sermão escatológico, dizia:

"Quanto àquele dia e àquela hora, ninguém os conhece, nem mesmo os anjos do céu, nem mesmo o Filho, mas, sim, o Pai só." (Mc 13,32)

A exegese deste texto já fez correr rios de tinta desde os primórdios da Igreja.3 Provém de Sto. Agostinh a interpretação hoje geralmente aceita pelos exegetas católicos: é na qualidade de Mestre dos homens que o Filho diz ignorar a época do juízo universal; o Filho não a sabe porque não pertence à Sua missão de Doutor e Salvador comunicar este segredo de Deus aos homens, ou seja, porque está fora do depósito de verdades a serem reveladas (cf. Sto. Agostinho, in Ps 36 Migne 36,355.)

Ainda aos Apóstolos que perguntavam quando se consumariam as suas expectativas messiânicas, respondeu o Senhor:

"Não toca a vós ter conhecimento dos tempos e momentos que o Pai fixou por Sua própria autoridade" (At 1,7)

E a Igreja deseja se respeite o plano divino de deixar oculta aos homens a época da parusia; admoesta a que não se pergunte, mais ou menos futilmente, à fantasia humana o que o próprio Deus explicitamente Se recusou revelar. Diante de tudo o que se tem propalado sobre o assunto, ela será sempre um baluarte de paz, exortando os homens a que, sem se deixar perturbar por "rumores", se empenhem com zelo por fazer a cada momento o que é, certa e indubitavelmente, da vontade de Deus. Foi para assegurar essa tranquilidade de alma que a Igreja mais de uma vez se viu obrigada a se pronunciar contra os pregadores de "novidades".4

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1- As últimas palavras acima insinuam que a parusia surpreenderá homens e mulheres em suas ocupações ordinárias, nos campos ou em casa. Não serão as circunstâncias externas, mas as disposições internas da alma, que decidirão da sorte de cada qual; de duas pessoas, uma será tomada, isto é, incorporada ao cortejo dos que se unirão a Cristo para sempre, a outra será abandonada ou excluída do mesmo; cf. a parábola de Mt 25,1-13: cinco virgens entram no cortejo, cinco não.
O estilo desta admoestação é apocalíptico, o que implica: ... intencionalmente obscuro, velado, não se podendo urgir os pormenores das afirmações.

2- S. Paulo inculca bem que para os cristãos fiéis ao Senhor não há trevas, não há noite ou cegueira espiritual; por isto a vinda do Senhor, por repentina que seja, não lhes acarretará os terrores de um assalto maléfico, mas será a última fase de uma longa gestação, será dar à luz uma vida oculta com Cristo em Deus (cf. Col 33)
A imagem do ladrão ocorre também em 2 Pd 3,10; Ap 3,3.


3- Encontra-se um histórico da respectiva exegese em Lebreton, Les origines du dogme de la Trinité I. Paris 1927 6, 559-90.

4- Vão aqui transcritas duas declarações do Magistério da Igreja dirigidas aos que anunciam a doutrina do Evangelho.
Um concílio regional de Milão em 1362 assim admoestava:
"Não apregoem como coisas certas a época de vinda do Anticristo e a data do juízo final, já que pelos lábios do Senhor foi dito: "Não toca a vós ter conhecimento dos tempos e momentos." Nem ousem, a partir das Escrituras Sagradas, procurar adivinhar o futuro e indicar determinado dia para determinado acontecimento. Também não afirmem temerariamente ter-lhes sido isso revelado por Deus."
O 5º concílio universal do Latrão, em 1516, decretava:
"Mandamos a todos os que estão, ou futuramente estarão, incumbidos da pregação, que de modo nenhum presumam afirmar ou apregoar determinada época para os males vindouros, para a vinda do Anticristo ou para o dia do juízo. Com efeito, a Verdade diz: "Não toca a vós ter conhecimento dos tempos e momentos que o Pai fixou por Sua própria autoridade." Consta que os que até hoje ousaram afirmar tais coisas mentiram e, por causa deles, não pouco sofreu a autoridade daqueles que pregam com retidão. Ninguém ouse predizer o futuro apelando para a Sagrada Escritura, nem afirmar o que quer que seja, como se o tivesse recebido do Espírito Santo ou de revelação particular, nem ouse apoiar-se sobre conjeturas vãs ou despropositadas. Cada qual deve, segundo o preceito divino, pregar o Evangelho a toda criatura, aprender a detestar o vício, recomendar e ensinar a prática das virtudes, a paz e a caridade mútua, tão recomendada por nosso Redentor."
Textos encontrados em Huerter, Theologiae dogmaticae compendium III nº 694 em nota. Veja-se também Hefele-Leclercq, Histoire des Conciles VIII 1. Paris 1917, 526.
Pode-se ainda notar em Dz 490 a condenação de erros semelhantes dos "fraticelos" proferida em 1318 pelo Papa João XXII.
Textos encontrados em Huerter, Theologiae dogmaticae compendium III nº 694 em nota.

BETTENCOURT, Dom Estêvão. A Vida Que Começa Com a Morte. 3ª Ed. Rio de Janeiro: Editora Agir. 1963. Pp. 198-200

Série "Quando se darão essas coisas?" - Parte II - Idade Média e Idade Moderna


e) Na Idade Média

No séc. 10 fizeram-se ouvir pressentimentos de próximo fim do mundo, pressentimentos cujas proporções têm sido por vezes exageradas por historiadores e romancistas. Alguns escritores e pregadores medievais julgavam que no ano 1000 o Anticristo seria desencadeado sobre o mundo e, em breve, se daria o juízo universal; a sentença se baseava principalmente em Ap 20,1-15, texto que fala de um reino milenário de Cristo, após o qual se deve dar a ressurreição final.

Em fins do séc. 12, o Abade Joaquim de Fiore († 1202) distinguia três idades do mundo: a do Pai, correspondente ao Antigo Testamento; a do Filho, que duraria desde o início da era cristã até 1260, já que 42 são as gerações indicadas na árvore genealógica de Cristo em Mt 1,17 (gerações a cada uma das quais Joaquim de Fiore Atribuía 30 anos); em 1260 começaria nova fase, a do Espírito Santo, caracterizada por um entendimento mais profundo e espiritual das Escrituras Sagradas; seria a era definitiva, norteada pelo "Evangelho eterno" de que fala Ap 14,6. Estas idéias encontraram larga difusão, principalmente em círculos dados à alegoria e a um espiritualismo unilateral.

Das obras de S. Tomás († 1274), colhe-se a informação seguinte: alguns Doutores medievais julgavam que os astros cessarão de se mover no fim dos tempos, para ocupar exatamente a mesma posição que tinham no início do mundo, de sorte que nenhuma trajetória astral ficará incompleta. Ora, os sábios atribuíam então a duração de 36.000 anos à revolução de alguns corpos celestes. Donde se previa que a História ainda duraria mais 30 mil anos aproximadamente. A S. Tomás um futuro tão extenso parecia pouco provável.

O séc. 15 foi mais uma vez marcado por expectativas de consumação iminente. O desejo de nova era, lançado ao público por Joaquim de Fiore e seus numerosos amigos, encontrava terreno propício para grassar em meio às desordens religiosas e políticas dos séc. 14 e 15 (transferência dos Papas para Avinhão, grande Cisma do Ocidente cristão; novas teorias relativas ao governo da Igreja, do Estado). A evocação do fim do mundo servia frequentemente de tema aos pregadores para excitar os homens à penitência e ao mútuo entendimento. S. Vicente Ferrer († 1418), talvez mais por artifício oratório, assinalava-lhe o ano de 1412. Principalmente em fins do séc. 15 esperava-se uma intervenção apocalíptica de Deus; oráculos e profecias aterradores se difundiam febrilmente ; as numerosas narrativas de fenômenos portentosos excitavam nas imaginações o desejo de os ver, mesmo à custa de árduas peregrinações e penitências; falava-se de um Papa angélico, etc. Os ânimos fermentavam cada vez mais... A explosão deu-se realmente em 1517, não por uma catástrofe cósmica (fim do mundo), mas pela irrupção do luteranismo e da ps. reforma protestante. Esta, sem dúvida, pôs fim a muitos valores veneráveis da Idade Média, e deu ocasião a que novos valores surgissem por obra da autêntica reforma, empreendida pelo Concílio de Trento (1545-63).

f) Na Idade Moderna

Não faltam igualmente indivíduos e correntes de pensamento que se propõem prever a data final. Assim:

Pico de Mirandola († 1494), humanista famoso, colocava a volta de Cristo no ano de 1994, baseando-se em pressupostos de mística neoplatônica e cabalística;

Tiago Nacchiante O.P. († 1494), bispo de Chioggia, predizia o fim do mundo para o ano de 1800;

Cornélio a Lapide († 1637), exegeta católico, em 1626 julgava que próximo estafa o fim do mundo, apelando, entre outras razões, para um oráculo comum entre os turcos: a religião de Maomé haveria de durar mil anos; ora, pouco faltava para se preencher esse prazo; o Islamismo, pois, haveria de mover em breve a última perseguição contra a Igreja e sofrer o seu golpe mortal pela vinda de Cristo;1

João Bengel († 1752), exegeta luterano da corrente pietista, propunha o seguinte cálculo, todo baseado em presumidas indicações cronológicas da Bíblia:

Desde a criação do mundo até o nascimento de Cristo decorreram 3.943 ou, redondamente, 3.940 anos. Ora, segundo 1 Pd 4,7, "o fim de todas as coisas está próximo"; o que significa que a era inciada por Cristo deve ser de menor duração que a anterior. Esta nossa era cristã, porém, certamente há de compreender, antes do juízo universal e da consumação do mundo, os 2000 anos de que fala Ap 20 (um milênio, durante o qual Satanás permanecerá ligado ao abismo, e outro milênio, em que os santos reinarão com Cristo sobre a Terra); por conseguinte, o início do primeiro milênio não podia distar muito da época em que Bengel vivia (1740 + 2000 = 3740; a era cristã devia durar menos de 3940 anos!). Ulterior precisão: o número 7 tem preponderância nas indicações cronológicas da Sagrada Escritura, donde Bengel julgava poder concluir que a duração total da História será de 7.777 anos. Ora, se esta é a duração total da História, não se pode atribuir à era cristã extensão maior do que 7.777 - 3.940, isto é, 3.837 anos; o que implicava que o primeiro milênio devia começar no ano 3.837 - 2.000, ou seja, em 1837. Por conseguinte, vivendo no séc. 18, Bengel esperava para 1.837 a próxima vinda de Cristo, que inauguraria uma nova ordem de coisas, provisória, até a consumação definitiva da História no ano de 3.837 (7.777, a partir da criação do mundo).

Os adventistas foram fundados por Guilherme Miller († 1849), que, depois de aderir ao racionalismo de sua época, se convertera à seita protestante dos batistas. Partia do princípio de que todas as profecias bíblicas referentes ao Messias se devem cumprir ao pé da letra. Ora, já que o Messias foi pobre e mal recebido em sua primeira vinda, há de voltar uma segunda vez à Terra, e estabelecerá um reino glorioso milenário, que será a realização verbal da era messiânica profetizada pelo Antigo Testamento; terminando o milênio, verificar-se-á o juízo final (cf. Ap 20).

E quando se dará a vinda inaugurativa do reino milenário?

Miller lia em Dan 8,14: "(A abominação durará) até duas mil e trezentas tardes e manhãs; a seguir, o santuário será purificado." Neste texto muito enigmático,  tomando as "tardes e manhãs" por anos, julgava que Cristo viria instaurar o milênio no ano 2.300 a partir da data do oráculo, ou seja, a partir de 457 a.C.; o que equivalia a dizer que o Senhor voltaria para instaurar justiça e paz no ano 1.843 da nossa era ou, mais precisamente, entre março de 1843 e março de 1844. Quando em 1831 a profecia de Miller começou a ser propalada, suscitou muitos adeptos entusiastas, principalmente entre batistas e metodistas, os quais passaram a ser chamados adventistas (uma chuva de asteróides, em 1833, parecia ser o abalo de estrelas - prenúncio do fim). Todavia, o ano de 1.843 trouxe a grande decepção aos 50.000 discípulos! 

Miller continuou a afirmar que o Senhor não tardaria; S. Snow refez os cálculos, anunciando o fim do mundo para 22 de outubro de 1844; em consequência, em certas regiões dos EE.UU. da América do Norte, camponeses e operários abandonavam o trabalho, e passavam as noites ao relento, esperando com impaciência febril a vinda de Cristo; a desilusão sofrida ainda foi mais amarga. Os adventistas até hoje conservam a crença no próximo regresso do Senhor; alguns dizem que o prazo previsto por Daniel de fato terminou em 1844, mas que Cristo ainda está a purificar o santuário; virá logo depois de completar esta obra.

Os "Sérios Estudiosos da Bíblia" ou, a partir de 1931, as "Testemunhas de Jeová", fundados por Charles Russell († 1916), sofreram a influência dos adventistas. Conforme os cálculos fantasistas de Russell, os sete dias da criação (cf. Gn 1) significavam que o mundo durará 49.000 anos; ora, a cronologia bíblica revela que não estamos longe de findar este período. Pois que deve haver um paraíso terrestre de 1.000 anos antes da consumação; Russell afirmava que a sua geração não passaria sem ter visto o Reino de Deus. Aguardava, pois, a segunda vinda de Cristo, espiritual e invisível, para 1874; a partir deste ano até 1914, o Senhor faria a colheita dos seus fiéis; em 1914 inauguraria o reino milenário, no qual no ano de 2.914 se seguiriam os céus novos e a Terra nova. O dito exegeta repartia a história do mundo em três faces: a antiga, desde a criação até o dilúvio; a atual, subdividida em período patriarcal (do dilúvio até o Patriarca Jacó), período judaico (de Jacó até Cristo), peíodo cristão (desde Cristo até o início do milênio); a fase futura compreenderia o milênio (1914-2914) e a era do mundo renovado, definitivo.

Em 1917, já que as profecias não se cumpriam, Alexandre Freytag († 1947) separou-se da seita e fundou o ramo dissidente dito "dos Amigos do Homem" ou "dos Amigos do Eterno" ou "dos Discípulos de Cristo". Pôs-se a pregar e escrever, anunciando a vinda próxima do Reino de Deus, no qual todos os homens habitariam em vilas dotadas de todo o conforto e higiene; não haveria nem proprietários nem patrões; tudo seria dado a todos gratuitamente...; haveria vegetação abundante, temperatura amena e uniforme em todo o globo, etc.

Por fim, mesmo nos nossos dias não deixou de se verificar um fenômeno cósmico diante do qual os homens têm reagido em atitude semelhante à de casos análogos. Eis o que na exposição de "O que são os discos voadores", o repórter da revista carioca "O Cruzeiro", aos 20 de novembro de 1954, verifica à pág. 60 (note-se no trecho abaixo, mais uma vez, o recurso à Sagrada Escritura para interpretar os tempos):

"Todos os grandes profetas da antiguidade, inclusive Nostradamus, assim como certas passagens da Bíblia, falam de uma grande catástrofe denominada "o fim dos tempos", a acontecer no ano de 1999. "Estranhos sinais aparecerão nos céus..." "Do céu virá um grande rei, chefe de um poderoso exército..." "Em outubro de 1999, depois de um eclipse total do Sol, uma grande translação se produzirá de tal modo que julgarão a Terra fora de órbita e abismada em trevas eternas..." "A Terra será despedaçada em grandes aberturas. Será agitada e cambaleará como um embriagado..." Isso tudo quererá dizer que um astro qualquer passará próximo de nós bastante para influenciar sobre a nossa marcha através do espaço? Ou que a inclinação da Terra sobre o próprio eixo se modificará a ponto de ocasionar tal catástrofe, como alguns cientistas predizem e como alguns temem que as explosões atômicas estejam precipitando?

Espíritas e videntes modernos confirmam tudo isso com um quase fanatismo. Tenho recebido inúmeras comunicações acerca dos futuros acontecimentos da natureza dos "discos", da vida em outros planetas. Respeito-as, mas como repórter tenho de me ater a fatos.

Astrólogos predizem fatos estarrecedores. Um deles, o Professor Rubens Peiruque, previu uma nova onda de "discos" para este ano em que estamos. Coincidência ou não, isso está acontecendo. Ele também afirma que, em 1956, marcianos farão uma invasão pacífica na Terra. Só nos resta esperar."

Diante das muitas teorias tão bem arquitetadas no decorrer da Hist´ria, mas fragorosamente desmentidas pela experiência, o católico dificilmente dará crédito a alguma nova conjetura. Nem há fundamento para se afirmar que a época posterior à redenção drará ao menos tanto quanto a antecedente, ou seja, 4 ou 6 mil anos, correspondentes, como crêem muitos, à história do Antigo Testamento; tal computação não se funda em absoluto sobre algum texto da Revelação - As profecias sobre a data do fim do mundo constituem um autêntico fenômeno sociológico, uma espécie de mal crônico que acompanha as grandes sacudidelas da história.

1- Commentarius in Apc 20,5. Lugduni 1626.

BETTENCOURT, Dom Estêvão. A Vida Que Começa Com a Morte. 3ª Ed. Rio de Janeiro: Editora Agir. 1963. Pp. 194-198

Série "Quando se darão essas coisas?" (Mt 24,3) - Uma história das previsões do fim dos tempos. Parte I - Da Antiguidade Pagã até o Início da Idade Média


Pessoal, levando em consideração todo este clima de fim dos tempos, quero dar-vos a conhecer um interessantíssimo texto de Dom Estêvão Bettencourt sobre a ocorrência destes tipos de "profecia" ao longo da história e, para tal, passo a transcrevê-lo por partes. Sugiro que, além do texto propriamente dito, sejam lidas também as notas de rodapé, algumas das quais trazem informações muito ilustrativas. Boa leitura.

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A pergunta dos Apóstolos, desejosos de saber quando se daria a consumação da História, é muito espontânea na mente do homem. Desgraças e calamidades que acometem periodicamente os indivíduos e as nações lembram a instabilidade do mundo presente e têm incitado, através dos séculos, a conjeturar, mediante a combinação, ora mais ora menos arbitrárias, de "sinais", uma catástrofe próxima definitiva para a História.

Não será inútil percorrer a lista das principais "profecias" já enunciadas sobre o assunto. Esta visão de conjunto facilitará um juízo sobre o que se deva pensar no tocante à época do fim do mundo.

1- As diversas previsões

a) Na Antiguidade Pagã

O mundo pagão, nos decênios que cercam o nascimento de Cristo, estava impregnado de forte expectativa de catástrofe e renovação; o que em muitos indivíduos produzia acentuado pessimismo; em outros, ao contrário, esperança jubilosa.

O brilho e a prosperidade que o império romano atingira sob Augusto († 14) e Tibério († 37), começaram a declinar rapidamente sob Calígula († 41), monarca pouco idôneo; Cláudio († 54) permitiu que mulheres depravadas  (Messalina, Agripina) e seus cortesãos cometessem crimes de ambição e vingança que muito infelicitavam a vida pública. A isto pareciam associar-se estranhos fenômenos na natureza; falava-se de cometas de mau agouro recém-avistados, chuvas de sangue, partos monstruosos, pestes, inundações, raios que espedaçavam estátuas de imperadores e templos da divindade. Em consequência, julgava-se que o mundo caminhava para o seu fim. Não faltavam, porém, vozes que procuravam reerguer os ânimos abatidos; do Oriente soprava uma onda de expectativa otimista; pelos oráculos das Sibilas (figuras mitológicas e proféticas dos orientais) propalava-se a idéia de que viria uma nova fase da História; um ser divino-humano, nascido de uma virgem, apaziguaria a cólera da divindade provocada pelos homens e introduziria no mundo uma era de bonança, era de Saturno - ou de ouro. Esta crença, recebida diretamente da Sibila de Cuméia, foi adotada e elegantemente formulada pelo poeta romano Virgílio († 19 a.C.) em sua famosa quarta écloga.

Aos olhos da fé, esta expectativa de renovação no limiar da era cristã tem caráter providencial. Suscitando-a, Deus preparava os ânimos para receberem o Salvador, que haveria de ser apregoado ao mundo como a resposta autêntica aos anelos do gênero humano; poria, de fato, um fim e um novo início na História universal.

b) Entre os judeus antigos

Contemporaneamente ao que se dava entre os pagãos, também no povo judaico era forte a crença de que próximo estava o "dia do Senhor", ou seja, a vinda do Messias, que havia de se tornar o Chefe religioso e político de seu povo. Libertaria a este e exerceria julgamento punidor sobre os pagãos que o oprimiam, restaurando, por fim, a era paradisíaca (cf. 4 Esdr 5,1-20; 6-35-7,45). Donde o grande número de falsos messias que surgiram pouco antes e depois de Cristo.1

c) Entre os cristãos do 1º século.

Não há dúvida de que as idéias ventiladas pelos pagãos e judeus concorriam para avivar entre os fiéis a expectativa de que o Senhor Jesus não tardaria a voltar; tenham-se em vista as epístolas nos tessalonicences, aos hebreus e a 1 Pdr (6º/8º decênis d.C.), em que os Apóstolos procuraram reanimar os pusilânimes, que, diante da demora de Cristo, perdiam a esperança, e também a fé, no Evangelho. Em Tessalônica, os cristãos, esperando o Senhor de um dia para outro, já não trabalhavam mais, entregando-se ao ócio e às divagações da fantasia; isto disseminava a inquietude entre os irmãos e acarretava graves desordens morais (cf. 2 Tes 3,10-12).

d) No Cristianismo até o início da Idade Média

A tensão escatológica chegou ao extremo em fins do séc. 2º e inícios do 3º, na Ásia Menor. Montano e suas duas profetizas Priscila e Maximila, apregoaram a vida iminente do Paráclito, prometido por Jesus em Jo 16; acabar-se-ia então o mundo presente para dar lugar ao Reino de Deus. Demonstrações de fanatismo se produziram em consequência.2

Todavia, a expectativa de um iminente fim do mundo se foi dissipando com o decorrer dos tempos. Isto não impedia que certos cristãos procurassem, por cálculos e conjeturas, perscrutar a época da catástrofe final, que, se não estava às portas, não podia tardar muito... Assim:

O Ps. Barnabé, em fins do séc. 1º ou inícios do 2º, afirmava que o ano 6000 após a criação do mundo seria o ano terminal da História.Razão alegada: conforme Gen 2,2, Deus consumou o mundo em seis dias; ora, um dia para Deus equivale a mil anos dos homens, segundo Sl 89,4. Donde se seguia que, no seu ano 6000 a História deste mundo deveria estar consumada (cf. epist. 15,4). Sto Irineu († cerca de 202) repetia a mesma tese;3

S. Hipólito de Roma († 235), partindo dos mesmos princípios, ainda precisava que o ano final seria o de 500, já que entre Adão e Cristo haviam decorrido 5500 anos.;4

S. Ambrósio († cerca de 397) e S. Hilário de Poitiers († 367) apoiavam a tese do Ps. Barnabé sobre o fato de que Jesus se transfigurou sobre o Tabor seis dias depois de ter dito aos discípulos: "Em verdade vos digo: há alguns aqui presentes que não provarão a morte antes de ter visto o Filho do homem vindo em seu reino." (Cf. Mt 16,28 e 17,1). A Transfiguração, produzida seis dias mais tarde, significaria, no caso, a volta do Cristo glorioso;5

S. Gaudêncio de Bréscia († após 405) indicava o ano 7000 (!) após a criação como data para a ressurreição universal. Apoiava-se no preceito da Lei mosaica que manda cessem todas as obras deste mundo no 7º dia da semana e entrem os fiéis no repouso de Deus (cf. Ex 12,16); ora, já que um dia de Deus equivale a mil anos dos homens (Cf. Sl 89,4), o ano 7000 seria o da cessação definitiva das obras deste mundo e o da ressurreição dos corpos;6

No séc. 5º a idéia da iminência do fim do mundo foi de novo avivada pelo desenrolar dos acontecimentos: invasões dos Godos assolavam o Império Romano e sua capital, até que, em 476, Odoacre se apoderou de Roma, destituindo o último imperador, Rômulo Augusto. A queda da cidade que até então fora um foco de civilização, união e bem-estar entre os povos parecia ser prognóstico eloquente de que o mundo não subsistiria; como poderia continuar a História sem a orientaçao de Roma? Estes anseios são calorosamente testemunhados por S. Jerônimo († 420), S. João Crisóstomo († 407), S. Leão Magno († 461);7

Ainda no séc. 6/7, S. Gregório Magno († 604), em suas pregações, indicava como próxima a vindade Cristo, já que as guerras e as misérias da época pareciam ser os sinais precursores da parusia.8

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1- Cf. At 5,36s; Flávio José, Ant. iud. 20,5,1; S. Justino, Apol. 1,31; Eusébio, Hist, eccl. 4,6,2.
2- Eis o que refere Hipólito Romano em inícios do séc. 3º:
"Um bispo da Síria persuadiu muitos irmãos a irem para o deserto ao encontro de Cristo, com suas esposas e seus filhos; estes vaguearam pelas montanhas ao longo das estradas; pouco faltou para que o Governador os mandasse prender como salteadores... No Ponto, outro bispo, homem piedoso e humilde, mas demasiado confiante em suas visões, teve três sonhos e pôs-se a profetizar: "Acontecerá isto e aquilo." E, por fim: "Sabei, irmãos, que o juízo se realizará dentro de um ano, e, caso não aconteça o que vos digo, não deis ais fé às Escrituras, mas procedei como bem quiserdes." Ora, nada do previso se verificou; o bispo se viu confuso, os irmãos se escandalizaram, as virgens se casaram e os que haviam vendido seus campos foram obrigados a mendigar." (In Danielem 3. 18s.)
3- Adv. Haer. 5,23,2.
4- In Danielem 4,23
5- Cf. Sto Agostinho, in Lc 7,7; Sto Hilário, in Mt 17,2.
6- Serm. 10.
7- Cf. S. Jerônimo, ep. 71,11 (o Santo Doutor comenta 2 Tes 2,5); Lactâncio († após 317) já antes escrevera: "Esta (Roma) é a cidade que ainda tudo sustenta." (Divinae Institutiones 7,25,5.)
Vejam-se também S. João Crisóstomo, In Mt h. 20,6; In Io 34,3; S. Leão Magno, serm. 19,1.
8- Moral. 17,9,11.

BETTENCOURT, Dom Estêvão. A Vida Que Começa Com a Morte. 3ª Ed. Rio de Janeiro: Editora Agir. 1963. Pp. 190-193

Fim do Mundo II - The Shameless


Para Harold Camping, que havia previsto o fim do mundo para o mês de maio passado, ele na verdade terminará amanhã, sexta, dia 21 de outubro de 2011. O equívoco na data se deu devido a um erro de cálculo bíblico. No dia 21 de maio, teve início, não o fim, mas o julgamento do mundo, que perdura até amanhã.

Vamos ver o que que esse senhor inventa quando chegarmos ao dia 22 de outubro. Isso me soa como uma prévia da sorte do Sr. Cláudio Heckert. Além disto, o livre exame provará ser falso pela milésima vez...

VII Aniversário GRAA


Pessoal, estamos já nos preparativos para o VII Aniversário do Grupo de Resgate Anjos de Adoração - GRAA. Mais uma vez, a comemoração se dará por meio de um retiro, que já está marcado para os dias 02, 03 e 04 de Dezembro do corrente ano. Uma semana, porém, antes do retiro propriamente dito, haverá uma prévia onde Ministério de Música Anjos de Adoração se apresentará, já introduzindo a espiritualidade do encontro.

O Tema do Retiro será: "Corações ao Alto".

Estamos ainda ajustando ainda vários detalhes, dentre os quais está a questão do local. Mas, tão logo decidamos todos estes pormenores, os comunicaremos neste espaço.

Naturalmente, como nos é típico, o retiro pretende ter uma ênfase contemplativa, seguindo, porém, a estrutura geral de encontros desta natureza: Pregações, Orações em Comum, Lectio Divina, Deserto, Santa Missa, Confissão, Adoração, Vigília e algumas novidades que introduziremos no retiro deste ano.

Muito provavelmente estarão conosco algumas irmãs da Fraternidade O Caminho, embora precisemos ainda confirmar isto.

Futuras novidades, as colocarei por aqui. Pedimos, então, aos interessados que pretendam fazer o retiro, que entrem em contato conosco o quanto antes. Poderão fazê-lo tanto deixando comentários aqui no blog, como pelo meu e-mail pessoal (cravosdeamor@yahoo.com.br) ou o do Breno, que é um dos nossos coordenadores (vidaecruz@hotmail.com).

Quanto aos demais, os nossos amigos de longe, pedimos encarecidamente as suas bondosas orações para que todo este retiro ocorra segundo a vontade divina e pela condução da Virgem Mãe de Deus.

Esvaziemos o nosso coração de todos os apegos e desejos rasteiros para que, animado pela Graça de Deus, ele possa se elevar ao alto, à contemplação da beleza divina, ao amor das realidades celestes. Ámen.

Grupo de Resgate Anjos de Adoração - GRAA

Carta Apostólica Porta Fidei, de Bento XVI, sobre o Ano da Fé


vatican.va





Carta Apostólica sob forma de Motu Proprio
Porta Fidei 

com a qual se proclama o Ano da Fé (out/2012 - out/2013)

1. A PORTA DA FÉ (cf. Act 14, 27), que introduz na vida de comunhão com Deus e permite a entrada na sua Igreja, está sempre aberta para nós. É possível cruzar este limiar, quando a Palavra de Deus é anunciada e o coração se deixa plasmar pela graça que transforma. Atravessar aquela porta implica embrenhar-se num caminho que dura a vida inteira. Este caminho tem início com o Baptismo (cf. Rm 6, 4), pelo qual podemos dirigir-nos a Deus com o nome de Pai, e está concluído com a passagem através da morte para a vida eterna, fruto da ressurreição do Senhor Jesus, que, com o dom do Espírito Santo, quis fazer participantes da sua própria glória quantos crêem n’Ele (cf. Jo17, 22). Professar a fé na Trindade – Pai, Filho e Espírito Santo – equivale a crer num só Deus que é Amor (cf. 1 Jo 4, 8): o Pai, que na plenitude dos tempos enviou seu Filho para a nossa salvação; Jesus Cristo, que redimiu o mundo no mistério da sua morte e ressurreição; o Espírito Santo, que guia a Igreja através dos séculos enquanto aguarda o regresso glorioso do Senhor.

2. Desde o princípio do meu ministério como Sucessor de Pedro, lembrei a necessidade de redescobrir o caminho da fé para fazer brilhar, com evidência sempre maior, a alegria e o renovado entusiasmo do encontro com Cristo. Durante a homilia da Santa Missa no início do pontificado, disse: «A Igreja no seu conjunto, e os Pastores nela, como Cristo devem pôr-se a caminho para conduzir os homens fora do deserto, para lugares da vida, da amizade com o Filho de Deus, para Aquele que dá a vida, a vida em plenitude» (Homilia no início do ministério petrino do Bispo de Roma, (24 de Abril de 2005): AAS 97 (2005), 710). Sucede não poucas vezes que os cristãos sintam maior preocupação com as consequências sociais, culturais e políticas da fé do que com a própria fé, considerando esta como um pressuposto óbvio da sua vida diária. Ora um tal pressuposto não só deixou de existir, mas frequentemente acaba até negado (Cf. Bento XVI, Homilia da Santa Missa no Terreiro do Paço (Lisboa – 11 de Maio de 2010): L’Osservatore Romano (ed. port. de 15/V/2010), 3.). Enquanto, no passado, era possível reconhecer um tecido cultural unitário, amplamente compartilhado no seu apelo aos conteúdos da fé e aos valores por ela inspirados, hoje parece que já não é assim em grandes sectores da sociedade devido a uma profunda crise de fé que atingiu muitas pessoas.


3. Não podemos aceitar que o sal se torne insípido e a luz fique escondida (cf. Mt 5, 13-16). Também o homem contemporâneo pode sentir de novo a necessidade de ir como a samaritana ao poço, para ouvir Jesus que convida a crer n’Ele e a beber na sua fonte, donde jorra água viva (cf. Jo 4, 14). Devemos readquirir o gosto de nos alimentarmos da Palavra de Deus, transmitida fielmente pela Igreja, e do Pão da vida, oferecidos como sustento de quantos são seus discípulos (cf. Jo 6, 51). De facto, em nossos dias ressoa ainda, com a mesma força, este ensinamento de Jesus: «Trabalhai, não pelo alimento que desaparece, mas pelo alimento que perdura e dá a vida eterna» (Jo 6, 27). E a questão, então posta por aqueles que O escutavam, é a mesma que colocamos nós também hoje: «Que havemos nós de fazer para realizar as obras de Deus?» (Jo 6, 28). Conhecemos a resposta de Jesus: «A obra de Deus é esta: crer n’Aquele que Ele enviou» (Jo 6, 29). Por isso, crer em Jesus Cristo é o caminho para se poder chegar definitivamente à salvação.

4. À luz de tudo isto, decidi proclamar um Ano da Fé. Este terá início a 11 de Outubro de 2012, no cinquentenário da abertura do Concílio Vaticano II, e terminará na Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo Rei do Universo, a 24 de Novembro de 2013. Na referida data de 11 de Outubro de 2012, completar-se-ão também vinte anos da publicação do Catecismo da Igreja Católica, texto promulgado pelo meu Predecessor, o Beato Papa João Paulo II, (Cf. João Paulo II, Const. ap. Fidei depositum (11 de Outubro de 1992): AAS 86 (1994), 113-118) com o objetivo de ilustrar a todos os fiéis a força e a beleza da fé. Esta obra, verdadeiro fruto do Concílio Vaticano II, foi desejada pelo Sínodo Extraordinário dos Bispos de 1985 como instrumento ao serviço da catequese (Cf. Relação final do Sínodo Extraordinário dos Bispos (7 de Dezembro de 1985), II, B, a, 4: L’Osservatore Romano (ed. port. de 22/XII/1985), 650) e foi realizado com a colaboração de todo o episcopado da Igreja Católica. E uma Assembleia Geral do Sínodo dos Bispos foi convocada por mim, precisamente para o mês de Outubro de 2012, tendo por tema A nova evangelização para a transmissão da fé cristã. Será uma ocasião propícia para introduzir o complexo eclesial inteiro num tempo de particular reflexão e redescoberta da fé. Não é a primeira vez que a Igreja é chamada a celebrar um Ano da Fé. O meu venerado Predecessor, o Servo de Deus Paulo VI, proclamou um semelhante, em 1967, para comemorar o martírio dos apóstolos Pedro e Paulo no décimo nono centenário do seu supremo testemunho. Idealizou-o como um momento solene, para que houvesse, em toda a Igreja, «uma autêntica e sincera profissão da mesma fé»; quis ainda que esta fosse confirmada de maneira «individual e colectiva, livre e consciente, interior e exterior, humilde e franca» (Paulo VI, Exort. ap. Petrum et Paulum Apostolos, no XIX centenário do martírio dos Apóstolos São Pedro e São Paulo (22 de Fevereiro de 1967): AAS 59 (1967), 196). Pensava que a Igreja poderia assim retomar «exacta consciência da sua fé para a reavivar, purificar, confirmar, confessar» (Ibid.o.c., 198.). As grandes convulsões, que se verificaram naquele Ano, tornaram ainda mais evidente a necessidade duma tal celebração. Esta terminou com aProfissão de Fé do Povo de Deus, (Paulo VI, Profissão Solene de FéHomilia durante a Concelebração por ocasião do XIX centenário do martírio dos Apóstolos São Pedro e São Paulo, no encerramento do «Ano da Fé» (30 de Junho de 1968): AAS 60 (1968), 433-445) para atestar como os conteúdos essenciais, que há séculos constituem o património de todos os crentes, necessitam de ser confirmados, compreendidos e aprofundados de maneira sempre nova para se dar testemunho coerente deles em condições históricas diversas das do passado.

5. Sob alguns aspectos, o meu venerado Predecessor viu este Ano como uma «consequência e exigência pós-conciliar» (Paulo VI, Audiência Geral (14 de Junho de 1967): Insegnamenti V (1967), 801), bem ciente das graves dificuldades daquele tempo sobretudo no que se referia à profissão da verdadeira fé e da sua recta interpretação. Pareceu-me que fazer coincidir o início do Ano da Fé com o cinquentenário da abertura do Concílio Vaticano II poderia ser uma ocasião propícia para compreender que os textos deixados em herança pelos Padres Conciliares, segundo as palavras do Beato João Paulo II, «não perdem o seu valor nem a sua beleza. É necessário fazê-los ler de forma tal que possam ser conhecidos e assimilados como textos qualificados e normativos do Magistério, no âmbito da Tradição da Igreja. Sinto hoje ainda mais intensamente o dever de indicar o Concílio como a grande graça de que beneficiou a Igreja no século XX: nele se encontra uma bússola segura para nos orientar no caminho do século que começa» (João Paulo II, Carta ap. Novo millennio ineunte (6 de Janeiro de 2001), 57: AAS 93 (2001), 308). Quero aqui repetir com veemência as palavras que disse a propósito do Concílio poucos meses depois da minha eleição para Sucessor de Pedro: «Se o lermos e recebermos guiados por uma justa hermenêutica, o Concílio pode ser e tornar-se cada vez mais uma grande força para a renovação sempre necessária da Igreja» (Discurso à Cúria Romana (22 de Dezembro de 2005): AAS 98 (2006), 52).

6. A renovação da Igreja realiza-se também através do testemunho prestado pela vida dos crentes: de facto, os cristãos são chamados a fazer brilhar, com a sua própria vida no mundo, a Palavra de verdade que o Senhor Jesus nos deixou. O próprio Concílio, na Constituição dogmática Lumen Gentium, afirma: «Enquanto Cristo “santo, inocente, imaculado” (Heb 7, 26), não conheceu o pecado (cf. 2 Cor 5, 21), mas veio apenas expiar os pecados do povo (cf. Heb 2, 17), a Igreja, contendo pecadores no seu próprio seio, simultaneamente santa e sempre necessitada de purificação, exercita continuamente a penitência e a renovação. A Igreja “prossegue a sua peregrinação no meio das perseguições do mundo e das consolações de Deus”, anunciando a cruz e a morte do Senhor até que Ele venha (cf. 1 Cor 11, 26). Mas é robustecida pela força do Senhor ressuscitado, de modo a vencer, pela paciência e pela caridade, as suas aflições e dificuldades tanto internas como externas, e a revelar, velada mas fielmente, o seu mistério, até que por fim se manifeste em plena luz» (Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. sobre a Igreja Lumen gentium, 8).

Nesta perspectiva, o Ano da Fé é convite para uma autêntica e renovada conversão ao Senhor, único Salvador do mundo. No mistério da sua morte e ressurreição, Deus revelou plenamente o Amor que salva e chama os homens à conversão de vida por meio da remissão dos pecados (cf. Act 5, 31). Para o apóstolo Paulo, este amor introduz o homem numa vida nova: «Pelo Baptismo fomos sepultados com Ele na morte, para que, tal como Cristo foi ressuscitado de entre os mortos pela glória do Pai, também nós caminhemos numa vida nova» (Rm 6, 4). Em virtude da fé, esta vida nova plasma toda a existência humana segundo a novidade radical da ressurreição. Na medida da sua livre disponibilidade, os pensamentos e os afectos, a mentalidade e o comportamento do homem vão sendo pouco a pouco purificados e transformados, ao longo de um itinerário jamais completamente terminado nesta vida. A «fé, que actua pelo amor» (Gl 5, 6), torna-se um novo critério de entendimento e de acção, que muda toda a vida do homem (cf. Rm 12, 2; Cl 3, 9-10; Ef 4, 20-29; 2 Cor 5, 17).

7. «Caritas Christi urget nos – o amor de Cristo nos impele» (2 Cor 5, 14): é o amor de Cristo que enche os nossos corações e nos impele a evangelizar. Hoje, como outrora, Ele envia-nos pelas estradas do mundo para proclamar o seu Evangelho a todos os povos da terra (cf. Mt 28, 19). Com o seu amor, Jesus Cristo atrai a Si os homens de cada geração: em todo o tempo, Ele convoca a Igreja confiando-lhe o anúncio do Evangelho, com um mandato que é sempre novo. Por isso, também hoje é necessário um empenho eclesial mais convicto a favor duma nova evangelização, para descobrir de novo a alegria de crer e reencontrar o entusiasmo de comunicar a fé. Na descoberta diária do seu amor, ganha força e vigor o compromisso missionário dos crentes, que jamais pode faltar. Com efeito, a fé cresce quando é vivida como experiência de um amor recebido e é comunicada como experiência de graça e de alegria. A fé torna-nos fecundos, porque alarga o coração com a esperança e permite oferecer um testemunho que é capaz de gerar: de facto, abre o coração e a mente dos ouvintes para acolherem o convite do Senhor a aderir à sua Palavra a fim de se tornarem seus discípulos. Os crentes – atesta Santo Agostinho – «fortificam-se acreditando» (De utilitate credendi, 1, 2). O Santo Bispo de Hipona tinha boas razões para falar assim. Como sabemos, a sua vida foi uma busca contínua da beleza da fé enquanto o seu coração não encontrou descanso em Deus (Cf. Confissões, 1, 1). Os seus numerosos escritos, onde se explica a importância de crer e a verdade da fé, permaneceram até aos nossos dias como um património de riqueza incomparável e consentem ainda a tantas pessoas à procura de Deus de encontrarem o justo percurso para chegar à «porta da fé».

Por conseguinte, só acreditando é que a fé cresce e se revigora; não há outra possibilidade de adquirir certeza sobre a própria vida, senão abandonar-se progressivamente nas mãos de um amor que se experimenta cada vez maior porque tem a sua origem em Deus.

8. Nesta feliz ocorrência, pretendo convidar os Irmãos Bispos de todo o mundo para que se unam ao Sucessor de Pedro, no tempo de graça espiritual que o Senhor nos oferece, a fim de comemorar o dom precioso da fé. Queremos celebrar este Ano de forma digna e fecunda. Deverá intensificar-se a reflexão sobre a fé, para ajudar todos os crentes em Cristo a tornarem mais consciente e revigorarem a sua adesão ao Evangelho, sobretudo num momento de profunda mudança como este que a humanidade está a viver. Teremos oportunidade de confessar a fé no Senhor Ressuscitado nas nossas catedrais e nas igrejas do mundo inteiro, nas nossas casas e no meio das nossas famílias, para que cada um sinta fortemente a exigência de conhecer melhor e de transmitir às gerações futuras a fé de sempre. Neste Ano, tanto as comunidades religiosas como as comunidades paroquiais e todas as realidades eclesiais, antigas e novas, encontrarão forma de fazer publicamente profissão do Credo.

9. Desejamos que este Ano suscite, em cada crente, o anseio de confessar a fé plenamente e com renovada convicção, com confiança e esperança. Será uma ocasião propícia também para intensificar a celebração da fé na liturgia, particularmente na Eucaristia, que é «a meta para a qual se encaminha a acção da Igreja e a fonte de onde promana toda a sua força» (Conc. Ecum. Vat. II, Const. sobre a Sagrada Liturgia Sacrosanctum Concilium, 10).  Simultaneamente esperamos que o testemunho de vida dos crentes cresça na sua credibilidade. Descobrir novamente os conteúdos da fé professada, celebrada, vivida e rezada (Cf. João Paulo II, Const. ap. Fidei depositum(11 de Outubro de 1992): AAS 86 (1994), 116) e reflectir sobre o próprio acto com que se crê, é um compromisso que cada crente deve assumir, sobretudo neste Ano.

Não foi sem razão que, nos primeiros séculos, os cristãos eram obrigados a aprender de memória o Credo. É que este servia-lhes de oração diária, para não esquecerem o compromisso assumido com o Baptismo. Recorda-o, com palavras densas de significado, Santo Agostinho quando afirma numa homilia sobre a redditio symboli (a entrega do Credo): «O símbolo do santo mistério, que recebestes todos juntos e que hoje proferistes um a um, reúne as palavras sobre as quais está edificada com solidez a fé da Igreja, nossa Mãe, apoiada no alicerce seguro que é Cristo Senhor. E vós recebeste-lo e proferiste-lo, mas deveis tê-lo sempre presente na mente e no coração, deveis repeti-lo nos vossos leitos, pensar nele nas praças e não o esquecer durante as refeições; e, mesmo quando o corpo dorme, o vosso coração continue de vigília por ele» (Sermo 215, 1).

10. Queria agora delinear um percurso que ajude a compreender de maneira mais profunda os conteúdos da fé e, juntamente com eles, também o acto pelo qual decidimos, com plena liberdade, entregar-nos totalmente a Deus. De facto, existe uma unidade profunda entre o acto com que se crê e os conteúdos a que damos o nosso assentimento. O apóstolo Paulo permite entrar dentro desta realidade quando escreve: «Acredita-se com o coração e, com a boca, faz-se a profissão de fé» (Rm 10, 10). O coração indica que o primeiro acto, pelo qual se chega à fé, é dom de Deus e acção da graça que age e transforma a pessoa até ao mais íntimo dela mesma.

A este respeito é muito eloquente o exemplo de Lídia. Narra São Lucas que o apóstolo Paulo, encontrando-se em Filipos, num sábado foi anunciar o Evangelho a algumas mulheres; entre elas, estava Lídia. «O Senhor abriu-lhe o coração para aderir ao que Paulo dizia» (Act 16, 14). O sentido contido na expressão é importante. São Lucas ensina que o conhecimento dos conteúdos que se deve acreditar não é suficiente, se depois o coração – autêntico sacrário da pessoa – não for aberto pela graça, que consente de ter olhos para ver em profundidade e compreender que o que foi anunciado é a Palavra de Deus.

Por sua vez, o professar com a boca indica que a fé implica um testemunho e um compromisso públicos. O cristão não pode jamais pensar que o crer seja um facto privado. A fé é decidir estar com o Senhor, para viver com Ele. E este «estar com Ele» introduz na compreensão das razões pelas quais se acredita. A fé, precisamente porque é um acto da liberdade, exige também assumir a responsabilidade social daquilo que se acredita. No dia de Pentecostes, a Igreja manifesta, com toda a clareza, esta dimensão pública do crer e do anunciar sem temor a própria fé a toda a gente. É o dom do Espírito Santo que prepara para a missão e fortalece o nosso testemunho, tornando-o franco e corajoso.

A própria profissão da fé é um acto simultaneamente pessoal e comunitário. De facto, o primeiro sujeito da fé é a Igreja. É na fé da comunidade cristã que cada um recebe o Baptismo, sinal eficaz da entrada no povo dos crentes para obter a salvação. Como atesta o Catecismo da Igreja Católica, «“Eu creio”: é a fé da Igreja, professada pessoalmente por cada crente, principalmente por ocasião do Baptismo. “Nós cremos”: é a fé da Igreja, confessada pelos bispos reunidos em Concílio ou, de modo mais geral, pela assembleia litúrgica dos crentes. “Eu creio”: é também a Igreja, nossa Mãe, que responde a Deus pela sua fé e nos ensina a dizer: “Eu creio”, “Nós cremos”» (Catecismo da Igreja Católica, 167).

Como se pode notar, o conhecimento dos conteúdos de fé é essencial para se dar o próprio assentimento, isto é, para aderir plenamente com a inteligência e a vontade a quanto é proposto pela Igreja. O conhecimento da fé introduz na totalidade do mistério salvífico revelado por Deus. Por isso, o assentimento prestado implica que, quando se acredita, se aceita livremente todo o mistério da fé, porque o garante da sua verdade é o próprio Deus, que Se revela e permite conhecer o seu mistério de amor (Cf. Conc. Ecum. Vat. I, Const. dogm. sobre a fé católicaDei Filius, cap. III: DS 3008-3009; Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. sobre a Revelação divina Dei Verbum, 5)

Por outro lado, não podemos esquecer que, no nosso contexto cultural, há muitas pessoas que, embora não reconhecendo em si mesmas o dom da fé, todavia vivem uma busca sincera do sentido último e da verdade definitiva acerca da sua existência e do mundo. Esta busca é um verdadeiro «preâmbulo» da fé, porque move as pessoas pela estrada que conduz ao mistério de Deus. De facto, a própria razão do homem traz inscrita em si mesma a exigência «daquilo que vale e permanece sempre» (Bento XVI, Discurso no «Collège des Bernardins»(Paris, 12 de Setembro de 2008): AAS 100 (2008), 722). Esta exigência constitui um convite permanente, inscrito indelevelmente no coração humano, para se pôr a caminho ao encontro d’Aquele que não teríamos procurado se Ele não tivesse já vindo ao nosso encontro (Cf. Santo Agostinho, Confissões, 13, 1). É precisamente a este encontro que nos convida e abre plenamente a fé.

11. Para chegar a um conhecimento sistemático da fé, todos podem encontrar um subsídio precioso e indispensável no Catecismo da Igreja Católica. Este constitui um dos frutos mais importantes do Concílio Vaticano II. Na Constituição Apostólica Fidei depositum – não sem razão assinada na passagem do trigésimo aniversário da abertura do Concílio Vaticano II – o Beato João Paulo II escrevia: «Este catecismo dará um contributo muito importante à obra de renovação de toda a vida eclesial (...). Declaro-o norma segura para o ensino da fé e, por isso, instrumento válido e legítimo ao serviço da comunhão eclesial» (João Paulo II, Const. ap. Fidei depositum (11 de Outubro de 1992): AAS 86 (1994), 115 e 117).

É precisamente nesta linha que o Ano da Fé deverá exprimir um esforço generalizado em prol da redescoberta e do estudo dos conteúdos fundamentais da fé, que têm no  Catecismo da Igreja Católica a sua síntese sistemática e orgânica. Nele, de facto, sobressai a riqueza de doutrina que a Igreja acolheu, guardou e ofereceu durante os seus dois mil anos de história. Desde a Sagrada Escritura aos Padres da Igreja, desde os Mestres de teologia aos Santos que atravessaram os séculos, o Catecismo oferece uma memória permanente dos inúmeros modos em que a Igreja meditou sobre a fé e progrediu na doutrina para dar certeza aos crentes na sua vida de fé.

Na sua própria estrutura, o Catecismo da Igreja Católica apresenta o desenvolvimento da fé até chegar aos grandes temas da vida diária. Repassando as páginas, descobre-se que o que ali se apresenta não é uma teoria, mas o encontro com uma Pessoa que vive na Igreja. Na verdade, a seguir à profissão de fé, vem a explicação da vida sacramental, na qual Cristo está presente e operante, continuando a construir a sua Igreja. Sem a liturgia e os sacramentos, a profissão de fé não seria eficaz, porque faltaria a graça que sustenta o testemunho dos cristãos. Na mesma linha, a doutrina do Catecismo sobre a vida moral adquire todo o seu significado, se for colocada em relação com a fé, a liturgia e a oração.

12. Assim, no Ano em questão, o Catecismo da Igreja Católica poderá ser um verdadeiro instrumento de apoio da fé, sobretudo para quantos têm a peito a formação dos cristãos, tão determinante no nosso contexto cultural. Com tal finalidade, convidei a Congregação para a Doutrina da Fé a redigir, de comum acordo com os competentes Organismos da Santa Sé, uma Nota, através da qual se ofereçam à Igreja e aos crentes algumas indicações para viver, nos moldes mais eficazes e apropriados, este Ano da Fé ao serviço do crer e do evangelizar

De facto, em nossos dias mais do que no passado, a fé vê-se sujeita a uma série de interrogativos, que provêm duma diversa mentalidade que, particularmente hoje, reduz o âmbito das certezas racionais ao das conquistas científicas e tecnológicas. Mas, a Igreja nunca teve medo de mostrar que não é possível haver qualquer conflito entre fé e ciência autêntica, porque ambas tendem, embora por caminhos diferentes, para a verdade (Cf. João Paulo II, Carta enc. Fides et ratio (14 de Setembro de 1998), 34.106: AAS 91 (1999), 31-32.86-87).

13. Será decisivo repassar, durante este Ano, a história da nossa fé, que faz ver o mistério insondável da santidade entrelaçada com o pecado. Enquanto a primeira põe em evidência a grande contribuição que homens e mulheres prestaram para o crescimento e o progresso da comunidade com o testemunho da sua vida, o segundo deve provocar em todos uma sincera e contínua obra de conversão para experimentar a misericórdia do Pai, que vem ao encontro de todos.

Ao longo deste tempo, manteremos o olhar fixo sobre Jesus Cristo, «autor e consumador da fé» (Heb 12, 2): n’Ele encontra plena realização toda a ânsia e anélito do coração humano. A alegria do amor, a resposta ao drama da tribulação e do sofrimento, a força do perdão face à ofensa recebida e a vitória da vida sobre o vazio da morte, tudo isto encontra plena realização no mistério da sua Encarnação, do seu fazer-Se homem, do partilhar connosco a fragilidade humana para a transformar com a força da sua ressurreição. N’Ele, morto e ressuscitado para a nossa salvação, encontram plena luz os exemplos de fé que marcaram estes dois mil anos da nossa história de salvação.

Pela fé, Maria acolheu a palavra do Anjo e acreditou no anúncio de que seria Mãe de Deus na obediência da sua dedicação (cf. Lc 1, 38). Ao visitar Isabel, elevou o seu cântico de louvor ao Altíssimo pelas maravilhas que realizava em quantos a Ele se confiavam (cf. Lc 1, 46-55). Com alegria e trepidação, deu à luz o seu Filho unigénito, mantendo intacta a sua virgindade (cf. Lc 2, 6-7). Confiando em José, seu Esposo, levou Jesus para o Egipto a fim de O salvar da perseguição de Herodes (cf. Mt 2, 13-15). Com a mesma fé, seguiu o Senhor na sua pregação e permaneceu a seu lado mesmo no Gólgota (cf. Jo 19, 25-27). Com fé, Maria saboreou os frutos da ressurreição de Jesus e, conservando no coração a memória de tudo (cf. Lc 2, 19.51), transmitiu-a aos Doze reunidos com Ela no Cenáculo para receberem o Espírito Santo (cf. Act 1, 14; 2, 1-4).

Pela fé, os Apóstolos deixaram tudo para seguir o Mestre (cf. Mc 10, 28). Acreditaram nas palavras com que Ele anunciava o Reino de Deus presente e realizado na sua Pessoa (cf. Lc 11, 20). Viveram em comunhão de vida com Jesus, que os instruía com a sua doutrina, deixando-lhes uma nova regra de vida pela qual haveriam de ser reconhecidos como seus discípulos depois da morte d’Ele (cf. Jo 13, 34-35). Pela fé, foram pelo mundo inteiro, obedecendo ao mandato de levar o Evangelho a toda a criatura (cf. Mc 16, 15) e, sem temor algum, anunciaram a todos a alegria da ressurreição, de que foram fiéis testemunhas.

 Pela fé, os discípulos formaram a primeira comunidade reunida à volta do ensino dos Apóstolos, na oração, na celebração da Eucaristia, pondo em comum aquilo que possuíam para acudir às necessidades dos irmãos (cf. Act2, 42-47).

Pela fé, os mártires deram a sua vida para testemunhar a verdade do Evangelho que os transformara, tornando-os capazes de chegar até ao dom maior do amor com o perdão dos seus próprios perseguidores.

Pela fé, homens e mulheres consagraram a sua vida a Cristo, deixando tudo para viver em simplicidade evangélica a obediência, a pobreza e a castidade, sinais concretos de quem aguarda o Senhor, que não tarda a vir. Pela fé, muitos cristãos se fizeram promotores de uma acção em prol da justiça, para tornar palpável a palavra do Senhor, que veio anunciar a libertação da opressão e um ano de graça para todos (cf. Lc 4, 18-19).

Pela fé, no decurso dos séculos, homens e mulheres de todas as idades, cujo nome está escrito no Livro da vida (cf.Ap 7, 9; 13, 8), confessaram a beleza de seguir o Senhor Jesus nos lugares onde eram chamados a dar testemunho do seu ser cristão: na família, na profissão, na vida pública, no exercício dos carismas e ministérios a que foram chamados.

Pela fé, vivemos também nós, reconhecendo o Senhor Jesus vivo e presente na nossa vida e na história.

14. O Ano da Fé será uma ocasião propícia também para intensificar o testemunho da caridade. Recorda São Paulo: «Agora permanecem estas três coisas: a fé, a esperança e a caridade; mas a maior de todas é a caridade» (1 Cor13, 13). Com palavras ainda mais incisivas – que não cessam de empenhar os cristãos –, afirmava o apóstolo Tiago: «De que aproveita, irmãos, que alguém diga que tem fé, se não tiver obras de fé? Acaso essa fé poderá salvá-lo? Se um irmão ou uma irmã estiverem nus e precisarem de alimento quotidiano, e um de vós lhes disser: “Ide em paz, tratai de vos aquecer e de matar a fome”, mas não lhes dais o que é necessário ao corpo, de que lhes aproveitará? Assim também a fé: se ela não tiver obras, está completamente morta. Mais ainda! Poderá alguém alegar sensatamente: “Tu tens a fé, e eu tenho as obras; mostra-me então a tua fé sem obras, que eu, pelas minhas obras, te mostrarei a minha fé”» (Tg 2, 14-18).

A fé sem a caridade não dá fruto, e a caridade sem a fé seria um sentimento constantemente à mercê da dúvida. Fé e caridade reclamam-se mutuamente, de tal modo que uma consente à outra de realizar o seu caminho. De facto, não poucos cristãos dedicam amorosamente a sua vida a quem vive sozinho, marginalizado ou excluído, considerando-o como o primeiro a quem atender e o mais importante a socorrer, porque é precisamente nele que se espelha o próprio rosto de Cristo. Em virtude da fé, podemos reconhecer naqueles que pedem o nosso amor o rosto do Senhor ressuscitado. «Sempre que fizestes isto a um dos meus irmãos mais pequeninos, a Mim mesmo o fizestes» (Mt 25, 40): estas palavras de Jesus são uma advertência que não se deve esquecer e um convite perene a devolvermos aquele amor com que Ele cuida de nós. É a fé que permite reconhecer Cristo, e é o seu próprio amor que impele a socorrê-Lo sempre que Se faz próximo nosso no caminho da vida. Sustentados pela fé, olhamos com esperança o nosso serviço no mundo, aguardando «novos céus e uma nova terra, onde habite a justiça» (2 Ped 3, 13; cf. Ap 21, 1).
15. Já no termo da sua vida, o apóstolo Paulo pede ao discípulo Timóteo que «procure a fé» (cf. 2 Tm 2, 22) com a mesma constância de quando era novo (cf. 2 Tm 3, 15). Sintamos este convite dirigido a cada um de nós, para que ninguém se torne indolente na fé. Esta é companheira de vida, que permite perceber, com um olhar sempre novo, as maravilhas que Deus realiza por nós. Solícita a identificar os sinais dos tempos no hoje da história, a fé obriga cada um de nós a tornar-se sinal vivo da presença do Ressuscitado no mundo. Aquilo de que o mundo tem hoje particular necessidade é o testemunho credível de quantos, iluminados na mente e no coração pela Palavra do Senhor, são capazes de abrir o coração e a mente de muitos outros ao desejo de Deus e da vida verdadeira, aquela que não tem fim.

Que «a Palavra do Senhor avance e seja glorificada» (2 Ts 3, 1)! Possa este Ano da Fé tornar cada vez mais firme a relação com Cristo Senhor, dado que só n’Ele temos a certeza para olhar o futuro e a garantia dum amor autêntico e duradouro. As seguintes palavras do apóstolo Pedro lançam um último jorro de luz sobre a fé: «É por isso que exultais de alegria, se bem que, por algum tempo, tenhais de andar aflitos por diversas provações; deste modo, a qualidade genuína da vossa fé – muito mais preciosa do que o ouro perecível, por certo também provado pelo fogo – será achada digna de louvor, de glória e de honra, na altura da manifestação de Jesus Cristo. Sem O terdes visto, vós O amais; sem O ver ainda, credes n’Ele e vos alegrais com uma alegria indescritível e irradiante, alcançando assim a meta da vossa fé: a salvação das almas» (1 Ped 1, 6-9). A vida dos cristãos conhece a experiência da alegria e a do sofrimento. Quantos Santos viveram na solidão! Quantos crentes, mesmo em nossos dias, provados pelo silêncio de Deus, cuja voz consoladora queriam ouvir! As provas da vida, ao mesmo tempo que permitem compreender o mistério da Cruz e participar nos sofrimentos de Cristo (cf. Cl 1, 24) , são prelúdio da alegria e da esperança a que a fé conduz: «Quando sou fraco, então é que sou forte» (2 Cor 12, 10). Com firme certeza, acreditamos que o Senhor Jesus derrotou o mal e a morte. Com esta confiança segura, confiamo-nos a Ele: Ele, presente no meio de nós, vence o poder do maligno (cf. Lc 11, 20); e a Igreja, comunidade visível da sua misericórdia, permanece n’Ele como sinal da reconciliação definitiva com o Pai.

À Mãe de Deus, proclamada «feliz porque acreditou» (cf. Lc 1, 45), confiamos este tempo de graça.


Dado em Roma, junto de São Pedro, no dia 11 de Outubro do ano 2011, sétimo de Pontificado.





Desprezo de si e humildade - Sta Teresa D'Avila


A princípio, tudo se nos afigura muito árduo, e com razão, porque é guerra contra nós mesmos. Mas começando a trabalhar, Deus opera tanto na alma e lhe faz tai favores, que ela acha pouco tudo quanto se pode fazer nesta vida.

(...) Tudo, ou ao menos quase tudo, depende do esquecimento de nós mesmas e de nossas comidades. Quem deveras começa a servir ao Senhor, o mínimo que lhe pode oferecer é a vida, depois de lhe ter dado a vontade. Que há de temer?

(...) Aprendamos a contradizer em tudo a nossa vontade própria. Se empregardes nisto toda diligência, a pouco e pouco estareis no cume sem saber como. Parece demasiada exigência dizer que não tenhamos satisfação em coisa alguma! É porque não se diz a um tempo quantos prazeres e alegrias acarretam esta contradição, e o que se ganha com ela, ainda nesta vida! Quanta segurança!

(...) Acerca dos movimentos interiores haja muita vigilância, especialmente no que se refere às proeminências. Deus nos livre, por sua Paixão, de dizer ou pensar, para deter-nos nisto: "Sou mais antiga", "tenho mais anos", "trabalhei mais", "tratam melhor a outra". Se surgirem tais pensamentos, atalhai-os com presteza. Demorar neles ou pô-los em prática é peste e origem de grandes males. 

(...) Onde houver disputas de honra ou de dinheiro, crede-me, nunca progredirão muito. Não chegareis a gozar do verdadeiro fruto da oração, ainda que tenhais dela muitos anos de exercício - ou, para melhor dizer, de meditação - porque oração perfeita elimina esses ressaibos.

(...) Considere cada um em si o que tem de humildade e verá os progressos que fez. Parece-me que ao verdadeiro humilde, ainda por primeiro movimento, não ousará o demônio tentar em matéria de superioridades. Sagaz como é, teme o golpe. É impossível uma alma humilde não sair com maior fortaleza e aproveitamento na humildade quando é tentada contra ela.

Está claro, nessa tentação ela revê sua vida passada, compara os seus pobres serviços com os benefícios recebidos de Deus, examina seus próprios pecados e o lugar onde merecia estar por eles. Considera também as grandezas que o Senhor realizou aniquilando-se a Si mesmo para nos deixar exemplo de humildade. Isto faz tanto bem à alma, que o maligno não ousa tornar à carga, para não sair com a cabeça quebrada.

Segui este meu conselho e não o esqueçais: para vingar-vos do demônio e livrar-vos depressa da tentação, não vos contenteis em tirar proveito só no interior - grande mal seria se assim não fosse - mas, também no exterior, procurai que os irmãos se beneficiem com vossas tentações.

Assim que a tentação vos assaltar pedi à prelada que vos mande fazer algum serviço baixo, ou fazei-o como puderdes. Nesta matéria vive sempre estudando o modo de dobrar vossa vontade nas coisas que vos contrariam. O Senhor vos fará descobrir as ocasiões, e com isto durará pouco a tentação.

Deus nos livre de pessoas, desejosas de o servir, que se lembram da própria honra! É mau lucro. 

Sta Teresa D'Avila, Caminho de Perfeição, Cap. 12

Dia de Sta Teresa D'Avila


Hoje é dia de Sta Teresa D'Avila,  Doutora da Igreja, Mestra de Oração e Mãe do Carmelo Descalço e das almas carmelitas.

Há algum tempo atrás, eu reuni alguns textos e videos a respeito da sua espiritualidade num outro blog que mantenho. Disponibilizo o link para quem se interessar.

O Cristianismo é católico, desde o início

O conhecimento de nós mesmos


"À proporção que a luz aumenta, vemo-nos piores do que supúnhamos. Ficamos estupefatos com a nossa cegueira anterior ao vermos sair do nosso coração um verdadeiro enxame de sentimentos vergonhosos, como répteis imundos que rastejam para fora de uma caverna oculta. Mas não devemos ficar nem estupefatos nem perturbados. Não somos piores do que éramos; pelo contrário, somos melhores. Mas ao mesmo tempo que as  nossas faltas diminuem, a luz sob a qual as vemos se torna mais brilhante, e nos enchemos de horror. Enquanto não houver sinal de cura, não damos tento da profundeza do nosso mal; encontramo-nos num estado de presunção cega e de dureza, presa da ilusão sobre nós mesmos. Enquanto seguimos com a corrente, não temos consciência do seu curso rápido; mas quando começamos a represá-la, por pouco que seja, ela se faz sentir."

Fénelon

Ciência e Transcendência - Olavo de Carvalho



A ciência significa um conhecimento racional organizado. Pra ser racional você tem que partir de certas premissas que sejam universalmente inquestionáveis, que são os fundamentos da própria lógica.

Quando nós partimos do princípio que a base do conhecimento é a experiência, nós temos que entender primeiro o que é a experiência. A experiência se dá sempre dentro de um quadro existencial neste mundo que nós vivemos. Então, a existência do mundo é a primeira premissa da ciência. A segunda premissa tem que ser a natureza do próprio conhecimento humano. Você não vai encontrar uma única época na história em que os seres humanos tenham vivido na ignorância total e nem alguma em que eles tenham vivido na total sabedoria. O ser humano vive, desde que existe, num lusco-fusco, numa mistura de sabedoria e ignorância, de conhecimento e ignorância. Isso quer dizer que a realidade dentro da qual nós vivemos tem necessariamente extensões para além do limite conhecido e isto não é uma coincidência, não é uma situação provisória que nós possamos ter a esperança de vencer amanhã. Nós nunca chegaremos ao conhecimento total porque isso é incompatível com a própria duração da vida humana. Uma criatura que vive durante um período x e depois morre não pode ter o conhecimento total porque ela não pode ter o conhecimento do que [acontecerá] no dia seguinte porque que ela morreu. Portanto, a ambição do conhecimento total é incompatível com a própria estrutura da realidade na qual nós vivemos. Isso quer dizer que essa estrutura da realidade comporta necessariamente a noção de um 'para além', de uma transcendência. Ela incorpora isso necessariamente, e quem não for capaz de aprender isso, não tem o direito de abrir a boca num debate científico. A noção de transcendência é absolutamente necessária para qualquer raciocínio que você comece a fazer.

Por outro lado, a atitude que você tem perante essa transcendência só pode ser duas: ou é uma atitude de abertura confiante, ou é uma atitude de recuo temeroso. Só existem essas duas. A atitude de abertura é a que preside a fundação da Filosofia, da Ciência e das Religiões. A outra atitude é que produz o agnosticismo. O agnosticismo é você ter medo de Deus ao ponto de odiá-lo e não querer mais pensar naquilo; a transcendência te apavora de tal maneira que você tem que fechar os olhos e negar que aquilo existe. Então você inventa três ou quatro preceitos metodológicos e diz o seguinte: "daqui pra frente nós só vamos investigar isso, mais isso e mais isso. O que estiver fora disso não interessa e nem mesmo existe."

Olavo de Carvalho, Trecho de um de seus programas no True Outspeak
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