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Espetacular - Irmão de Leonardo Boff defende Bento 16 e critica Teologia da Libertação




ALEXANDRE GONÇALVES
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA


Em maio de 1986, os irmãos Clodovis e Leonardo Boff publicaram uma carta aberta ao cardeal Joseph Ratzinger. O artigo analisava a instrução "Libertatis Conscientia", em que o futuro papa Bento 16 visava corrigir os supostos desvios da Teologia da Libertação na América Latina. Os religiosos brasileiros desaprovavam, com uma ponta de ironia e uma boa dose de audácia, a "linguagem com 30 anos de atraso" no texto.

Em 2007, o irmão mais novo de Leonardo Boff voltou à carga. Mas, dessa vez, o alvo foi a própria Teologia da Libertação --movimento do qual ele foi um dos principais teóricos e que defende a justiça social como compromisso cristão. Ele censurou a instrumentalização da fé pela política e enfureceu velhos colegas ao sugerir que teria sido melhor levar a sério a crítica de Ratzinger.

Em entrevista à Folha por telefone, frei Clodovis diz que Bento 16 defendeu o "projeto essencial" da Teologia da Libertação, mas o critica por superdimensionar a força do secularismo no mundo.

*

Folha - Bento 16 foi o grande inimigo da Teologia da Libertação?

Clodovis Boff - Isso é uma caricatura. Nos dois documentos que publicou, Ratzinger defendeu o projeto essencial da Teologia da Libertação: compromisso com os pobres como consequência da fé. Ao mesmo tempo, critica a influência marxista. Aliás, é uma das coisas que eu também critico.

No documento de 1986, ele aponta a primazia da libertação espiritual, perene, sobre a libertação social, que é histórica. As correntes hegemônicas da Teologia da Libertação preferiram não entender essa distinção. Isso fez com que, muitas vezes, a teologia degenerasse em ideologia.

- E os processos inquisitoriais contra alguns teólogos?

Ele exprimia a essência da igreja, que não pode entrar em negociações quando se trata do núcleo da fé. A igreja não é como a sociedade civil, onde as pessoas podem falar o que bem entendem. Nós estamos vinculados a uma fé. Se alguém professa algo diferente dessa fé, está se autoexcluindo da igreja.

Na prática, a igreja não expulsa ninguém. Só declara que alguém se excluiu do corpo dos fiéis porque começou a professar uma fé diferente.

- Não há margem para a caridade cristã?

O amor é lúcido, corrige quando julga necessário. [O jesuíta espanhol] Jon Sobrino diz: "A teologia nasce do pobre". Roma simplesmente responde: "Não, a fé nasce em Cristo e não pode nascer de outro jeito". Assino embaixo.

- Quando o sr. se tornou crítico à Teologia da Libertação?

Desde o início, sempre fui claro sobre a importância de colocar Cristo como o fundamento de toda a teologia. No discurso hegemônico da Teologia da Libertação, no entanto, eu notava que essa fé em Cristo só aparecia em segundo plano. Mas eu reagia de forma condescendente: "Com o tempo, isso vai se acertar". Não se acertou.

- "Não é a fé que confere um sentido sobrenatural ou divino à luta. É o inverso que ocorre: esse sentido objetivo e intrínseco confere à fé sua força." Ainda acredita nisso?

Eu abjuro essa frase boba. Foi minha fase rahneriana. [O teólogo alemão] Karl Rahner estava fascinado pelos avanços e valores do mundo moderno e, ao mesmo tempo, via que a modernidade se secularizava cada vez mais.

Rahner não podia aceitar a condenação de um mundo que amava e concebeu a teoria do "cristianismo anônimo": qualquer pessoa que lute pela justiça já é um cristão, mesmo sem acreditar explicitamente em Cristo. Os teólogos da libertação costumam cultivar a mesma admiração ingênua pela modernidade.

O "cristianismo anônimo" constituía uma ótima desculpa para, deixando de lado Cristo, a oração, os sacramentos e a missão, se dedicar à transformação das estruturas sociais. Com o tempo, vi que ele é insustentável por não ter bases suficientes no Evangelho, na grande tradição e no magistério da igreja.

- Quando o sr. rompeu com o pensamento de Rahner?

Nos anos 70, o cardeal d. Eugênio Sales retirou minha licença para lecionar teologia na PUC do Rio. O teólogo que assessorava o cardeal, d. Karl Joseph Romer, veio conversar comigo: "Clodovis, acho que nisso você está equivocado. Não basta fazer o bem para ser cristão. A confissão da fé é essencial". Ele estava certo.

Assumi postura mais crítica e vi que, com o rahnerismo, a igreja se tornava absolutamente irrelevante. E não só ela: o próprio Cristo. Deus não precisaria se revelar em Jesus se quisesse simplesmente salvar o homem pela ética e pelo compromisso social.

- Bento 16 sepultou os avanços do Concílio Vaticano 2º?

Quem afirma isso acredita que o Concílio Vaticano 2º criou uma nova igreja e rompeu com 2.000 anos de cristianismo. É um equívoco. O papa João 23 foi bem claro ao afirmar que o objetivo era, preservando a substância da fé, reapresentá-la sob roupagens mais oportunas para o homem contemporâneo.

Bento 16 garantiu a fidelidade ao concílio. Ao mesmo tempo, combateu tentativas de secularizar a igreja, porque uma igreja secularizada é irrelevante para a história e para os homens. Torna-se mais um partido, uma ONG.

- Mas e a reabilitação da missa em latim? E a tentativa de reabilitação dos tradicionalistas que rejeitaram o Vaticano 2º?

Não podemos esquecer que a condição imposta aos tradicionalistas era exatamente que aceitassem o Vaticano 2º. O catolicismo é, por natureza, inclusivo. Há espaço para quem gosta de latim, para quem não gosta, para todas as tendências políticas e sociais, desde que não se contraponham à fé da igreja.

Quem se opõe a essa abertura manifesta um espírito anticatólico. Vários grupos considerados progressistas caíram nesse sectarismo.

- Esses grupos não foram exceção. Bento 16 sofreu dura oposição em todo o pontificado.

A maioria das críticas internas a ele partiu de setores da igreja que se deixaram colonizar pelo espírito da modernidade hegemônica e que não admitem mais a centralidade de Deus na vida. Erigem a opinião pessoal como critério último de verdade e gostariam de decidir os artigos da fé na base do plebiscito.

Tais críticas só expressam a penetração do secularismo moderno nos espaços institucionais da igreja.

- Como descreveria a relação de Bento 16 com a modernidade?

É possível identificar um certo pessimismo na sua reflexão. Ele não está só. Há um rio de literatura sobre a crise da modernidade, que remete até mesmo a autores como Nietzsche e Freud. O que ele tem de diferente? Propõe uma saída: a abertura ao transcendente.

- Ainda assim, há pessimismo.

Há algo que ele precisaria corrigir: Bento 16 leva a sério demais o secularismo moderno. É uma tendência dos cristãos europeus. Eles esquecem que o secularismo é uma cultura de minorias. São poderosas, hegemônicas, mas ainda assim minorias.

A religião é a opção de 85% da humanidade. Os ateus não passam de 2,5%. Com os agnósticos, não chegam a 15%. Minoria culturalmente importante, sem dúvida: domina o microfone e a caneta, a mídia e a academia. Mas está perdendo o gás. Há um reavivamento do interesse pela espiritualidade entre os jovens.

- Que outras críticas o sr. faria a Bento 16?

Ele preferiria resolver problemas teológicos a se debruçar sobre questões administrativas na Cúria. E isso gerou diversos constrangimentos no seu pontificado. Ele também não tem o carisma de um João Paulo 2º. De certa forma, era o esperado em um intelectual como ele.

- Não está na hora de a igreja ficar mais próxima da realidade dos fiéis?

Bento 16 não resolveu um problema que se arrasta desde o Concílio Vaticano 2º: a necessidade de se criarem canais para a cúpula escutar e dialogar com as bases.

Os padres nas paróquias muitas vezes ficam prensados entre a letra fria que vem da cúpula e o cotidiano sofrido dos fiéis, que pode envolver dramas como aborto ou divórcio. Note que não sugiro mudanças no ensinamento da igreja. Mas acho que seria mais fácil para as pessoas viverem a doutrina católica se houvesse processos que facilitassem esse diálogo.

- Como vê o futuro da igreja?

A modernidade não tem mais nada a dizer ao homem pós-moderno. Quais as ideologias que movem o mundo? Marxismo? Socialismo? Liberalismo? Neoliberalismo? Todas perderam credibilidade. Quem tem algo a dizer? As religiões e, sobretudo no Ocidente, a Igreja Católica.

Fonte: Folha

A Comunhão na Mão não tem nada a ver com a Igreja Primitiva; é de origem calvinista



Athanasius Schneider tem 50 anos, é ucraniano e desde 2006 tem exercido como bispo auxiliar em duas dioceses do Cazaquistão, uma ex república soviética com uns 26% de população cristã, majoritariamente ortodoxa mas com uma pujante comunidade católica.

Recentemente, monsenhor Schneider, que é expert em Patrística e Igreja Primitiva, explicou na emissora de Rádio Maria no sul do Tirol as diferenças entre a forma de comungar na Igreja Primitiva e a atual prática da comunhão na mão.

Segundo afirmou, este costume é "completamente novo" depois do Concílio Vaticano II e não tem suas raízes nos tempos dos primeiros cristãos, como se tem sustentado com frequência.

Na Igreja Primitiva havia que se purificar as mãos antes e depois do rito, e a mão estava coberta com um corporal, donde se tomava a forma diretamente com a língua: "Era mais uma comunhão na boca que na mão", afirmou Schneider. De fato, depois de fazer desaparecer a Sagrada Hóstia o fiel devia recolher da mão com a língua qualquer mínima partícula consagrada. Um diácono supervisava esta operação.

Jamais se tocava com os dedos: "O gesto da comunhão na mão tal como o conhecemos hoje era completamente desconhecido" entre os primeiros cristãos.

Origem Calvinista

Ainda assim, se abandonou aquele rito pela administração direta do sacerdote na boca, uma mudança que teve lugar "instintiva e pacificamente" em toda a Igreja. A partir do século V, no Oriente, e no Ocidente um pouco depois. O Papa São Gregório Magno no século VII já o fazia assim, e os sínodos franceses e espanhóis dos séculos VIII e IV sancionavam a quem tocasse a Sagrada Forma.

Segundo monsenhor Schneider, a prática que hoje conhecemos da comunhão na mão nasceu no século XVII entre os calvinistas, que não criam na presença real de Jesus Cristo na eucaristia. "Nem Lutero", que acreditava nela ainda que não na transubstanciação, "o haveria feito", disse o bispo cazaquistão: "De fato, até há relativamente pouco os luteranos comungavam de rodelas na boca, e todavia hoje alguns o fazem assim nos países escandinavos".

[Tradução minha, do Espanhol.]

Música Sacra deve levar à Nostalgia do Transcendente



Entrevista ao cardeal Zenon Grocholewski

ROMA, quarta-feira, 1º de junho de 2011 (ZENIT.org) - A música sacra tem de levar a viver algo de transcendente, diferente da completa banalidade dos cantos que não se adaptam à oração e que são apenas barulho.
É o que afirma o cardeal Zenon Grocholewski, prefeito da Congregação para a Educação Católica e grão-chanceler do Pontifício Instituto de Música Sacra, nesta entrevista a ZENIT, durante um congresso em Roma.
ZENIT: Como se harmoniza a música sacra com as novas tendências?
Cardeal Grocholewski: O problema não é fácil. Trata-se, por um lado, de unir a tradição da Igreja e, por outro, de dar possibilidades às novas contribuições musicais. Por isso Pio X fundou o Instituto, para estudar a problemática. Aqui estudam pessoas do mundo todo. É para formar as pessoas e sensibilizá-las quanto ao papel da música sacra.
ZENIT: Como a música sacra se integra na liturgia?
Cardeal Grocholewski: A música sacra é uma parte integrante da liturgia, e, portanto, tem que ser uma oração que expressa aquele momento. Ela não é um acessório, ela é essencial. Neste congresso, falaram mais de cem pessoas, dos mais variados ambientes, e elas deram uma contribuição para entender como conciliar a tradição com elementos novos que podemos agregar.
Hoje observamos uma completa banalidade desses cantos que não se adaptam à oração, que são apenas barulho. A liturgia precisa também de silêncio.
Por outro lado, o canto é oração coerente com a eucaristia. Na verdade, no passado, grandes músicos fizeram composições estupendas referentes à missa, como Giovanni de Palestrina. Todos fizeram muitas coisas estupendas propícias à oração.
ZENIT: Hoje talvez fosse necessário voltar a ter um pouco mais de música sacra nas igrejas, não?
Cardeal Grocholewski: Sim, seria preciso reforçar a compreensão da música sacra. Há novas composições, muitas vezes eu as ouço nas igrejas, completamente novas e muito bonitas. Por exemplo, no ano passado eu estive em Marselha, onde tinha celebrado para alguns juristas numa igreja que quase foi demolida, porque não havia fiéis.
Chegou um padre novo, e, agora, aos domingos, aquela igreja está cheia. Entre outras coisas, por causa do canto e da oração. São composições dele. Esse padre, antes de entrar no seminário, cantava nos cabarés de Paris, depois se converteu e se ordenou padre. Eu fiquei fascinado de ver que composições dele expressam a oração! Isso é oração e aquela igreja enche!
Na saída, perguntei às pessoas e muitas me diziam que vinham de longe “porque aqui se reza, o padre prega e nós o entendemos, e há uma bela música”.
ZENIT: O senhor falou de sacralidade. O que é sacralidade?
Cardeal Grocholewski: A sacralidade se expressa na medida em que se manifesta a oração, como nostalgia por algo, na medida em que se expressa a transcendência. Eu acho muito importante. Hoje, por exemplo, algumas músicas modernas, que escutamos na televisão, não têm nada de transcendental, são pura diversão aqui na terra, não têm nostalgia de nada.
Claro, não é fácil de definir, não é uma coisa física, material, se bem que existe sensibilidade na Igreja, que sabe reconhecer quando uma coisa é sacra ou não é.
ZENIT: Em alguma oportunidade, um prelado dizia que a música na liturgia nos leva a viver o que será o paraíso. O que a música sacra nos dá?
Cardeal Grocholewski: Muitas coisas belas sobre a música sacra foram escritas por Ratzinger antes de ser Papa. Agora saiu uma opera omnia de Ratzinger, e na Itália saiu um volume justamente sobre a liturgia, com 200 páginas sobre música sacra. São coisas muito bonitas. Com razão, Bento XVI sublinha que a música sacra tem que nos levar para outro mundo, para uma nostalgia do transcendente.
Não é mero som que nos tira da realidade. O Papa fala que quando se perde esse horizonte transcendente da vida humana, tudo se reduz ao terreno, mesmo a música e a profundidade do pensamento. A música tem que abrir espaço para o transcendental.
ZENIT: Há certo consenso na Igreja de que o órgão é o instrumento sacro por excelência, sem excluir outros?
Cardeal Grocholewski: Acho que sim, eu acho que, quando uma pessoa entra numa igreja, o órgão cria uma atmosfera, dá certa plenitude. Em muitas igrejas modernas, inclusive importantes, procura-se conservar o órgão.
ZENIT: O senhor daria algum conselho aos párocos, especialmente aos mais jovens?
Cardeal Grocholewski: Eu acho que precisamos sensibilizar as pessoas para a música sacra, aquela que é oração. Claro que não é possível criar um lindo coro em cada paróquia. Mas é necessário sensibilizar as pessoas sobre a sacralidade do canto que se interpreta na igreja.

Fonte: Zenit

Diálogo de uma freira com um livre pensador


Este texto já é bastante antigo, mas, recomendando-o hoje a uma amiga, eu o reli e o achei fenomenal. Segue, então:

**
O que se vai ler é o diálogo ultimamente travado entre uma freira, abadessa ou priora de certa comunidade, nesta capital, e um jornalista que entendeu oportuno entrevistá-la.


Freira — Diz o senhor que tem qualquer cousa a tratar comigo. Pode falar.

Jornalista — Reverenda madre, eu quisera obter informações que me habilitassem a escrever com acerto sobre o seu convento, e dele dar ao público uma notícia que não se apartasse da verdade.

F. — Notícia ao público! E que temos nós com o vosso público, isto é, com o mundo de que voluntariamente nos afastamos, cortando até mesmo os laços de família que a ele nos prendiam?

J. — Não ignoro que menosprezais o mundo, mas não é menos certo que ele vos não menospreza e que se ocupa convosco. Vossa existência murada é um incentivo para a curiosidade. Por trás das chapas e das grades farejamos uns mistérios que ardemos por descobrir. Neste século de publicidade tendes o atrativo do que se recata e esconde. Natural é, pois, a trêfega indagação que ao redor desta casa vagueia, e da qual nós, os homens de imprensa, somos os órgãos naturais. Não seria, pois, preferível dizer-lhes logo o que é, por não deixarmos lugar a conjecturas talvez errôneas e nocivas?

F. — Se assim é como dizeis, o que de melhor poderíeis fazer seria explicar-lhe, ao vosso público, que por trás destes muros e nesta associação religiosa não há outros mistérios senão os da nossa religião, exarados no catecismo. Como vivemos e o que fazemos consta, outrossim, da nossa regra monástica, que muitas vezes se tem publicado.

J. — O público, ou, se preferir, o mundo não pode compreender por que, quando em torno de vós tudo se move e se agita, assim persistis na imobilidade do claustro.

F. — Não me pareceis lógico afirmando a nossa imobilidade, quando há pouco parecíeis de todo ignorar qual o nosso gênero de vida; e singularmente vos enganais acreditando que vivemos ociosas. Ainda mesmo supondo que não trabalhemos materialmente, o que não é bem verdade, ainda assim grande e importante seria a nossa tarefa. As mãos que se erguem para o céu fazem um imenso trabalho: não foi um santo, mas um dos vossos, Victor Hugo, quem o escreveu nos Miseráveis.

J. — Muito folgo, reverenda madre, que me citeis, não padres da Igreja, que não leio, mas pensadores profanos, o que mostra que os tendes lido, ao menos alguns, e isto nos abre um terreno, conhecido por nós ambos e em que sem constrangimento nos poderemos encontrar.


F. — Antes de professar li o que intitulais pensadores profanos, e estimo que isso vos traga qualquer vantagem para nos entendermos. Permiti, porém, que assinale uma das vossas fraquezas habituais. De ordinário, em vossa profissão de jornalista, quando, por exemplo, tendes de atacar a administração militar, procurais livros e autores que especialmente se ocupem da matéria. Tratados de ciência naval não faltariam na vossa biblioteca se tivésseis de escrever sobre marinha... Mas como é que todos discutis assuntos religiosos, sem conhecer ao menos os rudimentos da fé e da disciplina católica? Não falaríeis, certamente, sobre a literatura francesa do século décimo oitavo sem leitura de Voltaire; e vós mesmos, que vos propondes escrever sobre a vida monástica, jamais tendes lido um dos bons tratadistas que vos diriam o que ela seja!


J. — De boa mente confesso que aí não vos falta alguma razão, desde que a censura se dirija a mim, ou a qualquer outro publicista de penúltima classe; mas não acredito que seja fundada em relação aos verdadeiros cientistas.


F. — Haeckel, verbi gratia, o emérito propugnador do monismo, não o tendes por cientista às direitas? Pois bem, ainda outro dia ele assombrava o mundo religioso, revelando, em uma polêmica, a mais estupenda ignorância dos dogmas católicos, por isso que confundia a Encarnação do Verbo com a Imaculada Conceição de Maria. Os vossos governos, aliás, fomentam essa ignorância, proibindo que em país de católicos se ensine a doutrina católica.


J. — Isto se faz para assegurar a liberdade de consciência.


F. — Perdão: então não apanhastes o meu argumento, ou antes fui eu quem não se fez compreender. O que digo é que, independentemente de qualquer intimativa, coação ou sedução religiosa, a doutrina cristã deveria ser ensinada em vossas escolas como elemento essencial e indispensável para a compreensão da atual ordem de cousas, da civilização ambiente. Que fazeis para entender a vida grega e romana? Ler e reler a Cité Antique, de Fustel de Coulanges, ou qualquer outro autorizado especialista. Em Constantinopla, nada entenderíeis da cidade otomana e de seus usos, se de todo estranho vos fosse o Alcorão. Pois bem! viveis em uma sociedade católica — eis o fato — e sonegais aos vossos alunos o único livro que lho poderia explicar.


J. — Percebo agora, reverenda madre, a força de vosso raciocínio, e não vos negarei que, conquanto especioso, não acho de pronto com que o refutar. E igualmente vos dou o parabéns pela agudeza dialética que exibis e que, com franqueza, não pensava encontrar neste retiro, onde fora de supor que no misticismo se embotasse o gume da razão.


F. — A devoção mais fervorosa não é incompatível com o cultivo das letras; e, se acaso vos não tivera esquecido a história literária, bem presente vos seria a nossa matriarca Santa Teresa de Jesus, cujas obras ao mesmo tempo exornam a literatura sacra e enaltecem a prosa e a poesia espanholas do século décimo sétimo.


J. — Teresa de Cepeda e Ahumada foi, reverenda madre, um poderoso engenho sobreexcitado pela histeria, e que, excepcional em tudo, não pode ser trazido como regra.


F. — Nem eu vos digo que Santa Teresa deva ser tomada por espécimem comum da intelectualidade monástica; da mesma sorte que para espécimem da vossa inteligência há fora, no mundo, erradamente se apontariam extraordinários intelectos. Na canonização de Santa Teresa, em 1622, Cervantes compôs uma ode, que foi lida por Lope de Vega. Ora, entre vossos romancistas e dramaturgos não vejo quem com esses dois vultos possa suportar o confronto.


J. — Está bem, reverenda madre, e peço que a mal não tomeis aquilo que me escapou no tocante à histeria: falo como homem do meu século, ao qual repugna o sobrenatural.


F. — Duplo engano, meu filho. Em primeiro lugar não há confundir histeria com o que chamais a exaltação da nossa santa. Vossos hospitais estão cheios de histéricas, e é singular que lá esse estado nervoso só conduza a disparates e loucuras, ao passo que na monja incomparável tão acima se elevou das melhores capacidade contemporâneas. Sei que há uma escola, ou antes um grupo, para o qual todo gênio é uma efermidade mental. Napoleão foi um epiléptico... Quero crer que o perfeito equilíbrio mental seja para esses tais a mais pacata mediocridade; e neste sentido lhes concedo que hoje tantos se exibam perfeitamente equilibrados.


J. — Este seria o meu primeiro erro; e o segundo...


F. — O segundo é supordes que ao vosso século repugna o sobrenatural. Pura ilusão! Sobrenatural e preternatural (que não são o mesmo) coexistem convosco, e neles estais e viveis imersos. O milagre permanente de Lourdes desafia todos os dias os vossos cientístas, que, não podendo negar os fatos, só têm para explicá-los uma palavra: — sugestão. O preternatural? Mas acaso ignorais que nesta cidade, quotidianamente, se evocam mortos, e milhares de pessoas, aos torvos de espíritos que por eles se apresentam, pedem o segredo da saúde e o da felicidade terrena, com sacrifício da futura? Nunca, eu vo-lo asseguro, nunca tão impregnado de sobrenatural e de preternatural esteve quanto agora o gênero humano. Nesta crise de fé, Deus amiúda os milagres, e para derribar a inconsistente fábrica do materialismo estavam reservadas aos nossos tempos as experiências dos ocultistas.


J. — Consenti, reverenda madre, que vos observe estarmos já muito longe do objeto que me induziu a importunar-vos. Não me dais licença para visitar agora o convento?


F. — Não. Vê-lo-eis depois, quando o tivermos deixado aos profanadores que dele vão fazer um hotel, segundo ouço dizer1. Onde se rezava, há de haver festins e dissoluções... Tanto peior para vós! Nós continuaremos ociosas, como dizeis, ou trabalhando, como dizia Victor Hugo, com mãos e olhos alçados para o céu, que é donde baixa a complacência para os que oram e a misericórdia para os que pecam.


J. — Não receais que, mal guiada por vossos inimigos, a opinião se transvie a vosso respeito?


F. — A opinião? Não a conhecemos nem a tememos. Costumais lamentar, e quero crer que sinceramente, a privação de liberdade que nos impusemos... Mas acabais de proferir o nome de um tirano à cujo domínio estamos subtraídas: — a opinião. Dela tremeis todos, desde o primeiro magistrado da República até o último cidadão: e nós impassíveis a afrontamos, melhormente eu diria — nem sequer a avistamos. Morrem às nossas portas essas ondas lodosas que chamais escândalo. Nossos caluniadores, não podemos pessoalmente amá-los, pois não sabemos quem sejam, mas todos os dias rezamos por eles, de ordem expressa de Jesus: Orai pelos que vos perseguem e caluniam.


J. — Mas, se indiferente vos pode ser o aleive em circunstâncias normais, haveis de convir que em quadras agitadas ele pode motivar o esbulho, o desacato, a violência...


F. — Escutai, meu filho. Quando o sacrifício se faz martírio, tanto maior a graça de Nosso Senhor. lede a história da revolução francesa, e lá encontrareis, em um dos capítulos do terror, a execução das carmelitanas de Compiègne. Morreram contentes, entoando o Te Deum. A priora, uma nobre velha, reservara-se para o fim, não por prolongar de minutos a existência, mas para confortar com sua presença as mais novas, entre as quais algumas na flor da juventude. Morreram todas como os mais bravos dentre os homens! Se em uma de vossas revoluções, que tão amiúde se sucedem, alguma se lembrar de nos bater à porta, achar-nos-á junto do altar; e deste para o céu o caminho é curto, ainda que seja através do apupo e do martírio.


J. — Ninguém, felizmente, em nossa terra, reverenda madre, pensa em prejudicar-vos e menos ainda em perseguir-vos. A tolerância é um dogma da verdadeira democracia...


F. — Sei disso... Vós, por ora, nos tolerais como quem tolera o vício ou o desvairo das ruins paixões. Seja como for, será o que Deus quiser! Se nos tolerardes, como nos Estados Unidos, havemos de conquistar mansa e irresistivelmente as consciências; se nos perseguirdes, como na França e em Portugal, por nós clamarão, diante de Deus, a ignomínia e os sofrimentos a que nos submeterdes.


J. — Mais ou menos o que havemos dito formaria um artigo interessante, pela pintura de dois estados d'alma tão diversos quanto o vosso e o meu. Não haveria, talvez, mal em publicá-lo... E, neste caso, não me fixareis algum ponto, que particularmente desejareis que se soubesse?


F. — Sim. Dizei lá fora que, com amor fraterno, nós vos amamos a todos — aos que nos defendem e protegem, bem aos que nos injuriam e detraem... Dizei-lhes que a nossa prece é uma catedral que não se acaba, e que nas ogivas destas mãos continuamente alçadas há o labor de uma construção que não percebeis, porque não olhais para o céu!
  1. 1.Segundo indica este trecho, o convento onde se teria dado este suposto diálogo seria o da Ajuda, em cujo terreno foi construída a atual Cinelândia, no Rio de Janeiro.
Fonte: Permanência

Dom Manoel Pestana sobre a TV no Brasil

"A televisão brasileira é a mais corruptora do mundo. Dom Lucas Moreira Alves viajou pelo mundo todo, conhece a televisão de 60 países, e garante que nunca viu televisão mais podre do que a nossa. É uma verdadeira escola de prostituição. Às sete, oito da noite, quando as crianças ainda estão na sala, liga-se a televisão e a sala de visitas se transforma num prostíbulo. A televisão brasileira é um curso acelerado de prostituição. Duvido que um pai de família tenha coragem de folhear uma revista pornográfica junto com suas filha de sete, oito anos. No entanto, esse mesmo pai de família assiste telenovelas que mostram essa mesma pornografia, só que não apenas graficamente, mas ao vivo, o que é muito pior."

O lugar próprio do Gregoriano é a Liturgia


Desenterro uma entrevista antiga, de 2005, com o Monsenhor Valenti Miserachs Grau, então presidente do Pontifício Instituto de Música Sacra, onde ele defende o evidente: a necessidade de que o Canto Gregoriano volte a protagonizar a Liturgia e que o latim seja revalorizado. Abaixo, alguns excertos...

**

"há uma opinião generalizada que coincide na necessidade de recuperar o latim e o canto gregoriano, que é o canto próprio da Igreja. O gregoriano foi abandonado e deixado em shows e Cd´s, quando seu lugar próprio era, é, a liturgia."

"Eu penso que os novos produtos musicais, na maioria dos casos, não souberam ou não puderam enraizar-se na irrenunciável tradição da Igreja, acarretando um empobrecimento geral. É incompreensível que especialmente nos países latinos se tenha deixado de lado o latim e o canto gregoriano nos últimos quarenta anos.

O latim e o canto gregoriano formam parte da tradição e foram amputados. É como cortar as raízes, agora que se fala tanto de raízes.

Esquecendo o gregoriano, criaram-se as condições para que proliferem novos produtos musicais que às vezes não têm a qualidade técnica suficiente. Se a têm, podem estar ao lado do gregoriano, por que não?"


Perguntado sobre o motivo pelo qual não se valoriza a capacidade dos fiéis de aprenderem melodias em latim, respondeu:

"Pensou-se que eram incapazes e isto é falso. As pessoas antes sabiam cantar em latim os cantos básicos, hoje parece que se fazem esforços para que desaprendam o que já sabiam. (...)

Ao povo, se convidado, é dada a partitura e é formado, portanto é totalmente capaz de seguir e cantar melodias gregorianas fáceis, ainda que seja a primeira vez que as ouve.

E assim como se aprende a cantar o repertório gregoriano, também se podem aprender os cantos nas línguas vivas, os que sejam dignos de estar ao lado do repertório gregoriano, claro está."


Interrogado sobre se se presta suficiente atenção à questão da música sacra na Igreja, respondeu:

"Não. Há tempo que se está insistindo neste ponto. Nosso instituto faz seu trabalho, mas é uma instituição acadêmica, não normativa, e não tem competências neste sentido. É necessária uma entidade vaticana que vele diretamente pela música sagrada, é uma necessidade.

João Paulo II recordou que o aspecto musical das celebrações litúrgicas não se pode deixar à improvisação ou ao livre arbítrio das pessoas, mas se deve confiar a uma direção concertada e ao respeito das normas. Esperam-se indicações autorizadas, e isto compete à Igreja de Roma, à Santa Sé."

Fonte: Zenit.
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