Tradutor / Translator


English French German Spain Italian Dutch Russian Portuguese Japanese Korean Arabic Chinese Simplified
Mostrando postagens com marcador Gustavo Corção. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Gustavo Corção. Mostrar todas as postagens

Imaturidade - Gustavo Corção


"Numa reunião de pais de família, uma pergunta é lançada à madre superiora:

"- Então a Sra. acha que não devemos obrigar os filhos a ir à missa?

"Houve um silêncio. Um suspense. E então a madre, com voz clara e resoluta, respondeu:

"- Não. A missa não deve ser imposta às crianças como um castigo, do qual não se pode escapar. A criança deve ser despertada para o significado e a beleza desse encontro semanal com o Cristo. Os pais devem dar o exemplo e mostrar à criança que ela é livre de fazer a escolha...

"E aí está. Tudo isto que pareceu muito bonito a vários pais de família é simplesmente monstruoso.

"Em primeiro lugar obrigação não é castigo. Em segundo lugar, a educação consiste essencialmente em preparo e em indicar aos educandos as suas obrigações e os seus deveres para com Deus, consigo mesmos e com o próximo. E educação católica consiste essencialmente em preparar a alma do educando para o cumprimento da vontade de Deus, expressa nos mandamentos.

"Todos nós sabemos há mais de dez mil anos, para o que concerne a lei natural, e há quase dois mil anos, para a lei revelada, que essa tarefa tem de ser feita com amor, dedicação incansável, alternativas de persuasão e severidade, e, sobretudo, sabemos que o desnível da autoridade paterna se atenua com o crescimento dos filhos. Ninguém pensará em obrigar um filho de 48 anos a cumprir o preceito dominical; mas também nenhum pai cristão de bom senso deverá consentir que um filho de 7 anos não vá à missa porque não quer. Diremos até que é bom, vez por outra, algum atrito, para lembrar à criança que há uma obrigação a cumprir em relação a Deus, e que nessa matéria ela tem de obedecer como o pai e a mãe obedecem. Chamo a atenção do leitor para um aspecto muito curioso da resposta daquela madre. Na religião nova ou na nova filosofia de vida que ela prega, os pais devem... os pais devem... mas os filhos não devem nem aprendem a dever. Observem especialmente esta passagem: “Os pais devem dar o exemplo e mostrar à criança que ela é livre de fazer a escolha...”. Do lado dos pais o dever, do lado dos filhos a liberdade, a livre opção. (Devemos aqui fazer uma distinção que certamente não ocorreu à freira: livre escolha, toda alma racional possui, se se trata de liberdade interior de autodeterminação da vontade; mas livre escolha dos atos exteriores, no sentido de liberdade, de independência, ou de não-obrigação, esta só temos em termos muito relativos já que todos nossos atos são polarizados no universo moral!)

"E aí está um exemplo típico do mundo em que vivemos: um colégio católico, de longa tradição, em cinco anos se transforma num “André Maurois”. Não ensinam os deveres e não se entende bem como será que o jovem descobrirá sozinho o dia e a hora em que deixa de ser um imaturo que só age em função do agrado, para ser um responsável."

(Editorial da revista Permanência n° 7, abril de 1969, Ano II)

Fonte: Permanência

O Viúvo viu a Ave - Gustavo Corção



Fiquei então convencido, nesse tempo, de que o mundo estava torto, intencionalmente torto, por malícia humana, para benefício exclusivo da detestada classe burguesa. Não havia tragédia nem mistério da iniqüidade, o que havia era trapaça. Um jeito que se lhe desse e o mundo endireitaria. O erro, sem dúvida alguma, continuaria a existir, mas com aquele caráter que tem na técnica: erro de detalhe, pequeno, estimulante, de cujo desgaste a evolução se encarregaria.

Encontrei amigos velhos e conheci novos. Em todos havia a mesma sanha antiburguesa e a mesma expectativa diante da onda de acontecimentos que engrossava a gravidade do mundo. Estávamos na época da revolução espanhola e assistíamos horrorizados às conseqüências do pacto renovado entre a política clerical, destiladora do ópio do povo, e os burgueses fardados de heróis de opereta, ávidos de poder.

Formamos logo um grupo conspirador onde havia um pouco de tudo o que fosse revolucionário: leninistas, trotzkistas e fascistas. Os últimos eram minoria; não olhavam com bons olhos o falangismo por causa do clero e guardavam reservas sobre o racismo alemão. Contentavam-se esses direitistas em arvorar a bandeira da grande raça branca e em citar versos implacáveis de Nietzsche.

Passávamos as noites trocando idéias para a retificação do eixo da Terra, com alarido, gastando generosidade, vivendo uma espécie de adolescência mental, citando autores mal lidos, condenando outros absolutamente ignorados, inventando  filosofias, acusando a Igreja de idealismo em nome de Marx e de Hegel. Os problemas mais diversos do mundo, desde o trigo até o sexo, teriam soluções fáceis desde que pudéssemos fazer um reajustamento de caráter plutônico na geologia social. Ninguém consentia em esperar sedimentações, porque era com essa tática que a Igreja e a Burguesia contavam.

De excitação em excitação, e certos de que todo o mal estava na direção burguesa baseada, ou na mais-valia ou na mentira vital, a maior parte do grupo não fazia questão da doutrina. A mim, devo confessar que o materialismo histórico nunca me pareceu suficientemente claro. Dessa discipliscência surgiam discussões, porque os outros não podiam suportar essa espécie de agnosticismo revolucionário, e três ou quatro rostos ansiosos de catequese viravam-se para mim. E lá vinha o Manifesto, a sociedade sem classes e tudo mais.

Mas pouco se me dava o materialismo histórico; o que eu queria era o fígado do burguês. Nesse ponto havia uma instantânea concordância. E assim ficávamos, até altas horas, espancando esse Judas ausente, com entremeio de anedotas inéditas.

Para mim e para o amigo Fred, quando marxistas não estavam presentes, o problema era mais psicológico do que econômico. Havia melhor entendimento entre nós; e, em lugar da divisão da sociedade em classes, que nos parecia simples de mais e um pouco ingênua, víamos a separação dos homens pela linha meridiana da mentira. Fred queria salvar o mundo da mentira ainda que devesse ser implacável e cruel. Queria entrar nas igrejas e atravessar a nave levantando um por um, para que todos reconquistassem a glória da verticalidade comprometida pelas genuflexões.

Faltava-nos, porém, uma técnica revolucionária. Como extrair força e consentimento das multidões com a leitura dum poema de Nietzsche? Nesse sentido os outros tinham razão: era mais fácil triunfar pelo proletariado do que pela grande sinceridade que se propunha armar um ninho entre os astros. Começaríamos um maquiavelismo necessário para a salvação da grande raça caucásica e do homem de amanhã.

A nossa grande satisfação consistia em imaginar, com detalhes e colorido, essa época radiosa em que pudéssemos, finalmente, sair pelo mundo marcando um sinal nas faces dos burgueses.

Eu já inventara um processo para a identificação dos réprobos com o emprego de certos reagentes, como na química. O principal seria a criança. Iria pelos caminhos com uma criancinha loura pela mão como aquele homem que descobre nascentes d’água com um bastão. Onde houvesse ajuntamento eu empurraria a criança, fá-la-ia atravessar o grupo, e onde o burguês estivesse, um abundante precipitado de mentira vital se alastraria pelo chão. Essa propriedade tinha para mim a força de uma definição: o burguês é o tipo que, diante de uma criança, segrega necessariamente a mentira.

Logo que ela acaba de nascer, a mentira, como ama-seca invisível, anda entre as rendas e as fitas do berço. A criança ainda não pode ouvir conselhos edificantes, não tem jeito de fazer pelos-sinais; só tem a boca como ponto vulnerável; então, metem-lhe na boca uma chupeta com açúcar...

Às vezes os amigos vinham à minha casa, a mesma onde moro ainda hoje, e como a amizade crescia, segundo as leis especiais desse epifenômeno, não era raro que viessem para jantar. Havia então uma trégua em nosso solarismo revolucionário, porque era difícil manter essa atitude diante duma mesa posta e de uma senhora que se desculpa por causa do pudim que se partira na fôrma. Ficávamos canhestros; o meu maior receio era que os amigos percebessem o burguesismo de meu interior. Nessas noites não havia beijo em filho, e quando a mulher subia para o sobrado levava como despedida um aceno de camaradagem soviética. Um dia, já por essas razões e também pelo heroísmo de nossas conversas, minha mulher declarou-me que eu e meus amigos éramos ridículos.

Ainda era pior o constrangimento quando calhava entrar outra pessoa da família, mãe ou irmã. Enfiávamos; nossas asas de condores ficavam murchas; e como afinal éramos filhos de boas famílias, não havia remédio senão falar os pequeninos nadas de educação burguesa.

Lá pelas onze, depois que todos saíam, então sim, nós nos encontrávamos, e, como desforra, entrávamos pela noite a dentro, entre muitos cigarros, fazendo a vigília tumultuosa daquele natal do mundo. Nunca em toda minha vida fui tão sublime e tão estúpido...

Quantas vezes já tenho pensado em vocês, meus bons companheiros de noitadas! Apesar de tudo nós nos queríamos bem. Hoje vocês estão longe, espalhados pelos quatro ventos, alguns exilados por terem passado da conversa fiada e inofensiva para os atos perigosos e irrefletidos. Meus bons companheiros, minha mulher tinha razão: nós éramos ridículos.

Aliás ela repetiu-me isso um pouco mais tarde com uma linguagem particularmente clara e convincente.

**

Naquelas noites, quando meus amigos saíam, eu fechava a casa ritualmente. Verificava os ferrolhos, despejava os cinzeiros atulhados e examinava o bico do gás, ouvindo ainda na memória o eco de nossa gritaria. A propósito de bico de gás devo dizer que minha mulher tinha cisma de incêndio. Desde os primeiros dias de nosso casamento, todas as noites, ela tinha que sentir um vago cheiro de queimado, e eu, com a solicitude de noivo, lá ia examinar os recantos da casa. Depois, na crise da acomodação, recusei-me a procurar, declarando secamente que era cisma. Mais tarde vieram os sarcasmos de marido, de especialista, e quando ela falava em cheiro de queimado eu logo acrescentava que tinha visto um clarão sinistro nos lados da cozinha.

Mas naquele tempo eu inspecionava os bicos, sondava os recantos e até gosto achava nisso. Quinze anos de casamento dão sentido aos gestos mais inúteis, que se tornam coisas de nossa vida, coisas que unem, gestos-filhos.

Enquanto eu fechava a casa, em cima, no sobrado, a mulher e as crianças dormiam. Minha casa nesse tempo, mais do que hoje, tinha dois pavimentos. Em baixo, o materialismo histórico ou a grande raça branca; em cima, dormindo desde as dez horas, a mulher que tinha passado o dia discutindo com o açougueiro, cosendo roupa, lavando os filhos e cuidando de meu jantar. Eu tinha duas casas. Há indivíduos que realizam esse feito em quarteirões diferentes e sem comunicação. Eu não; tinha duas casas na mesma; e duas vidas; e duas palavras. Para conquistar ordem e unidade no mundo, eu começava assim, tendo duas casas, e duas vidas, e duas palavras.

A escada era a comunicação. Depois de tudo bem fechado, eu subia a escada. E então, para não acordar mulher e filhos, e sobretudo para não ouvir alguma reflexão infalivelmente razoável, eu parava na porta do quarto, e ali no corredor, encostado na parede com precaução, tirava os sapatos para não fazer barulho.

**

Mas no dia seguinte recomeçava a história. Voltávamos a vociferar e discutir com o manifesto na mão. Insensivelmente íamos aumentando a solidez do grupo pela afeição, pelo brio, pelas palavras dadas, mas julgávamos que era a solidez da doutrina que nos unia melhor. Insensivelmente seríamos levados a praticar imprudências decisivas, gestos sem recuo possível, mesmo porque os agentes ativos da revolução já rondavam nossa porta para colher nossos entusiasmos. As conversas já saíam das divagações e resvalavam para conseqüências práticas. Poucos dias mais e eu me alistaria, com materialismo histórico ou sem ele, pela irresistível força do grupo, numa célula comunista.

Ora, foi nessa ocasião que minha mulher morreu.

**

Morreu moça. Levou dois meses a morrer. E passei esse tempo curvado sobre o meu caso particular. Alguém me dissera que aquela toxemia gravídica, com os progressos da medicina, conta somente um e meio por cento de casos fatais. Passei dois meses quase sem dormir por causa desse um e meio por cento, dando-lhe água e comida como às criancinhas, cuidando das menores coisas, passando um dia feliz por causa dum defecar e logo outro acabrunhado porque o pulso subia. Vi o médico deixar cair o estetoscópio em cima da cama e ficar olhando pela janela, pensativo. Quando me aproximei ele disse:
- Bonito flamboyant!

Olhei também; era no vizinho em frente. Era bonito mesmo. Num dos galhos mais altos estava um passarinho. Lembrei-me de minha cartilha que na segunda ou terceira página dizia assim: “O viúvo viu a ave.” Durante algum tempo fiquei remoendo estupidamente esse fenômeno lingüístico pelo qual eu seria um viúvo. Achei esquisito e repulsivo o vocábulo. O médico então explicou-me, com termos caridosos, que o meu caso particular estava entrando devagarzinho naquele um e meio por cento, e ponto a mão no meu braço, de leve, com cerimônia, falou-me em Deus.

Viveu ainda uns vinte dias. Uma tarde fui para o quintal e sentei-me num banco, embrutecido. Olhei o sol que se deitava por trás da casa do coronel. Lá ia o sol. O sol era um milhão e quatrocentas mil vezes maior do que a Terra; a Terra, com seus quintilhões de toneladas, era um grão de poeira perdido dentro duma enorme galáxia. Acordei de meus cálculos astronômicos pensando na minha doente desenganada. Era um caso particular, um ínfimo caso particular metido no universo e no tempo. Pensei no materialismo histórico; e senti de repente um calor de vexame no rosto.

Olhei em volta com receio que me tivessem visto o pensamento. Senti, como ainda hoje quando me lembro, um vexame intenso. Haverá decerto coisas mais graves, ações muito mais sérias, de piores conseqüências, mas não há nada mais persistente do que a lembrança duma gafe. Tudo aquilo, as discussões, os sistemas, tinha sido uma gafe. Eu bem sabia, ali sentado no banco, que voltaria depois ao meu trabalho e à vida de cada dia; que sentiria menos à medida que o tempo passasse; que tornaria a fazer meus aparelhos e ler meu galvanômetro. Mas de uma coisa eu estava certo: o materialismo histórico e a grande raça branca nunca mais teriam sentido para mim. A unidade de minha casa se restabelecia a preço alto, e o sobrado levava a melhor. Olhei para o sobrado, para as janelas do sobrado, e logo o sol, com todos os seus milhões de vezes, pareceu-me pequeno, e com todo o seu luxo de eléctrons e de fótons, pareceu-me ridículo diante daquela persiana fechada.

Veio o padre. O franciscano que tantas vezes nos visitara por causa do órgão. O órgão estava embaixo, na sala da frente; e por causa de seus fios, dos osciladores, de cada peça que durante anos estudara, o padre franciscano estava em cima, no sobrado, tirando dos panos de seu hábito um pedacinho de pão. E foi assim que o Corpo de Deus entrou pela primeira vez sob o meu teto, e que eu assisti, louvado seja Nosso Senhor, ao milagre de uma boa morte. Porque ela riu no seu último dia!

Gustavo Corção, A Descoberta do Outro.

A Livre Interpretação da Escritura



"...o que nos choca na atitude protestante é o seu esquisito modo de estimar a Bíblia. Nenhum de nós que escreve gostaria de sofrer o tratamento a que o protestante submete o Espírito Santo. Nenhum de nós se alegra de ser livremente interpretado; e podemos até dizer que o nosso mais acabrunhante sentimento vem do elogio equivocado. André Gide disse uma vez a um admirador apressado que, por favor, não o compreendesse tão facilmente. Pois bem, o Deus ciumento de sua identidade, que martela em nossos ouvidos a sua terrível definição "Eu sou aquele que sou", e que nos recomenda insistentemente que guardemos a doutrina, é tratado como um acomodado personagem que nos dissesse com bonomia: Aqui está a minha revelação, estejam a gosto, e façam dela o que quiserem."

Gustavo Corção, "A Visibilidade da Igreja", A Ordem, Maio de 1951

Fonte: Permanência

Não foi a Igreja que perdeu...



"Quem presta ouvidos àquela crônica das derrotas da Igreja, onde se diz que ela perdeu oportunidades e terreno, presta ouvidos aos pruridos e não às palavras da fé. Não lhe passa pelo espírito que foi o mundo que perdeu terreno no reino de Deus e não a Igreja que o perdeu nas cidades do mundo. Não se recorda mais que o banquete de núpcias será completo um dia, ainda que bilhões de convidados inventem as mais engenhosas desculpas para não comparecerem."

(A Descoberta do Outro, pág. 146) 

Fonte: Permanência.

Quem pensa não casa

 
Gustavo Corção

Há um provérbio de aparência imbecil que diz assim: “Quem pensa não casa.” É costume ver nesse provérbio o encorajamento para se ficar, durante a vida inteira, fechado numa prudência burguesa. Pensar, nesse caso, quer dizer: calcular despesas, prever doenças, avaliar a liberdade perdida em confronto com os novos encargos contraídos. Quem pensar assim não casará; resta-lhe a sabedoria negativa do provérbio para consolo. Não casa, mas pensa. É livre e pensa; é uma espécie de livre-pensador.

Através desse sentido comodista, o provérbio encerra uma advertência e sugere que é melhor casar do que ficar pensando. Quando um sujeito, nos caprichos da vida, encontra moça que acha de sua feição e que lhe corresponde, tem essa alternativa: escolher ou pensar. O escolher é precedido, evidentemente, de um certo pensar; é de toda prudência que se conviva com a moça, que se converse, que se observe umas tantas coisas, antes de decidir a escolha. O homem é dotado de razão também para casar e deve aplicá-la na justa medida.

A tarefa não é fácil. A moça se esconde através de certas manobras que, no dizer de muitos autores, lhe moram nas glândulas. O pretendente pode estar certo que ela mudará enormemente; não é assim como agora se ri que ela vai rir: não é disso que hoje chora que vai chorar. Seus gestos serão diferentes, sua forma se alterará, e sua própria voz, que tanto agrada hoje, será mais cheia e mais dura no difícil cotidiano. O mais atento leitor de um Bourget ou de um Montherlant se enganará redondamente se quiser fazer previsões psicológicas sobre a esposa escondida na noiva. Assim sendo, é justo que se pense e razoável que se cogite.

Mas num certo ponto do conhecer é preciso decidir. Ou escolhe, abrindo mão nesse único ato de todas as outras moças, entregando-se totalmente, correndo todos os riscos, agüentando todas as conseqüências, querendo desde já no seu coração agüenta-las, tendo confiança, pelo pouco que sabe, no muito que desconhece, trocando generosamente o pouco pelo muito, empenhando a vida inteira a vir em cima de alguns meses que já passaram; ou então continua pensando. E se pensa não casa. Não casa porque pode passar a vida inteira pensando. Sondando; sopesando; excogitando.

Conheço diversos casos assim, de namoros tristes que duraram mais de vinte anos: o noivo pensava. Num caso desses, em vez de festa de núpcias, houve luto, porque o noivo morreu pensando...  

Na catequese antiga, conforme o texto da Doutrina dos Doze Apóstolos, havia menção de dois caminhos: o caminho da Vida e o caminho da morte. Terminava um em núpcias; outro em luto. Era preciso escolher. Mas não devemos de forma alguma pensar que uns escolhiam o caminho da Vida e outros o da morte, como talvez se possa depreender que aconteceu nas margens do Ipiranga. Ninguém efetivamente escolhe o caminho da morte; mas entram por ele os que não querem escolher. Morrem por não quererem morrer; perdem a vida porque a querem guardar. Foi o que aconteceu com aquele noivo infeliz que morreu pensando; pensando e guardando; e tanto guardou que perdeu. 

O encontro, por si só, não dá noivado. O tempo traz a confiança que é a dilatação do encontro; mas a confiança só também não se resolve em noivado. A decisão final cabe a um ato de amor, a uma entrega; e como é ato de entrega parece morte, mas é vida. Depois do encontro, começa o pretendente a considerar, se possui um robusto senso comum, que é mais razoável casar com uma moça do que viver e morrer por uma causa, ou cair apaixonado pela humanidade inteira. Em seguida, precisa ter um certo senso lúdico para namorar com ingenuidade e sem complicados cálculos psicológicos. Nada disso porém resolve seu caso, se aquele senso do outro não estremece com amor e com fome, se não é um pobre na sua carne e um pobre de espírito, isto é, se não precisa da carne do outro e do espírito do outro, se não é, em suma, capaz de dar e de receber, se não decide, uma vez por todas, morrer, para viver nos braços amorosos de uma noiva feliz.

Não adiante ficar pensando indefinidamente, porque a pessoa do outro é inesgotável diante do cogitar. Por mais que faça, não é possível entrar na equação do outro, totalmente, com o sinal do conhecer. A pessoa só pode somar-se à pessoa com o sinal da cruz; conhece-a de modo eminente amando-a e crucificando-se nela.

Há uma escolha mais decisiva do que todas: um noivado que importa mais do que nenhum, que exige muito, porque promete uma esposa sem mancha e sem ruga. Tudo pode concorrer para o encontro; mil vezes se renova esse encontro, crescendo em insistência e em significação. Nossa pobre natureza tem, no mais fundo dos abismos, os recursos fundamentais para desejar e reconhecer, para anelar por esse encontro. Tem sede de eternidade; tem inteligência configurada para a Pessoa; tem a pobreza profunda do namorado. A confiança cresce à medida que cresce o conhecimento; a noiva chama; todos os santos rezam em coro; um dilúvio de méritos vem, do céu e da terra, molhar as raízes ressequidas de nosso cogitar. Tudo isso será perdido se de nossa parte recusamos a escolha. Há um momento, entrando pela eternidade, que resolve se haverá festa ou luto. Ou casamos ou pensamos. Ou fazemos penitência, ato de reconhecimento e de amor, ou prolongamos indefinidamente nossa prudência. E por mais que estudemos, experimentemos e analisemos, por mais que cresça a confiança, se não fizermos ato de amor, não haverá núpcias. Haverá estudo; confiança boa, mas seca; razoável, mas não amorável.  

Podemos ficar neste conflito vinte anos, quarenta anos, anotando num diário a interessante evolução de nossa personalidade. Mas não haverá festa; e morreremos evoluindo. Poderemos passar a vida inteira experimentando a doutrina em cima dos enigmas da natureza; do sol, dos insetos, das glândulas, para ver se não há falha; mas como essas coisas são muitas, e breve é a vida, morreremos fazendo a última experiência. E não haverá núpcias; e nem sequer assistiremos aos seus preparativos com o milagre do pão e do vinho.

Ninguém poderá esgotar com o conhecimento o fundo da doutrina que é Pessoa, e dificilmente poderá conhecer a milésima parte da obra humana escrita sobre a doutrina, que é imensa. Seria loucura aguardar, para ulterior resolução, a leitura das obras completas de São Tomás ou dos textos patrísticos. Mal temos tempo para ler uns poucos antigos e meia dúzia de autores modernos e mal podemos compreender os textos em toda a profundidade.

Será evidentemente um grande benefício para qualquer pessoa ler com boa vontade a obra de Maritain, de Karl Adam, de Guardini, de Amoroso Lima, de Dom Vonier, de Dom Columba Marmion; seria ainda melhor ler São Tomás, Santo Agostinho, São Cipriano, Santo Inácio, Santo Irineu: seria ainda melhor ler as Sagradas Escrituras. Mas ainda melhor tudo que tudo é pedir perdão a Deus e rezar um simples Padre-Nosso pedindo para a secura da alma o socorro da Fé, da Esperança e da Caridade.

Num certo ponto de seu conhecer ganhou confiança; então precisa escolher. Ninguém ganha a Fé por um aperfeiçoamento progressivo da discriminação, nem ganha a Esperança pela ginástica metódica do nervo lúdico: essas coisas são dons de Deus, temos de pedir o que de antemão já é dado. E não basta pensar: temos de pedir falando, levando nosso corpo, nossa voz viva ao ouvido consagrado. Temos de entrar na objetividade de Deus.

Depois do encontro, em que Deus e toda a Comunhão dos Santos o ajudou, o chamou, o procurou, é a vez dele, desse ajudado, desse chamado. É sua vez de jogar, cabe-lhe agora o lance. (...) Deus nos chama e nos ajuda, mas de repente ficamos numa situação inaudita, porque nos compete responder.

Quase se pode dizer que nesse instante incrível há um silêncio de Deus. Todos os santos calam-se. Há um silêncio, uma espera, um frêmito de impaciência, em que somente ecoam, nas almas dos eleitos, os últimos gemidos inefáveis. E, subitamente sós, sós e livres, terrivelmente sós e terrivelmente livres, nós, as criaturas, você, leitor, eu, o Edmundo, fomos chamados e inundados de misericórdias; mas de repente estamos sós e livres, e temos de fazer um pequeno ato, uma insignificância, um ato de penitência, um gesto de amor, uma coisa de nada que tem a capacidade de encher um silêncio de Deus.

Gustavo Corção, A Descoberta do Outro.
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...