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Noite de São Bartolomeu IV e Final - Do número das vítimas


I. Divergências dos historiadores.
II. Número verossímil das vítimas em toda a França.
III. Questão acessória: É verdade que Carlos IX tenha atirado contra os protestantes?
Conclusão.

I. Seria pretensioso querer determinar, mesmo aproximadamente, o número das vítimas da São Bartolomeu, quer em Paris, quer nas províncias. Entre os diversos historiadores, a diferença é por demas sensível e suas divergências se explicam. Uns e outros são levados a aumentar ou a diminuir o número, segundo seu interesse ou partido. É de notar também que os autores acham complacência em aumentar tanto mais o número das vítimas, quanto mais afastados se acham do tempo de que escrevem.

O calvinista La Popelinière o avalia em mais de dois mil por toda a França, e em mil só em Paris; Tavannes em dois mil só na capital. Papyre-Masson, contemporâneo protestante, mais tarde convertido, conta dez mil vítimas; o Martirológio protestante, impresso em 1582, dez anos só depois dos acontecimentos, quinze mil; de Thou, apologista dos protestantes, fala em trinta mil; Davila, pagem de Catarina de Medicis, e mais tarde historiador das guerras de religião na França, elevou o número a quarenta mil; Sully, apegado aos erros dos calvinistas, a setenta mil; e Péréfixe, bispo de Rodez, preceptor de Luiz XIV, cujo fim era inspirar horror por aquela tragédia, chega até cem mil.

II. Apesar das buscas dos eruditos e dos documentos históricos publicados, seria temerário adotar um número exato, e o mais prudente é ainda, como no tempo em que o padre Caveirac publicava sua Dissertação sobre a São Bartolomeu (1758), tomar por base os cálculos do próprio Martirológio dos calvinistas.

Eis o seu quadro.


Cidades
Número Geral
das Vítimas
Número daquelas que são nomeadas
Paris
Em geral, 10.000, detalhadamente 468
152
Orléans
1.850
156
Meaux
225
30
Troyes
37
37
Burges
23
23
La Charité
20
10
Lyão
1.800
144
Saumur et Angers
26
8
Romans
7
7
Ruão
600
212
Tolosa
306
0
Bordéus
274
7
Total
15.168
786



O autor desse Martirológio, contemporâneo dos fatos, calvinista de religião, encarregado de modo quase oficial desse trabalho, não julgou poder levar além de 15.168 o número das vítimas; pois deve ser ele considerado como um total máximo. Ainda, oferece lugar a justas observações.

1º O total, dado pelo Martirológio, não será sensivelmente exagerado? Há muitos motivos para o acreditar. Em primeiro lugar, não é de admirar que, depois de ter indicado em geral 15.168 vítimas, o autor não possa designar pelo nome mais do que 786. Dir-se-á talvez que citou só as mais ilustres. Mas não é isso, pois que nessa enumeração há nomes de pessoas desconhecidas e de nenhuma importância social. Deve-se então concluir que na realidade, não houve mais que as 786 vítimas nominalmente designadas? Tal não pretendemos; sabe-se, com efeito, o que acontece nos tumultos populares. Contudo, há de se convir que, entre a generalidade e os pormenores, a diferença é por demais sensível.

2º O autor dá em Paris o número total de 10.000 vítimas e detalhadamente só acha 468, e de todos aqueles infelizes mortos nas ruas de Paris, nominalmente designa apenas 152. Segundo o Martirológio, a maior parte dos cadáveres foi lançada no Sena. Ora, um documento autêntico, uma conta da casa da câmara municipal, dá o número exato dos cadáveres retirados do Sena e sepultados nos arredores de Saint-Cloud, Auteuil e Chaillot: 1.100 corpos recolhidos foram enterrados. As avaliações dos contemporâneos menos suspeitos, ficam pouco abaixo ou acima desse número, e demonstram que o total de 2.000, dado por Papyre-Masson, nem foi alcançado, e que La Popelinière é mais chegado à verdade quando fixa em mil as vítimas na capital.

Reduzindo na mesma proporção os números indicados pelo Martirológio calvinista para as outras cidades, chega-se a esta apreciação geral, que o total das vítimas, em toda a França foi apenas de 2.000: é certamente demais; mas vai longe disso as exagerações dos protestantes e dos ímpios.

III. Agora que se há de pensar desta asserção que o próprio Carlos IX, na manhã de São Bartolomeu, de uma janela do Luvre, tenha atirado contra os protestantes? Essa afirmação é de Brantôme e acrescenta ele ainda que o mosquete do rei não podia alcançar o alvo. D'Aubigné, de Thou, o duque de Anjú na sua narrativa a Miron, em suma, nenhum dos contemporâneos fala desse pormenor. O testemunho de Bratôme é consideravelmente infirmado: 1º pelo fato, por ele próprio confessado, que se achava a mais de cem léguas de Paris; 2º por este trecho de um panfleto protestante de 1579, Le tocsin contra les massacreurs: "Nesta circunstância, o rei não poupava sua pessoa; não que ele próprio manchasse as mãos com o sangue, mas porque ordenava que lhe trouxessem os nomes dos mortos e dos presos"; 3º a janela do Luvre, em que a comuna de Paris (1793) decretou que seria colocado um cartaz infamante, em memória de Carlos IX atirando contra o povo, não existia no tempo desse rei: aquela parte do Luvre foi construída só no fim do reinado de Henrique IV.

Eis portanto, reduzido às proporções da verdade histórica, o que foi o massacre da São Bartolomeu. 

1º Fica pois provado e é do domínio da história que nem o papado, nem o partido religioso, que compreendia então a maior parte da nação, não podem ser em nada responsáveis de um acontecimento que não prepararam e ao qual não foram associados senão por atos isolados, individuais, de alguns católicos ardentes que conservam a responsabilidade pessoal do que fizeram.

2º A questão de premeditação, tantas vezes invocada, não pode ser admitida por um espírito sério e leal: seria incriminar as intenções, por meio de suposições e conjecturas perfeitamente gratuitas.

3º É demonstrado que o Martirológio mesmo é suspeito de erro em muitos pontos, exagerou o total das vítimas, e, aos números extravagantes citados por historiadores levados pelo preconceito, é permitido opôr cálculos mais equitativos que reduzem as vítimas a dois ou três mil. Certamente este número, por restrito que seja, é ainda muito grande e permanece como uma mancha sangrenta na história francesa, estigmatizando a fronte de Catarina de Médicis e de Carlos IX com um ferrete tanto mais odioso que o atentado foi decidido em conselho de governo.

Contudo, é permitido concluir com um escritor protestante da Inglaterra: "Não se deixem ofuscar os leitores atentos, diz Cobbet, pelas declamações filantrópicas e filosóficas, nas quais a palavra São Bartolomeu produz sempre um tão admirável efeito. Lembrem-se que na época de que falamos, Isabel, chegada ao décimo quarto ano de seu reinado, fez assassinar um número de seus súditos, por terem permanecido fiéis à fé de seus pais, muito maior do que o total de protestantes que sucumbiram no tumulto da São Bartolomeu(1)"


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(1) Cartas sobre a Reforma, carta X.
Nestes últimos tempos , apareceram numerosos e sérios trabalhos sobre esta importante questão histórica. Entre os autores mais conhecidos, citemos: na Inglaterra, Henrique White; na Alemanha, Leopoldo Ranke, Raumer e Soldan; na Itália, Eugênio Albert ou o P. Theiner; na França, Henrique Martin, Alfredo Maury, Boutaric, o visconde de Meaux; todos unâniomes, sem ter entrado em acordo, demonstram que o crime da São Bartolomeu, reprovado igualmente por todos, tinha pelo menos a desculpa de não ter sido premeditado. Capefigue no seu livro, La Réforme et la Ligue, prova a mesma verdade; de Falloux (Correspondant, 1886 a 1885) mostrou que aquele deplorável acontecimento pertence exclusivamente à política e não à Religião; enfim Carné, na Revue des Deux-Mondes (1845); Jorge Gandy, num primeiro estudosobre a São Bartholomeu, suas origens e seu verdadeiro caráter (nºs de julho e outubro de 1866 na Revue des questions historiques, t. I), e numa apreciação do livro do senhor de la Ferrière sobre a mesma questão (Revue des questions historiques, t. XLI, abril de 1892); e G. Baguenault de Puchesse (mesma Revista, t. XXVII, janeiro de 1880), livraram igualmente da censura de premeditação e cilada Catarina de Médicis e Carlos IX. Aos olhos da sã crítica, pode-s dizer que a luz está feita sobre este triste acontecimento do século XVI. Achar-se-á a questão longamente tratada no livro do padre Lefortier, la Saint-Barthélemy et les premières guerres de religion en France (1879), e um excelente resumo na brochura de Henrique Hello, la Saint-Barthélemy (1899).

Pe. Cauly, Curso de Instrução Religiosa, Tomo IV, Apologética Cristã, Parte Histórica, Cap. III, pp.413-417.

Artigo III - A São Bartolomeu foi um ato de proscrição política

Catharina de Médicis e Carlos IX

I. Culpabilidade pessoal de Coligny
II. O massacre não foi premeditado
III. Massacres nas províncias

I. As virtudes guerreiras de Coligny, a apologia que Voltaire fez deste personagem, e o culto que lhe dedicaram os protestantes, fizeram por demais esquecer suas ofensas contra o rei, contra a pátria e contra a Religião. Pegando em armas contra o Estado, Coligny tornara-se criminoso de lesa-majestade. A prova de sua rebelião não interrupta acha-se no Diário de suas receitas e despesas, por onde se vê que esbulhou os súditos do rei para mover guerra contra o monarca; nos papéis do almirante, onde se podem ler suas conspirações; nas Memórias de Villeroy, de Brantôme, de Tavannes e de Montluc. Percorrendo-as, ficar-se-á facilmente persuadido que Coligny se tornara insuportável a Carlos IX e a Catarina de Medicis, ao mesmo tempo que se declarava o inimigo encarniçado dos Guises, o cúmplice e o instigador de Poltrot, assassino do duque, cuja morte tanta alegria lhe causara... Por certo, depois de tantos motivos de queixa, não é necessário procurar na Religião um pretexto para esta proscrição inteiramente política.(1)

Julgamos suficiente porém lembrar as últimas circunstâncias que precipitaram o desfecho de uma crise tão longa.

"Durante os reinados de Francisco II e de Carlos IX (1560-1574), Catarina de Medicis, - que de fato governava o reino, - introduziu, na direção dos negócios, uma maquiavélico e perigoso sistema de balança, que consistia em enfraquecer uns pelos outros, por meio da astúcia ou da força, tanto os defensores como os inimigos do Catolicismo, sistema impossível e aliás perigosíssimo; impossível, porque, em parte alguma, as idéias de conciliação e tolerância, em matéria de religião, eram aceitas; perigosíssimo, porque a força de poupar ou favorecer os partidos contrários, acabava-se fatalmente por congregá-los contra si próprio, por originar reações violentas, e não ter outro meio de sair da confusão e do caos senão as catástrofes (2)."

Esta política de partido intermediário manifestara-se no colóquio de Poissy (1561). Inspirou o edito de janeiro de 1562 que assegurava aos reformados o livre exercício de seu culto, permitindo-lhes as predicas fora das cidade. Fiel a esta mesma política, a rainha mãe, assina, em 1570, a paz de São Germano, que concedia tais vantagens aos protestantes que os católicos, logo em seguida às suas vitórias de Jarnac e de Mocontour, se julgaram traídos. Quatro cidades fortificadas estavam entregues aos protestantes por dois anos; ficavam admitidos a todos os empregos, de modo que se pôde dizer que "a realiza capitulou como um vencido".

O almirante Coligny triunfava com todas aquelas concessões; o rei o temia e era influenciado por ele, a tal ponto que Catarina de Medicis ficara apavorada com o ascendente do almirante. É então que a situação veio a complicar-se com um projeto de guerra contra a Espanha, guerra por cuja realização muito se empenhava Coligny. A ela, porém, se opunha a rainha mãe. Desesperada esta por ver que o almirante era mais rei do que o rei, armou o braço de um assassino.

A 22 de agosto de 1572, ao voltar do conselho, Coligny recebeu um tiro de bacamarte. O almirante foi somente ferido, Carlos IX o visita, consola, jura vingá-lo. Por outro lado, os protestantes ficam furiosos e vomitam ameaças. Catarina de Medicis resolve uma vingança mais completa. No conselho efetuado no dia seguinte, com o duque de Anjú e alguns chefes católicos, foi decidida a morte do almirante e de seus principais aderentes.  Depois, tomada esta decisão, a rainha mãe foi ter com Carlos IX e mostrou-lhe o perigo iminente a que ia ficar exposto se não fizesse matar Coligny e os chefes do partido protestante. Assustado, exasperado, o rei declara que quer a morte não só de alguns protestantes, mas de todos. É assim que o massacre geral foi exigido e ordenado pelo rei. É verdade que no dia seguinte, 24 de agosto, quando, às duas horas da madrugada, o dobre do sino deu o sinal, o rei, por uma contra-ordem, proibiu o massacre geral e até a morte de Coligny. Mas já era tarde; o sangue e a morte corriam pelas ruas da capital, onde a carnificina durou três dias. (3)

II. Muito se discutiu a questão de saber se o massacre fora premeditado, ou se fora resolvido subitamente. Os autores protestantes, para pintar a perseguição com cores mais negras, não deixaram de afirmar que a matança era preparada desde muito tempo. Os panfletos contemporâneos fazem mesmo remontar a decisão até a entrevista de Bayonna, em 1565; alguns escritores, à paz de São Germano, 8 de agosto de 1570 (4).

Outros autores, - e partilhamos sua opinião, - querem que a resolução não tenha sido tomada, senão no dia precedente, de tarde. Estes têm a seu favor: 1º o testemunho da rainha Margarida, esposa do rei da Navarra (mais tarde, Henrique IV); o 2º de Tavanes que, nas suas Memórias, afirma que se lançou mão dessa medida só em consequência dos receios que inspiravam os chefes dos protestantes, depois da ferida de Coligny (22 de agosto de 1572); 3º o do duque de Anjú, irmão de Carlos IX (e seu sucessor, sob o nome de Henrique III), relatado por seu médico Miron. Este descreve o conselho reunido a 23 de agosto, no qual a rainha Catarina de Medicis fez prevalecer o seu desígnio de matar Coligny, e o rei, numa grande cólera, propôs o massacre de todos os protestantes de França. 4º Esta opinião tem a seu favor a autoridade de Brantôme, de la Popelinière e de Mathieu, autores contemporâneos. 5º Enfim a crítica moderna, após estudo dos diversos documentos históricos, apega-se de preferência ao mesmo parecer. "Todas essas atestações, escreveu Baguenault de Puchesse, são concordantes e naturais, enquanto é preciso recorrer a suposições muito improváveis para sustentar a tese da dificílima preparação de um acontecimento no qual o acaso tem um papel muito mais preponderante do que o cálculo (5)."

Resumindo os testemunhos dos embaixadores da época, Cavalli, Walsingham, o núncio Salviati, Cuniga, outro sábio crítico, Jorge Gandy, conclui assim: "Chega; a falta de premeditação que esses testemunhos e muitos outros afirmam, é provada até a evidência (6)"

Acrescentamos quão pouco verossímil é que essa resolução tenha ficado secreta durante sete anos, como o querem os protestantes que a fazem remontar à entrevista de Bayonna, e, pelo contrário, quanto se harmoniza melhor o conjunto dos fatos com a opinião de uma determinação súbita, que deixa tudo na conta do imprevisto e do furor das paixões populares.

III. Massacres se deram também nas províncias, em diversas cidades, e em épocas diferentes; em Meaux, a 25 de agosto; em la Charité, a 26; em Orléans, a 27; em Augers e Saumur, a 29; Lyã, a 30; em Troyes, a 4 de setembro; em Burges, a 15; em Ruão, a 17; em Romans, a 20; em Tolosa, a 23; em Bordéus, somente a 3 de outubro; e em Poitiers, a 27.

A respeito desses massacres, apresenta-se logo esta questão: pelo rei terão sido dadas ordens para estender às províncias as sangrentas execuções que se realizaram na capital? - Os historiadores não estão de acordo. Segundo certos, a palavra escapada a Carlos IX, num momento de cólera, deve ser tomada ao pé da letra, e suas ordens secretas foram mandadas aos governadores das províncias, pedindo-lhes uma proscrição geral dos hereges. É a opinião dos protestantes Papyre-Masson, Davila, Maimbourg, acompanhados pelos adversários do Catolicismo. As Memórias do Estado de França afirmam que ordens neste sentido foram igualmente expedidas aos governadores das cidades.

Durante certo tempo foi de uso, entre os defensores da Igreja, negar essas asserções. Mas hoje seria difícil pretender que Carlos IX não tenha enviado ordem alguma. Sua correspondência, já publicada, insere à data de 27, 30 e 31 de agosto, cartas em que se diz que retira mandatos verbais que o receio de sinistros acontecimentos pudera decidir a transmitir ao governador de Lyão, assim como a outros governadores e tenentes regionais.

Depois disso, não é muito possível duvidar da existência de certas ordens verbais expedidas nas províncias, quer pelo próprio rei, quer em nome dele pelos cortesãos.

Agora, vêm a propósito outras perguntas: em que momento foram dads aquelas ordens? Estendiam-se a todo reino? Qual era o seu teor? Pode-se atribuir-lhes os massacres dos protestantes efetuados nas províncias? Aqui também diferem as respostas com os autores.

1º Os historiadores que pretendem que a São Bartolomeu foi uma coisa preparada desde muito tempo, foram obrigados, para ser consequentes, a sustentar que aquelas comunicações foram mandadas antes dos massacres de Paris. Para os partidários da opinião mais acreditada e mais verossímil, que não houve premeditação, é claro que não pôde haver ordens dadas muito tempo antes da execução. A resolução do massacre tendo sido tomada só na tarde de 23 de agosto, é nesse mesmo dia e a uma hora bastante avançada, que o rei esteve no caso de dar suas instruções de viva voz a alguns fidalgos que estavam presentes.

2º As ordens verbais não foram expedidas a todos os governadores das províncias. O autor pouco suspeito das Memórias do Estado de França o atesta, dizendo ele mesmo que essas ordens "foram despachadas aos governadores das cidades notáveis onde havia numerosas pessoas da religião." 

3º  Eram as ordens despidas de toda a compaixão, prescrevendo a morte de todos os hereges, como o querem os escritores partidários de uma carnificina universal? A primeira vista, seria para estranhar que Carlos IX, que, em Paris, não queria tirar a vida senão aos principais chefes, tenha ordenado nas províncias um massacre geral. Mais, a deposição de Tavannes e a do Martirológio dos protestantes concordam neste ponto que o rei queria ferir só "os chefes dos facciosos". Se, numa efervescência popular, as execuções foram além, devem-se responsabilizar as paixões superexcitadas e aquele furor brutal que se manifesta em todas as arruaças.

4º Enfim, a verdade histórica obriga a reconhecer que aquelas ordens orais, de qualquer natureza que tenham sido, foram revogadas quase logo que foram dadas. Desde o dia 24 de agosto, Carlos IX se apressou em escrever a todos os governadores das províncias para lhes transmitir novas instruções. Nelas lê-se textualmente: "Tanto mais que é grandemente para recear que semelhante execução levante meus súditos uns contra outros e se façam grandes matanças em meu reino, de que eu teria extremo pesar, rogo-vos fazer publicar por todos os lugares de vosso governo que cada um tenha que ficar sossegado e em segurança na sua própria casa, e veja a não pegar em armas e a não ofender a ninguém, sob pena da vida (7)"

Portanto, se o sangue correu em diversos pontos do reino, é preciso concluir que foi anterior ou contrariamente às instruções escritas e positivas do rei.

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(1) Para mais amplas informações, consultar a obra do padre Lefortier, la Saint-Barthélemy. - O estudo desta questão, por Jorge Gandy, na Revue des questions historiques, t. I. 1866.
(2) Ver a obra de Carlos Buet. l'Amiral de Coligny et les guerres de religion au XVIº siècle, um Estudo sobre o Caractère de Coligny, por D. d'Aussy, Revue des questions historiques, t. XXXVIII, julho de 1885, e o bem documentado trabalho do barão Kervin de Letenhove, les hugnenots et les Guerres, 6 vol. publicados de 1883 a 1885.
(3) Revue des questions historiques, loc. cit., 1866.
(4) A narrativa que damos é o resumo muito breve do extenso trabalho publicado na Revue des questions historiques, t. I.
(5) Henrique Bordier, no seu livro la Saint-Barthélemy et la critique moderne (1879), esforça-se por fazer prevalecer esta opinião, aliás pouco fundada; porque a paz de São Germano oferecia demasiadas garantias ao partido protestante para não parecer uma verdadeira conciliação. - Heitor de la Ferrière, no seu livro la Saint-Barthélemy; la veille, le jour, le lendemain (1892), refere diversos testemunhos favoráveis a uma premeditação.
(6) Baguenault de Puchesse, la Saint-Barthélemy, questions controversées (2ª série), publicadas pela Sociedade bibliográfica.
(7) Jorge Gandy, la Saint-Barthélemy, segundo a recente obra de Heitor de la Ferrière; Revue des questions historiques, t. XLI (fascículo de abril de 1892).

Pe. Cauly, Curso de Instrução Religiosa, Tomo IV, Apologética Cristã, Parte Histórica, Cap. III. pp.406-413.

Noite de São Bartolomeu II - A Religião Católica não teve parte alguma


1º A Religião não estava diretamente interessada na questão;
2º Nem a Santa Sé interveio, nem eclesiástico algum fazia parte do conselho real;
3º No massacre, não aparece participação alguma da Igreja;
4º A Igreja não aprovou a São Bartolomeu.

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É preciso não ter mais sentimento algum de justiça para acusar a Religião católica dos males sofridos pelos franceses durante as infelizes guerras que assolaram a França nos reinados dos três irmãos, Francisco II, Carlos IX e Henrique III, e ainda mais para lhe atribuir a resolução de Carlos IX.

Por certo, não queremos pretender que a Igreja se desinteressou da grande questão religiosa que agitou a França no século XVI, nem que ela ficou espectadora indiferente na luta que se travava debaixo de seus olhos.

Naquela época, a Religião católica era a religião do Estado na França. Guarda do direito dos reis e dos povos, protetora nata da fé e da moral cristã, tinha por missão e dever de opôr-se à Reforma e às suas intrigas, e assim o fez energicamente. E pois que a heresia protestante atacava com as armas na mão, a Igreja podia, por sua vez, invocar contra ela a força do braço secular. Ninguém pode lhe imputar a crime sua intervenção nas lutas religiosas daquela época agitada.

Mas importa muito determinar de que modo interveio. Será verdade, como pretenderam seus adversários, que a  Igreja seja responsável da São Bartolomeu? Será verdade que por conselhos, manejos, tenha escandalosamente triunfado? - Não, ela não interveio neste fato, nem como motivo, nem como conselho, nem como agente.

1º Antes de tudo, notemos que o verdadeiro motivo do massacre não foi a religião. Se, no princípio da Reforma na França, a crença contribuíra por alguma coisa na luta entre a Liga e os calvinistas, a questão, em 1572, era mais política do que religiosa. Não se tratava mais de dogmas, porém de rebelião. Três revoltas anteriores, muitas cidades subtraídas à obediência real, cercos sustentados, tropas estrangeiras introduzidas no reino, quatro batalhas travadas contra o exército do rei, o duque de Guise assassinado: tais eram os motivos de queixa do rei e de sua mãe. Por isso, Carlos IX, depois da São Bartolomeu, escrevia a Schomberg, seu embaixador na Alemanha, falando dos protestantes: "Não me era mais possível aturá-los."

Em parte alguma é invocado o motivo religioso, e vê-se, pelo contrário, que os editos reais recomendavam de não molestar de modo algum os membros da religião reformada. O martirológio dos protestantes refere que os matadores diziam aos transeuntes, ao mostrar os cadáveres: "São eles que nos quiseram constranger para matar o rei!"

2º Mas será possível admitir-se que a Santa Sé excitou o rei da França ao exterminar os protestantes, sob o pretexto de conservar ao catolicismo sua supremacia religiosa? Interveio a Igreja como conselho? Voltaire, naturalmente copiado por numerosos historiadores, acusa disto São Pio V, um papa, um dominicano, portanto um inquisidor, e enfim um santo. Que há de verdadeiro nesta afirmação?

Carlos IX reinava em França havia já seis anos, quando subiu ao trono de São Pedro um papa de grande virtude, São Pio V. Teve este dois grandes fins: deter os progressos sempre crescentes da Reforma na Europa, e alistar os príncipes cristãos numa cruzada contra os Turcos. - Para alcançar estes fins, compreendia muito bem a necessidade que tinha do concurso da França, e por isso multiplicou os avisos e conselhos a Carlos IX, em vista de reduzir a heresia e assegurar ao rei socorros e alianças.

Desses conselhos faz fé a correspondência pontifical. De conselhos sanguinários, porém, de maquinações pérfidas, de conluios urdidos na sombra, não há vestígio, nem prova (1). Além disso, sabe-se como a corte de França não fez caso dos conselhos do Papa e assinou a paz de São Germano (1570), que fazia dos protestantes um poder político no Estado.

Pio V morreu três meses antes do massacre da São Bartolomeu, Gregório XIII lhe sucedeu a 13 de maio de 1572, e seguiu a mesma norma de conduta que seu predecessor, procurando aproximar a Espanha da França, afim de de alcançar uma pacificação religiosa que permitiria dirigir os esforços comuns contra a ambição da Turquia. O historiador francês, H. Martin, que não se pode suspeitar de parcialidade em favor da Igreja, reconhece que Gregório XIII, "não só não favoreceu as intriga que precederam a São Bartolomeu, mas nem delas teve conhecimento (2)"

Pois do lado de Roma, nenhum conselho de perseguição ou de represálias sangrentas. Mas o rei de França neste ponto teria sido influenciado pelo clero católico?

Nos conselhos reais, segundo a narrativa do doque de Anjú (mais tarde Henrique III), intervieram o rei, a rainha, a senhora de Nemours, o marechal de Tavannes, o duque de Nevers, Birague, de Retz, etc., porém nenhum cardeal, nenhum bispo, nenhum sacerdote. Os essais sur l'Histoire générale andam errados julgando que se trata dos cardeais de Birague e de Retz: são os marechais desses nomes que são designados. O cardeal de Biragues revestiu a púrpura só em 1578, e de Retz em 1587.

3º A Religião católica que não interviera em nada nos conselhos, nem tampouco aparece como agente no massacre. Falou-se em sacerdotes, em frades, de uma milícia inteira de burel, que teria andado de envolta com os matadores e que, como diz Voltaire, como contam os romancistas, imolava suas vítimas com a espada numa das mãos e o crucifixo na outra. Falou-se daquelas famosas cruzes brancas que adornavam os chapéus dos assassinos, daqueles punhais bentos pelo cardeal de Lorena...

Onde está a verdade? Em Paris, por uma especial proteção da Providência, não se vê nenhum sacerdote no massacre, a não ser João Rouillard, cônego da catedral e conselheiro no parlamento, que foi arrastado no lugar  do massacre para dele ser vítima. Os escritores protestantes, na verdade, citam os nomes de alguns sacerdotes que tomaram parte nos massacres das províncias. Mas a ser isto verdade, a conduta repreensível deles, em fim de contas, não pode ser imputada à Igreja.

Eis o que a imparcial e verídica história pode afirmar: o clero católico, durante os massacres, desempenhou o papel que lhe competia. Em lugar de matar ou ferir, salva. Basta lembrar o nobre procedimento do bispo de Lisieux, Hennuyer, que, por sua energia, salvou todos os protestantes de sua diocese.

O martirológio dos protestantes, em que não se pode lançar a suspeita de querer fazer o elogio dos católicos, cita muitos fatos como o precedente. "Em Tolosa, diz ele, os conventos serviram de asilo aos calvinistas; em Burges, católicos pacíficos salvaram alguns; em Romans, de sessenta que foram presos, conseguiram soltar quarenta, e dos mais só pereceram sete; em Troyes, em Bordéus, muitos foram igualmente salvos por sacerdotes."

Em Paris, os huguenotes perseguidos acharam também protetores católicos, e em Nimes, esquecendo-se da Miguelada, houve corações assaz generosos para defender os calvinistas de uma carnificina demais autorizada pelo exemplo, mas de nenhum modo permitida pela Religião.

Como, depois disso, acusar a Igreja e seus ministros de terem banhado as mãos no sangue dos hereges? Quanto às cruzes brancas, não passavam elas de um emblema, de um sinal. Além disso, o cardeal Carlos de Lorena achava-se em Roma desde três meses antes do massacre. Como poderia então benzer os punhais destindados a um massacre que foi improvisado? Portanto, a cena introduzida por Chénier no seu Carlos IX, e por Scribe nos Huguenotes, merece ser desterrada entre as fábulas.

4º Mas, objetar-se-á, se a Igreja não preparou a São Bartolomeu, se o papa não foi dela nem conselheiro, nem cúmplice, não se pode negar que Gregório XIII a tenha altamente aprovado e dela se tenha regozijado. É certo que em Roma, ao receber a notícia desse nefando golpe de Estado, renderam-se a Deus solenes ações de graças; Gregório XIII foi em procissão da igreja São Marcos à de São Luis, indicou um jubileu, mandou cunhar medalhas comemorativas, e encomendou ao pintor Vasari, para o Vaticano, frescos destinados a perpetuar a lembrança de um acontecimento de que a corte romana concebia uma grande alegria.

Que esses fatos materiais sejam verdadeiros, não o discutimos. Mas, para conhecer-lhes o verdadeiro caráter e julgar-lhes a significação, é necessário e justo lembrar suas circunstâncias e explicar seus motivos.

Depois de ter recebido a notícia dos acontecimentos de Paris, o sumo Pontífice foi procissionalmente da igreja São Marcos à igreja São Luis dos Franceses; aí mandou cantar um Te Deum de ação de graças, ordenou procissões, marcou um jubileu, mandou ou deixou cunhar uma medalha comemorativa do massacre. É ainda verdade que o pregador Muret fez um elogio público na presença do papa, e o pintor Vasari representou as diversas cenas desse fato em três quadros que ainda adornam uma das salas do Vaticano. - Mas que pretendia celebrar a corte de Roma com essas demonstrações? Aquilo que lhe tinham revelado as notícias recebidas. Ora, continham o que se publicara por toda a parte na França e fora dela; que o rei e a família real acabavam de escapar ao maior perigo, sufocando uma nova conspiração tramada pelos huguenotes.

Neste ponto, não há dúvida possível; Carlos IX, numa carta dirigida, em 24 de agosto, ao senhor de Ferralz, seu embaixador em Roma, contava resumidamente o fato, deixando ao senhor de Beauvillé, portador da missiva, o cuidado de dar mais pormenores ao embaixador e ao papa Gregório XIII. Os pormenores eram os que tinham sido mandados aos governadores das províncias.

A correspondência oficial de Salvaiati, núncio do papa em Paris, mostra que ele ignorava completamente os projetos da corte. Nos seus relatórios particulares, endereçados ao conselho de Estado, fala da rebelião geral dos protestantes que obrigou a corte de França a lançar mão de uma resolução extrema para se pôr a salvo do perigo. Um curiosíssimo documento, conservado no Vaticano, veio recentemente confirmar todas essas afirmações. E o resumo manuscrito(3), em latim, de um leito de justiça realizado no parlamento de Paris. Encontra-se aí um trecho que explica de um modo, que se poderia dizer definitivo, o massacre da São Bartolomeu. Eis a tradução: "Nesta augusta assembléia, o rei Carlos declarou que, graças a Deus, descobrira as ciladas que o almirante Gaspard de Coligny armava ao governo do rei, chegando ao ponto de ameaçar toda a família real com uma catástrofe e com a morte, e que tendo tratado a ela e a seus cúmplices como o mereciam, queria que, no futuro, não se imputasse este fato a crime àqueles que foram os fiéis ministros de uma tão justa vingança, visto que tinham procedido só por vontade, mandato e ordem do rei".

Este mesmo documento relata que as execuções feitas a 24 de agosto não foram mais do que justas represálias contra as conspirações da facção protestante que devia, duas horas mais tarde, matar os membros da família real. Demonstra em segundo lugar que as execuções, ordenadas por Carlos IX, só assumiram o caráter de massacre pela intervenção do povo de Paris, irritado contra as facções. Menciona enfim a proibição expressa feita pelo rei ao mesmo povo de Paris, "de homicídios, combates, pilhagem e saque dos bens dos huguenotes", sem a intervenção do parlamento e dos magistrados públicos.

Tais foram as notificações feitas ao Papa, donde resulta que Roma entendeu celebrar não o assassinato dos hereges, mas a exterminação dos rebeldes, a libertação do reino, e, sem dúvida, como consequência ulterior, o fim de uma horrorosa guerra civil. O próprio Muret, na sua famosa prática pronunciada a 23 de dezembro seguinte, não celebrava outra coisa.

As medalhas comemorativas, cunhadas em 1572, tendo a legenda: Ugonotorum strages, com a imagem de um anjo exterminador, armado de uma espada e perseguindo guerreiros, significavam a repressão de hereges rebeldes. As pinturas de Vasari não tinham outro sentido e deviam simplesmente transmitir à posteridade a memória de um fato que, aos olhos da corte de Roma, assumia um caráter providencial: a salvação da vida e do trono de Carlos IX, a vitória sobre a heresia, o fim das dissensões intestinas que desolavam a França.

Brantôme conta que, mais tarde, Gregorio XIII, melhor informado sobre os massacres de Paris e das províncias, chorou amargamente: "Lamento, dizia ele, a morte de tantos inocentes que não deixaram de pereceer de envolta com os culpados; é possível que a muitos deles Deus tenha concedido a graça de se arrependerem (4)"

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(1) Sobre esta questão pode-se consultar com fruto o Padre Lefortier, la Saint-Barthélemy, cap. v.
(2) H. Martin, Histoire de France, t. IV.
(3) Manuscrito nº 8041 da biblioteca Vaticana, p. 198. - Estudo pelo Padre Davin, Un nouveau document sur la Saint-Barthélemy (Univers, 24 de agost de 1885).
(4) Para mais amplas informações, consultar a obra do Padre Lefortier, la Saint-Barthélemy - O estudo desta questão, por Joge Gandy, na Revue des questions historiques, t. I, 1866.

Pe. Cauly, Curso de Instrução Religiosa, Tomo IV, Apologética Cristã, Parte Histórica, Cap. III, pp. 399-406

Noite de São Bartolomeu I - Noção Geral e Questões a Examinar


Pessoal, sigo fazendo algumas transcrições do Pe. Cauly sobre certas acusações históricas que se costuma fazer à Igreja. Chamo primeiramente a atenção para o nível de um "Manual de Instrução Religiosa" de antigamente, de onde retiro os estes textos. Compare, o caro leitor, com os livros infantis que andam a circular, hoje, ostentando o nome de católicos. Lembro, como exemplo, do livro teletubiano do Pe. Marcelo Rossi - oh Deus! Depois, o que me motivou a pôr aqui estes artigos sobre a história da Igreja foram, sobretudo, dois acontecimentos: primeiro, a constatação concreta de uma conversão que relutava em se efetuar também pelos equívocos históricos assumidos como verdades; depois, por uma conversa que presenciei entre dois rapazes que, ingenuamente, falavam do que não sabiam - tratavam da São Bartolomeu -, muito embora o fizessem com se tivessem sido espectadores. Deixo aqui, então, este estudo a fim de poder - ou pretender - contribuir com algo para a formação dos amigos com relação a assuntos tão espinhosos e que são usados, com muita má fé, como pretextos para acusar e difamar a Santa Igreja que, como bem disse alguém - e o dizemos nós também - deve ter, não vergonha, mas orgulho do seu passado. 

Assim como os textos da Inquisição, também nestes, os itálicos são do original - com exceção das citações, que decidi pô-las em itálico com o intuito de facilitar a leitura -, enquanto que os negritos são destaques meus.

Boa leitura.

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Entende-se por São Bartolomeu o massacre dos huguenotes ou protestantes, que teve lugar na França, na noite de 24 de agosto, festa de são Bartolomeu, em 1572, por ordem de Carlox IX, influenciado pelos conselhos de sua mãe, Catarina de Médicis.

Este massacre começou em Paris, depois do sino de Saint-Germain-l'Auxerrois ter dado o sinal. Coligny, chefe do partido huguenote, foi uma das principais vítimas. O sangue correu em toda a capital; segundo alguns, houve dois mil mortos; segundo outros, dez e até vinte mil. Vê-se que a diferença é grande, e a verdade deve estar entre os extremos.

Nos dias seguintes, sempre pelas ordens do rei, semelhantes cenas se renovaram em diferentes pontos do país: Meaux, Orléans, Lyão, Burges, Tolosa, Bordéus, etc... Alguns historiadores pretendem que, nas províncias, houve de quinze a vinte mil vítimas. Veremos o que se deve pensar a este respeito.

Tal é o fato da São Bartolomeu... Mesmo sem aceitar as exagerações a respeito dele, foi por demais verdadeiro, e é uma página que se desejaria poder apagar dos anais da história francesa, segundo uma palavra, não do chanceler de l'Hospital, a quem muitas vezes foi atribuída, mas do presidente de Thou: "Excidat illa dies aevo! Pereça para sempre a memória daquele dia!"

O ódio dos protestantes e dos filósofos misturou, de tal modo, o nome da Igreja Católica a este fato histórico, que, a força e o ouvir, muitas pessoas acreditaram que a São Bartolomeu era obra da Igreja. Importa destruir este preconceito. Por outra parte, sob a pena dos escritores protestantes, dos romancistas e outros homens de juízo errôneo, o número das vítimas aumentou de modo sistemático. Não nos será difícil demonstar que aí também o exagero se deu livre curso.

Para proceder com ordem:
1º Examinaremos rapidamente as causas que prepararam este acontecimento deplorável;
2º Mostraremos que a Religião Católica não teve parte alguma no massacre da São Bartolomeu;
3º Foi um golpe de Estado, um ato de proscrição, obra da política de Carlos IX e de Catarina de Médicis;
4º Enfim, a São Bartolomeu fez muitos menos vítimas do que se tem escrito.

É o que vamos demonstrar em outros tantos artigos, onde aparecerá claramente que a Igreja deve ser justificada de qualquer acusação de intervenção no odioso massacre da São Bartolomeu, e convém andar desconfiado a respeito dos números em que se calculam as vítimas.

Artigo I - Causas que prepararam e explicam a São Bartolomeu

I. Princípios da Reforma.
II. Violências e crimes dos protestantes na França.

I. Recentes trabalhos, publicados por investigadores e eruditos, permitem colocar hoje, em plena luz, o acontecimento que deixou uma impressão tão dolorosa na história da Filha primogênita da Igreja, no século XVI. Esses autores remontaram às fontes e acharam nos próprios historiadores da Reforma, declarações que merecem ser recolhidas.

Primeiro, julgamos que não surpreenderemos nossos leitores afirmando que da Reforma procederam as desordens que tão profundamente transtornaram a Europa no século XVI. A doutrina de Lutero e de Calvino continha em germen todos os princípios de revolta, de anarquia, de luta sangrenta.

O protestantismo arrastava consigo a corrupção dos costumes. - O livre exame, a salvação atribuída somente à fé, sem as obras, a rejeição da autoridade da Igreja e de toda a moral importuna, já, ainda em tempo dos reformadores, - os próprios Lutero e Calvino disso gemeram - tinham causado uma depravação geral.

O protestantismo impelia para o socialismo, a pilhagem, a anarquia. - Na livre interpretação da sagrada Escritura, cada um achava, não só uma desculpa, mas uma aprovação de todos os excessos. Pois: "Naqueles tempos, diz Bossuet (1), toda a Alemanha estava em fogo. Os camponeses, revoltados contra os senhores, tinham pegado em armas e imploravam o socorro de Lutero. Além de que seguiam a doutrina dele, pretendia-se que um livro dele, a Liberdade Cristã, muito contribuíra a lhes inspirar a rebelião, pela maneira ousada com que falava contra os legisladores e contra as leis."

"Lutero, diz Luiz Blanc, levava direitinho a Munzer. Milhões de vozes estavam prontas a proferir, contra os reis e os príncipes, o grito que soltara contra Roma (2)" A violência dos novos bárbaros não conheceu mais limites: matanças nos campos de batalha, cidades desmanteladas, mosteiros destruídos, igrejas incendiadas e saqueadas, tesouros de escultura e pintura destruídos; tais foram os resultados da Reforma na Alemanha. Melancton dizia que as ondas do Elba não chegariam para chorar todas as infelicidades e desventuras da Religião e do Estado.

O protestantismo queria a destruição do catolicismo. - É um erro considerável, explorado pelos inimigos da Igreja, acreditar que os protestantes reclamavam simplesmente um lugar ao sol, ao lado dos católicos, que eram inofensivos e tolerantes em excesso. Lutero dissera: "Quem cooperar com o braço ou os bens para a ruína dos bispos e da hierarquia episcopal, é bom filho de Deus, verdadeiro cristão e observa os mandamentos do Senhor." Seus discípulos obedeceram: provam-no seus sangrentos triunfos na Alemanha, na Dinamarca e na Inglaterra.

II. Em França, como alhures, os protestantes queriam acabar com a Religião Católica e substituir-lhe o calvinismo. No século XVI formavam um Estado no Estado; tentavam apoderar-se do poder e pactuavam com os inimigos da pátria. "O calvinismo envolvia a França numa rede de conspirações. Em 1562, seus partidários sublevaram-se, ao mandado de seus chefes, com uma simultaneidade assustadora. Em 1567, pôde-se verificar juntamente o alcance e a rapidez de suas manobras. Neste ano, as ruas de Nimes foram ensanguentadas por uma das mais odiosas São Bartolomeus protestantes, a qual se chamou a Miguelada, efetuada pelos huguenotes, de sangue frio, de caso pensado, sem provocação da parte dos católicos, a 30 de setembro, no dia seguinte à festa de São Miguel. Trezentos cadáveres foram precipitados num grande poço, no pátio do palácio episcopal. Contra este fato, os protestantes organizaram a conspiração do silêncio. Contudo, o nefando crime é confessado por alguns deles. Além disso, a Miguelada não foi um fato isolado, mas o efeito de uma conspiração tramada contra a França (3)"

"As catedrais, as igrejas, os conventos, as capelas e até as bibliotecas e os hospitais são destruídos, saqueados, roubados, profanados. Como os bárbaros, os protestantes apoderam-se de todas as riquezas do culto, quebram as estátuas, dilaceram as pinturas... Pelas mãos deles, os bispos, os sacerdotes, os frades de qualquer ordem são mortos, insultados ou expulsos. As populações, fiéis ao culto de seus pais, são submetidas aos mais cruéis tratamentos. Só na Beauce, os calvinistas triunfantes destruíram trezentas igrejas. Em toda a França, contam-se cento e cinquenta catedrais ou abadias completamente arruinadas (4)"

Assim, é preciso reconhecer que o massacre de Vassy, no qual quarenta e dois protestantes, segundo La Popelinière, sucumbiram numa luta travada entre eles e os católicos, era já vingado e de sobra. Deve-se então ficar surpreendido que a velha fé dos Francos, tão arraigada no solo do reino cristianíssimo, ficasse indignada, e, mais do que Alemanha e a Inglaterra, se tivesse defendido contra as usurpações, os conluios e manejos da Reforma?

É neste verdadeiro ponto de vista histórico, que convém colocar-se para julgar lealmente o fato da São Bartolomeu, e, sem pretender desculpá-lo, patentear pelo menos as muitas circunstâncias atenuantes.

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(1) Bossuet, Histoire des Variations, liv. II, cap. XI
(2) Luiz Blanc, Histoire de la Révolution française, t. I.
(3) Jorge Gandy, Revue des questions historiques, 1866, t. I. - J.-J. Fauriel, Essai sur les événements qui ont précédé la Saint-Barthélemy (thèse)
(4) Carlos Buet, François_de Guise.

Pe. Cauly, Curso de Instrução Religiosa, Tomo IV, Apologética Cristã, Parte Histórica, Cap. III, pp. 394-398.
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