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O silêncio interior visto por uma irmã Carmelita - importância da interioridade e do recolhimento!


Disponibilizo este post sobre o silêncio, escrito há tempos atrás por uma Irmã Carmelita para o extinto blog "Em Defesa de Lefebvre" da queridíssima Teresa (Magdália). É um dos textos mais claros e profundos sobre o tema e que fiz questão de guardar, na época. É com muito gosto que o ponho aqui. Aproveitem.

***

«Silêncio não significa apenas exclusão de palavras e não pode ser considerado somente no seu aspecto negativo. Silêncio não é um estado de esquecimento, de vazio, de “nada”; pelo contrário, o silêncio ao qual nos referimos distingue-se pelo seu carácter positivo; é uma linguagem que transborda de uma presença impregnada de vida, de solicitude, de oblação.

O silêncio a que aludimos, “faz falar pouco para ouvir muito”. A necessidade de se derramar em palavras inúteis vai diminuindo progressivamente, porque existe uma vida interior cada vez mais intensa, que se vai impregnando da pura atenção ao OUTRO que é Deus...É o silêncio do egoísmo, das susceptibilidades, das vontades e dos caprichos.

Este silêncio é o comportamento indispensável para ouvir Deus e para acolher a sua comunicação; é a atmosfera VITAL da Oração, da Salmodia e de todo o Culto Divino.

Este silêncio é progressivo, amassado primeiramente em muito domínio, quer da língua, quer da imaginação e da memória. É deixar-se avassalar por uma Presença que não é outra senão Deus e da qual provém o silêncio do coração.

A necessidade e o valor do silêncio da língua – que é o mais elementar - encontram na Sagrada Escritura um precioso testemunho. Jesus, ao calar-se diante de Pilatos, eleva o silêncio a uma virtude heróica. Recorda com os seus ensinamentos a importância do silêncio. Retira-se para lugares desérticos e silenciosos para passar a “noite em oração” (Lc. 6,12).

O silêncio da palavra e das manifestações exigentes (violentas) do egoísmo dá passo ao silêncio interior.

Para vermos melhor a importância do silêncio interior, citaremos apenas alguns Padres da Igreja, a saber:
1-S. Gregório de Nazianzo recorda o “ deserto como fonte de progresso em direcção a Deus, de Vida Divina e chama ao Louvor a filha do Silêncio”.
2-S. Basílio recorda o valor purificador e a vantagem da “solidão silenciosa” para o encontro com Deus
3-S. João Clímaco insere o silêncio na “escala de perfeição” (10º, 11º e 12º)
4- Sto. Ambrósio fala da “taciturnidade como remédio da alma” e compara a “quem fala muito com uma vasilha furada incapaz de conservar os segredos do Rei”
5-Sto. Agostinho fala da “alegria de ouvir silenciosamente”

Na Tradição Monástica, o costume de retirar-se para o deserto a fim de ouvir Deus, praticado pelos primeiros eremitas e monges, já remonta aos tempos de Moisés, Elias e os demais profetas

Tanto na vida eremítica como na vida cenobítica e vidas mistas, o silêncio é um elemento fundamental para se criar um clima de atenção a Deus. Na vida cenobítica, desde os primeiros séculos, o silêncio aparece como preceito de perfeição, moralmente indispensável. Cassiano prescreve observar o silêncio rigoroso durante a noite, à mesa, no Coro e em todo o tempo que se emprega a cantar o Ofício Divino.

No nosso tempo, temos exemplos luminosos de uma atracção particular pelo silêncio: Santa Teresinha do Menino Jesus, Charles de Foucauld, mas principalmente a Beata Isabel da Trindade, chamada também a “Santa do Silêncio”, que sentiu em si a missão de atrair as almas ao silêncio e ao recolhimento interior.

O Silêncio interior

O silêncio interior, como se depreende da palavra que o classifica, é aquele que diz respeito ao nosso mundo interior, íntimo, que pode ser ajudado, só minimamente, pelo silêncio exterior. Apesar daquele não poder, de modo algum depender deste, acontece muitas vezes que se desencadeia o crescimento do silêncio interior a partir do exterior, porque o exterior criou um certo ambiente que propiciou a atracção da alma para o interior. Mas prestemos atenção ao reino interior, que há que pacificar e silenciar:

a)Silêncio da Imaginação e da memória: Enquanto o ser humano tem poder para “implantar” o silêncio nos seus movimentos exteriores, nos ruídos que a sua actividade pode suscitar, aqui, no ‘reino interior,' tem pouco poder. É todo um mundo em que só à força de muita paciência, perseverança e constantes esforços, poderá conseguir alguma coisa. À partida, temos de saber que o verdadeiro silêncio só pode ser outorgado por Deus, e normalmente isto acontece só depois de muitos esforços da nossa parte. É um dom para a Contemplação.

O encontro com Deus exige a exclusão das dissipações da actividade interior, exercendo sobre a mesma um controle efectivo. O homem, em primeiro lugar, tem de criar o ‘vazio’ nas suas ‘potências’ interiores - desocupar a alma de uma forma muito activa, esforçar-se constantemente por dominar – quanto dele possa depender - pensamentos, desejos, que normalmente se vão fixar naquilo que ama ou teme. É o “desocupar o Palácio da alma” de Santa Teresa, de recordações interiores que perturbam a paz, empregando todas as suas forças para entrar no recolhimento activo. Todo este trabalho de ‘silenciamento’ das nossas faculdades ‘sensíveis’ é muito necessário e até imprescindível para que o homem se encontre nas condições mínimas da verdadeira escuta.

b)Silêncio com as criaturas e Silêncio do coração: Este silêncio é um dos mais necessários àquele que procura “ver” Deus, possuir o coração puro requerido para a pura contemplação. É também chamado o silêncio do amor vigilante, que consiste em reagir, vigorosa e energicamente, contra todo o afecto puramente natural que se manifesta em pensamentos, conversas “interiores”, desejos demasiado ardentes, porque demasiado sensíveis, ‘à flor da pele’, como se costuma dizer, para se dirigir, com um movimento de fé e amor, a Deus. O homem deve vigiar o desejo de satisfações contrárias à Vontade de Deus : prazeres, gostos, preferências, simpatias absorventes, etc.; tudo aquilo que dificulta a adesão total ao Senhor É necessário fazer calar; calar estes desejos que dividem o coração humano através do exercício do ‘amor virginal’, desinteressado e disposto a renunciar a esses ‘objectos amados’, desejados, sacrificando as próprias exigências egoístas pelo bem alheio, através do dom generoso de si mesmo.

Ao nível sobrenatural, há que mortificar a devoção demasiado ardente, sensível; simplificar a sua relação com Deus (não multiplicar as orações, as penitências) e aceitar em paz as purificações que se manifestam de mil e uma maneiras no dia-a-dia, e tudo aquilo que, na Providência de Deus, Ele permite para nos livrar cada vez mais dos nossos apegos e maus hábitos a fim de estarmos livres para o Amor.

c) Silêncio do espírito e do juízo: A vida contemplativa do homem, quando chega a um certo nível de perfeição, pode resumir-se num só acto: abrir-se e escutar Deus, para receber a irradiação da Sua Luz, que só será possível se a inteligência permanecer livre e vazia de raciocínios, “razões” e juízos naturais, de investigações intelectuais e de intenções alheias a Deus . Este silêncio de que nos fala S. João da Cruz na Noite do Espírito significa o despojamento total do intelecto, é o "nescivi" (nada sei) de S. Paulo e o “apagar qualquer outra luz” de Isabel da Trindade.

Antes que Deus intervenha poderosamente com as suas purificações, o homem tem que fazer todo o possível por se purificar activamente; só assim é que ELE poderá agir, numa alma que se dispôs com o seu próprio trabalho.

O Silêncio Divino

Este silêncio é o silêncio mais precioso que o homem pode alcançar. Brota de uma vontade já totalmente decidida de se estar sempre unido a Deus, na mais completa abnegação pessoal. É um dom oferecido pelo próprio Deus a todo aquele que se deixou trabalhar pelo seu FOGO (grandes ou pequenas purificações; aquelas descritas por João da Cruz ou aquelas de que o Santo não fala; tudo o que faz parte da nossa vida pode transformar-se em momento privilegiado de purificação = santificação).

O grande teólogo P. Lacordaire Lagrange, deixou escrito que este silêncio representa o supremo esforço da alma que sai de si mesma, sem saber nem poder já expressar-se. A pessoa, para atingir este nível que lhe é oferecido por Deus, deverá antes ter-se abeirado do último e supremo esforço humano na colaboração com o trabalho de Deus; só depois é que as ‘núpcias espirituais’ acontecem.

Este silêncio não deve ser um silêncio qualquer, mas um silêncio amoroso, porque relacionado directamente com a Pessoa Divina.

Quando a intimidade divina é profunda, o silêncio distingue-se pela sua “pureza”, onde os ídolos e os desejos alheios a Deus começam a estar ausentes. O silêncio do coração torna-se em ‘puro desejo de Deus’, ' saudades de Deus ', reflexo de um coração não dividido. O silêncio que se vai alastrando a todo o ser da pessoa, é o próprio Deus que avança na posse da alma.

Assim, o silêncio interior é como o nosso ‘oxigénio’, é imprescindível à nossa vocação esponsal, vocação de pura união com Deus.

Fonte: Em Defesa de Lefebvre - Tradição Católica

Silêncio III e Final - Quietação da Vontade e Pureza de Intenção

Thomas Merton, O.C.S.O

Enfim, terminemos, por ora, este assunto. Não pensava eu, de início, que iria me render três artigos. Mas tudo bem. rsrsrs...

Tratemos, então, da quietação da potência volitiva. E aqui entramos num ponto essencial. Dizíamos, no texto precedente, que as distrações geralmente são condicionadas pelo que se ama e o que se teme. Há uma razão para isto. Desde que estamos desordenados pela 'cicatriz' do Pecado Original, nós ficamos com um quê de auto-suficiência e egocentrismo que nos faz querer agarrar o prazer e afastar freneticamente a dor. E é por isto também que nós vivemos em luta. Esta dinâmica do egoísmo mobiliza a vontade que, então, passa a desejar sempre o mais cômodo e confortável. Só que, se de um lado ela se apega a um destes supostos confortos, de outro continua atenta e agitada sondando as possíveis ameaças; é uma coisa neurótica, rsrsrs. Daí que, para sair desta tensão e adquirir a quietude, é preciso vencer esta tendência egoísta nossa. Não à toa os mestres da vida espiritual são também, em maior parte, pelo menos bons ascetas, pois ao egoísmo se vence com ataques múltiplos e estratégicos nas diversas áreas onde ele se manifesta.

Mas continuemos. O que que a vontade faz? Ela ama e ela quer. Para aquietá-la, isto é, para esvaziá-la de si é preciso, então, deixar de amar e deixar de querer. Mas deixar de amar o quê? Notemos o seguinte: a vontade segue sempre a intelecto. Se este estiver quieto, não apresentará objetos à vontade para que a eles se apegue. No entanto, isto é um pouco complicado. Pode não haver objetos conceituais. Mas há toda uma carga de experiência egoísta nossa, toda uma inércia para que, ainda que sem perceber, busquemos sempre o conforto. Isto faz com que, mal comecemos a rezar, a vontade passe a procurar uma posição mais confortável ou reclame da fome, da sede, do cansaço. Quer dizer, ela parece querer qualquer coisa, menos a oração. E a disciplina de que nós viemos falando exige que se lhe negue energicamente os caprichos. Estes desejos e quereres, movimentos da vontade, devem ser aquietados e ignorados. Não devem ser objeto de atenção. Os católicos orientais utilizam, por vezes, o termo apathia que, em seu sentido original, significa "não-passividade", isto é, não-possibilidade de ser perturbado por estas coisas. Claro que isto, próprio dos hesicastas, é já de uma disciplina alta. Mas, como diz a boa filosofia, o meio deve ser o mais proporcionado possível com o fim. Então, se queremos um silêncio mais perfeito, já sabemos que é por aí.

Não ceder às inclinações da vontade no momento de silêncio. Com o tempo, também ela se disciplina e repousa na paz. É quando a vontade abandona estes pequenos cuidados que, então, se vê livre para amar a Deus. Este é o objetivo.

Agora, eu não poderia terminar estes pontos de formação, sem falar de algo importantíssimo: a pureza de intenção. Isto é essencial! E é algo mais discreto do que, a princípio, podemos pensar. Primeiro, saibamos que, com Deus, nós precisamos ser maximamente sinceros. Acontece que a sinceridade se fundamenta no conhecimento próprio. Só quando conhecemos a nossa própria pequenez e a nossa facilidade de impregnar o que fazemos de orgulho é que podemos vigiar melhor sobre as intenções. É consenso entre os santos que há um estágio da vida espiritual em que Deus permite que a alma se conheça e, de repente, tudo aquilo que antes parecia um jardim de boas ações e intenções celestes revela-se, na verdade, um chiqueiro onde se guardam porcos que, postos a passear, lambuzam de lama e sujeira tudo quanto encontram pelo caminho. E é justamente aí, quando conhecemos, não só teoricamente, a nossa própria pequenez, ou como dizia S. Luís Maria Grignion de Montfort, "a nossa incapacidade para qualquer bem", é só aí que podemos ser mais sinceros.

Até lá, não raro por trás dos termos devotos que utilizamos, se escondem segundas intenções, duplicidades, desejos discretos de que nos admirem e tentativas egoístas de seguir o nosso próprio caminho. O amor autêntico a Deus ainda não provocou em nós o êxtase que lhe é próprio, isto é, ainda não fez com que saíssemos de nós mesmos. Estamos ainda, ao contrário, cultivando resquícios de simpatia alheia. Ser sincero neste contexto é coisa difícil. Lembro-me agora - e não tem nada a ver com religião, rsrs - uma frase que o Bruce Lee pronunciou numa entrevista, e que pode nos servir de analogia. Dizia ele mais ou menos o seguinte: "eu posso, como ator, como artista marcial, fazer todas as acrobacias possíveis; dar saltos majestosos e chutes inacreditáveis. No entanto, ser sincero, meu caro, isto é muito difícil".

Quando nós estudamos todo este ambiente da mística católica - e o que modestamente escrevi acima ainda não tem nada de místico - é natural que nós nos encantemos com os bens que daí provêm. O Thomas Merton escreve, num de seus livros, que há certas coisas na vida espiritual que, uma vez experimentadas, podem fazer com que uma pessoa passe o resto da vida tentando retomar aquilo. Mas com esta atitude, ela não conseguirá, e isto me lembra Nárnia: "não tentem seguir o mesmo caminho duas vezes".  Pois bem. Quando notamos como estas coisas são apetecíveis, o nosso egoísmo já encontra aí outro objeto do qual vai querer se apossar e aqui ele é mais chato porque se reveste de um aspecto espiritual. É por isto que estes aventureiros que dizem querer ir às matas para meditar (kkk) não devem fazê-lo, pois poderão aí se tornar marionetes do próprio egoísmo. Isto é algo que não se inventa...

A pureza de intenção nos ensina a fazer tudo por Deus somente. O Thomas de Kempis, na Imitação, nos ensina que a intenção simples, isto é, direta, alcança a Deus. Com isto em vista, a nossa busca pela quietação deve se fundamentar no amor a Deus e na busca de dispôr-se a Ele. Ao contrário, o nosso amor próprio pode tentar interferir; de que forma? Primeiramente, praticando estas coisas com vistas nos efeitos do silêncio: paz, clareza da visão, profundidade espiritual e, quem sabe até se esconda aí um desejo discreto de admiração alheia. Depois, uma vez que se alcance uma relativa tranquilidade, poderá surgir uma sutil tendência de querer, ou estender aquilo, ou intensificá-lo. É como uma intervenção pessoal com vistas a melhorar o efeito, rs... Nós somos uma graça, rsrsrs. Mas, com esta simples atitude, nós saímos da gratuidade - condição necessária para o acesso a Deus - e, naturalmente, nos impossibilitamos de ir adiante ou, se tínhamos alcançado um certo grau de contemplação, somos daí expulsos, porque, então, quisemos nos apropriar aquilo.

Fazer silêncio para adquirir egoisticamente paz e solidão, escrevia o Pe. Louis, faz com que não se alcance nem um nem outro. No entanto, se silenciamos por Deus, então Deus, a paz e a solidão nos serão dados. Uma outra forma ainda de interferir é querer ter aquilo que se experimentou sempre ao alcance da mão. Daí que, tão logo sinta algo interessante, o sujeito já se tensiona numa tentativa obcecada de decorar o método que o fez chegar até ali. Com isto, ele decresce a graça, reduzindo-a a um produto natural de um método, abandona o silêncio, reforça o seu egoísmo e sua auto-suficiência e manifesta um ateísmo prático. Não espanta que um sujeito assim não progrida. Acontece que, muitas vezes, esta é a nossa história. É que estas coisas não são tão gritantes. Podem se dar meio que na penumbra. Importa, então, vigiar para que a nossa pobreza seja autêntica e constante. Lembremos que são bem aventurados o pobres, pois verão a Deus. A contemplação somente se torna acessível aos pobres.

Bem, vou terminando. Estes pontos podem servir para mover alguém a se interessar mais por estes assuntos, mas não são mesmo suficientes para quem quiser abraçar um recolhimento maior. Como eu já disse, vão a S. João da Cruz. Eu gosto muito, ainda, do Thomas Merton, pelo menos enquanto ele escreve sobre a vida espiritual cristã, rsrs.. Gregório de Nissa é outra boa; ah, e claro, a grande Santa Teresa D'Avila. A Beata Elizabete da Trindade, pelo que sei, também apreciava bastante a temática do silêncio. Vão a esse povo...

Reconheço também que, como meu conhecimento neste assunto é ainda modesto, sobretudo no que diz respeito à prática, eu posso ter cometido um ou outro equívoco - não sei se o fiz, rs... Mas nestes textos vai também muita coisa que pode ser aproveitada. Enfim, reafirmo minha submissão inteira e total à mística tradicional da Santa Igreja Católica Apostólica Romana, de modo que, se algo, neste ou noutros artigos, difere do seu ensino, que seja imediatamente tido como falso.

Salve Maria Santíssima!

Fábio

Silêncio II - Quietude Interior

S. João da Cruz, Doutor Místico da Igreja

Seguindo a temática da postagem precedente, tratemos, então, do silêncio propriamente interior, que é o que mais importa.

Há, como eu já referi de outra vez, uma atitude que é comumente recomendada e que consiste, segundo se diz, em pôr-se à escuta de Deus, isto é, colocar-se em receptividade à voz divina. Só que esta expressão é análoga e, se não se explica, lá se vão os sujeitos procurar qualquer coisa que se assemelhe a uma voz sensível, ainda que imaginada. E é claro que, quando se procura algo desse tipo, a imaginação encontra espaço pra atuar. Estas supostas visualizações - que são a mesma experiência transmutada ao campo da visão - e supostas palavras 'reveladas' provenientes da oração são, na extrema maioria dos casos, criadas pelo próprio indivíduo. É um caso de ingenuidade, mas que pode viciar e dar uma visão totalmente errada sobre Deus, sobre a vida espiritual. Suponhamos que o sujeito imagine um disparate, tipo: Deus agora tornou-se um quarteto.. rs Esse absurdo, para o rapaz lá, terá uma autoridade supostamente divina, pois ele está crente de que foi Deus quem lho revelou. Uma coisa muito parecida é o que acontece na RCC e em todos estes movimentos pentecostais, que prezam muito pelo subjetivo, erigindo-o como critério de verdade. Além do que a vaidade humana encontra aí seu deleite, pois tais revelações, claro, Deus só as faria aos seus favoritos! Juntou-se então ingenuidade, auto-ludibriação, e a comodidade da suposta preferência divina.

Este assunto, pouco tratado embora tão importante, daria um post inteiro e ainda ficaria muita coisa por dizer. Para nós, agora, importa mostrar que o que se afoita em busca destes sinais divinos impede, na prática, o silêncio. A disposição a Deus, então, significa outra coisa. É óbvio que esta busca non sense de que falamos impede que a alma se aquiete, pois ela - a alma - mantém-se ativa enquanto procura o tal objeto - a voz divina - que pensa poder encontrar. E este é um outro impedimento para o recolhimento, para a solidão interior, para a quietude espiritual. O que se fazer, então? Primeiro, seria importante ter uma pelo menos modesta formação sobre a espiritualidade católica, sem mesclas de gnose e pentecostalismo. Isso é importante e creio ser capaz de fazer cessar esta caçada por sinais divinos e sensíveis. Leia-se a este respeito, sobretudo, S. João da Cruz.

Pois bem. A fim de estabelecermos o silêncio que estamos buscando, é preciso que nos esvaziemos interiormente. Para isto, focamos, principalmente, quatro faculdades: o intelecto, a memória, a imaginação e a vontade.

Se pretendemos o silêncio estrito, comecemos por não pôr objetos ao nosso intelecto no momento desta prática. Existem os métodos de oração em que o intelecto aprofunda as verdades de fé e estuda as implicâncias delas. Aqui é diferente. Se o que se busca é o silêncio, então o intelecto vai ficar quieto. Simplesmente não se ponha nada sob análise, e aqui vai algo sutil: é possível que, enquanto silencia, o indivíduo, crente de que está quieto, esteja, ao invés, avaliando o próprio método e atento às 'regrinhas' do processo.. rsrs. Ao contrário, devemos aprender a fazer isto de um modo bem natural e simples, "fazendo como se não fizéssemos", para relacionar com S. Paulo. Nada de ficar obcecado por métodos de oração e regrinhas de 'como-fazer'. O que aqui vai escrito não são regras; são antes formas de fazer compreender do que se trata o silêncio e dos meios genéricos para o recolhimento.

Depois de aquietado o intelecto e abandonados os conceitos, a memória deve, também, ser aquietada. Para isto, devemos nos disciplinar a não evocar lembranças. E, ainda que elas surjam, exercer um pequeno esforço para que se aquietem e não dar atenção às que surgiram. Suponhamos, então, que lembremos de algo pecaminoso; o que fazer? Obviamente que, à primeira vista, tal coisa poderá agitar a alma e a pessoa poderá até preocupar-se exageradamente. Não é preciso tanto. A primeira coisa é tratar com indiferença e não dar atenção àquilo, tentando calmamente voltar à solidão anterior. Se ficamos receosos demais dos 'maus pensamentos', aí é que eles se insinuarão. Por isto, é importante saber que a dinâmica destas distrações geralmente consiste em destacar coisas amadas ou temidas, concordando isto com o elenco das quatro paixões descritas por S. João da Cruz: a esperança e o gozo com as coisas amadas, e o temor e a dor com as coisas temidas.

Esvaziada a memória, chega a vez da imaginação. Estou pondo isto numa sucessão para facilitar a compreensão. Não se trata, porém, de um 'passo-a-passo' cronológico. Creio que, falando a grosso modo da quietude da imaginação, damos a entender a forma de como lidar com a fantasia, outra faculdade interior, devido à semelhança entre ambas. Vamos lá. A imaginação é, como dizia Sta Teresa D'Avila, a "louca da casa". E muito do que ela mostra deve ser desconsiderado, sobretudo se o que a motiva são aquelas quatro paixões de que falamos acima. No caso da oração, se estabelecemos o silêncio nas outras faculdades, a imaginação simplesmente ficará sem um objeto definido, pois ela tende a vincular-se com os objetos sobre os quais meditamos ou dos quais lembramos. E, deixada assim 'à toa', ela inicia o seu desfile de estranhas figuras, rsrsrs...

E aqui devemos seguir o que já vínhamos fazendo: Buscar calmamente o silêncio, também da imaginação. Mas nada de violências; isto agita. Se ela mantém-se 'brincalhona', importa ser-lhe indiferente. Para isto, o autor anônimo do livro "A Nuvem do Não Saber" recomenda que se olhe como que por cima das distrações. São como crianças que, em busca de atenção, fazem todo tipo de coisa. Ignore-as e, com o tempo, elas tendem a se aquietar.

É claro que este assunto é extenso e pode ser mal compreendido. E aqui vai muitíssimo sucinto. Sobretudo, este é um tema eminentemente prático. Em níveis naturais, o silêncio é questão de disciplina. Claro que, mesmo aí, o auxílio de Nosso Senhor é imprescindível. Mas há níveis mais perfeitos e sobrenaturais de quietude, e, para saber algo a respeito, basta procurar na vida dos santos. Leia-se, por exemplo, o conhecido e grande S. Pio de Pietrelcina e os "vazios perfeitos" de suas orações.

Este silêncio natural, a que chamamos também de ativo - porque depende, essencialmente, do nosso esforço e iniciativa - dispõe para a contemplação ou o silêncio mais perfeito. Importa perseverar.

Continuo...

1º dia do Semi-Retiro GRAA - O silêncio I

S. Rafael Arnaiz Barón

Hoje, dia 06/03/2010, Domingo do Senhor, iniciamos o semi-retiro do GRAA. Depois de tantas dificuldades e de sucessivas decepções, torna-se vislumbrável o motivo de tudo isto. Nosso Senhor, nestes dias, é deixado só. Que modo melhor de viver o amor a Ele do que fazer-Lhe companhia? Refletíamos um pouco sobre isto: no carnaval, a angústia do Senhor é como que estendida e, de novo, ele precisa de amigos por perto: "vigiai comigo, pois minha alma está triste até a morte".

Desde a manhã, lá fomos nós, meio de que improviso, a um retiro numa chácara aqui perto a fim de assistirmos a Santa Missa, pois, infelizmente, não dispúnhamos de outra oportunidade. Já à tarde, de volta, fomos a uma capela, onde há a Presença Real de Nosso Senhor e aí O adoramos e refletimos um pouco sobre a temática do silêncio.

Ponho, pois, abaixo, alguns pontos da nossa formação.

**

O silêncio é, sem exceção, elogiado por todos os mestres da vida espiritual. S. Bento o chama de "mestre dos mestres". Todos os amigos de Deus foram amigos também do silêncio. A própria Santíssima Virgem é admirada por seu silêncio perfeito. E o próprio Cristo, nosso modelo, distinguiu-se pelos seus retiros e pelo silêncio heróico que praticou na Sua Paixão.

Dizia um santo que o cristão que vive agitado e curioso esqueceu-se de si mesmo. Uma outra santa dizia, por sua vez, que os amigos do silêncio não podem não sentir prazer nas coisas divinas, pelo que a tibieza, a falta de interesse nos assuntos da religião é indício de pouco recolhimento. Para muitos, o grande critério para observar se alguém é verdadeiramente espiritual é saber se ele aprecia o silêncio. É óbvio que o grau de recolhimento é também determinado pela vocação. Por isto, os religiosos e os monges estão obrigados a um silêncio mais estrito.  No entanto, qualquer que seja o cristão e sua vocação, ele deverá fazer do silêncio uma prática recorrente.

Mas em que exatamente consiste o silêncio? Já tivemos ocasião de escrever um artigo sobre o assunto. 

O silêncio é, à primeira vista, identificado com o simples calar vocal, com a quietação da língua. rs... No entanto, para a finalidade da religião, que é a união com Deus, tal não é suficiente; é só um início. Porém, é um primeiro passo necessário. Mas há pessoas que sequer observam este ponto. Julgam que rezar significa falar constantemente e nunca parar. Já topei com pessoas assim, para quem a oração silenciosa é qualquer coisa de estranho. Faziam de tudo para não calar; apelavam até para sons ininteligíveis, mas a prática do silêncio era escassa... Estritamente falando, nem havia.

O silêncio é muito necessário para a vida espiritual. Nosso Senhor diz, no livro de Oséias, que levará a alma à solidão a fim de falar-lhe intimamente. Uma outra santa da Igreja vai afirmar que a alma se coloca em solidão quando silencia. É, então, que ela se dispõe para o diálogo divino. Um outro aspecto, porém, do silêncio - e ainda estamos tratando do seu aspecto mais externo - é a disciplina de manter-se fisicamente parado. É cômico ver como parece haver um festival de pulgas em certos indivíduos quando se põem a rezar. Não param um minuto de se coçar, ou então, ficam acompanhando com movimentos ritmicos das pernas alguma música inexistente..rs Simplesmente não sabem ficar quietos. Certa vez, eu estava fazendo adoração, e o sujeito do meu lado, além de não parar de se remexer na cadeira, ficava a fechar e abrir repetidamente o ziper da sua Bíblia.. rs... E tudo isto, embora soe cômico, é capaz de fazer um cristão estacionar na oração a vida toda até, quando tudo o que deveria fazer para adiantar era disciplinar-se. Mas, segundo dizem, essas são só sutilezas sem muita importância.. rsrsrs...

O ambiente em que se está, não obstante não seja mesmo determinante para o estabelecimento do silêncio interior - que é o que verdadeiramente importa - pode muito contribuir para ele. Sobretudo, para os que não têm experiência no recolhimento, a fim de adquirem este hábito, seria muito conveniente providenciar para que o local fosse minimamente proporcionado à pacificação da alma que, então, se busca. É possível silenciar o interior mesmo num ambiente barulhento, mas isto já exige uma maior experiência.

Estamos até agora falando de aspectos exteriores, mas, segundo dissemos, o foco deve ser o interior. No caso do comportamento em oração, embora o mexer dos pés ou o coçar-se sejam atos externos que, com uma modesta disciplina, podem-se abandonar, eles já são expressão de uma alma inquieta. Antes, porém, de entrar propriamente no silêncio interior, tratemos de mais um aspecto que, não obstante seja exterior, representa como que uma intersecção entre a interioridade e a exterioridade: a disciplina dos olhos. O mover ou o fechar dos olhos é algo externo. No entanto, como disse Nosso Senhor, os olhos são a janela da alma. Diz Aristóteles que, dentre os sentidos, são eles que mais nos oferecem informações e, naturalmente, mais distrações. Se, para a oração, convém recolher-se para voltar-se a Deus, é óbvio que a quietude dos olhos desempenha condição importante. E aí, eu lembro daqueles sujeitos que, enquanto ficam balbuciando algo que nem sabem direito o que que é, vão explorando com o olhar todo o ambiente e observando tudo o que acontece, decorando o vôo dos mosquitos e se admirando de objetos que estão ali há anos e que, misteriosamente, em momentos alternativos à oração, não despertam qualquer interesse. Quando não é isto, ficam com os olhos perdidos no nada, o que denuncia o profundo fervor destes indivíduos. Definitivamente, não sabem rezar e da vida espiritual andam longe, longe...

É importante, portanto - e isto pode ser entendido como "silêncio dos olhos" -, manter os nossos amiguinhos fechados ou, se diante do Santíssimo Sacramento, por exemplo, conservá-los fitos nEle, resistindo às distrações. Estas coisas 'sutis' fazem uma grande diferença, seja porque permitem que a alma se disponha no que está fazendo, seja porque Nosso Senhor muito se agrada dessas delicadezas.

Logo mais, continuo...

Sobre o silêncio na oração


Há quem pense que fazer silêncio enquanto se reza se resume apenas a ficar calado exteriormente. Antigamente, era comum que ficássemos na capela com o Santíssimo e havia, naturalmente, os momentos de silêncio. Enquanto, porém, cessavam os ruídos vocais (pelo menos os articulados), se iniciava uma orquestra de outros sons, provenientes das contínuas mudanças de posição, dos pigarros, dos suspiros, dos zippers das bíblias, etc... Obviamente que não havia silêncio. E a oração ficava sempre no superficial.

Outra forma de se entender o silêncio é o que chamam de "uma abertura ao ouvir". Se isto é importante porque põe a alma numa posição receptiva com relação a Deus, tem também seu fator desinteressante: muitos ficam esperando mesmo ouvir literalmente alguma coisa. Ora, isso é um prato cheio para a imaginação. E quando "ouvem" ou "visualizam" alguma coisa, isto é, quando imaginam, se adiantam logo a pretender que seja Deus falando... E aí se praticam as maiores ingenuidades e non senses e Deus é quem leva a culpa. rs...

Não. O silêncio, o verdadeiro silêncio tem que ser algo mais sincero, mais puro e mais profundo. Claro que há, poderíamos dizer, vários níveis desta quietação, e pretendo tratar brevemente a este respeito.

Primeiramente, se requer uma disciplina mínima pra aprender a se ficar quieto. Há pessoas que não sabem rezar sem se coçar ou balançar as pernas. Tem quem nem se force a ficar de olhos fechados. Se se obstinam nestas criancices, nunca saberão o que é oração.

Esta questão do ficar quieto é muito importante, e também dá disciplina à alma. De início, já seria interessante reservar pelo menos um tempo pra treinar só isso aí. Os padres do deserto, logo quando iniciavam a vida monástica, eram recomendados a permanecer na cela, só isso... O próprio fato de se aquietarem lá faria com que avançassem na vida espiritual. Pronto! Essa mínima disciplina se requer...

Depois, o fato de se pôr na presença de Deus é o que define, exatamente, a oração. Sta Teresa D'Avila dizia que, na oração, não importa falar muita coisa, mas amar muito. Ela mesma critica o costume de alguns, ainda tão comum nos dias atuais, de ficar falando coisas continuamente de uma forma mecânica, sem pôr o coração naquilo que se diz. A oração deve ser um diálogo ou interrelação entre a alma amante e o Senhor amado. Este encontrar-se na presença do Outro, que é Deus, é o que caracteriza a oração. Mas tratemos ainda do silêncio.

Calar a boca é já um começo, mas geralmente a boca reproduz, por meio dos sons, aquilo que se concebeu no espírito, isto é, a boca traduz em palavras as idéias da alma. É conveniente, portanto, não apenas calar a boca, mas também aquietar os pensamentos e os sentimentos. O que pretendo dizer? Que, depois de ter estabelecido o silêncio no exterior, começamos a aquietar também o interior. É aí que passamos a observar o silêncio propriamente dito.

S. João da Cruz diria para pôr os sentidos na noite, isto é, esvaziá-los de sua operação comum. Por isto, fechamos os olhos... Mas e os demais sentidos? Entendemos, aí, como não é conveniente ficar procurando sons espirituais (audição), nem fragrâncias (olfato), nem visualizações (como que uma visão interior), nem arrepios (tato), nem experimentar suaves sabores (paladar). Esta busca por experiências indica atividade do espírito e, portanto, impede a quietude.

Além dos cinco sentidos comuns, S. João da Cruz traz mais dois, aos quais chama sentidos internos: a fantasia e a imaginação. Tão logo a alma pretende pôr-se em oração silenciosa, estas duas iniciam o seu desfile de estranhas figuras. Haveria muito o que dizer sobre a atitude a tomar diante desta aparente dificuldade, mas é suficiente dizer que a paciência silenciosa é a melhor atitude; uma como que indiferença... Isto acontece, segundo o doutor místico, porque os sentidos não encontram um objeto definido para se fixar, sendo Deus totalmente transcendente a qualquer objeto sensível que se possa conceber. Porém, com um certo tempo, também estas figuras se aquietam...

Há quem diga que, nesta atitude, a alma não faz nada, pelo que não pode se dar nenhum mérito. S. João da Cruz responde à objeção afirmando que não faz pouco quem se aquieta a si mesmo, pois aquietar-se é, verdadeiramente, dispor-se, abrir-se ao Outro que é Deus.

Além do silêncio dos pensamentos, imagens, etc..., requer-se também o silêncio das vontades. É comum que, quando se ponha em oração, surja a impaciência e se façam notar outras sensações, como a fome, o incômodo da posição, entre outras. Tudo isto se resume nisso: a vontade de estar a fazer qualquer outra coisa. Isto é um produto da sensibilidade que deseja sempre o mais agradável. Aquietar-se, também neste sentido, significa esvaziar-se desta busca de bem-estar, de modo que o que é saboroso não seja buscado somente porque é saboroso, e o que é incômodo não seja evitado por ser incômodo. Isto parece se assemelhar à Hesychia dos monges orientais, que busca, entre outras coisas, a apathia ou perfeita indiferença as estes incômodos externos, donde se afirmava ser possível um estado de imperturbabilidade.

O próprio doutor da noite, resume bem isto com a sua célebre frase:
"Para vir a saborear tudo, não queiras saborear coisa alguma"... O que S. João da Cruz pede aqui é para aquietar a vontade.

Mas não voemos tão alto quanto os monges orientais, por ora. Observemos, no entanto, como o silêncio, bem compreendido, difere do que se costuma entender...E isto é importantíssimo. São Bento, a quem celebramos dias atrás, dizia ser o silêncio o mestre dos mestres, pois ensina sem palavras. Se a alma buscar a Deus com sinceridade, Ele mesmo haverá de ensinar-lhe estas coisas, desde que, naquilo que depende dela, a alma busque aprender da Igreja.

Retomarei alguns pontos noutro post...

Fábio.

O silêncio na Santa Missa

"Observar-se-á também, na altura própria, um silêncio sagrado.[17] Por meio deste silêncio, os fiéis não se vêem reduzidos a assistir à acção litúrgica como espectadores mudos e estranhos, mas são associados intimamente ao Mistério que se celebra, graças àquela disposição interior que nasce da Palavra de Deus escutada, dos cânticos e das orações que se pronunciam e da união espiritual com o celebrante nas partes por ele ditas."

Instrução Musicam Sacram
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