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O que eu tenho contra a RCC?


Olá, caros. Há quanto tempo! Faz séculos que não escrevo aqui, mas chegou mais uma ocasião. O caso agora se deve a uma discussão - no bom sentido - recente que tive num dos grupos do whatsapp de que participo. A coisa gravitou em torno da RCC, e eu então me propus a fazer um resumão sobre os problemas essenciais que julgo ver neste movimento. Aqui, na forma de um texto, a coisa fica melhor dita. E uma coisa melhor dita é uma coisa bendita.

Antes de começar, convém explicar umas coisas. Eu fui carismático durante sete anos, como eu já falei noutros textos. Há, de fato, muitos artigos aqui no blog sobre este tema, e basta clicar na tag "rcc" no fim deste post ou do lado direito. Dê um "ctrl f" e procure aí. O fato de eu ter sido da RCC por vários anos me dá algum respaldo para falar do movimento. Eu não tratarei, porém, dos abusos específicos que se deveram à imprudência de certos membros, mas aos problemas essenciais, isto é, que fazem parte da própria essência do movimento. Assim, os problemas que eu descrever aqui referem-se à RCC em qualquer lugar e em qualquer tempo.

Ao contrário do que se pode pensar, porém, eu não tenho nada contra pessoas carismáticas. Alguns amigos são deste movimento, e vez ou outra me encontro com eles, e participo de momentos em comum, às vezes até tocando, inclusive com a famosa oração em línguas e as visualizações tão típicas. Claro que eu não adiro nem a uma nem a outra, mas não cismo, não saio criticando e nem faço cara feia. Não tenho qualquer animosidade pessoal em relação a isso, mas tenho ideias a respeito, já que já me propus estudar o fenômeno do carismatismo.

Antes de passar aos problemas, deixa eu começar fazendo o elogio. A RCC foi, logo após o Concílio Vaticano II, a alternativa que tínhamos à Teologia da Libertação, que nem cristianismo é. Os movimentos mais tradicionais não eram tão difundidos. Então, ao lado de um discurso puramente político, a RCC guardou e manteve a ênfase no caráter espiritual. Ela preservou e desenvolveu em nós o amor à Eucaristia, o zelo pelo estado de graça, o amor ao terço e a prática da adoração ao Santíssimo, pelos cercos de Jericó e as vigílias. Fez-nos, além disso, conhecer muitos amigos, viajar, e pensar continuamente no Céu e na vida dos santos. Desenvolveu em nós os dons de falar em público, de cantar, de tocar, de lidar com pessoas, etc. A RCC, graças a Deus, nos auxiliou bastante em tudo isso, e por isso eu e tantos outros somos gratos a ela. Isso, contudo, não a isenta dos seus problemas, alguns dos quais também nos prejudicaram, e às vezes não pouco.

Sigo, então, descrevendo os supostos equívocos que eu julgo ver neste movimento. Resumão:

1- Origem Protestante

 Os próprios carismáticos admitem sua origem protestante. E qual o problema disso? O problema é que o próprio nome "renovação" sugere a ideia de que algo envelheceu ou se perdeu na Igreja e que, tchan tchan tchan tchan, teria sido devolvido ou renovado no protestantismo! Mas que coisa interessante... Considerando que os carismas seriam algo dado pelo próprio Deus como uma espécie de participação íntima e sensível de Si mesmo, é curioso que a Igreja não os tivesse, o que vai contra o dogma da indefectibilidade da Igreja, e que os tivesse recebido dos protestantes, que negam pontos essenciais da Doutrina Católica. Além deste problema evidente, há outro: o Código de Direito Canônico da época proibia que católicos participassem de cultos em comum com protestantes, e os primeiros fenômenos do carismatismo entre católicos se deram justamente a partir dessas reuniões em que pessoas de toda e qualquer denominação cristã participavam e partilhavam as mesmas experiências. Ora, a se considerar o fenômeno carismático como verdadeiro, conclui-se que a desobediência não somente não é punida, mas é premiada por Deus. Como diz o Kiko, "que coisa, não?"

2- Doutrina em segundo plano

Isso nos leva ao segundo ponto: se Deus dá suas graças a cada um que professe qualquer coisa, então aquilo que se professa não é tão importante. Se o próprio Deus faz vista grossa em relação ao que cada um crê, a Doutrina é apenas um acessório, que pode-se ter ou não, mas com o qual não se pode ser muito exigente. Conclusão: a) tanto faz ser católico ou protestante; b) A Igreja Católica, em ser tão exigente com a Doutrina e inclusive excomungar os que não professam integralmente o "Depósito da Fé", erra. Porém, o próprio Paulo foi quem disse: "Se alguém vos pregar um Evangelho diferente daquele que vos temos anunciado, seja anátema". Diz-se que hoje os carismáticos são mais estudiosos em relação à Doutrina, leem o Catecismo, etc. Ótimo! Porém, segue sendo verdade que ter uma origem protestante tem como implicações o que eu falei: Deus daria suas graças independente do que cada um crê. Logo, o que cada um crê seria algo secundário.

3- Fenomenologia dos carismas

Não somente a origem é protestante, mas o fenômeno, mesmo hoje, segue sendo igual cá e lá. Basta ir numa Assembleia de Deus, numa Batista renovada, numa Quadrangular, para se notar que o mesmo fenômeno acontece entre elas e entre os grupos de oração carismático. A coisa pode variar em grau, pois algumas correntes são mais enfáticas que outras, mas essa variação também ocorre entre grupo e grupo na RCC. Há sempre aquele pregador "ungido", "de fogo", cuja vinda "promete". Mas a fenomenologia dos ditos carismas, o modo de compreendê-los, é sempre igual. Conclusão: se são iguais, então ou são verdadeiros cá e lá, ou são falsos cá e lá. Se são verdadeiros cá e lá, seguem os mesmos problemas do ponto 2. Se são falsos, então...

4- Oração em línguas

Este talvez seja o coração do carismatismo. Diz-se, é verdade, do "batismo no Espírito Santo" como traço mais essencial da RCC, expressão infeliz que a Igreja já pediu para ser evitada, mas que segue sendo usada. Porém, o sinal visível deste "batismo", segundo os carismáticos, é o fenômeno da glossolalia, ou oração em línguas, ou língua dos anjos.

O evento bíblico que dá o fundamento desta prática seria a vinda do Espírito Santo em Pentecostes. Porém, em Pentecostes os Apóstolos e discípulos do Senhor não ficam falando coisas ininteligíveis. Não são línguas estranhas, aí, mas línguas estrangeiras, tanto que os residentes de outros países, que ali estavam, escutam-nos falar em sua própria língua. Trata-se do fenômeno da xenoglossia. Portanto, isso aí não tem nada a ver com o que se vê nos grupos de oração carismáticos. A referência "faiô".

Além disso, sendo um dom, ele deveria ser recebido, e não aprendido. Porém, os carismáticos ensinam a enrolar a língua e cada um termina praticando o "dom" de um modo bem próprio. Às vezes, a variação dos fonemas é de três ou quatro sílabas, quando não de duas. E a própria entonação é repetida. Como se não bastasse, o próprio "dom" é adaptável, e é comum ver seus praticantes imitando o jeito de alguém "ungido". Alguns rezam, outros cantam, sendo que quem reza pode cantar em línguas, e quem canta pode simplesmente rezar. É um "dom", supostamente extraordinário, que está sempre acessível, e a todos, como eles gostam de dizer, e é totalmente administrável. Não se sabe, então, em que sentido se diz que é extraordinário.

"Ah, mas São Paulo diz que quem fala em línguas não fala aos homens, que não entendem, mas a Deus". E tem a questão dos gemidos inefáveis, também. Vejamos: na tradição católica, os santos falam de dois modos de oração "em línguas": a xenoglossia, já referida, a que ocorre em Pentecostes; e uma outra forma que consiste em falar coisas misteriosas, mas não numa linguagem ininteligível. Quando cantamos o Ofício da Imaculada, por exemplo, há muitas expressões lá cujo sentido escapa à maioria de nós, o que não nos impede de cantá-lo, porém. Segundo a Tradição Católica, é disso o que se trata, então. E não de algo que sequer sentido faz. Por isso, a fala em línguas, que Paulo recomenda que seja feito por dois ou três, sempre foi aplicado à Liturgia, onde, depois de duas ou três leituras, o Padre as interpreta na homilia. Os "gemidos inefáveis" não são a repetição ininterrupta de chiados, mas os arroubos interiores, inexprimíveis, de amor do próprio Deus em nós. O gemido é sempre uma expressão da intensidade do que se sente: seja amor, seja dor. A oração em línguas, porém, pode ser praticada - e é, por vezes - mecanicamente. O contexto em que se fala dos gemidos inefáveis do Espírito Santo, porém, trata, nuns versículos antes, dos gemidos humanos pelo sofrimento no mundo. Diz-se, então, que todas as criaturas gemem e que nós também gememos dentro de nós. Assim, o Apóstolo afirma, então, que o próprio Deus também geme misteriosamente, como que participando de nossas dores e dando eficácia e substância à nossa oração.

Por fim, a tal oração em línguas também começou no protestantismo e permanece por lá, igualzinha. Seguem os mesmos problemas já elencados. Poderia ainda ser feita a seguinte questão: uma vez que a pessoa aprende a imitar aquele som característico, todas as vezes em que uma pessoa o fizer, ela está rezando? Há pessoas que sabem reproduzi-lo só que com a intenção de fazer troça. O Espírito Santo permitiria tal coisa? E, se essa troça acontece, neste caso é ainda o dom ou não? Se não é o dom, então não seria possível distinguir, através da prática, quando ele se manifesta realmente e quando é somente uma encenação.

Por fim, se Deus se manifesta dessa forma, porque não é tão frequente que ele permita o sinal que ocorreu em Pentecostes, de um italiano falar japonês sem nunca ter estudado, ou de um brasileiro falar alemão, etc?

5- O Repouso no Espírito

Este fenômeno é um dos mais chamativos do carismatismo. Lembro-me que ir a um retiro fechado e não passar por isso era decepcionante. Todos ficavam na expectativa do famoso "repouso". Em alguns encontros, os organizadores inclusive distribuem colchões e almofadas no ambiente para favorecerem o conforto durante as quedas. Quem já experimentou ou presenciou este fenômeno há de convir que é pelo menos curioso. As pessoas caem de várias formas esquisitas e não se machucam. Isto seria, talvez, a evidência de que se trata de algo sobrenatural... Mas não. O que aí se chama "repouso", e no protestantismo, "queda no Espírito Santo", nada mais é do que o famoso "toque de Charcot", da hipnose. Observe o leitor esse vídeo e reconheça o mesmo fenômeno nos olhos.

  

Quem "repousa" fica com os olhos dessa mesma forma, batendo rapidinho. Eu já vivi isso aí diversas vezes, e já vi acontecer com inúmeras outras pessoas, e eu mesmo já provoquei o fenômeno em outros. É muito fácil reproduzir esses efeitos hipnóticos: basta uma pessoa sugestionável, receptiva, uma voz ou prática que demonstre persuasão, e um ambiente propício: o ambiente carismático possui diversos elementos que criam a atmosfera requerida: música emotiva, balanço, às vezes controle da luz, linguagem sugestiva, expectativa criada nas pessoas de que algo está prestes a acontecer, o que favorece a sua "entrega". Pronto. É só isso.

6- Visualizações

Em todo grupo carismático há sempre um momento de oração pessoal, espontânea, no qual cada pessoa fala individualmente com Deus. Depois da oração espontânea, geralmente vem a oração em línguas. E, depois disso, ou durante isso, as pessoas começam a ter visualizações que, se forem de Deus - como dizem -, vão-se confirmando umas às outras. Este é um dos pontos mais frágeis dos carismáticos e dos pentecostais em geral. Vejam só: toda oração tem um tema: agradecimento, petição, adoração, arrependimento, etc. Além disso, o pregador ou condutor da oração está geralmente com a sua voz exaltada, conduzindo os demais. O significado do que ele diz, e o teor da oração que a própria pessoa está fazendo, vão naturalmente estimular a imaginação de todos que, então, passará a formar um sem fim de imagens. A coisa fica ainda mais intensa porque os orantes ficam procurando sinais e vozes interiores de Deus. Resultado: qualquer coisa que a imaginação formar será, então, entendida como uma mensagem divina. Se considerarmos, com Sta Teresa D'Avila, que a imaginação é a louca da casa, já podemos imaginar o que pode vir disso aí. Eu mesmo já presenciei verdadeiros absurdos, como quando um grupo, sob orientação do coordenador, queimou seus casacos porque Deus teria lhe dito para fazerem isso. A ideia de fundo, pelo que me recordo, era que, depois de um processo de purificação e da famosa renúncia, as sujeiras espirituais teriam migrado de suas almas para suas roupas, donde a conveniência da fogueira santa aplicada aos coitados dos tecidos. Noutras duas vezes, eu mesmo fui o objeto de uma suposta comunicação divina que, pelo menos, a mim não chegou. Uma mulher conduzia um momento exaltado de oração enquanto eu tocava. A mulher, então, declarou firmemente que Deus inspiraria alguém ali a profetizar em línguas. Pouco depois, ela começou a olhar pra mim e dar sinais. O favorecido seria eu. Imaginem a cena, hahaha. Quieto estava, quieto fiquei. Noutra vez, uma mocinha rezava por mim durante um filme e pediu a Deus pra que Ele me falasse. Segundo ela, Deus lhe garantiu que me falaria e que Ele de fato me falou. Porém, meu wifi acho que estava fraco, rs. Esses são pequenos exemplos de como alguém pode ficar totalmente convencido do que diz a sua imaginação, mesmo que a mensagem em questão seja baboseira pura e simples. Como fazer, então, para distinguir quando uma mensagem é criação nossa, quando é de Deus ou, até, quando vem do demônio? As pessoas em geral não têm quaisquer ferramentas para fazer essa distinção. Naturalmente, cada uma vai acreditar em si mesma, mas esse é o pior critério possível. É, aliás, o que distingue os malucos.

7- Subjetivismo

Se você explica todas essas coisas para um carismático, o que ele diz? "Ah, meu irmão, é porque você não experimentou. Mas eu sei que o que eu vivi foi de Deus", etc. Ele nunca possui critérios objetivos, mas sempre baseia-se na própria experiência. Eu sei disso por dois motivos: a) tenho anos de prática de discussão com carismáticos; antigamente, nos idos tempos do Orkut, eu adorava fazer isso; b) eu mesmo usava esses "argumentos". Primeira coisa: estar muito satisfeito consigo mesmo, como se sua vida provasse a veracidade do que crê, já é um mau sinal. A autocomplacência não é boa, e pressupõe uma cegueira fundamental. Essa cegueira jamais vai ser um efeito real de alguma graça provinda de Deus. Ao contrário, o grande efeito que segue qualquer toque divino é a profunda humildade que ele deixa, efeito do autoconhecimento que é, aí, aprofundado, revelando para a própria pessoa a sua própria miséria. Disto resulta uma espécie de angústia, um sofrimento íntimo por ver-se agraciado justamente quando a pessoa se percebe mais indigna e ingrata. Isto a deixa profundamente constrangida. Tanto São João da Cruz quanto Sta Teresa D'Avila sempre dizem que um dos sinais mais característicos de que uma graça vem de Deus é o medo que fica de a pessoa estar errada. Sta Teresa, já depois de ter entrado nas quartas moradas, tinha algumas graças místicas bastante altas, mas sofria profundamente, depois, sem saber se o que havia vivido vinha de Deus ou do demônio. E ela perturbou-se com isso não pouco tempo. Somente São Pedro de Alcântara pôde convencê-la da origem divina de suas graças. Agora, imagine um carismático comum - supondo que a maioria de nós não chegou às quintas moradas - todo seguro de que o arrepiozinho que experimentou, a catarse pela qual passou é, sim, de Deus. Não é fácil distinguir a origem de uma experiência assim, motivo pelo qual os santos sempre recomendam que não se as deseje. Nós não temos os meios adequados para fazer a distinção. O próprio demônio é mestre em imitar, motivo pelo qual é conhecido como o macaco de Deus (simia dei). O próprio Paulo diz que ele pode se disfarçar de anjo de luz. Isso não é difícil pra ele. E quando encontra alguém desejoso dessas experiências, ele pode ir "brincar" com a pessoa. São João da Cruz diz que muitas almas perderam-se dessa forma. O justo deve viver pela fé, isto é, sem desejar nenhum sinal misterioso ou místico. É verdade que Deus às vezes os dá, mas não é comum e isso nunca ocorre no começo, e nunca é dado porque a pessoa os quis. Deus pode permitir consolações sensíveis, que não são graças sobrenaturais, ainda, e mesmo assim Ele não quer que uma pessoa fique apegada a elas, motivo pelo qual Ele mesmo fará questão de as tirar, depois.

Além disso, a essência do carismatismo é a busca por experiências. O próprio nome "renovação carismática" indica a tentativa de reviver aqueles sinais sensíveis que Deus dava no começo da Igreja, para a difusão da fé e para a credibilidade do discurso dos Apóstolos. A este respeito, leia-se a Pascendi Dominici Gregis, de São Pio X, contra o Modernismo. Neste texto, entre outras coisas, o Sumo Pontífice condena a tese de que é possível experimentar Deus. A sensibilidade humana lida com coisas materiais e pode ser estimulada dessa forma. Deus é puro espírito e, como tal, não pode ser alcançado pela sensibilidade humana. É por isso que São João da Cruz a este respeito dizia: "tanto mais uma graça é sensível, tanto menos certa que é de Deus"; e ainda: "Os sentidos humanos são tão experientes das coisas espirituais como um jumento o é das coisas racionais". Dessa forma, São João da Cruz condenava qualquer tipo de espiritualidade que buscasse experimentar Deus sensivelmente.

Daí alguém poderia objetar: mas se a pessoa em questão possui uma vida reta, de oração, jejum, abstinência, mortificação, observância dos mandamentos, etc., é possível que esteja assim enganada?

Uma pessoa pode estar tão autossugestionada que, crendo piamente no que professa, viva como se aquilo fosse verdade quando não é. É por isso que há sempre gente muito devota entre protestantes, budistas, muçulmanos, etc. São pessoas moralmente boas, ainda que aquilo que professam não seja inteiramente correto. São João da Cruz, especialista nesses casos, era frequentemente chamado para dar sua posição sobre a santidade de alguns irmãos consagrados que na sua época ficavam famosos pelas supostas graças espirituais que recebiam e que enlevavam até seus superiores. Em grande parte dos casos, o santo dizia que não havia ali nenhuma comunicação divina, e que a própria pessoa, ainda que com boa intenção, enganava-se a si mesma. Isso demonstra como essas coisas são tão sutis. Não é tão fácil distinguir, como querem alguns, uma comunicação real de Deus de algo criado por si mesmo, ou até mesmo sugerido pelo demônio. É por isso que quando aparece, por exemplo, um vidente, a Igreja não se pronuncia a respeito senão depois de uma profunda e demorada análise. E é ocioso dizer que a grande maioria dos casos é rejeitada. Convenhamos ainda que uma visão é muito mais convincente do que uma visualização, espécie de visão apenas na imaginação. E mesmo com toda a força de uma visão, é possível que aquilo seja falso.

Pode acontecer, no entanto, que, vendo a boa intenção dos carismáticos, e a sua recorrência aos meios legítimos da Graça de Deus, que são os Sacramentos e a oração pessoal, a submissão à Virgem Maria e a imitação dos santos, as mortificações e práticas de piedade, Deus agracie a pessoa, a despeito de seus equívocos. Mas é sempre melhor não ter erros na compreensão do que os ter.

Enfim, o objetivo aqui não é condenar os irmãos carismáticos, a quem tenho por irmãos, de fato, mas apenas esclarecê-los desses pontos, que são os mais gerais e básicos. Haveria, como se nota, muitas outras sutilezas a discutir, mas penso que estas são o suficiente para fazer pensar. Basta a pessoa ter disposição de realmente querer analisar isso aí. São pontos objetivos. Qualquer tentativa de refutação deve percorrer ponto a ponto, com uma linguagem igualmente objetiva, sem rodeios. Agradeço aos que pretenderem responder esses pontos, e termino desejando que a graça de Deus esteja sobre todos nós.

Se o siri canta lá na praia, chama lá Maria, tenha calma, que a raiva não é de Deus, e vamos louvar juntos ao bom Senhor que criou todas as coisas.

Fábio.

Carismatismo - confusão entre Natureza e Graça


"Querer sentir a ação da Graça (de si não sensível) é expor-se a confundir Fé e sentimento religioso (assim como os modernistas); mas também inspiração divina e imaginação; Esperança teologal e otimismo; vida da Graça e bem-estar psicológico. A psicologia ocupa, ademais, um lugar muito importante nas comunidades carismáticas."

Pe. Matthias Gaudron 

Os problemas de alguns "retiros" - verdades que não podem ser ignoradas


É sempre assim: em muitos dos eventos, encontros, retiros que há por aí, sobretudo os que acontecem com jovens, a maior esperança é que os participantes consigam fazer experiências afetivas mais ou menos intensas. É o que a Psicologia chama de cartarse e que consiste numa liberação emocional que, sem dúvida alguma, pode dispor a pessoa a uma generosidade maior a ponto de investir a si mesma naquele caminho que lhe foi apresentado. Tudo bem... A catarse, em geral, faz bem. Mas... até aí, não há nada de especificamente espiritual.

O grande problema é que esta experiência emocional não raro se torna a grande finalidade, ao ponto de muitos chegarem a identificá-las com as ações de Deus. Disto resultam três coisas muito problemáticas: 1) a expectativa pessoal da ação divina fica restrita a um âmbito muito estreito e, em última instância, não necessariamente espiritual. As demais formas de intimidade com Deus (formas mais profundas e substanciais) são ignoradas e desprezadas. 2) Se se entende que Deus age pela liberação emocional que se pode ter, nada impedirá, a princípio, que o próprio sujeito "force" tais experiências, buscando provocá-las ou estendê-las, o que tanto prejudica a sinceridade da pessoa quanto compromete a sua constância, pois é óbvio que tais sentimentalismos não podem e não devem ser um contínuo na vida. A pessoa perde a sobriedade e fica cativa de quaisquer enganações, pois o critério que lhe ensinaram pode ser reproduzido, sem dificuldade, em qualquer lugar. Isto, inclusive, vai descambar na sensualidade. 3) O sujeito, forçando em si mesmo tais experiências e identificando a ação de Deus com elas, torna-se um egoísta, ocupado primeira e unicamente em satisfazer os próprios desejos "espirituais", sem atentar em nada mais alto. Por "mais  alto", essa pessoa geralmente entende "mais intenso" do ponto de vista da sensação.

Tudo isto, como já disse, é muito problemático e esconde, ainda, outras sutilezas, quase todas desinteressantes. Quem não perceberá que, neste contexto, pouca importância se dará ao campo preciso da Teologia? Por isto que é muito comum - comum demais - surgirem erros crassos nos discursos e pregações destes eventos. Depois, para muitos dos participantes, o retiro terá respondido uma questão fundamental da vida humana: "como eu posso chegar a Deus e viver com Ele?" Notem o seguinte: a pergunta é uma tensão que exige uma resposta. Enquanto há tensão, há busca. Porém, o retiro terá oferecido a muitos a resolução deste problema, o que lhes terá amortecido a dúvida. A questão é: terá sido esta resposta algo verdadeiro? Se não for, o problema agrava-se porque então não há mais busca e, portanto, o conhecimento desta verdade não mais buscada foi obstruído por um erro que se tomou por verdade.

Os que convivem neste meio - e eu já convivi por bastante tempo - conhecerão muitas pessoas que, não podendo reproduzir as tais experiências emocionais na vida cotidiana, começarão a transitar de encontro a encontro, de retiro a retiro, isentando-se de ter uma vida cristã no tempo ordinário. Será isto a vida santa que, muito inocentemente mas, também, irresponsavelmente, dizem aos berros que querem ter? Terá mesmo um cristão uma necessidade rigorosa de ficar reproduzindo sensações estomacais e arrepios para poder levar uma vida íntegra? Não, eu respondo. É claro que não. Um dos grandes problemas destes retiros é esse: lá, nos dois ou três dias, teremos muita gente convicta de que agora a coisa vai, agora vão tomar jeito. Porém, quando voltam à vida comum, em pouco tempo já estarão sentindo, de novo, o já tão conhecido descaso, a preguiça, os apelos da sensualidade, as correntes do egoísmo. E por quê? Porque o tal retiro, embora bem intencionado - não o duvido - pareceu ser, no fundo, mera distração, mera descontração, mera dinâmica de grupo, mero discurso levemente filosófico e moralista, mero cultivo de estados hipnóticos coletivos a partir da auto-sugestão dos participantes e, por fim, parece ter havido um certo tipo de superstição das emoções: "se eu senti foi bom; se eu senti bastante, foi muito bom; se eu não senti, não foi bom." Eis Deus reduzido a arrepios e espasmos. Eis a conversão apresentada como modo adocicado de viver. É óbvio, meus caros, que um tal "projeto de santidade" não vai longe. E se eu o denuncio aqui, não é simplesmente para acusá-los, mas para que os que trabalham com evangelização de jovens - e o GRAA também trabalha - atentem para estes problemas e comecem a dar importância àquilo que é "verdadeiramente verdadeiro". Vamos, então, à exposição de certas verdades que não podem ser ignoradas de modo nenhum na evangelização e que, não obstante a sua essencialidade, têm sido solenemente deixadas de lado para dar lugar aos gritos e trejeitos de pregadores de inspiração pentecostal protestante e que terminam por fazer confusão de tudo, dizer meio mundo de abobrinhas e, no final, ainda saem convictos de que são "pregadores da palavra". Não, não são... Sinto dizê-lo. Muitos deles são, no máximo, auto-enganadores; sujeitos inocentes que, à força de berros, passam a imagem de serem persuasivos. Neste tipo de contexto, uma frase profunda, cheia de sentido espiritual e dita com sobriedade é absolutamente ignorada, enquanto outra, non-sense, clichê, medíocre, mas dita aos berros e com bastante apelo emocional é capaz de arrancar lágrimas de alguém que, no fundo, não está preocupado em entender nada, mas quer apenas impressionar-se a cada momento. Não deixará passar, portanto, nenhuma oportunidade, ainda que não perceba o quão imbecil é recorrer a este tipo de subtefúrgio. 

Vamos lá, então.

A primeira coisa que estas pessoas têm de se preocupar é em dar uma visão correta de Deus e, naturalmente, da alma humana. Só que, dar esta visão correta supõe necessariamente conhecer esta visão correta. Em muitos casos, ela não será conhecida sequer pelos organizadores do encontro. Se isto acontece, isto é, se os pregadores e demais pessoas que estão a trabalhar num determinado evento pretensamente católico desconhecem quem seja Deus e o que seja o homem, a única coisa que pode se dar é o que foi dito por Nosso Senhor: "cegos que guiam cegos cairão todos no mesmo buraco". Um pretenso guia deve, naturalmente, conhecer o caminho e o  termo do caminho. Ora, este caminho não é outro senão o ensinado pela doutrina católica. Por que motivo, então, se faz tão facilmente, não somente abstração, mas até oposição a esta doutrina? Alguns dirão que o discurso teológico não é capaz de "tocar" o coração de iniciantes. Este tipo de alegação baseia-se num preconceito de fundo naturalista e esconde uma espécie de soberba e falta de fé. S. Paulo escreve, na primeira carta aos Coríntios, que não usava acréscimos nem suavizações nas pregações, para não desvirtuar a cruz de Cristo. (1,17) Isto demonstra que Paulo, como verdadeiro evangelizador que era, acreditava que a palavra de Deus, por si mesma, é dotada de força e de beleza. Ela atrai por natureza e, se mostrada em sua pureza, é apta para satisfazer os mais profundos anseios da alma humana. Não há que distorcer nada, portanto! Quando, ao contrário, queremos melhorar a coisa, torná-la mais deglutível, deixá-la mais emocional ou retirar as arestas mais incômodas do Evangelho, o que estamos fazendo é, simplesmente, revelando a nossa falta de Fé em Deus e supondo estupidamente que nós podemos ser os autores de um discurso mais maduro, mais eficaz. A auto-suficiência humana é, sem dúvida, sem fim.

Com isto, não estou a dizer que os "termos" utilizados precisam ser os mesmos termos técnicos da Teologia mais rebuscada. Não é preciso ler a Suma Teológica nas palestras a iniciantes. Mas, ainda que com uma linguagem simplificada e aproximada do cotidiano, não há que se desvirtuar o conteúdo preciso da pregação, sob pena de terminar por mostrar um "Deus" que é muito mais criação do homem do que seu Criador. E um "deus" que é segundo a nossa imagem e semelhança é, por força, uma ilusão, e uma ilusão não converte ninguém. É a verdade que liberta! E entendam aqui: a questão não está em manter simplesmente os nomes exatos das Pessoas da Trindade. Isto sempre se faz; o negócio é mostrar Deus como Ele é, segundo ensina a Doutrina Católica, a Verdade revelada pelo próprio Deus a respeito de Si mesmo.

Mas alguns costumam fazer uma distinção que pode ser um tanto ambígua: existe o discurso catequético, propriamente dito, e existe o que chamam de "discurso querigmático". A este último, atribuem um caráter mais espiritual e destinado à persuasão primeira daqueles que serão, pretende-se, os novos adeptos daquela proposta de vida. De fato, é possível aceitar esta distinção. Ela existe nos santos. Há um caso bastante ilustrativo disto: havia dois santos que se conheciam e dos quais agora não lembro o nome; um deles era bastante combativo no terreno da filosofia e da teologia mais técnica. Ele costumava vencer os hereges. No entanto, admitia: eu posso desmascarar as mentiras sutis no discurso herético. Mas, se a pessoa quiser converter-se, dirija-se ao outro. Isto pode parecer estranho para alguns, sobretudo para os que consideram que o único impedimento para a conversão de alguém está na compreensão errada de Deus. Porém, também existe, embora em menor número, aqueles outros casos de pessoas que compreendem a doutrina e os pontos mais importantes da Teologia e que, porém, não conseguem simplesmente aderir. Lembremos, caríssimos, que a Fé é um dom.

Pois bem. Uma certa distinção nos modos de expor o discurso cristão até existe, mas não pensemos que ambas sejam totalmente independentes, pois aí teríamos dois discursos essencialmente diferentes sobre um mesmo objeto, o que daria obviamente em contradição. O que acontece é que o discurso mais espiritual, destinado a acender o amor da alma para Deus, supõe necessariamente a retidão do discurso mais racional. Não é legítimo, portanto, sob pretexto de trabalho querigmático, ferir pontos da doutrina, pois a perfeição desta deve existir antes de um apelo afetivo. Lembremos que nas relações entre as potências da alma, o intelecto é anterior à vontade e esta age somente depois daquele. O intelecto encontra o objeto digno de amor e a vontade, só então, lhe investe o afeto. Por isto que a retidão da doutrina deve ser o suposto no discurso querigmático, pelo menos nos pontos mais essenciais.

Se este cuidado é tomado, não somente Deus será mostrado de modo coerente como, ainda, tal demonstração, sendo verdadeira, atingirá de modo muito mais profundo e direto a alma humana que é, em sua próprio natureza, essencialmente disposta para Deus.

Adentremos, agora, neste segundo ponto, e que eu penso ser quase tão sério quanto o primeiro equívoco. Se no campo da doutrina o negócio costuma ser problemático, quando consideramos o conhecimento da alma humana que essas pessoas geralmente têm, a coisa chega ao grau do risível. Não deixa de ser ridículo que estes pretensos guias pretendam conduzir outras almas sem sequer conhecer o que seja a alma humana. Se o leitor quiser ter uma pequena dimensão desta absurdidade, basta ler alguns tratados espirituais de alguns santos. Verão que o conhecimento do que seja a pessoa humana é essencial antes de alguém se arvorar o direito de guiar quem quer que seja. Se estes santos forem lidos, o leitor encontrará sutilezas da psicologia humana que os modernos sequer suspeitam. Em grande parte, o que acontece nos dias de hoje pode muito bem ser descrito por S. Paulo, quando escreve: "apartarão os ouvidos da verdade, e se darão ao prurido de novidades." Esta sede de novidade no homem moderno é tanta que ele parece pretender estabelecer uma nova ordem de coisas no mundo, inclusive uma nova estrutura da alma à força de um discurso medíocre repetido ao infinito. O que há é um idealismo exacerbado, mesmo dentro das igrejas. O que é dito não mais precisa adequar-se ao que existe anteriormente; agora, parece-se pretender que o que é dito é que molda o que existe. Nada mais falso, pois isto é pura e simplesmente uma revolução contra a verdade; a verdade que, segundo Jesus, é a causa da liberdade.

O maior ponto fraco que vejo nestes retiros e eventos é que as pessoas vendem a idéia de que, por causa de alguma experiência subjetiva, os participantes daquele final de semana amanhecerão, no outro dia, com uma vontade totalmente sadia e nunca mais inclinada ao erro. Eles até dizem que eles voltarão a um mundo que continua devasso e tal, mas parecem supor que aquelas pessoas terão forças de simplesmente se oporem e se tornarem heróis da santidade. Por que não dizem que, precisamente nas tentações, é a vontade humana que quererá cair? Os inocentes ficam a pensar que, na próxima tentação com que se depararem, eles vão lutar e vencer, mas ao fazê-lo, eles estão supondo uma vontade sadia, que não queira o que aquela má inclinação lhes sugere. Mas a inclinação ruim fará que justamente a vontade se volte em direção do erro! Isto porque a vontade humana é enferma! Para que readquira saúde perfeita, torna-se necessário entrar uma guerra que, muito além de um final de semana, deve ser estendida por toda a vida, sem tréguas! Além disto, este tipo de retiro não prepara a vontade sequer para uma semana, pois o que se vive lá, ao lado de pequenas privações, é um apelo às satisfações da sensibilidade, as mesmas que satisfazemos quando pecamos! Se as pessoas buscam grandes emoções fora da Igreja, nas drogas, no sexo desregrado, estes outros procuram convertê-los a partir de que? De grandes emoções! Objetarão que são emoções diferentes! De fato, muito diferentes, mas ambas estão a satisfazer a sensibilidade que, mais tarde menos tarde, quererá outras doses. Não podendo adquiri-las em contínuo no campo da espiritualidade, as forjará em outros campos, e não raro nos que pretendia ter deixado anteriormente. É que este tipo de coisa somente robustece o próprio egoísmo. A questão é que, por ser um pouco sutil - não muito -, estas pessoas dirão que isto que eu afirmo é falso. E de novo queremos apontar para a falta de tato destes pregadores e destes organizadores de eventos - pelo menos da maioria deles -, que só vêem o que lhes é absolutamente escancarado. Como querem conduzir almas se são míopes?

No início da vida espiritual autêntica, o sujeito deve animar-se a uma rigorosa ascese, que é um exercício da alma, também a partir do corpo, visando cortar os laços pecaminosos que foram cultivados ao longo de tanto tempo. E isto, antes de causar sensaçõezinhas agradáveis, é um negócio difícil, é árido, pois fere o egoísmo humano, desfaz apegos, retira falsas seguranças e falsas felicidades e provoca vazio. É por isto que Sto Antão dizia que o caminho da santidade não se abre senão a partir de um começo difícil. Por que raios este povo de hoje pensa que as coisas mudaram? Por que motivos no universo imaginam que Deus mudou ou que a alma humana tenha mudado? Por que raios pensam que, num mundo ainda mais depravado, as vias da santidade se tornaram milagrosamente mais fáceis? Se o caminho de Cristo fosse simplesmente o de experiências catárticas e de uma melosidade constante no trato com as coisas, teria ele chamado este percurso de "via estreita" e dito que são poucas as pessoas que a encontram? A partir destas constatações, entendemos que é no mínimo bastante equivocada a ideologia que subjaz a muitas destas propostas modernas de evangelização - muito bem intencionadas, não duvido, mas ingênuas.

Para educar a vontade, para que ela abandone seus apegos e volte-se a Deus para amá-Lo sobre todas as coisas e, n'Ele, amar todas as criaturas, é preciso um longo processo de mortificação e de combate da pessoa contra si mesma. Fazer pessoas acreditarem que a partir do outro dia tudo se resolverá magicamente é fadá-las à frustração. O máximo que conseguirão é fazê-las mais dóceis a estes encontros ou à idéia de Deus, o que permitirá que rezem um pouco e que abandonem hábitos muito graves que possam ter cultivado. Porém, os pequenos filhos da soberba distribuídos nas inclinações da alma, nos seus interesses, intenções, nos seus apegos; tudo isto se verá meio que imune a esta pretensa "santidade", pois nem o nível de profundidade nem o de sinceridade do sujeito alcança estas sutilezas. Quando digo "nível de sinceridade" não estou a afirmar que este povo é cafajeste ou totalmente dissimulado. A questão é que, para certos níveis de sinceridade, requer-se um correspondente nível de conhecimento de si mesmo. E isto falta a muita gente; daí a falta de profundidade, a inconstância e a mudança de resoluções tão comum quanto a mudança das fases da lua. As pessoas mais inconstantes são aquelas que estão como que no nível das sensações. Naturalmente, as sensações sendo muito mutáveis, estas pessoas também o serão, pois este será o critério para as suas decisões. Para o homem que se diz espiritual, porém, isto não é admissível. Requer-se profundidade. Se assim é, o que é que se deve esperar de pessoas que, num final de semana, aprenderam a identificar a ação de Deus justamente com as próprias sensações? Se nem a alma humana deve sofrer este grosseiro reducionismo, o que dizer de Deus?

Para que alguém se insira na vida espiritual de fato é preciso adotar um modo sistemático de mortificação. Deve, além disto, rezar bastante, o que é recomendado também nestes retiros. Mas, acima de tudo, deve aprender a cultivar a Graça na alma, e esta se perde com qualquer pecado mortal. Sem a Graça, os esforços que fazemos para a santidade se tornam incapazes de alcançar o seu termo. Negligenciar a Graça e, ainda assim, considerar a possibilidade da santidade é somente mais uma das mentiras da soberba que, de modo disfarçado, faz a alma pensar que, no fundo, tudo depende só dela e de sua maestria. Que modo há mais eficaz de enganar alguém? E esta é a grande razão pela qual tantas pessoas superficialmente bem intencionadas não conseguem avanços significativos e terminam desistindo, convencendo-se de que, no fundo, aquilo é impossível. Este tipo de desânimo é particularmente nocivo porque, além de arrefecer as boas intenções na alma, ainda lhe protegem contra futuras investidas do discurso religioso. Diante de uma pregação querigmática, o sujeito que já passou por isto tenderá a recusar aquela proposta, pois suporá que já conhece todo aquele processo e que isso, no fim, não funciona ou até nem existe. Resultado: o que, no início, começou como promessa ingênua de santidade termina, no fim, por ser garantia de ateísmo prático, proteção contra "ingenuidades espirituais". 

E o que me dirão? Que isto não existe? Que isto não acontece? 

E o que concluirão? Que este longo processo é tão somente casual? Não será, antes, fruto de uma orquestração? Não digo dos elaboradores do encontro ou do que quer que seja, mas de algo mais obscuro e que como que se mantém por trás das cortinas... Eu não descarto a possibilidade, sinceramente. Antes, a considero bastante provável.

Enfim, meus caros. Os evangelizadores não podem esquivar-se destas questões. São importantíssimas. Na verdade, são essenciais! Isso se queremos que a nossa intervenção não acabe por complicar ainda mais as coisas. Jesus já tinha dito: "sem mim nada podeis fazer." Tomemos cuidado com estas coisas e não queiramos inventar caminhos ou verdades alternativos. A Verdade é uma só e ela é, por sua própria natureza, bela, forte, atraente e capaz de enamorar qualquer alma humana que com ela tenha contato. Como S. João Batista, o nosso trabalho deve ser tão somente facilitar, aplainar o caminho para este encontro entre as almas e o sumamente amável Jesus.

Ad Iesum Per Mariam

Fábio

Sobre o "dom de línguas" e os exorcismos - uma tentativa de elucidação

Na foto, o Pe. Fortea

Estes dias, conversando com uma amiga, nos ocorreu uma idéia em comum - algo que eu vinha já pensando nessa semana - e que diz respeito ao modo como compreendemos a dita "Oração em Línguas", típica da RCC e das demais denominações pentecostais.

Todos os amigos já sabem que nos opomos frontalmente a esta prática e, por diversas vezes, já dissemos das razões de assumirmos esta posição. Para que melhor sejam acompanhadas estas nossas reflexões, sugerimos a anterior leitura destes artigos - um, dois, três - onde vão expostos grande parte dos argumentos que sustentamos contra a chamada "Oração em Línguas" tal como entendida e praticada hoje nos movimentos de cunho pentecostal. Além dos referidos artigos, queremos propôr ainda estes outros - um, dois, três - a título de aprofundamento. Sugiro o download, também, deste livro. Havia, ainda, um trabalho de um Monge Eremita que, porém, não consegui encontrar agora. Enfim...

Quando estudamos direito estas coisas, notamos que, definitivamente, esta prática não tem fundamento nem na Escritura nem na Tradição da Igreja. Os santos doutores, sempre que faziam referências aos dons autênticos experienciados no início da Igreja, defendiam o caráter inteligível do dom de línguas. Inúmeros santos que, por sua vez, receberam este dom, atestam que a sua finalidade era, sempre, facilitar a comunicação, isto é, fazer-se entender.

Quando, porém, olhamos para a glossolalia - termo técnico da oração em línguas estranhas - , notamos uma absoluta discrepância entre ela e o que sempre foi ensinado e vivido pela Santa Igreja. A coisa fica ainda mais gritante quando descobrimos que as primeiras manifestações desta prática surgem em ambiente protestante e trazem por base um equívoco de compreensão resultante de um equívoco de tradução bíblica. O termo "estrangeiro" - relativo a outros países - confundido com "estranho" - desconhecido - contribuiu em muito para que a suposta forma de oração viesse a existir.

Se, no início, o dom de línguas cumpria a função de facilitar a pregação dos apóstolos que, enviados a todas as nações, precisavam dar conta de evangelizar sem terem, antes, de aprender os idiomas estrangeiros, nos tempos atuais os receptores do suposto dom sequer se entendem a si mesmos. Sempre foi notado, além disto, a oposição entre o fenômeno de Pentecostes e o ocorrido na Torre de Babel. Enquanto, neste último evento, os homens soberbos foram confundidos em seus idiomas e, daí, não mais se entendiam, no Pentecostes nós contemplamos o oposto: animados pelo Espírito Santo, os Apóstolos são revestidos de humildade, o que desfaz a confusão de Babel e permite que todos os homens passem a se entender, não obstante procedam de diferentes nações. É assim que, hoje, a Igreja, embora esteja estendida em todo o mundo, fala sempre a mesma língua.

O fato de repetir sons ininteligíveis (= não compreensível) e crer que, com isto, está-se a rezar e a abrir-se aos dons de Deus - para os carismáticos, a oração em línguas é a porta para os demais dons - se assemelha muito mais às práticas de cunho gnóstico que, avessas à racionalidade, pregam um tipo de acesso alternativo à verdade, à qual se acredita alcançar não mais por argumentos, mas por meios irracionais - como a dita oração -, pela busca de emoções e sensações exageradas e pela valoração de experiências semelhantes ao devaneio, como as visualizações, os sonhos, etc. Tudo isto, obviamente, somente se encontra num contexto de subjetivismo bem acentuado, muito próprio do protestantismo. A oração em línguas, além disto, se assemelha muito aos ritos iniciáticos, próprios da Gnose, pois, entre os carismáticos, ela é como que um dom inicial a partir do qual o sujeito se inseriu efetivamente na dinâmica pentecostal.

Tudo bem. Tudo isto pode ser entendido por qualquer pessoa que esteja animada de boa vontade. Porém, não faz muito tempo que algo no mínimo curioso surgiu e chamou nossa atenção: alguns exorcistas afirmaram surpreendentemente que a oração em línguas, tal como entendida modernamente, tem eficácia nas sessões de exorcismos. Segundo eles, os demônios manifestariam clara aversão a esta prática.

Entre os exorcistas que o afirmam, está o Pe. José Fortea, o Pe. Elias Vela e o Pe. Gabrielle Amorth, sendo este último o exorcista oficial do Vaticano. Pois bem. O que dizer disto?

Este é um problema que não pode ser ignorado por quem quer que, munido de sinceridade, se interesse pelo assunto. Para nós seria muito fácil e confortável simplesmente ignorar o fato e passar-lhe ao largo. Porém, como é tema recorrente nosso, e como temos sempre contato com carismáticos, considero importante que tentemos pelo menos oferecer algum esboço de resolução da questão. Não sei se há trabalhos semelhantes em fontes confiáveis. Seja como for, submetemos, sempre, tudo quanto escrevermos ao juízo infalível da Mãe e Mestra Igreja.

Duas atitudes, aqui, se revelam problemáticas: a primeira, muito comum entre os carismáticos, seria aquela que, ao ter contato com as afirmações destes sacerdotes, se aferraria a elas num solene desprezo de tudo quanto a teologia e a história afirmam com tanta clareza. Esta recusa voluntária às verdades teológicas em função  de certas experiências individuais é a marca da heresia, que significa justamente isto: escolher um caminho pessoal, diferente do da Igreja.

Outra atitude, também não sincera, seria a de fazer vista grossa aos testemunhos consensuais destes exorcistas, como se não existissem. É possível contestá-los, desde que se o faça a partir de razões, e não por mera abstenção de juízo. Do Pe. Elias eu não sei, mas os outros dois são exorcistas experimentadíssimos e tudo leva a crer que não falariam irresponsavelmente de um assunto como este.

A contradição entre o ensino da Igreja e a afirmação dos padres é evidente (o Pe. Fortea, aliás, embora se diga bastante tradicional, parece proferir certas coisas meio suspeitas no seu video). E, se há esta contradição, forçoso é que um dos lados esteja correto e o outro esteja errado. Se existe uma terceira alternativa que não signifique a relativização de uma das partes, eu não a vejo. Se alguém a percebe, por favor, contribua conosco para a elucidação deste assunto.

Embora o problema tenha sua dificuldade, ele não é insolúvel e, se a contradição que afirmamos é verdadeira, já estará claro ao católico não de todo alheio à Teologia a qual parte deveríamos dar a nossa adesão.

Deixemos tudo claro, portanto. O grande critério da Igreja - de todos os santos, em toda a história - para saber se algo está correto ou não, é o fato de este algo concordar ou destoar da Doutrina Católica. E por que isso? É dogma da Igreja que ela é infalível em termos de Fé e Moral. Obviamente, o assunto dos carismas inclui-se no âmbito da Fé, sendo objeto da Doutrina. Se a Igreja, portanto, é infalível nesta área, isto é, se não é possível que ela erre quanto a isto, segue-se que tudo quanto a contradiga incorre necessariamente em equívoco.

Deveríamos, portanto, aceitar o testemunho dos santos e doutores, particularmente o de Sto Tomás de Aquino, que afirmam o caráter inteligível (=compreensível) - e, portanto, totalmente oposto ao "dom" moderno - do autêntico carisma das línguas. E este não seria o único ponto da glossolalia a ferir o ensino católico; em várias outras partes, há total discrepância. O simples fato de este fenômeno ter tido início em terreno protestante e até hoje ser exercido lá de modo essencialmente semelhante ao que se dá em reuniões carismáticas é um problema grave que contraria frontalmente a Teologia Católica. Sempre foi - até pouco tempo atrás - consenso na Igreja o fato de que Deus não age extraordinariamente fora do Seu Corpo Místico. E, como todos sabemos, este corpo restringe-se à Igreja. Embora esta assertiva exija uma certa explicação, qualquer afirmação diferente dela exclui-se, na mesma medida em que difere, do âmbito católico.

Como ficam, então, os referidos padres? Dir-se-á que não são católicos? De modo nenhum! Nem tampouco se afirmará que mentiram. O que revelaram provém, sem dúvida, de uma constatação empírica: diante desta prática pentecostal, deste suposto carisma, estes padres viram manifestações visíveis de desagrado provindas de pessoas possessas. E o que dizer disso?

Se assumimos que a Igreja não erra em termos de doutrina e se entendemos que a aceitação da glossolalia pentecostal implica vários problemas teológicos, já podemos afirmar que o erro está, claramente, na afirmação dos padres. Desconsiderando a possibilidade - realmente ínfima ou mesmo nula - de terem mentido, é forçoso dizer que se enganaram. Isto é possível?  Dir-se-á que sim, desde que seja com relação a uma pessoa qualquer. Mas, em se tratando de exorcistas, será mesmo crível que tenham caído num tal engodo?

O assunto é muito extenso, e quanto mais avanço a argumentação, mais percebo que muito é o que há por falar a fim de retirar, tanto quanto possível, os equívocos. Além desta dificuldade, inerente ao próprio assunto - pois é tema profundo - resta ainda que seja terreno que naturalmente extrapola o nosso entendimento. Não sabemos muito a respeito e também não é objeto particular de nosso estudo, embora, como já dissemos, seja tema que nos interesse.

Mas, continuemos.

Antes de tudo, é preciso reafirmar o caráter enganador do demônio. Desde o início, ele mostrou ser aquele que ludibria. Não à toa, foi chamado de o "pai da mentira" e S. Paulo escreveu que ele pode se mostrar como "anjo de luz". Todos os mestres da vida espiritual, particularmente aqueles que o enfrentaram mais diretamente, recomendam que ninguém alimente conversas com estes anjos caídos, nem com eles debata. Por que motivo?

Os demônios têm natureza angélica. Portanto, eles têm uma inteligência muito mais profunda que a de qualquer humano. Isto faz com que eles conheçam todos os pontos fracos da nossa natureza. Sabem bastante de cada um de nós e poderiam facilmente apelar para as nossas fraquezas. Eles vivem a fazê-lo quando nos tentam. Lembremos ainda que, não tendo corpos, os demônios são seres intelectuais; portanto, são especialistas em argumentar; são perfeitos sofistas. Que dificuldade teria, então, um demônio em ludibriar um homem? Eles estão continuamente fazendo que a humanidade acredite nas suas armações. Basta olharmos para o mundo e veremos que o ser humano aparece como um sujeito ridículo que sorri e faz festa enquanto é enganado.

Porém, os que se estreitam a Deus adquirem uma maior sutileza de perceber as maquinações demoníacas. E espera-se que este tipo de sabedoria esteja de modo particular num exorcista. Certa vez, o Pe. Gabrielle afirmou que os padres exorcistas devem ser escolhidos entre a fina flor do clero, isto é, entre os mais santos e mais sábios. Como já dito, se assim é, parece-nos cada vez mais improvável que estes sacerdotes de elite tenham se deixado enganar. Além disto, será que os demônios, sob uma sessão de exorcismo, simulariam um desgosto inexistente? É possível.

A história dos santos está cheia de situações que o demonstram. Basta dar uma olhada geral nos combates entre S. Pio de Pietrelcina e os demônios. Estes inimigos das almas são experientíssimos em estratégias de engano. Mas, para ilustrar o assunto, cito apenas um caso que aconteceu no tempo de S. João da Cruz. 

Nos seus Pequenos Tratados Espirituais, lê-se a história de uma religiosa que passou a apresentar sinais de suposta santidade. Avaliada por diversos sacerdotes e letrados, todos eram de parecer favorável à autenticidade de suas virtudes. O Pe. Fr. Nicolau de Jesus, porém, meio desconfiado, ordenou a esta irmã que escrevesse sobre sua oração e suas experiências e enviou o relato a S. João da Cruz, para que avaliasse. Rapidamente, o santo reconheceu a falsidade da sua virtude e acusou a influência demoníaca. Dentre outras coisas, respondeu o seguinte:

"O que eu aconselharia é que não mandem nem permitam escrever coisa alguma a esse respeito, nem o confessor mostre complacência em ouvi-la; ao contrário, procure dar pouco apreço e atalhar tais confidências; além disso, submetam-na à prova no exercício das virtudes, com todo rigor, principalmente no desprezo, humildade e obediência; e no som produzido pelo toque manifestar-se-á a brandura da alma causada por tantas mercês. E as provas hão de ser boas, porque demônio algum deixará de sofrer algo a troco de manter a sua honra."

S. João da Cruz está aqui a dizer que os demônios estão dispostos a sofrer e a serem humilhados, desde que, desse modo, consigam levar a cabo os seus intentos. Para um demônio, portanto, não lhe seria tão custoso simular uma aversão ao dom de línguas, desde que, deste modo, ele mantivesse, nas pessoas, a crença errônea de se tratava de um meio autêntico - e superior - de oração. Do que lhe valeria, ao contrário, rir-se desta prática, se desse modo viria a contribuir para que inúmeras almas, informadas posteriormente pelo padre, desacreditassem de todo deste costume totalmente heterodoxo?

Restam-nos, porém, alguns problemas a resolver. Primeiro, se fosse o caso de ter havido uma dissimulação, como estes padres experientes se deixariam enganar? Segundo, sabe-se que os demônios, durantes os exorcismos, estão sob a autoridade de Cristo e que são obrigados a dizer a verdade.

Sobre o primeiro ponto, vimos que, por mais que um ser humano seja inteligente, ele não iguala a natureza angélica. Esta última lhe é muito superior. Portanto, no que extrapola o âmbito estrito do exorcismo, não me parece tão difícil que, num possível diálogo, os demônios logrem enganar, mesmo padres experientes, a partir de encenações.

A grande dificuldade, porém, se concentra no segundo ponto: como os demônios poderiam mentir e dissimular estando sob a autoridade do exorcista, que é a autoridade de Cristo? É uma pergunta difícil, mas parece que, em se tratando de certos aspectos, isto é possível. Tomemos os próprios relatos dos exorcistas.

Há algum tempo atrás, o Pe. Gabrielle denunciou a existência de clérigos satanistas no Vaticano. Esta revelação surpreendente não tardou, porém, a ser rebatida pelo Pe. Fortea, que afirmou ser isto algo muito grave para se dizer. É interessante notar que o Pe. Gabrielle afirmava que, entre suas fontes, estavam as confissões de alguns demônios durante os exorcismos. Ora, como é possível, então, que o Pe. Fortea, sendo exorcista e conhecendo a autoridade de um padre exorcista sobre os demônios, conteste a afirmação do Pe. Gabrielle? O mesmo Pe. Fortea deixa claro em que se fundamenta a sua desconfiança. Escreve ele:

"Não é preciso dizer que saber quando um demônio diz ou não a verdade é, em muitos casos, impossível e completa "podemos saber com muita segurança quando um demônio diz a verdade na matéria diretamente relacionada com o exorcismo. Quer dizer, número de demônios, nome deles e coisas similares. Mas não podemos ter segurança no campo relativo a notícias concretas relativas a pessoas"

Ora, então é possível que o demônio invente coisas com relação a terceiros sem que o sacerdote possa verificar, de imediato, se o que foi dito procede ou não. O demônio estaria obrigado a dizer a estrita verdade somente com relação a informações imediatamente ligadas ao exorcismo, como sua identidade e número.

Se assim é, se o Pe. Fortea contesta o Pe. Gabrielle utilizando este argumento que, sem dúvida, é verdadeiro, dada a especialidade do padre no assunto, então poderíamos contestar a afirmação do Pe. Fortea a respeito da oração em línguas. 

Além disto, pelo que vimos, o padre não afirmou que o demônio tenha falado algo a respeito. Ele apenas teria reagido com aversão. Ora, quem quer que tenha visto algo de um exorcismo, perceberá que, dentre outras coisas, o demônio faz caretas, dá sorrisos desaforados, diz sarcasmos, etc. Não vejo, portanto, a dificuldade de que possa ter simulado qualquer tipo de "incômodo".

Se formos, porém, ao relato do Pe. Gabrielle, veremos que, enquanto ele realizava um de seus inúmeros exorcismos, alguns carismáticos de uma igreja a uma certa distância de onde estava, rezavam "em línguas". Diz o Pe. Gabrielle que o demônio teria perguntado quem seriam aqueles que rezavam daquele modo, pois que o açoitavam. Aqui o demônio teria sido bem mais expressivo; porém, esta informação refere-se claramente a terceiros e recai, de novo, no caso em que, segundo o Pe. Fortea, é muito difícil, senão impossível, saber se o que foi dito é verdade ou não.

Portanto, meus caros, vemos que é possível - e típico - que o demônio engane quanto a isto. De outro lado, deveria nos ser suficiente o que a Igreja sempre ensinou a respeito dos autênticos carismas e que, como vimos de diversos modos, destoam muito daquilo que presenciamos nas mais diversas reuniões de caráter pentecostal.

Para terminar, lembremos o seguinte: A Igreja é infalível em fé e moral. Os sacerdotes, individualmente, por mais experientes e santos que sejam, não são infalíveis.

Se nestas considerações, eu cometi qualquer equívoco, isto se deveu à minha ignorância, não à má intenção. Finalizo reafirmando que é um assunto dificílimo e para o qual, embora eu possa tecer certos comentários, me vejo despreparado para uma palavra última.

Ad Iesum Per Mariam.

Fábio.

O Verdadeiro Dom das Línguas



A virgem Santíssima e o dom das línguas

Questão IV: Se a Virgem recebeu o dom de línguas, chamado por alguns “glossolalia”.

a) “Afirmativamente, porque recebeu este dom com os apóstolos no dia de Pentecostes, e, como disse Santo Alberto Magno: A Virgem estava com eles quando apareceram as línguas repartidas como de fogo, logo recebeu o dom das línguas com eles” (Mariale, q. CXVII); b) Ademais, ainda que não tivesse de ir pregar o Evangelho as diversas nações e gentes, todavia, no principio da Igreja nascente se concedia com freqüência este dom aos fiéis, ainda a aqueles a quem não se havia conferido o ministério de pregar e propagar o Evangelho como consta (At, XIX, 6); c) E assim convinha, porque acudindo Maria muitos fiéis de diversas nações, já por piedade filial, e que buscavam de instruções, devia conhecer seus idiomas para entendê-los e instruí-los plenamente nas coisas da fé. d) Finalmente, Suarez julga provável que ainda antes de Pentecostes, Maria já tivesse usado desta graça, caso a necessidade ou a ocasião tivesse exigido, como quando Cristo foi adorado pelos magos, é de crer que Maria entendeu a sua linguagem, como é também crível que, quando foi ao Egito, entendia e falava a língua dos egípcios. (In 3, disp. XX) – (ALASTRUEY, Gregório. Tratado de la Virgen Santíssima. Madrid: BAC, 1945, p. 350-351)


Padres da Igreja e o dom das línguas

No séculos II, Santo Irineu (c.115-200) se refere a uma fala extática não-idiomática, do tipo que os pentecostais praticam hoje. Descreve e condena as ações de um certo Marcos que “profetizava”, sob influência “demoníaca”. Marcos compartilhava o seu “dom” e outros também “profetizavam”. Seduzia mulheres e lhes prometia o carisma. Quando a recebiam, falavam algo sem sentido:

“Então ela, de maneira vã, imobilizada e exaltada por estas palavras e grandemente excitada... seu coração começa a bater violentamente, alcança o requisito, cai em audácia e futilidade, tanto quanto pronuncia algo sem sentido, assim como lhe ocorre”. (Contra Heresias I, XIII, 3)

Irineu também se refere ao dom de línguas dos apóstolos e da época em que vivia. Cita II Cor. 2:6, explicando que “os perfeitos” falam em “todos os tipos” as línguas:

“... nós também ouvimos muitos irmãos na Igreja,... e que através do Espírito, falam todos os tipos de línguas, e trazem à luz para o benefício geral as coisas escondidas dos homens, e declaram os mistérios de Deus...”. (Contra Heresias V,VI,1)

Ao informar que falam todos os tipos de língua, Irineu parece se referir a línguas que admitem classificação.

O curioso é que o movimento de herético de Montano (c.150-200) envolveu um êxtase religioso, com elocuções não-idiomáticas, semelhantes à pseudo-glossolalia pentecostal.

De acordo com descrições registradas por Eusébio (c.265-?), Montano entrou em uma espécie de delírio e balbuciava “coisas estranhas”. Ele “encheu” duas mulheres com o “falso espírito”, e elas falaram “extensa, irracional e estranhamente”:

“ficou fora de si e [começou] a estar repentinamente em uma sorte de frenesi e êxtase, ele delirava e começava a balbuciar e pronunciar coisas estranhas, profetizando de um modo contrário ao costume constante da igreja (...) E ele, excitado ao lado de duas mulheres, encheu-as com o falso espírito, tanto que elas falaram extensa, irracional e estranhamente, como a pessoa já mencionada.” (História da Igreja V,XVI:8,9 )

Depreende-se deste texto que o fenômeno lingüístico montanista envolvia:

(a) uma forte expressão emocional, deduzida das menções de “êxtase”, “frenesi” e delírio;

(b) o texto indica uma linguagem não-idiomática, de “balbucios”, e um falar “estranho”, “irracional”. Tomadas em conjunto, estas características assemelham-se à glossolalia pentecostal. A comparação torna-se tão evidente, ao ponto de o montanismo ser apelidado de “protótipo dos pentecostais”.

Sabe-se que a “glossolalia” montanista se tratava de uma reminiscência dos excessos frígios. Sob esta ótica, a glossolalia pentecostal perdeu o apoio da igreja do segundo século e se alinhou com uma religião não-cristã da mesma época.

Orígenes (c.195-254) em sua época, se opôs a um certo Celso, que clamava ser divino, e falava línguas incompreensíveis:

“A estas promessas, são acrescentadas palavras estranhas, fanáticas e completamente ininteligíveis, das quais nenhuma pessoa racional poderia encontrar o significado, porque elas são tão obscuras, que não têm um significado em seu todo.” (Contra Celso, VII:9)

Uma linguagem ininteligível soa “estranha”, “obscura” e “fanática” para Orígenes. Assim como para Irineu e mais tarde foi para Eusébio. Para Orígenes, as palavras “completamente ininteligíveis”, eram mais o subproduto de uma distorção religiosa.

Arquelau, bispo de Carcar no fim do segundo século comenta sobre o dom de línguas no Pentecostes. O contexto indica uma identificação como idiomas naturais. Para Arquelau, Mane era incapaz de conhecer a língua dos gregos porque não possuía o dom de línguas do Espírito, que o capacitaria a entendê-las:

“Ó seu bárbaro persa, você nunca foi capaz de conhecer a língua dos gregos, dos egípcios, ou dos romanos, ou de qualquer nação, (...). Pelo que diz a Escritura? Que cada homem ouvia os apóstolos falarem em sua própria língua através do Espírito, o Parácleto”. (Disputa com Mane, XXXVI)

Na Didaquê Siríaca comenta-se o evento do Pentecostes. Os discípulos estavam preocupados sobre como iriam pregar ao mundo, se eles não conheciam os idiomas. Então, receberam o dom de falar idiomas estrangeiros e foram para os países onde esses idiomas eram falados:
“de acordo com a língua que cada um deles tinha diferentemente recebido, para que a pessoa se preparasse para ir ao país no qual a língua era falada e ouvida”. (Didaquê Síriaca, seção introdutória).

No século IV, Cirilo de Alexandria (c.315-387), Doutor da Igreja em seus Sermões Catequéticos (sermão XVII: 16), interpreta o dom de línguas do Pentecostes como idiomas estrangeiros. Isto indica que, pelo começo do quarto século, a glossolalia apostólica também era tida como um idioma comum. Cita por nome alguns idiomas falados pelos apóstolos:

“O galileu Pedro ou André falavam persa ou medo. João e o resto dos apóstolos falavam todas as línguas para aquela porção de gentios (...) Mas o Santo Espírito os ensinou muitas línguas naquela ocasião, línguas que em toda a vida deles nunca conheceram” (Sermões Catequéticos (sermão XVII: 16)

Para Gregório Nazianzeno (c.330-390), Doutor da Igreja, o dom de línguas em Atos também se referia a idiomas estrangeiros:

“Eles falaram com línguas estranhas, e não aquelas de sua terra nativa; e a maravilha era grande, uma língua falada por aqueles que não as aprenderam”. Gregório ainda argumenta que o dom foi de falarem línguas estrangeiras e não dos ouvintes as entenderem. Segundo ele, se fosse assim, o milagre não seria dos que “falam” em línguas, mas “dos que ouvem”. (Do Pentecostes, oração XLI:16)

Ambrósio (330-397), também Doutor da Igreja, embora não discuta a natureza do dom de línguas, ressalta que cada pessoa recebe dons espirituais diferentes. Para ele,

“todos os dons divinos não podem existir em todos os homens, cada um recebe de acordo com a sua capacidade ao deseja ou merece” (Do Espírito Santo II, XVIII, 149)

Se Ambrósio também quer dizer com isto que o falar em línguas não se manifesta em todos os cristãos, a citação pode se confrontar e divergir completamente com a posição pentecostal de que todos devem ter “o” dom de línguas.

São João Crisóstomo (Doutor da Igreja) (347-406), é o primeiro a interpretar detidamente a glossolalia em I Coríntios. Em sua conhecida retórica de orador, questiona a ausência do dom de línguas: “Por que então eles aconteceram, e agora não mais?”
São João Crisóstomo detalha sua explicação. Ele vê o dom de línguas do N.T. como um fenômeno reverso ao da Torre de Babel. Os discípulos receberam o dom porque deveriam

“ir afora para todos os lugares (...) e o dom era chamado de dom de línguas porque ele poderia falar de uma vez diversas línguas”.

Comentando I Co. 14:10, aplica a passagem à diversidade de idiomas:

“i.e., muitas línguas, muitas vozes de citianos, tracianos, romanos, persas (...) inumeráveis outras nações.”

E sobre I Co. 14:14, São João Crisóstomo sublinha que aquele que fala em línguas não as entende, porque não conhece o idioma em que fala:

“Pois se um homem fala somente em persa ou outra língua estrangeira, e não entende o que ele diz, então é claro que ele será para si, dali em diante, um bárbaro (...) Pois existiam (...) muitos que tinham também o dom da oração, junto com a língua; e eles oravam e a língua falava, orando tanto em persa ou linguagem latina, mas o entendimento deles não sabia o que era falado”.98 (Homilias na Epístola de Paulo aos Coríntios, capítulo XXXV).

Para Agostinho (Doutor da Igreja) (354-430), o dom de línguas concedido aos apóstolos no Pentecostes se tratava da capacidade sobrenatural de falar línguas estrangeiras. Demonstra que, no período apostólico, o Espírito operava...

“sensíveis milagres... para serem credenciais da fé rudimentar” (Contra os Donatistas: Sobre o Batismo, III:16).

Agostinho reforça o dom de línguas como idiomas naturais. Eram línguas que os discípulos“ não tinham aprendido”. E, na pregação posterior,

o... “evangelho corria através de todas as línguas”.100 (Epístola de São João, Homilia VI:10)

"Nos primeiros tempos, o Espírito Santo descia sobre os fiéis e estes falavam em línguas, sem as ter aprendido conforme o Espírito lhes dava a falar. Foram sinais oportuno para esse tempo... o sinal dado passou depois" (Comentário da Primeira Carta de São João, Tratado IV, 10).

Algo a se notar nos Padres da Igreja é a completa ausência do dom de línguas do tipo pentecostal. Percebe-se que na Igreja do tempo dos Padres, o dom de línguas não esboçava qualquer centralidade, ou mesmo relevância como possui hoje em dia para a heresia pentecostal. Caso o dom de línguas como se difunde hoje, fosse fundamental na doutrina apostólica como evidência do batismo do Espírito Santo, teria certamente teria feito parte dos credos e da tradição dos Padres da Igreja.

Logo, num prisma negativo, pseudo-glossolalia pentecostal considerados neste artigo não encontram suporte nos Pais da Igreja:

(1) A glossolalia não-idiomática :

(a) não foi considerada como dom do Espírito;

(b) foi rejeitada pela igreja da época;

(c) revelou origens e feições não-cristãs. Tida como principal manifestação lingüística do pentecostalismo, a glossolalia não-idiomática encontra reprovação no conjunto dos Pais da Igreja.
Nos Pais da Igreja a glossolalia:

(a) não é indicadora da plenitude do Espírito Santo;

(b) não é indicadora indireta da própria salvação do crente; ou

(c) não é um elemento distintivo dos verdadeiros crentes.

Em relação à glossolalia como o dom, os Pais da Igreja têm o falar em línguas como:

(a) não-obrigatório para o cristão;

(b) o dom de línguas na patrística é apenas “um” entre outros.


A doutrina do dom das línguas em Santo Tomás de Aquino

Santo Tomás de Aquino, ao comentar o Capítulo XIV da primeira carta de São Paulo aos Coríntios, escreveu:

“Quanto ao dom de línguas, devemos saber que como na Igreja primitiva eram poucos os consagrados para pregar ao mundo a Fé em Cristo, a fim de que mais facilmente e a muitos se anunciasse a palavra de Deus, o Senhor lhes deu o dom de línguas” (S. Tomas de Aquino, Comentario a la primera espistola a los Conrintios, Tomo II, pag 178.)

Vê-se, portanto, que o dom de línguas foi dado aos primeiros cristãos para que anunciassem a religião verdadeira com mais facilidade. Os Coríntios, por sua vez, desvirtuaram o verdadeiro sentido do dom de línguas:

“Porém, os coríntios, que eram de indiscreta curiosidade, prefeririam esse dom ao dom de profecia. E aqui, por ‘falar em línguas’ o Apóstolo entende que em língua desconhecida e não explicada: como se alguém falasse em língua teutônica a um galês, sem explicá-la; esse tal fala em línguas. E também é falar em línguas o falar de visões tão somente, sem explicá-las, de modo que toda locução não entendia, não explicada, qualquer quer seja, é propriamente falar em língua” (S. Tomas de Aquino, Comentario a la primera espistola a los Conrintios, Tomo II, pg 178-179.).

Temos aqui uma consideração importante. Para São Tomás, o “falar em línguas” pode ser entendido de duas formas:

a) falar em uma língua desconhecida, mas existente, como no caso de Pentecostes, no qual pessoas de várias línguas compreendiam o que os apóstolos pregavam.

b) a pregação ou oração sobre visões ou símbolos.

E o doutor angélico confirma isso mais adiante:

“ suponhamos que eu vá até vós falando em línguas’ (I Co 14, 6). O qual pode entender-se de duas maneiras, isto é, ou em línguas desconhecidas, ou a letra com qualquer símbolos desconhecidos” (Santo Tomas de Aquino, Comentario a la primera espistola a los Conrintios, Tomo II, pg 183.)

Haja vista que a primeira forma de falar em línguas é suficientemente clara – ou seja, que é um milagre pelo qual uma pessoa, que tem por ofício pregar às almas, fala numa língua existente sem nunca a ter estudado – consideremos a segunda forma de manifestação desse dom, segundo São Tomás. Neste caso, falar em línguas é uma simples predicação numa linguagem pouco clara, como, por exemplo, falar sobre símbolos, visões, em parábolas, etc:

“(...) se se fala em línguas, ou seja, sobre visões, sonhos (...)” (Santo Tomas de Aquino, Comentario a la primera espistola a los Conrintios, Tomo II, pg 208.).

E ainda:

[lhes falarei] “ ‘Em línguas estranhas’, isto é, lhes falarei obscura e em forma de parábolas” (Santo Tomas de Aquino, Comentario a la primera espistola a los Conrintios, Tomo II, pg 200).

“(...) em línguas, isto é, por figuras e com lábios (...)” (Santo Tomas de Aquino, Comentario a la primera espistola a los Conrintios, Tomo II, pg 200.)

Para São Tomás, quem assim procede, isto é, usa de símbolos nas práticas espirituais, tem o mérito próprio da prática de um ato de piedade. Caso o indivíduo compreenda racionalmente o que diz, lucra, além do mérito, o fruto intelectual da ação.

Quem reza o Pai-Nosso, por exemplo, mesmo sem compreender perfeitamente o valor de suas petições, tem o mérito próprio da boa ação de rezar. Por outro lado, quem reza o Pai-Nosso com o conhecimento de seu significado mais profundo, lucra, além do mérito, a consolação intelectual da compreensão de uma verdade espiritual. Por esse motivo, São Paulo exorta aos que “falam em línguas” – ou seja, que usam símbolos nos atos de piedade – para que peçam também o dom de “interpretar as línguas”, quer dizer, de compreender o que diz por meio simbólico, afim de que possa ganhar, além do mérito, a compreensão racional do ato.

No que se refere ao uso público do dom de línguas, o Apóstolo determina que ele nunca deve ser usado sem que haja intérprete, ou seja, sem que haja quem explique os símbolos para os que não os compreendem.

Comentado o versículo 27, no qual São Paulo exorta que não falem em línguas mais que dois ou três durante o culto público, diz São Tomas:

“É de notar-se que este costume até agora (...) se conserva na Igreja. Por que as leituras, epístolas e evangelhos temos em lugar das línguas, e por isso na Missa falam dois (...) as coisas que pertencem ao dom de línguas, isto é, a Epístola e o Evangelho” (Santo Tomas de Aquino, Comentario a la primera espistola a los Conrintios, Tomo II, pg 208.)


Para São Tomás, a leitura da Epístola e do santo Evangelho, na Missa, são a forma de “falar em línguas” que a Igreja conservou dos tempos apostólicos! Nada mais contrário ao delírio pentecostal carismático!

Ora, no que diz respeito a “interpretação das línguas”, na Missa, depois da Epístola e do Evangelho, o padre faz o sermão, pelo qual explica os símbolos dos textos sagrados que foram lidos. O sermão é, pois, a ‘interpretação das línguas’ (Epístola e Evangelho) que foram faladas na Missa.Fica, portanto, bastante claro o verdadeiro significado do dom de línguas, que nada mais é do que:

1 - o milagre de pregar o Evangelho numa língua sem a ter estudado ou

2 - o simples fato de usar uma linguagem simbólica na vida espiritual, seja na oração particular, seja na oração pública, sendo que nesta última é necessário alguém que “interprete as línguas”, ou seja, que explique o significado dos símbolos ao povo, função dos ministros da Igreja.


Cf. AQUINO, TOMÁS de. COMENTARIO A LA PRIMERA EPÍSTOLA DE SAN PABLO A LOS CORINTIOS. Disponível em: http://www.clerus.org/bibliaclerusonline/es/index3.htm


Santo Antônio e o dom das línguas

“ E todos estiveram cheios do Espírito Santo, e começaram a falar em diversas línguas, segundo o Espírito Santo lhe dava a falar”. Falavam todas as línguas; ou também falavam sua língua hebréia, e todos os entendiam, como se falassem na língua de cada um dos ouvintes”
(PÁDUA, Santo Antônio de. Sermones, Tomo I. Domingo de Pentecostes (I). Buenos Aires:El mensajero de san Antonio, 1995, p. 333.)

“Sobre todas memorável ficou a pregação, que o santo franciscano fez no dia da Ressurreição. Tinham afluído, como vimos, a Roma gentes das diversas regiões e nacionalidades da terra, como latinos, gregos, alemães, franceses, ingleses e de outras línguas. Pregou também Santo Antônio, segundo a vontade do sumo Pontífice, naquela grande solenidade; e este seu sermão foi um digno remate e coroa aos seus triunfos oratórios. Inflamado pelo Espírito Santo, anunciou a palavra de Deus de um modo tão eficaz, devoto e penetrante, e com tal suavidade, clareza e inteligência, que todos os presentes, apesar da diversidade das línguas, lhe entenderam as palavras, tão clara e distintamente, como se houvesse pregado na língua de cada um” (MARTINS (S.J), Manuel Narciso. Vida de Santo Antônio. Bahia: Duas Américas, 1932, p. 74


São Francisco Xavier e o dom das línguas

O livro Milagros y prodígios de San Francisco Javier, que foi escrito pela historiadora de arte Maria Gabriela Torres Olleta, constitui o sexto e, de momento, último volume da colecção “Biblioteca Javeriana” publicada desde 2004 pela Cátedra San Francisco Javier, Universidade de Navarra, como preparação para o ano jubilar de 2006. O livro conta que quando São Francisco Xavier falava em sua língua própria, no Oriente, cada um que o ouvia o entendia em sua língua materna. O dom das línguas (pp. 45-47), cuja enorme importância se justifica pela atividade missionária de Xavier entre muitos povos e muitas nações diferentes, foi um outro aspecto muito fomentado pela hagiografia de S. Francisco Xavier, tendo sido, por isso, igualmente incluído na bula de canonização. (OLLETA, Maria Gabriela Torres. Milagros y prodígios de San Francisco Javier. Biblioteca Javeriana, 2006, p. 45-47)


São Francisco Solano e o dom das línguas

“São Francisco Solano, cuja festa comemoramos no dia 14, santo genuinamente franciscano, aprendeu milagrosamente em 15 dias o dialeto de uma tribo indígena. Adquiriu também o dom das línguas, falando em castelhano a índios de tribos diferentes, sendo entendido como se estivesse expressando-se no dialeto de cada um. Uma vez, por exemplo, estando em San Miguel del Estero durante as cerimônias da Quinta-Feira Santa, veio uma terrível notícia: milhares de índios de diversas tribos, armados para a guerra, avançavam para atacar a cidade. A balbúrdia foi geral. Só Frei Francisco, calmo, saiu ao encontro dos selvagens. Estes, que o respeitavam, pararam para o ouvir. E cada um o entendeu em sua própria língua. Ficaram tão emocionados, que um número enorme deles pediu o batismo. No dia seguinte, viu-se essa coisa portentosa: ao lado dos espanhóis, esses índios convertidos participavam da procissão da Sexta-feira Santa, flagelando-se por causa de seus pecados.” (Cf. Fr. Justo Pérez de Urbel, O.S.B., Ediciones Fax, Madrid, 1945, tomo III, p. 184; Les Petits Bollandistes, Bloud et Barral, Paris, 1882, tomo IX, pp. 8 e ss; Enriqueta Vila, Santos de America, coleção Panoramas de la Historia Universal, Ediciones Moreton, S.A., Bilbao, 1968, pp. 93 e ss. )


O dom das línguas e o Papa Bento XVI


“Diferentemente do que tinha acontecido com a torre de Babel (cf. Jo 11, 1-9), quando os homens, intencionados a construir com as suas mãos um caminho para o céu, tinham acabado por destruir a sua própria capacidade de se compreenderem reciprocamente. No Pentecostes o Espírito, com o dom das línguas, mostra que a sua presença une e transforma a confusão em comunhão. O orgulho e o egoísmo do homem geram sempre divisões, erguem muros de indiferença, de ódio e de violência.O Espírito Santo, ao contrário, torna os corações capazes de compreender as línguas de todos, porque restabelece a ponte da comunicação autêntica entre a Terra e o Céu." Disponível em:
http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/homilies/2006/documents/hf_ben-xvi_hom_20060604_pentecoste_po.html

Dom de Línguas - Eu Pergunto e os Caríssimos Pe. Marcelo Tenório e Prof. Eder Silva Respondem



Antes de pôr a resposta abaixo, gostaria de agradecer profundamente a boa vontade dos caríssimos Pe. Marcelo Tenório e do Prof. Eder Silva em responderem prontamente a questão que eu havia levantado sobre o Dom de Línguas descrito por S. Paulo no primeiro livro de Coríntios. Agradeço a ambos e, ao reverendo Pe. Marcelo, sigo rogando a sua bênção. Que Deus os abençoe.

Recomendo a todos a leitura. Salve Maria!

**
Caríssimo Sr. Fábio

Salve Maria!

Li atento seu comentário da matéria "RCC - Origem e Catolicidade". Não tenho o hábito de responder comentários das postagens, por questão de tempo e de proposta mesmo do nosso blog. Todavia suas considerações foram importantes e uma reflexão sobre as mesmas a partir da doutrina da Igreja, segundo Santo Tomás de Aquino, seria de grande valor, visto que Sua Doutrina é a Doutrina Perfeita, canonizada pela Santa Religião.

O Prof. Eder Silva quis discorrer sobre o assunto e julgo sua colocação perfeita e cabível para a questão em foco. Abaixo está o seu comentário e depois a doutrina da Igreja comentada pelo Prof. Eder, assim, os leitores terão uma visão melhor e geral do assunto.

Concluíndo, deixo aqui as belas palavras de Pio XI:

" A TODOS QUANTOS AGORA SENTEM SEDE DE VERDADE, DIZEMO-LHES:   IDE A TOMÁS DE AQUINO."

Com minha bênção,

Pe. Marcélo Tenorio

_________________________

Caríssimo Pe. Marcelo, sua bênção.

De fato, a RCC tem origem protestante e a mantém naquilo que a caracteriza. Tenho, por vezes, conversado com alguns carismáticos, a fim de esclarecer-lhes sobre isto.

Porém, hoje estive lendo um texto do saudoso Prof. Orlando Fedeli

(http://www.montfort.org.br/old/index.php?secao=cartas&subsecao=rcc&artigo=20040812202727&lang=bra), em que ele responde a uma dúvida sobre a dita oração em línguas. E, depois de terminá-lo, vi que algumas questões levantadas pelo rapaz que o indagou não foram respondidas.

Primeiro, o texto enviado pelo rapaz faz uma aproximação da oração em línguas com a tradição apofática da Igreja, que é uma tradição autêntica. Claro que não tem nada a ver uma coisa com a outra, mas objetar-lhe a validade afirmando que em referir-se a algo supra-conceitual está-se a renegar a Fé é faltar com a sinceridade, pelo menos no caso do Professor Orlando que, creio eu, conhecia bem essa tradição da Teologia Negativa.

Mas as questões mesmo que me ficaram foram outras.

Sempre que eu li a respeito, vi que a Igreja considerava o verdadeiro carisma das línguas como um dom dado aos primeiros de falar verdadeiramente outras línguas, mantendo portanto a inteligibilidade, e que a finalidade deste dom era facilitar a difusão do Evangelho em diversos povos.

Quando Paulo diz, porém, que aquele que fala em línguas fala misteriosamente a Deus sem que ninguém o entenda, vi argumentos que diziam que este tipo de linguagem é semelhante, por exemplo, à dos Cânticos dos Cânticos em que se entendem os símbolos mas não se apreende o simbolizado, precisando, para tal, do dom de interpretação, que Paulo cita.

Pois bem. No entanto, na assertiva do rapaz me ficaram umas dúvidas e que ponho logo a seguir:

1- Os carismas autênticos foram sempre dons extraordinários, isto é, não comuns. No entanto, Paulo parece desejar, com relação ao "dom de línguas", que todos o tenham:

"desejo que todos faleis em línguas" (1Cor 14,4-5)

2- Dizíamos que a oração em línguas nada mais era que falar outra língua realmente existente, como quando um italiano fala japonês. Se assim é, a linguagem mantém seu caráter inteligível. No entanto, Paulo parece fazer uma distinção entre a linguagem e o entendimento: ""Orarei com o espírito, mas orarei também com o entendimento (1Cor 14,15)" e "Se eu oro em virtude do dom das línguas, o meu espírito ora, mas o meu entendimento fica sem fruto." (1Cor 14,14)

Por fim, padre, se o senhor tiver tempo de me esclarecer estes pontos, eu gostaria ainda de saber o que se quer dizer precisamente na expressão "gemidos inefáveis". Li há algum tempo que isso poderia se referir, de novo, à tradição apofática caracterizando talvez o silêncio, uma vez que o inefável é o que não pode ser dito.

Desde já, fico grato.

A sua bênção.

Fábio.

__________________________

Caríssimo Padre Marcelo Tenório,

Salve Maria!

Diante das colocações do sr. Fábio, resolvi fazer um comentário não a critério de solução, mas apenas de complemento, visto que o senhor discorreu impecavelmente sobre a questão dos misteriosos “gemidos” carismáticos.

Permita-me iniciar minha exposição.

Quando se trata das sublimes verdades da Revelação Divina, é preciso recorrer, por prudência, aos magistrais ensinamentos dos doutores da Igreja, especialmente à sabedoria angélica de Santo Tomás.

A explicação do Aquinate sobre o dom de línguas dissolve as dúvidas e estabelece as bases para distinguir o verdadeiro fenômeno sobrenatural da glossolalia dos pseudo-carismas, vulgarizados nos círculos delirantes da Renovação Carismática.

Comentando o Capítulo XIV da primeira carta de São Paulo aos Coríntios, Santo Tomás escreveu:

“Quanto ao dom de línguas, devemos saber que como na Igreja primitiva eram poucos os consagrados para pregar ao mundo a Fé em Cristo, a fim de que mais facilmente e a muitos se anunciasse a palavra de Deus, o Senhor lhes deu o dom de línguas” (S. Tomas de Aquino, comentário à primeira Epístola aos Coríntios, Tomo II, p. 178).

Esse ensino é comum a todos os doutores que comentaram o referido trecho da carta de São Paulo.

O dom de línguas, largamente concedido aos cristãos do primeiro século da

Igreja, destinava-se a facilitar o anúncio do Evangelho que precisava ser difundido a todos os povos de todas as línguas existentes. Entretanto, como observa o Aquinate, os Coríntios desvirtuaram o verdadeiro sentido desse dom:

“Porém, os coríntios, que eram de indiscreta curiosidade, prefeririam esse dom ao dom da profecia. E aqui, por ‘falar em línguas o Apóstolo entende que em língua desconhecida e não explicada: como se alguém falasse em língua teutônica a um galês, sem explicá-la; esse tal fala em línguas. E também é falar em línguas o falar de visões tão somente, sem explicá-las, de modo que toda locução não entendida, não explicada, qualquer que seja, é propriamente falar em língua” (S. Tomas de Aquino, comentário à primeira Epístola aos Coríntios, Tomo II, p. 178-179).

Segundo a exposição do ilustre doutor angélico, o falar em línguas pode ser entendido de dois modos:

1) falar em língua desconhecida, porém existente, como sucedeu em Pentecostes, quando São Pedro falou em sua língua e cada um dos presentes entendeu na sua língua pátria.

2) pregação ou oração sobre visões ou símbolos.

Essa doutrina é confirmada pelo Aquinate:

“Suponhamos que eu vá até vós falando em línguas (I Cor 14,6). O qual pode entender-se de duas maneiras, isto é, ou em línguas desconhecidas, ou a letra com qualquer símbolos desconhecidos” (S. Tomas de Aquino, comentário à primeira Epístola aos Coríntios, Tomo II, p. 173).

Por sua clareza inconfundível, a primeira forma de falar em línguas dispensa comentários, visto que consiste em falar, miraculosamente, uma língua existente sem nunca tê-la estudado.

Consideremos, portanto, o segundo modo, que consiste numa simples predicação com linguagem pouco clara, como acontece quando se fala sobre símbolos ou visões em forma de parábolas.

Esclarece São Tomás:

“[...] se se fala em línguas, ou seja, sobre visões, sonhos [...] (S. Tomas de Aquino, comentário à primeira Epístola aos Coríntios, Tomo II, p. 208).

Continua:

[lhes falarei] “‘Em línguas estranhas’, isto é, lhes falarei obscura e em forma de parábolas [...] por figuras e com lábios [...]” (S. Tomas de Aquino, comentário à primeira Epístola aos Coríntios, Tomo II, p. 200).

Segundo a doutrina puríssima de Santo Tomás, quem usa de símbolos nos exercícios espirituais, lucra o mérito da prática de um ato de piedade. Mas, se compreende racionalmente os símbolos que profere durante a ação, lucra, além do mérito da boa obra, o fruto da compreensão intelectual de uma verdade espiritual.

Quando alguém reza a oração do Pai Nosso sem compreender o profundo significado das petições que pronuncia, ganha o mérito da boa ação de rezar. Mas, aquele que reza compreendendo o sentido do que diz, lucra duplamente, isto é, o mérito da ação e o mérito da compreensão de uma verdade espiritual. Por esta razão São Paulo exorta aos que “falam em línguas” (no sentido de usar símbolos em seus atos de piedade) para que peçam o dom de interpretá-las, isto é, de compreender aquilo que diz de modo simbólico, a fim de lucrarem juntamente com a boa ação, o entendimento daquilo que piedosamente executam.

Quanto ao uso público dessas línguas estranhas, o Apóstolo estabelece que não se as use quando não houver intérprete para explicar os símbolos para os que não conseguem atingir sua clara compreensão.

Em seus comentários sobre o versículo em que São Paulo adverte para que, durante o culto público, não se fale em línguas mais que dois ou três, São Tomás ensina que a leitura da Epístola e do Evangelho na Missa, são formas de falar em línguas que a Igreja manteve do período apostólico, fato diametralmente oposto ao que ocorre nas histerias pentecostais.

Eis as palavras do Aquinate:

“É de notar-se que este costume até agora [...] se conserva na Igreja. Por que as leituras, epístola e evangelho temos em lugar das línguas, e por isso na missa falam dois [...] as coisas que pertencem aos dom de línguas, isto é, a Epístola e o Evangelho” (comentário à primeira Epístola aos Coríntios, Tomo II, p. 208).

A interpretação dessas línguas – estranhas ao povo simples – ocorre na Missa após a leitura da Epístola e do Evangelho, quando o padre faz o sermão explicando os símbolos contidos nos textos sagrados que foram lidos.

Nisto consiste o “falar em línguas”, segundo a autoridade indiscutível de Santo Tomás. E, partindo desta teologia absolutamente segura, porque reconhecida pela Igreja, não há como admitir a confusão desordenada de sons, freqüentes nos cultos pentecostais da Renovação Carismática. Ao contrário, quem examina os escritos dos pais da Igreja sobre o assunto, é levado a concluir que os fenômenos de línguas que ocorrem na RCC são de origem diabólica, e não divina, como se pensa e defende.

E para respaldar essa afirmação, confirmamo-la com os próprios dizeres dos padres da Igreja.

No século II da era cristã, Santo Irineu condenou um herege chamado Marcos que profetizava sob influência demoníaca, seduzindo mulheres que, de modo semelhante ao que ocorre nas reuniões pentecostais, passavam a emitir sons confusos:

“Então, ela, de maneira vã, imobilizada e exaltada por estas palavras e grandemente excitadas [...] seu coração começa a bater violentamente, alcança o requisito, cai em audácia futilidade, tanto quanto pronuncia algo sem sentido, assim como lhe ocorre” (Contra Heresias I, XIII, 3).

Fenômeno semelhante aconteceu com o herético Montano, conforme relata Eusébio:

“Ficou fora de si e [começou] a estar repentinamente em uma sorte de frenesi e êxtase, ele delirava e começava a balbuciar e pronunciar coisas estranhas, profetizando de um modo contrário ao costume constante da Igreja [...] E ele, excitado ao falar de duas mulheres, encheu-as com o falso espírito, tanto que elas falaram “extensa, irracional e estranhamente, como a pessoa já mencionada” (História da Igreja V, XVI: 8,9).

No século III, Orígenes denunciou um tal Celso, que pronunciava sons incompreensíveis:

“A estas promessas, são acrescentadas palavras estranhas, fanáticas e completamente ininteligíveis, das quais nenhuma pessoa racional poderia encontrar o significado, porque elas são tão obscuras, que não têm um significado em seu todo” (Contra Celso, VII:9).

Nota-se, portanto, que a confusão sonora nos ambientes carismáticos se identifica com esses fenômenos denunciados como falsos ou diabólicos pelos pais da Igreja.

Na afirmação constante dos doutores, o dom de línguas consiste em falar línguas estranhas existentes, e não sons desconhecidos por todos os homens. Encontramos essa posição em todos os comentadores dos textos de São Paulo, como por exemplo, em Santo Agostinho, Cirilo de Alexandria, Gregório Nanzianzeno, Santo Ambrósio, São João Crisóstomo, Didaquê Siríaca, etc.

Esse sempre foi o ensino da Igreja iluminada pela luz infalível do Espírito Santo.

Para encerrar essa questão, sem desprezar as objeções correlatas, respondemos a indagação do consulente Fábio que recorda as palavras de São Paulo, cujo teor parece contrariar a idéia de que o dom das línguas é um carisma extraordinário, isto é, concedido apenas a alguns.

Orientando os Coríntios, o Apóstolo expressa seu desejo: “Desejo que todos faleis em línguas”. (I Cor, XIV, 5).

Santo Ambrósio, Doutor da Igreja, ensina que o falar em línguas não se manifesta em todos os cristãos:

“Todos os dons divinos não podem existir em todos os homens, cada um recebe de acordo com a sua capacidade” (Do Espírito Santo II, XVIII, 149).

É compreensível que, em vista da necessidade da propagação da fé a todos os povos, São Paulo manifeste o desejo de que todos tenham o dom de línguas. Mas o Apóstolo sabe que a cada um é dado um dom particular.

Sobre seu estado celibatário, São Paulo diz: “Quisera que todos os homens fossem como eu” (I Cor, VII, 7). Entretanto, imediatamente pondera: “[...] mas cada um recebe de Deus o seu dom particular, um, deste modo; outro, daquele modo".

E esse mesmo princípio pode ser aplicado ao dom das línguas, que se tornava cada vez mais incomum, conforme se difundia a fé entre os povos.

Para não estender demasiadamente esta carta que já vai longe, indico uma resposta dada pelo professor Orlando Fedeli sobre o significado da expresão “gemidos inefáveis”, objeto da dúvida do sr. Fábio.

Noutra oportunidade poderia transcrever as explicações dos doutores sobre esses “gemidos” que, por serem inefaveis e provenientes da Terceira Pessoa da Santíssima Trindade, são inaudiveis e inatingiveis pela razão humana

Ademais, ousar dizer que os “grunhidos” carismáticos são gemigos inefáveis do Espírito Santo é, além de absurdo, uma blasfêmia contra a Sabedoria de Deus. Claro, supondo que um carismático já tenha “ouvido” os gemidos do Espírito Santo para identificá-lo com o gemido confuso dos carismáticos.

Espero que o assunto tenha sido exposto com a devida clareza.

Rogando vossa benção, Padre, despeço-me,

in Corde Jesu, semper

Eder Silva.

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