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O Mistério do Sabbath


Card. Jean Daniélou

O estudo dos sacramentos nos tem mostrado que eles são, na era presente da história sagrada, a continuação dos grandes trabalhos operados por Deus no Antigo Testamento e no Novo, e a prefiguração da Escatologia. E disso se segue que nós não podemos entender inteiramente certos aspectos dos sacramentos a menos que nós os vejamos em sua perspectiva bíblica. Isto também é verdade com relação a certos outros aspectos do culto Cristão, e, em particular, da liturgia das grandes festas. Aqui nós temos um ciclo duplo, um semanal e um anual. Nós devemos estudar primeiro um e depois o outro, nos restringindo, naturalmente, aos aspectos desses ciclos que estão contidos no prolongamento da Sagrada Escritura, e especialmente do Velho Testamento.

Há, antes de tudo, a festa semanal, isto é, o Domingo. O Domingo é uma criação puramente cristã, conectada com o fato histórico da Ressurreição do Senhor. Mas desde que esta é uma festa semanal, surge a questão de sua relação com o Sábado Judaico. Antes de estudar o simbolismo do Domingo, então, nós precisamos primeiramente colocar o Domingo em sua relação própria com o Sábado, nossa preocupação sendo aqui com a tipologia; e depois, com relação ao descanso sabático, nossa preocupação será com ele enquanto instituição. Devemos somente estudar esta última questão de um modo secundário.

Os tipos do Antigo testamento são pessoas, como Noé ou Isaac; eventos, como o cruzamento do Mar Vermelho ou a entrada na Terra Prometida; e também instituições, como o Templo, ou a circuncisão. O Sábado entra na terceira categoria, de que ele é um dos maiores exemplos. O seu caráter de tipo é trazido no Novo Testamento: "Não deixem que ninguém, então, vos incomode por conta do que comer ou beber, ou em relação a festivais ou luas novas ou a sábados. Isso tudo é sombra das coisas que deviam vir, mas a substância é Cristo." (Cl 2,16). Aqui está a afirmação que será o princípio guia de todo o nosso estudo: a substância, a realidade do Sábado é Cristo. Nós precisamos, então, descobrir a realidade religiosa do Sábado, pois quando ele é posto ao lado de outros tipos, mostrará um aspecto do que Cristo é. Esta é a razão por que o estudo do Sábado contém um ensinamento que é sempre de valor para nós, mesmo que a instituição do Sábado como tal tenha sido abolida desde que Cristo, Que é o seu cumprimento, apareceu.

O conteúdo da idéia do Sábado é expresso em dois versos de Êxodo que pontuam seus dois aspectos essenciais. De um lado, o Sábado é um dia de descanso (anapausis) consagrado a Yahweh" (Ex 16,25); de outro lado, o Sábado é "o sétimo dia" (hebdome). Um dia de descanso, o sétimo dia -- estes são os dois temas essenciais contidos na idéia do Sábado. O Antigo Testamento os apresenta como uma prescrição literal; o Novo Testamento mostra que eles estão agora cumpridos: pois Cristo é o verdadeiro descanso, e é o verdadeiro sétimo dia. E isto nos mostra de uma vez o que é peculiar à tipologia do Sábado: é uma tipologia do tempo.

Esta tipologia do Sábado é mencionada no próprio Antigo Testamento. Temos muitas vezes considerado como o Velho testamento nos dá uma primária visão espiritual das instituições mosaicas, uma primária tipologia bíblica. Esta consideração encontra uma aplicação exepcional, e de um duplo ponto de vista, como nós iremos agora demonstrar. Antes de tudo, encontramos uma interpretação escatológica do Sábado, que é o símbolo do tempo como sagrado. Devemos dizer que ele carrega a mesma relação com o tempo e a história - aquela de ser seu grande símbolo bíblico -, assim como o templo, a outra essencial instituição do Judaísmo, simboliza o universo e o espaço. O Sabbath expressa a consagração do tempo a Deus, como o templo expressa a do espaço. E assim como o tempo, pela consagração de um espaço limitado, foi o sacramento e prefiguração da consagração de todo o universo, a ser realizado na ressurreição de Jesus e a criação do cosmos da Igreja, assim o Sabbath, pela consagração de um particular dia da semana, foi o sacramento da consagração a Deus de toda a história, que também encontrou seu princípio na ressurreição do Verbo Encarnado.

O outro elemento no Sabbath é a idéia do descanso (anapausis). Aqui nós também encontramos uma primeira tipologia no Antigo Testamento, consistindo em uma espiritualização da idéia de descanso. Nos profetas, e especialmente em Isaías, nós encontramos a afirmação repetida pelos Santos Padres de que o verdadeiro Sabbath, a verdadeira anapausis, não é cessar o trabalho físico, mas cessar de pecar. "As luas novas e os Sabbaths e outros festivais eu não os aceito, suas assembléias são más... Cessem de agir perversamente, aprendam a fazer o bem..." (Is 1, 13-19). E esta passagem é mais importante porque, como nós veremos agora, o ensino de Cristo é exatamente neste sentido. Esta espiritualização da idéia do descanso sabático, que, obviamente, não exclui a idéia de uma real prática do Sabbath, é fundada de novo em Filo, tranformado por seus esquemas platônicos, quando ele vê no Sabbath o símbolo da alma "que descansa em Deus e não se dá a mais nenhum trabalho mortal" (De migr. Abrah.91)

Nós encontramos uma dupla tipologia do Sábado já desenhado no Antigo Testamento e no Judaísmo apocaliptico e alexandrino. Mas esta tipologia ainda carece de precisão quanto ao seu contéudo, e, além disso, ela é ainda indeterminada quanto ao seu objeto. Como São Paulo nos diz, é Cristo Que é a realidade de que o Sabbath é somente a sombra. Assim os Santos Padres não foram os primeiros a afirmar este fato, pois a interpretação cristológica do Sábado já está considerada no Novo Testamento. Nós devemos agora tomar novamente os dois aspectos da tipologia do Sabbath, mas na ordem reversa. O Novo Testamento antes de tudo estende a espiritualização do Sábado ao lado das linhas já demarcadas por Isaías; mas pontua ao mesmo tempo que o Sabbath agora é passado, já que Cristo é a realidade que ele prefigurou. Este aspecto aparece principalmente nas passagens do Evangelho em que nós vemos Cristo em conflito com os fariseus na questão do descanso sabático. A tipologia do Sabbath não aparece formulada numa teoria, como se dará com São Paulo, mas como existente e operativo na real oposição entre os fariseus que encarnam a figura e Cristo que representa a realidade. O primeiro texto é fundado em São Mateus (12,1-13). Os discípulos estão pegando espigas de milho num campo no Sábado; os fariseus protestam, e Cristo vem em defesa dos Seus.1

Ele começa mostrando que o próprio Velho Testamento dá exemplos de violações legítimas do Sabbath: "Você não leu o que Davi fez quando ele e seus companheiros estavam com fome? Em como ele entrou na casa de Deus, e comeu os pães da proposição que nem ele nem seus amigos poderiam legalmente comer, mas só os sacerdotes? Ou vocês não leram na Lei, que nos dias de Sábado os sacerdotes no templo transgridem o Sabbath e ficam sem culpa?" (12,3-5).

E agora vêm as palavras mais importantes: "Mas eu digo a vocês que Alguém maior que o templo está aqui. Mas se vocês soubessem o que isto significa, 'Eu quero misericórdia e não sacrifício,' vocês nunca teriam condenado o inocente; pois o Filho do Homem é Senhor até do Sabbath" (5-8). Nós devemos acrescer a esta passagem outra que a segue imediatamente, onde nós vemos Jesus, no dia de Sábado, curando um homem com a mão seca. Jesus respondeu aos que O atacavam: "É permitido fazer o bem no Sabbath" (12,12).2 Nós temos aqui uma crítica do abuso causado pela formulação dos fariseus na sua forma de entender o descanso sabático: isto é óbvio. Mas há muito mais. Em primeiro lugar, Jesus mostra o caráter secundário do Sabbath: ele não é uma lei absoluta, mas uma instituição provisória. E Ele dá um exemplo disso, inaugurando uma linha de argumento que os Santos Padres irão tomar e desenvolver. Ele permite que seja entendido que Ele é livre para dispor desta instituição - e, pelo exemplo de Seus discípulos, Ele deixa aparecer que sua hora - da observância literal do Sabbath - já passou. Mas há ainda mais: a analogia com o Templo nos mostra que as duas instituições são paralelas. O Sabbath e o Templo passaram porque o próprio Cristo, o Sabbath e o templo do Novo Testamento, está aqui.

E o contexto nos dá dois exemplos desta realidade do novo Sabbath que aparece com Cristo. De um lado, a passagem que nós citamos é imediatamente precedida por estas palavras de Jesus: "Venham a Mim, todos vocês que estão cansados e sobrecarregados, e Eu vos darei descanso. Tomem minha carga sobre vocês, e aprendam de Mim que sou manso e humilde de coração; e encontrarão descanso (anapausis) para suas almas." (11, 29-30)3 Cristo é mostrado, então, como o verdadeiro descanso, a anapausis do verdadeiro Sabbath. E, em segundo lugar, o episódio é seguido pela cura no Sábado do homem com a mão seca. Esta cura, como todos os milagres de Jesus, é uma antecipada manifestação da vinda do Seu reino, do verdadeiro descanso. A coincidência desta ação com o Sabbath nos mostra a relação entre os dois eventos, assim como a expulsão dos mercadores do Templo mostra que Jesus é o mestre do Templo e Ele mesmo o verdadeiro Templo. Assim, nestas passagens, Cristo aparece concretamente como inaugurando o verdadeiro Sabbath que substitui o Sabbath figurativo. A oposição dos fariseus é inexplicável de outro modo, a menos que eles vissem que Ele pretendia dar um substituto para a instituição mosaica. A tipologia posterior só desenvolveu as consequências desta atitude concreta do Cristo.

O Evangelho de são João nos dá um episódio análogo; a cura no Sábado do paralítico na piscina de Bethesda. Nós já falamos deste evento em conexão com o Batismo. Os judeus perseguiram Jesus porque Ele fez essas coisas no Sábado. Jesus respondeu: "Meu Pai trabalha até agora, e eu também trabalho." (5,17). E ainda mais os judeus agora procuravam matá-Lo: "porque Ele fez de Si mesmo igual a Deus." (5,18). A relação destas misteriosas palavras de Nosso Senhor com o descanso sabático é clara. Mas Cristo está falando de um nível mais alto. Os judeus da época de Cristo, em sua exaltação do Sabbath, julgavam que o próprio Deus estava sujeito a ele. Nós encontramos tal idéia expressa no Livro dos Jubileus (2,16). A palavra de Cristo formalmente condena a aplicação a Deus do descanso sabático entendido como ociosidade. Em Deus não há ociosidade; mas Sua atividade que, como diz São Clemente de Alexandria, é idêntica ao Seu amor, é exercida sem cessar. E isto é de grande importância: a ociosidade, ócio, do Sabbath aparece de agora em diante como uma noção literal e inferior, dando lugar à busca do seu significado espiritual. Os Santos Padres usavam este texto para condenar o descanso sabático mostrando que esta não é a lei do universo e que o Cristianismo é a realidade da qual a ociosidade é a figura. Orígenes, usando o mesmo texto de São João, escreve: "Ele mostra que Deus não pode cessar de ordenar o mundo em algum sábado deste mundo. O verdadeiro Sabbath, no qual Deus irá descansar de todas as Suas obras, irá, assim, ser o mundo que vem". (Ho. Nm. 22, 4). O trabalho de Cristo é visto como a realidade que vem substituir a figurativa ociosidade do Sabbath.

Assim, nós temos visto no próprio Evangelho, de uma maneira concreta, a oposição entre Cristo eo Sabbath. Esta oposição ainda está velada. Houve um tempo em que a figura e a realidade existiram lado a lado. Esta coexistência continuou na comunidade dos cristãos primitivos. Nós vemos os Apóstolos em Jerusalém observando o Sabbath depois da Ressurreição de Cristo (At 13,14; 16,3). Mas isto é uma sobrevivência de um mundo que já passou, enquanto que a realidade que o substitui já está presente. É a mesma coisa com o Templo: os Apóstolos continuam a ir lá orar, enquanto que o novo Templo, que é a comunidade cristã, já existia. Nós encontramos aqui um daqueles momentos decisivos da história, uma articulação essencial na qual a nova realidade aparece e se desliga passo a passo de um mundo antigo que está morrendo. A destruição de Jerusale´m trouxe a destruição do Templo: São Paulo proclama o fim do Sábado (Rm 14,6). Apenas umas poucas comunidades judaicas continuaram a observar o sábado (Eusebius, Hist. Eccles. III, 27). E também foi São Paulo quem formulou o significado desta evolução histórica. Se o Sábado estava a morrer pouco a pouco, isto se dava porque ele era apenas uma instituição provisória e uma figura do mundo a vir. Agora este mundo chegou: a figura precisa apenas desaparecer: "Não deixeis, então, que ninguém vos chateie com relação ao que comer ou beber, ou a respeito de festivais ou luas novas ou sábados. Estas coisas eram sombra das que haviam de vir, mas a substância é Cristo" (Col 2,16). Assim, o Evangelho nos mostra no próprio Cristo a verdade prefigurada pelo descanso sabático, o significado profético que Isaías tinha já começado a perceber. O Novo Testamento também nos mostra que Cristo é o "sétimo dia", isto é, o tempo sagrado que sucede aos dias profanos, de que a história da criação nos dá a primeira interpretação teológica. Aqui de novo a qualidade especial da interpretação do Novo Testamento é que ele é cristológico: ele nos mostra no próprio Cristo este sétimo dia, de que o Antigo Testamento percebeu somente o significado profético. O texto principal aqui é o prólogo de São Mateus. Os ancestrais de Cristo estão organizados em seis grupos de sete pessoas cada. Deste modo, Cristo aparece como inaugurante da sétima era do mundo, como sendo n'Ele mesmo sozinho esta sétima era. E é claro que este é realmente o significado desta organização da genealogia. O Livro das Crônicas, quando dá as genealogias de Abraão e Noé, agrupa seus descendentes sob o número simbólico de setenta. Estes agrupamentos de sete são obviamente intencionais. Aquele dado por São Mateus é uma aplicação a Cristo do simbolismo cronológico da semana sagrada. A genealogia dada por São Lucas também é fundada no número 7, mas de um modo diferente: ele dá setenta e sete nomes de Adão a Jesus. Gregório de Nissa já tinha considerado sobre esta característica dos setes. E assim a genealogia de São Mateus faz do sétimo dia uma figura do Cristo.

A Epístola aos Hebreus justifica esta interpretação mostrando que o sétimo dia verdadeiramente teve este significado profético (3,7; 4,11). O autor começa com as palavras do Salmo 94: "Eles não entrarão no Meu descanso" (auapausis), e conecta este descanso explicitamente com o sétimo dia (4,4). Nós estamos lidando, então, com o repouso do sétimo dia, ou seja, com o descanso na sua forma escatológica. E este descanso, como o autor mostra, não pode ser aquele que é dito que Deus descansou no sétimo dia. Pois de fato "as obras de Deus terminaram desde o início do mundo" (4,3) e aqui está o futuro do mundo que está em questão. Por isso a interpretação "arqueológica", a do Antigo Testamento, é afastada. Não pode haver nenhuma questão futura da entrada na Terra Prometida, embora este seja o significado obviamente sugerido pelo Salmo. Mas, como o autor diz: "Se Josué já os conduziu ao descanso, Davi, tanto tempo depois, não teria falado de outro dia (4,8). Nem pode a queda de Jericó depois de sete dias ser aquele que é significado pela anapausis doo salmo. Portanto, além do descanso de Deus, na ordem da criação, e do descanso de Israel, na ordem do Antigo Testamento, há um terceiro descanso, que está além daquele de que o salmo fala: "Permanece, portanto, um descanso sabático para o povo de Deus. Pois aquele que que entrou no seu descanso, descansou ele mesmo de suas obras, como Deus descansou das Suas. Apressemo-nos para entrar naquele descanso (4,10-11).

Este texto é considerável especialmente pelo paralelismo que estabelece entre os três "sabatismos" de que o Sabbath litúrgico é figura. Mostra que no Judaísmo ele é uma comemoração da criação e de sua consagração a Deus; e depois também uma comemoração da entrada na Terra Prometida e da realização temporal da promessa. Mas estes dois significados são por sua vez a prefiguração e a profecia de outro sabatismo, de um sétimo dia, que não veio ainda e que é realizado em Jesus Cristo, desde que a partir de agora este sétimo dia existe, e nós deveremos nos apressar para entrar nele. Assim, nós encontramos uma vez mais, mas comentado e justificado, o tema escatológico indicado na genealogia de Mateus. O simbolismo do sétimo dia serve para enfatizar o caráter do Cristianismo como um evento escatológico. Nós estamos agora colocados na perspectiva da história, e esta é, de fato, o significado de toda a Epístola. Deus que deu aos judeus a primeira oportunidade para a salvação, que eles recusaram, está agora oferecendo uma nova. Esta salvação é Cristo. Ele é o sétimo dia, a sétima era do mundo. Uma nova era de graça é aberta com a Sua vinda. Nós não devemos deixá-la passar, como os judeus fizeram. Notemos antes que o tema do descanso e o tema do sétimo dia, os aspectos espiritual e escatológico estão reunidos na única pessoa de Cristo que lhes dá seu significado. A mensagem do Novo Testamento está, sobretudo, de fato, em apontar que Cristo é quem foi anunciado por todas as prefigurações do Antigo Testamento.

O Novo Testamento nos mostra a abolição do Sábado e seu cumprimento em Cristo como um fato realizado. Os escritores da Igreja daí em diante explicariam o significado deste fato. Esta abolição levantou, de fato, como aquelas das instituições mosaicas, um difícil problema. De um lado, a prática literal do Sabbath é o objeto de um mandamento expresso de Deus no Antigo Testamento, que era considerado pelos cristãos como um livro inspirado. Mas também, esta prática foi abolida por Cristo, e o Sabbath agora possuía para os cristãos somente o valor de um símbolo. Como estas duas afirmações poderiam ser reconciliadas? É impossível dizer que Deus poderia contradizer-Se. Duas soluções extremas agora se apresentam. De um lado, o judaizante manteve a prática literal do Sabbath. Eles estavam, então, em acordo com o Antigo Testamento, mas em conflito com a Igreja. De outro lado, os gnósticos rejeitaram o Antigo Testamento por considerá-lo obra de outro Deus. Isto eliminava a contradição, mas levava a uma rejeição do Antigo Testamento, uma rejeição que era igualmente inaceitável. Os cristãos viam claramente que eles deveriam afirmar ambas as coisas, a inspiração do Antigo Testamento e o caráter antiquado do Sábado. Mas levou certo tempo para ver como era possível reconciliar as duas afirmações.

Uma primeira solução consistia em negar pura e simplesmente que a prática literal do Sabbath tenha sido alguma vez o objeto de um mandamento de Deus. Esta é a solução de Pseudo-Barnabé. Para ele, as instituições do Antigo Testamento eram puramente uma linguagem simbólica, que é o propósito da gnose entender. Mas os judeus não possuíam esta gnose: eles tomavam sua linguagem literalmente, e todas as suas práticas nunca cessaram de ser condenadas por Deus. Essa do Sabbath em particular foi sempre reprovada (II.5). Como M. Lestringant bem diz: "Para ele, a exegese cristã não precisava dar à Escritura um novo significado, pois em nenhum momento ela teve outro significado. Deus sempre revelou uma só verdade. Os sacrifícios, o templo, circuncisão, foram apenas sinais. Suas práticas constituíam uma flagrante violação da vontade de Deus. E, além disso, Deus tinha formalmente advertido as nações infiéis que Ele não desejava nem sacrifício nem oferenda" (Essai sur l'unite de la revelation biblique, p. 168). Esta solução simplificava a questão. Cristo não precisava dar um significado figurativo ao Sabbath, pois ele nunca tinha tido nenhum outro significado, ele nunca tinha sido outra coisa além de um símbolo. O senso figurativo da Escritura é o literal, desde que Moisés intentou falar em linguagem simbólica. Esta solução radical, que depois ia ser a de Pascal, enquanto assegurava a unidade da Revelação, tirava do Antigo Testamento a sua própria substância.

A solução de Justino era menos absoluta. Ele mostra primeiro como, mesmo no Antigo Testamento, o mandamento do Sabbath não era o objeto de uma obrigação incondicional desde que ele admitia exceções: "Deus desejou fazer seus sacerdotes cometerem pecado quando eles ofereceram sacrifícios no dia de Sábado, e também aqueles que receberam ou deram circuncisão no dia de Sábado, desde que Ele ordenou que o recém-nascido deveria ser circuncidado no oitavo dia mesmo que ele caísse no Sábado?" (Dial. XXVII, 5.) Justino reproduz a linha de argumentação do próprio Cristo conforme dada em São Mateus (12, 5), e acrescenta um segundo exemplo àquele dado por Cristo. Nós estamos no começo de uma linha de raciocínio que nós devemos encontrar de novo e de novo através de toda a literatura patrística e que foi constantemente enriquecida com novos exemplos. Tertuliano dá aqueles da queda de Jericó no dia de Sábado (Jos 6,4) e o da luta dos Macabeus no Sábado (Adv. Jud. 4; P. L. II, 606 B-C). Encontramos todos estes textos novamente em Irineu (Adv. haer. V. V. 8; P. G. VII, 994-995), em Aphraates (Dem XIII, P. S. I, 568569), e no Testemunia Adversus Judaeos transmitido sob o nome de Gregório de Nissa (P. G. XLVI, 222 B-C). Esta é uma primeira forma de argumento que continua aquele do Evangelho.

A segunda linha de argumentação também procede do Evangelho: é o fato de que Deus não observa o Sabbath no governo do mundo. Nós já consideramos, em conexão com São João 5,17, que esta é uma resposta à noção judaica de que o próprio Deus está sujeito ao Sabbath. São Justino retorna duas vezes este argumento: "Olhem as estrelas, elas não descansam, elas não observam o Sabbath" (XXIII, 3). E a seguir: "Deus governa o mundo nesse dia do mesmo modo que Ele o governa em todos os outros" (XXIX, 3). Dentro do Judaísmo, certos homens como Filo também rejeitam como sendo excessiva demais a idéia de Deus estando sujeito ao Sabbath. O argumento de Justino foi tirado de Clemente de Alexandria: "Sendo bom, se (Deus) cessasse de fazer o bem, Ele cessaria de ser Deus" (Strom. VI, 16; Staehlin, 504, 1-5). Nós encontramos isto de novo em Orígenes: "Nós sempre vemos que Deus está agindo, e não há Sabbath no qual Ele não aja" (Hom. num. XXIII, 4). Isto está na Didascalia dos Apóstolos: "A economia do universo sempre continua, as estrelas não cessam nem por um instante no seu movimento regular produzido pela ordem de Deus. Se Ele diz: 'Você deve observar o descanso, como é que Ele mesmo age, criando, conservando, nutrindo, governando a nós e Suas criaturas? .... Mas estas coisas (o preceito do descanso sabático) foram estabelecidas por um tempo, como figura." (Const. Ap. VI, 18, 17).

Estes dois primeiros argumentos contra o valor absoluto do descanso sabático são, então, desenvolvidos do próprio Evangelho. Justino acrescenta um terceiro, que é o ais importante para uma compreensão da sua posição no que concerne ao Sabbath: "Aqueles que foram chamados justos antes de Moisés e Abraão e que foram agradáveis a Deus, não foram circuncidados nem observavam o Sabbath. Por que Deus não os ensinou estas práticas?" (XXVII, 5. Veja também XLVI, 2-3) Não apenas o mundo não está sujeito ao Sabbath, mas os patriarcas, que os judeus veneravam, não foram submetidos a ele por Deus. Certos judeus, como o autor do Livro dos Jubileus, de fato nos mostram os patriarcas como servadores do Sabbath. Mas isto é um exagero óbvio. O Sabbath não é, então, de nenhum modo necessário à salvação, desde que os próprios judeus reconheceram que Abraão foi salvo sem tê-lo praticado (XVLV, 3). Esta linha de argumentação, que não é encontrada no Novo Testamento em termos explícitos, mas de que nós encontramos o equivalente, também foi usado pela tradição inteira (Tertulian Adv. Jud. 4; P. L. II, 606; Aphraates, Dem. XIII, 8; P. S. I, 558). Nós o encontramos também na Didascalia: "Se Deus tivesse querido que nós observássemos o descanso depois de seis dias, Ele teria começado por fazer os patriarcas observarem-no e todos os homens justos que viveram antes de Moisés." (Cons. Ap. VI, 18, 16).

Mas, então, por que o Sabbath foi instituído? Justino não vai tão longe quanto Barnabé; ele mantém que Deus quis a prática do Sabbath no seu modo literal. Ele não é, então, uma pura figura. Mas esta divina instituição não é uma honra para Israel; ela não marca qualquer progresso no plano da salvação. Ao contrário, é somente por causa da maldade de Israel que Deus impôs o Sabbath a eles: "Foi somente para vocês que a circuncisão foi necessária, pois Noé e Melquisedec não observaram o Sabbath e contudo eles agradaram a Deus, e também aqueles que os seguiram, até Moisés, sob o qual nós vemos seu povo mau fazendo um bezerro de ouro no deserto.... Veja por que Deus Se adaptou ao vosso povo. O Sabbath foi prescrito para vós para vos fazer lembrar de Deus." (XIX, 6. Veja também XXVIL, 2; XLV, 3; XLVI, 5; CXII, 4). É porque, então, os judeus são infiéis à lei natural do divino culto que, para guiá-los a ela, Deus lhes deu o Sábado como meio de educação. O Sabbath, então, é visto como o próprio sinal da reprovação do povo judeu: "É de fato por causa de vossa própria maldade e aquela de vossos pais que, para vos marcar com um sinal, Deus prescreveu que que deveríeis observar o Sabath" (XXI, 1).

Assim, a existência do Sabbath é justificada, mas ainda não como um estágio na história. Notemos de fato que, de acordo com Justino, não apenas era o Sabbath uma instituição inferior aos olhos de Deus, já que Ele tinha uma melhor ordem em vista, mas esta melhor ordem foi aquela que Ele instituiu no começo. A situação dos patriarcas é superior àquela dos judeus, que marca uma decadência. Cristo, então, restabeleceu a ordem primitiva. Em outras palavras, Justino ainda não vê nenhuma outra via para evitar a contradição em Deus, além de admitir que Sua vontade foi sempre que não deveria haver nenhum Sabbath, e que ele era somente uma infração provisória da ordem imutável que Ele tinha estabelecido. Isto é o que Justino explicitamente afirma: "Deus não aceita sacrifícios de vós; e se Ele uma vez vos ordenou oferecê-los, não foi por Ele precisar deles mas por causa dos vossos pecados... Se nós não admitimos isto, nós caímos em idéias absurdas tais como a de que não era o mesmo Deus que existiu no tempo de Henoque e de todos aqueles  que não observaram o Sabbath, desde que foi Moisés quem o ordenou para ser observado... Foi porque os homens eram pecadores que Ele que é sempre o mesmo prescreveu estas ordenanças e outras como elas" (XXIII, 1). A imutabilidade de Deu não pode ser salva, de acordo com Justino, exceto pela imutabilidade do mundo estabelecido por Ele. Ele não tem nenhuma idéia de revelação progressiva. E nós encontramos uma vez mais em Eusébio de Cesaréia esta mesma concepção que nega toda a história.

De qualquer modo, nós podemos ver de agora em diante que Deus suprime o Sabbath sem contradizer-Se de qualquer maneira, desde que Ele foi levado a instituí-lo somente porque foi forçado a fazê-lo pela maldade do povo judeu, e em consequência Ele teve o desejo de fazê-lo desaparecer tão logo Ele tivesse realizado Seu propósito de educação: "Por isso, assim como a circuncisão começou com Abraão, assim o Sabbath começou com Moisés (e ele mostrou que estas instituições foram feitas por causa da dureza de seu povo); assim também, pela vontade de Deus eles tiveram que desaparecer n'Ele que nasceu de uma Virgem da raça de Abraão, Cristo, o Filho de Deus" (XLIII, 1). A vinda de Cristo marca o fim desta economia provisória. Ela visou apenas preparar para Ele. Sua prática literal foi um esboço do que Cristo estava para realizar em plenitude: "Eu posso, tomando-as uma por uma, mostrar que todas as prescrições de Moisés foram somente tipos, anúncios, símbolos daquilo que estava por vir com Cristo" (XLII, 4). O verdadeiro Sabbath não consiste em consagrar um dia apenas a Deus, mas todos os dias, e não em abster-se de trabalhos físicos, mas do pecado: "A nova lei quer que observeis continuamente o Sabbath, ainda que penseis que sois piedosos por causa do descanso e por não fazer nada num dia. Não refletis na razão do preceito. Não é nestas coisas que o Senhor nosso Deus é agradado. Se houver entre vós um perjurador ou um ladrão, que ele cesse (pausastho); se houver um adúltero, que ele faça penitência e ele terá observado o Sabbath de prazeres, o verdadeiro Sabbath de Deus" (XII, 3).

Estas últimas linhas são importantes. Elas claramente contrastam a prática exterior do descanso em um dia da semana, que é somente uma figura, com a prática interior de que este descanso é o símbolo. Na realidade, o Sabbath, isto é, a vida cristã inteira deveria ser consagrada a Deus - e isto não em abster-se do trabalho com nossas mãos, mas em cessar de pecar. O contexto nos mostra que este cessar de pecar deveria ser entendido do Batismo. É Cristo, então, Quem é o verdadeiro Sabbath, de que o Sabbath judaico era a figura. O que é importante aqui é que nós encontramos a interpretação espiritual de Isaías, que está no pano de fundo desta passagem inteira (Justino a cita extensamente, XII, 1; XIII, 2-9; XIV, 4; XV, 2-7), relatada na economia do Cristianismo. O verdadeiro Sabbath de que Isaías falou, e que consiste em "cessar de fazer o mal" (1,16), está em Cristo que é a cessação do pecado, condição que Ele somente cumpre. Cristo nos introduz no único Sabbath, de que os Sabbaths da Lei foram somente uma prefiguração profética que não nos deu o que eles significavam. O processo de espiritualização começado com Isaías é continuado por Justino e assim realizado na dispensação cristã. Nós estamos agora, portanto, na mais autêntica linha de tipologia bíblica.

Mas permanece o fato de que em Justino é sobretudo o aspecto negativo da tipologia do Sabbath que aparece, quer dizer, a justificação do desaparecimento da observância do preceito literal. Isto é facilmente explicado quando nós percebemos que a sua atenção estava focada no conflito com os judeus. Irineu teve um problema diferente, pois ele lidou com o erro reverso, aquele dos Gnósticos. Seu pensamento sobre este ponto não é sempre perfeitamente homogêneo. Às vezes ele aceita as pressuposições de Justino e admite que a aparição da legislação é conectada com a decadência de Israel no Egito (IV, 16, 3; P. G. VII, 1017 A-B). Mas em toda parte o seu pensamento mais profundo aparece: Deus está formando a humanidade de acordo com uma economia progressiva (IV, 38, 1). É muito normal, então, que a Lei deveria ter correspondido a uma humanidade ainda num estado de infância, como é normal que ela deveria dar lugar a uma economia mais perfeita quando a humanidade tiver sido trazida a uma maior perfeição. Assim a verdadeira idéia do Sabbath agora aparece. Ele pode hoje ser abolido, e ainda assim, ontem, ter sido a expressão da vontade divina: não é Deus Quem mudou, mas antes o homem que existe no tempo. Assim Irineu pode mostrar que o Sabbath é uma excelente instituição (IV, 8, 2; P. G. VII, 994) e ao mesmo tempo afirma ele está agora abolido. Não é por causa da maldade do homem que a Lei apareceu, como se ela fosse uma regressão em relação à ordem imutável querida por Deus, mas é porque o desenvolvimento da humanidade tem sido progressivo; ela precisou começar com uma educação adaptada aos seus começos. Mas agora que a humanidade emergiu deste estado de infância, a sombra da Lei deve dar lugar à realidade do Evangelho: "A lei não irá mais ordenar que passe um dia em descanso e ociosidade quem observa o Sabbath todos os dias no templo de Deus que é o seu próprio coração" (Dem 96).

A instituição judaica do Sabbath agora aparece como sendo a figura do Sabbath perpétuo que é o Cristianismo. Nós devemos notar o paralelismo com o templo. Aqui nós encontramos de novo a tipologia de Justino que Irineus desenvolve ainda mais: "Deus deu (os Sabbaths) como um sinal. Mas estes sinais não faltam em simbolismo, quer dizer, não deixam de ensinar; nem são eles arbitrários, desde que eles foram instituídos por um artesão sábio, pois os Sabbaths ensinaram perseverança no serviço de Deus suportando tudo durante o dia. 'Nós agora somos', diz São Paulo 'como ovelhas para ser sacrificadas durante todo o dia', quer dizer, nós somos consagrados, seguindo a nossa fé em todo o tempo, perseverando nisto e nos abstendo de toda a cobiça, nem comprando nem possuindo qualquer tesouro na terra.  E por isso foi significado também, de algum modo, o descanso de Deus depois da criação, quer dizer, o reino do qual o homem que perseverou em seguir a Deus tomará parte na Sua festa." (IV, 16, 1; P. G. 1015-1016).

Este texto afirma antes de tudo e com grande precisão o caráter significante do Sabbath: "Os sinais não eram sem simbolismo". Ele então desenvolve este simbolismo em um duplo sentido: eclesiástico e escatológico. Assim, nós encontramos uma vez mais as duas direções tomadas pela tipologia do Sabbath que nós percebemos no Antigo Testamento e encontramos de novo no Evangelho. Concernente à primeira destas direções, Irineu traz os dois aspectos que nós já encontramos com Justino: de um lado, perseverança no serviço de Deus durante toda a vida, de que o um dia reservado a Ele era somente uma figura; e de outro, o cessar de fazer o mal; nós devemos considerar, todavia, que, de acordo com uma idéia peculiar a Irineu, o Sabbath judaico significava a abstenção do trabalho servil, quer dizer, de trabalho rentável (IV, 8, 2; 994 B) e assim era menos a figura de uma abstenção do pecado que do distanciamento das coisas terrenas. Com respeito ao aspecto escatológico, ele se mantém na ordem do Antigo Testamento: o sétimo dia não é a figura do Cristianismo a princípio, como nos textos do Evangelho e da Epístola aos Hebreus, mas é a figura do mundo que há de vir. Este aspecto da tipologia do Sabbath é relatado a Irineu, tanto pela Epístola aos Hebreus quando pelo texto do Gênesis. Assim, nós vemos que a tipologia escatológica do Sabbath foi desenvolvida ao longo das linhas do Gênesis, como tomadas da Epístola aos Hebreus, enquanto a tipologia espiritual foi desenvolvida ao longo das linhas de Isaías, tomadas do Evangelho de São Mateus.

Com Irineu, a tipologia do Sabbath aparece fixada em suas linhas essenciais, negativamente , na justificação para a abolição do Sabbath judaico, e positivamente, no conteúdo do simbolismo do Sabbath. Nós devemos encontrá-lo desenvolvido nestas duas direções por Tertuliano e Orígenes. Tertuliano adota o primeiro aspecto. Seu Adversus Judaeos, que continua o Diálogo com Tifo, é uma parte da controvérsia com o Judaísmo em que a questão do Sabbath estava em primeiro plano. Tertuliano distingue os Sabbaths: "As Escrituras falam de um Sabbath eterno e de um temporal" (Adv. Jud. 4). O Sabbath temporal é humano, o eterno é divino. Este existiu antes do Sabbath temporal: "Assim, antes do Sabbath temporal, havia um Sabbath eterno mostrado e predito antecipadamente. Deixemos os judeus aprenderem que Adão observou o Sabbath, e que Abel quando ofereceu a Deus uma vítima santa, O agradou por cumprir o Sabbath, e que Noé, construtor da Arca por causa do grande Dilúvio, observou o Sabbath" (id). Este Sabbath, de fato, é a adoração de Deus.

Prefigurado pelos patriarcas, "nós vemos que ele é cumprido no tempo de Cristo, quando toda a carne, quer dizer, toda nação, veio a Jerusalém para adorar a Deus o Pai através de Seu Filho Jesus Cristo." É este Sabbath que "Deus quer que nós observemos de agora em diante." É por isto que "nós sabemos que nós devemos nos abster de todo trabalho servil, e que não apenas no sétimo dia, mas em todo o tempo."

Nós encontramos de novo a idéia do verdadeiro Sabbath concebida como a adoração a Deus e abstenção de trabalho servil, entendidos no sentido espiritual, e isto perpetuamente. O interesse da passagem repousa no fato de que Tertuliano mostra que a prática do Sabbath pelos patriarcas era uma figura de sua realização em Cristo. Mas e quanto ao Sabbath temporal, isto é, a instituição mosaica de cessar de trabalhar num dia da semana? Esta era uma instituição temporária, e Tertuliano vê a prova disto no fato de que, mesmo no Antigo Testamento, ela era frequentemente suspensa. Ele usa os exemplos que nós já citamos. "É, então, claro que observâncias deste tipo têm um valor temporário e foram tornadas necessárias pelas circunstâncias do tempo, e que Deus não deu esta lei no passado para ser uma observância perpétua." Por isso o Sabbath, decretado por um tempo, estava destinado a desaparecer: "É por isto que, quando é claro que um Sabbath temporal foi estabelecido e um eterno Sabbath predito, se segue que, todos os prceitos físicos tendo sido dados no passado às pessoas de Israel, um tempo viria quando os preceitos da antiga lei das velhas cerimônias cessaria, e quando a promessa da nova lei viria, quando a luz brilharia para aqueles que estavam nas trevas." Assim Tertuliano completa o que tinha permanecido implícito no pensamento de Irineu mostrando que o Sabbath eterno que já existia no Antigo Testamento ao lado do Sabbath temporal, era ele mesmo uma prefiguração de Cristo, o único verdadeiro Sabbath, e era por este próprio fato o anúncio de que o Sabbath temporal era apenas uma economia provisória.

Como Tertuliano assim torna mais precisa a tipologia do Sabbath quanto a sua forma, assim Orígenes continua o pensamento de Irineu desenvolvendo seu conteúdo, e isto em seu duplo significado eclesial e escatológico. Na XXIII Homilia sobre o Livro dos Números, ele trata da tipologia das várias festas judaicas, ao lado das linhas de Filo no De Decalogo, mas sem pegar nada emprestado dele. "O justo deve também celebrar a festa do Sabbath. Mas o que é a festa do Sabbath senão aquela que o Apóstolo diz: 'Ainda permanece, todavia, um dia de descanso (sabbatismus), quer dizer, a observância do Sabbath reservada ao povo de Deus.' Deixando de lado, então, as observâncias judaicas do Sabbath, vejamos o que deve ser a observância do Sabbath para um cristão. No dia do Sabbath, nenhum dos trabalhos mundanos devem ser feitos. Se, então, tu te absténs de todos os trabalhos que são terrenos, e não se ocupa com nenhum assunto mundano mas se mantém livre para as coisas espirituais, vai à Igreja, escuta as leituras e divinas homilias, medita nas coisas celestes, se preocupa com a esperança futura, considera não as coisas que são presentes e visíveis mas aquelas que são futuras e invisíveis - esta é a observância do Sabbath cristão. Ele que se abstém de trabalhos do mundo e se libera para as coisas espirituais, ele é quem celebra a festa do Sabbath. Ele não leva nenhum fardo na jornada. Pois o fardo é qualquer pecado, como o Profeta diz: Eles me pesam como um fardo pesado. No dia do Sabbath, todos ficam sentados em seu próprio lugar. Qual é o lugar espiritual da alma? Justiça é o seu lugar, e verdade, sabedoria, santidade, e tudo que Cristo é, este é o verdadeiro lugar para a alma. E é deste lugar que ela deveria não sair se é para manter o verdadeiro Sabbath: 'Aquele que permanece em mim, Eu também permanecerei nele.'" (Jo 15, 5) (Ho. Num. XXIII, 4).

Aqui, então, está o sentido espiritual e eclesial. O cumprimento da figura do Sabbath é a vida cristã inteira, que é totalmente espiritual e consagrada a Deus. A este significado, Orígenes acrescenta o sentido escatológico. "Desde que nós temos falado dos verdadeiros Sabbaths, se nós procuramos, indo ainda mais alto, aprender o que os verdadeiros Sabbaths são, é além deste mundo que nós encontramos a verdadeira observância do Sabbath. Isto é, de fato, o que está escrito em Gênesis, que 'Deus descansou no sétimo dia de todas as Suas obras.' Nós vemos que isto não foi cumprido no sétimo dia, e que não é cumprido mesmo agora, pois nós vemos que Deus está sempre agindo e que não há Sabbath em que Ele não aja, em que Ele não cause o nascer do sol sobre o justo e o injusto, para agir e para curar. É por isto que o Senhor, no Evangelho, acusado pelos judeus de agir e de curar no Sabbath, lhes respondeu: 'Meu Pai trabalha mesmo agora, e eu também trabalho', mostrando por isso que em nenhum Sabbath deste mundo Deus cessa de administrar o mundo e de prover as necessidades da raça humana. De fato Ele fez, no começo da criação, substâncias para existirem, tão numerosas quanto Ele, o Criador, pensou necessárias para a perfeição do mundo; mas até a consumação das eras Ele não cessou de administrá-las e de conservá-las. O verdadeiro Sabbath, depois que Deus descansar de todas as Suas obras, será no mundo futuro, quando pesares, tristeza e gemidos desaparecerão e Deus será tudo em todos. Possa Deus conceder que nós possamos festejar neste Sabbath com Ele e celebrá-lo com Seus santos anjos, oferecendo o sacrifício de louvor e dando graças ao Mais Alto. Então de fato a alma irá ser capaz sem cessar de estar presente com Deus e de oferecer a Ele o sacrifício de louvor pelo Sumo Sacerdote, que é um Sacerdote para eternidade de acordo com a ordem de Melquisedec." (Ho. Num. XXIII, 4).

Nós achamos aqui de novo o eco da antiga tradição. Com Justino, Orígenes recorda que Deus não está sujeito ao Sabbath, desde que Ele não cessa de governar a criação. E nós devemos notar que ele conecta o Sabbath com o texto de João 5,17. Esta idéia foi tirada de novo de Clemente de Alexandria (Strom. VI, 16; Staehlin, p.504, 2), mas sem ser conectada com o texto evangélico. Com Irineu, ele mostra que o descanso de Deus que é significado em Gênesis não é somente o tempo presente, mas antes o mundo que se seguirá depois desta criação. O Sabbath portanto é uma figura da entrada do homem no mundo futuro onde ele descansará de suas obras, quer dizer, onde ele irá tomar parte no banquete divino, na liturgia dos anjos, onde ele eternamente oferecerá com Cristo o Sumo Sacerdote o sacrifício de louvor. Aqui estão os verdadeiros Sabbaths de Deus, de que o Sabbath judaico era a distante prefiguração, de que a contínua oração é o começo sacramental na Igreja, e de que a liturgia celestial é o seu pleno cumprimento.

Este aspecto figurativo do Sabbath é aquele que apareceu como o mais impressionante às primeiras gerações cristãs. Preocupada antes de tudo com marcar o fim da ordem judaica e sua substituição pela realidade cristã, ela insistiu sobretudo no fato de que a instituição do Sabbath estava cumprida pelo mistério inteiro cristão. Mas apareceu também que este mistério cristão incluía uma estrutura sacramental, quer dizer, que as próprias realidades espirituais da Igreja se expressavam por meio de sinais visíveis. Os pães da proposição foram abolidos, mas a Igreja possui outro Pão. O Templo de Jerusalém foi destruído e cumprido no Cristo inteiro, o lugar da Divina Presença, mas a Igreja também possui igrejas de pedra, conectadas com a presença eucarística. O Cristianismo não é uma realidade puramente espiritual. Sua essência espiritual se expressa por meio destas realidades visíveis, e isto precisamente é a Liturgia. E isto é verdadeiro de nosso tópico também. O Sabbath foi abolido e cumprido no Cristo ressurreto, mas a Ressurreição de Cristo teve uma comemoração visível, isto é, o Domingo.

Card. Jean Daniélou, Bible and Liturgy, Tradução nossa.

Carta Circular sobre o sinal da Paz nas Missas - Corrigindo os abusos - Deo Gratias!


CONGREGAÇÃO PARA O CULTO DIVINO E A DISCIPLINA DOS SACRAMENTOS
CARTA CIRCULAR: O SIGNIFICADO RITUAL DO DOM DA PAZ NA MISSA

1. "Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz"[1], são as palavras com as quais Jesus promete aos discípulos reunidos no cenáculo, antes de enfrentar a paixão, o dom da paz, para infundir-lhes a gozosa certeza de sua presença permanente. Depois de sua ressurreição, o Senhor leva ao termo sua promessa apresentando-se no meio deles, no lugar em que se encontravam por temor aos Judeus, dizendo: "A paz esteja convosco!"[2]. A paz, fruto da Redenção que Cristo trouxe ao mundo com sua morte e ressurreição, é o dom que o Ressuscitado segue oferecendo hoje a sua Igreja, reunida para a celebração da Eucaristia, de modo que possa testemunhá-la na vida de cada dia.
2. Na tradição litúrgica romana o sinal da paz, colocado antes da Comunhão, tem um significado teológico próprio. Este encontra seu ponto de referência na contemplação eucarística do mistério pascal - diversamente de como fazem outras famílias litúrgicas que se inspiram na passagem evangélica de Mateus (cf. Mt 5, 23) - apresentando-se assim como o "beijo pascal" de Cristo ressuscitado presente no altar [3]. Os ritos que preparam a comunhão constituem um conjunto bem articulado dentro do qual cada elemento tem seu próprio significado e contribui ao sentido do conjunto da sequência ritual, que conduz à participação sacramental no mistério celebrado. O sinal da paz, portanto, se encontra entre o Pater noster - ao qual se une mediante o embolismo que prepara ao gesto da paz - e a fração do pão - durante a qual se implora ao Cordeiro de Deus que nos dê sua paz -. Com este gesto, que significa a paz, a comunhão e a caridade"[4], a Igreja implora a paz e a unidade para si mesma e para toda a família humana, e os fiéis expressam a comunhão eclesial e a mútua caridade, antes da comunhão sacramental"[5], isto é, a comunhão no Corpo de Cristo Senhor.
3. Na Exortação Apostólica pós-sinodal Sacramentum caritatis o papa Bento XVI havia confiado a esta Congregação a tarefa de considerar a problemática referente ao sinal da paz[6], com o fim de salvaguardar o valor sagrado da celebração eucarística e o sentido do mistério no mundo da Comunhão sacramental: "A Eucaristia é por sua natureza sacramento da paz. Esta dimensão do Mistério eucarístico se expressa na celebração litúrgica de maneira específica com o gesto da paz. Trata-se indubitavelmente de um sinal de grande valor (cf. Jo 14, 28). Em nosso tempo, tão cheio de conflitos, este gesto adquire, também a partir ponto de vista da sensibilidade comum, um relevo especial, já que a Igreja sente cada vez mais como tarefa própria pedir a Deus o dom da paz e a unidade para si mesma e para toda a família humana. [...] Por isso se compreende a intensidade com que se vive frequentemente o rito da paz na celebração litúrgica. A este propósito, contudo, durante o Sínodo dos bispos se viu a conveniência de moderar este gesto, que pode adquirir expressões exageradas, provocando certa confusão na assembléia precisamente antes da Comunhão. Seria bom recordar que o alto valor do gesto não fica diminuído pela sobriedade necessária para manter um clima adequado à celebração, limitando por exemplo a troca da paz aos mais próximos"[7].
4. O Papa Bento XVI, além de destacar o verdadeiro sentido do rito e do sinal da paz, punha em evidência seu grande valor como colaboração dos cristãos, para preencher,  mediante sua oração e testemunho, as angústias mais profundas e inquietantes da humanidade contemporânea. Por esta razão, renovava seu convite para cuidar este rito e para realizar este sinal litúrgico com sentido religioso e sobriedade.
5. O Discasterio, baseado pelas disposições do Papa Bento XVI, dirigiu-se às Conferências dos bispos em maio de 2008 pedindo seu parecer sobre se manter o sinal da paz antes da Comunhão, onde se encontra agora, ou se mudá-lo a outro momento, com o fim de melhorar a compreensão e o desenvolvimento de tal gesto. Traz uma profunda reflexão, se viu conveniente conservar na liturgia romana o rito da paz em seu lugar tradicional e não introduzir mudanças estruturais no Missal Romano. Oferecem-se na continuação algumas disposições práticas para expressar melhor o conteúdo do sinal da paz e para moderar os excessos, que suscitam confusão na assembléias litúrgica antes da Comunhão.
6. O tema tratado é importante. Se os fiéis não compreendem e não demonstram viver, em seus gestos rituais, o significado correto do rito da paz, debilita-se o conceito cristão da paz e se vê afetada negativamente sua própria frutuosa participação na Eucaristia. Portanto, junto às precedentes reflexões, que podem constituir o núcleo de uma oportuna catequese a respeito, para a qual se ofereceram algumas linhas orientativas, submete-se a prudente consideração das Conferências dos bispos algumas sugestões práticas:
a) Esclarece-se definitivamente que o rito da paz alcança já seu profundo significado com a oração e o oferecimento da paz no contexto da Eucaristia. O dar-se a paz corretamente entre os participantes na Missa enriquece seu significado e confere expressividade ao próprio rito. Portanto, é totalmente legítimo afirmar que não é necessário convidar "mecanicamente" para se dar a paz. Se se prevê que tal troca não se levará ao fim adequadamente por circunstâncias concretas, ou se retem pedagogicamente conveniente não realizá-lo em determinadas ocasiões, pode-se omitir, e inclusive, deve ser omitido. Recorda-se que a rúbrica do Missal disse: Deinde, pro opportunitate, diaconus, vel sacerdos, subiungit: Offerte vobis pacem"[8].
b) Baseado nas presentes reflexões, pode ser aconselhável que, com ocasião da publicação da terceira edição típica do Missal Romano no próprio País, ou quando se façam novas edições do mesmo, as Conferências considerem se é oportuno mudar o modo de se dar a paz estabelecido em seu momento. Por exemplo, naqueles lugares em nos quais se optou por gesto familiares e profanos de saudação, traz a experiência destes anos, poderiam-se substituir por gestos mais apropriados.
c) De todos os modos, será necessário que no momento de dar-se a paz se evitem alguns abusos tais como:
- A introdução de um "canto para a paz", inexistente no Rito romano [9].
- Os deslocamentos dos fiéis para trocar a paz.
- Que o sacerdote abandone o altar para dar a paz a alguns fiéis.
- Que em algumas circunstâncias, como a solenidade de Páscoa ou de Natal, ou Confirmação, o Matrimônio, as sagradas Ordens, as Profissões religiosas ou as Exequias, o dar-se a paz seja ocasião para felicitar ou expressar condolências entre os presentes[10].
d) Convida-se igualmente a todos a Conferências dos bispos a preparar catequeses lirtúgicas sobre o significado do rito da paz na liturgia romana e sobre seu correto desenvolvimento na celebração da Santa Missa. A este propósito, a Congregação para o Culto Divino e a Disiciplina dos Sacramentos acompanha a presente carta com algumas pistas orientativas.
7. A íntima relação entre lex orandi e lex credendi deve obviamente estender-se a lex vivendi. Conseguir hoje um compromisso sério dos católicos frente a construção de um mundo mais justo e pacífico implica uma compreensão mais profunda do significado cristão da paz e de sua expressão na celebração litúrgica. Convida-se, então, com insistência a dar passos eficazes em tal matéria já que dele depende a qualidade de nossa participação eucarística e o que nos vejamos incluídos entre os que merecem a graça prometida nas bem-aventuranças aos que trabalham e constroem a paz[11].
8. Ao finalizar estas considerações, exorta-se aos bispos, e sob sua guia, aos sacerdotes a considerar e aprofundar no significado espiritual do rito da paz, tanto na celebração da Santa Missa como na própria formação litúrgica e espiritual ou na oportuna catequese aos fiéis. Cristo é nossa paz[12],a paz divina, anunciada pelos profetas e pelos anjos, e que Ele trouxe ao mundo com seu mistério pascal. Esta paz do Senhor Ressuscitado é invocada, anunciada e difundida nas celebração, também através de um gesto humano elevado ao âmbito sagrado.
O Santo Padre Francisco, no dia 7 de junho de 2014, aprovou e confirmou o que se contém nesta Carta circular, preparada pela Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, e ordenou sua publicação.
Na sede da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, ao dia 08 de junho de 2014, na solenidade de Pentecostes.

Antonio Card. CAÑIZARES LLOVERA
Prefeito

Arthur ROCHE
Arcebispo Secretário
NOTAS

[1]. Jo 14, 27
[2]. Cfr. Jo 20, 19-23.
[3]. Cf. MISSALE ROMANUM ex decreto SS. Concilii Tridentini restitutum summorum pontificum cura recognitum, Editio typica, 1962, Ritus servandus, X, 3.
[4]. CONGREGAÇÃO PARA O CULTO DIVINO E A DISCIPLINA DOS SACRAMENTOS, Instr., redemptionis sacramentum, 25 de março de 2004, n. 71: AAS 96 (2004) 571.
[5]. MISSALE ROMANUM, ex decreto sacrosancti Oecumenici Concilii Vaticani II instauratum, auctoritate Pauli Pp. VI promulgatum, Ioannis Pauli Pp. II cura recognitum, editio typica tertiam, diei 20 aprilis 2000,Typis Vaticanis, reimpressio emendata 2008, Ordenação Geral do Missal Romano, n. 82.
[6]. Cf. BENTO XVI, Exhort. Apost. pós-sinod., Sacramentum caritatis, 22 de fevereiro de 2007, n. 49: AAS 99 (2007) 143
[7]. Cf. Bento XVI, Exhort. Apost., Sacramentum caritatis, 22 de fevereiro de 2007, n. 49, nota n. 150: AAS 99 (2007) 143.
[8]. MISSALE ROMANUM, Ordo Missae, n. 128
[9]. No rito romano não está tradicionalmente previsto um canto para a paz porque se prevê um tempo brevíssimo para dar a paz somente aos mais perto. O canto da paz sugere, pelo contrário, um tempo muito largo para a troca da paz.
[10]. Cf. Ordenação Geral do Missal Romano, n. 82: "Conveniente, contudo, que cada um expresse sobriamente a paz somente aos que tem mais próximo"; n. 154: "O sacerdote pode dar a paz aos ministros, permanecendo sempre dentro do presbitério, para não alterar a celebração. Faça-se do mesmo modo se, por uma causa razoável, deseja dar a paz a alguns fiéis"; CONGREGAÇÃO PARA O CULTO DIVINO E A DISCIPLINA DOS SACRAMENTOS, Instr., Redemptionis sacramentum, 25 de março de 2004, n. 72: AAS 96 (2004) 572.
[11]. Cf. Mt 5, 9ss.
[12]. Ef. 2, 14.

Dia de Corpus Christi - Mistério insondável


Dia desses, fui à Missa e, olhando a Eucaristia, me pus a meditar..

A Eucaristia é Deus. Às vezes, a gente acha que entende o que é isso, mas não entende. Qualquer conceito que possamos ter de Deus, por mais elevado que seja, é sempre analógico e nunca literal. O que Ele é nos escapa. Por isso dizemos apenas que Ele é.

Neste sentido, escreveu S. Gregório de Nissa, na sua Vida de Moisés:

"Todo conceito formado pelo entendimento para tentar atingir e abranger a natureza divina não consegue mais do que forjar um ídolo de Deus, em vez de fazer conhecê-Lo."

Qualquer teologia que suponha poder dizer estritamente quem é Deus torna-se herética no ato mesmo de pretendê-lo. Quem é Deus? Não sabemos. As nossas afirmações d'Ele são sempre comparativas.

Se não sabemos isto, como pretendemos entender o fenômeno da Eucaristia? Simplesmente, não dá.. Podemos ter uma Fé profunda de que Deus está ali, mas a Fé é justamente a "visão obscura", o "ver confusamente" de que fala S. Paulo. Por isso, a Sta Edith Stein costumava dizer que a Eucaristia é "o pão seco dos fortes", pois é preciso ser forte, no sentido de vencer a nossa tendência natural de exigir comprovações e gostos sensíveis, como fazem as crianças com os alimentos, para encontrar ali o Cristo. Sta Faustina Kowalska dizia o mesmo: "A fé firme rasga este véu". E é assim mesmo que Deus o quer, pois diz São Paulo: "O justo vive pela fé" e "sem fé é impossível agradar a Deus." Jesus o exprime de modo claro: "Felizes os que crêem sem ter visto", e Tomás de Aquino, o doutor angélico, por sua vez, escreve em que consiste esta força: "Se não vês nem compreendes, gosto e vista tu transcendes, elevado pela Fé." (Lauda Sion)

A Fé, portanto, não indica um bloqueio no sentido de nos deixar aquém daquilo que é percebido pelos sentidos. Pelo contrário, a Fé nos leva além deles, a um tipo de conhecimento que é tão intenso e se aproxima tanto da luz que, antes, nos ofusca. Mas, ao nos ofuscar, nos ilumina e nos prepara, gradativamente, para a visão. Os olhos incandescidos tendem a adaptar-se aos poucos à luz. A Eucaristia, exigindo-nos a Fé, nos prepara para a visão beatífica.

A Eucaristia é Deus. Ao dizê-lo, abre-se diante de nós um abismo de horizontes infinitos. Como esgotá-lo com o entendimento? Não dá. Os sentidos não o apreendem. A razão apenas assente. E, no entanto, Deus verdadeiramente Se dá, e nós O recebemos, e O comemos.

Deus é a raiz mesma da realidade. É a realidade por si mesma subsistente. É a realidade real por excelência. Duvidar da Eucaristia, portanto, é um contrassenso, pois é duvidar daquilo que é mais verdadeiro que qualquer verdade que conhecemos. Sob as espécies do Pão e do Vinho está aquele que disse: "Eu sou a Verdade" (Ego Sum Veritas).

Nós, que vivemos num mundo efêmero e frágil, que passa como um piscar de olhos, que é um momento entre duas eternidades, como bem o disse Sta Teresinha de Lisieux, ao receber a Eucaristia, recebemos Aquele que É, que não é suscetível de mudanças, que criou e sustenta todas as criaturas; Aquele ao qual tudo o que existe deve sua existência. Comemo-Lo e, ao fazê-Lo, sofremos uma espécie de adensamento da realidade. Nos tornamos mais nós mesmos, pois estamos comendo a própria Verdade. A Eucaristia, portanto, reforça o nosso ser, e tenderá necessariamente a iluminar a inteligência, permitindo-nos conhecê-Lo e conhecer-nos. Conhecer-nos é a raiz da humildade, que é início de qualquer virtude. A Eucaristia, assim, é causa eficiente de uma profunda dinâmica interior que culminará na santidade ou perfeita identificação com o Cristo, se o permitirmos. Não é outra coisa o que Ele mesmo diz a Sto. Agostinho:

"Ao comer-Me, não és tu que Me transformas em ti, mas Eu que te transformo em Mim."

Que mistério.. Uma criatura, abismo de nada, recebe em si mesma Aquele que é o tudo. Como pode um buraco na areia receber o oceano? Deus não pode, depois de recebido, não abrir a amplitude interior da alma, não torná-la grande, não estendê-la ao infinito, não dispô-la a Si. Se o recipiente torna o recebido semelhante a si, aqui se dá o inverso: é o recebido que adapta o recipiente. 

Neste dia de Corpus Christi, nós possamos contemplar o mistério absolutamente inefável da Eucaristia, o amor e a humildade vertiginosos que se comprimem ali, naquelas aparências tão vizinhas do nada, como dizia Sta Teresa D'Avila, e aceitar o fato de que não O vemos nem O entendemos. Não desejemos vê-Lo nem compreender tal mistério. Desejemos apenas amá-Lo e acreditar na Fé que nos diz que, naquele pequeno objeto frágil, magra hóstia branca, há um sobre-excesso de ser, uma raiz de eternidade, ou, como diziam os antigos, o remédio de imortalidade, pois, "quem come a Minha carne e bebe o Meu sangue tem a vida eterna." (Jo 6,54)

Fábio

Justino dá uma descrição geral sobre como a Santa Missa era celebrada na metade do Século II


Para a época que seguiu à morte dos Apóstolos, um dos documentos mais antigos e mais interessantes é uma apologia dos cristãos escrita por São Justino, que morreu em 165. Entre 150 e 155 dirigiu ele ao imperador Romano Antonino sua primeira apologia na qual descreve o que se pratica nas assembléias cristãs, a fim de mostrar que as atrocidades que lhes são atribuídas pelos pagãos são pura calúnias. Nele refere-se duas vezes às celebrações eucarísticas. Não nos transmite um texto completo da liturgia nem fórmulas de orações ou de exortações, mas a sequência detalhada dos atos praticados nestas assembléias e a maneira como era celebrada a Eucaristia em Roma e nos países onde ele viveu, a Palestina (onde nasceu) e o Egito.

Eis sua descrição de uma reunião dominical:

1. No dia dito do sol (domingo) reúnem-se em um mesmo lugar todos os cristãos, os que residem nas cidades e os que residem no campo.

2. O leitor lê trechos tirados das memórias dos Apóstolos (Novo Testamento) e dos livros dos Profetas (Antigo Testamento).

3. terminada a leitura, aquele que preside toma a palavra para explicar aos presentes o que foi lido e exortá-los a pôr em prática tão belos ensinamentos (homilia).

4. Em seguida, levantamo-nos todos e dirigimos a Deus orações e súplicas (súplica insistente ou ecteni, após o Evangelho).

5. Suspendendo as orações, abraçamo-nos uns aos outros (Ósculo da paz).

6. Depois levam àquele que preside a reunião dos irmãos em Cristo, pão e um cálice contendo vinho, misturado com água (Procissão do ofertório).

7. O Presidente toma o pão e o cálice, louva e glorifica o Pai do universo em nome de seu Filho e Espírito Santo; dirige-lhe abundantes ações de graças por ter-se dignado dar-nos estes dons (Anáfora).

8. Terminada esta ação de graças (Eucaristia) todos os presentes exclamam: Amém.

9. Depois os ministros que chamamos diáconos distribuem a todos os presentes o pão da Eucaristia e o vinho misturado com água (Comunhão). Estes mesmos diáconos levam aos ausentes sua parte do pão e do vinho eucarísticos. 

10. Por fim, os ricos socorrem os indigentes (Coletas).

A partir do século III as alusões à Eucaristia são mais numerosas mas menos precisas por causa da disciplina do "Arcano" ou segredo, que foi adotada pela Igreja e que proibia falar da Eucaristia aos não-cristãos.

Monsenhor Pedro Arbex. A Divina Liturgia Explicada e Meditada. São Paulo: Editora Santuário, 1998. p.25-26.

História do Sacrifício - Antigo e Novo Testamentos - Mons. Pedro Arbex


Sacrifício e Sacramento

A missa é o ato litúrgico durante o qual renova-se de modo místico e incruento o sacrifício cruento de Cristo na cruz; e administra-se aos fiéis, pela Eucaristia o alimento espiritual para as suas almas. Na missa, portanto, celebra-se não somente um sacramento, o maior dos sacramentos, mas renova-se também um sacrifício, o verdadeiro e perpétuo sacrifício da Nova Aliança.

A Eucaristia é sacrifício, enquanto se oferece; é sacramento, enquanto se recebe.

Sacrifício em geral

O sacrifício é a oferta voluntária de uma coisa sensível que é destruída, se for um ser inanimado, ou imolada, se for um ser animado; feita por um ministro legítimo, a Deus só, para reconhecer seu domínio absoluto e, no caso de pecado, para aplacar sua justiça e obter a reconciliação e a união com ele.

O sacrifício, que é o ato de culto mais característico e mais sublime, deriva da dupla obrigação do homem para com Deus: a nossa dependência absoluta dele, como criaturas; a nossa inimizade com ele, como pecadores.

A necessidade do sacrifício como reconhecimento da nossa dependência de Deus sempre existiu, mesmo no estado de inocência de nossos primeiros pais, no paraíso terrestre, antes da queda: Adão e Eva, mesmo se não tivessem pecado, teriam de oferecer sacrifícios a Deus, em sinal de submissão e de gratidão.

Quando, porém, o pecado abriu um abismo entre Deus e o homem, o sacrifício assumiu uma segunda finalidade, tornando-se o meio de reconciliação. O sacrifício, enquanto expiação do pecado, tem o caráter de representação ou substituição.

1. A essência do sacrifício é a destruição de uma coisa sensível ou a imolação de um ser vivo. A melhor maneira para o homem exprimir sua dependência e a dependência das outras criaturas é, evidentemente, a morte voluntária, isto é, o fato de entregar livremente sua vida àquele de quem a recebeu. Foi isto que Deus quis fazer entender aos homens quando ordenou a Abraão que lhe imolasse seu filho único, Isaac. Mas, quando logo depois, satisfeito pela obediência cega de seu servo, substituiu Isaac por um carneiro, desaprovou ao mesmo tempo os sacrifícios humanos, aos quais tinha direito, e indicou o modo de substituí-los.

2. O ministro do sacrifício deve ser legítimo. O sacrifício é um ato de culto público. Ninguém pode cumpri-lo se não tiver títulos para falar ou agir em nome da sociedade. Na lei evangélica como na lei mosaica (e até entre os pagãos) somente os sacerdotes são delegados para esta missão.

3. O fim, o escopo do sacrifício, é reconhecer o absoluto domínio de Deus e aplacar sua justiça, se o ofendemos.

Pela criação existe entre o Criador e sua criatura um laço que os liga um ao outro: laço de soberania da parte do primeiro, e laço de dependência da parte do segundo. O sacrifício é o ato pelo qual exprimimos esta relação e proclamamos, de um lado, a infinita grandeza de Deus, e, de outro, o nosso nada, a nossa pequenez; e no caso de natureza decaída, nossa ingratidão e nosso arrependimento.

A coisa essencial num sacrifício  é dar ou renunciar a um objeto de valor (valor em si ou para quem dá), por amor de Deus. Para dar a esta oferta todo o seu significado, os homens costumavam destruir o objeto sensível: esta destruição impedia que se pudesse voltar a possuir aquele objeto e com isto se exprimia a verdade seguinte: que não somos nada diante de Deus.

A dádiva oferecida ocupava o lugar do homem. Por isso aquele que fazia a oferta colocava, muitas vezes, a mão sobre o animal sacrificado, e fazia-se aspergir com o sangue ainda quente e fumegante da vítima. Assim fizeram Abel, Caim, Noé. Abel imolou e queimou as primícias dos seus rebanhos; Caim, seu irmão, queimou os frutos da terra; Noé matou e queimou animais à saída da arca.

Sacrifícios sangrentos e não sangrentos

Todos os povos e todas as religiões tiveram seus sacrifícios. Aparecem já praticados pelos filhos dos nossos primeiros pais. Caim e Abel (Gn 4), e achamo-los em todas as épocas entre os pagãos e os judeus. Egípcios, Caldeus, Assírios, Persas, Gregos, Romanos, etc. ofereciam sacrifícios a seus deuses para aplacá-los ou para implorar seu auxílio. Chegaram até a imolar seres humanos. Sabemos, pela Sagrada Escritura, que o rei dos Moabitas, para escapar ao cerco do rei de Israel, imolou seu filho primogênito.

Os Fenícios e outros povos da Ásia sacrificavam, todos os anos, crianças a Moloc, o deus do fogo com cabeça de touro. "O que os pagãos imolam, escrevia São Paulo aos Coríntios, imolam-no aos demônios e não a Deus" (1Cor 10,20). A humanidade, mesmo envolta nas trevas da ignorância e da perversão, sempre sentiu a necessidade de oferecer sacrifícios à divindade, ainda que confundindo o verdadeiro Deus com os falsos ídolos. Em Atenas, no tempo de São Paulo, não havia entre os inúmeros altares um altar ao "Deus desconhecido"?

Havia sacrifícios cruentos e sacrifícios incruentos (sangrentos e não sangrentos). Os primeiros consistiam na imolação, no derramamento do sangue de uma vítima escolhida no reino animal (bezerros, carneiros, ovelhas, cabras, rolas e até seres humanos). Nos segundos, em que não se derramava sangue, as ofertas eram escolhidas no reino vegetal e podiam ser objetos sólidos (trigo, farinha, pão, frutos da terra, etc.), ou líquidos (vinho, azeite). Os sólidos eram queimados e os líquidos derramados ao pé do altar. Oferecia-se também incenso.

Sacrifícios do Antigo Testamento ou da Lei Mosaica

Os sacrifícios dos pagãos não eram senão tentativas para chegar ao verdadeiro sacrifício de expiação ou de ação de graças à divindade: ofereciam animais sem defeitos físicos, crianças inocentes ou produtos escolhidos da terra, para serem vítimas perfeitamente imaculadas e, portanto, agradáveis aos deuses.

Quando Deus escolheu para si, nos descendentes de Abraão, um povo eleito, do meio do qual ia nascer o Salvador do gênero humano, ele próprio fez a Moisés, após a saída do Egito, numerosas prescrições sobre os sacrifícios que lhe deviam ser oferecidos, enquanto durava a Antiga Aliança.

"No Antigo Testamento tudo era coberto de sangue como figura do sangue de Jesus Cristo que nos devia purificar" (Bossuet).

Pela Bíblia sabemos que os judeus tinham três tipos de sacrifícios: os holocaustos, os sacrifícios de expiação e os sacrifícios pacíficos.

1. No holocausto (gr.: ólos, inteiro; e caústos, queimado), chamado também "sacrifício perfeito", a vítima era imolada e inteiramente consumida pelo fogo sobre o altar. Demonstrava-se assim o domínio absoluto de Deus sobre suas criaturas, representadas pela vítima.

No Templo de Jerusalém, único lugar onde se podiam oferecer sacrifícios, todo dia ao nascer do sol e à tarde imolava-se um cordeiro que devia ser queimado por completo; e aos sábados, em vez de um, sacrificavam-se dois cordeiros pela manhã e dois à tarde. Ao mesmo tempo, no altar dos perfumes, um outro sacerdote queimava incenso sobre o braseiro que ali se encontrava. É esta última função que desempenhava Zacarias, quando lhe apareceu o anjo para lhe anunciar que teria um filho, "a quem porá o nome de João" (Lc 1).

2. Os sacrifícios expiatórios destinavam-se a aplacar a cólera do céu, a expiar os pecados do povo, e a purificá-lo das suas iniquidades.

Destas vítimas, uma parte era queimada sobre o altar e outra ficava reservada para o sustento dos sacerdotes.

Cada ano os judeus celebravam a festa da expiação (Yom Kippur). Neste dia o sumo sacerdote oferecia em holocausto um touro para a expiação de seus próprios pecados e dos pecados da sua família; e um bode oferecido pelo povo, para a expiação dos pecados da comunidade. Em seguida, pondo suas mãos sobre a cabeça de um segundo bode vivo oferecido também pelo povo, carregava-o de todos os pecados da nação e o expulsava para o deserto, levando assim simbolicamente para longe de Deus as iniquidades de seu povo (bode expiatório).

No dia da sua purificação, isto é, 40 dias após o nascimento de Jesus, Maria e José, em obediência à lei, "levaram o menino a Jerusalém para o apresentarem ao Senhor, e para oferecerem em sacrifício (de expiação) um par de rolas ou dois pombinhos" (Lc 2,22-24).

3. Os sacrifícios pacíficos tinham por finalidade dar graças a Deus pelos bens e dons recebidos, pedir-lhe uma graça ou cumprir uma promessa: após a imolação da vítima, uma parte dela era queimada no altar; uma outra reservada aos sacerdotes e uma terceira consumida, num convívio sagrado, pela pessoa que mandou oferecer o sacrifício e pelos membros de sua família. Esta refeição figurava a Eucaristia.

Além dessas três espécies de sacrifícios sangrentos, havia os sacrifícios não sangrentos, ou oblações, que acompanhavam obrigatoriamente os holocaustos e os sacrifícios pacíficos, ou podiam ser feitos isoladamente.

A matéria oferecida era uma substância, sólida ou líquida, mais frequentemente incenso, farinha (misturada com sal e azeite), ou vinho.

Todos estes sacrifícios não eram senão figura do verdadeiro sacrifício da Nova Aliança selada pelo sangue de Cristo. Por isso cessaram, conforme os profetas o tinham anunciado, depois do Sacrifício do Calvário: o símbolo deve ceder o lugar à realidade, como a noite à luz.

São Paulo, na sua Epístola aos Hebreus, (9,11), diz a esse respeito: "Cristo veio como Pontífice dos bens futuros; e passando por um tabernáculo mais excelente e perfeito, não feito por mão do homem, quer dizer: 'não deste mundo', entrou no santuário não pelo sangue de bodes ou de bezerros, mas pelo seu próprio sangue, e de uma vez para sempre, porque alcançou a redenção eterna. Ora, se o sangue dos cabritos e dos touros e a aspersão da cinza duma novilha santifica os impuros pela purificação da carne, quanto mais o sangue de Cristo, que, pelo Espírito Santo, se ofereceu sem mácula a Deus, purificará a nossa consciência das obras mortas, para servirmos ao Deus vivo!"

Sacrifício da Nova Aliança

Na Nova Aliança, há um só sacrifício: o sacrifício que Jesus Cristo instituiu na última Ceia, consumou no dia seguinte sobre a Cruz e que a Missa renova todos os dias.

Jesus, Sacrificador e Vítima

Nos sacrifícios antigos o sacerdote era distinto da vítima. Escolhiam como vítima, nos sacrifícios cruentos, considerados os mais perfeitos, um ser vivo, de preferência um animal doméstico, que, por pertencer ao homem, podia legitimamente substituí-lo.

Ofertavam-no a Deus, separando-o de todo uso profano, para consagrá-lo ao serviço e à honra da divindade. Imolavam-no em seguida, a fim de mostrar que o pecador, tendo ofendido a Deus, não tinha mais o direito de viver, que merecia a morte.

Em certos sacrifícios , após ter queimado uma parte da vítima, comiam a outra parte, para comungar assim à vítima e, por meio dela, à divindade. Porque, após a glorificação de Deus, a união com ele, quebrada pelo pecado, era o fim para o qual tendia o sacrifício.

Portanto, três atos principais constituíam o sacrifício: o oferecimento, a imolação e a comunhão que se chamava também consumação. Tudo isto não eram senão figuras ou símbolos que preparavam o sacrifício verdadeiro, o sacrifício que devia oferecer o Homem-Deus, o Sumo Sacerdote da nova Lei, para glorificar a Deus e salvar seus irmãos. Ora, Deus tem direito a homenagens infinitas; para render-lhe tais homenagens e reparar a ofensa a ele feita pelo pecado, era necessário um sacrifício de valor moral infinito. E, para que assim seja, Jesus, nosso Sumo Sacerdote, quis ser não somente o sacrificador, mas também a vítima. Só deste modo, sob este duplo aspecto, o sacrifício oferecido por ele teria verdadeiramente um valor infinito, pois a dignidade de um sacrifício depende da dignidade da pessoa que o oferece e da vítima oferecida. Ora, Jesus, sacerdote e vítima, não é outro senão o Homem-Deus, isto é, uma pessoa infinita.

Desde o primeiro instante de sua encarnação no seio virginal de Maria, Cristo se ofereceu a seu pai como vítima para substituir todos os holocaustos. Lemos na Epístola aos Hebreus 10,5-6: "Entrando no mundo, Cristo diz: 'Tu não quiseste sacrifício nem oblação, mas me deste um corpo. Os holocaustos pelo pecado não te agradam. Então eu disse: eis que venho para fazer, ó Deus, a tua vontade'".

E toda a sua vida foi uma cruz e um martírio, orientada para a imolação final que constituíra o ato essencial de seu sacrifício. Sua imolação como vítima começa com sua Paixão, no Jardim da Agonia, para terminar no Calvário. Mas, antes de se deixar imolar pelos algozes, Jesus quis de novo oferecer-se como vítima e, desta vez, num verdadeiro sacrifício, acompanhado de ritos misteriosos, o sacrifício da última Ceia. "Tomai e comei, este é o meu Corpo, dado por vós." "Bebei todos, porque este é o meu sangue, o sangue da Nova Aliança, que é derramado por vós para a remissão dos pecados."

No Jardim das Oliveiras, vendo-se carregado dos pecados dos homens, submerso pelas águas turvas de todas as iniquidades humanas e isto diante do Deus de toda santidade, uma tristeza mortal apodera-se de sua alma e um suor de sangue corre-lhe ao longo do corpo. Gostaria de ver longe dele este cálice de amarguras, mas submete-se à vontade de Deus: "Meu Pai, se é possível, permiti que passe de mim este Cálice; faça-se, contudo, não como eu quero, mas como vós quereis" (Mt 26,39).

Traído por Judas, renegado pelo chefe dos doze, abandonado por quase todos os seus discípulos, esbofeteado, injuriado pelos servos do sumo sacerdote, condenado pelo Sinédrio por ter-se proclamado o Filho de Deus, condenado por Pilatos que, no entanto, momentos antes tinha proclamado sua inocência, flagelado, coroado de espinhos e carregando uma pesada Cruz, sobe penosamente o monte Calvário, estende seus membros doloridos, vê seus pés e suas mãos traspassados pelos cravos, ouve os insultos e as zombarias dos chefes de seu povo, Escribas e Fariseus; e em vez de se vingar, como bem poderia fazer, pede a seu Pai que lhes perdoe, porque não sabem o que fazem. Ele é o Bom Pastor que dá sua vida por suas ovelhas, conforme tinha dito: "Eu sou o Bom Pastor; o Bom Pastor dá sua vida por suas ovelhas... Ninguém me tira a minha vida, mas eu a entrego por mim mesmo; tenho o poder de entregá-la e tenho o poder de retomá-la novamente. Este é o mandamento que recebi de meu Pai" (Jo 10).

Cumprido o mandamento, pôde exclamar: "Está tudo consumado". Só lhe falta permitir à morte levar sua vítima voluntária, e o fez oferecendo-se pela última vez a seu Pai como vítima de propiciação.

"Pai, em vossas mãos entrego o meu espírito" (Lc 23,46). Dizendo isto, expirou; e Deus foi glorificado como jamais o tinha sido; e os homens foram salvos.

Os antigos, após a imolação da vítima, desejavam um sinal que comprovasse ter sido a oferta aceita por Deus. Às vezes o Senhor enviava o fogo do céu para consumir a vítima que, então, se elevava ao céu como um sacrifício de agradável odor (ver Elias). Houve algo de análogo após a imolação do Calvário. Em vez de enviar o fogo do céu, para consumir a vítima, Deus ressuscitou seu Filho, conferindo a seu corpo glorioso um poder santificador que se exercerá pela Eucaristia, banquete sagrado pelo qual entramos em comunhão com a vítima e por meio desta com Deus a quem foi oferecida.

Quarenta dias após sua ressurreição, Cristo subiu glorioso ao céu, de corpo e alma, para assentar-se à direita do Pai, onde, continuamente, advoga a nossa causa e intercede por nós.

São Paulo, após ter observado que os sacerdotes da Lei antiga tinham necessidade de sucessores porque eram mortais, acrescenta: "Mas Este (Cristo) como permanece para sempre, possui um sacerdócio eterno. E por isso pode salvar perpetuamente os que por ele chegam a Deus; está sempre vivo para interceder por nós. Tal é, com efeito, o Pontífice que nos convinha: santo, inocente, imaculado, segregado dos pecadores e mais elevado do que os céus; que não precisa, como os outros sacerdotes, oferecer diariamente sacrifícios, em primeiro lugar pelos seus pecados, depois pelos do povo; porque isto o fez uma vez por todas, oferecendo-se a si mesmo" (Hb 7,24-27).

Na noite em que foi entregue, no decorrer da ceia pascal, o Senhor Jesus tomou o pão e, depois de ter dado graças, o abençoou, partiu e deu a seus discípulos, dizendo: “Tomai e comei, isto é meu corpo que é entregue por vós”. Do mesmo modo, tomou o cálice, deu graças e entregou-lhes, dizendo: “Bebei dele todos, porque isto é o meu sangue, sangue da Nova Aliança, que vai ser derramado por vós e por muitos para a remissão dos pecados.” E acrescentou: “Fazei isto em memória de mim”. 

Para que os judeus se recordassem que tinham sido libertados da escravidão do Egito, Deus tinha-lhes ordenado que imolassem e comessem todos os anos, na festa da Páscoa, um Cordeiro sem mácula, na flor da idade. 

Foi depois de ter cumprido este preceito e comido com seus discípulos o Cordeiro pascal, que Cristo transformou o pão em seu corpo e o vinho em seu sangue. Durante a ceia da Antiga Aliança, Cristo selou com seu sangue a Nova Aliança. “Cristo, nosso Cordeiro Pascal, foi imolado”. (1Cor 5,7), diz São Paulo. 

O Cordeiro que os judeus imolavam não era senão o símbolo do verdadeiro Cordeiro de Deus que veio imolar-se para tirar os pecados do mundo. Sem duvida, somente no dia seguinte, este Cordeiro será imolado de modo sangrento na Cruz; mas na ceia ele está já oferecido como vítima destinada com antecedência à morte; Jesus se oferece como vítima aceitando livremente a morte que lhe será imposta, no dia seguinte; oferece de maneira ritual e mística a imolação que, no dia seguinte, será realizada de maneira visível e sangrenta; doravante sua vida não lhe pertence mais, ele a entregou já para a salvação do mundo. 

Assim, o Salvador é sacerdote segundo a ordem e o ritual de Melquisedec; este último ofereceu a Deus em sacrifício pão e vinho; Jesus, na última ceia, ofereceu-se a si próprio, sob as espécies do pão e do vinho, tornando assim realidade o que o salmista tinha predito, há muitos séculos: “O Senhor fez juramento e não se arrependerá: Tu és sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedec” (Sl 109,4). 

Após ter convertido o pão e o vinho em seu corpo e em seu sangue, Jesus disse a seus discípulos: “Fazei isto em memória de mim”. 

Com estas palavras, deu-lhes o poder de consagrar seu corpo e seu sangue, e impôs-lhes o dever de se lembrarem dele. São Paulo nos explica de que maneira se faz essa lembrança: “Todas as vezes que comerdes este pão e beberdes este cálice, anunciareis a morte do Senhor” (1Cor 11,26). 

É, pois, Jesus Crucificado que a Eucaristia nos lembra; é seu corpo partido, seu sangue derramado! A Missa durante a qual a Eucaristia é consagrada é, portanto, um memorial da Paixão de Cristo, de Cristo agonizando, de Cristo morrendo por nós; é também uma representação viva do sacrifício da cruz: o sacerdote é o mesmo, a vítima também. 

O Sumo Sacerdote da Nova lei, ou melhor, o único sacerdote, é Jesus Cristo. E se na Missa ele se oferece pelo ministério dos sacerdotes, é unicamente porque ele assim quis fazer depender sua presença no altar da vontade e da ação de um homem. O sacerdote não é sacerdote senão em dependência de Cristo, e só age como seu representante. Na consagração ele diz: “Isto é meu corpo, isto é meu sangue” e não isto é o Corpo de Cristo, isto é o sangue de Cristo. 

Assim como a última Ceia foi um verdadeiro sacrifício porque oferecia a vítima que ia ser imolada no dia seguinte, assim também a Missa é um verdadeiro sacrifício, porque renova a oferta da vítima já imolada no Calvário. 

Cumprindo a ordem do Senhor: “Fazei isto em memória de mim”, os Apóstolos e depois deles os seus sucessores, os bispos e os sacerdotes, têm sempre oferecido este sacrifício. 

No tempo dos Apóstolos, os cristãos já se reuniam para o que chamavam “a fração do pão” especialmente ao domingo. Nos Atos dos Apóstolos, lemos no capítulo 20: “No primeiro dia da semana, quando nos reunimos para partir o pão...” 

São Paulo diz muitas vezes que benziam e bebiam o cálice e que partiam e comiam o pão: O cálice de bênção, escreve ele aos Coríntios, que consagramos não é, porventura, a comunhão do sangue de Cristo? E o pão que partimos não é a comunhão do Corpo do Senhor?” (1Cor 10,16).

Monsenhor Pedro Arbex, A Divina Liturgia Explicada e Meditada. São Paulo: Editora Santuário, 1998. p. 9-18.
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