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Valores Morais: Fidelidade.


Recomendo veementemente o texto que vai abaixo, de autoria do grande Dietrich Von Hildebrand. Embora seja um tanto extenso, vale muito a leitura. Coragem! Deleitem-se...

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Entre as atitudes humanas fundamentais para a vida moral, figura também a fidelidade.

Pode-se falar de fidelidade em sentido amplo e em sentido estrito. Temos em vista o sentido estrito quando falamos de fidelidade a seres humanos; assim, por exemplo, no caso da fidelidade entre amigos, da fidelidade conjugal, bem como da fidelidade à própria nação ou da fidelidade a si mesmo.

Mas esta fidelidade já pressupõe a fidelidade em sentido amplo. Refiro-me àquela constância que primordialmente confere à vida a sua coesão interna, a sua íntima unidade. Só firmando-nos nas verdades e valores que um dia se nos desvelaram é que se nos torna possível construir a personalidade.

O decurso de uma vida humana encerra um contínuo revezamento de diversas impressões, tomadas de posição, ações. Não conseguimos pensar muito tempo seguido numa única idéia ou permanecer com a atenção fixa num só ponto. Assim como na vida biológica se sucedem a fome e a saciedade, a fadiga e o vigor, assim também a vida do espírito tem certa mobilidade peculiar. Dada a sucessão de impressões que nos marcam, dada a torrente de acontecimentos que nos trazem ao espírito uma heterogeneidade de objetos, a nossa atenção não se pode fixar sempre do mesmo modo; e o nosso pensamento caracteriza-se por um ir e vir de conteúdo para conteúdo, outro tanto se podendo dizer dos nossos sentimentos e desejos. Mesmo num acontecimento feliz, como o reencontro longamente ansiado do ser amado, não nos podemos demorar muito; do pleno presente da alegria profunda, a torrente da nossa experiência retorna pressurosamente a outros rumos que nos prendem a atenção e as vivências.

Mas o homem tem diversos níveis de profundidade. A sua vida interior não se limita ao nível em que se dá essa contínua mudança, ao nível da atenção expressa da consciência "atual". Quando continuamos a correr para outra impressão ou conteúdo, o passado, em vez de se perder sem mais, finca-se na camada mais profunda e aí sobrevive. Decerto que é já exemplo disto a memória, a capacidade de recordar, que liga passado e presente; mas, para além disso, a sobrevivência de fundo das nossas atitudes em face do mundo, da posição tomada perante as verdades e os valores fundamentais, enquanto a nossa atenção atual se fixa em questões inteiramente diferentes.

É mais ou menos desse modo que a alegria de um acontecimento profundamente feliz sobrevive no funda da nossa alma, dando um colorido especial a tudo o que fazemos em determinado instante. Enquanto trabalhamos, continua a resistir, vivo, no fundo de nós mesmos, o amor ao ser amado, como uma reserva oculta por cima da qual se passa tudo o mais.

Sem esta capacidade, o homem careceria de qualquer unidade interior, seria apenas um feixe de impressões e vivências sucessivas. Se uma impressão sempre e sem mais se substituísse a outra, se o passado se perdesse indiferentemente, a vida interior do homem ficaria privada de sentido e de conteúdo; não haveria nenhuma estrutura, nenhum desenvolvimento, não haveria sobretudo "personalidade" alguma.

Ora, ainda que esta capacidade de retenção, sem a qual se tornaria impossível a vida própria da pessoa espiritual, se dê em todos os homens, é decerto variável o grau em que se forma nos indivíduos concretos a coesão interna e persistente da sua vida.

Os homens distinguem-se uns dos outros pela sua diferente profundidade: uns vivem na camada mais superficial da sua consciência atual, e neles as vivências se sucedem fragmentariamente umas às outras, de modo que bem poderíamos denominá-los efêmeros; desses homens dizemos que se esgotam inteiramente no momento que passa. Outros vivem das camadas mais profundas da pessoa, e nada de significativo desaparece só por não ser já presente, antes se torna um cabedal humano sobre o qual se constrói algo de novo, cheio de sentido. Só estes últimos merecem o nome de personalidades. Só neles se pode formar uma riqueza interior.

Quantos não há que chegaram a conhecer grandes obras de arte, viram países magníficos, entraram em contato com homens notáveis - mas sem nada lhes deixar efeito duradouro! Talvez, por instantes, tenham ficado fortemente impressionados, mas nada lançou neles raízes profundas, nada "retiveram", pois desapareceu mal se deixaram levar por novas impressões. Esses homens são como uma peneira por onde tudo passa. Podem ser bons, afetuosos, honestos, mas atolaram-se num estado puerilmente inconsciente; não têm nenhuma profundidade, escapam-nos, são incapazes de relacionar-se realmente com outros homens, porque lhes faltam de todo em todo laços profundos com o que quer que seja.

São homens irresponsáveis, já que desconhecem condições duradouras e nada conservam de um dia para o outro. Ainda que as suas impressões sejam vivas, decerto não chegam a penetrar naquelas camadas profundas em que, por sobre as mudanças de um instante, se encontram as orientações e atitudes elevadas. Prometem honestamente alguma coisa num instante, mas logo a seguir tudo se esvai; concebem propósitos sob uma impressão forte, mas qualquer impressão mais forte que se siga lhos apaga. São tão impressionáveis que, na sua vida, só a camada exterior da consciência atual tem a palavra. Para esses homens, o que determina a dedicação e o interesse não é o valor e o peso de um assunto, mas apenas o viço e a intensidade do "presente". O que os domina é esta preferência geral pela intensidade, em que a impressão presente ou a presente situação levam a melhor sobre o passado.

Há duas espécies no gênero destes homens volúveis. Primeiro, a daqueles em que, geralmente, nada avança até a camada mais profunda, que permanece neles como que vazia. São sempre homens superficiais, carentes de vida profunda e de qualquer firmeza interior; parecem areia movediça, que logo cede sem mais: se procurarmos neles um âmago duradouro, sobre o qual se possa construir, logo se toca no vazio. Evidentemente, nunca é este o caso de um homem são; quem, em sentido literal, fosse puramente "instantâneo", seria um psicopata. No entanto, mesmo sem os podermos qualificar de doentes psíquicos, são frequentes os homens cuja vida costuma transcorrer assim.

Da outra espécie fazem parte os que, embora tenham impressões profundas e um âmago duradouro e firme na sua pessoa, perturbam-se tanto com a impressão momentânea que o que têm de permanente não consegue sobrepor-se à impressão do instante que passa. Só quando esta se dissipa é que volta ao de cima o que têm no íntimo. Tais homens, por exemplo, podem ter por alguém um amor profundo e duradouro; mas basta uma situação forte, viva, expressiva, para num momento se perturbarem de tal maneira que "esquecem" o ser amado, e fazem coisas ou dizem palavras que nem de longe combinam com aquele amor que sobrevive lá no íntimo.

São homens que sempre estão em perigo de se tornar traidores. Neles, o presente avantaja-se continuamente ao ausente, pelo interesse momentâneo, pelo papel que desempenha nos seus pensamentos, sensações e desejos, embora, fundamentalmente, estimem mais o ausente, que a longo prazo manifesta uma importância inteiramente diferente.

Em contraste com estes dois tipos, o homem constante conserva tudo o que se lhe deparou como verdade e valor genuínos. A vivacidade do presente não tem poder algum sobre a sua vida, em confronto com o peso interno das verdades, uma vez reconhecidas, ou do valor ético, uma vez captado. A repercussão das coisas na sua consciência depende exclusivamente da altura do valor que possuem, e não da sua "atualidade". Tais homens estão, por isso, imunizados contra a tirania de tudo o que é simples moda; já nada os impressiona só por ser moderno, por andar momentaneamente no ar, mas apenas por ser valioso, belo, bom, verdadeiro.

Para homens assim, o mais valioso, o mais importante, é também e continuamente o "mais atual". Para eles, o valioso nunca passa de moda, mesmo que há muito tenha sido posto de lado no seu ambiente. A vida destes homens constitui uma trama coerente e cheia de sentido, que espelha continuamente no seu decurso a hierarquia objetiva dos valores, ao passo que a dos inconstantes vem a ser presa das situações e impressões que se lhes deparam fortuitamente. São eles os únicos a captar a sublimidade do que vale plenamente em todas as épocas e que, cheio de valor e de verdade, nunca envelhece, nunca desmerece. Compreendem que uma verdade significativa não perde o interesse nem nos deve ocupar menos, só porque nos é conhecida de longa data. Reconhecem sobretudo que o que é valioso não se limita a exigir-nos a atenção e o interesse no momento presente.

Só o homem constante compreende realmente a exigência do mundo dos valores éticos, só ele é capaz de responder aos valores com a resposta que objetivamente lhes é devida; isto é, com uma resposta duradoura, independente do encanto da novidade, da vivacidade do presente. Só aquele para quem jamais passa qualquer valor que uma vez tenha brilhado, aquele que não esquece nenhuma verdade se uma vez a penetrou - só esse faz justiça à peculiaridade do mundo da verdade e dos valores,tornando-se capaz de se lhe manter fiel.

Esta constância, ou fidelidade no verdadeiro sentido da palavra, é uma consequência necessária de toda a verdadeira compreensão dos valores e, portanto, de toda a vida moral no seu conjunto. Só uma resposta que se prende duradouramente ao valioso é uma resposta moralmente madura e plenamente consciente.

Sob o ponto de vista moral, só um homem destes é realmente adulto, digno de confiança; só ele se sente responsável por tudo o que tenha feito noutras situações; só ele se arrepende realmente da injustiça anteriormente cometida; só ele se sairá bem nas provações.

Com efeito, para esse homem, a luz dos valores morais continua a brilhar no meio do embotamento do dia-a-dia, mesmo através da noite das tentações, porque é das profundezas que ele vive e é do fundo de si mesmo que ele se impõe ao momento passageiro. Quanto mais constante e fiel for o homem, tanto mais rico e valioso será, tanto mais capaz de se tornar um autêntico vaso de valores éticos, um ser que viva e duradouramente abrigue e irradie pureza, justiça, humildade, amor e bondade.

Basta observarmos as diversas esferas da vida, para logo encontrarmos por toda a parte o significado fundamental da fidelidade neste sentido amplo. Com efeito, essa atitude é o pressuposto de qualquer crescimento da pessoa em geral e sobretudo de todo o desenvolvimento e progresso moral. Como há de crescer moralmente quem não retém todos os valores que se lhe revelaram, quem não faz deles para sempre um cabedal próprio? Como há de realizar-se uma construção progressiva num homem dominado exclusivamente por impressões momentâneas e de pouca duração? Sem estabilidade, de que serve a melhor educação? De que servem as mais penetrantes advertências, a viva descoberta de valores, se nenhuma raiz se prende no fundo ou no fundo fica apenas e sempre a dormitar?

Por mais estranho que pareça, os homens volúveis não mudam nunca. Conservam as imperfeições e as preferências que possuem de seu natural, mas não conquistam novos valores éticos. Ainda que num determinado momento compreendam tudo e concebam os melhores propósitos, ainda que não lhes falte boa vontade, a inconstância impede-lhes qualquer progresso moral duradouro. Não porque se fechem, à maneira daquele que se contorce na sua soberba, tornando-se como que impermeável, mas porque se abandonam demais a qualquer impressão, não conseguindo "segurar" no turbilhão da sua vida nem mesmo aquilo que tomam a sério.

A atitude fundamental da fidelidade é, pois, pressuposto de toda a auto-educação. Só o homem fiel consegue digerir interiormente as impressões contraditórias, extraindo o bem de cada uma delas, aprendendo e crescendo com as mais variadas situações da vida, porque permanece nele estável e viva a craveira dos valores autênticos. Em contrapartida, o homem volúvel cede, ora a uma, ora a outra impressão, e, sem mais, "cai"; tudo nele passa mais ou menos sem deixar rasto.

Só o homem fiel, por outro lado, prefere o mais relevante ao menos relevante, o valioso ao que o é menos; o volúvel, esse, no melhor dos casos, mede pela mesma rasoura todas as realidades valiosas, mesmo que assim pereça algum valor mais alto. Ora, para o crescimento moral e, de modo geral, para a vida moral da pessoa, nada é mais importante do que a consideração da hierarquia objetiva dos valores, a capacidade de preferir constantemente os valores mais altos.

A atitude fundamental da fidelidade é também pressuposto de toda a confiança, de toda a credibilidade. Como há de alguém manter uma promessa ou merecer crédito na luta das idéias, se vive apenas no momento que passa, sem formar uma unidade de sentido com passado, presente e futuro? Quem poderá contar com ele? Só o homem fiel torna possível aquela confiança que constitui o fundamento de qualquer comunidade; só ele possui aquele elevado valor moral que reside na firmeza, na lealdade; na confiabilidade.

A fidelidade é, além disso, pressuposto da própria capacidade de confiar, da fé heróica. O volúvel, além de que não merece nenhuma confiança, jamais consegue crer com fé firme, inabalável: nem nos outros homens, nem em verdades, nem em Deus. É que lhe falta o vigor necessário para viver do valor que uma vez contemplou, se o rodeia a noite e a escuridão, ou se outras impressões fortes arremetem contra ele. Não é por acaso que, nas línguas latinas, a palavra fides significa simultaneamente fidelidade e fé. Com efeito, a fidelidade é parte constitutiva e essencial do vigor da fé e, portanto, de toda a religião.

Muito especialmente nítido é o significado transcendente da fidelidade no campo das relações humanas. O que é o amor sem fidelidade? No fundo, uma mentira. Porque o sentido mais profundo de todo o amor, o "sim" interior que se pronuncia no amor, é uma íntima dedicação e entrega de si mesmo, que sobrevive sem prazo algum, inabalável através de todas as mudanças na correnteza da vida. Um homem que, por exemplo, diga: "Amo-te agora, mas por quanto tempo não sei", nem amou realmente, nem faz idéia nenhuma da essência do amor. A fidelidade é tão essencial ao amor que qualquer um tem de considerar perene a sua dedicação. Isto vale para todos os amores: para o amor aos pais, para o amor aos filhos, aos amigos, para o amor conjugal. Quanto mais profundo é o amor, tanto mais o penetra a fidelidade.

É precisamente nesta fidelidade que repousa o especial brilho moral do amor, a sua casta beleza. O que o amor tem de especificamente comovente, naquele caráter único com que nos surge no Fidelio de Bethoven, prende-se essencialmente com a fidelidade. A fidelidade imperturbável do amor de mãe, a fidelidade inconcussa de um amigo, possuem uma especial beleza moral que toca o coração de quem se abre aos valores. A fidelidade é, assim, o núcleo de qualquer amor grande e profundo.

O que é que há, em contrapartida, de mais moralmente baixo e disforme do que a infidelidade manifesta, a antítese radical da fidelidade, que ultrapassa largamente a inconstância? Que mácula moral se pode comparar com a do traidor que, por assim dizer, apunhala o coração que se lhe ofereceu cheio de confiança e indefeso? Quem for falto de fidelidade na sua atitude fundamental é um Judas perante todo o mundo dos valores éticos.

Sem dúvida, há homens para quem a fidelidade não passa de simples virtude burguesa, de mera correção ou probidade. O homem livre, grande, genial - assim pensam eles - não precisa de fidelidade. Néscio mal-entendido! Talvez haja, efetivamente, uma espécie de fidelidade inócua e complacente. Mas o ceto é que a autêntica fidelidade é parte indispensável, constitutiva de toda a grandeza moral, de toda a verdadeira força e profundeza de uma personalidade.A autêntica fidelidade de que aqui tratamos é o contrário da mera probidade burguesa ou da simples atitude de quem se aferra aos seus costumes. Não deriva também de um temperamente apático, como a inconstância não deriva de um temperamento vivo e impulsivo.

A fidelidade é uma resposta livre e cheia de sentido ao mundo da verdade e dos valores, à sua significação imutável e autônoma, às suas exigências próprias. Sem a atitude fundamental da fidelidade, não há nenhuma cultura, nenhum progresso no conhecimento, nenhuma comunidade; mas, sobretudo, nenhuma personalidade moral, nenhum amadurecimento moral, nenhuma vida interior una e consistente, e nenhum amor verdadeiro. Todo o esforço de educação tem que ter em conta este significado fundamental da fidelidade em sentido amplo, se não quiser condenar-se de antemão ao malogro.

Dietrich Von Hildebrand, Atitudes Éticas Fundamentais.

Devemos sondar a fundo os verdadeiros valores em jogo


"Há ainda, finalmente, uma terceira espécie de homens levianos: é a dos que, embora dotados de uma aspiração moral consciente, não se dão ao incômodo de sondar a fundo o que é que verdadeiramente está em causa em cada uma de suas decisões: o que diz a opinião pública, o que lhes recomenda um conhecido, o que pelo costume se lhes afigura correto - é quanto basta para os levar a tomar posição num assunto. Não compreendem que a gravidade da questão de saber se damos ou não aos valores uma resposta adequada, exige absolutamente, antes da decisão, um efetivo esclarecimento sobre os verdadeiros fundamentos dos valores em jogo. A despeito da sua boa vontade, afirmam e negam antes de terem realmente escutado a voz dos valores"

Dietrich Von Hildebrand, Atitudes Éticas Fundamentais, Senso de Responsabilidade.

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O trecho acima tem implicâncias profundas. Se o leitor, por acaso, passou-lhe simplesmente a vista, eu recomendo que volte a lê-lo atentamente, pois muita gente, hoje, é cativa dessa "irresponsabilidade". Recomendo, ainda, a leitura deste livro, que pode ser baixado aqui.

A importância dos valores éticos


"Os valores éticos são o que há de mais elevado entre todos os valores naturais. Acima da genialidade, da sensatez, da vida próspera, acima da formosura da natureza e da arte, acima da estrutura perfeita e da força de um Estado, estão a bondade, a pureza, a veracidade e a humildade do homem. Um ato de autêntico perdão, uma renúncia magnânima, um amor ardentemente abnegado encerram um significado e magnitude, uma transcendência e perenidade muito maiores do que todos os valores da nossa civilização.  Os valores éticos são o âmago do mundo; a sua negação, o pior dos males; pior do que o sofrimento, a doença, a morte, pior do que a ruína das culturas mais florescentes."

Dietrich Von Hildebrand, Atitudes Éticas Fundamentais

O amor a Deus e o amor ao próximo



Dietrich Von Hildebrand

A fim de ressaltar o interesse genuíno que devemos ter pelo próximo como pessoa individual, interpretam eles [os progressistas]: “O que fizestes ao menor de meus irmãos, a mim o fizestes”, como significando que o único caminho para encontrar a Cristo é o nosso próximo. O amor, que é uma resposta ao próprio Cristo, ao único infinitamente santo, à Epifania de Deus, é substituído pelo amor ao próximo. Resulta daí que o amor de Deus é relegado a segundo plano, se é que não desaparece de todo. É claro que essa interpretação introduz o erro mais extremo, pois ignora o primeiro mandamento, amar a Deus e, afinal de contas, a este cabe a primazia. Se é errado restringir o amor exclusivamente a Deus e negar o real amor ao próximo, muito pior ainda será excluir o amor direto a Deus.

Ademais, a declaração de Cristo de que O encontramos em cada próximo, perde por completo seu significado, se não entendermos que, com essas palavras, Cristo nos torna possível o amor ao próximo, mesmo que não tenhamos nenhuma razão para amá-lo pelo seu caráter. O fato de encontrarmos Cristo em cada próximo põe em relevo que todo homem é precioso, criado que é à semelhança de Deus. Isso, porém, claramente pressupõe, como base do amor ao próximo, o amor direto ao próprio Cristo, que em Sua Sagrada Humanidade é infinitamente amável.

A caridade é impossível sem o amor direto a Deus, em e através de Cristo, sem a relação Eu-Tu, de comunhão com Cristo. Não se poderá insistir nunca bastante sobre isso. Somente nesta relação Eu-Tu com Jesus Cristo pode, em nossas almas, nascer a caridade. Nos santos manifesta-se isto plenamente. Do momento em que acreditamos que o amor do próximo é o único caminho para o amor de Deus, substituímos a caridade em toda gloriosa e sublime santidade, por mero amor filantrópico ao próximo, que, de fato, mal se pode chamar de amor, e sim apenas de pálida benevolência.

Seria igualmente perverso alegar que o versículo de São João – “Aquele que diz “eu amo a Deus” e odeia seu irmão é um mentiroso” – significa que se ama a Deus simplesmente pelo fato de amar ao próximo.

A verdade é que o amor ao próximo é, no caso, um teste do nosso verdadeiro amor a Deus, em Cristo e através dEle. Implica tal teste duas verdades: primeiramente, que o amor do próximo é uma conseqüência do amor a Deus; segundo, que o amor ao próximo se fundamenta do amor a Cristo e, assim, necessariamente o pressupõe.

Dietrich Von Hildebrand, Cavalo de Tróia na Cidade de Deus.

Religião e Evolução - A destruição teilhardiana do Cristianismo


Dietrich Von Hildebrand

 O pensador Teilhard é desesperadamente irreconciliável com o Cristianismo. A revelação cristã pressupõe certos fatos naturais básicos, tais como o da existência da verdade objetiva, o da realidade espiritual da pessoa individual, o da radical diferença entre o espírito e a matéria, o da diferença entre o corpo e a alma, o da inalterável objetividade do bem e do mal morais, o do livre arbítrio, o da imortalidade da alma e, naturalmente, o da existência de Deus-Pessoal. A maneira como Teilhard trata de todas essas questões dá provas de um intransponível hiato entre sua ficção teológica e a revelação cristã.

Esta conclusão segue-se, sem subtefúrgios, dos freqüentes argumentos de Teilhard a favor da “nova” interpretação do cristianismo. Aqui e ali, volta ele a argumentar que já não podemos esperar que o homem moderno, vivendo no mundo industrializado e na era das ciências, aceite a doutrina cristã tal como vinha sendo ensinada nos últimos dois mil anos. A nova interpretação de Teilhard é elaborada para atender a esta pergunta: “Que se ajusta ao nosso mundo moderno?” É um tratamento que reúne o relativismo histórico e pragmatismo com radical cegueira à própria essência da religião.

Ocupei-me com o mito do homem moderno. Basta-nos, agora, insistir em que o homem sempre permanece essencialmente o mesmo com relação a seu risco moral, suas obrigações morais, sua necessidade de Redenção, e as verdadeiras fontes de sua felicidade. Também foi objeto de exame nosso o erro catastrófico do relativismo histórico, que confunde a vivacidade histórica-social de uma idéia com sua validade e sua verdade. Se é puro contrasenso asseverar que uma verdade natural básica pode ser válida para a Idade Média mas não para nossa época, o absurdo é ainda mais drástico quando o assunto é religião.

Com relação à religião, a única pergunta que pode importar é se ela é verdadeira ou não. O problema de saber se se ajusta à mentalidade de uma época ou não, não pode ter nenhum influxo na aceitação ou na rejeição da religião, a menos que se venha a trair a essência mesma da religião. Mesmo o ateu mais radical reconhece isso. Ele não dirá que hoje já não se pode crer em Deus; dirá que Deus é e foi sempre uma ilusão. Da posição de que a religião deve adaptar-se ao espírito da época vai apenas um pulo para a absurda tolice (que associamos a Bertrand Russel e ao ideólogo do Nazismo, Bergmann) de se ter de inventar uma nova religião.

Teilhard escreveu em carta de 1952: “Como costumo dizer, a síntese do Deus cristão (de cima) e do Deus marxista (para a frente), estejam certos, é o único Deus que, de agora em diante, podemos adorar em espírito e em verdade.” Nessa frase, cada palavra demonstra o abismo que separa Teilhard do Cristianismo. Falar de um deus Marxista é, no mínimo, muito surpreendente e jamais teria sido aceito por Marx. Mas a idéia de uma síntese do Deus cristão com um pretenso Deus marxista e a aplicação simultânea do termo “Deus” falando-se de cristianismo e de marxismo, revela a absoluta incompatibilidade do pensamento de Teilhard com a doutrina da Igreja e exibem, inequivocamente, seu relativismo histórico.

Em O Camponês do Garona, Jacques Maritain observa que Teilhard está angustiado em preservar o Cristo. Mas, acrescenta, “que Cristo!” Deparamo-nos aqui com a mais radical diferença entre a doutrina da Igreja e a ficção teológica de Teilhard de Chardin. O Cristo de Teilhard já não é o Jesus, Homem-Deus, Epifania de Deus, o Redentor; é o iniciador de um processo evolutivo puramente natural e, ao mesmo tempo, no final, o Cristo-Omega. A qualquer mente despida de preconceitos ocorre a indagação: por que chamar Cristo a essa “força cósmica”?

Seria o máximo de ingenuidade deixar-se levar, apenas, pelo fato de Teilhard rotular de Cristo a essa pretensa força cosmogônica ou pelo seu desesperado esforço para embrulhar esse panteísmo em termos católicos tradicionais. Em sua concepção básica sobre o mundo e que não leva em conta o pecado original no sentido que a Igreja atribui a essa expressão, não há lugar para o Jesus Cristo dos Evangelhos; se não há pecado original, a Redenção do homem pelo Cristo perde a essência de sua significação.

Na revelação cristã é dada ênfase à santificação e salvação de cada pessoa indi vidual, conduzindo-a à visão beatífica e, ao mesmo tempo, à comunhão dos santos. Na teologia de Teilhard, o acento é posto sobre o progresso da Terra, sobre a evolução que conduz ao Cristo-Omega. Aí não cabe a salvação pela morte de Cristo na cruz, pois o destino do homem é parte de uma evolução cósmica.

A idéia que Teilhard faz do homem e sua negação implícita do livre arbítrio, seu amoralismo tácito e seu coletivismo totalitário arrancam-no da revelação cristã – e isto apesar de seus esforços para reconciliar suas idéias com os ensinamentos da Igreja. Escreve ele: “Sim, o desenvolvimento mora e social da humanidade é, de fato, a autêntica e natural consequência da evolução orgânica”; Para esse homem, pecado original, redenção e santificação já não têm sentido real. Registre-se que Teilhard não parece muito consciente desta incompatibilidade:

“Por vezes temo um pouco, ao pensar na transposição a que devo sujeitar minha mente face a noções vulgares de criação, inspiração, milagre, pecado original, ressurreição etc... a fim de poder aceitá-las.”

A aplicação do termo “vulgar” - mesmo sem sentido pejorativo aos elementos básicos da revelação cristã e sua interpretação pelo Magistério Infalível da Igreja bastaria para ressaltar o caráter gnóstico e esotérico de seu pensamento.

Escreve ele a Leontina Zanta:
“Como já sabes, o que domina meu interesse e minhas preocupações é o esforço para estabelecer em mim mesmo e divulgar à minha volta uma nova religião (você a chamará, talvez, de uma melhor cristandade) na qual o Deus pessoal deixa de ser o grande proprietário neolítico do antanho, para ser a alma do mundo; nosso estágio religioso e cultural o pede.”

Nesse caso, não só o Cristo dos Evangelhos é substituído pelo Cristo-Omega, mas também o Deus do Antigo e Novo Testamentos é substituído pelo Deus panteístico, “alma do mundo” - e isto sob a coação do infeliz argumento de que Deus deve adaptar-se ao homem e à época científica.

Não é de admirar-se que Teilhard recrimine a Santo Agostinho pela introdução da diferença entre natural e sobrenatural. Na “religião” panteística e naturalista de Teilhard o sobrenatural ou o universo da graça não podem ter vez. Para ele, a união a Deus consiste, antes de mais nada, na assimilação ao processo evolutivo e não na vida sobrenatural da graça infundida em nossas almas pelo batismo. Por que uma coisa tende a excluir a outra? Se a idéia de Teilhard sobre a participação no processo evolutivo fosse uma realidade, existiria quando muito uma forma de concursos divinus. Por mais misterioso que seja o concursos divinus – isto é, o apoio que Deus dá a todo o momento de nossa existência natural e sem o qual submergeríamos de volta ao nada – há um abismo separando da graça este contato metafísico.

Não importa se Teilhard nega ou não, explicitamente, a realidade da graça: seuêxtase ante a presença do contato natural com Deus no aludido processo evolutivo patenteia o papel subalterno da graça – se é que ele atribui algum. Ou, formulando de outro modo: depois de que ele substituiu o Deus pessoal, Criador dos céus e da Terra, pelo Deus alma do universo e transformou o Cristo dos Evangelhos no Cristo-Omega e substituiu a Redenção pelo processo evolutivo natural, que papel “restará” para a graça?

Maritain trata admiravelmente do problema. Após asseverar que o espetáculo teilhardiano do movimento divino da criação para Deus não é sem grandeza, observa:

“Mas que nos diz sobre os caminhos recônditos que muito mais nos importam do que qualquer espetáculo? Que nos diz ele do essencial, o mistério da Cruz e o sangue redentor, bem como da graça cuja presença em uma só alma vale mais do que toda a natureza? E do amor que nos torna co-redentores com Cristo e das jubilosas lágrimas pelas quais Sua paz penetra nossa alma? A nova gnose, como qualquer outra, é uma “pobre gnose”.

Constatamos em Teilhard uma completa inversão da hierarquia cristão dos valores. Para ele, os processos cósmicos se situam acima da alma individual. Pesquisa e trabalho se situam acima da alma individual. Pesquisa e trabalho pairam aos valores morais. A ação, como tal – a saber, qualquer associação ao processo evolutivo – é mais importante do que a contemplação, a contrição pelos nossos pecados, a penitência. O progresso na conquista e “totalização” do universo pela evolução coloca-se acima da santidade.

A enorme distância entre o universo de Teilhard e o universo cristão torna-se dramaticamente clara quando comparamos as prioridades de Newman às suas pioridades.

Diz o Cardeal Newman nos “DISCOURSES TO MIXED CONGREGATIONS”:

“A santa pureza, a santa pobreza, a renúncia ao mundo, o favor dos céus, a proteção dos anjos, o sorriso da bem-aventurada Virgem, os dons da graça, a interferência dos milagres, a intercomunhão dos méritos são as coisas elevadas e preciosas, as coisas que devemos contemplar, as coisas das quais devemos falar com reverência.”

Mas, para Teilhard, não é assim:

“Adorar significara, outrora, preferir Deus às coisas, referindo-as a Ele e sacrificando-as a Ele. Hoje, é oferecer alma e corpo ao Criador – associando-nos a Ele – a fim de dar o toque final ao universo, pelo trabalho e pela pesquisa.”

O uso ambíguo de termos cristãos clássicos não consegue ocultar o sentido e a direção fundamentais do seu pensamento. Não julgamos ser, portanto, possível concordar com H. de Lubac em que a ficção teológica de Teilhard seja um “possível” acréscimo à revelação cristã. A evidência nos leva a concordar com Filipe da Trindade ao afirmar que se trata de uma “deformação do cristianismo, transformado agora em evolucionismo de sabor naturalista, monista e panteísta”.

Na obra de Teilhard, escorrega-se de uma posição a outra numa espécie de culto ao equívoco tão vinculado ao ideal monista. Sistematicamente ele apaga toda diferença decisiva entre coisas, tais como esperança e otimismo, amor cristão ao próximo (essencialmente voltado para a pessoa individual) e fascinação pela humanidade (na qual o indivíduo é apenas uma unidade da espécie humana). Teilhard ignora a diferença entre eternidade e futuro terrestre da humanidade, fundindo-os na idéia de totalização do Cristo-Omega.

É preciso notar que há algo de comovente na desesperada tentativa de Teilhard para conciliar o apego tradicional e emocional para com a Igreja com uma teologia radicalmente oposta à sua doutrina. Mas esta dedicação exterior aos termos cristãos torna-o ainda mais perigoso do que um Voltaire, um Renan, ou um Nietzsche. Seu êxito em dar ao monismo panteísta e gnóstico roupagens cristãs é por demais evidente em seu livro O Meio Divino.

A muitos leitores os termos empregados por Teilhard soam tão familiares que os leva a exclamar: “Como podem acusá-lo de ão ser um cristão ordotoxo? Não está dito em O Meio Divino, o que é, para uma pessoa ser um santo, senão de fato ligar-se a Deus com todas as suas forças?” É certo que essa expressão soa absolutamente ortodoxa. Efetivamente, porém, a noção de Teilhard sobre adesão a Deus esconde uma troca das heróicas virtudes características dos santos pela colaboração no processo evolutivo. A conquista da santidade na esfera moral mediante a obediência aos mandamentos de Deus e a imitação de Cristo é tacitamente substituída pela ênfase no desenvolvimento de todas as faculdades humanas, isto é, pela eficiência, que parece ser a palavra adequada.

Teilhard é claro neste ponto, se bem que o encubra na terminologia tradicional: “Que significa aderir a Deus ao máximo se não preencher no universo organizado em torno do Cristo a função exata, humilde ou importante, a que o destinam a natureza e a sobrenatureza?”

Portanto, para Teilhard, a plena significação da pessoa individual acha-se no preenchimento de sua função no todo – no processo evolutivo. Já não é chamada a glorificar a Deus pela imitação de Cristo, fim comum de todo cristão verdadeiro.

A transposição do Cristo Crucificado pelo Cristo-Omega vem também revestida de termos aparentemente tradicionais:

“Rumo ao vértice, envolto em névoa aos nossos olhos humanos e ao qual a Cruz nos convida, peregrinamos por um caminho que é o Progresso universal. A estrada real da Cruz não é nada mais nada menos do que a estrada da situação humana, sobrenaturalmente retificada e prolongada”.

Aqui, os símbolos cristãos escondem uma radical transformação do cristianismo que nos projeta fora da órbita cristã ao mesmo tempo em que nos lança em um clima espiritual inteiramente outro.


Por vezes, contudo, Teilhard retira o disfarce cristão e abertamente revela sua verdadeira posição. Em 1934, na China, escrevia:

“Se, em decorrência de alguma revolução interna, tivesse eu de perder a minha fé em Cristo, minha fé no Deus Pessoal, minha fé no espírito, parece-me que haveria de continuar a ter fé no universo. O universo (o valor, a infalibilidade e a bondade do universo) é em última instância – a primeira e única coisa na qual acredito.”

Dietrich Von Hildebrand, Cavalo de Tróia na Cidade de Deus.

E-book: Atitudes Éticas Fundamentais - Dietrich Von Hildebrand

Disponibilizo o livro do filósofo católico Dietrich Von Hildebrand. Se chama "Atitudes Éticas Fundamentais". Embora pequeno, é muito bom. Recomendo.. Podem baixá-lo pelo link abaixo:

http://www.4shared.com/file/176123601/7a28eb7f/Atitudes_ticas_Fundamentais_-_.html

Pax et Bonum

Fábio.

Valores Morais: Respeito

Dietrich Von Hildebrand
Os valores morais são sempre valores da pessoa. Inerentes unicamente ao homem, só no homem se podem realizar. Uma coisa material, digamos uma pedra, uma casa, não pode ser moralmente boa ou má; nem pode sê-lo um ser vivo, como, por exemplo, uma árvore ou um cão. De modo semelhante, as invenções, as obras do espírito humano - os livros científicos, as obras de arte - também não podem ser sujeitos de valores morais; não lhes é dado serem leais, humildes, cordiais. Podem, quando muito, como sedimento do espírito humnao, refletir indiretamente esses valores.

Só o homem, como ser livre, no uso da sua responsabilidade, pode ser moralmente bom ou mau na sua ação e nos seus negócios, no seu querer e no seu esforço, no seu amor e ódio, na sua alegria e tristeza, e nas suas atitudes fundamentais duradouras. Eis por que o ser do próprio homem, a personalidade penetrada de valores éticos - o homem humilde, puro, veraz, fiel, justo, dedicado - é mais transcendente do que a criação de bens culturais.

Um homem é incapaz de ser moralmente bom se estiver cego para o valor moral das outras pesoas, se não distinguir o valor inerente à verdade do não-valor inerente ao erro, se não entender o valor que há numa vida humana ou o não-valor de uma injustiça. Se alguém se interessa apenas por saber se determinada coisa o satisfaz ou não, se lhe é agradável, em vez de se interrogar sobre o seu significado, a sua beleza, a sua bondade, ou sobre o que vem a ser em si mesma; numa palavra, se não se interessa por saber se essa coisa é valiosa, é-lhe impossível ser moralmente bom.

A alma de todo o comportamento eticamente bom reside na dedicação àquilo que objetivamente é valioso, no interesse por uma ação na medida em que esta encerra valores morais. Suponhamos dois homens que testemunham uma injustiça sofrida por um terceiro. Um, interessado apenas na sua satisfação pessoal, não se importa nada com o ocorrido, dizendo de si para si: "antes ele do que eu". O outro, em contrapartida, prefere sofrer pessoalmente a injustiça a ver o terceiro padecê-la. Este é que tem um comportamento moralmente bom; aquele, um comportamento imoral, porquanto passa indiferente pela questão dos valores.

Fazer ou deixar de fazer o que é agradável, mas indiferente do ponto de vista dos valores, isso fica à discrição de cada um; se uma pessoa come ou não um prato saboroso, isso é lá com ela. O que é valioso, porém, exige de nós uma resposta afirmativa, assim como o não-valioso nos exige uma recusa.

Aqui já não se pode adotar um comportamento qualquer; impõe-se dar a resposta certa. Ajudar alguém que passa necessidade não é uma questão de gosto; quem não o faz torna-se culpado de ignorar o valor objetivo da ajuda. Só o homem que entende que há coisas belas e boas em si mesmas é que capta a exigência sublime dos valores, o seu apelo a deixar-se guiar por eles e a submeter-se à sua lei. Só esse homem é capaz de ultrapassar o seu horizonte subjetivo e de crescer moralmente, entregando-se ao que é significativo e vencendo a limitação de sempre perguntar a si próprio o que é que o satisfaz. Só esse homem pode tornar-se propriamente portador de valores éticos.

Ora, isso só se verifica no homem respeitador. O respeito é aquela atitude fundamental que, por assim dizer, se pode apontar como mãe de toda a vida moral, porque é ela que, antes de mais nada, permite abeirar-se do mundo e abrir os olhos para os valores que encerra. 

O homem desrespeitoso, atrevido, é incapaz de toda e qualquer dedicação e subordinação. Ora se torna escravo da soberba, daquela contração do eu que o encerra em si mesmo e o mergulha em cegueira, levando-o a perguntar constantemente: "Terá subido de ponto o meu prestígio, terá aumentado o meu poder?"; ora se faz escravo da avidez com que reduz o mundo inteiro a uma mera ocasião de prazer. Por isso não consegue criar no seu íntimo aquele silêncio, aquela atitude receptiva que permite compreender o que há de peculiar e valioso em cada situação e em cada homem. Trata tudo com a impertinência e a indelicadeza de quem só repara em si mesmo e só se escuta a si mesmo, sem cuidar do mais que existe. Não sabe manter distância alguma em relação ao mundo.

Essa falta de respeito apresenta duas modalidades, conforme se baseie na soberba ou na avidez. A primeira, a falta de respeito que procede da soberba, é a insolência. O homem deste tipo, com uma sobranceria petulante, abeira-se de tudo sem se dar ao incômodo de entender a fundo coisa alguma. É o sabichão enfadonho que, sem mais, tudo julga descobrir e conhecer de antemão. É o homem para quem nada pode haver de superior a si mesmo, nada que ultrapasse o seu horizonte ou encerre algum segredo. É o homem a quem Shakespeare, no seu Hamlet, avisa que "há mais coisas entre céu e terra do que sonha a vossa filosofia". É o homem ignorante, obtuso, do gênero daquele Wagner, fâmulo do Fausto, todo satisfeito "por ver quanto progrediu".

Um homem destes não sabe nada da amplidão e da profundeza do mundo, do sentido misterioso e da plenitude incomensurável do belo e do bom, de que nos falam cada raio de sol e cada planta, e que se desvendam no sorriso inocente de uma criança e nas lágrimas de arrependimento do pecador. Para o seu olhar estreito, arrogante, o mundo achatou-se, tornou-se unidimensional, insípido, insignificante. Está cego para os valores e para o mundo. Passa por eles ignorando-os.

A outra modalidade de falta de respeito, a do ávido embotado, é igualmente cega para os valores. Só lhe interessa saber se uma coisa lhe é ou não agradável, se lhe dá prazer, se lhe traz alguma utilidade,p se precisa dela. Em tudo se limita a ver o aspecto que se prende com o seu interesse ocasional, imediato. Tudo quanto há se cifra para ele num meio de atingir os seus fins egoístas. Gira eternamente no círculo da sua estreiteza, sem dele sair jamais. Daí o não conhecer também a felicidade profunda e verdadeir que só brota da dedicação a valores puros, do contato com aquilo que em si é belo e bom.

Não se dirige com insolência a tudo o que existe, como o primeiro tipo, mas é como ele falto de abertura e de distância; porque, como apenas procura  que num dado momento lhe é útil e necessário, tudo passa por alto. Não logra jamais o silêncio interior, não consegue abrir-se, não se deixa presentear. Também ele vive num eu aspasmodicamente contraído. O seu olhar "resvala em tudo estupidamente", sem penetrar no verdadeiro sentido e valor de qualquer assunto. É também "míope", e põe-se tão "perto" de tudo, que lhe escapa o conhecimento da verdadeira essência das coisas; deste modo, não concede a nada do que existe o "espaço" necessário para que se desenvolva na sua peculiaridade e plenitude, e o mundo fecha-lhe por seu turno a sua amplitude, profundeza e altura.

Quem é respeitador encara o mundo de uma maneira inteiramente diferente. Descontraído, sem espasmos, livre da soberba e da avidez, longe de encher o mundo com o seu "eu", cede ao que existe a sua "vez", para deixá-lo desenvolver-se na sua peculiaridade. Percebe a dignidade e a nobreza do que existe, simplesmente por existir em face do nada; percebe o valor que possui cada pedra, cada fio de água, cada talo de erva, enquanto é real, enquanto é criação que possui o seu ser próprio; percebe quer cada coisa é o que é, que é algo independente da pessoa do observador e subtraído ao seu arbítrio, ao contrário de qualquer simples quimera ou aparência.

Eis por que, em vez de fazer da criação um simples meio para si e para os seus eventuais objetivos e fins egoistas, toma-a a sério em si mesma, "dando-lhe a vez" de se mostrar na sua peculiariedade. Cala-se para deixar falar o existente.

Esta atitude de abertura ao existente como tal, embebida da disposição de apreciar algo de mais elevado que o próprio arbítrio e prazer, faz do homem um vidente de valores. A quem se há de abrir a sublime beleza de um pôr-de-sol ou de uma Nona Sinfonia de Beethoven, a quem senão àquele que respeitosamente se abeira dela, abrindo-se interiormente ao respectivo ser que nela existe? Para quem há de reluzir o milagre que palpita na vida e desabroha em qualquer planta, para quem senão para aquele que a contempla cheio de respeito? Em contrapartida, o mundo, cheio de sentido e de finalidades organizadas, nunca se desvenda na sua beleza e misteriosa dignidade a quem se limita a ver nele gêneros alimentícios ou um ganha-pão, isto é, qualquer coisa de que se pode servir e que lhe aproveita.

O respeito é o pressuposto imprescindível de todo o conhecimento profundo, e sobretudo de todo o deixar-se enriquecer e elevar pelos valores, de toda a subordinação à sua majestade. Assim no-lo pode confirmar o comportamento moral nas mais diversas esferas da vida.

Com efeito, a atitude fundamental de respeito está na base de todo o gênero de comportmentos éticos do homem para com o seu próximo e para consigo. Só o indivíduo respeitador pode descobrir toda a magnitude e profundidade de cada homem enquanto pessoa espiritul, enquanto ser livre e responsável, o único entre os seres conhecidos que é capaz de compreender e comunicar-se com os outros seres, adotando perante as coisas uma posição cheia de sentido; o único destinado a tornar-se um recipiente de bondade, pureza, fidelidade, humildade. Como há de alguém abrir-se realmente a um outro, como há de sacrificar-se por ele, se não faz idéia da preciosidade e da abundância que se encerram numa alma, se não tem nenhum respeito por essa criação?

Além diso, esta atitude fundamental de respeito é pressuposto de todo o verdadeiro amor, sobretudo do amor ao próximo, porque nenhum amor é possível sem a compreensão dos valores que a pessoa traz consigo. O respeito pelo ser amado é parte constitutiva de cada amor. A capacidade de "escutar" a peculiaridade do outro, em vez de violar essa peculiaridade ao sabor dos próprios desejos, a capacidade de tomar a sério o ser amado e de lhe dar largas para que se possa expandir - todos estes elementos, que compõem a estrutura do amor autêntico, derivam do respeito.

Que seria do amor de mãe sem o respeito pela criança em formação, por todas as possibilidades de valor nela latentes, pelas preciosidades da sua alma! E não é nesta atitude fundamental de respeito que repousa a justiça para com os demais, a estima pelos seus direitos, pela liberdade das suas resoluções, bem como a limitação dos caprichos próprios e a compreensão das pretensões alheias? O respeito pelo vizinho é por sua vez o fundamento de toda a verdadeira convivência, da reta incorporação no matrimônio, na família, na nação, no Estado, na humanidade; é ainda o fundamento da submissão à autoridade legítima, do cumprimento dos deveres morais para com a comunidade como um todo e para com os membros individuais que a compõem. A falta de respeito rompe e corrompe a comunidade.

Mas o respeito é também a alma do reto comportamento ético noutras esferas da vida. É o que sucede, por exemplo, na esfera da pureza. O respeito pelo segredo da união conjugal, pela profundidade, delicadeza e caráter dotundamente definitivo dessa intimíssima entrega, constitui o pressuposto da pureza. É o respeito que, antes de mais, permite compreender como é pavoroso invadir abusivamente esse campo íntimo, compreender até que ponto há nessa invasão uma profanação e uma degradação de si mesmo e dos outros. O respeito pelo milagre da origem da nova vida, na mais estreita união amorosa entre dois seres humanos, fundamenta o horror a todas as demolições da misteriosa conexão que existe entre o amor e a formação de um novo homem, permitindo compreender quanto elas são injuriosas, artificiais ou impertinentes.

Onde quer que se ponham os olhos, onde quer que no homem deva florescer a vida moral, o respeito é sempre o fundamento e simultaneamente um elemento essencial dessa vida. Sem essa atitude fundamental, não há nenhum amor verdadeiro, nenhuma justiça, nenhuma consideração, nenhuma auto-educação, nenhuma pureza, nenhuma veracidade; mas, sobretudo, nenhuma profundidade.

Sem o respeito, o homem torna-se mesmo trivial e fútil, porque não entende a profundidade que se esconde nos seres, porque para ele não há mundo algum por trás ou acima do visivelmente palpável.

Por isso, também só para o homem respeitador se abre a esfera da religião. O sentido e o valor que se encerram no mundo como um todo, só aos seus olhos se revelam. Assim, o respeito surge como atitude ética fundamental, no início de todo o conhecimento, de toda a vida moral, de toda a religião. O respeito é, portanto, a bavse de todo o comportamento reto do homem para consigo mesmo, para cmo o próximo, para com todas as esferas da criaçõ e sobretudo para com Deus.

Dietrich Von Hildebrand, Atitudes Éticas Fundamentais
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