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O ateísmo é uma solução simplista - C. S. Lewis


Meu argumento contra Deus era o de que o universo parecia injusto e cruel. No entanto, de onde eu tirara essa idéia de justo e injusto? Um homem não diz que uma linha é torta se não souber o que é uma linha reta. Com o que eu comparava o universo quando o chamava de injusto? Se o espetáculo inteiro era ruim do começo ao fim, como é que eu, fazendo parte dele, podia ter uma reação assim tão violenta? Um homem sente o corpo molhado quando entra na água porque não é um animal aquático; um peixe não se sente assim. É claro que eu poderia ter desistido da minha idéia de justiça dizendo que ela não passava de uma idéia particular minha. Se procedesse assim, porém, meu argumento contra Deus também desmoronaria - pois depende da premissa de que o mundo é realmente injusto, e não de que simplesmente não agrada aos meus caprichos pessoais. Assim, no próprio ato de tentar provar que Deus não existe - ou, por outra, que a realidade como um todo não tem sentido -, vi-me forçado a admitir que uma parte da realidade - a saber, minha idéia de justiça - tem sentido, sim. Ou seja, o ateísmo é uma solução simplista. Se o universo inteiro não tivesse sentido, nunca perceberíamos que ele não tem sentido - do mesmo modo que, se não existisse luz no universo e as criaturas não tivessem olhos, nunca nos saberíamos imersos na escuridão. A própria palavra escuridão não teria significado.

C. S. Lewis. Cristianismo puro e simples. São Paulo: Martins Fontes, 2013. p.53-54.

Dia de Nossa Senhora de Guadalupe - Algumas características que intrigam a ciência


A Virgem de Guadalupe até hoje é um mistério que intriga a ciência deixando-a totalmente muda sobre a natureza do fenômeno. Tudo o que ela faz é dizer: isso extrapola as nossas possibilidades de explicação, demandando uma causa que se encontra acima das possíveis de especificação.

Só pra dar um resuminho:

1- A "tinta" da imagem não é de natureza animal, nem vegetal, nem mineral;

2- A "tinta" está como suspensa sobre o tecido (3 décimos de milímetro) de modo que não o toca estritamente;

3- O tecido foi elevado a uma resistência muito acima do que lhe era possível. Pano grosseiro, no qual os índios mexicanos se enrolavam na hora de dormir, tendia a resistir de 10 a 15 anos. E, no entanto, lá se vão cinco séculos - desde a aparição em 1531 - em que a capa está preservada;

4- As flores no manto da Virgem ocupam precisamente os lugares correspondentes às montanhas no México;

5- As constelações impressas no seu manto expressam com rigor a disposição dos astros no momento da aparição, além do que trazem um forte elemento simbólico: na cabeça, há a constelação da coroa boreal; no seio, a de virgem, etc.;

6- Os olhos da Virgem, se maximizados, revelam as figuras que ela via no momento em que o senhor bispo ajoelhou-se diante de Juan Diego. Seria impossível reproduzir isso por qualquer técnica artística;

7- Os olhos da Virgem reagem a luz, dilatando a pupila quando um facho se lhes aproxima;

8- O desenho não teve esboço e também não há quaisquer sinais de pincelada.;

9- Um estetoscópio revelou pulsações (115 por minuto) na criança da qual a Virgem está grávida. 

10- Além de a imagem estar grávida, ela também aparece com uma fita no seio e os cabelos soltos, divididos ao meio, características de uma virgem na cultura asteca. Maria, portanto, é uma Virgem Mãe.

Jovem ateia, leitora do “novo ateísmo”, até que leu Bento XVI e Santo Tomás de Aquino


Megan Hodder é inglesa, tem 21 anos e é uma leitora voraz. Desde o Pentecostes deste ano, também é católica, recém-batizada. 

Há cerca de dois ou três anos ninguém poderia prever isto, porque Megan não recebeu absolutamente nenhuma educação cristã e lia com assiduidade e gosto autores de divulgação do “novo ateísmo”: Dawkins, Harris, Hitchens…

Mas tudo mudou quando decidiu que para poder zombar da Igreja Católica, grande símbolo da irracionalidade, devia ler diretamente Bento XVI. E aí foi onde começou uma conversão marcada pela lógica, razão e pensamento.

CRESCER DEPOIS DO 11 DE SETEMBRO

“Fui educada sem religião, e tinha 8 anos quando sucedeu o atentado das Torres Gêmeas no dia 11 de setembro de 2001. A religião era irrelevante em minha vida pessoal, e durante meus anos de estudo a religião só proporcionava um fundo de notícias sobre violência e extremismo”, assinala em seu testemunho no “The Catholic Herald”.

Megan é representante de uma geração jovem que cresceu lendo autores como Dawkins, Harris e Hitchens, que com um estilo informativo afirmam que a religião é a causa de quase todos os males do mundo, que o terrorismo islâmico é a prova e que o cristianismo é quase a mesma coisa.
Mas desde a adolescência, Megan entendeu que tinha que ler algo mais do que apenas os polemistas do novo ateísmo. Decidiu se instruir sobre “os mais distintos inimigos da razão, os católicos”, para refutá-los em sua ignorância.

UMA FÉ COMPATÍVEL COM A RAZÃO

A primeira coisa que fez foi ler o famoso discurso em Ratisbona de Bento XVI, que defendia a razão frente à fé cega. A maneira com a qual a BBC em línguas asiáticas difundiu este discurso nos países islâmicos causou grandes manifestações anticristãs, com violência e vítimas fatais.

Também leu o livro mais curto que pôde encontrar de Bento XVI: “Sobre a consciência” (tradução livre da obra).

“Esperava e desejava mostrar sua irracionalidade e preconceitos, para justificar meu ateísmo. Mas em contrapartida, um Deus que era o Logos se apresentou a mim; não um ditador sobrenatural que esmaga a razão humana; mas a fonte da bondade e verdade objetivas, que expressa a Si mesmo, para a qual se orienta nossa razão, e onde alcança sua plenitude; uma entidade que não controla nossa moral de maneira robótica, mas que é a fonte da nossa percepção moral…”.

O fato é que aquilo que Megan encontrava não era o que os autores do “novo ateísmo” diziam. “Era uma percepção da fé mais humana, sutil e, sim, crível, do que esperava. Não me conduziu a uma epifania espiritual dramática, mas me animou  a buscar mais o catolicismo, a reexaminar com um olhar mais crítico alguns problemas que tinha com o ateísmo”.

OS PROBLEMAS DA MORAL SEM DEUS

Megan entendia que uma moralidade sem Deus tem duas tendências problemáticas, ou é tão subjetiva que chega a ser absurda, ou tenta seguir uma suposta lógica estreita que leva a resultados tão desumanizantes que causa repugnância.

As teorias éticas que melhor superavam estes problemas, entendeu, eram teístas, e depois de ler Bento XVI o teísmo não parecia tão absurdo.

DAWKINS NÃO ENTENDEU TOMÁS DE AQUINO

Outro problema presente no “novo ateísmo” é a metafísica. “Logo percebi que confiar nos novos ateus para ter argumentos contra a existência de Deus foi um erro, porque Dawkins, por exemplo, trata de maneira desdenhosa Santo Tomás de Aquino em “Deus, um delírio”, Dawkins só aborda um resumo das Cinco Vias e sem entender aquilo que apresentam. Foquei-me nas ideias tomistas e aristotélicas, e vi que apresentavam uma explicação válida do mundo natural, uma explicação que os filósofos ateus não souberam atacar de maneira coerente”, escreve Megan.
Megan buscou incoerências e inconsistências na fé católica, mas teve que admitir que uma vez aceitando sua estrutura e conceitos básicos, tudo se encaixa “com uma velocidade impressionante”.

O GRANDE OBSTÁCULO: A MORAL SEXUAL

A exigente moral sexual católica começava a ter sentido quando era abordada a partir dos textos da “Teologia do Corpo” de João Paulo II. George Weigel deu a ideia fundamental em “Cartas a um jovem católico”, quando disse: “as coisas importam”. No catolicismo o sexo importa, o corpo importa, a vida e a fertilidade importam, o que se faz é importante, tem consequências e expressa algo.

“A moral sexual católica não é uma lista de proibições, como pintam por aí”, escreve Megan em seu blog. “É o reconhecimento de que existe uma harmonia entre Deus e a humanidade que está incrustada no mundo material, que se manifesta de uma forma assombrosa e aguda na complementaridade entre o homem e a mulher e seu chamado a ser uma só carne”.

Megan, que cresceu numa Inglaterra de liberalismo sexual absoluto, assinala “o fato de que os métodos contraceptivos são responsáveis por quase dois terços dos abortos do Reino Unido, e as doenças sexualmente transmissíveis alcançam níveis altos, históricos”, para indicar o fracasso do “sexo-sem-consequências”.

Sobre o feminismo, constata que a cultura pansexual converteu a mulher num mero objeto, não num ser humano com igual dignidade, e que desconhece a realidade da fertilidade feminina e seus ritmos naturais.

A “Teologia do Corpo” e a moral sexual católica oferecem assim “um modelo de relações humanas que é seguro, duradouro e comprometido, encima de bases sólidas, ordenado para a unidade e a vida. O ideal católico das relações humanas é um desafio exigente, mas um desafio rumo à excelência, para ser fiéis às nossas necessidades reais e às de nossos companheiros”.

É A VONTADE, NÃO O INTELECTO

Megan se deu conta de que os livros levavam-na à fé, mas que, apesar disso,“a fé não é um exercício intelectual, um assentir a certas proposições, mas um ato radical da vontade, que gera uma mudança total na pessoa”. Percebeu como eram os católicos que conhecia, gostou e deu o passo.

No domingo de Pentecostes de 2013, Megan foi batizada e ingressou, assim, na Igreja Católica.
Hoje assinala que “para cada ateu confesso e embasado, existe outro sem nenhuma experiência pessoal com a religião, nem interesse no debate, que simplesmente se deixa levar pela corrente cultural. Espero ser um exemplo, ainda que seja pequeno, da atuação do catolicismo, em uma era que às vezes parece ser tão oposta a ele de maneira indiscutível”.

Fonte: Reparatoris

Edith Stein - Uma questão de consciência intelectual


Às vezes, acontece de eu ter uma horinha de tempo (mas nem todo dia) e depois também a necessidade de fazer alguma coisa que não esteja ligada com a escola. A esses espaços de tempo, que não entram em consideração para o trabalho pessoal, no ano passado, empreguei para traduzir um livro do Cardeal Newman - The Idea of a University (para a Editora Theatine em Munique, de cuja fundação e direção faz parte também Gogo Hildebrand), e agora me pedem um segundo volume. Traduzir representa para mim uma pura alegria. Além do que, é muito bom entrar em contato direto com Newman, coisa que a tradução proporciona. Toda sua vida foi uma busca da verdade religiosa, conduzindo-o para a Igreja Católica com uma necessidade incontornável. Atualmente encontro-me naquele ponto em que responder às suas cartas parece-me um grande empreendimento. 

Quando li as últimas linhas, perguntei-me: como é possível que um homem com formação científica, que reivindica a objetividade rigorosa e que, sem investigação profunda, não ousaria proferir um juízo sobre a mínima questão filosófica - que este desfaça-se de problemas dos mais importantes com uma frase no estilo de um jornaleco local. Refiro-me ao "aparato dogmático pensado para a dominação das massas": por favor, não tome isso como acusação a você. Seu comportamento é o típico de um intelectual, na medida em que não teve educação eclesial, e até poucos anos eu também era assim. No entanto, em nome de nossa antiga amizade, permita-me reformular o problema geral para uma questão de consciência intelectual: (com o ensino de religião nas aulas) quanto tempo você gastou com o estudo do dogma católico, de sua fundamentação teológica? E você já se perguntou alguma vez como explicar que homens como Agostinho, Anselmo de Cantuária, Boaventura, Tomás de Aquino - deixando de lado os muitos milhares, cujos nomes são desconhecidos para os que estão distantes, mas que sem sombras de dúvida não eram ou são menos inteligentes do que nós, pessoinhas ilustradas - que esses homens, no dogma desprezado, viram o que de mais supremo pode ser acessível ao espírito humano, e a única coisa que vale a pena o sacrifício de uma vida por ele? Com que direito você pode identificar os grandes mestres e os grandes santos da Igreja como cabeças-ocas ou como espertalhões impostores?

Seguramente, só pode-se proferir tal suspeita monstruosa, como está contida naquelas palavras, depois de um exame mais acurado de todos os fatos que entram em consideração. Você não gostaria - se não por você, pelo menos por mim - uma vez que seja defrontar-se e responder a essas questões totalmente livre de conceitos prévios? Apenas responder a si mesmo - a mim você não precisa responder se não quiser.

Edith Stein, Carta a Roman Ingarden, de 19/06/24.

Famosa blogueira ateísta se torna católica - Deo Gratias!


Vi hoje, no Sentir com a Igreja, a feliz notícia de que uma famosa blogueira atéia, a Leah Libresco,  acaba de se converter ao catolicismo. Oh Deus, como coisas deste tipo me alegram! Poderão ler a notícia com mais detalhes aqui. Se quiserem, vão até o blog dela - que é em inglês - e lhe escrevam algumas palavras de incentivo. 

Que ela seja, mesmo, muito bem vinda! Que Nosso Senhor a segure firme em Suas mãos e não deixe inacabada esta obra que Ele começou. Que a Virgem Santíssima conduza os passos desta que acaba de dispor-se sob o Seu manto e sob os Seus cuidados.

Viva à Una, Santa, Romana, Católica e Apostólica Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo!

O Positivismo de Augusto Comte


Tenho notado que uma das maiores dificuldades que alguns sujeitos parecem ter com relação à aceitação da realidade de Deus e de tudo aquilo que se refere a uma dimensão superior à dos sentidos é a adesão crédula e cega ao método positivista que os estreita a visão e os faz reduzir toda a realidade ao modesto campo daquilo que pode ser percebido pelos seus cinco sentidos e submetido a experimentação. Isto ficou particularmente evidente no recente debate que ocorreu entre três católicos e três ateus, na rádio vlogs.

Pois bem. Tendo identificado qual seja a dificuldade, exponhamos o que seja o positivismo e qual a sua origem. Abaixo, transcrevo as palavras do grande Pe. Leonel Franca a respeito desta corrente de pensamento, fundada por Augusto Comte. Boa leitura.

***

O positivismo em geral

O dogma fundamental do positivismo é este: só o sensível é objeto do conhecimento, só o sensível é real. De sua natureza, o homem está condenado a ignorar tudo o que ultrapassa a ordem empírica. Qualquer investigação que pretenda elevar-se acima dos fatos, indagando-lhes a origem, o fim e as causas está de antemão condenada à irremediável esterilidade. O homem só tem um modo de conhecer: o positivo, isto é, o sensível. No estudo dos fenômenos e no descobrimento das relações invariáveis de semelhança e sucessão, que os ligam, deve cifrar-se toda a nossa atividade intelectual. A metafísica é impossível. Possível é só a ciência positiva.

Lei sociológica dos três estados

A lei dos três estados, "a generalização mais fundamental das doutrinas de Comte, a espinha dorsal de sua filosofia"1 resume, na opinião do fundador do positivismo, as fases porque passou a humanidade na sua evolução intelectual. Segundo A. Comte estas fases ou estados reduzem-se a três: teológico, metafísico e positivo. O estado teológico ou fictício precede todos os outros. A inteligência explica então os fenômenos da natureza atribuindo-os à intervenção de divindades e seres misteriosos e sobrenaturais. O fetichismo, o politeísmo, o monoteísmo são os seus três graus em ordem ascendente. O estado metafísico ou abstrato é caracterizado pela substituição de entidades abstratas às divindades primitivas. As formas substanciais, as faculdades da alma, as afinidades químicas, a força vital, as qualidades ocultas, explicam então todos os fatos. No terceiro estado, o positivo, reconhece finalmente o homem a futilidade de todas estas abstrações e substitui a investigação das causas pela observação dos fenômenos e de suas leis, o estudo do absoluto pelo do relativo. O primeiro estado é provisório, o segundo transitório, o terceiro definitivo.

O estado teológico dominou na antiguidade; o metafísico na idade média; o positivo nos tempos modernos. Augusto Comte, com sua lei sociológica, consagrou-o definitivamente em 1822.

A lei dos três estados preside não só à evolução da humanidade em geral senão ainda à formação de cada ciência e ao desenvolvimento individual de cada homem.

Clarificação e hierarquia das ciências

Para Augusto Comte, a filosofia reduz-se à sistematização geral dos conhecimentos positivos. Daí a importância por ele ligada à classificação das ciências. Segundo o critério da generalidade decrescente e complexidade crescente dos fenômenos estudados, enumera seis ciências fundamentais dispostas do seguinte modo: matemática, astronomia, física, química, biologia, sociologia. Esta série, sobre indicar a subordinação e a dependência dos diferentes ramos do conhecimento científico, encerra a vantagem de precisar a ordem de sua formação histórica e transição para o estado positivo. A sociologia é a única ciência que não entrou ainda nesta fase definitiva. Comte tomou sobre si a tarefa de incorporá-la às outras ciências positivas. Com este fito, partindo do postulado gratuito que os fenômenos sociais se acham subordinados a leis naturais como os fenômenos de ordem físico-química, divide a sociologia ou física social em estática e dinâmica. A estática tem por objeto o estudo do equilíbrio social e das condições que asseguram a permanência da sociedade. A dinâmica investiga, com o método positivo, as leis do progresso. Quanto à psicologia, Comte redu-la a um capítulo da biologia: a fisiologia do cérebro. Como ciência particular não tem razão de existir. O método de observação interna e introspectivo, imprescindível no estudo dos fenômenos conscientes, parece-lhe simplesmente absurdo.

Misticismo

Na segunda fase da sua vida, relegando em plano subalterno as doutrinas especulativas, entregou-se Comte com toda a alma à fundação de uma nova religião - a religião positiva, sem Deus. A humanidade abstrata sob o título de grande ser - Grand Etre - é o objetivo do novo culto. Ao lado do "Grande Ser" são também objeto de veneração o Grande Meio (o espaço) e o Grande Fetiche (a terra). Juntos constituem o "triunvirato religioso" ou a "trindade positiva". Nem faltam à nova religião calendário próprio, sacerdotes, pontífices, altares e sacramentos. Tudo, caricatura grotesca, paródia imoral da majestade severamente divina do culto e da liturgia católica.

Juízo sobre Augusto Comte

O positivismo como qualquer forma de empirismo é a destruição não só da filosofia como também de toda a ciência. Sem princípios absolutos necessários e universais não há dedução nem indução possíveis, não há conhecimento certo de natureza alguma. A contradição positivista, pois, neste ponto fundamental, é flagrante: se o princípio de causalidade não tem valor, não há ciência possível; se é verdadeiro, não há limitá-lo arbitrariamente; ele nos leva fatalmente ao suprassensível, à alma, a Deus.

Todas as afirmações positivistas em contrário repousam sobre a ignorância da distinção tão rudimentar em psicologia entre a imagem e a ideia, entre a sensibilidade e a inteligência.

As invectivas contra a metafísica são de uma injustiça flagrante. Comte desconhece inteiramente a verdadeira noção de metafísica, da qual fez um vasto receptáculo de idéias condenadas, para onde desdenhosamente atirou quanto não entrava no plano sistemático das suas teorias preconcebidas. "Aug. Comte, combatendo a metafísica, criou um fantasma para ter em seguida o prazer de trucidá-lo"2

A lei dos três estados, fundamento do edifício positivista, é destituída de todo o valor histórico. Para não citarmos senão um ou outro fato: a evolução da filosofia grega, do positivismo de Demócrito à teurgia dos neoplatônicos, passando pela metafísica ática, segue uma marcha inteiramente oposta à exigida pela lei. O idealismo alemão do século XIX, precedido pelo empirismo inglês e seguido pelo positivismo francês é outro fato rebelde ao que devera ser o princípio regulador do desenvolvimento histórico do pensamento humano. A teologia, a verdadeira teologia de que Comte mostra não conhecer as noções mais rudimentares, conviveu na idade média em boa harmonia com a mais profunda metafísica e na idade moderna perdura cheia de seiva e de vida combatendo vitoriosamente todos os sistemas positivistas que se vão sucedendo e esfacelando ao seu lado.

Aplicada aos indivíduos não é mais verdadeira a imaginária lei. Porventura não aliou Aristóteles, na mais robusta síntese, o gênio do metafísico à exatidão do observador? Alberto Magno, Newton, Leibniz, Descartes, Pascal, Ampère, Cauchy, não foram, a uma, crentes fervorosos, metafísicos conceituados e cientistas exímios? Kant, Helmholtz e Wundt, contrariamente ao que quisera Comte, não começaram pela ciência para acabarem pela metafísica? Mas, o mais formal desmentido à lei dos estados, no-lo dá a transformação intelectual por que passou o próprio fundador do positivismo. Comte, que começou tão fervoroso no estado "positivo", daí evolveu mais tarde para terminar no mais grosseiro fetichismo, atribuindo sentimento e vontade aos corpos brutos e prestando culto de veneração ao espaço e à terra, condecorados com os pomposos nomes de Grande Meio e Grande Fetiche   - Ironia do destino? Não; lições da Providência.

O positivismo, finalmente, sob as vestes do agnosticismo e protestando aparentemente a mais completa abstenção de juízo sobre a essência das coisas, resolve-se na realidade, num mal disfarçado materialismo. Nas questões acerca da origem, da natureza e dos destinos do homem, é impossível a neutralidade. Não a manteve o próprio Comte, para o qual a alma não passa do conjunto das funções do cérebro e a moral de uma combinação de instintos altruístas e egoístas, resultantes da nossa constituição psicológica. Alguns dos seus discípulos menos reservados chegaram francamente ao materialismo e ao ateísmo, corolários fatais de uma filosofia sem princípios, de uma psicologia sem alma, de uma religião sem Deus.

A falência do positivismo, como sistema de filosofia, era, portanto, inevitável. Hoje, é um fato.

Que resta, pois, da obra de Comte? Em alguns sábios a tendência positivista, que se traduz geralmente, por um menosprezo, às vezes por declarada aversão a qualquer especulação metempírica: e este é um mal. Em outros, na maioria, uma fidelidade mais escrupulosa ao método positivo, um estudo mais exato dos fatos, um rigor maior na observação, um cuidado de fundar mais solidamente na experiência as teorias científicas: e este é um bem, cujo merecimento é parcialmente de Comte. Este, e só este.

1- Stuart Mill. Auguste Comte et le positivisme.
2- Farias Brito, A base física do espírito, p. 35.

Pe Leonel Franca. Noções de História da Filosofia. 5ª Ed.

O Ateísmo é, no mais das vezes, uma idolatria


Supondo que Deus exista, Ele é (por definição) o Valor supremo. Ora, nenhum ser humano pode prescindir de ter um Norte, de estabelecer uma Preferência acima de todas as outras, em função da qual organiza todas as decisões. Para que o exercício da liberdade não seja totalmente privado de significado não bastam os objectivos de segunda ordem, que remetem para uma opção mais fundamental, é preciso que essa finalidade essencial, que orienta toda a vida, tenha um valor absoluto. Por outras palavras, se alguém estiver convencido de que a sua vida não tem um farol validamente absoluto, pode tirar a conclusão em termos existenciais: «todas as minhas decisões são arbitrárias, sou irrelevante, nada tem sentido; corro para nada». Em contrapartida, quem reconhecer um Valor absoluto, afirma (por definição) que Deus existe.

Não se trata agora de saber se aquilo a que se atribui um valor absoluto é digno de tão grande apreço, ou é um falso absoluto. O ponto é que não é possível rejeitar a própria noção de absoluto sem comprometer radicalmente o homem (4). O lugar máximo dos valores humanos pode ser Deus ou qualquer «deus», mas não pode estar vazio, porque é esse cume que preside e dá significado a todas as escolhas.

Quando o objectivo máximo de uma pessoa é um deus, com minúscula, não temos o ateísmo mas a idolatria. Portanto, a alternativa a Deus não é o ateísmo, a alternativa situa-se entre o verdadeiro Deus e um falso deus ― entre Deus e a idolatria: por isso a Bíblia ignora o ateísmo e critica longamente a idolatria.

O ateísmo propriamente dito, que acarreta a confissão do vazio da própria liberdade, pode chegar a dar-se? Alguém pode, com sinceridade, declarar-se tão desorientado que não reconheça nenhum valor absoluto? Haverá algum marxista tão convicto que declare sinceramente que nada distingue a justiça da injustiça, a não ser um fatalismo ideológico que manipula a consciência das pessoas (5)? É que, ainda que a convicção de reconhecer a verdade fosse o produto irracional das circunstâncias externas, tal convicção não deixaria de se dar. Que sentido tem, então, afirmar o ateísmo e, ao mesmo tempo, estar intimamente convencido de que há um valor absoluto?

Marx afirma que «a crítica da religião (...) faz com que o homem se torne para o próprio homem o Sol real» (6). Admitamos que sim, que o Ser Supremo é o homem (pelo menos para o próprio homem, como diz Marx ironicamente). Mas nesse caso haveria Deus ― pelo menos na opinião do próprio homem. O drama é que, depois de afirmar que o homem é o ser supremo, negar que Ele existe é cair no grau mínimo de consideração por si próprio. O problema do ateu é ter um deus que não passa de uma completa ilusão: tão completa que, por exemplo, segundo Marx, nem o sujeito que se auto-ilude é real! Em primeiro lugar, não é o indivíduo real que pensa que constitui o espírito absoluto (7), aliás o indivíduo isolado, que «é apenas um átomo social», não é nada, a tal ponto que a «vida individual e a vida social não são distintas» (8). Em segundo lugar a humanidade, no seu conjunto, não passa de interacções sociais (9), algo fortuito e sem personalidade, porque «a essência humana não possui nenhuma realidade verdadeira» (10). O homem que se julga o ser supremo está supinamente iludido, defrauda-se a si próprio numa fanfarronada desesperada: «Eu não sou nada e teria de ser tudo» (11).

Julgando arrancar ao homem a sua máxima ilusão, o ateísmo oferece-lhe a máxima desilusão. Em nome da verdade? Nem isso, porque justamente se trata de negar que alguma verdade real possa dar sentido à vida. A proclamação do ateísmo entende-se a si própria como um clamor inútil de infelicidade ―de uma infelicidade extrema e inultrapassável―, grito de quem toma consciência de que tudo é horrível e que não há opiáceo que chegue para diluir o fel da tristeza. É neste contexto que Marx explica a religião como tentativa de fuga: «a religião é um protesto contra a infelicidade. (...) A religião é o suspiro da criatura oprimida, o coração de um mundo sem coração, pois é a alma de condições desalmadas. É o ópio do povo» (12).

A mágoa do ateísmo é demasiado séria para se curar apenas com argumentos de lógica, mas não deixa de ser um mistério que a angústia de pensar que o Absoluto não existe se possa apresentar como tão absoluta. Porque o ateu não conseguiu afinal eliminar de si a convicção do absoluto, apenas trocou o verdadeiro Deus por um absoluto falso e terrivelmente misterioso, que é a completa antinomia do Absoluto Bem. 

Prof. José Maria C. S. André

Recomendo a leitura do artigo completo: Logos

Neo-relativismo, neoceticismo e suas consequências


Olavo de Carvalho

À humanidade, como se sabe, nunca faltam amigos e benfeitores. Eles brotam como cogumelos, cada um trazendo um remédio, um alívio, um consolo. É tanta bondade que até faz mal. A sagra mais recente é a dos neo-relativistas e neocéticos, que professam libertar a espécie humana do seu mais temível inimigo: a verdade, ou mais propriamente a ambição de conhecê-la. A esta ambição eles denominam "dogmatismo". No dogmatismo, asseguram, está a raiz de toda violência, de toda tirania, de toda infelicidade. Erradique-se do ser humano essa pretensão insensata, e todos viverão em paz num mundo de dúvidas alegremente indecidíveis.

As fontes que os inspiram são variadas. Alguns beberam em E. M. Cioran. Todo o mal do mundo, diz o autor de Précis de décomposition (Paris, 1949), vem do desejo de provar que uma idéia é melhor que outra. Uma vez admitido que todas as idéias se equivalem, ninguém mais fará ao seu próximo a violência de tentar persuadi-lo. "Que é a Queda, - pergunta ele - senão a busca de uma verdade e a certeza de tê-la encontrado?" Nessa "mistura indecente de banalidade e apocalipse" que é a História, "abundam as certezas: suprimi-as, suprimi sobretudo suas consequências e tereis reconstituído o paraíso."

Outros inscrevem-se na linhagem de Charles S. Peirce, fundador do pragmatismo. É o caso de Richard Rorty, segundo o qual, inexistindo para além das várias correntes filosóficas um tribunal capaz de arbitrar racionalmente suas divergências, todas as questões são indecidíveis. Logo, deve-se transferir o debate do campo da teoria para o da ação política, onde cada partido, desistindo de provar que tem razão, tentará honestamente induzir o outro, por meios irracionais e pela manipulação subliminar, a colaborar na sua própria sem-razão.

A conclusão similar chegamos ao ler Veneno Pirrônico. Ensaios sobre o Ceticismo, de Renato Lessa (Rio, Livraria Francisco Alvez, 1997). Expondo de maneira criteriosa e fidedigna o conjunto de esquemas argumentativos que os céticos, de Pirro a Bayle, criaram para provar a impossibilidade de provar o que quer que seja, o autor conclui que o velho ceticismo ainda tem um papel a cumprir no esforço mental mais característico dos tempos que correm: a desconstrução filosófica. A desconstrução, ao contrário da dialética aristotélica ou da crítica kantiana, não é mera operação preliminar de limpeza para a busca de uma verdade mais sólida: é finalidade em si, não tem outro ideal senão solapar toda pretensão à verdade, até o dia em que, cansados de interrogar, os homens se contentem em repousar na indiferença.

Não é o caso de refutar aqui os argumentos céticos. São tão fracos que raiam a comicidade. O mais característico é aquele que nega o conhecimento pelos sentidos, alegando que um mesmo objeto aparece diferente a várias espécies animais (como se para afirmar isto não fosse preciso fundar-nos no conhecimento sensorial que temos dos animais). Há também aquele que nega a indução, alegando que na maioria das vezes ela falha (o que é precisamente uma indução).

O interessante é observar que relativistas e neocéticos crêem prestar um grande serviço à paz e à democracia mediante a supressão de toda arbitragem racional.

Pois a impossibilidade do julgamento racional não suprime a existência de opiniões, apenas faz com que cada partido se torne, a seus próprios olhos, o único juiz. Juiz de si mesmo e, a fortiori, juiz do adversário. para cada um, o outro não é objetivamente errado nem certo, falso nem veraz: é apenas o inimigo, que não trata de refutar em teoria, mas de vencer na prática.

É precisamente essa situação que define, segundo Carl Schmitt, teorizador do Estado nazista, a essência da política. Uma atividade é política, diz Schmitt, quando o que está em jogo nela não é o certo ou o errado, o verdadeiro ou o falso, o bom ou o mau, o belo ou o feio, o útil ou o nocivo: é simplesmente, "o nosso lado" e "o outro lado": amigo versus inimigo. Quando esta oposição não tem um conteúdo que permita resolvê-la segundo algum desses outros pares, isto é, quando ela está acima de qualquer possibilidade de arbitragem racional, é aí que ela é mais puramente política. O político não precisa de certezas teóricas: precisa apenas de aliados.

A politização de todos os conflitos foi prevista e desejada pela primeira vez, que eu saiba, por Napoleão Bonaparte. Ela vem junto com a intromissão do Estado em todos os assuntos. No século XIX, a politização foi obstada pelo sucesso do liberal-capitalismo - que fazia da economia um recinto à parte, submetido apenas ao cálculo racional do lucro e do prejuízo. No século XX, o advento dos Estados totalitários impôs novamente a hegemonia do critério amigo-inimigo, deixando por saldo mais de cem milhões de mortos e a politização geral da vida. Neste fim de século, a queda do comunismo recoloca o problema: tendo politizado a cultura e a religião, os costumes e a educação, deixaremos que pelo menos a economia permaneça à margem da política, como uma ilha de racionalidade no meio da violência geral de amigos contra inimigos?

Até os adeptos mais radicais do totalitarismo hesitam, hoje, em dar esse último passo. Os neocéticos e relativistas, solapando a fé na possibilidade de toda arbitragem racional, ajudam essas criaturas a livrar-se de seu último resíduo de escrúpulos. Professando servir à democracia, são apóstolos inconscientes do totalitarismo.

Olavo de Carvalho, Jornal da Tarde, São Paulo, 16 de outubro de 1997. Transcrito do livro "O Imbecil Coletivo", do mesmo autor do artigo, datado do ano de 1998.

Pe. Libânio, o "Ateólogo" e seus Caminhos da Existência


Há poucos dias atrás, nós líamos, com desgosto, um texto de autoria do "ateólogo da libertação da carochinha" Pe. J. B. Libâneo que, disponibilizado pelo folheto litúrgico da Paulus, nos brindava cafajestemente com os clichês de um marxismo pseudo-beatificado. Na verdade, sendo patente a contradição de um materialismo espiritual, este padre ia tecendo, no seu artigo ordinário, não sutis elogios aos tais benfeitores ateus. E toda essa brincadeira de mau gosto, essa troça dos infernos, trazia a bênção de aprovação de uma entidade que merecia ganhar o prêmio nobel da tosquice, e cuja existência pode ser concebida como um cavalo de tróia a reunir inimigos disfarçados no interior da Santa Igreja, a CNBB.

Neste último domingo, porém, vimos que o Pe. Libâneo, inspirado por não sei que forças misteriosas, conseguiu o improvável fato de superar-se. O novo texto de sua autoria conclui aquilo que o de antes tinha sugerido. O ateísmo, nesta última ocasião, é defendido não apenas como uma via alternativa legítima, mas, ainda, como o único caminho adequado à nossa contemporaneidade. Ele passa a constituir a única escolha sincera frente à alienação israelita de se ater sempre a um passado onde se crê que Deus lhe tenha falado.

Também "desaloja a esperança", suposta fonte de infelicidade, talvez característica de cristãos simplistas que, ainda supostamente, se furtam da densidade do presente. Tudo isto é feito pela via ateísta em prol da valorização do aqui e agora, do Carpe Diem. Além de toda a falácia deste discurso, como bem o mostrou o Jorge Ferraz, mostrando como não há essa sabedoria popular totalmente alheia a qualquer religiosidade nem tampouco esta fuga do presente no cristianismo, cumpriria perguntarmos ao referido padre se ele é ateu, ou se é apenas um adepto prático desta fantasiosa teoria que ele expõe com tanta simpatia. Libânio faz papel vergonhoso de um jeito ou de outro.

Mas, passemos a limpo, enfim, algumas expressões que ele derrama na sua apologia da inutilidade prática de Deus.


"Importa amar somente o que existe hoje, sem olhar com saudosismo por um passado que já não existe". 

Quando Libânio expõe e elogia tal atitude, o que ele faz, na verdade, é pregar a infidelidade a qualquer valor, e reduzir o real ao estreito limite da nossa experiência imediata. Para ele, talvez sejam muito tolos aqueles exilados que, diante da proposta de cantarem, em outras terras, as músicas com que se alegravam em Sião, respondiam: "Como havemos de cantar os cantares do Senhor numa terra estrangeira? Se de ti, Jerusalém, algum dia eu me esquecer, que resseque a minha mão. Que se cole a minha língua e se prenda ao céu da boca, se de ti não me lembrar! Se não for Jerusalém minha grande alegria!" (Sl 136)

Para este padre, talvez fosse legítimo esquecer-se de Deus e traí-Lo com os atrativos imediatos. Mas, quem não perceberá que isto é precisamente o extremo oposto do Evangelho? Libânio discursa contra a fidelidade, que é sempre amor constante a algo e que, no contexto cristão, remete a Outro que está para além do tempo. Pobre Libânio... Vejamos se isto não se insere perfeitamente na "semiótica dos afetos" de Nietzsche. Segundo esta teoria, os diferentes sujeitos esconderiam seus interesses íntimos sob a capa de uma moral específica. Pode ser o caso, mas não ouso afirmá-lo.

O que será que este jesuíta míope - para ser generoso - diria ao ouvir a repreensão de Nosso Senhor: ""Ai de vós que rides", esquecendo-se de quem sois e de onde sois, traindo a vossa Pátria"? Por certo, este padre reclamaria ao escutar algo desse tipo: "Agora estais tristes (...) Mas, depois, o vosso coração se alegrará e ninguém vos tirará a vossa alegria". Dirá Libâneo que essa esperança é alienante? Talvez ele ainda rasgaria as vestes ao escutar o Cristo dizer o que segue: "o meu Reino não é deste mundo". Mas, ainda que o Libâneo esperneasse e se revoltasse espasmodicamente na sua tosca afetação e no seu tolo romantismo, ele, por certo, terminaria por escutar a grave reprimenda de Jesus: "Teus pensamentos não vêm de Deus..." e, se Jesus estivesse bem humorado, completaria: "aliás, que porcaria é essa, Libânio?".


"Claro que nem tudo no presente merece ser vivido. Recorremos então à experiência e à ciência, que nos oferecem luzes para entender o que está a acontecer, e a discernirmos o que fazer".

Já dizia alguém que, quando nos falta Deus como absoluto, nós passamos a incensar um falso absoluto. Neste caso, recorreu-se à experiência e à ciência. Mas, quem recorre à experiência, recorre, por força, ao passado, a uma espécie de tradição. Portanto, parece que não é qualquer passado que devemos recusar, mas somente o passado religioso. Objetar-se-á que, no caso da experiência, a história surge como um instrumental para a leitura e interpretação do presente. No entanto, para Israel, a lembrança da Aliança servia-lhes também para ressignificar o presente, isto é, lhe dar um sentido específico que, por sua vez, fundamentava neles a esperança da futura libertação. Porém, a diferença mais significativa para Libânio parece estar no fato de que, enquanto os ateus se atêm absolutamente ao processo histórico, o cristão volta ao seu olhar para Aquele que está além da história e que de lá pode intervir no nosso meio. Ser cristão é ter uma abertura ao transcendente. Eis o que ele acusa de alienação. Ao contrário, ele parece defender que deveríamos esperar toda e qualquer redenção como proveniente de nós mesmos, do próprio processo histórico, numa fátua auto-suficiência que tem sido, durante toda a história, o grande motivo do mal no mundo. Pobre Libânio...


"Desalojemos a esperança, como fonte de infelicidade. Ela adia para amanhã um prazer a ser vivido hoje. Posterga o bem porque não pode realizá-lo ou desconhece a história a vir. Pura ilusão. Então nos resta somente o presente conhecido, no qual escolhemos o que nos traz felicidade."

Se não temos esperança, esquecendo, para isto, o futuro, desistimos do céu e de Deus. Relativizamos a Cruz do Senhor e O negamos de modo muito mais radical do que ousou fazer o temeroso Pedro, naquela sombria noite. Na verdade, a esperança é a resposta coerente à fé. Esta nos diz que estamos exilados e, por isso, elevamos os nossos olhares à espera dAquele que virá. Tudo isto lança luz sobre o agora e lhe dá verdadeiro sentido, assim como é pela luz do sol que, embora exterior à Terra, distinguimos visivelmente os objetos. É, pois, pela fé e pela esperança que fundamentamos a nossa fidelidade. Um marido que abandona a esperança de encontrar sua mulher à noite, após sair do trabalho, e se apega, ao contrário, às possibilidades de adquirir prazer no seu absoluto presente, não será fiel. Libânio está recomendando a traição e o egoísmo cru. Em última instância, está a pedir que o homem se dê a todo e qualquer prazer que lhe apareça à frente.

Chamando o objeto da esperança cristã de ilusão, este padre se comporta como um pobre materialista ateu. Ao dizer que é no presente que escolhemos o que nos traz felicidade, ele recomenda-nos ceder a todos tipos de pecados e vícios, num "livre exame" do bem. Na verdade, é para o egoísta que só importa o prazer imediato; ele perde de vista o contexto, visando somente o que pode, no momento presente, lhe proporcionar gozo, não importando se isto fere algum valor. O egoísta, então, desconhece a idéia do sacrifício e da mortificação. Ele não sabe esperar e, portanto, é marionete de seus desejos, mesmo os mais baixos. A história humana o demonstra à exaustão.

Além de todo este problema, dizer que somos nós que escolhemos o que nos traz felicidade, nos faz excluir, nesta afirmação teletubiana, a existência objetiva do bem, da verdade e da beleza; sumimos com a essência humana, com a sua vocação dada por Deus e desembocamos num subjetivismo e utilitarismo mesquinhos. Pobre Libânio...


"A liberdade humana percebe, dentro da história e nunca fora dela, um excesso que nos impele para a frente."

Destaco a expressão "dentro da história e nunca fora dela". Há aí como uma expulsão de toda e qualquer transcendência; um grito revoltado de "nós nos bastamos!". Juro que deu uma vontade de dizer, agora: "Vade retro" por vislumbrar, por trás da sentença, uma sombra suspeita.

Ainda que ele diga que há valores que nós não inventamos, fazer estes valores descenderem daqui mesmo é reduzi-los, forçosamente, a alguma coisa cultural, consensual, despojando-os do seu fundamento ontológico que, naturalmente, se encontra para além do tempo.


"Não faz falta nenhuma transcendência além da história".

Libânio, por certo, não leu Sartre. Ali está exposto, de um modo visceral, o absurdo de uma existência que, ausentada do seu Criador, perde a sua razão de ser, carecendo de qualquer finalidade. Fechar-se na história, recusando toda a parte do real que está para além dela, é asfixiar-se espiritualmente, é tornar-se míope, é renunciar à altíssima dignidade da alma humana que descende do alto e cuja natureza é, no dizer de Dom Estêvão Bettencourt, essencialmente um clamor a Deus.


"A civilização ocidental, ao longo dos séculos, está a preparar tal caminho. Cabe-nos trilhá-lo".

Só posso dizer a este sacerdote Jesuíta: "É uma pena.. mas vá só."

***

Alguém poderá dizer que nesta série "Caminhos da Existência", o Pe. Libânio apenas pretende expor diversos modos de se viver, alternativos àquele propriamente cristão. Ainda que fosse o caso, o folheto litúrgico da Santa Missa não é o lugar. O modo como o referido sacerdote elogiou este caminho - que é evidentemente falso -, sem criticá-lo ou fazer-lhe ressalvas - o que seria o mínimo - também denota simpatia com a causa. Além disto, como expoente da Teologia da Libertação, a suspeita de que o padre sinceramente acredite em tudo quanto elogiou e recomendou - notemos o "cabe-nos trilhá-lo" - se torna muito fundamentada.

Por fim, não posso deixar de notar o que vai no rodapé do folheto: "Texto litúrgico (rsrs) publicado com a autorização da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB)". Como não sou o Olavo de Carvalho, expresso com moderação a minha indignação, e termino por aqui. Que Deus nos acuda.

Fábio.

A cultura moderna e a "insuportável presença" de Jesus


"Não suportaram, outrora, judeus e pagãos, o convívio com Deus vivo e verdadeiro. Deram-lhe morte, e morte de cruz. Da mesma "insuportável presença" quer também livrar-se a moderna cultura. A seu reino é anteposta a promessa de um paraíso terrestre gerado pela revolução, pelo desenvolvimentismo e pela tecnocracia. Não disse estar Ele em sua Igreja, presente nela e até a consumação dos séculos? Pretendem pois aniquilá-la, querendo-a infiel e idólatra: no mundo e do mundo; e, como supremo, final, satânico objetivo atingir pelo "cristianismo secularizado" o que chamam a "morte de Deus"".

Hélio Drago Romano, A Gnose e a "Morte de Deus"

Video: Os ateus são mais inteligentes?

Vi esse video no orkut, no perfil do Everth e gostei bastante da exposição desse rapaz, que eu não conhecia. Agradeço ao Everth e dispobilizo, com muito gosto, aos leitores deste humilde espaço.



Pra quem se interessar em saber mais sobre o autor do video, ele é o dono desse blog: Conde Loppeux de la Villanueva

A ideologia e a mentira nas prateleiras de Religião

Por falar em união homoafetiva...

Ontem, passeando pelas prateleiras da Universidade, me deparei com dois clássicos:

"Deus, um delírio" do Richard Dawkins em que fiz questão de dar uma olhada: li as orelhas, algo da introdução e fui logo às supostas refutações às provas de Sto Tomás de Aquino da existência de Deus. rsrs... O que notei,  na rápida olhadela que dei no livro, foram três coisas: 

1- o total desrespeito com que Dawkins trata Deus e a religião, pois, segundo um outro lá que lhe faz a abertura do "clássico", a linguagem sarcástica que ele usa é proposital, já que defende não ser o discurso religioso digno de qualquer deferência.

2- O caráter totalmente resumido das vias de Sto Tomás caindo, mesmo, num vergonhoso simplismo. Há supostas refutações que não dão, sequer, dez linhas! E penso estar ainda sendo generoso...

3- A absoluta credulidade desta "celebridade do ateísmo" com relação à teoria darwinista. Para Dawkins, mesmo que ele seja ateu, não lhe faltou um absoluto na vida; o problema é que este se chama Charles Darwin. Não sei se vale muita coisa aqui, mas lembremos que Darwin não era ateu e que considerava o argumento de que a complexidade e ordem do cosmos seja fruto do acaso tão pueril que ele imediatamente se convertia na maior prova da existência de um Criador Pessoal.

Por fim, o mais engraçado é que este livro, aparentemente imponente - só aparentemente - estava estrategicamente posto na área de Religião. rsrs..

E foi também aí que eu me deparei com outro livro singular: "Cadernos do Cárcere" do Antonio Gramsci. Para quem não sabe, Gramsci é um sujeito que provoca uma mudança metodológica na implantação da cultura revolucionária aos moldes marxistas. Dizia ele que uma revolução violenta traz, em geral, uma contra-revolução também violenta. Deste modo, seria preciso uma nova estratégia. É daí que surge o Marxismo Cultural que é uma tentativa de monopolizar discretamente todos os meios formadores de opinião: a música, a arte, as academias, as escolas, a mídia, etc. Isto para que pudessem livremente difundir e ensinar, sem reprimendas, os princípios revolucionários sem qualquer necessidade de embates violentos. Daí resultaria um novo senso comum do qual toda a sociedade iria, aos poucos, se impregnando e que terminaria, por fim, provocando a sua conversão aos ideais marxistas sem qualquer luta direta. Para lá chegar, porém, seria preciso derrubar algumas instituições muito particulares, o que se faria seja pela chantagem, seja pela calúnia, pela difusão de teorias pseudo-científicas, por sofismas de reivindicações de direito, ou o que fosse. Gramsci visava, sobretudo, a Igreja Católica e a família. E podemos dizer que, de fato, ele conseguiu sucesso na sua empreitada.

Não pensemos que Gramsci seja autor desconhecido e periférico. Ao contrário! Se quisermos entender melhor o que acontece ao nosso Brasil, convertido em campo de aplicação desta funesta ideologia, estudemos algo sobre o assunto.

E tudo isto na área de religião.. rsrs
Tinha ainda um terceiro, mas que acho que puseram lá por engano mesmo: "Vida de Jesus" de Ludwig Feuerbach... rsrs.. oh God!

Sejamos Novos Cruzados


A cada dia, mais me convenço de que somos chamados a ser novos cruzados. O ideal das cruzadas – e falo do ideal puro – deveria nos inspirar e servir-nos de norte para a ação, nos dias de hoje, com relação aos ambientes que freqüentamos ou às ideologias que encontramos no meio do caminho.

Ainda ontem, numa aula, em nome da tolerância e do respeito à alteridade, eu fui chamado, diversas vezes, de fanático fundamentalista. Não diretamente, é claro. Mas o discurso que então se dava se aplicava a qualquer um que leve a religião a sério e que faça do dogma um ponto arquimédico.

Voltemos ao ideal das cruzadas. Aí, os homens, movidos de um profundo amor a algo exterior a si mesmos, arriscavam até a própria vida para defendê-lo. Muitos efetivamente morriam. Nos tempos atuais, como dizia Sua Santidade, o tipo de martírio que enfrentaremos é outro: são as risadas, são as troças, é o isolamento, é o decréscimo, é o desrespeito, é o olhar atravessado. E, não obstante tudo isto seja desconfortável, devem servir-nos como coroas, porque é aí que nós, à semelhança dos cruzados medievais e no cumprimento do preceito divino, morremos, imolamos o nosso orgulho e a nossa soberba e nos achamos dignos de sofrer em nome d’Ele. E, meus caros, se a semente não morre, não produz fruto. Esse ‘cadinho da provação’ é o que forja o caráter e arma os santos.

Ora, se estamos dispostos a morrer para a nossa própria vaidade, qual será a dificuldade de nos expormos na defesa do bem? Sim, porque a malícia não vence a verdade. Ao contrário, os argumentos dos que atacam a verdade e a moral são tão pueris, tão imbecis, que duas coisas não deixam de espantar: a má ingenuidade ou má fé dos que lhe dão crédito e o fato de tais coisas estarem a ser difundidas na academia que, supostamente, deveria ser o canal de veiculação da sabedoria. No entanto, a maioria das universidades têm se tornado apenas um lugar privilegiado para a promoção da ideologia.

Outra coisa necessária, ainda tomando o exemplo dos cruzados, é que procuremos estar armados para este combate, e a nossa arma é a verdade. Não apenas o conhecimento do dogma e da doutrina, que eles absolutamente rechaçam, mas o conhecimento de verdades naturais, tornadas mais claras pela adesão à Fé, para que, como pede S. Paulo, desmascaremos os discursos falaciosos. Isso tudo pode parecer muito pretensioso, mas é o que se nos pede. Sem um estudo sério, seremos como marionetes.

Por fim, não basta estudar muito e aprender a se expor. É preciso que, na base de tudo isto, exista uma verdadeira vida de oração e a participação assídua nos sacramentos. Santidade sem vida sacramental não existe.

Outra coisa que devemos cuidar: não precisamos, por causa disso, virar inimigos de todo mundo. Qualquer lugar onde o que se tenha seja somente guerra se torna insuportável. Depois, se cultivamos o propósito de esclarecer alguém – por mais pretensioso que isto pareça – devemos procurar discernir o modo como devemos agir nas diversas situações. Há casos, mesmo, em que nem vale a pena discutir. Nestes, façamos como diz Jesus: “não jogueis vossas pérolas aos porcos”.

Aí, vem um professor e diz: “mas que pretensão essa, a dos cristãos, de querer ter a Verdade com “V” maiúsculo! Essa Verdade não existe...” rs.. E aí, dizemos nós: que pretensão a deste professor de falar do que não sabe e de declarar categoricamente que a única verdade é a inexistência da verdade ou o seu absoluto relativismo. Com base em que ele diz isso? Com base no que ele ingenuamente e miopemente supõe. Quem é mais pretensioso, afinal? O cristão que confia absolutamente no Cristo, ou o professorzinho que confia absolutamente na própria opinião, sem que lhe exija qualquer fundamento?

A não existência da verdade é o novo dogma da modernidade, é a moda das academias. E, coitados, nem atentam para a contradição desta assertiva. De fato, apareça aí um cristão pra dar um pouco de luz, afinal, como diz o apóstolo, Deus nos constituiu luzeiros.

E quem achar ruim, que se converta.

Ad Iesum per Mariam

Fábio

Fé, Razão e o Problema da Incredulidade


Thomas Merton

Um dos paradoxos da nossa idade que timbra em não se distinguir como uma idade de Fé, é a cega submissão com que milhares de homens, inconformados com a crença em Deus, se entregam a cada charlatão aparecido na imprensa, no cinema ou no microfone. Não podem aceitar a palavra de Deus, mas engolem tudo o que lêem no jornal. Acham absurda a pretensão da Igreja, assistida pelo Espírito Santo, de pronunciar-se infalivelmente sobre o que é e o que não é revelado por Deus em matéria de doutrina e de moral, mas acreditam no mais fantástico cartaz de propaganda política, mesmo ao risco da desonestidade de propagandistas.

É-lhes impossível acreditar no Papa quando, com as extremas cautelas e reservas de Roma, faz um dos seus raros pronunciamentos ex cathedra dentro desse estrito campo da "fé e da moral", em que se podia admitir no Vigário de Cristo algum conhecimento. Se, porém, uma estrela de cinema, dessas que amargaram três anos no oitavo grau e acabaram renunciando à esperança de uma alta escola, faz alguma declaração dogmática sobre qualquer assunto, desde casamento até astrofísica, eles a olharão como uma "autoridade".

A ironia da situação é que a maioria dos homens não tem nenhum direito intelectual à sua descrença teologal. Estritamente falando, ninguém pode sentir-se com direitos à incredulidade, pois a fé é eminentemente razoável. A inteligência não pode querer ser ininteligente. Mas há poucos que chegaram com toda a sinceridade ao erro, professorando que a fé é inaceitável. Sem respeitar-lhes esse erro, devemos admitir que trabalharam duro para aí chegar. Sua ignorância é invencível. Estão de "boa fé", pensando ter evidência contra a validade da crença. O que supõe, ao menos em teoria, que se vissem as coisas no sentido da fé, mudariam logo.

Mas o paradoxo é que, enquanto um ou dois sustentam, em virtude de um falso raciocínio a inaceitabilidade da fé, milhões de outros rejeitam a noção de fé, não por um ato de razão, mas de cega fé. Aqui se evidencia a fraqueza intelectual da nossa civilização: baseia-se na fé para não crer.

Há outra enormidade em nossa descrença. Descremos de Deus por força do testemunho dum homem. Rejeitamos a palavra de Deus, à fé na palavra do homem. Os descrentes não aceitam a infalível autoridade de Deus. Se já se submeteram à autoridade falível dos homens!

Ora, a razão nos mostra que só Deus pode falar-nos algo de Deus. Que conhecem os homens da sua vida íntima? Os homens só podem exigir fé para as suas proposições sobre Deus quando houver razão para crer que elas não vêm deles, mas de Deus. "As coisas de Deus ninguém conhece, a não ser o Espírito de Deus" (I Cor 2,4).

Deus, puro Ato, pura Inteligência, não se limita a ver verdade. Ele é toda a Verdade. Só n'Ele são verdadeiras as verdades. A luz da razão é uma participação natural da sua verdade, e é d'Ele que a razão tira a sua autoridade. É assim que a razão nos ilumina o caminho e nos leva à fé.

Mas os homens sem fé teologal, raciocinando com premissas falsas, credulamente recebidas da autoridade falível de homens, usam a luz racional, dada por Deus para discutir contra Ele, contra a fé, contra a própria razão.

Resultado mal compreendido porque a fé é muitas vezes proposta como alheia e mesmo contrária à razão. De acordo com essa opinião, a fé é coisa subjetiva, incomunicável, inexplicável. É algo de emocional. Acontece ou não acontece. Se acontece, você "tem fé", e esse fato não influi necessariamente no raciocínio, pois fé é emoção inexplicável. Mas uma fé sem conteúdo intelectual que influência pode ter em nossa concepção da vida ou em nosso proceder? Não parece ser muito mais importante do que ter cabelos vermelhos e olhos azuis. É coisa que acontece a você e não acontece ao vizinho.

Essa idéia é o último refúgio do compromisso religioso com o racionalismo. Temendo ser impossível a paz doméstica, a fé se encastela no sótão da casa e deixa o resto à razão. E de fato a fé e a razão deviam caminhar em paz, não foram feitas para viver divorciadas.

(...) O "problema da  incredulidade" nos tempos modernos é mais um problema de irracionalismo do que de falta de fé. Muitos homens de hoje são desprovidos de suficiente cabeça ou experiência para cometer um pecado formal contra a fé teologal. A falta de fé, tão visível em países como a América, não é descrença formal mas crassa ignorância. É confusão de quem está perdido na cerração e não sabe distinguir a esquerda da direita. O agnosticismo e o ateísmo que grassam no mundo vêm menos da rejeição da verdade revelada, que duma incapacidade de pensar por si mesmo. São felizes os homens de entender claramente as proposições vindas do rádio. Não se pode esperar que julguem a verdade ou a falsidade do que lêem nos jornais que soletram.

O primeiro passo para levar os homens à fé é dado no plano da filosofia e não da teologia. É matéria de razão e não de fé. É impossível pedir a alguém que creia em verdades reveladas por Deus, se primeiro não compreende que há um Deus e que Ele pode revelar a Verdade. Na conversão de adultos, a Igreja não lhes pede que sacrifiquem a razão para a creditar em Deus. Ela tenta convencê-los, por argumentos filosóficos, de uma verdade praticamente inegável.

Não se pode negar que as provas tradicionais da existência de Deus, as cinco vias de S. Tomás, às vezes não chegam a convencer intelectuais, capazes de pensar. No seu caso, a incapacidade de aceitar essas provas geralmente vem da completa confusão filosófica que prevalece fora da Igreja. Sintoma desta confusão é a incapacidade de filósofos em admitir coisas como o princípio da contradição ou da causalidade, embora vivam no meio de experiências científicas que rendem testemunho a essas leis fundamentais do pensamento.

É, pois, sempre, mesmo com intelectuais de certo modo dignos desse nome, a incapacidade de pensar. Apesar de possuírem brilhante e bem armada mente, não podem aceder aos últimos problemas metafísicos, com o seu péssimo equipamento filosófico.

(...) O problema da descrença só pode levantar-se quando o homem encontrou o seu caminho para Deus. Qualquer negação da existência de Deus envolve ao menos materialmente um pecado contra a fé. Mas pode haver uma tal ignorância invencível dos preâmbulos da fé, que seria erro supor que o ateísmo de muitos apresente um problema real de incredulidade.

Thomas Merton, Ascensão para a Verdade.

Por que existem ateus?

Jorge Pimentel Cintra

Realmente, essa é uma pergunta muito boa, para a qual talvez não exista uma resposta conclusiva, pois no fundo trata-se de um mistério.

Para entender como se chegou a essa situação, é necessário regredir um pouco no tempo em busca das raízes do problema. Sempre houve materialistas e ateus, como Epicuro e Demócrito, já nos tempos áureos da filosofia grega; mas, para nos restringirmos aos tempos modernos, podemos começar novamente com Descartes. Uma das suas preocupações era precisamente a de estabelecer (como postulado) uma separação radical entre a fé e a razão humana, criando compartimentos estanques e incomunicáveis dentro de cada ser humano, o qual teria assim uma espécie de chave que poderia ser ligada e desligada; ora pensaria e agiria como cientista, utilizando-se só da razão, ora pensaria e agiria como homem religioso, valendo-se da fé. A religião seria, nesse esquema, algo puramente voluntário e sentimental, em que a razão não teria cabida.

Um dos fatores que contribuíram para dar origem a essa atitude foram as guerras de religião do século XVI, cujas consequências Descartes chegou a presenciar; manifestações de fanatismo as mais diversas, em que cada grupo afirmava estar na verdade e queria convencer os demais pela força. Não é de estranhar que, até entre gente equilibrada, se levantasse a tentação de dizer que os assuntos de religião são como os sentimentos: cada qual tem os seus, como tem os seus gostos e preferências pessoais; é assunto sobre o qual de nada adianta discutir: os argumentos são muito mais passionais do que racionais. Que motivos racionais pode ter um torcedor para torcer por um time de futebol?

Ora, uma vez que se afirme que todas as religiões são iguais - que dependem do gosto de cada um -, o passo seguinte é uma indiferença absoluta, que no fundo admite que nenhuma delas está na verdade e nenhuma possui valores absolutos. A consequência é que não vale a pena aderir a nenhuma religião oficial e muito menos praticá-la.

O passo histórico seguinte foi o deísmo, corrente nascida na Inglaterra, segundo a qual Deus não seria senão o Grande Arquiteto do Universo que, tendo construído o mundo, o teria abandonado  a seguir nas mãos do homem; neste caso, caber-nos-ia viver como se Deus não existisse, e portanto, seria preciso rejeitar a existência de milagres, da Providência ou de um Evangelho revelado, negando também qualquer intervenção de Deus na história humana. Cristo seria um grande profeta e até o maior dos homens, o que, na boca dessas pessoas, equivalia a negar que fosse Deus. A religião, a união com Deus, ficaria reduzida a um vago sentimentalismo, e a moral a umas simples regras de convivência entre os homens.

A partir daí, alguns filósofos ingleses começaram a autodenominar-se livre pensadores, querendo dizer com isso que estavam livres da superstição (isto é, da religião), e que aceitavam somente uma religião "natural", sem dogmas nem ritos; adotaram o lema "liberdade, igualdde, fraternidade", que seria assumido mais tarde pela Revolução Francesa.

O passo seguinte na evolução dessa linha de pensamento foi, naturalmente, o agnosticismo (se é que Deus existe, não é possível conhecê-lo), ou simplesmente o ateísmo. Por essa rota caminharam os filósofos da Ilustração francesa: Condillac, Diderot, D'Alambert, que Lênin recomendava como a melhor introdução ao "ateísmo científico".

Nessa trajetória nota-se, paralelamente à expulsão de Deus da vida e do pensamento, uma deificação do próprio homem. A atitude de Descartes atribui ao homem (à sua inteligência) qualidades que são exclusivas de Deus; Espinosa diz que o homem é parte de Deus; Kant atribui à razão humana um papel fundamental na constituição da realidade; Hegel, num panteísmo cósmico, deifica a razão humana, projetando-a como criadora de toda a realidade; e Feuerbach entroniza definitivamente o homem no lugar de Deus: "o homem é para o homem o ser supremo", idéia plenamente aceita por Marx. Finalmente, Nietzsche, como representante de muitos outros, proclama a morte de Deus.

O triste paradoxo embutido nessa atitude é que, ao tentar divinizar o homem, acabou-se por animalizá-lo, reduzindo-o a um plano infra-humano. A conclusão era lógica: se o homem não provém de cima (de Deus), só pode provir de baixo (da matéria); se a dignidade do homem provém de estar feito à imagem e semelhança de Deus, ao suprimir-se Deus suprime-se também a sua dignidade, e o homem passa a ser qualquer outra coisa: o homem é aquilo que come (Feuerbach); é puro sexo (Freud); provém do macaco (Darwin), que provém da matéria (os defensores atuais da geração espontânea), que provém do caos. Em perfeita consonância com esses princípios, pregaram-se as filosofias da inimizade; o príncipe deve dominar pelo medo (Maquiavel), o homem é o lobo do homem (Hobbes), a guerra, a luta e a contradição constituem a essência da realidade (Hegel), o ódio é o motor da história (Marx), o inferno são os outros (Sartre), devemos aprender a odiar (Lunatcharsky).

(...) A trajetória do idealismo, de Descartes a Marx, que acabamos de esboçar, pode ser vista por outro ângulo: o da caminhada do homem rumo à autosuficiência e à confiança no poder ilimitado da sua razão, a ponto de autodivinizar-se e de rejeitar qualquer limite que lhe venha de fora.

Jorge Pimentel Cintra, Deus e os Cientistas, pp. 47-50

Grito dos Excluídos em Recife


Para quem ainda duvida da natureza deste evento e teima em dizer que as oposições que certos católicos fazemos a estas iniciativas são cisma nossa, veja o post do Jorge Ferraz que presenciou o evento apoiado pela CNBB e registrou várias imagens que falam por si.

Acima, uma das fotos tiradas pelo Jorge.
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